Agora no Estadão

A partir de hoje, Dia das Crianças, escreverei semanalmente no Estadão. É um novo blog, que não substitui este aqui, mas cujos textos não serão reproduzidos na íntegra fora do ambiente do jornal.

Escreverei às quintas. Avisarei sempre que uma crônica nova for publicada e espero (e peço) que sigamos juntos.

O texto de estreia As manhãs amarelas, foi para o ar há pouco. Abaixo, segue um trecho.

Abraços.

Amarelas. Assim sempre foram para mim as manhãs ensolaradas da infância. Lembro dos dias que nasciam cedo nos primeiros anos de colégio, meu pai ao volante, o paletó pendurado no encosto do banco, eu sentado lá atrás, bem no meio, o rádio ligado no noticiário com o jogral dos locutores da Jovem Pan informando as horas: “em São Paulo, seis e trinta e cinco”, “Repita!”, “Seis e trinta e cinco” e subia aquela trilha sonora sobre o trabalhador paulistano. Atrás de mim, roncava o motor do nosso Fusca setenta e tantos, o cheiro naquela mistura de couro e gasolina e a lembrança de ver o sol nascer através do pára-brisas, ofuscando a visão e convertendo tudo – o carro, minha roupa, a cidade, a gente e o dia – em um tom amarelo que definia o começo de algo.

Saíamos da Barra Funda, bairro onde morávamos, no sentido do Bom Retiro, onde ficava a escola em que eu estudava. Dali, meu pai seguiria para o trabalho. E se hoje recordo pouco de como eram as aulas, o trajeto e a rotina naquele meio da década de oitenta, os primeiros raios de sol ofuscando minha vista pela manhã enquanto assimilava a cidade ao redor é uma lembrança da infância que ainda carrego.

Hoje em dia, quando saio de casa pela manhã e agora sou eu dirigindo o carro com minha filha no banco de trás a caminho do colégio, às vezes o relógio se alinha com aquela velha hora e o sol desponta de trás de uma árvore, atravessa o pára-brisas, toca o rosto, o carro, a cidade, a gente e ofusca a visão. Há um pequeno despertar, sintonizo o rádio naquela mesma estação e escuto a trilha sonora que ainda hoje é a mesma. Eu me lembro do Fusca bege. As manhãs se tornam novamente amarelas e a infância, aquela vida e essa, o menino e o pai, estão ali convertidos em uma coisa só.

O livro chegou

Amigos, meu livro saiu hoje. E já está à venda numa livraria perto, mas tão perto de você, que é só clicar em um dos links, baixar e já começar a ler ;-)

Por enquanto, ele estará disponível em formato ebook e você consegue ler no seu celular, tablet, computador, Kindle, Kobo ou Nook.

Se por amizade, curiosidade ou para ter alguma coisa para usar contra mim no futuro você chegar a ler, por favor, me conte depois o que achou, tá bom?

Aqui vão as principais lojas:
– Amazon: para ler, baixe o app do Kindle no seu aparelho e quando fizer a compra pelo site da Amazon, ele sincronizará automaticamente https://goo.gl/10K2lo
– Google Play (Android): compre o livro pela loja e leia no aplicativo Google Play Livros do seu Android https://goo.gl/JjCfe7
– iBooks (iPhone/iPad): no próprio aplicativo de leitura do iPhone ou iPad você pode fazer a compra e começar a ler
– Tem nas outras lojas também (Kobo, Saraiva, Livraria Cultura etc.), é só buscar pelo título do livro

Abraços!

Enquanto a gente se distrai, o tempo foge

Amigos, estou lançando meu primeiro livro.

Desde criança, gosto de escrever. Acho que sempre foi o jeito que encontrei para entender, organizar e expressar os pensamentos. E acho que não tenho muitas lembranças da infância em que eu não esteja com uma bola, um livro ou lápis e papel no bolso.

(Considerando minha desastrosa virtuosidade com a bola nos pés, restou a esse falido gandula passar as tardes mergulhado em histórias e jogando com palavras).

E o livro é mais um jeito de juntar algumas dessas ideias em uma coletânea de crônicas que tem como temas centrais a paternidade, o cotidiano e espiritualidade.

Estará nas lojas semana que vem, em formato ebook (editado pelo Tiago Ferro e equipe na e-galáxia), terá essa capa bonita da imagem abaixo, com o título “Enquanto a gente se distrai, o tempo foge” estampado numa bela arte criada pelo Dogura Kozonoe.

No dia do lançamento, posto mais detalhes por aqui. O que eu queria agora era poder compartilhar e comemorar essa novidade com vocês que sempre fazem a gentileza de ler as bobagens que escrevo :-)

Até!

 

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Vem aí!

O primeiro livro deste que vos tecla :-)

Darei mais notícias em breve por aqui (ou, se preferir ser alertado por e-mail, digite seu endereço na caixa de cadastro aí na barra lateral).

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Receita de férias

Paulo Mendes Campos, na crônica “Receita de domingo”, para resumir um tanto dessa sensação das férias:

“Ter na véspera o cuidado de escancarar a janela. Despertar com a primeira luz cantando e ver dentro da moldura da janela a mocidade do universo, límpido incêndio a debruar de vermelho quase frio as nuvens espessas. A brisa alta, que se levanta, agitar docemente as grinaldas das janelas fronteiras. Uma gaivota madrugadora cruzar o retângulo. Um galo desenhar na hora a parábola de seu canto. Então, dormir de novo, devagar, como se dessa vez fosse para retornar à terra só ao som da trombeta do arcanjo.

Café e jornais devem estar à nossa espera no momento preciso no qual violentamos a ausência do sono e voltamos à tona. Esse milagre doméstico tem de ser.”

(…)

“Enquanto tomamos café, lembrar que é dia de um grande jogo de futebol. Vestir um short, zanzar pela casa, lutar no chão com o caçula, receber dele um soco que nos deixe doloridos e orgulhosos. A mulher precisa dizer, fingindo-se muito zangada, que estamos a fazer bagunça terrível e somos mais crianças do que as crianças.”

(…)

“Noite pesada. À luz da lâmpada, viajamos. O livro precisa dizer-nos que o mundo está errado, que o mundo devia, mas não é composto de domingos. Então, como uma espada, surgir da nossa felicidade burguesa e particular uma dor viril e irritada, de lado a lado. Para que os dias da semana entrante não nos repartam em uma existência de egoísmos.”

Vasectomia, impeachment e um avental aberto

alianca

– O senhor precisa tirar os sapatos, a camisa, toda a roupa e depois colocar essa touca, calçar essa proteção nos pés e vestir esse avental. A parte da frente é fechada e atrás é aberto mesmo.

Eu conhecia aquilo.

Tem uma cena no filme “Alguém tem que ceder” em que o Jack Nicholson está hospitalizado depois de sofrer um infarto e, meio embriagado, anda de um lado para o outro no hospital vestido apenas com um desses aventais e deixando o traseiro à mostra.

Pois bem. Guarde isso.

Cheguei um pouco antes das sete da manhã ao hospital. Eu faria uma vasectomia. Há alguns meses, Manú e eu decidimos que nossa família já tem o tamanho que gostaríamos que tivesse e optamos por esse caminho como forma de evitar imprevistos e horas extras no trabalho. Desde as consultas até a véspera, tudo seguia em ventos favoráveis até o momento em que desci do carro no estacionamento e tive a súbita convicção de que “vasectomia” era uma palavra tatuada na minha testa. Era evidente que cada pessoa com quem cruzava no corredor do hospital sabia que eu passaria aquela manhã de sábado deitado inconsciente numa maca enquanto uma equipe manipulava as minhas partes.

Mas, passado o processo de internação e da troca de roupas, eu já estava há mais de uma hora deitado na maca esperando meu horário. Meus pertences todos estavam guardados em algum armário do hospital e só me restava sondar o teto, recobrar o número de pessoas cujo caminho eu havia cruzado até ali, contar as dobras das cortinas e zapear os canais da TV, onde só se falava do julgamento do impeachment no Congresso.

– Senhor Luiz – uma enfermeira então puxou a cortina para falar algo.

– Oi.

– Está tudo certo? O senhor já fez todo o preparo?

– Sim, tudo certo. Acho que agora é só esperar, né?

– Sim. Mas o senhor precisa tirar a aliança também, ok?

– É, eu sei, mas não consigo. Engordei alguns quilos desde que a coloquei pela primeira e última vez nesse dedo – e mostrei o dedo com a aliança devidamente acomodada numa dobrinha.

– Hum, entendi.

Ela saiu e eu comecei um novo passatempo tentando tirar o anel do meu dedo. Dez minutos depois, meu anular já estava quase em pele viva, eu suava e o bendito pedaço de ouro não movia um milímetro.

Apareceu outra enfermeira e perguntou a mesma coisa. Ela disse que o médico usaria um bisturi elétrico na cirurgia e que um pedaço de metal no corpo não era exatamente uma boa ideia naquela hora. Só mostrei o dedo para ela, que disse mais um tanto de frases que sequer escutei, enquanto pensava em um bisturi elétrico (um bisturi! Elétrico!) sendo usado lá onde eu e todo hospital sabíamos que seria usado.

Ela saiu da sala, eu não notei.

Algum jogo do campeonato espanhol passava na televisão, mas estava truncado demais. Voltei para o canal de notícias onde deputados faziam discursos chatíssimos e acalorados sobre o impeachment na tribuna da câmara. Há meses é só o que se discute no país.

“Bisturi elétrico”, é o que vou responder para meus netos quando me perguntarem o que passava pela minha mente enquanto esse capítulo tão importante da história do Brasil estava sendo escrito.

A primeira enfermeira voltou.

– O senhor não quer tentar passar um sabão para ver se a aliança sai? Geralmente funciona.

– Pode ser. Tem sabão aí?

– Claro. O senhor pode ir ali e usar a pia do setor onde fica a equipe de enfermagem.

Entendeu bem, amigo? Eu, vários quilos a mais, meu dedo vermelho como uma pimenta dedo-de-moça, um longo corredor, espectadores de outros quartos e alas, a equipe de enfermagem. Tudo isso e o avental – aquele avental – aberto nos fundos.

Sentia como se os milhões de espectadores que assistiram ao filme do Jack Nicholson me observassem naqueles longuíssimos minutos. E, definitivamente, aquilo não era uma comédia romântica para mim.

Não bastasse a execração pública, o sabão tão pouco resolveu. Voltei para o quarto com o dedo inchado, a moral destruída e minha aliança agora polida e reluzente. Tudo só se resolveu quando um enfermeiro chegou com um pedaço de barbante nas mãos, amarrou na aliança, enrolou no dedo e, usando uma técnica que eu jamais conseguiria reproduzir, sacou o meu dedo fora do anel, digo, o anel fora do dedo e saiu, cortina a fora, me deixando sem aliança e dignidade, à espera do meu horário finalmente chegar. Liguei outra vez a TV no noticiário, enquanto gritos de “fora, Cunha!”, “fora, Dilma!” e “bisturi elétrico” se misturavam no ar e ecoavam em minha mente.

“O que estou fazendo aqui mesmo?”, me questionei. Eu não precisava daquilo e já quase me arrependia, já quase pensava em tomar pílulas anticoncepcionais masculinas, praticamente desejava ter mais três filhos nos próximos anos, nem me incomodava se fossem quatro.

Olhei para minha mão esquerda espalmada, agora sem aliança. Há uma marca, uma depressão profunda na pele, bem na parte do dedo onde ela fica. Fiquei um longo tempo olhando para aquilo. “Isso não sai mais”, pensei. Mesmo que eu emagreça os 13 quilos que engordei nesses anos, ali estão os 13 anos do dia em que a Manú a acomodou ali definitivamente.

Não sou apegado a simbologias, mas dessa vez me peguei diante de uma realidade insistente. Porque debaixo daquela pequena peça dourada tem tanto da nossa história. E me veio à mente tudo o que aconteceu, tudo o que passamos e vivemos nesses anos. Os planos que tínhamos e traçamos juntos, os lugares em que vivemos e os que já vimos, as filhas com quem tanto sonhamos e nos vieram tão melhores do que jamais poderíamos pensar ser possível. Vivemos nossa própria comédia romântica, ela gosta de dizer (eu excluiria do roteiro qualquer cena envolvendo hospitais e aventais). Crescemos, curtimos, estamos envelhecendo juntos e, sobretudo, vamos nos tornando esse “um só”, o casal, a família. Vamos, dia após dia, preenchendo os espaços entre nós dois com toda carga de sentimentos que empenhamos num relacionamento e definem o que somos juntos. É isso que somos. E uma aliança é um bom símbolo para lembrar disso.

De repente, sem ela nas mãos, me senti nu.

– Senhor Luiz? – a voz de uma nova enfermeira surgiu pela cortina.

– Oi.

– Vamos lá? Está tudo pronto para o seu procedimento. Meu nome é Fulana e eu vou acompanhá-lo até o centro cirúrgico.

– Tá legal.

– O senhor está bem?

– Sim. Só… esse avental. Ele é meio desconfortável. E parece frágil também. Já até rasgou aqui, ó.

– Ah, não se preocupe. Ele é assim de propósito.

– Oi? Mas porquê?

– Ele precisa ser aberto e fininho porque lá embaixo, depois de sedarem o senhor, eles podem rasgar ele todo e o senhor fica sem nada.

Sem nada.

E a comédia virou drama.

“Eu estava sedado”, acho que é isso que vou dizer para meus netos quando me perguntarem algo sobre a política e o tal momento histórico desses dias.

Eu e provavelmente mais 100 milhões de brasileiros que na tentativa de tapar um problema acabaram deixando um outro lado totalmente à mostra. O drama que virou comédia e que virou drama outra vez.

“O senhor fica sem nada…”. Ela estava errada, a enfermeira. É preciso muito em que se apegar para ouvir aquilo e seguir em frente ainda assim.

Acordei algumas horas depois. Sob efeito de Propofol e anestesiado pela minha boa fé, eu me recuperava escutando 100 milhões de deputados falando sobre bisturis elétricos na TV, a Dilma me receitando medicamentos no quarto do hospital e olhava fixamente minha mão esquerda notando as marcas nelas gravadas, as rugas de alguma idade, as cicatrizes de cortes e quedas, os calos do trabalho cotidiano e aquela pequena depressão na pele do dedo Seu-Vizinho que dava conta de que algo importante estava fazendo falta.

Alianças.

São o que nos fazem superar constrangimentos, crises e desafios de qualquer natureza. O que vale, no final, são esses laços que fazemos com as pessoas que amamos e que fazem a vida toda ter sentido e ser leve e a gente topar enfrentar e saber superar qualquer coisa. Porque o país, os mandatos, a vergonha, o escândalo e a coisa toda da história passa diante dos olhos da gente. Mas as pessoas ficam, o amor fica e é isso que nos marca de verdade e a gente carrega até o fim.

Era isso que me passava pela mente nesses dias, espero poder dizer para algum neto.

Para não dizer que deixei o dia passar em branco

Hoje esse blog faz 13 anos.

Obrigado pela paciência e pela companhia :)

Aprendemos a voar pelo ar como pássaros

MLK

Aprendemos a voar pelo ar como pássaros, aprendemos a nadar pelos mares como os peixes e ainda assim não aprendemos a caminhar pela Terra como irmãos e irmãs.

-Martin Luther King

Cecília

(escrito em 31 de janeiro de 2015)

Sonhei com minha filha essa noite.

Já estávamos no começo de abril e ela nascia naquele instante. A Manú estava na maca do hospital, eu aos seus pés e uma enfermeira vinha trazendo o bebê limpo para eu conhecer. Eu vestia um pijama, com calça comprida e camiseta. Quando finalmente a tomei no colo, senti aquela pele fina e macia em contato com a minha e pude ver aqueles olhos – aqueles olhos! – olhando fundo nos meus pela primeira vez. Num instante, o quarto do hospital se converteu magicamente no quarto aqui de casa. A Manú deitada em nossa cama e eu com nossa pequena nos braços. Repeti as palavras que disse quando a Nina nasceu e sentindo-a tão perto, tão minha, ali, chorei uma oração de gratidão.

O tempo havia parado em todo o resto do mundo e naquele minuto o mundo todo era só nosso. Entrava um raio de sol pela janela que iluminava parcialmente o quarto e nos envolvia. Soprava um vento leve ao redor. Nós dois sorríamos a felicidade encarnada. Erámos pais novamente. E Deus estava ali.

A história que já foi contada

Pensei em escrever uma história. Desisti. Essa história já foi contada.

Era noite.
Havia uma estrela brilhando intensamente no céu.
Havia pastores trabalhando no campo.
Havia anjos cantando.
Havia um jovem casal viajando pela Judeia.
A moça dava à luz numa estrebaria.
E havia um bebê numa manjedoura.

O Deus menino. O Salvador. O Messias. O Redentor. O Cristo.

“Ele será chamado Jesus.”

* * *

Celebramos seu nascimento. Celebramos sua vida. Celebramos também sua mensagem.

Deus se fez menino para nos mostrar sua face. Se fez homem para nos revelar seu caráter. A imagem e semelhança que fomos criados para espelhar.

Veio ao mundo para corrigir o rumo de nossa história, converter o caminho da humanidade.

Você não precisa ser cristão para celebrar o Natal.

Vamos celebrar o amor.
Celebrar o perdão.
Vamos celebrar a compaixão.
Celebrar a vida em comunhão.
Vamos celebrar a paz.
Celebrar a justiça.

Celebrar o Natal, que é, sobretudo, uma nova vida – o espírito de uma criança – sendo gerado em cada um de nós.

“Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz. Ele estenderá o seu domínio, e haverá paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, estabelecido e mantido com justiça e retidão desde agora e para sempre.” (Isaías 9, versos 6 e 7)

Volto quando possível

Sei que tenho comparecido muito pouco a esse espaço ultimamente, mas o fato é que, de uns tempos pra cá, tenho sofrido com a falta de momentos para escrever. Não é ausência de tempo o problema. Esse sempre faltou. E mesmo escasso – como imagino que é para todo mundo – nunca me impediu de colocar algumas ideias no papel de vez em quando (menos do que eu gostaria, é verdade, mas muito mais do que a minha falta de talento deveria limitar).

Também não é a inspiração que sumiu. A Manú está grávida de mais uma menininha – e quem já frequentou essas páginas sabe o que isso significa para mim em termos de prolixitude -, viajamos recentemente para um lugar maravilhoso, a Nina cresce e nos surpreende diariamente. Várias são as fontes de novas ideias que não me deixam reclamar.

O ponto, no duro, é a falta daqueles momentos propícios, tão caros no dia, mas agora perdidos. Os momentos propícios eram aqueles intervalos de ócio rotineiro que se preenchiam de atividades tão repetitivas e vazias que abriam um vácuo oportuno para as ideias se afirmarem.

Para mim, sempre foram três esses períodos, mas as circunstâncias recentes os aniquilaram.

Meu favorito era o banho. Valiosos minutos de água morna correndo na cabeça, o corpo se livrando do peso de um dia inteiro de trabalho duro e a mente, de repente, despertava da inércia dos pensamentos automáticos com uma nova ideia, uma pequena frase, um título, algo para se escrever, uma história inteirinha às vezes. Sei que não estou sozinho entre os que se veem assaltados pela inspiração durante o banho e sei até que há uma explicação racional par ao fato de termos soluços criativos quando estamos no chuveiro. Cheguei a desenvolver toda uma técnica para não desperdiçar o que me vinha à mente nessas hora: sabonetes em barra funcionam como caneta no vidro do box e já povoei o blindex de casa com parágrafos inteiros de aloe e vera. Mas o problema é que agora só o que me vem à mente enquanto tomo meu banho é a face magra do Geraldo Alckimin me encarando e o último indicador do nível do segundo volume morto do Sistema Cantareira em contagem regressiva. A água cai, eu me enxáguo e penso “3,9… 3,8… 3,7% no nível da represa”, que vai escorrendo pelo meu ralo.

O trânsito era outro desses momentos. Não moro tão longe do escritório, mas em São Paulo distância nunca foi referência para tempo. Das 24 horas que o dia me dá, passo cerca de duas sentado no carro, entre a ida e a volta, tamborilando os dedos no volante, escutando o noticiário no rádio e atento, muito atento, às orientações do Waze, meu mais novo melhor amigo, que me ensina a cada dia uma nova rota e que me ajuda a economizar até, pasme você, 6 minutos no trajeto. E se antes o trânsito era feito de uma fila interminável, massante e extremamente fértil para as ideias (que eu anotava no verso de um recibo, na contra-capa do manual do proprietário ou no bloco de notas celular), agora meu aplicativo de rotas exige que eu fique atento – sim, muito atento – aos seus “vire à esquerda”, “vire à direita”, “na rotarória, pegue a terceira saída” e “cuidado com as obras (juro que ouço cobras) na via à frente”. Ganhei meus minutos na volta pra casa, mas deixei em alguma esquina o fértil celeiro de histórias que se elaboravam enquanto eu observava as pessoas caminhando nas ruas, sentadas no ônibus ou no carro ao lado. Chego ao meu destino exausto.

A atual conjuntura da cidade vem aniquilando os parcos momentos produtivos para algum texto, crônica ou desenho. Me restava ainda um desses espaços, mas há três semanas ele também se foi. Era o mais curto deles, meio reticente, que acontecia nos minutos entre o escovar dos dentes e o deitar no travesseiro. O mundo entrando em silêncio, a luz dando lugar à escuridão e a mente martelando em polvorosa. Nesses instantes, tantas vezes, me perdi. Abria o caderninho de anotações que deixo sobre o criado-mudo, sacava a caneta e deitava a tinta em algumas páginas. Em minha mente, o único ruído era das teclas da minha máquina de escrever imaginária que pareciam compor as histórias, frase a frase, um verbo após o outro, adjetivos após adjetivos (a serem devidamente cortados posteriormente) e disso, por tanto tempo, esse blog se alimentou. Mas foi um dia, no tilintar das teclas, que um ruído novo surgiu. Um zumbido agudo ao fundo. Depois, outro, vindo de longe e cada vez mais alto, ao pé do ouvido, chegando das profundezas, da escuridão do inferno. Pernilongos. Malditos insetos mutantes que resistem a venenos, repelentes e caçadas homem-a-inseto madrugada adentro. Já não reina a paz, não há silêncio. Me tiraram o sangue, o sono e as boas ideias.

E me pego, de repente, murmurando pelos cantos, irritadiço, inquieto, precisando despejar num pedaço de papel alguma coisa qualquer, só para me esvaziar de novo e renovar a mente. Ando querendo descobrir onde foram parar, nesses tempos, os momentos de quietude. Alguém deveria lançar a moda da solitude, do ócio e da contemplação para o homem pós-moderno aderir – mesmo sem se dar conta que o caipira, os monges, os espanhóis e os baianos já praticam isso há muito tempo – e chamar de inovação espartana frugal ou qualquer nome interessante e alternativo que mereça um ensaio, um documentário e um espaço dedicado na Vila Madalena.

Hoje, não fazer nada é o cúmulo da ostentação.

Sem meus momentos, confesso que ando meio perdido. E até que chova torrencialmente na cidade, eu ganhe um helicoptero de presente de Natal ou Deus reconheça que foi um equívoco a criação de certos insetos (e depois, salvá-los na arca!), meu principal hábito terapêutico está seriamente comprometido.

Volto quando possível.

A carta para Papai Noel

“Papai, eu sei que é você…”.

E neste Natal, o Papai Noel aqui aqui em casa foi desmascarado – bem na cartinha – antes do prazo combinado.

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Estar em Deus

Não importa buscar um sentido, importa buscar a Deus.

Ele é o sentido. Tudo é Deus.

Corremos atrás de respostas, passamos a vida em busca de um sentido para nossa existência. Queremos a realização em pílulas, fragmentos de sensação existencial para caminhar um passo após o outro. Mas, precisa?

O que temos em Deus não são repostas, ele talvez não nos dê um propósito tão claro. Ele é a resposta e o sentido. Não são as respostas que buscamos que estão em Deus, nós mesmos é que deveríamos estar n’Ele.

Estar em Deus. O homem e Deus numa relação indistinguível. Porque é o seu Espirito vivendo em nós, misturado ao nosso, indissociável do que somos.

Simplifiquem

“(…) Vivemos mesquinhamente, como formigas, embora conte a fábula que fomos transformados em homens muito tempo atrás; como pigmeus lutamos com grous; é erro sobre erro, remendo sobre remendo; e nossa melhor virtude tem como causa uma miséria supérflua e desnecessária. Nossa vida se perde no detalhe. (…) Simplicidade, simplicidade, simplicidade! E digo: tenham dois ou três afazeres, e não cem ou mil; em vez de um milhão, contem meia dúzia, e tenham contas tão diminutas que possam ser registradas na ponta do polegar. Em meio ao oceano encapelado da vida civilizada, são tantas as nuvens, as tormentas, as areias movediças, os mil e um pontos a levar em consideração, que um homem, se não quiser naufragar e ir ao fundo sem jamais atingir seu porto, tem de navegar por cálculo e, para consegui-lo, precisa ser realmente bom de cálculo. Simplifiquem, simplifiquem.”

– Henry David Thoreau

Uma música para a sexta-feira

10 anos de blog

Esperei quase um ano por esse post e finalmente, quando chegou a data de escrevê-lo, tive um lapso e me esqueci. Então, aqui estou, quatro dias atrasado para minha tão esperada mensagem de auto congratulação.

Nessa exata semana, em 24 de fevereiro, esse blog completou 10 anos de vida. “E já tinha blog em 2003?” perguntou-me um amigo hoje pela manhã. Tinha blog, movido a lenha, mas tinha. Ainda não tinha Facebook, Twitter, YouTube, Orkut, Gmail e essas coisas. Não tinha iPhone também. Eu escrevi os primeiros textos num PC 486 no laboratório de informática da faculdade.

Muitas outras coisas aconteceram nesses 10 anos. Eu me casei com a Manú (um mês depois de o blog ter ido ao ar), compramos uma casa, tivemos a Nina, viajamos, construímos uma etapa da nossa nova vida como família. E tal como muda a vida, mudam também as crenças. Perdi algumas convicções que pareciam tão sacramentadas e passei a defender sanguineamente outras tantas que hoje me parecem claras.

Cheguei a pensar, em virtude dessas bodas, em mudar tudo por aqui. Porque a verdade é que já não acredito – até me envergonho – nas coisas que escrevi em 2003. Pobre rapaz, como eu podia pensar daquele jeito? Outro fato é que já desde o começo notei que o nome Missão Virtual não significa nada e estampá-lo no topo dessa página junto com meu nome seria algo como ter montado uma banda na adolescência e ter que lembrar, décadas mais tarde, que Paralamas do Sucesso não quer dizer muita coisa.

Pensei então em fazer um blog novo, com nome novo, design novo e essas coisas que aspirantes se empenham em fazer em suas páginas. Mas desisti. Desisti porque daqui outros 10 anos é bem provável que eu queira jogar no lixo os textos de agora e é perfeitamente possível que eu condene qualquer novo nome que esse blog venha a ter.

A boa verdade é que os anos passam, nós amadurecemos (assim se espera), mudamos e adquirimos perspectiva. Reler as crônicas que registrei por aqui uma década atrás me faz perceber que todo o deslumbramento com a fé tão recente e a novidade da transformação que isso causava em mim eram apenas o primeiro passo de uma jornada que vem se revelando mais interessante, complexa e transformadora a cada dia.

Então, deixe tudo aí, para que eu me envergonhe e também me lembre. Para que existam testemunhas, para que a caminhada tenha sua trilha. E se esses 10 anos são uma história a ser contada, ela precisa ter algum registro.

Bom, pelo menos até que eu mude de ideia.

Não sei em que fase dessa caminhada você chegou por aqui, mas quero agradecer a boa companhia. Vamos em frente, por outros anos mais.

Um abraço sincero,

Henrique


Atualização (20/7/16):

  1. Algum tempo depois desse post, o blog mudou de nome. No lugar de Missão Virtual, agora estampa um Correndo atrás do vento no título.

Se você não acredita no céu

Vamos supor que, como querem acreditar tantos, não exista céu ou inferno. Suponhamos que não tenha nada sobrenatural, de fato, que o mundo espiritual seja um estado fictício, uma fuga da mente humana para não sucumbir à dor do incerto e da perda. Imagine que a busca do homem pelo divino seja auto-engano e que não passamos realmente de matéria.

Conjeturemos que os textos sagrados mais antigos sejam tão somente lendas. Considere por um instante que milagres sejam felizes coincidências. Acredite, se puder, que tudo seja mesmo fruto do acaso, que a história se fez toda ela e o mundo inteiro de evidências puras, com apenas algumas, de certo, ainda não reveladas.

Tente pensar que não há um deus.

Mesmo assim, ainda assim, a figura do Cristo histórico, o Jesus registrado nos textos precários, o homem palestino do primeiro século, aquele pobre galileu e seu discurso louco, suas atitudes… eu o seguiria por onde fosse. Renderia minha vida aos seus pés, reconheceria minhas falhas, veria em sua graça as minhas imperfeições, a imagem que ansiaria refletir, o sacrifício redentor em seu olhar.

Eu o chamaria mestre. Tão humano, tão revolucionário, tão verdadeiro, tão puro, tão Deus.

Uma música para resumir um estado de espírito

E outra para entender o significado.

Reflexos

Não peça pela presença de Deus.
Seja.
Porque ele já veio
e agora vive em nós.

Uma música para os dias frios

Tudo o que é preciso ouvir

Às vezes, tudo o que a gente precisa escutar é a voz da esposa contando como foi o dia, o canto desafinado da filha repetindo um comercial da TV, um bom conselho do velho amigo ou, para os mais melancólicos, o barulho da chuva caindo lá fora. E às vezes, tudo o que a gente precisa ouvir é Bach.

Aqui, interpretado pelo violoncelista Yo-Yo-Ma, executando a Suite #1 – Prelúdio.

O próximo

Quem é meu próximo? Meu próximo é todo aquele que eu penso que é e ainda cada um dos que eu gostaria que não fossem.

Uma canção para a madrugada de quinta

Hugh Laurie tocando blues, meu seriado favorito ultimamente e a trilha sonora sugerida para o texto que vem a seguir.

Falar sobre escrever não é escrever

Os dias vão passando e esse espaço continua no vácuo, sem posts, sem textos novos. Peço desculpas, caso alguém aí alimente qualquer expectativa sobre isso aqui. Quando me sento em algum canto da casa com a intenção de colocar algo no papel, tudo o que consigo reunir é um punhado de anotações breves que não dariam meio texto sequer.

Ando vazio. Tal como o blog, a pasta de rascunhos no laptop, o aplicativo de notas do celular – ah, essa modernidade… – e o caderninho que ganhei da Manú como um presente para me incentivar.

Li, hoje, uma citação do americano E.L. Doctorow no blog do Sérgio Rodrigues que traduz um pouco a minha inversão de valores:

“Planejar escrever não é escrever. Traçar o projeto de um livro não é escrever. Pesquisar não é escrever. Falar com as pessoas sobre o que você está fazendo, nada disso é escrever. Escrever é escrever.”

Talvez valha dizer que publicar um post sobre o problema de não escrever também não é escrever.

Tentarei mudar esse quadro.
Abraços.

Duas canções para lembrar da semana passada

Entre um vídeo e outro (ambos de exibições anteriores, vale dizer), uma observação: eu fui  ;-)

#OREPELOJAPAO, mas não faça só isso

Quando nossos semelhantes precisam de ajuda, devemos estender as mãos. Na dor, pessoas precisam de apoio, de nossas orações e de nossos recursos.

“De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Acaso a fé pode salvá-lo? Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: “Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se”, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta.” (Tiago 2:14-17)

Se você puder ajudar, a ONG Visão Mundial está recolhendo doações para beneficiar crianças japonesas vitimadas no terremoto. Clique aqui para acessar.

(A foto do post foi tirada de um dos ensaios do excelente site de fotojornalismo The Big Picture).

Para algumas inquietações

Deus não nos diz para fazer o que é fácil. Ele nos ensina a fazer o que é certo.

Bem aqui

Deus não é algo, ele é alguém.

Uma canção para um dia memorável

Ontem, em São Paulo, sob a garoa típica.

Duas canções para uma semana apropriada

Na semana em que os shows de Paul McCartney foram anunciados em São Paulo (21 e 22 de novembro), seguem duas canções para esquentar a trilha sonora dos próximos dias.


Update: Eu vou! :-)