Manias completamente inviáveis para esse momento da vida

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Comecei a dar fim às minhas manias. Acho que foi há mais ou menos um ano, quando me peguei num dilema tentando decidir se organizava os aplicativos do meu celular por ordem alfabética, em sequência gradual de cores ou por assuntos (e sendo por assuntos, como classificá-los então? O que colocar em pastas e o que simplesmente deixar como ícone na tela?). De repente, notei que estava travado nessa questão idiota e meio que resolvi dar um basta.

Não que eu tenha deixado de organizar as coisas, todas as coisas, um pouco além da média, mas desde então venho desafiando minhas manias, tentando confronta-las até o ponto em que consiga viver normalmente sem aquele antigo hábito. As camisas, por exemplo, eu já não organizo por ordem de cores. O mesmo com as calças, que também ficavam em cabides na sequência do jeans mais claro para o mais escuro no final ou as camisetas que eram colocadas em pilhas pre-determinadas por cores, assunto, estampa e textura nas gavetas. Agora, eu praticamente virei um rebelde. Misturo tênis, sapatos e chinelos sem a preocupação de deixar os mais formais de um lado e os informais do outro. Agora eu guardo pijama junto com bermuda, penduro o boné junto com as gravatas, deixo a gaveta fechar com uma beiradinha de tecido sobrando para fora e já consigo ter mais roupas – uma peça ou duas – além do limite estritamente necessário ao qual me condicionava.

Pode parecer tudo muito idiota para você. Mas acredite, é tudo muito idiota para mim também. No entanto, tem sido uma conquista significativa vencer essas barreiras nas quais eu empacava vez ou outra. Em parte, atribuo minha nova fase ao tal dia que comentei acima em que travei com o celular nas mãos, mas há uma grande carga de responsabilidade pesando sobre um cara que trabalha lá no escritório. Porque outro dia, estávamos voltando de uma reunião quando comentei, meio brincando, sobre como catalogava meus livros por temas e interesses. Na hora, ele se entusiasmou:

– Eu te entendo! Sou assim também. E aquele lance de gastar as solas dos sapatos por igual, você também tem?
– Oi?
– É, o sapato tem que gastar a sola por igual!
– Não, eu…
– E deixar as calças penduradas com as barras viradas na mesma direção? E guardar os sapatos com os cadarços dentro?
– Hum, eu não…
– Você também bebe café com a mão esquerda, né? E abre a porta do banheiro usando papel para não contaminar as mãos?

E o cara despejou ali, na minha cara, outras seis esquisitices que eu ainda não conhecia. Mas no momento em que parei para pensar que todas elas soavam como excelentes ideias para incorporar, me dei conta de que não, eu não queria, definitivamente, continuar com aquilo. E foi o segundo basta que me estabeleci.

Primeiro, porque isso me daria um trabalho danado e confesso que não tenho tempo para assimilar novas manias em minha atribulada rotina, por mais tentadoras que sejam. Segundo, porque eu assinaria um atestado de TOC e precisaria começar um tratamento sério e tudo (e convenhamos, ninguém quer ter a doença que o Roberto Carlos tem). Terceiro, porque preciso parar com essa mania de listar as coisas em ordem numérica. E quarto, porque essa é uma doença inviável no meu momento atual de vida — porque meu momento atual de vida inclui ser o único homem numa casa com três mulheres e uma cadela. Todas elas, as quatro, absolutamente, absurdamente, completamente bagunceiras. De pouco adianta você querer alimentar suas velhas manias ali, sossegado, num apartamento modesto, quando todo o ecossistema ao seu redor é o caos instaurado na Terra. Tentei fazer delas pessoas mais parecidas comigo (coitadas), mas a chegada do furacão Lucy ha três anos e de Cecília, a tempestade ruiva, sacramentou o fim dos meus planos. Hoje, há peças de LEGO por todos os lados e o assoalho de madeira da sala se tornou um ladrilho multicolorido.

Então, desisti de minhas manias. Uma a uma, comecei a elimina-las. Já não organizo a área de trabalho do computador diariamente, já não me incomodo de ter uma ou duas folhas de papel sobre minha mesa (três já é demais, certo?), deixo meus tênis jogados num canto da sala durante o fim de semana e até largo a toalha molhada sobre a cama de vez em quando (de propósito, só de maldade, por uns 15 minutos, aí eu vou lá rapidinho e estendo no banheiro). Minhas camisas até estariam refletindo algum novo conceito de diversidade de cores não fossem todas elas azuis, e tenho me permitido deixar as coisas como estão, deixar os cabides virados para lados diferentes, tenho deixado a Manú ocupar o meu lado na pia do banheiro com escovas de cabelo, cremes e maquiagens e deixado a Nina fuçar nos meus livros e guardá-los na estante fora da ordem original.

Mas, o mais importante, é que tenho deixado de me preocupar obsessivamente com a quantidade de coisas que ainda tenho para fazer e as listas infinitas de tarefas e projetos. Joguei fora uma tonelada de pesos que carregava desnecessariamente em minha consciência. Fiz uma única lista, mental, das manias que preciso eliminar em minha vida para ser uma pessoa mais leve. E descobri, de repente, que agora estou aqui travado em uma nova obsessão: a mania de eliminar manias.

Vem aí!

O primeiro livro deste que vos tecla :-)

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Está tudo ficando velho

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Está tudo ficando velho. Cada vez mais cedo, tudo fica obsoleto.

Já percebeu? O DVD, que tanto celebramos e comprávamos em caixas bacanas para dar de presente ou assistir em nossos home theaters, já ficou velho (“home-o-quê?” pergunta minha filha enquanto me embanano em pronunciar “theater” apropriadamente). O CD também ninguém usa mais. Fitas cassete são objetos de análise em vídeos na internet em que se mostram coisas para crianças que elas nunca viram na vida. O vinil sempre foi velho e continua sendo velho hoje. E o Blu-Ray, já viu? Tenho pena do Blu-Ray, porque, no fundo, nunca foi novo. O Blu-Ray é o Benjamin Button das mídias e pode até ser que um dia, de tão velho, fique novo.

Eu estou ficando velho. Quando comecei a escrever o primeiro rascunho deste texto, uma ideia solta num papel, lá em 2015, eu tinha feito aniversário há dois dias. Estava ficando mais velho e essa questão me ocorria então. Hoje, estou mais. As costas doem se não durmo na posição certa e com um travesseiro entre os joelhos, minha barba tem vários fios prateados, voltei a usar óculos em tempo integral e pessoas de 18 anos, que durante a minha infância eram o ponto alto da vida adulta antes de alguém se tornar definitivamente velho, agora me chamam de tio.

O leite de hoje é longa vida mas dura cada vez menos, um centroavante se aposenta com menos anos do que eu tenho de idade, os aparelhos de TV só duram o intervalo entre uma Copa do Mundo e outra (antes, eram vendidos com garantia estendida por três edições), nossos celulares cheios de recursos que adoramos ostentar mas nem chegamos a usar ficam ultrapassados em poucos meses, o pãozinho já sai da padaria vencido, nossas amizades duram a eternidade de um clique, uma curtida e acabam ao primeiro comentário mal interpretado.

A verdade é que nada mais é feito para durar. Fabricamos produtos para que fiquem velhos o quanto antes. E fazemos isso de propósito. Estamos em uma sociedade de consumo. Nunca falamos tanto em sustentabilidade e em salvar o planeta, mas na contramão dessa discussão, nunca produzimos tanto lixo. Tudo é materialista e imediato.

A Cinira, que trabalhou aqui em casa por alguns meses, quando me via descartando um produto com prazo de validade vencido, costumava dizer: “Sêo Henrique, joga fora isso não. O que vence é a embalagem, não o produto”. Mas infelizmente a gente vive numa sociedade em que a embalagem vale mais do que a essência.

Vivemos a era da obsolescência.

Tudo precisa ficar velho logo para que possamos nos preocupar em consumir o item de série mais novo. Porque vendemos a juventude como ideal. Note que essa é a única época na história da humanidade em que envelhecer é ruim. Até pouquíssimo tempo, velhice era sinônimo de sabedoria e maturidade. Pessoas viviam menos anos do que hoje, mas compreendiam e desfrutavam das etapas e ciclos que a vida lhes impunha. Objetos e itens de alto valor eram os que duravam muitos anos. Geladeiras, carros, calças jeans, relógios… o que tinha valor era o que se mantinha funcionando por 20 ou 30 anos.

Há coisa de dois anos, enquanto acompanhava a Manú em uma consulta durante a gestação da Cecília, sua médica comentou que, com frequência cada vez maior, ela atendia mulheres de 50 anos pedindo por algum tratamento que as ajudasse a engravidar. E não o fazem porque sonham em formar mais um ser humano em nosso mundo, mas porque desejam reviver (ou prolongar) um período da vida em que já não estão. Elas têm tido filhos mais novos do que seus netos.

Pela primeira vez, os jovens têm mais conhecimento do que os velhos. Em média, um garoto de 25 anos já recebeu durante seu período escolar e a universidade mais informação do que um homem de 65 anos consumiu durante toda sua vida. E o mundo todo tem na juventude – e em sua inquietude – um ideal de vida a seguir.

Nossa sociedade tem se definido pela efemeridade, nada mais é feito para durar. O problema não é o novo ser legal (porque inovar e repensar as coisas é algo bom), o problema é o velho se tornar lixo automaticamente tão logo algo diferente apareça. Nos tornamos viciados em novidades e em viver novas experiências e sensações.

Meu medo é porque isso está extrapolando o consumo. Temo que estejamos sendo consumidos por esse ideal e transferindo o obsoletismo para outras esferas de nossas vidas. Nossas relações já não são tão duráveis, nossas crenças são superficiais, nossa antiga confiança em sistemas, pessoas e instituições agora são frágeis conexões e os elos tão sólidos que tínhamos estão se tornando cada vez mais relativos.

Nossas vidas agora passam como timelines e tão fácil quanto estabelecer novas conexões também é desfazê-las. E relacionamentos acabam com um clique. Em uma cultura em que nada mais é para sempre e tudo é “para ontem”, vem a reboque a falta de paciência, a intolerância, a ansiedade e o lance todo vira um ciclo vicioso, porque sabemos o que não queremos mais, rompemos e deixamos de curtir o que nos atraiu na semana passada porque o que vale é o agora, mas ainda não sabemos ao certo o que queremos colocar no lugar.

Sem essas bases, também nos questionamos, nos sentimos frágeis, obsoletos e perdidos. Há um efeito bumerangue na forma como tratamos o mundo, porque passamos a ser vistos – e também a nos ver – com o mesmo espírito de intolerância e obsoletismo. A embalagem tem valido mais do que o produto.

“Você é uma coisa que todo o universo está fazendo no mesmo sentido em que uma onda é algo que todo o oceano está fazendo”, disse Alan Watts certa vez. Há raízes que precisam ser preservadas, há elos que devem ser reforçados, há princípios sobre os quais erguemos nossas bandeiras e valores que devem ser mantidos. Estou longe de ser conservador, mas me apego a ideia de que a vida precisa de certas bases para crescer e se sustentar, de que há ciclos que precisam ser respeitados, de que é preciso lançar sementes hoje para se colher frutos na próxima estação, de que o tempo, por mais que nos esforcemos, não muda seu ritmo. E quando os elos que nos unem se tornam frágeis e se rompem, perdemos algo fundamental em nossa identidade: o sentido de pertencimento.

Acredito mesmo nisso, na ideia de que só compreendemos quem somos de fato quando entendemos que pertencemos a uma comunidade, a uma família, a uma raça e sobretudo a um Deus que nos sustenta, nos ama e nos criou à sua imagem. Um Deus que se define como amor. E o elo fundamental que nos une é o amor.

E amar não é possuir, amar é pertencer. O amor não é efêmero, ele é paciente. O amor não é fugaz, ele é um velho maduro e sábio que se fortalece em sua capacidade de atravessar inabalável o tempo.

– Amor?

A Manú me interrompeu há pouco, enquanto escrevia alguns parágrafos acima.

– Oi.
– O que você está escrevendo?
– Um texto sobre obsolescência, o fato de as coisas estarem ficando velhas cada vez mais cedo e como isso afeta as…
– Lê pra mim?
– Tá bom.

Eu leio até a palavra “timelines”, onde parei.

– Gostei. Posta?
– Ainda preciso terminar, acho que ainda estou só na metade.
– Termina então. E poste logo. Poste hoje.
– Haha, tá bom.
– Antes que fique velho.

Tudo o que importa agora

Era só o que importava agora, só para isso ou aquilo outro é que dedicaria seu tempo e sua atenção, ele dizia a si mesmo. Entre uma enxadada e outra na terra, pensava que não havia mais espaço para superficialidades. A vida, de repente, exigia um exercício de foco. No turbilhão das coisas, no ápice da época de colheita e negociação da lavoura, estava se dispondo a dizer não, a cortar pesos desnecessários e se concentrar no essencial. Ele dizia.

Saiu do campo mais cedo naquela quarta-feira, almoçou com as crianças em casa, fizeram a lição de casa juntos, ensinou a mais velha a andar de bicicleta no quintal dos fundos, brincou com a menor no chão da sala, deu uma laranja espremida para o caçula. Tomaram leite com chocolate no lanche da tarde, jogaram juntos a um jogo de tabuleiro antigo, esperaram a mãe chegar da cidade, já de banho tomado. Tocaram-se. Colocaram os meninos na cama antes das oito, estouraram pipoca e assistiram àquele velho filme, o favorito dela, outra vez, antes de dormir.

A vida exige essas coisas, ele dizia. Porque ele precisava, não porque merecia. Ele pensava tudo, no seu turbilhão de lucidez, enquanto ajeitava a coberta e sentia sua garota se acomodando em seu braço para dormir, ela passava os dedos nos pêlos do seu peito, ele ajeitava a mão sob a nuca, mirando o teto do quarto. Não fomos feitos para viver essa loucura a que nos submetemos, de sol a sol, não temos fôlego para o tanto a que temos nos sujeitado, é preciso parar, fazer pausas e refletir. “Preciso fazer escolhas sábias. É o que preciso fazer, boas escolhas”. Ele queria plantar algumas sementes que dessem frutos saudáveis. Na semana que vem as crianças já não serão crianças, nossos corpos já não terão o mesmo ritmo, o tempo é escasso para realizar tantos planos. Certamente. Tudo o que importava então era não perder aquilo, o sentimento de que a vida toda às vezes se coloca ao alcance dos dedos e é preciso agarrá-la para que não escape no tilintar das horas.

Pela janela entreaberta, entrava um feixe de luz da lua. Na penumbra, ele olhou para o vulto da sua mão direita espalmada à frente do rosto.

“Amanhã…”, ele pensava. Piscou. Cochilou por um segundo. E acordou assustado, lembrando que precisava levantar uma hora mais cedo para garantir que estaria no campo à cinco.

Receita de férias

Paulo Mendes Campos, na crônica “Receita de domingo”, para resumir um tanto dessa sensação das férias:

“Ter na véspera o cuidado de escancarar a janela. Despertar com a primeira luz cantando e ver dentro da moldura da janela a mocidade do universo, límpido incêndio a debruar de vermelho quase frio as nuvens espessas. A brisa alta, que se levanta, agitar docemente as grinaldas das janelas fronteiras. Uma gaivota madrugadora cruzar o retângulo. Um galo desenhar na hora a parábola de seu canto. Então, dormir de novo, devagar, como se dessa vez fosse para retornar à terra só ao som da trombeta do arcanjo.

Café e jornais devem estar à nossa espera no momento preciso no qual violentamos a ausência do sono e voltamos à tona. Esse milagre doméstico tem de ser.”

(…)

“Enquanto tomamos café, lembrar que é dia de um grande jogo de futebol. Vestir um short, zanzar pela casa, lutar no chão com o caçula, receber dele um soco que nos deixe doloridos e orgulhosos. A mulher precisa dizer, fingindo-se muito zangada, que estamos a fazer bagunça terrível e somos mais crianças do que as crianças.”

(…)

“Noite pesada. À luz da lâmpada, viajamos. O livro precisa dizer-nos que o mundo está errado, que o mundo devia, mas não é composto de domingos. Então, como uma espada, surgir da nossa felicidade burguesa e particular uma dor viril e irritada, de lado a lado. Para que os dias da semana entrante não nos repartam em uma existência de egoísmos.”

Por quem meus olhos abrem

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Algumas situações ruins que vivemos, às vezes vem cercadas de tantos momentos mágicos que com o passar do tempo a memória se encarrega de nos fazer esquecer as partes negativas e nos apegamos à ideia de que tudo foi perfeito.

Nos últimos meses, as coisas meio que voltaram uns nove anos no tempo aqui em casa. E com a chegada tão esperada da Cecilia e toda alegria de ter um bebê trazendo o milagre da vida e dando seus primeiros passos na sala do nosso apartamento, chegou também – sem ser convidado, preciso enfatizar – a época da areia nos olhos, das overdoses de cafeína, dos sonhos delirantes com noites inteiras de sono que agora parecem tão remotamente impossíveis.

Nossos passeios no shopping acabam com nós dois parados lado a lado, dedos entrelaçados e aquele olhar melancólico em frente a uma loja de enxoval e a boca salivando em desejo por camas fartas, edredons fofos e lençóis de algodão egípcio com 12.000 fios. Tudo o que queremos são noites com horas ininterruptas de sono.

O fato é que a Cecília acorda muito durante a noite. A cada hora, às vezes. Várias vezes numa hora só, em certas ocasiões. Quando o ponteiro marca uma e tantas da madrugada, ela começa a chamar, numa escala de decibéis que certamente não cabem nos 75 centímetros que mede aquele pequeno ser:

– Mamamamamamamaaaaaa!

Levantamos correndo, muitas vezes correndo na direção errada (eu já cheguei a ir para o banheiro ao invés de entrar no quarto das meninas), tantas vezes chutando chinelos, crocs, quinas de cômodas e dando topadas com o cotovelo na maçaneta de alguma porta. O susto nos impulsiona, o despertar é quase um instinto.

Talvez alguém que leia isso recomende técnicas de sono. Alguém sugere um “nana, nenê” aqui, outro indica o “leito compartilhado” ali e talvez apareça também o modelo francês em uma conversa por aí. A gente tá ligado, estamos realmente tentando. Mas tem sido difícil contar para a Cecília sobre nossas metodologias e conseguir que ela concorde em participar dos testes.

* * *

Eu lamentava essa situação outro dia, quando me ocorreu que há pouco mais de um ano estávamos, nós dois, nesse mesmo quarto, vivendo esse mesmíssimo momento, mas ainda sem ela. Os olhos abertos, idas e vindas pela casa, o medo de acordar a Nina, coração aflito esperando Cecília chegar em algum instante daquela madrugada. Ela nasceria em poucas horas e essa era toda a expectativa que tínhamos então (e já nos acordava às duas da manhã para anunciar o que viria pela frente).

Hoje, ela mede alguns poucos centímetros, mas ocupa dois metros de altura entre nós. Pesa doze quilos, mas preenche a casa e nossas vidas com sua presença festeira e o sorriso fácil de poucos dentes separados. Tem apenas alguns meses nessa terra, mas ilumina a vida da gente inteira com aquele cabelo vermelho fogo e a pele branca reluzente.

Ontem ela fez um ano. Antes de ontem, ela nasceu. Amanhã, ela estará por aí ganhando o mundo.

Aquela sensação de que tudo estava sob controle e a certeza de que a paternidade era assunto dominado por aqui, obviamente caiu por terra. Achamos que a Nina e sua serenidade eram o padrão genético que imprimiríamos em qualquer ser humano que resultasse de nós dois. Achamos.

Não estávamos acostumados. Na vida pacata que sempre reinou sob esse teto, jamais imaginamos a chegada de alguém que virasse tudo de pernas para o ar, como Cecília faz. A Nina sempre foi tão calma, tão a gente mesmo, como uma extensão das nossas personalidades. A Cecília, por sua vez, é o conceito não lapidado de personalidade em si.

Se a Nina sempre foi calmaria, a Cecília é tempestade. Nina é solitude, Cecília é multidão. A Nina é “a capela”, mas Cecília é bloco de carnaval. Nina é Beatles e Cecília é Rolling Stones.

Ela tem pressa, ela voa. E se minha vida até então era sempre essa coisa de andar de olhos fechados para sentir a brisa e contemplar, agora eu fico, o tempo todo, de olhos bem abertos. Porque a todo instante, ela nos surpreende. E isso é a maior graça dessa história toda.

Mas, enquanto observo minhas meninas dançando juntas na sala, partilhando uma história na tv e caminhando lado a lado para a vida, sinto que me pesa sobre os ombros o preço do tempo, o limiar da história e me crescem novos fios brancos pelo corpo. Eu limpo as lentes embaçadas dos óculos e olho para o “agora há pouco” como um passado cada vez mais distante. Tenho medo.

* * *

A coisa não é abrupta, nunca é. Não há ruptura que se possa notar assustado, não há dia agendado para que uma despedida seja marcada a tempo. O tempo é sorrateiro, é fugaz como um fósforo que de chama reluzente vira cinzas num piscar de olhos. Só o notamos olhando para trás, só nos damos conta de que tudo foi tão rápido quando já passou.

Só vemos os sinais. Há riscos de giz de cera marcando a altura no batente da porta do quarto, há uma sacola de roupas que já não servem, há fotos, milhares de fotos, gigabytes de fotos, de muitos dias e eventos. Temos os brinquedos antigos esquecidos em alguma caixa velha, os desenhos em rabiscos arquivados nas gavetas do criado-mudo. A verdade é que só temos mesmo as lembranças e todas essas coisas que nos remetem às lembranças.

Elas vão passar, vão crescer e correr tão rápido que meus dedos não poderão alcançar, vão sair pela porta da sala para brincar lá embaixo e, de repente, voltar com as suas crianças para brincarem com a gente.

A diferença de idade entre as duas é um duro contraste. Até outro dia, era a Nina a personagem de parágrafos tão parecidos com esses que agora eu dedico à Cecília. E fico pensando que toda descoberta e novidade de ser pai novamente será, outra vez mais, essa experiência encantadora e assustadora e vou ter que lidar com a Cecilia, daqui oito anos, nesse tamanho que a irmã tem agora – e que já terá 17 anos (de-zes-se-te!) então.

A Nina agora me pergunta sobre o significado da vida. Quando ela começou, pensei que era uma revisão para a prova de ciências. Mas (como sou tolo), a questão era pura filosofia:

– Pai.
– Oi, filha.
– Assim, eu tenho essa pergunta… essa… eu queria saber, o que é a vida?
– Como assim, filha?
– A vida, pai. Isso que eu quero entender. O que é a vida? Eu fico todo dia com essa pergunta. Por que a vida, pai?

Eu digitava qualquer bobagem no computador nessa hora, paralisei uns 15 segundos, até que notei que precisava fechar a tela e conversar à altura.

Tentei ser convincente em alguma explicação sobre existência e propósito, falei de Deus e de como a vida é uma criação dele e vivemos para ele, nosso Pai. Mas sabia que não a supriria, não há argumento racional para isso. Porque uma coisa eu sei: esse é o tipo de pergunta que só nós mesmos podemos responder, é a busca existencial que nos cabe encontrar, é o colo divino que tem a nossa medida. E o que ela não sabe é que o pai dela se faz essas perguntas diariamente.

Semana passada, ela tocou uma música inteira no teclado. Eu voltava de uma viagem a trabalho e havia chegado em casa há pouco, então ela foi até o outro quarto e nos chamou para ouvir o que tinha aprendido. Fiquei em pé, encostado no batente da porta enquanto a olhava de frente. E ela, não a música, era tudo o que eu percebia. Os dedinhos pressionando as teclas de forma coordenada, aquele olharzinho inseguro lendo a partitura, as bochechas formando um sorriso quando acertava as notas. Aí eu chorei. Poxa. Olhando aquilo, tudo aquilo, vivendo aquilo, fiquei comovido. E abracei minha filha. Não exatamente pelo que ela fez, mas por ela e porque a fico observando fazendo essas coisas para nos deixar felizes, sem saber que tudo o que fazemos na vida é tentar fazer coisas que as deixem felizes.

E o significado da vida, esse que ela tanto procura todos os dias, para mim estava naquele instante.

* * *

Abri a porta de casa outro dia e elas estavam, as três, espalhadas pela sala enquanto algum musical passava na TV. Cecilia brincava em um canto quando me viu chegar. Ela deixou o brinquedo de lado (leia: arremessou no chão) e correu, cambaleante, em minha direção. Me abraçou as pernas e eu a peguei no colo e levantei bem no alto, para depois lhe dar um beijo. Então ela também fez um bico, mirou minha bochecha esquerda e deu aquele estalo. Me abraçou, abriu o sorriso, me encarou fundo nos olhos e soltou: “Papa!”.

Ela tem esse olhar que escrutina a gente e tudo ao redor. O mesmo olhar que revela tudo o que ela é. A Cecilia não tem mistério. Eu brinco que ela não é branca, ela é transparente. E amo enxergar nela a pureza da infância, essa autenticidade e liberdade em poder oscilar do pranto ao riso em segundos, em não se limitar às convenções. E penso no quanto disso me falta hoje. Ela tem medo do secador de cabelo, mas adora dormir ao som do aspirador de pó. Ela gosta de comer sozinha com o garfo, mas pede que a gente segure a mamadeira para ela. Ela agarra e penteia os pêlos da Lucy o tempo todo, mas tem aflição de passar a mão em bichinhos de pelúcia. Ela fala “não” quando não quer alguma coisa e fala “não” quando quer também.

Me encanto em perceber que estou vivendo, de novo, essa satisfação da paternidade, o privilégio de testemunhar mais um ser humano dar seus primeiros passos cambaleantes diante dos meus olhos, de ter uma menina pendurada em minha mão passeando pela rua enquanto me faz perguntas sobre a Peppa Pig, sobre brinquedos, sobre minha infância e, talvez, sobre o sentido da nossa existência. Esses dias tão mágicos e excepcionais da vida da gente que, numa fração de segundos, suplantam qualquer parte ruim, qualquer noite mal dormida, qualquer desejo individualista e superficial. E na mesma fagulha de tempo, tudo vai embora. Daqui a pouco ela me pega de surpresa, como a Nina, com perguntas difíceis. Daqui a pouco ela sai por aí com sua mochila nas costas.

Lembrei, outra vez, de uma história que vivemos há coisa de sete anos. Estávamos em férias, viajando para algum lugar que já não recordo. Era noite, a Nina dormiu e eu a carregava no colo. Já não lembro se estávamos em um avião ou um elevador, mas lembro que enquanto esperávamos alguma porta abrir, uma senhora, parada ao lado da Manú, nos observava. Ela contemplou a cena, parou o olhar sobre a Nina, sorriu por longos segundos e emendou:

– E na semana que vem ela fará 20 anos.

Já é tarde agora. As duas dormem juntas num quarto. Não resisto e vou até lá ver como estão. Faz bastante frio nesses dias e tentamos manter tudo bem fechado e aquecido. Puxo a coberta sobre a Nina, que se mexe a noite toda. Coloco mais uma manta em cima da Cecilia, que nunca pára de se mexer. Ajeito os travesseiros sob suas cabeças. Faço minha prece por elas.

Nos olhos, não tenho areia. Tenho talvez um cisco. E as observo admirado. De olhos bem abertos. Porque num piscar de olhos, a vida inteira passa.

Como curar um fanático

Amós Oz, no ensaio “Como curar um fanático”, comentando o conflito em sua terra natal e quase todos os outros conflitos, de alguma forma, onde sirvam as carapuças:

“(…) existe alguma coisa na natureza de um fanático que essencialmente é muito sentimental e ao mesmo tempo carece de imaginação. E isso às vezes me dá esperança, embora uma esperança muito limitada, de que injetar alguma imaginação nas pessoas pode ajudar a deixar o fanático incomodado. Não é um remédio de ação rápida, não é uma cura rápida, mas pode ajudar.

Conformidade e uniformidade, a urgência de pertencer e a vontade de fazer com que todos os outros pertençam, podem ser as mais amplamente difundidas mas não as mais perigosas formas de fanatismo. Lembrem o momento naquele maravilhoso filme de Monty Python ‘A vida de Brian’, em que Brian diz à multidão de seus pretensos discípulos: ‘Vocês são todos indifíduos!”, exceto um deles, que diz encabulado, numa voz quase inaudível: ‘Eu não sou’, mas todos, com raiva, fazem com que ele se cale. De fato, tendo dito que conformidade e uniformidade são formas amenas mas amplamente difundidas de fanatismo, devo acrescentar que com frequência o culto da personalidade, a idealização de líderes políticos ou religiosos, o culto de indivíduos carismáticos podem bem ser outra forma difundida de fanatismo. Parece que o século XX sobressaiu nos dois casos. Regimes totalitários, ideologias mortíferas, chauvinismo agressivo, formas violentas de fundamentalismo religioso por um lado e, por outro, a idolatria por uma Madonna ou um Maradona. Talvez o pior aspecto da globalização seja a infantilização da humanidade: ‘o jardim de infância global’, cheio de brinquedos e gadgets, balas e pirulitos. Até a metade do século XIX, alguns anos a mais ou a menos – isso varia de um país a outro, de um continente a outro -, mas aproximadamente, a maioria das pessoas na maior parte do mundo tinha pelo menos três certezas fundamentais: onde e vou passar minha vida, o que vou fazer para viver e o que vai acontecer comigo depois que eu morrer. Quase toda pessoa no mundo, há apenas 150 anos, se tanto, sabia que ia passar a vida exatamente onde tinha nascido ou em algum lugar próximo, talvez na aldeia vizinha. Todo mundo sabia que o que faria como meio de vida era o que seus pais tinham feito como meio de vida, ou algo muito semelhante. E todos sabiam que, caso se comportassem bem, seriam transformados para viver num mundo melhor depois de morrer. O século XX corroeu e muitas vezes destruiu essas e outras certezas. A perda dessas certezas elementares pode ter sido a causa do meio século mais pesadamente ideológico, seguido do meio século mais furiosamente egoísta, hedonista, orientado para gadgets. Nos movimentos ideológicos da primeira metade do século passado, o mantra costumava ser ‘amanhã será um dia melhor – façamos sacrifícios hoje’; vamos até mesmo impor sacrifícios a outras pessoas hoje, para que nossos filhos herdem um paraíso no futuro. Em algum momento em meados desse século, tal conceito foi substituído pelo conceito de felicidade instantânea, não somente o famoso direito de batalhar pela felicidade, mas a efetivamente difundida ilusão de que a felicidade está ali nas prateleiras e que tudo que se deve fazer enriquecer o bastante para se permitir adquirir a felicidade usando sua carteira. A noção de ‘felizes para sempre’, a ilusão de uma felicidade duradoura é, na atualidade, um oximoro (…)”

A essência do fanatismo reside no desejo de forçar outras pessoas a mudar. A inclinação comum para fazer seu próximo melhorar, ou para corrigir sua esposa, ou para direcionar seu filho, ou para endireitar seu irmão, em vez de deixá-los serem como são. O fanático é a menos egoísta das criaturas. O fanático é um grande altruísta. Frequentemente o fanático está mais interessado em você do que nele mesmo. Ele quer salvar sua alma, quer te redimir, quer te livrar do pecado, do erro, de fumar, de sua fé ou de sua falta de fé, quer melhorar seus hábitos alimentares, ou te curar da bebida ou de sua preferência na hora de votar. O fanático se importa muito com você, ele está sempre pulando em seu pescoço porque te ama de verdade, ou então está em sua garganta caso demonstre ser irrecuperável. E seja qual for o caso, falando topograficamente, pular em seu pescoço e estar em sua garganta é quase o mesmo gesto. De um modelo ou de outro, o fanático está mais interessado em você do que nele mesmo, pela muito simples razão de que um fanático tem muito pouco de ‘ele mesmo’, ou nenhum ‘ele mesmo’.”

(…)

“Eu comecei dizendo que o fanatismo muitas vezes começa em casa. Deixe-me concluir dizendo que o antídoto também pode ser encontrado em casa, virtualmente na ponta dos dedos. Nenhum homem é uma ilha, disse John Donne, mas eu humildemente ouso acrescentar a isso: nenhum homem e nenhuma mulher é uma ilha, mas cada um de nós é uma península, metade ligada ao continente, metade voltada para o mar; metade ligada à família e amigos e cultura e tradições e país e nação e sexo e língua e muitos outros laços. E a outra metade quer ser deixada só e ficar voltada para o oceano. Creio que devíamos ter permissão para continuarmos a ser penínsulas. Todo sistema social e político que faz cada um de nós ser uma ilha darwiniana e o resto da humanidade um inimigo ou rival é um monstro. Mas, ao mesmo tempo, todo sistema social e político e ideológico que quer fazer de nós não mais do que uma molécula do continente também é uma monstruosidade. A condição de península é a própria condição humana. É isso que somos e é o que merecemos continuar sendo. Assim, em certo sentido, em toda casa, em toda família, em toda conexão humana, temos de fato um relacionamento entre um número de penínsulas, e é melhor que nos lembremos disso antes de tentar moldar um ao outro e modificar um ao outro e fazer o próximo fiar do nosso jeito quando ele ou ela, na verdade, estão precisando se voltar ao oceano por um momento. E isso vale para grupos sociais e culturas e civilizações e nações e, sim, israelenses e palestinos.”