O mundo que eu carrego nos braços

Estou andando pelo quarto, com a Cecília no colo há cerca de 30 minutos. Na verdade, já faz uns três ou quatro dias que a Manú e eu estamos nessa. Ela está febril, com algum mal estar e só choraminga, a toda hora. Não dorme direito, tira uns cochilos e já acorda berrando alto, muito alto. Ela só para de chorar, veja só, quando a pegamos no colo.

Tem um livro ou artigo ou ensaio, vai saber, que diz que na França os pais deixam os filhos chorarem por uns 10 minutos antes de atendê-los. Esse texto defende um modelo de criação diferente e diz que, como resultado desse tipo de tratamento, na França as crianças não fazem birra. Há quem diga que deveríamos copiar os franceses. Mas a França é longe demais e a Cecília está chorando aqui, agora, ali no quarto. E o instinto de coruja não me permite ver minha filhinha chorando doente e ignora-la solenemente para ver se algo diferente acontece.

O mais perto da França que a gente está aqui em casa é o biquinho que a Cecília faz quando chora no berço. E Ceci (ou Céci) é um apelido que até pode soar francês para quem a quiser chamar assim – no caso aqui, um parente ou dois.

A gente se preocupa com tanta coisa. Há tanto acontecendo no mundo agora, por esses dias. Coisas demais. Na França, na Turquia, na Somália, nos Estados Unidos e aqui no Brasil também. O noticiário pipoca escândalos, guerra e barbárie. Eu, que sempre figuro na ala dos otimistas, tenho andado ressabiado. Penso na minha família. E dá um certo medo ser pai, marido e cidadão num mundo assim nesses dias.

Lembro quando fui roubado pela primeira vez. Roubado, não extorquido. Fui extorquido aos 10 anos num fliperama quando um moleque mais velho me tomou os últimos 50 centavos que eu tinha paga comprar uma ficha de jogo. Mas fui roubado aos 14, sentado num ônibus ao lado do meu tio Beto, com meu boné azul novinho dos X-Men na cabeça, a caminho de um show dos Beastie Boys no Olympia. Eu pensava na noite bacana que teria pela frente (meu primeiro show!), pensava longe, a cabeça apoiada no vidro da janela, quando um braço se esgueirou pela fresta aberta, vindo do lado de fora, e tomou o boné da minha cabeça. Levei um susto, fiquei pasmo. Não pelo valor do boné, mas por sentir que alguém subtraia algo de mim, violentamente, subitamente, sem que eu visse e muito menos permitisse. Olhei para os lados, procurei o boné no chão, procurei entender o que aconteceu, até que a ficha caiu (uma outra ficha, não aquela extorquida).

É meio assim, pasmo, que me sinto hoje em dia. Roubam a gente todo dia. Ando pela rua com a sensação de que há dez – ou duzentas – mãos tentando puxar minha carteira, arrancar meu suado salário, exigindo que eu pague suas perdulárias contas. Respiro com dificuldade, com o estranho sentimento de que o ar me falta nos pulmões, de que falta aquela brisa fresca da aurora, porque a ganância – a nossa ganância – derruba galho por galho, gota por gota, canto por canto, da natureza que nos sustenta e garante nossa existência. Morremos aos poucos como humanidade, engolidos por essa lama que vai consumindo a vida. Sigo pelo mundo com a percepção de que minha liberdade vai sendo subtraída, de que tentam assassinar a pureza da nossa alegria, pedaço a pedaço, em cada ataque terrorista, em cada apedrejamento, em cada cuspe na cara, lá na Tunísia, no Quênia ou na França.

Mas a França, a Tunísia, o Quênia ou Mariana estão todos longe demais.

A Cecília chora outra vez. Largo correndo o computador aqui no sofá, corro até o quarto e a embalo no colo mais um pouco até ela pegar no sono novamente. A luz dos postes lá na rua atravessam pela janela aberta e refletem na parede onde fico vendo nossa sombra em movimento. Há um pouco dessa luz iluminando parte do seu rosto, o cabelo vermelho, uma das bochechas e os olhinhos fechados. Agora ela repousa, nessa segurança ela descansa. Coitada. Mal sabe sobre que monte de dúvidas ela deposita sua pequena paz. Eu a deixo no berço e volto para o texto.

Às vezes, tenho vontade de me alienar (às vezes nada, penso nisso todo dia). Queria parar de me preocupar com o mundo todo, ser um ignorante. Deixar de acompanhar a política, fazer pouco caso dos desastres distantes, trocar o noticiário pela novela. Penso o que seria se decidisse cuidar só da minha vida e dos meus, olhar para um alvo só e manter o foco. O mundo é grande demais, elaboro. Deveria me ater ao microcosmo de coisas e pessoas que já exigem tanto de mim. Mas logo me dou conta de que não tenho essa habilidade. Não descobri ainda se por virtude ou limitação, mas não consigo não me importar e sofrer profundamente.

O que não quer dizer que eu possa fazer algo, de fato, por eles todos. O que posso fazer além de dedicar àquelas vítimas todas as minhas orações, enviar pacotes de água para Minas Gerais e doar algum dinheiro para instituições de apoio presentes nessas regiões? Isso ajuda, é evidente – e procuro fazer – mas ainda é muito pouco.

É quando me dou conta de que não é bem de alienação que preciso, mas saber claramente que o que está ao meu alcance eu devo realizar agora. Ter consciência de que tem uma porrada de coisas que posso fazer hoje para mudar o meu mundo.

Porque sempre haverá uma calçada para varrer, um vizinho necessitado para alimentar, um voto para se pensar direito, um vereador preguiçoso para cobrar. Tem, todos os dias, um asilo que podemos visitar com as meninas (idosos adoram ver crianças correndo em volta), um pedestre para darmos a preferência no trânsito, uma criança carente a quem podemos pagar os estudos. Tem uma escola e o posto de saúde do bairro em que podemos ser atuantes, tem o condomínio em que vivemos onde podemos ser presentes, a igreja da comunidade em que podemos servir.

Tem esse mundo todo de coisas a serem feitas no mundo ao nosso redor. É, no duro, nesse meio ambiente que nos cerca que podemos fazer grandes mudanças, são as vidas ao nosso redor (vizinhos, amigos, familiares) que podemos transformar.

Um morador aqui no meu bairro conseguiu que uma rua que estava totalmente esburacada há mais de 30 anos (e onde jaz parte do meu dente da frente depois de um tombo de bicicleta em um dos seus buracos há 24), fosse inteira recapeada e reformada. O que ele fez? Pregou duas faixas, grandes, coloridas, destacadas, cobrando o prefeito de uma de suas promessas de campanha. Quando a obra foi concluída, ele colocou outras duas faixas: uma agradecia a nova rua que agora temos e outra cobrava que um parque público fosse construído num terro da rua debaixo. O parque já está em obras.

Parece insignificante perto da lama toda em Brasília. Soa pequeno demais diante de problemas tão críticos no Oriente Médio e na África. Mas, não é. No fundo, é nessa escala que tudo se transforma. No limite dos municípios, do bairro, da rua, dentro de casa, na verdade. Nas necessidades da vida cotidiana, na educação dos nossos filhos, mostrando a eles o que é ser um bom cidadão, o que é ter respeito pelo próximo, o que é estender a mão a quem precisa e ser a voz de quem não a tem para exigir o direito comum a todos. O mundo inteiro, cada cidadão de bem, fazendo sua pequena parte para compor o todo. Acredito nisso, de verdade. Porque não somos a França ou Mariana, nós somos indivíduos. Somos o Henrique, o Mohamed, a Sayuri, o Maputo e a Mercedez, na beleza da nossa diversidade e individualidade. Esse é o mundo que eu consigo abraçar.

“Não usemos bombas nem armas para conquistar o mundo. Usemos o amor e a compaixão. A paz começa com um sorriso”. A frase é de Madre Teresa de Calcutá, lembrada por sua vida dedicada à caridade e que passou a maior parte dos seus dias em um hospital indiano cuidando de leprosos. Essa era sua obra: um pequeno hospital. Esse foi o mundo que ela tocou de fato. Mas por alguma razão, os efeitos de sua vocação transformaram no mundo todo a maneira de se enxergar a fé cristã.

Jesus ministrou, ao todo, por três breves anos. Nasceu na Galileia, uma região da Palestina onde, estima-se, viviam na época cerca de 200 mil pessoas. Em Jerusalém, capital da Judeia naquele tempo, viviam aproximadamente 25 mil pessoas. Sua mensagem, não deve ter alcançado mais do que uma parte dessa pequena região. Se compararmos com o Brasil de hoje, o ministério de Jesus não teria uma cobertura maior do que uma cidade entre as 100 maiores do país. Mas, honestamente, não acho que ele tinha em mente que precisaria de amplitude para começar ou exercer sua missão de vida: o amor. Porque não se ama o mundo todo, ama-se o próximo, o cego, o leproso, a viúva, a criança, o guarda, o ladrão condenado ao seu lado na cruz.

Não é a amplitude, entende? É empenhar amor aqui, é amar o próximo. Faça o que está ao seu alcance e certamente isso tocará mais gente do que poderia imaginar. Não é o tamanho que faz a grandeza da obra, é o significado, é saber que nosso esforço tem como fim o bem estar comum de nossos semelhantes e que a justiça e o bem devem sempre prevalecer. Porque essa, a bondade, é a natureza com que fomos criados.

Transformar o que me cerca, trabalhando duro, pregando no deserto, estendendo a mão ao desamparado, doando um tanto do que recebo. Embalando minhas filhas no colo e orientando seus passos para o mundo. Elas, as duas, serão grandes heroínas. Não é para menos do que isso que as educo.

Cecília chora de novo lá no quarto. Ela só tem sete meses. Esta febril, respira ofegante. Em sua pequenez, em sua fragilidade, ela depende de socorro. Eu a embalo. A Manú chega e a pega também. Só precisa de um pouco de toque para poder voltar a dormir em paz.

Esse é o mundo que eu carrego nos braços agora. A gente fica querendo abraçar o planeta todo, mas todo meu mundo, todo universo, é esse bebê que eu embalo no colo. Agora.

Darwin, poesia e uma menina ruiva

Cecilia lendo 2

“E eu, que buscava apenas Deus, encontrei a ti.”
-Elizabeth Barret Browning

Às vezes, a vida precisa de explicações, mas tem momentos em que ela só precisa de poesia. É assim que eu entendo a fé. É claro que se trata de uma escolha – você decide encarar o mundo a partir dessa perspectiva – mas não dá para racionalizar. Escolher acreditar, abrir mão do controle, não tentar esmiuçar as coisas para as quais não tenho explicações. Porque Deus é grande, eterno e tudo, mas ele é também essencialmente simples.

Donald Miller escreveu no livro Blue Like a Jazz: “Meu mais recente esforço de fé não é do tipo intelectual. Eu realmente não faço mais isso. Mais cedo ou mais tarde você simplesmente descobre que há alguns caras que não acreditam em Deus e podem provar que ele não existe e alguns outros caras que acreditam em Deus e podem provar que ele existe – e a esse ponto a discussão já deixou há muito de ser sobre Deus e passou a ser sobre quem é mais inteligente; honestamente, não estou interessado nisso.”

Há algumas semanas, meu pai e alguns dos meus tios foram visitar minha avó de 96 anos no hospital em que estava internada. Era mais de meia-noite, eu estava sentado no sofá da sala, cumprindo meu turno e dando a mamadeira para a Cecília, quando abri o celular e vi que chegaram algumas fotos deles ao lado dela. Minha avó deitada no leito inconsciente, os filhos ao redor. “Estão todos muito mais velhos”, pensei quando vi a primeira foto (ao menos, muito mais velhos do que a imagem infantil que mantenho deles em minha mente). “Mas são crianças de 50 anos tentando puxar a barra da saia de sua mãe”.

Poucos dias depois, minha mãe avisou que ela faleceu.

Chorei pela minha avó. A vida é fugaz. Às vezes, nada parece ter muito sentido, tudo fica impossível de se explicar. O que me ocorria é que quando nasci, minha avó já estava lá e nunca pensei em um mundo sem a sua presença. De certa forma, suas crianças ali ao redor da cama, eu aqui, a Nina e a Cecília em casa, somos a sua eternidade. Essa linha contínua que é a existência do homem sobre a terra nas lembranças que deixamos, na história que vivemos.

Acho que todo homem merece ter um bebê nos braços e todo bebê merece o colo de um pai. É o nosso senso de existência, a coisa toda do pertencimento que temos um ao outro, de que dependemos um do outro.

Quando Deus nos diz que é nosso pai, quando Maria e José acolhem o menino Jesus nos braços, quando Jesus diz para o povo de Jerusalém que só queria poder abrigá-los sob as asas como pequenos filhotes, essas coisas dizem mais do que livros e livros inteiros da Bíblia.

A Cecília faz uns barulhinhos de bebê engraçados enquanto mama. Ela já sorri, abre a boquinha banguela, quando eu falo com ela. Ela é ruiva, tem os fios de cabelo bem vermelhos. Às vezes, ela fica encarando a gente bem dentro dos olhos como se tentasse descobrir algo, como se nos perguntasse todas as perguntas do mundo de uma vez. E a gente é que fica se perguntando um monte de coisas então.

Talvez Darwin explique que o cheirinho de bebê, os grunhidos fofos e os sorrisos banguelas sejam uma estratégia de defesa da nossa espécie nessa fase tão vulnerável da vida. Certamente a ciência pode explicar o porquê do cabelo vermelho numa família em que ruivos são figuras de um passado remoto. Mas, no duro, só Deus pode ter inventado um troço desses.

Outro dia, eu estava aqui na sala de casa quando a Nina chegou e perguntou se podia cantar uma música pra mim. Foram dois minutos. Eu queria que a câmera da minha memória registrasse tudo aquilo pra sempre. Pedi a Deus para não esquecer aquele instante nunca mais. Não só a cena, aquela sensação, a coisa toda, os olhinhos dela me encarando daquele jeito, a voz de criança desafinando e confundindo as frases.

Me explica isso.

Buscamos incansavelmente, o tempo todo, repostas. Mas há coisas incompreensíveis. Em certas horas, o melhor a fazer é se calar.

O desejo humano pela transcendência, o vazio primitivo da eternidade, o amor, o amor!, a inquietação diante da constatação de que a vida começa e acaba, que 96 anos passam como um sopro, que uma noite mal dormida dura quase a eternidade, que senhores de 60 anos são crianças aos pés de sua mãe no leito e isso tudo foge ao nosso controle.

Acredito na Evolução, mas como a casca de uma fruta que tiramos aos poucos e vai revelando sua essência. Para mim, é a descoberta do como, não do porquê. E adoro esse entendimento que vamos adquirindo, como espécie, ao longo dos anos (muitas das descobertas científicas que explicam parte de como tudo funciona, não eram conhecidas há poucas décadas). Isso não elimina, portanto, todo o resto no que diz respeito a fé, onde procuro motivos, onde escancaro minhas dúvidas, onde me rendo à certeza de que não saber não é se apequenar.

Porque jamais saberemos tudo. O universo se revela passo a passo, nos mostra fragmentos, mas diante de todo o resto, diante do inexplicável, só existem as nossas interrogações e assombro. Nessa imensa lacuna, reside minha fé. Mas em tudo, eu enxergo a Deus, que guia nossos passos nessa caminhada.

“Deus não é um argumento”, disse o Rob Bell outro dia num podcast que escutei. “Você não está tentando ganhar um debate, você quer viver. E alguns debates são apenas perda de tempo”.

Cecília só enxerga uns 40 centímetros à sua frente, talvez ela compreenda o que se passa a um metro ou dois. E isso é todo o seu universo, tudo o que pode compreender e, sabe lá, explicar. Com essas primeiras impressões do mundo, ela sorri, chora, interage como sabe e como pode, sem saber o que a aguarda. Ela depende de nós para isso.

É assim, através dos nossos olhos, conduzida pelos nossos braços, que ela vai sendo apresentada e se apresentando. Eu só a carrego, satisfeito por guiar os passos de mais uma menininha nessa jornada. Fico contemplando esses momentos, desejando não esquecer aqueles instantes todos nunca mais. Os olhinhos dela encarando tudo, absorvendo o que lhe passa a frente numa escala de processamento incontrolável. E ela começando a formar, naquela cabecinha ruiva, seu conceito do que é – e do que virá a ser – a vida.

Muitas vezes, queremos explicações. Mas nessas horas é que precisamos mesmo de poesia.

Sobre miniaturas, altares e choros a 120 decibéis

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Tem um ser humano em miniatura vivendo entre nós. É fêmea, mede 52 centímetros e já há duas semanas dorme na nossa cama, no meio da gente.

Ela saiu da barriga da Manú no domingo retrasado. Eu estava lá e a vi chegando ao mundo. Aquela coisa que se movimentava ali dentro até então era mesmo alguém da nossa espécie. Uma menina. A chamamos de Cecília.

Ela é de verdade. Respira, emite sons, dorme algo como 20 horas por dia, chora a impressionantes 120 decibéis e se alimenta de leite que sai dos seios da minha esposa. Se a pegamos no colo quando chora, geralmente se acalma. Nessas horas, dar tapinhas leves na fralda e caminhar pela sala em passos ritmados também tem certo efeito terapêutico.

Aos poucos, ela vai formando as primeiras impressões sobre o que é o mundo e a vida. E nós, bem, nós também. Uma nova perspectiva. Vamos nos conhecendo mais, vamos percebendo um novo tipo de amor criar raízes e frutificar em nossos corações.

Cecília não anda, não fala, nem se comunica de qualquer outra forma que não seja o choro. Ela depende inteiramente de nós para sua sobrevivência. Além de alimentação, higiene e cuidados fisiológicos, no futuro breve também estarão sob nossa responsabilidade a formação intelectual e moral dessa pessoa (e, confesso, tenho sérias dúvidas quanto à minha capacidade de cumprir essa tarefa). Somos uma família de quatro integrantes agora. Ela vai crescer e viver sob nosso teto de hoje em diante, até o dia em que decidir nos deixar para construir seu próprio lar.

Todas as suas atitudes e movimentos agora, disse o médico, são involuntários. Em algumas semanas, no entanto, haverá uma evolução drástica de comportamento. O período de sono, dizem, tende a ficar mais espaçado. A verdade é que da minha parte já não me lembro com clareza o que é sono, mas acho que vai ser bom para todos aqui.

Ainda assim, com seus “movimentos involuntários”, vez ou outra, sua mãozinha de 3 ou 4 centímetros se enrosca na minha barba e eu sinto algo estranho. Certas vezes, enquanto escuta nossa voz, seu olhar nos sonda, olha nos olhos e de alguma forma parece nos reconhecer, parece até que se familiariza com os sons, como quem reconhece finalmente a imagem do rosto associado a uma voz que já conhecia. E nos encara de um jeito tão absurdamente mágico que não importa o que aconteça no mundo a nossa volta, que mesmo que caia por terra a grande Muralha da China ou que o Rogério Ceni faça o milésimo gol da sua carreira em cima do Corinthians numa final de Copa Libertadores, é impossível desviar a atenção daquele rostinho quando ela nos escrutina com seu olhar de quem enxerga o mundo pela primeira vez.

Ah, o mundo. Fico pensando o que ele fará para merecê-la. Não dá pra racionalizar, claro que não.

E aquele ser humano em miniatura se converte no nosso universo todo de repente, vira a razão de estarmos aqui, a chamamos de filha, completamos uma família como gostaríamos que fosse desde o começo e acreditamos que nisso aqui, sob esse teto, existe um núcleo tão sólido quanto uma rocha milenar.

É claro que a todo momento, enquanto olhamos para ela, lembramos da Nina nesses primeiros dias. Os traços são parecidos, os olhos redondos e espertos, a boca rosada, as bochechas… E aí dá mais saudades ainda da Nina e mais nostalgia por vê-la agora, já aos oito anos, tão grande, tão independente, sendo e agindo como uma menina de oito anos, o que às vezes me faz lamentar. E me faz também querer participar mais do que resta da sua infância e aproveitar cada dia dessa vida fugaz.

Por que há algo em sua dependência que me faz agir de forma totalmente desprovida de qualquer interesse puramente pessoal. Por elas, eu não sou o egoísta que costumo ser. Por um instante, paro que agir como se eu estivesse no centro de tudo.

A paternidade é esse amor de entrega simples, de doação, porque não há troca, não há nada que se possa exigir do outro. Somos nós ali, madrugada adentro, acordando a cada 25 minutos para servir leite, para arrumar a manta, para conferir se estão mesmo respirando, para buscar água, para embalar no colo enquanto resmungam por alguma coisa que nenhum de nós sabe o que é. E até viramos compositores de novas canções de ninar com rimas simples e trocadilhos infames, assistimos aos filmes do Corujão com a TV no volume 1, cochilamos sentados no sofá da sala até o dia clarear pela janela. Com olheiras fundas, dores nas costas e os cabelos despenteados, nos surpreendemos sorrindo sozinhos tantas vezes e nos sentimos gratos, porque pudemos notar uma expressão diferente, porque ela deu um sorriso, porque nos olhou um instante nos olhos e aquilo tudo parece como o testemunhar de um milagre.

Porque é assim, queremos que sejam amados e não há um canal de comunicação, não há expectativa, não há ruídos. Esquecemos de nós para realizar uma outra pessoa que não faz ideia que recebe esse esforço. E quando notamos, realizados estamos nós.

Parece o jeito como todas as coisas deveriam ser, no fundo.

E as coisas vão acontecendo assim, numa hora que você não coloca na agenda e nem pode prever. De repente, aquela criatura começa a chorar e resmungar por alguma coisa qualquer, aí você resolve deitar um pouco e a colocar sobre seu peito. Ela dá um último resmungo, ajeita a cabeça, silencia, acalma e dorme. Dorme leve por horas. Você nem se mexe. E nem quer. Porque aquilo parece a mágica da existência humana. E quem é que explica uma coisa dessas? Por que a vida é essa coisa assim tão… tão tanto, tão aos montes dessas pequenas coisas que nos transbordam?

Esses momentos, as experiências… você sabe, os fragmentos de existência que justificam tudo. E que se nos oferecessem por um preço no mercado, não compraríamos, mas quando as vivemos já não trocamos por nada – ninguém pagaria por cinco minutos de filho dormindo no seu colo. Quanto você gastaria por aquele fim de tarde na pracinha empurrando uma criança num balanço? São nossa história, os pequenos trechos da nossa história. E é o tipo de coisa que nos preenche no fim das contas.

Pode me chamar de inocente, se quiser, mas esse é o tipo de acontecimento na nossa história que me faz acreditar em Deus. Um Deus pessoal mesmo. Não essa coisa cósmica e distante, não esse Criador abstrato do universo. Eu não consigo não acreditar que ele é alguém que contempla essa situação toda, que se comove e tudo. Porque Deus é o nosso Pai e também é o Filho.

Chego a ter vontade de erguer algum tipo de altar em momentos assim, só para, lá na frente, lá naquelas horas de mente ocupada pelas questões menos importantes do cotidiano (amanhã, quem sabe), eu possa olhar para esse memorial, relembrar o momento e voltar à essência. Meu altar são essas palavras, acho.

E minhas meninas são as chamas acesas que incandescem.

Faço então uma oração de gratidão, peço que sua luz nunca se apague, contemplo em sua pureza a face divina em sua expressão mais clara e bela, enquanto são crianças, enquanto a inocência é um reino em suas mentes e o filtro de seu olhar. E meu desejo mais íntimo é que elas possam preservar sua pureza, que sejam reflexo desse amor por toda sua vida, pregando paz por onde quer que passem, acreditando que são princesas, que podem voar, alegrando o mundo com seu riso, chorando a 120 decibéis e enxergando a vida, todos os dias, como se ela lhes fosse apresentada pela primeira vez.

Eu só quero estar lá por um tempo, só espero poder testemunhar. Quero sentar no chão em manhãs ensolaradas de verão, quero dedicar tempo, dividir experiências, tomar um lanche e estar junto enquanto elas crescem. Não para ter nada em troca. Não. Porque esse é um amor sem expectativas, é só entrega, é quando deixamos de estar no centro de tudo. É quando Deus nos deixa entender um pouco como ele é.

No fundo, parece mesmo o jeito como todas as coisas deveriam ser.

Eu não poderia desejar mais

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Trinta e quatro. É a minha idade e também o número que ela já calça. Olho assustado para as Havaianas largadas no meio da sala – não porque estejam largadas no meio da sala, porque até já me parece que ali é seu lugar natural – e me espanto, outra vez, por enxergar as sombras do que teimo negar: não temos mais um bebê em casa.

Ainda que o desenvolvimento do seu vocabulário seja uma das áreas em que pessoalmente me alegro de estar envolvido, me espanto quando ouço uma expressão nova saindo dos seus lábios. Mesmo consciente de que jamais tive bíceps como os do Popeye – nem 10% daquilo, é verdade – uma dose de tristeza me toma quando fico ofegante e desajeitado carregando no colo uma menina que já passou da metade da minha estatura e que um dia, eu juro, coube no meu antebraço.

Fico olhando as fotos, os trabalhinhos de escola, as velhas marcas de sua altura gravadas no batente da porta do quarto, as bonecas antigas, os DVD’s que ela já não assiste porque são, ora bolas, “coisa de criancinha”. Antes do que imaginava, deixei de ser o seu príncipe encantado para me tornar, nas palavras dela, o “papai encantado”.

É muito cedo para esse tipo de nostalgia, eu sei. Ela só tem sete anos, eu sei (mas emendaria: “sete anos e dez meses, cara”). Eu reclamo de não poder ter de volta o que passou mas vivo dizendo que as coisas só vão melhorando a cada ano, eu sei. Não importa o que ela diga, ela será pra sempre minha princesa, eu sei. Eu sei disso tudo, mas é que… você sabe.

Nessas horas, me pego num momento assim, me vejo surpreendido pela possibilidade de poder, quem sabe, viver mais um pouco disso outra vez.

Mais um filho para chegar na família. Falta muito pouco e a Cecília estará por aqui. Vivemos os preparativos e a expectativa de mais uma criança para embalar nos braços, para observar engatinhando pelo assoalho escuro, para instruir nos primeiros passos. O apartamento, como o coração, parece que se expande agora e nós dois vamos nos acostumando à ideia de amar e cuidar, outra vez, de um novo ser sob nossas asas.

Somos esse lar hoje, somos três e um cachorro. E muito em breve novos ruídos, novos perfumes, uma nova pessoa estará entre a gente (e essas madrugadas silenciosas voltarão a ser preenchidas de choros, bocejos, mamadeiras, bocejos, fraldas, mamadeiras, bocejos, bocejos e choros). Tudo é tão mágico. Vejo a Manú desconfortável com os quase oito meses de gestação limitando seus movimentos e lembro das mesmas cenas oito anos atrás, quando aguardávamos a chegada da Nina.

Eu diria que as coisas são diferentes agora. Mas não são. Muito mudou, mas nesses momentos tão particulares, tão nossos, nos olhamos nos olhos e… você sabe, ainda estamos aqui, ainda somos nós dois, tão pequenos, tão inseguros e despreparados, que quase me vejo dando flores a ela pela primeira vez novamente.

A vida, né?

O som do ventilador ligado interrompe o silêncio dessa noite de janeiro. É dia 25, o último dia das férias de todo mundo aqui em casa. Amanhã às 6:00 a rotina se restabelece, nosso ano começa e eu só não quero que o cotidiano engula essa sensação, esse tipo de epifania que só podemos experimentar quando estamos completamente tomados pelo ócio e sensíveis a novas perspectivas – é quando ouço a Deus, costumo acreditar.

Não consigo dormir, escravo de um pensamento que me ocorre desde cedo, enquanto fazia uma oração de gratidão pelo bom ano que tive, por tudo de tão bom que se apresenta por vir: “Não poderia estar melhor, Pai. Eu não poderia desejar mais”.

A alma mergulha numa aventura. Deus sempre diz que o melhor ainda está por vir. Eu acredito. Bebo um copo d’água, sinto a brisa fria passar pela pele, tropeço naqueles chinelos largados pela casa e tomo notas. Tenho minhas meninas aqui comigo agora e nossa casa estará mais cheia em breve. Hoje é um desses dias em que eu gostaria de erguer um altar.

Eu não poderia desejar mais.

A história sem fim – o capítulo final de um livro que não termina

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(1 de agosto de 2014)

Às vezes, tudo parece voltar ao começo. A sensação de que certas experiências se repetem, a história passa pelos olhos e concluímos que vivemos de começar e encerrar ciclos.

Agora é noite. Já fiz minha ronda pela casa. Fui até a cozinha, enchi os três copos de água que sempre deixo sobre os criados-mudos de todos. Fiz um cafuné na Lucy com o pé enquanto cruzava a sala. Entrei no quarto da Nina, a cobri melhor, ajeitei seu cabelo, beijei sua testa e fiz uma prece. Então vim para a minha cama escrever.

Lá fora está frio e alguns pássaros fazem festa nas árvores do campo ao lado de casa. O dia entra em repouso enquanto, ao meu lado, observo por um instante a mulher da minha vida. Ela dorme. A sutileza de seus gestos, a respiração leve, o rosto delicado, os cabelos soltos meio bagunçados sobre o travesseiro de fronha branca que ela faz questão de comprar pelo toque e não pelo preço. Temos sido felizes. Dividimos tanto que, ao longo dos anos, já nem sabemos o que é um e o que é o outro. Mas quando a vejo desse jeito, lembro que ela ainda é aquela menina, a minha menina de 15 anos atrás, para quem paguei um lanche e levei ao cinema no primeiro encontro, dei a mão para atravessar a rua na saída e nunca mais soltei.

Hoje ela me deu a notícia de que está gravida outra vez.

Seremos quatro.

E se havia um desfecho ideal para esse ciclo, ei-lo aqui. Não vou negar que não pensei nisso. Há alguns anos, quando esses relatos sobre paternidade começaram a se tornar uma seqüência e a Manú começou a me incentivar para que os compilasse — talvez, num livro — comecei a pensar que seria bom demais se pudesse, um dia, poder escrever um último capítulo narrando a sensação da paternidade outra vez e testificar que a história se repete, que as sensações de repetem, que a emoção toda vem à tona outra vez e o amor se multiplica em nova medida instantaneamente em nosso peito por um ser humano que já existe mas que ainda nem conhecemos.

Sim, acontece tudo isso.

Sim, o amor se multiplica. Seremos pais, tudo outra vez, a sensação toda outra vez. Dentro dela, um coração novo já bate, a vida pulsa, um ser humano virá ao mundo. Mais um pedaço de nós, mais uma criação de Deus, outra criança para nos realizar e fazer a felicidade, a tão desejada felicidade, ser essa coisa que a gente até alcança com as mãos, até ampara com as mãos, embala no colo até.

Porque já parecia impossível e tínhamos na conta a resignação de que nosso sonho de um par de filhos correndo em volta da mesa talvez fosse grande demais. Mas quem foi que disse que a capacidade de Deus se limita à nossa visão? O Pai ultrapassa barreiras pelos filhos. Seus braços sempre estendidos, o amor que rasga a eternidade para nos alcançar. Somos pequenos demais.

Gratidão. Não posso expressar outro sentimento agora. Impossível imaginar estado de espírito melhor. E sei que não será como da outra vez. A Nina mudou completamente quem somos. Somos pessoas melhores graças a experiência de ter uma filha como ela. Porque tem sido ela, do seu jeito, que nos transformou em pessoas mais preocupadas com outro ser humano além de nós mesmos. Ser pai é ser um pouco mais de si duas vezes, é ser você mesmo e também o outro, é continuidade e desapego. É o nosso amor que se concretiza plenamente em um coração fora de nós.

Porque pais doam, pais protegem, ensinam, enxugam lágrimas e contam histórias. Pais acham bonito até o que é de gosto duvidoso, rolam no chão, brincam de boneca, pegam no colo, constroem mundos imaginários numa barraca no meio da sala. Pais comem os restos, dividem, abrem mão só para ver aquele rosto feliz. Pais disciplinam, falam duro e depois choram escondido, pais atrasam o passo para o filho acompanhar. Pais arrancam dentes moles, pais fazem corpo mole no jogo para ver o pequeno vencer, deixam de lado o futebol na TV para ser derrotado numa batalha de cócegas. Pais curam com beijinhos, pedem beijinhos o tempo todo, têm essa carência eterna do toque de sua cria. Pais saem mais cedo de uma reunião importante no escritório só para ver o ensaio-da-cantata-para-a-festa-de-encerramento-do-primeiro-bimestre-do-pré-primário e depois ficam até mais tarde no trabalho para garantir o pão na mesa toda manhã. Pais sonham, tem esperança, enfrentam e vencem os monstros, reais e imaginários, para que seus filhos trilhem caminhos mais serenos. Pais observam enquanto eles dormem, escutam até o que eles não falam e atendem as necessidades que eles não pedem. Pais acham graça nas semelhanças que tem com os filhos e carregam a convicção de que o universo se tornou um lugar melhor depois que aquela criatura abriu os olhos pela primeira vez e deu o ar de sua graça.

Deus é pai.

Me pego chorando nos cantos da casa, rindo a toa enquanto espero o elevador. Apaixonado que estou de repente por mais essa criança que ainda nem vi o rosto, ainda nem cheirei o pescoço, sequer toquei e sussurrei em seu ouvido sobre meu amor, na esperança que grave em sua mente virgem a primeira mensagem de seu pai.

Talvez seja um prêmio, essa coisa toda. É possível que Deus nos recompense pelas fraudas trocadas, pelas noites em branco e os fios de cabelos brancos, nos pagando com essa moeda tão cara, o amor. Ele faz multiplicar em nós um sentimento que não podemos comprar. E brota na gente esse negócio, surge e fica ali pra sempre. E não há dinheiro que pague, não há preço pelo qual se venda, não há valor que se exija. Porque quem ama, ganha um presente que doa. E quanto mais amor se dá, mais dele se tem. Sim, o amor multiplica. E filhos são a materialização disso.

Eu diria que já quero mais filhos, quero três ou quatro agora. Mas a Manú me mataria se eu falasse esse tipo de coisa.

Queremos que eles cheguem longe, que enxerguem além do que vimos, que caminhem além das linhas que cruzamos, que evitem os erros que comentemos, que não sofram tanto com uma derrota da Seleção, que escutem a Deus, que sonhem um mundo melhor e o transformem no que não fomos capazes de fazer. Os queremos tão bem que queremos que o mundo seja digno de sua existência.

Porque no fundo é isso. Pais e filhos, imagem e semelhança, Deus e o homem.

É claro que essa história não acaba.

E agora, essa criança, esse outro nós dois que vem para nos transformar mais uma vez em pessoas novas. Porque certamente não é a mesma experiência que se repete — já mudamos tanto desde então. É uma nova etapa, a família crescendo, a partir de agora seremos “nós e as crianças”. A árvore e seus frutos, que dão frutos, que darão frutos, que serão árvores.

A Nina, desde o minuto em que soube da notícia, ficou inquieta. Anda agitada pela casa, manifesta sua alegria incontida com abraços e gritinhos (ah, mulheres…), começou a tomar nota de uma possível lista de nomes para a irmã — por razões compreensíveis ela não considera outra hipótese de sexo — e se preocupa excessivamente com o estado de saúde e a barriga da mãe. Ansiosa, tardou a deitar essa noite.

Agora elas dormem. E eu sonho.

Sonho que veremos outra vez um bebê engatinhando pelo chão da sala. Aqueles pezinhos descalços marcando o assoalho com os primeiros passos, os choros, as primeiras palavras, o cheiro de creme Johnson’s no ar, as noites em branco, as fraldas aos quilos, as canções de ninar, os contos de fadas, as histórias inventadas, as “primeiras vezes” em tudo. Sonho também poder ser um pai mais seguro dessa vez e cometer menos falhas nesses dias que são o começo das vidas das pessoas que mais amo nessa Terra. E sonho também que a Galinha Pintadinha já tenha saído definitivamente de moda nos próximos oito meses (quem merece aquela tortura!?).

Tal como no princípio, continuo sonhando com o tempo em que envelheceremos lado a lado, de mãos dadas. Os dois heróis da vida cotidiana sentados junto à mesa, à espera das crianças para um almoço no domingo. E esse será o verdadeiro prêmio da caminhada toda, eu acho. O quintal verde, um balanço perdurado na árvore, passarinhos, a bagunça dos netos espalhada, um cachorro correndo, os braços abertos para quem volta ao lar. Eu sei que vou me vestir com a melhor roupa para esses momentos e vou usar o perfume que algum deles me deu de presente. Estaremos lá. Sim, porque sempre estaremos à sua espera.

E o tempo dando uma trégua e parando naqueles instantes, aqueles pequenos instantes, que definem nossa eternidade.

A vida só começou.


(capítulo final da série Imagem e Semelhança)

Imagem e semelhança 1 – Livros, moldes e projeções

por Luiz Henrique Matos

A Nina gosta de livros. E você pode imaginar o orgulho que toma conta do pai coruja quando a filha, num shopping center, prefere a “loja de livros” à de brinquedos. E ela se delicia naquele ambiente. E eu me delicio naquela criatura de um metro de altura e fico pensando na nova Cecília Meireles, na Elizabeth Barret Browning, na Jane Austen que vai se formando sob meu teto.

E eu fico pensando o quanto sou estúpido em querer tudo isso.

Como gente egoísta que somos, caímos no erro de projetar em nossos filhos as nossas frustrações. Escritores, advogados, jogadores de futebol… queremos que nossas crias tenham o sucesso que julgamos não ter tido. Ao invés de lutar pelos nossos sonhos, penduramos as chuteiras e passamos a desejar que os pequenos cresçam e se moldem às expectativas que alimentamos sobre eles.

Aí está a diferença do homem em relação a Deus – ou talvez, o contrário seria mais adequado. O Pai não projeta em nós o desejo de que sejamos como ele. Ao contrário, sua glória pessoal é que sejamos totalmente nós, plenos da identidade que ele sonhou para cada um, individualmente.

Daí o erro da religião em querer moldar o homem num padrão de comportamento, caráter e atitude. Daí o erro de todos nós em desejar que nossas crianças se pareçam conosco ou com o ideal de homem que criamos.

Pobres dos filhos, criados para serem livres, mas aprisionadas em gaiolas e estereótipos. Não foi esse, jamais, o sonho do Pai.

Cada pessoa em sua plena humanidade é o reflexo da glória de Deus. Cada pequenino, transbordante de si mesmo, a imagem e semelhança do Criador.

Essa crônica faz parte da série “Paternidade“. Clique aqui ou na página dedicada do menu para ler os textos anteriores.

Contando histórias


Pai e filho (foto de Jim Skea)

por Luiz Henrique Matos

– Papai?
– Oi, filha.
– Senta aqui comigo.
– Claro, querida. Que que você quer?
– Histórinha, papai! Conta uma histórinha?

E lá vou eu. Em minha saga diária de inventar histórias. As preferidas envolvem uvas (isso aí, uvas. Vai entender…) e um passarinho que vive na árvore da casa da vovó. O resto do enredo é por minha conta e risco. E bota risco! As tramas precisam ser originais, senão:

– Não, papai, essa não. Outra.

Às vezes, eu crio histórias aleatórias, por puro entretenimento. Mas em outros momentos, acabo achando que essa é uma chance de incutir bons princípios e ensinamentos na mente da minha filha. E é nessas horas que uvas deixam de chupar chupetas, fazem orações de agradecimento e passarinhos dividem brinquedos com seus amigos de escola.

Fico tentando pensar num jeito de fazê-la entender verdades importantes, de ser educada de um jeito divertido e aprender um pouco sobre o Deus que eu amo, sobre as coisas certas, sobre ser obediente, sobre torcer pro São Paulo.

E acho que as histórias são um bom jeito para isso. Funcionaram comigo, afinal. Quer dizer, funcionam. Seja quando criança, freqüentando a biblioteca pública ao lado da minha escola no Bom Retiro ou lendo as dicas da revista Alegria. Seja agora, já adulto, extraindo valores dos bons romances que carrego pra todo lado embaixo do braço ou entendendo que através das Escrituras, Deus me mostra suas ilustrações e princípios – porque, em certos casos, não importa tanto a literalidade dos fatos, mas seu significado e efeito.

– Papai, conta uma história de você?
– Conto. Qual você quer?
– De você pequeno. Na bicicleta.

Agora ela deu de querer saber da minha infância.

A verdade é que pais são seres insondáveis, grandiosos, infalíveis, perfeitos – e eu tardo a me dar conta de que eu sou, para minha menininha, um herói. Seu mundo, sua história, tudo parece despertar a curiosidade dos filhos. E de alguma forma, é nesse olhar, nessa expectativa toda, que as crianças firmam sua referência.

Eu me lembro do meu pai enquanto eu ainda era criança. Ele era o homem mais forte, o melhor jogador de futebol, o motorista implacável, o churrasqueiro talentoso e, além do Magnum, o único cara bonito de bigode que poderia existir no mundo. E ele me contava as histórias sobre sua vida no sítio, sobre o pai que perdeu na infância, a vinda para a cidade grande… e me ensinou a andar de bicicleta!

E quem imaginaria que tirar as rodinhas da minha Caloi azul-marinho seria, décadas mais tarde, um grande exemplo de bravura e traria novamente à tona todo o sentimento de conquista e liberdade daquele dia? Quem diria que uma dolorosa cicatriz no joelho seria tão útil para ensinar a Nina sobre certos cuidados que devemos ter ao brincar com os amiguinhos – especialmente se for um pega-pega ultra-mega-super-rápido em volta de uma Kombi num chão cheio de areia?

Todo filho deseja conhecer seu pai. E nessa relação de descoberta, das pequenas coisas e das grandes conquistas, o relacionamento amadurece. No conhecimento transmitido, no aprendizado ensinado e nas histórias inventadas. Na troca de palavras e no toque, nisso se solidifica o amor e se edifica uma vida de cumplicidade. Nisso, um filho admira seu pai, o homem se apaixona por Deus, um pai se aproxima do filho, Deus se revela ao homem, um garoto escolhe seu time de futebol e a paternidade ganha um sentido assustador.

Às oito e meia ela dorme. Depois de ouvir uma ou duas histórias, eu cubro minha menina, oro por ela uma outra vez, desejo que tenha sonhos encantadores e deixo o quarto com a luz indireta acesa, sem deixar de estar atento a cada um de seus movimentos.

Então eu me acomodo num canto da sala, recosto a cabeça em algo macio e, com a Bíblia aberta nas mãos, balbucio meu pedido:

– Pai, senta aqui comigo? Me conta uma história de você?

Essa crônica faz parte da série “Paternidade”:

1. A explosão da vida
2. Versos infantis dessa minha felicidade
3. As grandes conquistas do homem
4. As cegonhas não existem
5. O amor, um calção e gestos primitivos (cinco minutos antes de minha vida mudar)
6. Colos, cólicas, chavões e uma crônica de continuação
7. Na falta do que dizer
8. Pequenas lições
9. Doentes curando doentes
10. Primeiros passos
11. Sobre a velhice, rotinas e prioridades
12. Música para os meus ouvidos
13. E o futuro, a quem pertence?
14. Versos infantis 2 – alegria, tristeza e distração
15. De mãos dadas
16. Sobre ser pai no Dia dos Pais
17. A doce presença
18. Transportando tesouros e atropelando cachorros – os heróis da vida pequena