Cenas natalinas: Inverno na Galiléia

por Luiz Henrique Matos

Belém (Vasily Polenov)

Maria observava. O menino crescia com saúde. Era inteligente, curioso e obedecia aos pais. Gostava de brincar nos quintais poeirentos do vilarejo, correndo entre seus irmãos e amigos, e às vezes se enfiava na oficina para observar o pai trabalhando que, orgulhoso, mostrava seu ofício ao filho. Ele era como qualquer criança entre as outras e era isso que a deixava angustiada.

“O que vai acontecer? Quando é que as coisas vão mudar, afinal?”

O passar dos anos nunca apagou o que lhe aconteceu, mas a construção de sua família, a rotina da vida atribulada em Nazaré cuidando dos filhos, o trabalho de José… isso tudo tomava tanto tempo que Maria chegava a passar meses sem refletir sobre o assunto.

Ela pensava em seu bebê que agora era um yeled formado, um menino alegre, com seus oito anos. E não fosse a verdade irrevogável dita por aquele anjo e o milagre que lhe sobreveio depois daquele dia, Maria julgaria que sua vida seguia o caminhar natural das coisas, tal como seria se nada tivesse sucedido.

Mas era só o inverno apontar e o velho pensamento a inquietava.

Era o chegar do vento seco, dos dias gelados e curtos, as lamparinas acesas sobre a mesa e a lenha estalando no fogo para que a casa pudesse aquecer um pouco. Os anos passavam fugazes, mas a cada novo inverno em Nazaré, a lembrança daquela noite lhe vinha à mente como um lampejo.

Cada momento da viagem a Belém eram nítidos para Maria e ela reconstruía a história de sua gestação em cada detalhe. A noite fria de inverno rigoroso, as hospedarias abarrotadas e sem quarto para a família, a estrebaria, as dores do parto, José ao seu lado lhe soprando a face, o choro da criança rasgando o silêncio da noite, a sensação indescritível de dar vida a um ser humano, os anjos louvando nos céus, o Deus vivo sendo acalmado pelo seu leite. A família reunida, a vida em sua plenitude, a promessa cumprida e descansando numa manjedoura. Glória, sono e o amor mais puro transbordando em seu coração.

* * *

“Mãe, está chegando a hora.”

Os anos passaram. O menino cresceu. Maria observava pela porta, apoiada com a mão espalmada sobre as ancas. Cansada. Viúva, pobre, fazia o possível para sobreviver, assim como grande parte da vizinhança. Os filhos todos crescendo e se aprumando, em pouco tempo estaria sozinha. Às vezes se pegava pensando em como as coisas seriam daqui a pouco.

Seu menino vinha do quintal em silêncio. Ele podia não dizer nada, mas pelos passos ela reconhecia cada um. Era assustador notar como o tempo passou rápido e estranho pensar que as crianças que brincavam por ali, agora já eram adultos.

Aos trinta anos, Jesus já estava na idade em que um homem deixa os pais e forma sua família.

“Mas não, ele não. O filho de Deus precisa cumprir sua missão. Ele estudou, era prodígio na Lei, seria Rabi por entre esse povo e querido por todos. Seria o profeta, o Deus vivo… Mas, o que dirão dele? Como o Messias pode ser o filho dessa viúva pobre e ignorante? Como será? Ah, querido, pode não ser fácil! Eu queria poder estar com você e te ajudar. O que o espera lá fora? Certamente o Poderoso guiará os seus passos, mas pudera eu fazer-te sandálias mais confortáveis… Agora, chegou a hora e eu só penso em como meu filho poderá ser profeta em Israel se tudo o que lhe ensinamos foi a disciplina da obediência, o temor a Deus e o ofício do pai? Ah, Deus, não me deixe ter errado em nada!”

Era inverno, já no começo. A noite se afundava fria, a luz do fogo aceso refletia no seu rosto e a imagem da estrebaria ainda era viva em sua mente.

Na companhia do filho mais velho, ela ainda tentava disfarçar. Enquanto o pensamento vagava, os olhos fitavam seu menino, de ombro apoiado na porta, banho recém tomado, um cálice nas mãos, o sorriso fácil estampado no rosto e os olhos vivos – ele não podia esconder o brilho – cheios de expectativa pelos dias que viriam.

Maria se admirava. Seu coração inquieto e cheio de dúvidas era sempre inundado pelo regozijo da promessa divina que se cumpria sob o teto de sua casa. “Foi para isso que ele nasceu!”. E nessas horas, o velho cântico dos anjos lhe saltava pelos lábios.

“Hosana! Hosana! Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade! Hosana!”

Jesus ria da mãe cantarolando.

“Vá, meu yeled, vá! Eu farei uma prece a cada instante. Que a paz reine através de você.”

Esse texto faz parte da série “Cenas natalinas”

1. O filho
2. Noite em Belém
3. Antes e depois

Cenas natalinas: Noite em Belém

por Luiz Henrique Matos

Por Yeshi, pastor de ovelhas em Belém, ano 0 da era cristã:

“Era noite, como fora outras tantas daquele ano. Estávamos no campo cuidando do rebanho e o silêncio da madrugada fazia o frio parecer ainda mais duro. Às vezes o vento vinha forte, deitando o pasto, movendo os sinos de algumas ovelhas e queimando a pele do rosto. Recostados nas pedras do monte, nos revezávamos num sono superficial.

Foi então que repentinamente apareceu aquele homem subindo da parte baixa, vindo do lado oposto da cidade. Alto, branco, iluminado pela luz radiante da lua cheia e de uma estrela que brilhava absurdamente intensa. Alguns pastores ao meu lado julgaram ser um peregrino, outros um ladrão. Ele se aproximou, saudou-nos com um aceno e parou à distância de alguns metros. Confesso que temi. Então tirou o capuz, olhou-nos a cada um e em uma atitude de euforia anunciou com sotaque que até agora não consigo identificar: ‘Não tenham medo; trago-vos a notícia mais feliz e que se destina a toda a gente! Esta noite, em Belém, a cidade de David, nasceu o Salvador – sim, o Cristo, o Senhor. É assim que o reconhecerão: encontrarão a criancinha envolvida em panos e deitada numa manjedoura.’.

Corremos. Eu já nem me lembro dos instantes posteriores ao que ele disse. Do que falava, afinal, aquele homem? Era um anjo, disse um dos nossos. Subiu entre outros ao céu, entoando um cântico de louvor. Ó Deus, eu não lembro!

do pasto, depois a terra da estrada, até que chegamos à aldeia em Belém, para onde indicou que fôssemos. Ofegante, cansado, eu arfava. Pensava nas minhas ovelhas. Com quem as deixei? E se uma delas fugir? É inverno, preciso tosquiar as lãs. O que estou fazendo nessa aventura? Seguimos ao passo da noite, num ruído intenso de vozes, de sandálias pisoteando a grama.

Avistamos o local, diminuímos o passo. Pelas frestas dava para perceber a luz do fogo aceso. Pelo som discreto, pudemos perceber e chegar ao local que o homem indicara: um estábulo!

Sim, eu ouvi o que o homem havia dito, mas… seria mesmo assim? É bem verdade que nos últimos anos minha presença na sinagoga não vinha sendo muito freqüente. As noites no pasto me deixavam com muito sono e mal conseguia me concentrar nas longas rezas. Mas eu me lembro, conheço as profecias, as mais antigas tradições, a esperança de Israel e, não, o Messias viria em Glória, desceria dos céus. Que lugar é esse?!

Não havia anunciação, trombetas, anjos ou louvores. Não chegávamos a uma celebração. Não havia comida ou bebida abundante. Mas, inexplicavelmente, era possível notar que estávamos para encontrar algo especial. Em todo tempo eu me perguntava por que, afinal, eu havia corrido até ali. Mas meu coração explodia no peito. Eu nem sei o que sentia.

Então me acheguei. Então, eu vi. Por entre os animais, um homem de gestos nervosos, coçava a cabeça com fios grisalhos, limpava as mãos com as mangas arregaçadas na túnica que vestia, recolhia água num pote de barro, limpava o suor que escorria pela testa e movia-se zeloso com a mulher. Vi a mulher, uma jovem, pequena, deitada num leito improvisado, exausta, o rosto inchado, os fios de cabelo soltos e embaraçados, o pescoço erguido com o olhar embriagado e inquieto tentando enxergar algo ao redor, a criança. Vi, sim, eu vi uma manjedoura coberta com alguns panos.

Meus sentimentos se confundiam, o estômago parecia revirar. Subia pela garganta um nó que me fazia respirar e soprar o vapor branco da noite fria. E eu sentia calor e calafrios, euforia e medo, esperança e dúvida, decepção e amor. Amor?

Ali, deitado, inocente, os movimentos curtos, frágil, o ruído de choro, um bebê… o Salvador, o Cristo, o Senhor. Nasceu então. Veio ao mundo! Veio? O Bom Pastor, o Cordeiro Santo. Era Deus? Era só um menino. Era Deus!

– Qual o nome da criança? – balbuciei com a voz afinada pelo nervosismo. Em seguida me odiei por ter me manifestado. Quem é que pergunta o nome de Deus? Mas…

O pai nos avistou, virou-se, sondou com estranheza a presença de tantos homens à porta do estábulo. Olhou para a esposa deitada, fitou a criança. Seus olhos marejaram como eu vira poucas vezes antes num judeu adulto. Ele olhou para o céu, avistou a estrela reluzente. Sorriu.

Eu jamais me esquecerei. Naquela noite em Belém, eu ouvi pela primeira vez o nome.

– Jesus… O nome é Jesus.

Então, repentinamente, me veio um cântico à mente. Nem sei de onde me lembrei. Talvez de tempos antigos, talvez dos tais anjos que nem vi no campo. Foi que, posto à cena, meus lábios tremeram e entoaram em gratidão imensa: ‘Gloria a Deus nas alturas! E paz na terra aos homens de boa vontade!’. Hallelujah!”