O engano da felicidade

Banksy

Banksy

Está nos comerciais de TV, está nos livros, está nas estampas de camisetas descoladas, nos posts compartilhados pelo Facebook e nas reportagens especiais do Globo Repórter nas noites de sexta. A felicidade retumbante é só o que desejamos, perseguimos e refletimos com a camada da nossa vida que expomos ao mundo.

Mas é um engano danado isso aí.

Outro dia, véspera de uma data comemorativa qualquer, recebi por email o link para um vídeo novo do Google. Um comercial lindíssimo, daqueles com marido e esposa trocando um com o outro momentos singelos da vida a dois. Uma trilha sonora charmosa ao fundo, aquela edição com cortes de vídeo-clipe e um filtro, uma película sobre a imagem que quisera eu ter uns óculos para só enxergar o mundo com aqueles tons. Era a felicidade, o ideal dela estampado num vídeo de 30 segundos que queria me dizer que eu teria tudo aquilo se… se, juro por Deus, se eu instalasse um software para navegar na internet. Sim, a vida é mais bonita e cheia de sorrisos sinceros de uma linda esposa quando você usa o Chrome para acessar seus emails ou o site do banco para pagar uma conta.

Mas o discurso que nos fazem é tudo o que queremos ver. Já não se vendem mais produtos nos comerciais. Quem, afinal, quer saber sobre o índice de gordura hidrogenada e o sabor pasteurizado de um pote de margarina? “Pra quê vender margarina?” – pensa o publicitário enquanto morde a tampinha da sua Bic e pensa em algo genial, segundo seu próprio julgamento genial. Muito melhor é vender o sonho de um lar aprazível, os primeiros raios de sol entrando pela janela da cozinha, a família reunida em torno da mesa, um labrador saltitando por perto e a mulher maquiada servindo uma torrada na boquinha do marido engravatado. Sim, você compra 500 miligramas de creme vegetal e leva junto a felicidade para a geladeira da sua casa.

Automóveis, cartões de crédito, lâminas de barbear, cerveja, apartamentos. As mensagens são nada originais: compre felicidade.

Porque vivemos na era das sensações. E compramos coisas não mais para usar, mas para “sentir” algo. Como se a vida fosse assim, de fato. Como se mais nada importasse. O negócio todo é ser feliz. Queremos um estado de espírito, queremos ser enganados.

Já nem é preciso ser muito esperto para afirmar que essa busca por uma sensação de realização plena da alma soa meio artificial. As carinhas felizes com piscadelas que nos enviamos ao final de mensagens ;-) essa coisa do “felicidário” que andam circulando por aí, o lance do Butão com seu indicador nacional de Felicidade Interna Bruta, tudo isso vem dando nas ventas.

É implicância minha achar que estamos exagerando? Essa busca toda não vai provocar em nossa geração – e na dos nossos filhos – o sentimento de que qualquer experiência contrária, as frustrações e dores, são repulsivas, incomuns e devem ser evitadas a todo custo? Qualquer contrariedade deve ser rejeitada ou esquecida. Como se não pudéssemos aprender nada com isso. Tropeços, dores e frustrações não nos ensinam tanto ou mais do que momentos de júbilo?

A vida, esse todo da existência, é recheado de imprevistos, de circunstâncias e fatos que, gostemos ou não, compõem o que fomos e nos tornamos. É feita de altos e baixos. E são os pontos baixos que fazem os altos ficarem maiores quando então neles.

No relacionamento que procura estabelecer com o homem, Deus jamais promete essa infinita felicidade. Não há um conto de fadas em que habitaremos de forma encantada, cercados de passarinhos em coro, sem dor, sem decepções, sem uma topada com o mindinho do pé na quina de uma penteadeira.

Não, Deus não promete essa sensação de torpor ou uma anestesia para a vida. Isso é justamente o oposto do seu plano, de que tenhamos uma existência livre e rica. Ele não promete um estado de espírito, promete seu Espírito e uma nova perspectiva nos orientando para enxergar o mundo.

Porque a suprema felicidade a que, sim, podemos almejar, é que Deus promete estar presente. E isso nos basta, nisso não há engano. Não é um comercial, não é margarina, um sorvete ou espuma. Não é uma família sorridente ao redor da mesa. Nada efêmero. Essa presença é a promessa inabalável do puro amor e seu reino, nos inspirando para viver a vida como ela é e como deveria ser.

O espelho

“Quando nos livramos do ego, estamos livres para ver o divino”
-Karen Armostrong

Tem dias, em que por mais que eu me esforce, não consigo encontrar alguém ou algo em que eu possa colocar a culpa por meus problemas. Eu olho no espelho e o vidro está rachado. Preciso reconhecer que fracassei. Admitir que a culpa é toda minha, olhar aquele reflexo torto e fitar a dura realidade nos olhos. Perdi uma, ou mais uma.

Imperfeito, incompleto, pecador. Toda vez que me deparo com a frustração de não poder fazer algo contando apenas com minhas forças, caio abraçado com meu orgulho. A consciência de que não sou auto-suficiente é o choque de humildade de que necessito para reconhecer que preciso de ajuda. No fundo do poço, expelidas todas as camadas de superficialidade, eu me revelo. Resta pouco ou quase nada do que é rótulo, cai a máscara, sobra a essência.

E talvez a surpresa mais escandalosa seja, na hora inglória, olhar em frente e enxergar a imagem do Cristo. A notícia pungente é ter que encarar o fato de que, em meu resgate, Deus não me leva de volta a ponto de conforto algum onde eu gostaria de estar. Ele se rebaixa, se acomoda. Deus já estava ali.

Toda vez que me humilho e me sinto inferior à condição do mundo, estou, na verdade, me aproximando da imagem de Jesus. É controverso, mas o padrão de sucesso dele é assim. O Deus que vira homem, o Messias que caminha com ladrões e prostitutas, o Mestre que lava os pés dos seus discípulos, o Senhor que a todos torna e trata como iguais. É na simplicidade da alma que ele me encontra, na essência do que fui criado para ser, sem as cascas, que ele se revela, me cura e me guia de volta pelo Caminho.

Ficamos cegos às vezes, insensíveis. O fato é que Deus nos dá sua presença e temos tanto dele o tempo todo – nos eventos cotidianos e na natureza – que já não nos damos conta do deserto cruel que seria a sua ausência. Não sabemos o que é sentir fome. No entanto, quando nos deparamos com o que somos de fato, como num espelho, entendemos nossa natureza.

Precisamos reaprender a viver carentes da influência de Deus. Com fome, com sede, ansiosos por aprender e ter mais da sua pureza influenciando nossas mentes.

“Ele tinha a natureza de Deus, mas não tentou ficar igual a Deus. Pelo contrário, ele abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo, tornando-se assim igual aos seres humanos. E, vivendo a vida comum de um ser humano, ele foi humilde e obedeceu a Deus até a morte – morte de cruz.” (Filipenses 2:6-8)

Jesus veio ao mundo e nos mostrou que é debaixo para cima que se olha para o céu. E é lavando os pés que nos relacionamos com o próximo. Cada vez que enxergo o reflexo da minha fragilidade e me reconheço nele, me aproximo, me preencho de seu Espírito e sou renovado. Porque a consciência de que dependo totalmente é a revelação de que só sou, de fato, quando estou em Deus.

“Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.” (2 Coríntios 12:9-10)


(Crônica publicada no site carisma.com.br)