Caminhada

por Luiz Henrique Matos

Nas últimas semanas tenho vivido uma experiência que não experimentava há muito tempo: caminhar. Não falo de caminhadas como atividades físicas – que, a propósito, também não faço com a assiduidade que deveria – mas como meio de locomoção básico e fundamental entre minha casa e o escritório.

Devo dizer que não tem sido um ato voluntário. Meu carro está na oficina e meio que aproveitando a situação atípica, resolvi que faria todo trajeto que fosse possível andando.

No fim, noto que tem sido bom. Tirando um ou outro desconforto com o qual eu já não estava habituado – tipo dores nas panturrilhas, pessoas me apertando no trem e a multiplicidade de odores se misturando no ambiente – tenho gostado desses momentos. Em 20 dias a pé, já notei algum avanço físico. Venho me pesando com freqüência e, pelas contas, perdi cerca de 300 gramas. É praticamente a porção de queijo prato fatiado que compro na padaria.

Eu poderia arriscar aqui uma seqüência de metáforas entre a caminhada e a vida (é incrível como é frutífero pensar nesses clichês, posso imaginar uma série deles), mas isso seria muito lugar-comum e acho que vou te poupar disso. Acho.

O que tem sido interessante, principalmente, é a oportunidade de ficar em silêncio e poder me concentrar em uma única atividade durante um tempo. É fato que o período da caminhada não pode ser abreviado, existe uma distância a ser percorrida, eu tenho um limite de velocidade na minha passada e então não há muito que se possa fazer senão ligar a música, colocar um pé na frente do outro e seguir em frente.

Bom, parece meio idiota, mas para alguém que passa a maior parte do dia entretido com uma dezena de atividades simultâneas, isso é um bom exercício de foco. No mais, o que me resta é gastar esses minutos pensando e observando o cenário ao redor.

E acho que posso dividir as coisas dessa forma:

Um: Pensar

O que poderia ser um exercício de auto-conhecimento está sendo, na verdade, a parte menos produtiva da história toda. Eu costumava acreditar que teria oportunidade para meditar e refletir sobre a vida. Pensei que faria minhas orações e tomaria decisões importantes nesse tempo de quietude. Mas tem sido um tanto frustrante por esse ponto. Eu mal começo a considerar alguma situação específica e numa fração de tempo minha mente entra num vazio completo. Quando desperto desse estado, não faço a menor idéia do que se passou, penso em três milhões de coisas e nada que possa reter, é como se o cérebro entrasse em hibernação.

Comecei a ficar preocupado. Até que peguei um livro do escritor Haruki Murakami em que ele comenta sobre o que se passa em sua mente enquanto treina corrida: nada. Ele chama isso de vácuo. E saber que alguém também sofre do mesmo mal é algum consolo, principalmente porque ele é japonês e esses caras japoneses costumam ser bem focados. Mas, por outro lado, ele tem 60 anos, corre 10 quilômetros e nada 1500 metros todos os dias. Nem que eu fosse o Secretário Geral das Nações Unidas acho que conseguiria pensar em coisas produtivas por tanto tempo.

Dois: Observar

Se a reflexão tem sido frustrante, acho que um hábito meio vergonhoso que adquiri tem uma parte de responsabilidade nisso: é a mania de ficar olhando para as pessoas e tentar imaginar a vida que levam. Entenda, não é nenhum julgamento preconceituoso. É que nas ruas, você cruza com todo tipo de gente, fica perto de uma porção de desconhecidos e acaba sendo inevitável ceder à curiosidade de criar personagens a partir desse tipo de suposição.

Se me permite…

Tem um homem, ele trabalha como gari e varre a calçada de uma avenida por onde passa gente e carro sem parar. Eu o vejo quase todos os dias, tem a pele escura, um ou dois dentes faltando no sorriso, bigode ralo, vassoura nas mãos e o uniforme de cor laranja berrante. Ele é nordestino. Fico tentando imaginar as circunstâncias que o trouxeram para o Sudeste. O que será que ele pensa sobre o próprio ofício? Entenda, varrer o pó de uma avenida em São Paulo é algo como enxugar gelo na praia e ele faz isso por oito horas, diariamente. Penso então que quando acaba o expediente, ele toma um banho, troca de roupa e segue para sua casa onde deve ser o herói de alguns garotos. A esposa e os filhos estão esperando em casa pelo pai que chega, já à noite, cansado do dia na rua. Faz sua refeição, checa a lição de casa do mais velho, assiste a novela com a patroa e dorme em paz num quarto bem pequeno. Esse homem deve jogar um futebol com seus meninos no sábado a tarde. Pode ser que ele ligue para os parentes em sua cidade natal de vez em quando, pode ser que sonhe ganhar a vida na cidade para juntar algum dinheiro e voltar para sua terra um dia.

Teve um casal. Ambos desajeitados, brancos, extremamente altos e um pouco obesos. Andavam bem rápido. Eu os vi descendo a rua desde lá de cima, com as mãos dadas e dedos entrelaçados, conversavam animadamente e a toda hora os olhares se cruzavam e sorriam. Deviam namorar há poucas semanas. Pareciam tímidos. E pensei que possivelmente estiveram apaixonados por um tempo antes de se declararem. Deviam trabalhar no mesmo escritório, mas não tinham coragem de se convidar para um café, até que um dia ele mandou o MP3 de uma canção do Elvis Costello para ela por e-mail e foi aí que as coisas começaram. Estavam apressados para ir ao cinema ver qualquer filme em cartaz. Eles ficarão noivos daqui um tempo, farão uma viagem pela Irlanda quando casarem, demorarão para ter filhos, mas quando vierem, ela vai largar o trabalho para se dedicar à casa.

E tinha também uma mulher e sua filha. Eu as vi sentadas num vagão de trem meio vazio numa manhã de terça-feira. A menina de cabelo cacheado, comportada, bonita, banho recém tomado. Tinha aquele olhar inocente, devia ter sete ou oito anos. Carregava sua boneca num braço e a própria mochila sobre o colo, porque a mãe já levava uma carga pesada demais. As sacolas de compras, uma mala, as blusas para caso esfriasse, um guarda-chuva. Ela tinha o olhar cansado, olhava ao redor procurando uma resposta. Queria entender porquê tudo isso com ela, porquê ele foi embora depois de tantas promessas, sempre queria, mas já havia se conformado. Aquela era a vida, que a menina aprendesse e não precisasse passar pelo mesmo. Era assim que ela demonstrava seu afeto. Essa era sua luta diária, sua esperança e sua busca. Ela queria acreditar que tinha um destino naquele trajeto.

É assim que eu gasto meu tempo. Meu rico tempo que deveria ser rico e cheio de meditações, veja você. Mas por favor, entenda, não quero fazer julgamentos e nem acho que esteja em posição para isso. Por isso, me constranjo. Fico encabulado porque acho que é bem possível que alguém pense esse tipo de coisa de mim também. Tenho isso como algo certo. E, sabe, se as pessoas tiverem essa mesma mania, eu devo ser um alvo bem estranho. Eu penso um pouco nisso. Se alguém fica curioso olhando para um sujeito como eu, o que deve pensar? Aí começam as neuras todas.

Geralmente, quando minha mente chega nesse ponto, é o momento em que percebo o quão improdutivo é o tal do estado de vazio em que me afundo. Esse é o limite. E eu penso: sério mesmo, Henrique? Com tantos problemas para resolver e tanta coisa importante em que se concentrar, você está mesmo pensando nisso agora? E aí então o ciclo recomeça.

* * *

Tem sido assim em todos esses dias. Na ida e na volta do trabalho, nos deslocamentos até um comércio ou a oficina para acompanhar o conserto do carro. Vou andando. Minha rotina foi sensivelmente alterada e isso tem tido algum efeito benéfico sobre mim.

O trecho mais longo da caminhada é na volta para casa. Desço numa estação de trem das proximidades e caminho por pouco mais de 40 minutos até abrir a porta da sala. Dou de cara com as duas expressões risonhas e os beijos capazes de restaurar o cansaço da maratona. É nesse instante exato que o tal vazio da mente se preenche com a razão da existência do homem – esse homem, pelo menos. Em um minuto assim, um minuto que qualquer sujeito vive, pensei certo dia que se alguém com quem cruzei pela rua fizesse mesmo de mim algum julgamento, se quisesse encontrar um adjetivo para me definir, poderia ter uma palavra em mente: afortunado.

É uma boa palavra. É a minha riqueza. É um lugar-comum, eu sei. Mas é um bom caminho para se percorrer todos os dias.

Do que eu falo quando eu falo de corrida

“Muitas vezes me perguntam no que eu penso quando corro. Em geral, as pessoas que perguntam isso nunca correram longas distâncias. Sempre reflito sobre a pergunta. o que exatamente penso quando estou correndo? Não faço a menor ideia.

Em dias frios, acho que penso um pouco sobre quanto está frio. E nos dias quentes, em como faz calor. Quando estou triste, penso um pouco sobre a tristeza. Quando estou feliz, penso um pouco sobre a felicidade. Como já mencionei, lembranças aleatórias me vêm à cabeça, também. E ocasionalmente, muito difícil, sério, tenho uma ideia para usar em um romance. Mas na verdade quando corro não penso em quase nada que seja digno de mencionar.

Apenas corro. Corro num vácuo. Ou talvez eu deva me colocar de outra forma: corro a fim de conquistar um vácuo. Mas, como seria se esperar, um pensamento ocasional vai invadir esse vácuo. A cabeça de uma pessoa não consegue se manter num vazio completo. As emoções não são fortes ou consistentes o bastante para sustentar um vácuo. O que quero dizer é que o tipo de pensamentos e ideias que invadem minhas emoções quando corro permanece subordinado a esse vácuo. Na falta de conteúdo, eles não passam de pensamentos aleatórios que giram em torno desse vácuo central.”

Do escritor Haruki Murakami em seu novo livro “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, em que trata, além do óbvio (ele corre maratonas), sobre sua carreira como romancista e a experiência de envelhecer.

Fiquei um pouco impressionado com o quanto me identifiquei com algumas das opiniões relatadas nos ensaios e as experiências de Murakami (claro que não estou me referindo às maratonas).

Já terminei a leitura, mas vou publicando trechos por aqui.

Corrida – Forrest Gump e eu

por Luiz Henrique Matos

“Run, Forrest, run!”
(Jenny Curran, em Forrest Gump)

Comecei a correr.

Nunca tive muita habilidade para esportes. Reconheço, entretanto, que demorei para aceitar o fato. Ainda aos onze anos, eu tinha certeza de que um dia seria zagueiro do meu time de coração – bom, se um garoto sonha ser zagueiro, já dá indicações significativas de que não nasceu mesmo para a coisa. Mas depois de passar infância e adolescência entre os últimos escolhidos nas seleções de times na várzea da rua de baixo, não tive muita opção e acabei pendurando as chuteiras (sem muito uso, é verdade).

A vida passaria sem maiores dificuldades não fosse o fato de que hoje, beirando os 30 anos, noto que na mesma medida em que perco cabelos, ganho peso. Até que a ciência consiga provar a relação entre um efeito e o outro, eu sigo “expandindo” além do que deveria. Estou quase quinze quilos acima do normal e minha circunferência abdominal exige que eu faça algo urgente a respeito (tudo bem, a Manú exige bem mais do que a circunferência).

Encontrei então na corrida uma alternativa possível. Me pareceu um esporte menos complexo do que o futebol ou o tênis porque correr, no fim das contas, é o mesmo que andar bem depressa e com saltos. Se eu souber colocar um pé na frente do outro e me mover com certo impulso, então devo estar apto para a coisa.

Como fator motivacional, ganhei um par de tênis de presente no Natal. Depois de pensar no assunto por uns dois ou três anos, dei meus primeiros passos.

– Neguinha, andei pensando, acho que vou fazer corrida. É um esporte simples, está na moda, eu posso fazer em qualquer lugar, já tenho esse tênis legal… O que você acha?

A Manú ficou em silêncio. Não sem razão, em onze anos de relacionamento, já deve ser vigésima sexta vez que prometo começar alguma atividade e entrar em forma. Mas lá no fundo, eu podia ouvir minha querida esposa dizer: “Run, Henrique, run!”

Forrest Gump e eu.

Há algum tempo, assisti a uma palestra do Rick Warren e ele ensinou que se conseguirmos praticar algo por seis semanas consecutivas com uma certa frequência, então aquilo se transforma num hábito que não abandonamos com tanta facilidade. Ele falava sobre a disciplina em nossa espiritualidade e em como é importante manter uma rotina devocional para amadurecermos em nossos relacionamentos com Deus e com outras pessoas.

Lembrei disso em fevereiro deste ano, quando finalmente comecei minha atividade física com o tênis que já não era tão novo. Eu estava correndo três vezes na semana e isso me empolgou. Na ocasião, comentei com um amigo: “Eu devo ter um mínimo de inteligência e força de vontade. Não é possível que não seja capaz de fazer algo por míseras seis semanas.”

Na quarta semana, eu parei.

Rick Warren e eu.

Nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, o maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima liderava a principal prova dos jogos. Ele já estava na etapa final, faltavam apenas seis quilômetros para vencer a corrida (uma maratona tem 42) e mantinha um bom ritmo e vantagem sobre o segundo colocado. Vanderlei passava por uma avenida da cidade e era ovacionado pelas pessoas que assistiam nas calçadas. De repente, um sujeito invadiu a pista e se jogou sobre ele. Os dois sumiram no meio da multidão. As pessoas ajudaram, Vanderlei se esquivou do sujeito, levantou, retomou a passada e seguiu em frente. Mas então, com o ritmo comprometido, ele perdeu duas posições e, ao invés do ouro que parecia garantido, voltou para casa com a medalha de bronze.

O maluco que se jogou sobre o corredor e boicotou sua conquista foi Cornelius Horan, um ex-padre irlandês que defendeu seu gesto como uma forma de protesto religioso.

Boicote. Na maior parte das vezes, eu sou o meu próprio padre irlandês. Encontro justificativas bizarras – e até acredito nelas – para arruinar meus planos quando eles estão em seu melhor momento.

Cornelius Horan e eu.

Geralmente, atribuímos nossos fracassos a alguém ou alguma força do mal que certamente conspira contra nossas vidas. Mas o fato é que, em grande parte, somos nós quem atrapalhamos nossos projetos. Os conflitos no casamento, a carreira que não avança, um livro lido pela metade, a reforma da casa inacabada, a vida de oração que se esfria… tudo ia tão bem e, de repente, num dia meio nublado, a gente acorda e simplesmente deixa que a preguiça nos impeça de seguir em frente.

E é aí que nossa vida de oração é interrompida por uma bola de sorvete, que paramos com a corrida por um pecado bobo, que nossa dieta vai pelo ralo porque não quisemos acordar mais cedo. E tudo se mistura, a vida vira essa bagunça toda, nos culpamos por alguns minutos, os dias vão passando, aí culpamos alguém, reclamamos da falta de tempo, reclamamos da vida e aceitamos mais uma derrota porque, afinal, alguma força do mal certamente conspira contra nossas vidas.

A hiena Hardy e eu.

No fundo, gostaríamos mesmo é de calçar um par de tênis e correr dez quilômetros no primeiro dia. Desejamos tomar uma pílula e ver nossas doenças curadas. Dormir e acordar sem preocupações no outro dia. No fundo, esperamos que Deus esteja pronto para aliviar nossa carga e resolver as dificuldades como um motoqueiro que entrega a pizza no prazo combinado. Queremos coisas imediatamente. Queremos juntar as mãos numa oração breve e saber que nosso relacionamento com Deus será íntimo e já não cometeremos tantas bobagens.

Mas a verdade – que preciso aprender urgentemente – é que o progresso se constrói lentamente. Também é verdade que as coisas dependem mais de nós do que gostamos de admitir – tá aí outra coisa para eu aprender urgentemente. Somos responsáveis pelos frutos das sementes que lançamos. E a realização é fruto de disciplina, fé e perseverança.

Como na corrida, é preciso percorrer um passo de cada vez, um metro a cada passada e, assim, um quilômetro inteiro, depois dois, três, quatro, cinco… e quarenta e dois. E um casamento feliz, uma mãe reencontrando sua filha, um rapaz concluindo os estudos, um homem vencendo o câncer, um livro publicado, o pão de cada dia posto sobre a mesa, a voz de Deus ao seu lado, a minha “barriga tanquinho”.

Schwarzenegger e eu.

“Vocês não sabem que de todos os que correm no estádio, apenas um ganha o prêmio? Corram de tal modo que alcancem o prêmio. Todos os que competem nos jogos se submetem a um treinamento rigoroso, para obter uma coroa que logo perece; mas nós o fazemos para ganhar uma coroa que dura para sempre. Sendo assim, não corro como quem corre sem alvo, e não luto como quem esmurra o ar.” (Paulo, em 1 Coríntios 9:24-26).

É importante saber onde se quer chegar. Mas não adianta querer chegar ao destino sem percorrer o trajeto. O corpo precisa entrar em forma, o caráter precisa ser moldado, há um aprendizado em todo processo. Precisamos dar o primeiro passo. Precisamos dar o segundo passo também. Mas confiantes de que nunca estamos sozinhos. Em cada etapa dessa jornada, Deus nos acompanha e nos inspira. E é assim, avançando dia após dia, que os milagres acontecem.

E eu sigo. Num dia de cada vez, sigo acreditando. E caminhando.

Deus e eu.