A história sem fim – o capítulo final de um livro que não termina

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(1 de agosto de 2014)

Às vezes, tudo parece voltar ao começo. A sensação de que certas experiências se repetem, a história passa pelos olhos e concluímos que vivemos de começar e encerrar ciclos.

Agora é noite. Já fiz minha ronda pela casa. Fui até a cozinha, enchi os três copos de água que sempre deixo sobre os criados-mudos de todos. Fiz um cafuné na Lucy com o pé enquanto cruzava a sala. Entrei no quarto da Nina, a cobri melhor, ajeitei seu cabelo, beijei sua testa e fiz uma prece. Então vim para a minha cama escrever.

Lá fora está frio e alguns pássaros fazem festa nas árvores do campo ao lado de casa. O dia entra em repouso enquanto, ao meu lado, observo por um instante a mulher da minha vida. Ela dorme. A sutileza de seus gestos, a respiração leve, o rosto delicado, os cabelos soltos meio bagunçados sobre o travesseiro de fronha branca que ela faz questão de comprar pelo toque e não pelo preço. Temos sido felizes. Dividimos tanto que, ao longo dos anos, já nem sabemos o que é um e o que é o outro. Mas quando a vejo desse jeito, lembro que ela ainda é aquela menina, a minha menina de 15 anos atrás, para quem paguei um lanche e levei ao cinema no primeiro encontro, dei a mão para atravessar a rua na saída e nunca mais soltei.

Hoje ela me deu a notícia de que está gravida outra vez.

Seremos quatro.

E se havia um desfecho ideal para esse ciclo, ei-lo aqui. Não vou negar que não pensei nisso. Há alguns anos, quando esses relatos sobre paternidade começaram a se tornar uma seqüência e a Manú começou a me incentivar para que os compilasse — talvez, num livro — comecei a pensar que seria bom demais se pudesse, um dia, poder escrever um último capítulo narrando a sensação da paternidade outra vez e testificar que a história se repete, que as sensações de repetem, que a emoção toda vem à tona outra vez e o amor se multiplica em nova medida instantaneamente em nosso peito por um ser humano que já existe mas que ainda nem conhecemos.

Sim, acontece tudo isso.

Sim, o amor se multiplica. Seremos pais, tudo outra vez, a sensação toda outra vez. Dentro dela, um coração novo já bate, a vida pulsa, um ser humano virá ao mundo. Mais um pedaço de nós, mais uma criação de Deus, outra criança para nos realizar e fazer a felicidade, a tão desejada felicidade, ser essa coisa que a gente até alcança com as mãos, até ampara com as mãos, embala no colo até.

Porque já parecia impossível e tínhamos na conta a resignação de que nosso sonho de um par de filhos correndo em volta da mesa talvez fosse grande demais. Mas quem foi que disse que a capacidade de Deus se limita à nossa visão? O Pai ultrapassa barreiras pelos filhos. Seus braços sempre estendidos, o amor que rasga a eternidade para nos alcançar. Somos pequenos demais.

Gratidão. Não posso expressar outro sentimento agora. Impossível imaginar estado de espírito melhor. E sei que não será como da outra vez. A Nina mudou completamente quem somos. Somos pessoas melhores graças a experiência de ter uma filha como ela. Porque tem sido ela, do seu jeito, que nos transformou em pessoas mais preocupadas com outro ser humano além de nós mesmos. Ser pai é ser um pouco mais de si duas vezes, é ser você mesmo e também o outro, é continuidade e desapego. É o nosso amor que se concretiza plenamente em um coração fora de nós.

Porque pais doam, pais protegem, ensinam, enxugam lágrimas e contam histórias. Pais acham bonito até o que é de gosto duvidoso, rolam no chão, brincam de boneca, pegam no colo, constroem mundos imaginários numa barraca no meio da sala. Pais comem os restos, dividem, abrem mão só para ver aquele rosto feliz. Pais disciplinam, falam duro e depois choram escondido, pais atrasam o passo para o filho acompanhar. Pais arrancam dentes moles, pais fazem corpo mole no jogo para ver o pequeno vencer, deixam de lado o futebol na TV para ser derrotado numa batalha de cócegas. Pais curam com beijinhos, pedem beijinhos o tempo todo, têm essa carência eterna do toque de sua cria. Pais saem mais cedo de uma reunião importante no escritório só para ver o ensaio-da-cantata-para-a-festa-de-encerramento-do-primeiro-bimestre-do-pré-primário e depois ficam até mais tarde no trabalho para garantir o pão na mesa toda manhã. Pais sonham, tem esperança, enfrentam e vencem os monstros, reais e imaginários, para que seus filhos trilhem caminhos mais serenos. Pais observam enquanto eles dormem, escutam até o que eles não falam e atendem as necessidades que eles não pedem. Pais acham graça nas semelhanças que tem com os filhos e carregam a convicção de que o universo se tornou um lugar melhor depois que aquela criatura abriu os olhos pela primeira vez e deu o ar de sua graça.

Deus é pai.

Me pego chorando nos cantos da casa, rindo a toa enquanto espero o elevador. Apaixonado que estou de repente por mais essa criança que ainda nem vi o rosto, ainda nem cheirei o pescoço, sequer toquei e sussurrei em seu ouvido sobre meu amor, na esperança que grave em sua mente virgem a primeira mensagem de seu pai.

Talvez seja um prêmio, essa coisa toda. É possível que Deus nos recompense pelas fraudas trocadas, pelas noites em branco e os fios de cabelos brancos, nos pagando com essa moeda tão cara, o amor. Ele faz multiplicar em nós um sentimento que não podemos comprar. E brota na gente esse negócio, surge e fica ali pra sempre. E não há dinheiro que pague, não há preço pelo qual se venda, não há valor que se exija. Porque quem ama, ganha um presente que doa. E quanto mais amor se dá, mais dele se tem. Sim, o amor multiplica. E filhos são a materialização disso.

Eu diria que já quero mais filhos, quero três ou quatro agora. Mas a Manú me mataria se eu falasse esse tipo de coisa.

Queremos que eles cheguem longe, que enxerguem além do que vimos, que caminhem além das linhas que cruzamos, que evitem os erros que comentemos, que não sofram tanto com uma derrota da Seleção, que escutem a Deus, que sonhem um mundo melhor e o transformem no que não fomos capazes de fazer. Os queremos tão bem que queremos que o mundo seja digno de sua existência.

Porque no fundo é isso. Pais e filhos, imagem e semelhança, Deus e o homem.

É claro que essa história não acaba.

E agora, essa criança, esse outro nós dois que vem para nos transformar mais uma vez em pessoas novas. Porque certamente não é a mesma experiência que se repete — já mudamos tanto desde então. É uma nova etapa, a família crescendo, a partir de agora seremos “nós e as crianças”. A árvore e seus frutos, que dão frutos, que darão frutos, que serão árvores.

A Nina, desde o minuto em que soube da notícia, ficou inquieta. Anda agitada pela casa, manifesta sua alegria incontida com abraços e gritinhos (ah, mulheres…), começou a tomar nota de uma possível lista de nomes para a irmã — por razões compreensíveis ela não considera outra hipótese de sexo — e se preocupa excessivamente com o estado de saúde e a barriga da mãe. Ansiosa, tardou a deitar essa noite.

Agora elas dormem. E eu sonho.

Sonho que veremos outra vez um bebê engatinhando pelo chão da sala. Aqueles pezinhos descalços marcando o assoalho com os primeiros passos, os choros, as primeiras palavras, o cheiro de creme Johnson’s no ar, as noites em branco, as fraldas aos quilos, as canções de ninar, os contos de fadas, as histórias inventadas, as “primeiras vezes” em tudo. Sonho também poder ser um pai mais seguro dessa vez e cometer menos falhas nesses dias que são o começo das vidas das pessoas que mais amo nessa Terra. E sonho também que a Galinha Pintadinha já tenha saído definitivamente de moda nos próximos oito meses (quem merece aquela tortura!?).

Tal como no princípio, continuo sonhando com o tempo em que envelheceremos lado a lado, de mãos dadas. Os dois heróis da vida cotidiana sentados junto à mesa, à espera das crianças para um almoço no domingo. E esse será o verdadeiro prêmio da caminhada toda, eu acho. O quintal verde, um balanço perdurado na árvore, passarinhos, a bagunça dos netos espalhada, um cachorro correndo, os braços abertos para quem volta ao lar. Eu sei que vou me vestir com a melhor roupa para esses momentos e vou usar o perfume que algum deles me deu de presente. Estaremos lá. Sim, porque sempre estaremos à sua espera.

E o tempo dando uma trégua e parando naqueles instantes, aqueles pequenos instantes, que definem nossa eternidade.

A vida só começou.


(capítulo final da série Imagem e Semelhança)

Seis anos e a eternidade pela frente

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Seis anos. Eu ainda me lembro da festa. Foi uma surpresa tramada pelo meu irmão e minha mãe. À tardinha, saí de bicicleta para buscar um jogo na casa de um amigo e, quando voltamos, tudo escuro, já estavam todos escondidos na cozinha. Amiguinhos, vizinhos, primos e familiares saltaram detrás da geladeira, da porta e debaixo da mesa. Eu lembro da farra, do bolo, de alguns presentes e do meu pai dizendo: “É, cara, já encheu uma mão inteira e agora vai começar a contar na outra”. E aquilo era toda a maturidade com que eu podia imaginar.

São dessa idade as primeiras lembranças ordenadas que guardo da infância. Bom, tem realmente pouquíssimas coisas que eu faço acima da média, uma delas é ter uma memória visual impecável. Eu não sei jogar bola, sou incapaz de tocar uma guitarra, mas sou bom pra burro com a memória. Fatos, cores, cenas, detalhes, diálogos, nada me foge. E desse tempo na infância, às vezes as lembranças me resgatam como uma âncora. Lembro em detalhes da vila onde morávamos lá na Barra Funda, as casas pequenas, todas iguais, grudadas umas nas outras. O cheiro e o som da fábrica de asfalto cujo sinal apitava toda manhã na avenida, os bem-te-vis que cantavam numa árvore cuja copa se projetava sobre o nosso quintal bem perto da janela do quarto onde dormíamos, os três irmãos.

Estávamos nos anos 80, era o tempo do meu primeiro ano na pré-escola, das brincadeiras de bola, de pipa, figurinhas da Copa União e rachas de carrinho na rua. Foi naquele ano que aprendi a decifrar as primeiras palavras escritas e todo o mundo de descobertas que surgiu depois disso. O mundo. O mundo para mim era aprender, era o som dos Titãs tocando “cabeça, cabeça, cabeça dinossauro…” no micro-system do meu primo, era aquele presidente bigodudo anunciando coisas e coisas na tevê com uma voz estridente e preocupante, era a vinheta do jornal da Jovem Pan tocando no rádio do Fusca do meu pai enquanto eu ia pro colégio e o sol nascia através do pára-brisas. E tirando uma viagem por ano para a Praia Grande, meu mundo todo era aquela pequena vila de 30 casas que eu explorava tarde afora em cada detalhe.

Era tudo o que eu tinha. Eu tinha seis anos e nem imaginava o que vinha pela frente.

Hoje a minha filha faz seis anos.

Ontem, antes de dormir, a Manú e eu recapitulamos para ela a história do dia em que nasceu – ela adora ouvir – e depois, enquanto fazíamos a nossa prece rotineira e casualmente me dei conta do tamanho que a Nina tem agora, essa criança cheia de personalidade e graça que já ocupa seu espaço na casa e nas nossas vidas, me senti intensamente grato, fingi um cisco nos olhos, mudei o rumo da conversa e saí de lado. “Hora de dormir, filha, vê se pega logo no sono. Tenha bons sonhos”.

Com o quê nossa menina vai começar a sonhar? Como será que ela vê as coisas hoje?

Não foi um dia de festa surpresa para ela. Teve escola como todo dia, teve trabalho, consulta médica e lição de casa. A rotina que se impõe sobre a gente fez com que o aniversário dela corresse como num dia qualquer. Só mais a noite, já no fim do dia, é que a levamos para um passeio, um sorvete, um livro novo, brincadeiras, uma bonequinha, o lanche e, em poucas horas, a sensação infantil de que o dia era todo dela.

Não sei dizer se daqui a 26 anos ela vai se lembrar desse dia. Tentamos tornar as coisas memoráveis, nos esforçamos nessa busca tola por grandes experiências na vida, mas sabemos bem que não são exatamente essas situações que nos marcam. A memória nos trai, a vida faz curvas e no fim as histórias que levamos na bagagem são, em geral, as menos prováveis. Mas fico tentando imaginar o que a Nina vai guardar desse tempo. Do que ela vai se lembrar? Quais serão, quando adulta, as lembranças remotas que ela terá da infância? Os amigos, a casa, as Escrituras, a escola, a cachorrinha nova que chegou por aqui há duas semanas – Lucy, muito prazer. Será que ela terá consigo a raiz ainda firme com os princípios que a Manú e eu tentamos ensinar diariamente? Que princípios devemos ensinar para ela? A paternidade é um fardo adorável.

Ela tem pressa. Tenho quase certeza de que esses seis anos se passaram, na verdade, em três. Papo sério, acho que tem gente conspirando e fazendo tudo andar mais rápido e os cabelos ficarem brancos mais cedo. E eu bem sei que nesse ritmo, já, já ela vai ganhar o mundo, vai sair de debaixo das nossas asas e voar por aí sem que a gente possa controlar ou prover, vai descobrir e construir seu próprio mundo, sua visão de mundo, vai notar um dia que não passávamos de um casal bem-intencionado que, entre muitos erros, deixaram escapar alguma coisa boa que servirá para que ela seja alguém muito melhor do que jamais imaginamos ser. Esse é o sonho, é um desejo, é até uma oração agora. Sua liberdade será a nossa eterna insegurança. E então, só o que poderá trazê-la de volta vez ou outra para nosso ninho, é essa mesma liberdade, o desejo de vir e sentir-se querida. O único princípio que podemos ensinar pra ela é o amor. A paternidade jamais é um fardo.

Ainda ontem, antes de dormir, enquanto eu me esgueirava quarto afora com aquela lagriminha correndo num canto dos olhos, ela me lançou uma pergunta:

“Pai, quando a gente for pro céu, nossa vida nunca mais vai acabar?”

“Não, filha. Deus fez a gente para viver pra sempre.”

“Pra sempre?”

“É. Isso que chamamos de eternidade.”

“Pai, quando eu for pro céu, eu queria continuar sendo criança.”

Isso deveria ser uma condição, certo? Não resisti: “Faz bem, querida. Você sabia que Jesus falou que todo mundo, os adultos todos, deveriam mudar e tentar ter um coração como as crianças tem?”

“Boa noite, pai” – ela não estava interessada em teologia.

Ela tem seis anos e nem imagina o que vem pela frente. E aí mora toda a beleza da coisa. Somos filhos. Quem é que imagina, afinal?

A melhor história real de todos os tempos

Belíssimo projeto do Voa Flor.

Cenas domésticas: aula de finanças pessoais

– Olha ali, Nina, tem umas crianças brincando no parque.
– Depois a gente vai lá, né pai? Depois da casa da vovó.
– Vamos sim.
– Pai, mas pra ir lá brincar você tem que ficar aqui comigo sempre.
– Mas e meu trabalho?
– Não, pai, não pode ir trabalhar lá longe, tem que ficar aqui o dia todinho.
– Entendi. Mas, filha, se o papai não trabalhar, como é que a gente
faz pra comprar comida?
– Já tem comida em casa.
– Mas tem que comprar sempre. E quando acabar a comida? O papai tem que ir ganhar dinheiro.
– Pai, eu compro.
– Você?
– É, eu tenho um dinheirinho.
– Ah, tem é?
– Ahãm.
– E com seu dinheiro dá pra comprar comida e roupas?
– Dá. E balinha também.
– …
– E uns doces. Tudo, muitas coisas, pai.
– Mas, Nina…
– Hum?
– E quando acabar o dinheiro?
– Ah, pai, a gente compra mais, ué!


(post para o blog filial Frases de Crianças)

Cenas domesticas: Co-piloto

por Luiz Henrique Matos

Já era tarde. Quase dez. Hora de criança estar na cama, já diriam várias pessoas. Mas nós ainda estávamos na rua, no carro, a família toda voltando do shopping. Adultos na frente, em silêncio, acreditando no sobrenatural poder sonífero que os automóveis exercem sobre as crianças e desejando que a nossa já estivesse dormindo para ainda tentar ver um filme qualquer no DVD (é incrível como nosso critério de filme bom muda depois da paternidade – até o Van Damme vira um clássico, raridade mesmo).

Finalmente, já na garagem do prédio, duas ou três curvas feitas suavemente e estacionamos o carro. Música desligada, freio de mão puxado, cintos soltos correndo de volta para o buraco-negro dos cintos de segurança e lá de trás uma voz desponta no silêncio:

– Ahh, cheguei!

Cenas domésticas – Herbalife

por Luiz Henrique Matos

Centro de São Paulo, rua lotada, multidões de pessoas se empilhando por todo lado e ambulantes vociferando suas ofertas de produtos piratas.

Nesse embaraço, o pai a carrega no colo já há quase uma hora. O braço cansado, a coluna pendente, as pernas fracas, o suor em bicas. Ela já tem dois anos. Ela já tem quase 15 quilos. Ela sorri. Está tudo bem.

Ela para de olhar a rua por um segundo, sonda o rosto do pai, o fixa nos olhos, passa os dedos pela barba e com os dedinhos juntos aperta-lhe as bochechas enquanto exclama sorridente:

– Gordinho!

Era só o que me faltava.

Cenas domésticas – Aniversário

Da série “Coisas lá de casa”…

Mãe: Nina, fala pra mamãe: quantos aninhos a Nina vai fazer?!?
Nina: Deeeeeezzzz!
Mãe: Não, filha, são dois… assim ó, com dois dedinhos. Conta junto com a mamãe. Depois do número 1 vem o…
Nina: Dooooooiissss
Mãe (empolgada): Isso, bebê!!! Que linda! Agora fale… quantos aninhos a Nina vai fazer?!?
Nina: Deeeeeezzzzz!!

Uma manhã em Londres – O amor nunca falha

por Luiz Henrique Matos

Londres, 7 de julho – O Big Ben marca 9h15 na capital britânica.

Nos primeiros números da Woburn Place, dois guarda-chuvas estavam abertos naquela calçada, aguardando pelo ônibus das 9h21. No primeiro deles, um garoto sonolento, com seus onze anos, pequeno e magro, levando nas costas uma mochila encardida e no braço um livro escolar. No outro, protegendo-se da garoa com um guarda-chuvas estranhamente florido, um homem moreno, bigode grosso e com seus trinta e tantos anos também esperava o transporte chegar.

No horário previsto surgiu então na esquina o veículo vermelho de dois andares e parando no ponto, recolheu os passageiros. Os assentos, praticamente ocupados, deixavam apenas dois lugares livres. O garoto se adiantou, ocupou o assento perto da janela e acenou para o homem:

– Sente-se aqui – ofereceu convidativo – guardei o lugar para o senhor.

O homem, com o rosto sério, aceitou o convite mas não disse nada. Ele parecia um bocado inquieto, vestia um casaco grosso apesar do verão e olhava a todo instante para o relógio em seu pulso, ajustado (sabe-se lá como) com os minutos exatos do Big Ben.

O menino o observou por alguns instantes e rompeu novamente o silêncio para ousar:

– Legal essa tatuagem, é um mapa?

– O quê?

– Sua tatuagem, aí no pescoço, é um mapa da onde?

– Não. É uma pinta.

– Uma pinta?! Mas por que alguém tatuaria uma pinta?

– Não tatuei, não é tatuagem, é uma pinta, marca de nascença – disse tentando encerrar a conversa.

– O senhor está cansado?

– Não.

– Hum… está com sono? Eu estou…

– Não, estou com pressa.

– Vai trabalhar?

Ele não respondeu.

– Esse guarda-chuva não é seu né? Florido assim…

– …

O silêncio todo naquela conversa muito sem graça (algo que ele não disse, mas pensou) fez o garoto parar com o dialogo. Ficou cabisbaixo e virou-se para a janela, observando o movimento na rua.

– É da minha mãe.

– O quê?

– O guarda-chuva. É da minha mãe. Perdi o meu e ela me emprestou o dela hoje cedo.

– Nessa idade, você ainda mora com a sua mãe?

– Sim, vivemos sós aqui na Inglaterra. Não tenho pai.

– Ahn, me desculpe… E de onde vocês vieram?

– Egito.

– Puxa, isso é longe. Sou da Inglaterra. Aqui de Londres, para ser mais preciso.

O garoto se distraiu um pouco mais com o movimento de corre-corre que se formava na rua. O homem parecia desconfortável com as perguntas, mas também intrigado com um menino ao seu lado, olhava para o relógio acompanhando os minutos que se passavam, como se realmente algo de imprevisto pudesse ocorrer na pontualidade britânica.

– Qual o seu nome? – o garoto voltou ao interrogatório.

Olhando para frente, na direção do motorista, como se tentasse enxergar algo adiante, o homem fingiu não ouvir a pergunta. E pretendia manter-se assim, não fosse o cutucão insistente daquele jovem.

– Senhor? Eu gostaria de saber seu nome.

– Para quê? Você nem me conhece garoto.

– Não é educado conversar com uma pessoa sem chama-la pelo nome.

– Pois bem – balbuciou – Ismael, meu nome é Ismael.

O garoto boquiaberto empolgou-se (para desespero do desconfortável, agora sabemos, Ismael).

– Não acredito, esse dia deve ser histórico! Esse também é meu nome, eu sou Ismael! E olhe, não achei que houvesse outro em todo o Reino Unido.

– Eu existo.

– Minha mãe… – o pequeno Ismael prosseguiu – minha mãe me deu esse nome quando ainda estava grávida. Eu tive um irmão mais velho que morreu e ele se chamava Isaque. Nossos nomes são uma homenagem a um personagem bíblico chamado Abraão, conhecido como o “pai da fé”. Você conhece?

– Sim, está no Corão.

Ainda entusiasmado, o garoto abriu sua bolsa e mexia lá dentro procurando algo. Pegou um embrulho de papel, que desenrolou com dificuldade e tirou um pão caseiro. Partiu seu lanche ao meio e estendeu o pedaço para seu vizinho de banco.

– Tome Ismael, coma.

– Eu não quero – disse impaciente, agora não tanto com o garoto, mas com o tempo e a localidade do ônibus em que viajava – por que estamos demorando tanto?

– Ah, deixe disso! – o menino já não parecia preocupado com o itinerário do ônibus e tão pouco com a atitude de seu colega – acho que somos as duas únicas pessoas no Reino Unido com esse nome, esse é um momento de celebração.

“Eu não diria isso”, pensou o homem. Mas ele aceitou o pão, partiu, agradeceu e comia seu pedaço quando o garoto, ainda mastigando, mexia na novamente na bolsa e falava sem parar:

– Tenho algo aqui, quero lhe mostrar – e remexia – aqui está. Sabe, certa vez minha mãe escreveu esse caderno para mim e eu o carrego comigo. Aqui ela anotou o significado de meu nome, ops! nosso nome, com a passagem da Bíblia de onde ela o escolheu e me disse que essa era a promessa que Deus tinha para Ismael e que eu deveria crer nisso para mim também.

– Escute, eu não posso… – ele tentava falar e mal percebia algumas migalhas do pão que ficaram presas em seu bigode. Colocou a mão por dentro do casaco e observava a rua, esperando chegar em algum lugar específico.

– Aqui está, toda a história, mas vou selecionar apenas o que Deus diz enquanto sua mãe, Hagar, ainda estava grávida: “Você está grávida e terá um filho, e lhe dará o nome de Ismael, porque o Senhor a ouviu em seu sofrimento”. Depois – ele continuou – já com treze anos de idade, Ismael e a mãe são expulsos da terra onde vivem com Abraão, a pedido de sua esposa Sara. Aí eles andam pelo deserto sem destino e a mãe chega ao ponto de abandonar seu filho por não suportar a possibilidade de vê-lo morrer de sede e fome. Aí então, as Escrituras dizem que Deus ouviu choro do garoto e através de Seu anjo Ele chama Hagar e diz: “O que a aflige, Hagar? Não tenha medo; Deus ouviu o menino chorar, lá onde você o deixou. Levante o menino e tome-o pela mão, porque dele farei um grande povo. Então Deus lhe abriu os olhos, e ela viu uma fonte. Foi até lá, encheu de água a vasilha e deu de beber ao menino”.

Ismael, o homem, ficou quieto novamente. Mas dessa vez, pareceu por um momento esquecer seu atraso e com o olhar fixo no encosto da frente, refletia nas palavras que acabara de ouvir. Mais uma vez, Ismael, o menino, rompe o silêncio, agora falando sozinho, em sua convicção:

– Meu Deus, como gosto disso! “Tome-o pela mão, dele farei um grande povo”…

– Ele viu a mulher, Ele saciou o que tinha sede… ouviu seu choro no deserto… – completou o homem.

O garoto olhou para seu companheiro e desafiou:

– Você tem idéia do que é isso Ismael? – continuou visivelmente deslumbrado (e tanto mais ingênuo) – seremos os primeiros de muitos! Deus falou que Ismael é a origem de um grande e abençoado povo. Quero viver muito, muitos anos, para ver a grandeza de minha própria descendência! E sei que farei minha mãe orgulhosa.

– Sinto muito, eu gostaria de…

– Ismael, veja essas palavras, acho que só você pode entendê-las como eu. Para cada homem existe uma grande promessa de Deus, essa pode ser a nossa. Mas, como vamos descobri-la se não vivermos a realização desse sonho? Precisamos viver, “sonhar e viver”… é o que diz meu pai.

Como quem esperava uma vida inteira para falar tudo isso, os olhos daquele miúdo garoto brilhavam esfuziantes. Os do homem pareciam confusos. Mas, por um instante cruzaram-se em uma cumplicidade incomum, de sonhos que se emaranhavam e intenções controversas, ligadas naquela fagulha de tempo por um simples nome (ou, como deduzia a ingenuidade da meninice, muito mais do que isso, talvez estivessem ali Ismael e Ismael, os dois únicos em todo o Reino Unido).

Ora, mas essa fugaz e pequena brasa foi subitamente apagada pela freada brusca do veículo. Lá fora, perceberam juntos, havia um inesperado engarrafamento. O congestionamento impedia o avanço dos carros e pouco se sabia sobre o motivo do trânsito.

* * *

Eram 9h57 e o ônibus deveria dobrar a esquina seguinte, na Tavistock Square. Havia um movimento estranho na rua, pessoas correndo, sirenes ensurdecedoras, a polícia controlando o tráfego. Definitivamente fora do previsto, haveria atraso em Londres naquela manhã. O motorista e os demais passageiros desceram para ver o que estava acontecendo e souberam em algum comentário que um ônibus explodira há exatos dez minutos, vitima de uma seqüência de atentados, provavelmente terroristas, que também atingiu pouco antes outras três linhas de trem.

No alvoroço, o garoto parecia não perceber a medida daquela barbárie e entretia-se em algum ambiente mais tranqüilo (ou menos confuso) enquanto procurava a companhia de seu novo amigo. Mas, em meio à multidão, já não via sinais de Ismael.

Alguns metros distante dali, no contra-fluxo de todo movimento, quem via do alto podia notar um estranho guarda-chuva florido seguindo intranqüilo pelas ruas cinzentas. Embaixo dele, caminhava ofegante aquele homem, seu bigode e o relógio pontualmente ajustado, dobrando as vielas e olhando a todo momento para os lados. Como quem desejava esconder-se, seguia rapidamente rumo a algum ponto afastado.

Depois de alguns minutos ele avistou a primeira margem do Tamisa. Sozinho à beira do rio ele parou, tirou seu casaco, levantou o suéter que vestia e com certa dificuldade soltou a corrente de dinamites que carregava presa à barriga. Desfez o artefato, garantindo que não apresentasse riscos e o arremessou no rio, abandonando em águas profundas uma bomba, seu ideal de falsidade, a obstinação da guerra e o ódio cego que cobrira todo seu afeto até aquela manhã.

* * *

Ele sentou-se à beira do rio, observava o movimento suave das águas e o mover vagaroso do tempo como se fosse aquele um momento que ele já não veria. E se tivesse feito o que planejara? Aqueles minutos que vivia furtavam a morte para a qual se preparou e esperou. “Que mundo é esse? Mais uma esquina, mais um ponto e eu não o conheceria”. O menino Ismael frustrou os planos do homem com sua atitude, seu pão e seu Deus. “Que deus é esse?”.

Ele levantou sem bater a poeira da roupa, largou sobre o banco o casaco grosso e carregava na mão esquerda apenas o guarda-chuva com seu nylon colorido. Caminhou por mais três quadras, devagar, meio cambaleante e sentindo-se num certo transe.

Dobrou a esquina e viu diante de si, imponente, um dos templos daquele inimigo ocidental que ainda há pouco atacaria.

A BBC informara, as igrejas cristãs abriram as portas para a oração dos crentes e auxílio à população.

“A igreja de Ismael” ele pensou. Entrou, sentou-se em um dos últimos bancos e observou por uns momentos. Depois tomou coragem, ajoelhou-se, ainda reticente, prostrou-se e da única forma que aprendeu até aquele dia, clamou na língua de seu povo e dirigiu sua oração ao Deus desconhecido. Como um garoto faminto, Ismael chorou e chorou, até que abrigou-se finalmente nos braços do Pai que nunca conhecera.

* * *

Soube-se depois pela TV, rádios e internet que houve ao todo quatro explosões em Londres, que deixaram algumas dezenas de mortes e centenas de feridos. O mundo comovia-se em solidariedade.

Mas, talvez nenhuma pessoa, jornal ou noticiário saibam que naqueles minutos devastadores, numa guerra legitimamente “santa” o Amor venceu uma das batalhas porque se fez presente da forma mais singela. E que naquela manhã, ao menos uma bomba não explodiu na capital da Inglaterra. Bombas, planos e ideais podem falhar, o amor não.

Pensando dessa forma, de fato, podemos lamentar e sim, chorar com aqueles que ainda choram. Mas é preciso também continuar cumprindo o papel, sendo e vivendo o mandamento do amor incondicional de Cristo e… enquanto assim acreditarmos, haverão esperanças e seremos sempre um grande povo.

Ah, claro, já me ia esquecendo: “Deus estava com o menino. Ele cresceu, viveu no deserto e tornou-se flecheiro. Viva no deserto de Parã, e sua mãe conseguiu-lhe uma mulher da terra do Egito” (Gênesis 21:20-21).

* * *

E mesmo nós, até cansamos de ler, que na Bíblia de Ismael, o menino, outros tantos relatos se fazem registrados, dentre os quais, alguns conservados para momentos assim como esse.

“Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele” (Marcos 10:14-15).

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa vocês receberão? Até os publicanos fazem isso! E se saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês” (por Jesus, no evangelho de Mateus