Vasectomia, impeachment e um avental aberto

alianca

– O senhor precisa tirar os sapatos, a camisa, toda a roupa e depois colocar essa touca, calçar essa proteção nos pés e vestir esse avental. A parte da frente é fechada e atrás é aberto mesmo.

Eu conhecia aquilo.

Tem uma cena no filme “Alguém tem que ceder” em que o Jack Nicholson está hospitalizado depois de sofrer um infarto e, meio embriagado, anda de um lado para o outro no hospital vestido apenas com um desses aventais e deixando o traseiro à mostra.

Pois bem. Guarde isso.

Cheguei um pouco antes das sete da manhã ao hospital. Eu faria uma vasectomia. Há alguns meses, Manú e eu decidimos que nossa família já tem o tamanho que gostaríamos que tivesse e optamos por esse caminho como forma de evitar imprevistos e horas extras no trabalho. Desde as consultas até a véspera, tudo seguia em ventos favoráveis até o momento em que desci do carro no estacionamento e tive a súbita convicção de que “vasectomia” era uma palavra tatuada na minha testa. Era evidente que cada pessoa com quem cruzava no corredor do hospital sabia que eu passaria aquela manhã de sábado deitado inconsciente numa maca enquanto uma equipe manipulava as minhas partes.

Mas, passado o processo de internação e da troca de roupas, eu já estava há mais de uma hora deitado na maca esperando meu horário. Meus pertences todos estavam guardados em algum armário do hospital e só me restava sondar o teto, recobrar o número de pessoas cujo caminho eu havia cruzado até ali, contar as dobras das cortinas e zapear os canais da TV, onde só se falava do julgamento do impeachment no Congresso.

– Senhor Luiz – uma enfermeira então puxou a cortina para falar algo.

– Oi.

– Está tudo certo? O senhor já fez todo o preparo?

– Sim, tudo certo. Acho que agora é só esperar, né?

– Sim. Mas o senhor precisa tirar a aliança também, ok?

– É, eu sei, mas não consigo. Engordei alguns quilos desde que a coloquei pela primeira e última vez nesse dedo – e mostrei o dedo com a aliança devidamente acomodada numa dobrinha.

– Hum, entendi.

Ela saiu e eu comecei um novo passatempo tentando tirar o anel do meu dedo. Dez minutos depois, meu anular já estava quase em pele viva, eu suava e o bendito pedaço de ouro não movia um milímetro.

Apareceu outra enfermeira e perguntou a mesma coisa. Ela disse que o médico usaria um bisturi elétrico na cirurgia e que um pedaço de metal no corpo não era exatamente uma boa ideia naquela hora. Só mostrei o dedo para ela, que disse mais um tanto de frases que sequer escutei, enquanto pensava em um bisturi elétrico (um bisturi! Elétrico!) sendo usado lá onde eu e todo hospital sabíamos que seria usado.

Ela saiu da sala, eu não notei.

Algum jogo do campeonato espanhol passava na televisão, mas estava truncado demais. Voltei para o canal de notícias onde deputados faziam discursos chatíssimos e acalorados sobre o impeachment na tribuna da câmara. Há meses é só o que se discute no país.

“Bisturi elétrico”, é o que vou responder para meus netos quando me perguntarem o que passava pela minha mente enquanto esse capítulo tão importante da história do Brasil estava sendo escrito.

A primeira enfermeira voltou.

– O senhor não quer tentar passar um sabão para ver se a aliança sai? Geralmente funciona.

– Pode ser. Tem sabão aí?

– Claro. O senhor pode ir ali e usar a pia do setor onde fica a equipe de enfermagem.

Entendeu bem, amigo? Eu, vários quilos a mais, meu dedo vermelho como uma pimenta dedo-de-moça, um longo corredor, espectadores de outros quartos e alas, a equipe de enfermagem. Tudo isso e o avental – aquele avental – aberto nos fundos.

Sentia como se os milhões de espectadores que assistiram ao filme do Jack Nicholson me observassem naqueles longuíssimos minutos. E, definitivamente, aquilo não era uma comédia romântica para mim.

Não bastasse a execração pública, o sabão tão pouco resolveu. Voltei para o quarto com o dedo inchado, a moral destruída e minha aliança agora polida e reluzente. Tudo só se resolveu quando um enfermeiro chegou com um pedaço de barbante nas mãos, amarrou na aliança, enrolou no dedo e, usando uma técnica que eu jamais conseguiria reproduzir, sacou o meu dedo fora do anel, digo, o anel fora do dedo e saiu, cortina a fora, me deixando sem aliança e dignidade, à espera do meu horário finalmente chegar. Liguei outra vez a TV no noticiário, enquanto gritos de “fora, Cunha!”, “fora, Dilma!” e “bisturi elétrico” se misturavam no ar e ecoavam em minha mente.

“O que estou fazendo aqui mesmo?”, me questionei. Eu não precisava daquilo e já quase me arrependia, já quase pensava em tomar pílulas anticoncepcionais masculinas, praticamente desejava ter mais três filhos nos próximos anos, nem me incomodava se fossem quatro.

Olhei para minha mão esquerda espalmada, agora sem aliança. Há uma marca, uma depressão profunda na pele, bem na parte do dedo onde ela fica. Fiquei um longo tempo olhando para aquilo. “Isso não sai mais”, pensei. Mesmo que eu emagreça os 13 quilos que engordei nesses anos, ali estão os 13 anos do dia em que a Manú a acomodou ali definitivamente.

Não sou apegado a simbologias, mas dessa vez me peguei diante de uma realidade insistente. Porque debaixo daquela pequena peça dourada tem tanto da nossa história. E me veio à mente tudo o que aconteceu, tudo o que passamos e vivemos nesses anos. Os planos que tínhamos e traçamos juntos, os lugares em que vivemos e os que já vimos, as filhas com quem tanto sonhamos e nos vieram tão melhores do que jamais poderíamos pensar ser possível. Vivemos nossa própria comédia romântica, ela gosta de dizer (eu excluiria do roteiro qualquer cena envolvendo hospitais e aventais). Crescemos, curtimos, estamos envelhecendo juntos e, sobretudo, vamos nos tornando esse “um só”, o casal, a família. Vamos, dia após dia, preenchendo os espaços entre nós dois com toda carga de sentimentos que empenhamos num relacionamento e definem o que somos juntos. É isso que somos. E uma aliança é um bom símbolo para lembrar disso.

De repente, sem ela nas mãos, me senti nu.

– Senhor Luiz? – a voz de uma nova enfermeira surgiu pela cortina.

– Oi.

– Vamos lá? Está tudo pronto para o seu procedimento. Meu nome é Fulana e eu vou acompanhá-lo até o centro cirúrgico.

– Tá legal.

– O senhor está bem?

– Sim. Só… esse avental. Ele é meio desconfortável. E parece frágil também. Já até rasgou aqui, ó.

– Ah, não se preocupe. Ele é assim de propósito.

– Oi? Mas porquê?

– Ele precisa ser aberto e fininho porque lá embaixo, depois de sedarem o senhor, eles podem rasgar ele todo e o senhor fica sem nada.

Sem nada.

E a comédia virou drama.

“Eu estava sedado”, acho que é isso que vou dizer para meus netos quando me perguntarem algo sobre a política e o tal momento histórico desses dias.

Eu e provavelmente mais 100 milhões de brasileiros que na tentativa de tapar um problema acabaram deixando um outro lado totalmente à mostra. O drama que virou comédia e que virou drama outra vez.

“O senhor fica sem nada…”. Ela estava errada, a enfermeira. É preciso muito em que se apegar para ouvir aquilo e seguir em frente ainda assim.

Acordei algumas horas depois. Sob efeito de Propofol e anestesiado pela minha boa fé, eu me recuperava escutando 100 milhões de deputados falando sobre bisturis elétricos na TV, a Dilma me receitando medicamentos no quarto do hospital e olhava fixamente minha mão esquerda notando as marcas nelas gravadas, as rugas de alguma idade, as cicatrizes de cortes e quedas, os calos do trabalho cotidiano e aquela pequena depressão na pele do dedo Seu-Vizinho que dava conta de que algo importante estava fazendo falta.

Alianças.

São o que nos fazem superar constrangimentos, crises e desafios de qualquer natureza. O que vale, no final, são esses laços que fazemos com as pessoas que amamos e que fazem a vida toda ter sentido e ser leve e a gente topar enfrentar e saber superar qualquer coisa. Porque o país, os mandatos, a vergonha, o escândalo e a coisa toda da história passa diante dos olhos da gente. Mas as pessoas ficam, o amor fica e é isso que nos marca de verdade e a gente carrega até o fim.

Era isso que me passava pela mente nesses dias, espero poder dizer para algum neto.

Vira-latas

por Luiz Henrique Matos

No último fim de semana, depois do almoço, levei minha família a uma sorveteria. Estávamos em Itapeva, cidade natal da Manú e, sabe como é, domingo, casa de parentes, churrasco, excessos… e a gente ainda acha espaço para a sobremesa.

A sorveteria fica num calçadão em pleno centro da cidade. É o único estabelecimento em todo o comércio – fora a farmácia e o boteco – que abre aos domingos.

Parei o carro numa rua acima e enquanto caminhávamos, cruzamos com um vira-latas fuçando o lixo acumulado na rua. Cena típica. Sacos pretos revirados, restos de comida consumidos com voracidade e o forte odor da sujeira cruzando o ar. O pobre animal estava doente. Tremia enquanto procurava algo que lhe saciasse a fome.

Não seria nada diferente do que vemos em qualquer caminhada por qualquer cidade, não fosse o momento em que o coitado percebeu nossa aproximação e parou. Cambaleou um instante e, numa fração de segundos, encarou a Manú com aquele olhar de dor e desamparo.

– Esses bichos ficam o dia todo consumindo porcaria, sem comer direito. Aí chegam num momento que engolem o que tem pela frente pra tentar matar a fome.

Do alto da minha sensibilidade, passei reto e tentei desviar o foco da atenção da minha esposa, sabendo o que poderia vir em seguida caso ela…

Pois é, minha estratégia não deu certo. Entrei na sorveteria, mas ela não se contentou com minha resposta tão compassiva. Ficou ali parada no meio do calçadão, a sobrancelha franzida, a expressão intrigada, olhando pro monte de lixo revirado. Aí – como já era de se esperar – me mandou levar alguma coisa boa pra ele comer.

Claro, ela tinha razão.

Numa sorveteria, o máximo que se consegue de qualidade nutricional mastigável é um pedaço de bolo. Comprei uma fatia e subi a rua com o pratinho em mãos. Cheguei perto, meio constrangido com a cena e acho até que estalei os dedos para chamar.

– Ei, amigão, vem cá… toma. Você deve estar com fome.

Cena fofa. Me senti o próprio explorador do Discovery Channel se aproximando das feras de forma heróica e lhe entregando o alimento.

Afastei-me e observei. Ele comeu o bolo. Virei as costas e voltei para o balcão refrigerado do estabelecimento. Missão cumprida. Três bolas, por favor. A Manú orgulhosa. Chocolate, côco e morango, caprichado. Peraí, a Manú ainda estava lá fora, com a mesma expressão no rosto.

– Que foi, amor? – perguntei, sem querer ouvir a resposta.

– Acho que ele não tá bem…

Quando ela teima com algo, vai até o fim. E eu agradeço a Deus por isso.

E lá fui eu. Sorvete derretendo na mão, me aproximei dos sacos de lixo e vi o pobre coitado botando todo o bolo pra fora. Meu coração apertou. Estranhamente, pela primeira vez na vida, eu assistia a uma cena dessas sem passar mal junto. Eu sentia aquele cheiro azedo do vômito vindo em minha direção e não me movia. Eu queria pegar aquele animal no colo e correr para um hospital ou sei lá o quê.

Joguei o sorvete de lado. Pedi a alguém que trouxesse um pouco de água.

Ele tremia, suava, esfregava os olhos, ele chorava. Ele só tem 12 anos. “João Paulo”, foi o nome que falou quando conseguiu pronunciar a segunda frase. A primeira foi a que me derrubou de vez:

– Dói… dói tudo.

Poucas vezes ele me encarou. Quando o fez, seu olhar era de dor e desespero. Ele queria socorro mas não sabia pedir. Ele não estava drogado – conforme pressupus quando o notei pela primeira vez – ele estava cansado, tinha fome e talvez dengue ou uma intoxicação.

Então, liguei para a ambulância, mas o serviço de atendimento não estava funcionando. Aí liguei pra polícia, que me mandou ligar pro bombeiro, que me mandou ligar num 0800 que não funcionava e então eu liguei de volta e eles me mandaram ligar pra polícia de novo, que me mandou ligar pro bombeiro, mas eu avisei que eles não podiam atender e então ele me mandou esperar na linha e depois mandou eu ligar na guarda municipal, que finalmente resolveu mandar uma viatura pra buscar o menino.

O João Paulo mora com os pais na periferia da cidade. Saiu de casa às 7:30 para catar latinhas e vender. Estava sem comer desde que acordou e já vinha passando mal desde cedo, andando pelas ruas daquele jeito. Eram três horas tarde, um domingo de sol, as famílias reunidas para o farto almoço do fim de semana e o menino virando sacos de lixo para ajudar a sustentar sua casa.

A viatura chegou. Uma mulher dirigia o carro.

– Venha, filho. Entre no carro. Vamos no hospital pra você tomar um sorinho.

Ele se arrastou para dentro do carro. Arrastou também o saco preto com meia dúzia de latas que conseguiu no dia. E foi.

Paguei a conta na sorveteria, reuni a família e voltamos para casa. No caminho, vi o dono do sobrado onde o menino ficou sentado em frente jogando água na calçada e me encarando bravo.

Eu dirigia o carro sem nem perceber o tempo passar. E a gente passa pelo mundo e nem vê que tem alguém sentindo dor na calçada. A gente olha para um menino fuçando no lixo e logo confunde o menino com o lixo. Mais um vira-latas. Nem paramos pra pensar que a criança tem nome, tem pai, tem mãe e precisa de água, de arroz-feijão, de lápis e papel e de uma bola pra brincar. A gente vê que é um menino e nem pensa: “podia ser meu filho”. Podia.

Tem tanta gente viciada no mundo. Cocaína, cigarro, dinheiro, álcool, sexo, televisão, vídeo-game, comida… tem gente viciada em tudo. Mas quando penso nessa insensibilidade toda que nos faz ignorar a necessidade do nosso semelhante, eu acho que o pior vício do homem é o próprio homem. A maioria das pessoas que eu conheço – entre as quais me incluo – nem mesmo resiste à tentação de só se preocupar consigo mesmo.

O centro do mundo é o meu umbigo.

De volta em casa, bebi um copo de água, deitei na cama e me acomodei em minha zona de conforto pra poder cochilar um pouco. Mas aí pensei no João Paulo, lembrei dessa coisa toda dos vícios da nossa sociedade, fiquei cruzando as coisas na minha mente e orei a Deus pedindo para que não me deixasse esquecer que ele me mandou amar as pessoas.

Não quero ser insensível aos problemas dos outros. Por favor, não. Eu quero, na verdade, o contrário. Quero olhar e não conseguir dar um passo sem fazer algo. Eu quero que Deus me ajude a mergulhar num vício novo. Eu quero é ser viciado em gente.

Jesus olhou para o João Paulo… “Jesus olhou para as multidões e foi movido de íntima compaixão.” (João 14:14).

“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados” (Provérbios 31:8-9).

Imagem e semelhança 1 – Livros, moldes e projeções

por Luiz Henrique Matos

A Nina gosta de livros. E você pode imaginar o orgulho que toma conta do pai coruja quando a filha, num shopping center, prefere a “loja de livros” à de brinquedos. E ela se delicia naquele ambiente. E eu me delicio naquela criatura de um metro de altura e fico pensando na nova Cecília Meireles, na Elizabeth Barret Browning, na Jane Austen que vai se formando sob meu teto.

E eu fico pensando o quanto sou estúpido em querer tudo isso.

Como gente egoísta que somos, caímos no erro de projetar em nossos filhos as nossas frustrações. Escritores, advogados, jogadores de futebol… queremos que nossas crias tenham o sucesso que julgamos não ter tido. Ao invés de lutar pelos nossos sonhos, penduramos as chuteiras e passamos a desejar que os pequenos cresçam e se moldem às expectativas que alimentamos sobre eles.

Aí está a diferença do homem em relação a Deus – ou talvez, o contrário seria mais adequado. O Pai não projeta em nós o desejo de que sejamos como ele. Ao contrário, sua glória pessoal é que sejamos totalmente nós, plenos da identidade que ele sonhou para cada um, individualmente.

Daí o erro da religião em querer moldar o homem num padrão de comportamento, caráter e atitude. Daí o erro de todos nós em desejar que nossas crianças se pareçam conosco ou com o ideal de homem que criamos.

Pobres dos filhos, criados para serem livres, mas aprisionadas em gaiolas e estereótipos. Não foi esse, jamais, o sonho do Pai.

Cada pessoa em sua plena humanidade é o reflexo da glória de Deus. Cada pequenino, transbordante de si mesmo, a imagem e semelhança do Criador.

Essa crônica faz parte da série “Paternidade“. Clique aqui ou na página dedicada do menu para ler os textos anteriores.

Uma Páscoa para quem não acredita em Jesus ou coelhos

por Luiz Henrique Matos

Há alguns meses eu almoçava com uns colegas do trabalho e um deles contou a história de um conhecido que abandonou a carreira na área de vendas de uma multinacional para ser pastor de uma igreja evangélica. “É um ótimo negócio”, disse meu amigo, “ele parou de vender produtos e passou a vender o que todo mundo quer: perdão e vida eterna”. E enquanto boa parte ria, emendou: “vai ficar rico!”.

Aquilo teve um certo efeito em mim. Até então eu pensava que muita gente não acreditava em Jesus por não conhecer sua história ou não compreender a razão de seu gesto pela humanidade. Mas meu amigo provou o quanto eu estava equivocado. E então passei a compreender que boa parte das pessoas que conheço e não são cristãs, conhece a história do cristianismo mas elas não a seguem simplesmente porque não acreditam que isso faça diferença real em suas vidas.

Durante essa semana que passou especialmente, eu sempre paro para pensar no fundamento da minha fé. A época da Páscoa sempre me atrai por duas razões principais e importantes na vida: a essência da fé cristã e os ovos de chocolate.

Direto ao ponto e recapitulando, ainda que não seja novidade para muitos, o ponto central da reflexão sobre a Páscoa é que Jesus Cristo, entre sexta-feira e domingo, morreu numa cruz e ressuscitou. Na cruz, o Deus vivo, como cordeiro de sacrifício sem qualquer impureza (na analogia da tradição judaica) sofreu o peso da culpa e a condenação pelos pecados de toda humanidade e morreu no nosso lugar. Na ressurreição, ele venceu a morte e, na sua vitória, nos deu vida eterna. Através de Jesus, se assim acreditamos, recebemos perdão pelos nossos pecados e vida eterna ao lado de Deus.

Pensar nisso tudo sempre me emociona e faz compreender a profundidade e a razão da minha fé em Deus. Refletir sobre esses dias, em Jesus e tudo o que ele fez por mim, me faz amá-lo intensamente e me faz voltar aos primeiros dias dessa relação.

Agora, se isso tudo faz sentido pra mim, acredito que o meu amigo – e muito mais gente – não vê razão para levar o assunto tão a sério porque, no fim das contas, tanto faz se Jesus era Deus ou não e, ainda que fosse, eles não estão tão preocupados com a questão do perdão de pecados e qualquer coisa sobre vida eterna. Primeiro, porque essa discussão sobre pecado, certo e errado e culpa é uma coisa muito relativa – o certo para você pode ser errado para mim e vice-versa.

E sobre a questão da vida eterna, é mais fácil construir para si um conjunto de crenças nos quais se apegar do que seguir ao pé da letra um único raciocínio defendido por uma igreja, comunidade ou grupo religioso. Até porque, convenhamos, diante de tantas opções, a chance de se estar errado é considerável. Ou ainda, para os extremistas, pode-se simplesmente não acreditar em nada e deixar que as coisas aconteçam naturalmente de acordo com as circunstâncias, o acaso ou o ciclo da evolução.

Sinceramente, acho que por esses pontos todo mundo pode ter razão. Não se pode justificar algo em que se acredita com uma história sendo contada repetidamente ao longo dos anos, por mais que essa história trate dos anseios mais profundos que o homem carrega consigo: redenção e uma resposta para a morte.

Não se pode acreditar em Deus porque as coisas assim parecem convincentes ou convenientes. Porque Deus não se materializa, se explica ou modela.

E um grande erro da igreja, eu acredito, seja esse vício de tentar sistematizar a fé. Certa vez eu ouvi um pastor pregar e ele dizia: “se um dia você conseguir criar uma definição para Deus, jogue fora e fuja, porque você acabou de criar um ídolo”. Não dá. “O homem tentar entender a dimensão de Deus é o mesmo que uma ameba tentar entender o pesquisador, olhando através do tubo do microscópio”.

E porque Deus é incompreensível, também não dá para acreditar que alguém passe a acreditar em sua história porque ela lhe foi contada de maneira convincente. A espiritualidade de um homem, até para o mais incrédulo, é íntima, insondável e inexplicável.

Jesus é a única forma de se ver Deus de algum jeito. Como ser, como agir, como amar, o que fazer, o que não fazer… todas as nossa questões, das fundamentais às mais banais, são respondidas ao olharmos para Jesus.

É por isso que, diferente do que andamos pregando em nossas igrejas, Jesus não prometeu prosperidade às pessoas. Ele também não prometeu benefícios ou poderes sobrenaturais, nem milagres para todos os casos. Ele nos prometeu uma razão de viver. Ele prometeu saciar nossa fome existencial, prometeu uma resposta suficiente. Ele oferece a alegria eterna.

Mas para experimentar essa alegria é preciso, naturalmente, acreditar. Para enxergar Jesus como Deus, é necessário conhecê-lo. E aí reside a grande questão: dois mil anos após a morte de Jesus, como pode um homem chegar a tais conclusões por si só? Não creio que seja possível, salvo exceções eventuais.

O amor, a fé e a esperança são das coisas que não se incutem na mente de um indivíduo. São coisas, aliás, das quais não se convence alguém sequer, até que ele mesmo experimente tais sentimentos e aceite, naturalmente, que existem questões que jamais compreenderemos ou dominaremos.

É impossível sistematizar o amor. E Deus é amor. Daí a coisa toda de alguns parágrafos acima.

Agora, já vi gente tentar, com alguma dose de sucesso, retratar o amor através da arte. E de um jeito mais convincente do que um cientista faria, vi o amor impresso num homem apaixonado. Nas telas, em livros, no cinema e na música. Nas histórias bem ou mal contadas, nas personagens inventadas ou na crua realidade humana, não há como fugir do que nos domina, não há alternativa para nossa impotência diante do que não se explica.

Somos impotentes diante do amor.

E outra vez voltando ao ponto central desse texto – se é que ele ainda tem algum -, só é possível que nos apaixonemos por alguém que, de alguma forma, “experimentamos”. E como alguém pode experimentar a Jesus sem acreditar nele ou no que ele representa?

A materialização de Deus somos nós.

Sei que isso é discurso batido e meio desgastado por aqui, mas a verdade nunca basta: as pessoas só acreditarão no Jesus que amamos se puderem vê-lo personificado no exemplo de vida daqueles que se dizem seus seguidores.

Jesus disse: “amem as pessoas como eu amei a vocês”.

Note, ele não nos pede um sacrifício. Deus não exige ou espera que qualquer um de nós se entregue numa cruz tal como ele fez. Jesus nos pede para amar. Seu mandamento fundamental, que provoca reflexões, não se baseia numa ordem explícita e dolorosa. Ele diz: “Ame! Ame intensamente, da melhor forma, cheios de alegria e compaixão. Ao ponto de não suportarem o sofrimento alheio. Rendam-se ao amor”.

O amor. Esse é o seu único pedido ao homem. Essa é também, sua maior promessa.

Parecer com Deus, portanto, tem muito menos a ver com uma conduta de vida ou práticas religiosas e se resume num ponto mais simples do que muitas vezes gostaríamos: amar o próximo seja ele quem for.

E agora, pensando aqui no sofá de casa, eu acho que esse meu discurso é bastante convincente. Sei que muitos dos meus amigos vão ler essa carta e concordar comigo. Bom, mas não vou ser eu o hipócrita aqui. Admito que não tenho uma soma sequer nessa medida de bondade e amor que Jesus pediu que tivéssemos.

Mas penso que se tem algo na vida que eu deveria buscar, isso passa por me aperfeiçoar num sentimento. Peraí, perdão, o termo não é aperfeiçoar… Não acho que seja possível lapidar o amor de alguma forma. As coisas passam, portanto, pela entrega, pela renúncia, por deixar que o sentimento que me domina, cumpra em mim seu papel. Que o amor, que Deus, seja em mim plenamente para que eu seja, de alguma forma, amor para os outros.

“Isso é impossível”, talvez você diga. E talvez eu mesmo diga isso também. Porque apesar da simplicidade do argumento, isso não é mesmo fácil de pôr em prática. Mas, antes de deixar que minha auto-piedade e o conformismo me façam deitar a cabeça no travesseiro para dormir o bom sono dos ímpios, uma verdade me vem à mente e martela: se Jesus tivesse pensado como eu, talvez a cruz tivesse ficado vazia. E, pimba, uma outra dose de Páscoa para refletir.

Bem, realmente é mais fácil convencer minha filha de três anos que um coelho subiu pelo elevador até nosso apartamento no 11º andar e botou um ovo de chocolate num canto escondido da casa, do que amá-la de forma tão intensa que um dia ela passe a acreditar que esse amor, real e incondicional, tem sua fonte num Deus perfeito e amoroso, que fez tantas coisas por ela.

E… chocolates! Hummm, isso parece uma idéia genial!

Cenas domésticas: conversa séria

por Luiz Henrique Matos

Lá em casa, toda vez que a Nina passa do ponto nas birras ou apronta alguma coisa realmente muito grave, nós a chamamos para “uma conversa muito séria” lá no quarto (calma, antes que a polícia bata na porta de casa, quero deixar claro que “uma conversa muito séria” não passa de três minutos de bronca, a sós, olhando bem na bolinha nos olhos).

Pois bem, num sábado pela manhã estávamos no quarto assistindo TV, enrolando para levantar e a mãe fez o favorzão de trazer café na cama para nós. Bolo, pão com requeijão, iogurte, Nescau no copo, bolachas… só coisa boa. A certa altura, já quase satisfeitos, a Nina foi tentar virar de lado na cama e acabou dando um chute no meu copo de Nescau. Sim senhoras e senhores, lá foram 400ml de líquido marrom bem escuro sendo absorvidos por lençóis, edredon e pelo colchão.

Ela ficou preocupada.

– Pai, disculpa…
– Nina, não se preocupe, filha. Não tem problema, tá? Não foi culpa sua, foi sem querer.

Limpamos a cama, levamos a tralha para o tanque e eu fui para a sala terminar de dar o café da manhã para a Nina. Só havia sobrado o iogurte. Abri, lambi a “tampinha” de alumínio, me ajeitei no sofá e enquanto tentava pegar a primeira colheirada para servir minha filha, fiz alguma grande besteira e espirrei iogurte para todo lado. Sofá, almofadas, roupas e o piso, tudo devidamente afetado.

Eu fiquei preocupado.

Corri para providenciar minha segunda faxina em menos de uma hora e a Nina observava sentadinha no sofá. Quando voltei, meio ofegante, retomei o assunto.

– Ixi, Nina, você viu o que o papai fez?
– Derrubou tudo, né?
– É… aiaiai. Mas agora já está tudo pronto. Vamos tomar o seu danone?
– Mas… pai?
– Oi, Nina.
– E quem é que vai “conversar muito sério” com você?

(para o Frases de Crianças)

Churrasco, futebol, igreja e uns quilos a mais

por Luiz Henrique Matos

No domingo, fizemos um churrasco aqui em casa. Amigos, comida, crianças, preguiça e amenidades. Gosto de ficar assim sem fazer nada ao lado de gente querida. Faz bem para a mente, é bom pra recuperar o tempo que a gente perde trabalhando.

Foi bom também porque, sentado com os amigos depois do almoço, pude falar sobre um assunto que já há algum tempo me angustia.

Em geral, os assuntos que me angustiam por algum tempo estão restritos a trabalho, família, o próximo jogo do São Paulo, a igreja e, mais recentemente, o aumento significativo da minha circunferência abdominal – com o perdão pelo linguajar chulo.

E nesse caso, preciso dizer que não será hoje que abrirei um discurso sobre detalhes estéticos. A verdade é que, dentre as tantas coisas, falávamos do tema menos apropriado para uma ocasião tão singela: igreja.

O ponto essencial é que eu fico imaginando se não seria mais adequado que a igreja privilegiasse sua atuação social, colocando isso no primeiro plano de suas atividades, ao invés de expor suas práticas devocionais e investir recursos na divulgação de suas crenças, doutrinas e mensagens.

Posso estar sendo ingênuo, mas será que ajudar os pobres e auxiliar as famílias não é mais urgente do que discutir a forma como nos comunicamos com o mundo, as melodias de nossas canções e as estratégias de evangelização?

Jesus vivia dessa forma. Ele dedicava seu tempo em servir e se relacionar. Ele ouvia mais do que falava.

Sei de muitas igrejas se preocupam em servir e ajudar os necessitados. Grande parte das que conheço, investem o maior percentual de sua arrecadação em projetos sociais e assistencialistas. Mas quem é que sabe disso?

Em nosso relacionamento com a sociedade, externamos as práticas devocionais e internalizamos os serviços. Mostramos ao mundo nossas atitudes de adoração, nossos cânticos e as pregações impactantes e guardamos, dentro dos muros de nossas comunidades, as obras sociais, os orfanatos e os ministérios de cuidado familiar.

Recebo semanalmente uma série de newsletters de igrejas brasileiras e norte-americanas mostrando sua agenda de atividades. São boletins com design elaborado, mensagens bonitas e linguagem moderna. Falam basicamente de atividades devocionais. Os livros, os clipes musicais, os vídeos inovadores, a presença em redes sociais, a mensagem do culto, a série de pregações, a dinâmica dos grupos pequenos e os acampamentos. De verdade, no que isso parece interessante a alguém que não conhece uma igreja?

Quando mostramos uma preocupação real com os outros, o que fazemos nos torna simpáticos.

Posso também estar errado – eu costumo estar quando alimento minhas utopias -, mas acho que as pessoas estão cansadas dos nossos discursos e divagações. Falo, inclusive, das pessoas de dentro da igreja. Ninguém mais tem paciência para ouvir um grupo de religiosos anunciando salvação, perdão, redenção e um messias, quando não sentem que precisam disso realmente. Quando, principalmente, não conseguem enxergar o Messias nas pessoas que o anunciam.

Eu vejo mais gente mudando de igreja do que gente nova na igreja. Eu vejo sempre as mesmas poucas pessoas servindo a muitos “irmãos de fé” e nenhuma multidão empenhada em servir o mundo.

E então, quando ninguém mais está disposto a ouvir a nossa defesa inovadora do cristianismo no contexto social pós-moderno (bom, sempre tem que ter um titulo bacana para virar tema de livro depois), culpamos a pós-modernidade, a televisão e algum multimilionário com pinta de anti-cristo e investimos mais dos escassos recursos que já temos em plástica pura e simples. Remodelamos nossas canções, redecoramos os salões de reunião, lançamos mão de novas mídias e – me perdoe a expressão – “secularizamos” nossa imagem para torná-la mais interessante ao homem dos nossos dias.

Agora, por outro lado, quem não se sente atraído – ou ao menos respeita – um grupo de pessoas que se empenha em melhorar a condição do mundo? A solidariedade, as boas ações, a generosidade, o amor. Esse é o comportamento que não enfrenta barreiras, que encontra a simpatia das pessoas.

Jesus costumava guardar suas práticas devocionais para os momentos de isolamento. Sua intimidade com Deus era vista pelos que já o conheciam há mais tempo. Diante das multidões, ele não se exibia, ele saciava necessidades.

Do lado de fora da igreja, em sua face mais exposta, deveria aparecer a prática essencial do cristianismo: a preocupação com o próximo. O amor. Internamente, em nossas reuniões e congregações, aí sim, nossa vida devocional é que sustenta a força desse trabalho (intercessão, adoração, estudo, jejum). Outra vez, o amor.

Reclamamos da dificuldade de evangelizar e da grande “concorrência” para expor a Verdade em que cremos no mundo atual, mas somos nós quem esquecemos de refletir a imagem da Verdade em que cremos: Jesus Cristo.

Jesus, puro e simples. Precisamos menos dos recortes periféricos e mais da sua essência.

Bom, é verdade que eu demorei a notar, mas finalmente nos tocamos de que o assunto não era a coisa mais interessante para se discutir num churrasco. Por isso mesmo, deixamos o assunto no ar e, num silêncio momentâneo de reflexão que se seguiu, ouvimos um “alô, você ligado no futebol…” vindo da televisão. Ia começar o jogo. Coisa boa e digestiva para um domingo à tarde, de extrema importância para acalentar nossas inquietações mais íntimas.

– Rapaz, como anda jogando mal esse seu time! – eu disse para provocar um amigo.

– Cara, você engordou, hein? – ele retrucou.

E as coisas, como sempre, ficaram a deriva. Meu peso, o jogo de futebol e as questões fundamentais – e inapropriadas para um churrasco – da igreja.

“A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” (Tiago 1:27).

Esse texto faz parte da série “Correndo atrás do vento”

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1. A teologia não salva

2. Em defesa da crise

3. E o futuro, a quem pertence?

4. Pessoas mudam, o mundo muda (manifesto)

5. Os riscos da prosperidade

6. Clichês

7. Deus não tem um sonho pra você

8. Julgando um livro pela capa (e pessoas por sua opção religiosa)

9. Jesus não tinha inimigos

10. Um Deus, diversos cultos

11. Comodidade

12. Churrasco, futebol, igreja e uns quilos a mais