Amar é pertencer

Está ficando cada vez mais difícil carregá-la no colo. Aos dez anos e quase 40 quilos, não existe uma posição confortável em que a acomode nos braços e não sobre uma perna caída de um lado ou um cotovelo pendurado do outro, ambos facilmente “esbarráveis” em algum batente de porta ou quina de cômoda e capazes de despertá-la do sono com uma pancada.

Às vezes, ela dorme no sofá ou em nossa cama e fico com pena de acordá-la e mandar que vá sozinha para o quarto. E diante de um preocupado “não faça isso, Henrique, sua coluna…” dito pela mãe, me faço de forte e devolvo um habitual “tá tudo bem, tranquilo, eu levo”. Mas, não sei se quero enganar a ela ou a mim mesmo. Dez passos depois, estou pedindo arrego e tão logo eu praticamente arremesse a Nina na cama, saio ofegante corredor afora, meus braços tremendo e sigo até a cozinha em busca de um copo de água.

(continua lá no Estadão)

Entre nuvens

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Aeroportos. Eu também teimo com aeroportos. Não sei dizer o que é, mas há uma atmosfera estranha, que em um primeiro impacto parece ter um brilho interessante e mágico mas em poucos minutos se revela superficial, limitado e ofuscante demais, perfumado demais, barulhento demais, raso demais. Tentam nos vender como shopping center o que na verdade é só o que é: um terminal de chegadas e partidas. Pessoas indo e voltando, de passagem por algumas horas, até o momento de partir, escutando as descrições de voos, as chamadas de embarque e o ruído das aeronaves decolando lá fora. Estou em um aeroporto agora.

No entanto, observar viajantes está entre meus passatempos favoritos. Mais do que faço em qualquer outro lugar, gasto minhas horas de espera antes de embarcar olhando as pessoas à minha volta e tentando imaginar suas vidas. Porque há algo diferente nesse ambiente, ninguém passa por aqui todos os dias, todos vivem essa coisa transitória, estar nesse lugar não é a rotina de ninguém sentado nessas cadeiras (é claro que os funcionários das lojas e balcões de companhias aéreas são uma exceção). Estão todos em trânsito, indo para algum novo destino ou voltando para seus lugares.

Eu só tento escutar. O casal de meia idade que come uma pizza em silêncio e sem se olhar nos olhos em nenhum momento, um outro casal de idosos que senta lado a lado na mesa do restaurante deixando as cadeiras da frente livres e conversam animados com guias de viagens empilhados sobre a mesa, executivos e executivos sozinhos digitando aceleradamente em seus computadores ou andando de um lado para o outro. Indianos, japoneses, norte-americanos, latinos, gente muito loira e branca de algum canto da Europa, um grupo em excursão viajando em férias, homens com chapéus de cowboy que julguei serem aqui do Texas mas descobri depois que eram de Goiania (estou parado numa conexão em Dallas). Duas crianças entediadas brincando em iPads com capas coloridas e outras crianças, um casal de irmãos, correndo um atrás do outro pelo terminal como se estivessem no quintal de casa. Uma mulher lendo um livro de bolso enquanto bebe uma garrafa de meio litro de Coca-Cola Zero no gargalo. Gente no celular, gente no celular e gente mexendo no celular por todos os lados absortas em suas telas azuis, isoladas em fones de ouvido que sempre me lembram o penteado da Princesa Leia. Tento escutar suas conversas.

Procuro imaginar suas vidas além dessa máscara que enxergo. Sei que você também faz isso. Quero saber como são suas rotinas fora daqui, de onde vieram, para onde estão indo. O que sonham fazer, o que as angustia agora, o que tem em suas casas, do que sentem falta, que carro dirigem, se já roubaram para comer alguma vez na vida. Fico imaginando quem é que os espera do outro lado dessa viagem aérea, quando chegarem em casa.

Foi o escritor John Gardner que disse certa vez que só existem dois tipos de histórias: a pessoa que sai em uma jornada ou um estranho que chega na cidade. Ele falava de literatura, mas talvez seja isso mesmo e eu não esteja entendendo. As histórias, de todos nós e os fragmentos que deixamos transparecer nessas amostras, nesses pequenos contatos que fazemos, no fundo se resumem a duas coisas.

Estou sozinho agora, sentando em uma mesa de restaurante, comendo uma fatia de pizza em que certamente falta alguma coisa na cobertura e espero o horário de embarque do meu voo de volta para São Paulo. É minha décima segunda viagem a trabalho esse ano. Estou cansado. Penso na frase do John Gardner e fico me perguntando onde é que me enquadro em sua sentença. Quem seria eu nesse escrutínio que faço se estivesse do outro lado do balcão me analisando? Personagem de que tipo de história eu sou?

Ainda hoje, um pouco mais cedo, liguei para casa para saber como as meninas estavam. A Nina atendeu o celular da mãe e ligou a câmera para conversarmos. Eu ainda tinha pelo menos 15 horas de viagem pela frente então e enquanto falávamos, ela caminhava por uma área aberta e me contava da festinha infantil em que estavam. De repente, parou de andar, olhou para o alto em silêncio e fixou o olhar por alguns segundos em algo que eu não podia enxergar. Então ela voltou:

– Pai.
– Oi.
– Acabou de passar um avião no céu. Queria que fosse você.

Entre uma garfada e outra na pizza, eu penso que falta orégano e certamente também falta alguma coisa na frase do John Gardner. Porque há um terceiro tipo de história, há uma outra narrativa, a saga que meu personagem vive nesse exato instante e em cada viagem que faço: um peregrino que volta para seu lar.

Por que sempre corremos de volta para o que nos espera, por que nossa alma só se completa quando reencontra a quem pertence. E às vezes isso é a busca de uma vida inteira, às vezes é a volta para casa de uma viagem e inúmeras vezes somos só nós no trânsito depois de um dia de trabalho. De volta para os braços de quem se ama, de volta aos eixos sobre os quais a vida gira diariamente, de volta para o pão com manteiga e café com leite, de volta para o coração de Deus. Todas as histórias são isso mesmo, ir e vir, os ciclos, partir e chegar, a jornada toda. E a vida se realiza na certeza aconchegante de poder ter para quem voltar.

Eu me vejo no outro lado do balcão, refletido num espelho. Já não me analiso ou faço perguntas. Sei muito bem para onde sempre volto.

Vem aí!

O primeiro livro deste que vos tecla :-)

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Por quem meus olhos abrem

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Algumas situações ruins que vivemos, às vezes vem cercadas de tantos momentos mágicos que com o passar do tempo a memória se encarrega de nos fazer esquecer as partes negativas e nos apegamos à ideia de que tudo foi perfeito.

Nos últimos meses, as coisas meio que voltaram uns nove anos no tempo aqui em casa. E com a chegada tão esperada da Cecilia e toda alegria de ter um bebê trazendo o milagre da vida e dando seus primeiros passos na sala do nosso apartamento, chegou também – sem ser convidado, preciso enfatizar – a época da areia nos olhos, das overdoses de cafeína, dos sonhos delirantes com noites inteiras de sono que agora parecem tão remotamente impossíveis.

Nossos passeios no shopping acabam com nós dois parados lado a lado, dedos entrelaçados e aquele olhar melancólico em frente a uma loja de enxoval e a boca salivando em desejo por camas fartas, edredons fofos e lençóis de algodão egípcio com 12.000 fios. Tudo o que queremos são noites com horas ininterruptas de sono.

O fato é que a Cecília acorda muito durante a noite. A cada hora, às vezes. Várias vezes numa hora só, em certas ocasiões. Quando o ponteiro marca uma e tantas da madrugada, ela começa a chamar, numa escala de decibéis que certamente não cabem nos 75 centímetros que mede aquele pequeno ser:

– Mamamamamamamaaaaaa!

Levantamos correndo, muitas vezes correndo na direção errada (eu já cheguei a ir para o banheiro ao invés de entrar no quarto das meninas), tantas vezes chutando chinelos, crocs, quinas de cômodas e dando topadas com o cotovelo na maçaneta de alguma porta. O susto nos impulsiona, o despertar é quase um instinto.

Talvez alguém que leia isso recomende técnicas de sono. Alguém sugere um “nana, nenê” aqui, outro indica o “leito compartilhado” ali e talvez apareça também o modelo francês em uma conversa por aí. A gente tá ligado, estamos realmente tentando. Mas tem sido difícil contar para a Cecília sobre nossas metodologias e conseguir que ela concorde em participar dos testes.

* * *

Eu lamentava essa situação outro dia, quando me ocorreu que há pouco mais de um ano estávamos, nós dois, nesse mesmo quarto, vivendo esse mesmíssimo momento, mas ainda sem ela. Os olhos abertos, idas e vindas pela casa, o medo de acordar a Nina, coração aflito esperando Cecília chegar em algum instante daquela madrugada. Ela nasceria em poucas horas e essa era toda a expectativa que tínhamos então (e já nos acordava às duas da manhã para anunciar o que viria pela frente).

Hoje, ela mede alguns poucos centímetros, mas ocupa dois metros de altura entre nós. Pesa doze quilos, mas preenche a casa e nossas vidas com sua presença festeira e o sorriso fácil de poucos dentes separados. Tem apenas alguns meses nessa terra, mas ilumina a vida da gente inteira com aquele cabelo vermelho fogo e a pele branca reluzente.

Ontem ela fez um ano. Antes de ontem, ela nasceu. Amanhã, ela estará por aí ganhando o mundo.

Aquela sensação de que tudo estava sob controle e a certeza de que a paternidade era assunto dominado por aqui, obviamente caiu por terra. Achamos que a Nina e sua serenidade eram o padrão genético que imprimiríamos em qualquer ser humano que resultasse de nós dois. Achamos.

Não estávamos acostumados. Na vida pacata que sempre reinou sob esse teto, jamais imaginamos a chegada de alguém que virasse tudo de pernas para o ar, como Cecília faz. A Nina sempre foi tão calma, tão a gente mesmo, como uma extensão das nossas personalidades. A Cecília, por sua vez, é o conceito não lapidado de personalidade em si.

Se a Nina sempre foi calmaria, a Cecília é tempestade. Nina é solitude, Cecília é multidão. A Nina é “a capela”, mas Cecília é bloco de carnaval. Nina é Beatles e Cecília é Rolling Stones.

Ela tem pressa, ela voa. E se minha vida até então era sempre essa coisa de andar de olhos fechados para sentir a brisa e contemplar, agora eu fico, o tempo todo, de olhos bem abertos. Porque a todo instante, ela nos surpreende. E isso é a maior graça dessa história toda.

Mas, enquanto observo minhas meninas dançando juntas na sala, partilhando uma história na tv e caminhando lado a lado para a vida, sinto que me pesa sobre os ombros o preço do tempo, o limiar da história e me crescem novos fios brancos pelo corpo. Eu limpo as lentes embaçadas dos óculos e olho para o “agora há pouco” como um passado cada vez mais distante. Tenho medo.

* * *

A coisa não é abrupta, nunca é. Não há ruptura que se possa notar assustado, não há dia agendado para que uma despedida seja marcada a tempo. O tempo é sorrateiro, é fugaz como um fósforo que de chama reluzente vira cinzas num piscar de olhos. Só o notamos olhando para trás, só nos damos conta de que tudo foi tão rápido quando já passou.

Só vemos os sinais. Há riscos de giz de cera marcando a altura no batente da porta do quarto, há uma sacola de roupas que já não servem, há fotos, milhares de fotos, gigabytes de fotos, de muitos dias e eventos. Temos os brinquedos antigos esquecidos em alguma caixa velha, os desenhos em rabiscos arquivados nas gavetas do criado-mudo. A verdade é que só temos mesmo as lembranças e todas essas coisas que nos remetem às lembranças.

Elas vão passar, vão crescer e correr tão rápido que meus dedos não poderão alcançar, vão sair pela porta da sala para brincar lá embaixo e, de repente, voltar com as suas crianças para brincarem com a gente.

A diferença de idade entre as duas é um duro contraste. Até outro dia, era a Nina a personagem de parágrafos tão parecidos com esses que agora eu dedico à Cecília. E fico pensando que toda descoberta e novidade de ser pai novamente será, outra vez mais, essa experiência encantadora e assustadora e vou ter que lidar com a Cecilia, daqui oito anos, nesse tamanho que a irmã tem agora – e que já terá 17 anos (de-zes-se-te!) então.

A Nina agora me pergunta sobre o significado da vida. Quando ela começou, pensei que era uma revisão para a prova de ciências. Mas (como sou tolo), a questão era pura filosofia:

– Pai.
– Oi, filha.
– Assim, eu tenho essa pergunta… essa… eu queria saber, o que é a vida?
– Como assim, filha?
– A vida, pai. Isso que eu quero entender. O que é a vida? Eu fico todo dia com essa pergunta. Por que a vida, pai?

Eu digitava qualquer bobagem no computador nessa hora, paralisei uns 15 segundos, até que notei que precisava fechar a tela e conversar à altura.

Tentei ser convincente em alguma explicação sobre existência e propósito, falei de Deus e de como a vida é uma criação dele e vivemos para ele, nosso Pai. Mas sabia que não a supriria, não há argumento racional para isso. Porque uma coisa eu sei: esse é o tipo de pergunta que só nós mesmos podemos responder, é a busca existencial que nos cabe encontrar, é o colo divino que tem a nossa medida. E o que ela não sabe é que o pai dela se faz essas perguntas diariamente.

Semana passada, ela tocou uma música inteira no teclado. Eu voltava de uma viagem a trabalho e havia chegado em casa há pouco, então ela foi até o outro quarto e nos chamou para ouvir o que tinha aprendido. Fiquei em pé, encostado no batente da porta enquanto a olhava de frente. E ela, não a música, era tudo o que eu percebia. Os dedinhos pressionando as teclas de forma coordenada, aquele olharzinho inseguro lendo a partitura, as bochechas formando um sorriso quando acertava as notas. Aí eu chorei. Poxa. Olhando aquilo, tudo aquilo, vivendo aquilo, fiquei comovido. E abracei minha filha. Não exatamente pelo que ela fez, mas por ela e porque a fico observando fazendo essas coisas para nos deixar felizes, sem saber que tudo o que fazemos na vida é tentar fazer coisas que as deixem felizes.

E o significado da vida, esse que ela tanto procura todos os dias, para mim estava naquele instante.

* * *

Abri a porta de casa outro dia e elas estavam, as três, espalhadas pela sala enquanto algum musical passava na TV. Cecilia brincava em um canto quando me viu chegar. Ela deixou o brinquedo de lado (leia: arremessou no chão) e correu, cambaleante, em minha direção. Me abraçou as pernas e eu a peguei no colo e levantei bem no alto, para depois lhe dar um beijo. Então ela também fez um bico, mirou minha bochecha esquerda e deu aquele estalo. Me abraçou, abriu o sorriso, me encarou fundo nos olhos e soltou: “Papa!”.

Ela tem esse olhar que escrutina a gente e tudo ao redor. O mesmo olhar que revela tudo o que ela é. A Cecilia não tem mistério. Eu brinco que ela não é branca, ela é transparente. E amo enxergar nela a pureza da infância, essa autenticidade e liberdade em poder oscilar do pranto ao riso em segundos, em não se limitar às convenções. E penso no quanto disso me falta hoje. Ela tem medo do secador de cabelo, mas adora dormir ao som do aspirador de pó. Ela gosta de comer sozinha com o garfo, mas pede que a gente segure a mamadeira para ela. Ela agarra e penteia os pêlos da Lucy o tempo todo, mas tem aflição de passar a mão em bichinhos de pelúcia. Ela fala “não” quando não quer alguma coisa e fala “não” quando quer também.

Me encanto em perceber que estou vivendo, de novo, essa satisfação da paternidade, o privilégio de testemunhar mais um ser humano dar seus primeiros passos cambaleantes diante dos meus olhos, de ter uma menina pendurada em minha mão passeando pela rua enquanto me faz perguntas sobre a Peppa Pig, sobre brinquedos, sobre minha infância e, talvez, sobre o sentido da nossa existência. Esses dias tão mágicos e excepcionais da vida da gente que, numa fração de segundos, suplantam qualquer parte ruim, qualquer noite mal dormida, qualquer desejo individualista e superficial. E na mesma fagulha de tempo, tudo vai embora. Daqui a pouco ela me pega de surpresa, como a Nina, com perguntas difíceis. Daqui a pouco ela sai por aí com sua mochila nas costas.

Lembrei, outra vez, de uma história que vivemos há coisa de sete anos. Estávamos em férias, viajando para algum lugar que já não recordo. Era noite, a Nina dormiu e eu a carregava no colo. Já não lembro se estávamos em um avião ou um elevador, mas lembro que enquanto esperávamos alguma porta abrir, uma senhora, parada ao lado da Manú, nos observava. Ela contemplou a cena, parou o olhar sobre a Nina, sorriu por longos segundos e emendou:

– E na semana que vem ela fará 20 anos.

Já é tarde agora. As duas dormem juntas num quarto. Não resisto e vou até lá ver como estão. Faz bastante frio nesses dias e tentamos manter tudo bem fechado e aquecido. Puxo a coberta sobre a Nina, que se mexe a noite toda. Coloco mais uma manta em cima da Cecilia, que nunca pára de se mexer. Ajeito os travesseiros sob suas cabeças. Faço minha prece por elas.

Nos olhos, não tenho areia. Tenho talvez um cisco. E as observo admirado. De olhos bem abertos. Porque num piscar de olhos, a vida inteira passa.

Sobre meninas e cães

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Uma das coisas legais de ser pai é ter acesso a boa parte das coisas mais bacanas da vida na hora em que você quiser. Carregar uma menina no colo, se sentir o herói de alguém, ter infância eterna (poder voltar a brincar de coisas de criança e fantasiar sem parecer um idiota aos olhos dos outros adultos), dormir acampado no meio da sala e inventar histórias cheias de animais falantes e pessoas que voam.

Você pode dizer que esse prazer depende da disposição da criança e não do adulto, mas o fato é que a esporadicidade desses acontecimentos, hoje, são resultado muito maior da indisponibilidade dos pais do que da falta de interesse das crianças. Tenho filhos e tenho amigos com filhos, basta observar.

Além disso, essa felicidade do pai independe do filho. A Nina está lá, sentada na mesa desenhando flores. A Cecília está aqui, dormindo no carrinho. E eu, como um cachorro quando o dono chega pela porta de casa, usufruo dessa alegria inata e me realizo sem que elas precisem fazer algo a respeito.

O mesmo peso, para mim, tem o fato de poder dormir todas as noites na mesma cama com a mulher mais bonita e inteligente que eu conheço. E a gente esquece, às vezes, o quão afortunados somos por poder dividir um colchãozinho macio e uma coberta quente diariamente com alguém que amamos. Mas isso é ponto para outra conversa.

Pais são como cachorros babões, eu dizia. E não importa como nossos donos se comportem, sempre estaremos por perto.

Todas as noites, quando chego em casa, o ritual se repete. Abro a porta pensando em largar a mochila num canto e beijar minhas meninas, mas no meio desse trajeto de apenas dois passos sou interpelado por 30 quilos de pêlos amarelos que se arremessam na minha direção. “Oi, Lucy. Já te vi”. Ela não escuta, ela pula, rodopia, arfa, lambe e corre para buscar um brinquedo. Com um braço esticado eu tento mantê-la distante para, com o outro, alcançar e tocar minha esposa e minhas filhas para cumprimentá-las. “Agora chega, Lucy! Já deu. Vai pra lá!”.

Ela se afasta por uns dois minutos. Mas o menor balbuciar das palavras “vem”, “cadê?”, “passeio” e “vamos” num raio de 5 quilômetros, aciona novamente sua euforia e o rabo balança como um espanador. Nós a chamamos de Alucynada.

Faz três anos que ela chegou por aqui. A Nina insiste que tem duas irmãs e não uma. Cecília gasta mais tempo tentando escalar seu tronco e montar sobre ela do que entretida com qualquer brinquedo barulhento e iluminado que tenha. A Manú diz que tem três filhas: uma morena, uma ruiva e uma loira. Eu, lobo solitário nessa casa, costumo dizer que por aqui nem o cachorro pôde ser homem para me fazer companhia. Mas a verdade é que a Lucy é a única que fica plantada ao meu lado enquanto assisto algum jogo na TV. Ao meu lado, não. Ela deita sobre os meus pés com aquela massa de pêlos quentes, mesmo que o termômetro da rua aponte 40 graus na sombra.

Quando nos retiramos para dormir, ela se acomoda em um ponto na porta do corredor entre a sala e os quartos. Invariavelmente, eu tropeço em alguma parte do seu corpo ou escorrego numa pequena poça de baba canina quando vou buscar água no meio da noite. A Lucy nem se move.

Esse tipo de coisa, de cães para com os donos, de pais com seus filhos, isso tem um nome só: fidelidade. E ainda que esteja em desuso, é uma palavra das minhas favoritas. Porque, ao contrário do que se vende, fidelidade não é um contrato que te amarra ao outro, mas a liberdade que nos faz querer estar ali voluntariamente. Não é dever, é uma entrega pura ao objeto do nosso afeto. Fidelidade é ser leal, constante. E isso é raro pra caramba.

Em favor dos cães, eu diria que, diferente de nós, eles são menos suscetíveis a intempéries e alterações de humor, a dias ruins, trânsito intenso e chefes mal amados. No entanto, para os pais pesa o fato de que não importa onde estejam, não interessa como estejam ou se nos querem por perto, nossos filhos sempre serão “as crianças” (mesmo que as crianças venham nos visitar trazendo as suas crianças) e o repositório infinito do nosso amor.

A Cecília, que até outro dia só chorava e dormia, agora faz graça e sorri quando me vê. Eu fico maluco quando chego perto e ela abre aquela boquinha com meia dúzia de dentes e cerra os olhinhos. A Nina, que até a semana passada só sorria, agora chora por razões novas. E eu fico destruído quando ela me diz que vai sentir minha falta quando preciso fazer uma viagem a trabalho e fala para a mãe que quando estou fora é como se faltasse um dente em sua boca. Eu queria poder carregar uma em cada braço o tempo todo.

Não importa o que façam, elas só me dão alegria. E como faz a Lucy todas as noites, eu me coloco à porta do quarto, observo seu sono e fico babando.

* * *

Eu acho que também é assim entre a gente e Deus. Ele também é como um cão fiel, babão, à porta sempre esperando. Calado quando nos calamos, pronto a atender quando clamamos, lambendo-nos como suas crias que precisam de cuidado. Não porque nos seja submisso, mas porque como todo pai apaixonado ele está sempre ali, presente, constante, fiel.

Os fundamentalistas ficarão bravos por eu comparar Deus a um cachorro. Eu poderia fazer a relação óbvia e dizer que Deus é nosso pai amoroso. Mas o próprio Deus já disse isso várias vezes e os fundamentalistas continuam bravos com Deus.

Os fundamentalistas gostariam que Deus fosse bravo e rabugento como eles. Mas o problema é que Deus é tão pouco rabugento que sempre os decepciona. E eles ficam bravos de novo e descontam isso nas outras pessoas. Eles acreditam que entendem mais de Deus do que o próprio Deus.

E eu prefiro conversar com gente que não acredita em Deus mas que consegue compreender analogias simples do que com gente que acredita que Deus é rabugento. Até porque eu também não acredito em um Deus rabugento.

O que eu acredito, de verdade, é no que eu sinto pelas minhas meninas e insisto que isso – o amor entre pais e filhos, a pureza da infância, a simplicidade – é uma analogia que nos ensina sobre como nossa relação com Deus deveria ser.

É esse tipo de sentimento que é intenso demais para qualquer um dizer que é capaz de explicar. A gente ama, aquilo cria raízes e o que sentimos passa a ser parte de quem somos. Acredito que existe, sim, essa transcendência na vida. Porque uma satisfação que está no outro, na entrega e que dá sentido a todas as coisas dentro de nós, é que me parece ser a essência de Deus. O amor, basicamente.

E esse tipo de amor não exige reciprocidade. Mesmo sozinho, ele existe. Está lá, acampado na sala ou na porta do quarto, sentado aos pés da cama, ajudando a resolver as tarefas, sendo herói, carregando no colo, curando feridas, brincando no chão da sala e vivendo uma infância eterna.

Olho para a Lucy, deitada aqui aos meus pés, um olho fechado e o outro me observando e pergunto a ela o que acha disso tudo. Diferente dos personagens das histórias da Nina, ela não é um animal falante. Mas leal como em cada instante da sua vida, ela levanta num pulo, abana o rabo de um lado para o outro e começa a me lamber.

É nisso que eu acredito.

O mundo que eu carrego nos braços

Estou andando pelo quarto, com a Cecília no colo há cerca de 30 minutos. Na verdade, já faz uns três ou quatro dias que a Manú e eu estamos nessa. Ela está febril, com algum mal estar e só choraminga, a toda hora. Não dorme direito, tira uns cochilos e já acorda berrando alto, muito alto. Ela só para de chorar, veja só, quando a pegamos no colo.

Tem um livro ou artigo ou ensaio, vai saber, que diz que na França os pais deixam os filhos chorarem por uns 10 minutos antes de atendê-los. Esse texto defende um modelo de criação diferente e diz que, como resultado desse tipo de tratamento, na França as crianças não fazem birra. Há quem diga que deveríamos copiar os franceses. Mas a França é longe demais e a Cecília está chorando aqui, agora, ali no quarto. E o instinto de coruja não me permite ver minha filhinha chorando doente e ignora-la solenemente para ver se algo diferente acontece.

O mais perto da França que a gente está aqui em casa é o biquinho que a Cecília faz quando chora no berço. E Ceci (ou Céci) é um apelido que até pode soar francês para quem a quiser chamar assim – no caso aqui, um parente ou dois.

A gente se preocupa com tanta coisa. Há tanto acontecendo no mundo agora, por esses dias. Coisas demais. Na França, na Turquia, na Somália, nos Estados Unidos e aqui no Brasil também. O noticiário pipoca escândalos, guerra e barbárie. Eu, que sempre figuro na ala dos otimistas, tenho andado ressabiado. Penso na minha família. E dá um certo medo ser pai, marido e cidadão num mundo assim nesses dias.

Lembro quando fui roubado pela primeira vez. Roubado, não extorquido. Fui extorquido aos 10 anos num fliperama quando um moleque mais velho me tomou os últimos 50 centavos que eu tinha paga comprar uma ficha de jogo. Mas fui roubado aos 14, sentado num ônibus ao lado do meu tio Beto, com meu boné azul novinho dos X-Men na cabeça, a caminho de um show dos Beastie Boys no Olympia. Eu pensava na noite bacana que teria pela frente (meu primeiro show!), pensava longe, a cabeça apoiada no vidro da janela, quando um braço se esgueirou pela fresta aberta, vindo do lado de fora, e tomou o boné da minha cabeça. Levei um susto, fiquei pasmo. Não pelo valor do boné, mas por sentir que alguém subtraia algo de mim, violentamente, subitamente, sem que eu visse e muito menos permitisse. Olhei para os lados, procurei o boné no chão, procurei entender o que aconteceu, até que a ficha caiu (uma outra ficha, não aquela extorquida).

É meio assim, pasmo, que me sinto hoje em dia. Roubam a gente todo dia. Ando pela rua com a sensação de que há dez – ou duzentas – mãos tentando puxar minha carteira, arrancar meu suado salário, exigindo que eu pague suas perdulárias contas. Respiro com dificuldade, com o estranho sentimento de que o ar me falta nos pulmões, de que falta aquela brisa fresca da aurora, porque a ganância – a nossa ganância – derruba galho por galho, gota por gota, canto por canto, da natureza que nos sustenta e garante nossa existência. Morremos aos poucos como humanidade, engolidos por essa lama que vai consumindo a vida. Sigo pelo mundo com a percepção de que minha liberdade vai sendo subtraída, de que tentam assassinar a pureza da nossa alegria, pedaço a pedaço, em cada ataque terrorista, em cada apedrejamento, em cada cuspe na cara, lá na Tunísia, no Quênia ou na França.

Mas a França, a Tunísia, o Quênia ou Mariana estão todos longe demais.

A Cecília chora outra vez. Largo correndo o computador aqui no sofá, corro até o quarto e a embalo no colo mais um pouco até ela pegar no sono novamente. A luz dos postes lá na rua atravessam pela janela aberta e refletem na parede onde fico vendo nossa sombra em movimento. Há um pouco dessa luz iluminando parte do seu rosto, o cabelo vermelho, uma das bochechas e os olhinhos fechados. Agora ela repousa, nessa segurança ela descansa. Coitada. Mal sabe sobre que monte de dúvidas ela deposita sua pequena paz. Eu a deixo no berço e volto para o texto.

Às vezes, tenho vontade de me alienar (às vezes nada, penso nisso todo dia). Queria parar de me preocupar com o mundo todo, ser um ignorante. Deixar de acompanhar a política, fazer pouco caso dos desastres distantes, trocar o noticiário pela novela. Penso o que seria se decidisse cuidar só da minha vida e dos meus, olhar para um alvo só e manter o foco. O mundo é grande demais, elaboro. Deveria me ater ao microcosmo de coisas e pessoas que já exigem tanto de mim. Mas logo me dou conta de que não tenho essa habilidade. Não descobri ainda se por virtude ou limitação, mas não consigo não me importar e sofrer profundamente.

O que não quer dizer que eu possa fazer algo, de fato, por eles todos. O que posso fazer além de dedicar àquelas vítimas todas as minhas orações, enviar pacotes de água para Minas Gerais e doar algum dinheiro para instituições de apoio presentes nessas regiões? Isso ajuda, é evidente – e procuro fazer – mas ainda é muito pouco.

É quando me dou conta de que não é bem de alienação que preciso, mas saber claramente que o que está ao meu alcance eu devo realizar agora. Ter consciência de que tem uma porrada de coisas que posso fazer hoje para mudar o meu mundo.

Porque sempre haverá uma calçada para varrer, um vizinho necessitado para alimentar, um voto para se pensar direito, um vereador preguiçoso para cobrar. Tem, todos os dias, um asilo que podemos visitar com as meninas (idosos adoram ver crianças correndo em volta), um pedestre para darmos a preferência no trânsito, uma criança carente a quem podemos pagar os estudos. Tem uma escola e o posto de saúde do bairro em que podemos ser atuantes, tem o condomínio em que vivemos onde podemos ser presentes, a igreja da comunidade em que podemos servir.

Tem esse mundo todo de coisas a serem feitas no mundo ao nosso redor. É, no duro, nesse meio ambiente que nos cerca que podemos fazer grandes mudanças, são as vidas ao nosso redor (vizinhos, amigos, familiares) que podemos transformar.

Um morador aqui no meu bairro conseguiu que uma rua que estava totalmente esburacada há mais de 30 anos (e onde jaz parte do meu dente da frente depois de um tombo de bicicleta em um dos seus buracos há 24), fosse inteira recapeada e reformada. O que ele fez? Pregou duas faixas, grandes, coloridas, destacadas, cobrando o prefeito de uma de suas promessas de campanha. Quando a obra foi concluída, ele colocou outras duas faixas: uma agradecia a nova rua que agora temos e outra cobrava que um parque público fosse construído num terro da rua debaixo. O parque já está em obras.

Parece insignificante perto da lama toda em Brasília. Soa pequeno demais diante de problemas tão críticos no Oriente Médio e na África. Mas, não é. No fundo, é nessa escala que tudo se transforma. No limite dos municípios, do bairro, da rua, dentro de casa, na verdade. Nas necessidades da vida cotidiana, na educação dos nossos filhos, mostrando a eles o que é ser um bom cidadão, o que é ter respeito pelo próximo, o que é estender a mão a quem precisa e ser a voz de quem não a tem para exigir o direito comum a todos. O mundo inteiro, cada cidadão de bem, fazendo sua pequena parte para compor o todo. Acredito nisso, de verdade. Porque não somos a França ou Mariana, nós somos indivíduos. Somos o Henrique, o Mohamed, a Sayuri, o Maputo e a Mercedez, na beleza da nossa diversidade e individualidade. Esse é o mundo que eu consigo abraçar.

“Não usemos bombas nem armas para conquistar o mundo. Usemos o amor e a compaixão. A paz começa com um sorriso”. A frase é de Madre Teresa de Calcutá, lembrada por sua vida dedicada à caridade e que passou a maior parte dos seus dias em um hospital indiano cuidando de leprosos. Essa era sua obra: um pequeno hospital. Esse foi o mundo que ela tocou de fato. Mas por alguma razão, os efeitos de sua vocação transformaram no mundo todo a maneira de se enxergar a fé cristã.

Jesus ministrou, ao todo, por três breves anos. Nasceu na Galileia, uma região da Palestina onde, estima-se, viviam na época cerca de 200 mil pessoas. Em Jerusalém, capital da Judeia naquele tempo, viviam aproximadamente 25 mil pessoas. Sua mensagem, não deve ter alcançado mais do que uma parte dessa pequena região. Se compararmos com o Brasil de hoje, o ministério de Jesus não teria uma cobertura maior do que uma cidade entre as 100 maiores do país. Mas, honestamente, não acho que ele tinha em mente que precisaria de amplitude para começar ou exercer sua missão de vida: o amor. Porque não se ama o mundo todo, ama-se o próximo, o cego, o leproso, a viúva, a criança, o guarda, o ladrão condenado ao seu lado na cruz.

Não é a amplitude, entende? É empenhar amor aqui, é amar o próximo. Faça o que está ao seu alcance e certamente isso tocará mais gente do que poderia imaginar. Não é o tamanho que faz a grandeza da obra, é o significado, é saber que nosso esforço tem como fim o bem estar comum de nossos semelhantes e que a justiça e o bem devem sempre prevalecer. Porque essa, a bondade, é a natureza com que fomos criados.

Transformar o que me cerca, trabalhando duro, pregando no deserto, estendendo a mão ao desamparado, doando um tanto do que recebo. Embalando minhas filhas no colo e orientando seus passos para o mundo. Elas, as duas, serão grandes heroínas. Não é para menos do que isso que as educo.

Cecília chora de novo lá no quarto. Ela só tem sete meses. Esta febril, respira ofegante. Em sua pequenez, em sua fragilidade, ela depende de socorro. Eu a embalo. A Manú chega e a pega também. Só precisa de um pouco de toque para poder voltar a dormir em paz.

Esse é o mundo que eu carrego nos braços agora. A gente fica querendo abraçar o planeta todo, mas todo meu mundo, todo universo, é esse bebê que eu embalo no colo. Agora.

Ócio involuntário

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“A gente vive muito em voz alta e às vezes não se ouve.”
(Guimarães Rosa)

Já disse o quanto aprecio a oportunidade casual de, vez ou outra, ficar sem fazer nada. Gosto de poder escolher alguns momentos de pura falta de obrigação. Ficar deitado no sofá olhando para o teto, gastar uma hora ou duas ou três lendo um livro, sentar num banco na rua, passear em algum lugar com as meninas sem ter um item da lista de pendências a ser resolvido. Para mim, nessas horas a mente se renova e o espírito se acomoda. Algumas vezes, esses momentos coincidem com meus instantes de solitude e contemplação. No entanto, entendo como “fazer nada” algo mais amplo, que inclui, por vezes, o fazer “alguma coisa” trivial e sem obrigações.

Mas, ainda que tenha queimado dois parágrafos com o assunto, não é exatamente esse o tópico agora. Porque aprecio também – numa escala menor, é evidente – certos momentos de ócio involuntário.

Eu não sabia disso. Em geral, esses momentos surgem acompanhados de certa frustração. Você sai de casa cedo, o carro quebra numa rua calma, você liga para o seguro e descobre que precisará aguardar 50 minutos até o guincho chegar. A internet no celular não funciona, você não tem um livro na mochila. Não há nada que possa ser feito a não ser comer o resto daquele pacote de biscoitos que ficou solto no porta-luvas e esperar. Ao redor, só uma padaria vazia e você até tem uns trocos para ir até lá e beber um pingado… Ócio involuntário.

Você está gripado e não pode sair de casa numa quarta-feira. Você precisa descer às nove da noite para caminhar com o cachorro na pracinha. É sábado, acabou a energia elétrica em casa e chove torrencialmente lá fora. O trânsito está engarrafado e você descobre que seu carro é capaz de se mover a 3 km/h. Seu voo atrasa e você já está dentro do avião, parado na pista, com o aviso de desligue os aparelhos eletrônicos aceso. Você está, a contra-gosto numa fila de banco, numa fila de repartição pública, fila de lava-rápido, filas de pronto-socorro, filha da mãe do marceneiro que combinou com você às oito e te deixou plantado esperando na obra por uma longa hora.

Como disse, nenhum desses acontecimentos pelos quais qualquer sujeito gostaria de passar. Nenhuma alternativa de lazer ou passatempo ao alcance das mãos. E, uma vez neles, nenhum grande prazer na experiência em si.

Mas, passados aqueles 30 ou 60 minutos, há um efeito – bom, pode haver – positivo.

Porque se ao invés de resistir e brigar com os ponteiros do relógio para que passem mais rápido ou amaldiçoar a operadora de celular que não provê um sinal decente de conexão à internet, em resumo, se nos resignarmos com a ideia de que não adianta estressar porque a situação é inevitável, bem, há boas chances que tais “acidentes” se tornem ocasiões oportunas para um saudável “fazer nada”.

Meu ócio involuntário.

Nessa fase da vida em que temos um bebê de dois meses em casa, esses momentos acontecem com frequência cada vez maior e chegam a se estender madrugada adentro. Até faço, algumas vezes, um certo malabarismo equilibrando bebê e celular numa mão enquanto dou a mamadeira com a outra e desvio da Lucy deitada no meio do caminho. Mas há certas horas, embalando a pequena pela sala às três da madrugada, em que tudo o que se pode fazer é caminhar de forma ritmada, cantarolar uma canção de ninar e pensar na vida durante o breu da madrugada. Ou melhor, esquecer da vida, o que tantas vezes é necessário para colocar as coisas em ordem.

O silêncio, o nada, essa oração não forçada que é deixar a mente vagar por onde queira. As velhas ideias desordenadas então se encaixam, ideias novas aparecem, entendemos um pouco do porquê algo foi como foi, nos ajeitamos para encarar o que vem do jeito que vem. Fazemos resoluções das coisas necessárias para os próximos dias. Reverenciamos a Deus por aqueles detalhes, aqueles instante fundamentais que deixamos de notar por alguma razão ainda há pouco. A vida ganha mais espaço quando a alma pode escoar um pouco do que a vinha afogando. Há realmente um efeito positivo nisso.

Para me prevenir, passei a carregar um livro porta-luvas do carro, de forma que um ócio involuntário possa eventualmente se tornar numa solitude desejada. Não é nenhum livro do qual eu tenha tanta pressa de terminar (em geral, algum de contos ou ensaios), então ele fica ali, esperando para ser lido nessas ocasiões pelas quais nem eu, nem ele, esperamos. Tenho também papel e caneta sempre à mão (para situações como essa agora, enquanto anoto essas palavras), um folheto de propaganda imobiliária, óculos de sol, chicletes de menta e água. Carrego também um canivete suíço falsificado que, ainda que nunca, jamais tenha tido qualquer utilidade, me ajuda a alimentar a ideia de que em algum momento da vida eu possa finalmente me deparar com a necessidade de revelar o MacGyver que vive em mim. Esse é meu kit de suprimentos.

Porque a verdade é pode acontecer a qualquer hora. Vai acontecer quando eu menos esperar. E eu só quero estar bem preparado para fazer absolutamente nada quando isso me for exigido.

A Páscoa para os não religiosos

Uma coisa que às vezes me ocorre quando penso na Páscoa e na história que relembramos nessa data é que, evidentemente, nem todo mundo se identifica com o significado que isso tem para os cristãos (não estou ignorando o fato de que judeus também celebram a data, só estou restringindo a perspectiva para a leitura do Novo Testamento e do feriado prolongado).

É claro que isso não é de hoje. Fico tentando imaginar o que passaria pela cabeça de um cidadão da Palestina do primeiro século que eventualmente viajava por Jerusalém na ocasião da crucificação de Jesus. Entenda, nem todo mundo que estava na cidade naqueles dias fazia ideia do que aquilo representava e nem da própria existência de Jesus. As festas da Páscoa judaica atraiam peregrinos de todo Oriente Médio e, sem os meios de comunicação de massa (que só vieram a ser inventados quinze séculos depois), uma informação poderia levar semanas ou meses até ser minimamente difundida.

A cena que me vem à mente é a de um desses peregrinos, chegando à cidade naquela sexta-feira, observando a movimentação em torno de mais um condenado à crucificação que, movido pela comoção de discípulos que o seguiam (que tipo de criminoso atrairia discípulos?), resolve acompanhar a multidão e se vê, horas depois, aos pés da cruz de Jesus Cristo tentando compreender a história a partir dali.

Ele vivencia a morte do Messias e os fatos que a cercam. Nota a dor de seus familiares e amigos ao redor, acompanha o desfecho de mais uma tarde cruel patrocinada pelas autoridades judaicas e romanas que se impunham no local. Mas, ainda curioso, ele permanece ali e segue o caminho dessa história. Dois dias depois, ainda na cidade, testemunha o pequeno alvoroço daqueles mesmos homens, celebrando discretamente um milagre: diziam que o homem que ele viu morrer na cruz era, de fato, o Messias. E ele havia ressuscitado.

Com base no que observou, ouviu e percebeu da coisa toda, o que o peregrino poderia entender?

Acho que é algo assim que me vem à mente quando penso nessas datas religiosas e imagino que, se faz muito sentido para mim e alguns amigos, há muita gente no mundo que só acompanha essas histórias a partir desses fragmentos e de documentários e filmes mal produzidos que passam na Discovery ou na Record. Os três dias da Páscoa, a noite de Natal, são eventos pontuais em uma história que não se limita a esses dois fatos. Ela tão pouco se limita aos Evangelhos.

O que quero dizer é que, para os cristãos é muito claro que a Páscoa é uma data definitiva, no sentido em que carrega consigo todo o significado e a razão da nossa fé. A Páscoa é desfecho e recomeço, é morte e ressurreição, é sacrifício e vida, é a conjuntura de fatos que consolidam a nossa crença e divide a história. É difícil não ter, na reflexão sobre esses três dias, ensinamentos que preencham e fundamentem nossa filosofia por uma vida toda. É evidente que esse desfecho não pode ser dissociado de toda a vida de Jesus e do curto ministério que ele exerceu. A Páscoa cristã é uma confirmação da história toda e nossa espiritualidade e esperança tem grande parte de suas bases nesses três decisivos dias e nos fatos que o emolduram.

No entanto, em um mundo como o de hoje, no contexto do nosso tempo, o que uma data como essa pode representar para as pessoas não adeptas do cristianismo como estilo de vida? E o viajante que até observa as cenas, até lembra do que sua avó dizia, até assiste a um documentário no Discovery (filmes da Record não dá, né?), mas não carrega consigo o peso daqueles gestos?

Que significado tem a Páscoa para quem não é cristão?

Passeando por Jerusalém naquele feriado, o peregrino só enxergaria um fragmento dessa história. Aos pés da cruz, à porta do túmulo vazio, sem o pano de fundo da religião de seus seguidores e encarando apenas os fatos soltos, ainda assim lhe ficariam à vista as evidências e fragmentos do porquê muitos acreditavam em Jesus como sendo o Cristo.

Ainda dá para vê-lo de braços abertos e isso quase basta. Ainda é possível entender que seu gesto extrapola os limites da religião, que sua vinda não é para aquele pequeno grupo de seguidores, mas para a humanidade toda. Ainda ecoa retumbante a sua mensagem que no coração de cada homem encontra abrigo.

Amor, perdão e esperança.

Ainda é simples o seu plano. Por que um mundo com mais Jesus é um mundo que todos nós desejamos. Eternamente.

Ainda vale celebrar a Páscoa. Vale viajar por três dias a Jerusalém e relembrar a história do Deus morto na cruz e da sepultura vazia. Porque aconteceu dois mil anos atrás, mas ainda precisamos seguir o caminho para entender.

Somos todos peregrinos.

“Eu estarei com vocês enquanto procederem assim, dia após dia após dia, até o fim dos tempos” (Jesus, em Mateus 28).

O tempo. E a nossa percepção do tempo

Longe de casa outra vez. No último ano tem sido assim e, vez por outra, o trabalho exige que eu me ausente por uns dias. Esses mesmos quatro ou cinco dias que passam como vento durante uma semana qualquer, em momentos assim parecem se arrastar na proporção da distância que percorro.

O tempo e seu aspecto relativo. O tempo, de fato, a coisa métrica ali no relógio girando os ponteiros, e a nossa percepção do tempo, afetada pela carga das emoções. Da pressa para que passe logo, do desejo de que nunca acabe, do anseio de eternidade que carregamos no peito.

Só no que consigo pensar nessa horas é nas pessoas que amo e que não estão aqui agora. A Manú, nossas filhas, elas crescendo, nós dois envelhecendo. Vamos passando os dias, as horas, os anos, um a um, nessa peregrinação. Me pergunto se não estamos apenas atravessando a vida na maior parte das vezes, se não perdemos a rota e vamos navegando a existência num entrar e sair de ar, num pulsar de sangue nas veias. Queria ter certeza de que, de fato, estamos dirigindo os nossos passos nessa breve caminhada.

Porque se não somos donos de nossa existência (você não escolheu nascer), ao menos Deus nos fez senhores dos nosso tempo. E se temos escolha sobre como empenhar os poucos dias que temos sobre essa terra, porque ainda nos submetemos tanto a questões periféricas? Por que, afinal, o que nos dirige e determina nossas escolhas são os assuntos secundários e não as mais importantes e definitivas razões pelas quais existimos? Dedicamos mais e mais tempo ao trabalho, às reuniões sociais, a ganhar e gastar dinheiro, a discutir qualquer assunto vazio ao redor de uma mesa, reclamar e ser veementemente a favor ou enfaticamente contra o _______________ (preencha aqui o assunto mais importante de todos os tempos da última semana) no Facebook. Vivemos às custas de aparências e superficialidades. Nos sujeitamos, como escravos, reféns de salários, carreiras e cargos, num jugo imposto por nós mesmos, como se isso definisse o que somos de alguma forma. Tornamos a vida pequena. E acho que haverá muito do que se arrepender no futuro se as coisas continuarem no rumo em que estão.

Enquanto isso… bem, enquanto isso nossas famílias recebem tão pouco daquilo que mais esperam de nós. Erramos, provendo o que sentimos que desejam sem lhes dar o que precisam. Dedicamos tão pouco tempo aos nossos relacionamentos mais preciosos, sem nos dar conta, talvez, de que perdemos mais um pedaço da vida – da nossa e das deles – a cada nascer do sol sem que tenhamos sentido que expressamos nosso amor. Enquanto isso, há tanto o que se produzir lá fora, tanta gente para se estender a mão, coisas significativas a serem debatidas. Falta tanto tempo em nossas agendas para ajudar o próximo, para discutir questões relevantes, fazer uma prece, para varrer a calçada, para praticar política, religião e futebol – ao invés de só produzir espuma sobre isso com nossos cliques e comentários.

Hoje é domingo. Estou a quinze, vinte ou trinta mil pés de altitude (não faço ideia, realmente. Quando leio o número naquele painel, tudo o que penso é num amontoado de pés humanos empilhados, grudados uns nos outros e se estendendo infinitamente para o alto. Já pensou? Dez mil pés!). Observo pela janela do avião uma cidade lá embaixo. Apesar do sol de fim de tarde, as milhares de construções, casas, prédios estão cobertos pelo branco da neve. É uma cena bonita. Fico olhando para as minúsculas janelas, para os carros se movendo nas rodovias como pequenos insetos. A vida alheia acontecendo, o ser humano em sua jornada cotidiana. Gente por todo lado conduzindo suas vidas ou sendo conduzidos por elas.

Temos escolha?

Só um instante a menos e fios de cabelo branco aparecem nas têmporas, um ano se passa e a Nina sopra mais uma vela, duas semanas e a Cecília cresce outros tantos centímetros dentro da barriga da mãe, 34 anos e uma nova dor nas costas aparece, circunstâncias, o inesperado todos os dias, nossos pais se aposentando, pessoas próximas começam a morrer com mais frequência.

O tempo. E a nossa percepção do tempo.

Pela janela, a vida passa depressa. É fácil se deixar levar nesse voo, nessa coisa de existir sem fazer perguntas, de acordar e dormir, ir e vir, ganhar e perder, de morrer aos poucos. O esforço está em parar um pouco, em sentir o vento no rosto, apreciar a paisagem e desfrutar a jornada de mãos dadas com quem amamos.

O tempo. E o que fazemos com ele.

Vinte centímetros e o tamanho do mundo todo

Quando a Manú engravidou da Nina, oito anos atrás, comprei um livro de presente para ela. Pode me chamar de insensível, mas quando estou inseguro sobre qualquer coisa vou a uma livraria dar uma volta e procuro um manual de instruções. E dei para ela um manual de instruções da gravidez.

Basicamente, cada capítulo tratava sobre um mês da gestação. Se alguém me contasse isso antes de ter filhos, deduziria que o livro deveria ser um panfleto com nove páginas. Mas surpreendentemente há espaço para se escrever sobre isso em quase 700. Especialistas falavam sobre como o bebê estava, seu tamanho, evolução, se já ouvia, já sentia e também sobre as mudanças que aconteciam no corpo e nas emoções da mulher ao longo daquelas 40 semanas (lição básica sobre gravidez, caso você não tenha filhos: não se calcula uma gestação em meses, conta-se as semanas. E não adianta tentar converter na proporção de 4 por 1 porque nunca dá certo).

Um dia, ela comentou sobre um assunto interessante do livro. No outro, leu um trecho muito esclarecedor. No terceiro, eu o carregava escondido para a sala depois que ela dormia. Descobri naquelas páginas os segredos do que se passava com minha esposa e, melhor, do que viria a acontecer dali para frente. Era um tipo de futurologia. Eu lia o mês seguinte antes e, quando sintomas chatos apareciam, eu tirava de letra. Quando incômodos aqui ou ali surgiam, eu podia ajudar. Quando as alterações de humor que… que… não, absolutamente, n-u-n-c-a aconteceram (amor, você está lendo?) foram relatadas naquelas páginas… bem, eu descobri que minha amada esposa é um ser superior iluminado alheio a essas previsões tolas (querida, um beijo).

Por um lado, saber de antemão o que viria pela frente e conhecer como nossa filha se desenvolvia e crescia, trazia certo conforto. Mas por outro, assustava ainda mais. A insegurança, as dúvidas, o medo de não ser capaz de trazer um ser humano para o mundo eram sombras que nos perseguiam a cada capítulo. Até que a Nina nasceu. E cada pingo de dúvida virou certeza.

Não estávamos prontos. Mas, ao nosso jeito, com manuais, tropeços, conselhos dos mais velhos, acertos involuntários, palpites alheios, documentários em DVD e observando ela crescer sob nosso teto, fomos nos descobrindo pais e aprendendo que, apesar da insegurança nunca passar, a Nina está aqui, perfeita, seguindo bem e começando a aprender com suas próprias escolhas. E a gente se realiza vendo o fruto disso na forma como ela enxerga e vivencia o mundo à sua volta e o quanto nos ensina com seu olhar.

Cinco meses atrás, quando a Manú descobriu que estava grávida novamente, começamos a imaginar se o sentimento seria igual. Parecia que a avalanche de incertezas e aquelas sensações todas nos invadiriam outra vez. Foi então que notamos que grande parte desses sentimentos nunca foram embora. Ter filhos envolve ter medos e dúvidas sobre tudo e perguntas que se renovam a cada festa de aniversário, mas também faz com que nos sintamos cercados de uma das poucas certezas que poderíamos ter na vida.

Dessa vez eu não comprei um livro, mas por precaução – vai saber quantas coisas não mudaram em termos de gravidez, bebês e esposas nesses oito anos? – baixei um aplicativo no meu celular chamado “Minha gravidez” ou coisa assim. Sim, no meu celular. Preenchi um breve cadastro considerando a data da última menstruação para eles calcularem a idade gestacional e depois passei a receber alertas e e-mails sobre o que está acontecendo, semana a semana, com minha filha e com minha esposa.

Dicas sobre alimentação e cremes para o corpo eu descartava. Tópicos relacionados a alteração de humor, evidentemente, também eram ignorados. Mas questões ligadas a hormônios, libido, saúde da mulher, bem-estar e o desenvolvimento da criança, eu lia assiduamente. Até que começaram a medir e divulgar o tamanho do bebê. Sempre gostei da ideia das medidas, achava legal saber que tinha cinco, dez, vinte centímetros… aquela belezinha crescendo ali.

Certo dia, no entanto, abri o aplicativo e a mensagem era a seguinte: “5 semanas: seu bebê tem o tamanho de uma semente de gergelim.”

Achei curioso. Até então, gergelim era, para mim, um elemento específico presente na fórmula do Big Mac, feito de um tipo de plástico comestível. Nunca tive ideia se aquilo era um alimento com origem, identidade própria e tão pouco que havia uma padrão de medida.

Na semana seguinte, abri o app na segunda-feira (dia de aniversário gestacional da minha filha) e: “6 semanas: seu bebê tem o tamanho de uma lentilha.”

Não faço ideia do tamanho de uma lentilha. Só vejo lentilhas servidas numa mesa uma vez por ano, se muito. Sua dimensão tem valor relativo pra mim, que pode se assemelhar a um feijão, milho ou… gergelim.

Mais sete dias e: “7 semanas: seu bebê tem o tamanho de um grão de bico.”

Ok. Idem a semana 6. Grão de bico é igual a feijão que é igual a lentilha que pode ser igual a gergelim. Assumo que minha filha cresceu bem pouco.

“8 semanas: seu bebê tem o tamanho de uma uva moscatel.”

Qual das uvas, entre as cinco opções que vendem na feira, ora raios, é a moscatel? Tive que esperar o sábado para saber e tentava, pela primeira vez na vida, ler as plaquinhas de papel penduradas em varais nas barracas de frutas para identificar a palavra “moscatel” escrita em alguma delas e fazer a bendita associação. Mas aí ela já tinham se passado cinco dias, ela deveria ter crescido ainda mais e estava bem perto da segunda-feira. E na segunda-feira é dia de abrir o aplicativo para checar as novidades e descobrir que:

“9 semanas: seu bebê tem o tamanho de um grão de feijão jalo.”

Jalo? Jalo!? Tá me zoando, né? Tem um jornalista escrevendo isso ou é o estagiário do Ministro da Agricultura? O que é um feijão jalo? Isso é a gestação de um bebê ou treinamento básico de agricultura doméstica para a distribuição de terras da reforma agrária? Tive que ir ao Google pesquisar sobre as diferenças entre os tipos de feijão no Brasil.

E assim, em caráter campestre, a coisa seguiu nas semanas que passaram. A cada vez, minha filha se assemelhava a um item de prateleira do hortifruti: azeitona verde, figo, limão, limão siciliano, pedaço de gengibre, coco seco, pepino, cenoura, manga, alho poró, cebolinha verde, repolho roxo, repolho, abóbora menina. Sim, menina, mas eu prefiro chamá-la de Amora do que de Abóbora. E, finalmente, abóbora – só abóbora – é o tamanho que ela terá lá na semana 40, ao final, quando nascerá.

Apaguei o aplicativo. Desisti de tentar imaginar minha filha, minha segunda princesinha, sendo comparada com uma leguminosa, fruta, tubérculo ou vegetal pelo ex-redator do Globo Rural que resolveu mudar de carreira. Eu lia sobre o tamanho dela e sentia vontade de dirigir até o CEASA para entender do que estavam falando. Pedaço de gengibre? Feijão jalo? Repolho roxo? É orgânico ou transgênico? De safra boa ou ruim? Plantado na terra ou hidropônico?

No fim, não faz falta. Tampouco faz o livro ou qualquer guia que nos instrua, essa é a verdade. Porque, no fundo, ter vivido isso uma vez com a Nina já nos faz encarar essa situação de um jeito diferente. Já sabemos, mais ou menos, como vai ser e como não vai ser. E não ter a incerteza e a tensão que vivemos durante a primeira gestação, de algum jeito, pode beneficia-la. Talvez, até com um peso menor sobre si, com pais menos instáveis, sufocantes e medrosos. Quem sabe até a Nina se sinta mais leve por finalmente não ser o centro de tudo por aqui.

É aquela sensação de que já passamos por essa rua antes, sabe? Parece que estamos viajando de novo para uma cidade que amamos visitar. E agora, ao invés de fixar os olhos no mapa para descobrir em que esquina devemos virar, queremos reparar na paisagem, desfrutar o caminho, prestar atenção aos detalhes.

Tem passado rápido, tem sido maravilhoso. Outro dia nos demos conta de que mais da metade já se foi. Ela começou a se mexer e chutar. E cada hora que faz isso, tem todo um evento aqui em casa e nós três nos mobilizamos e nos reunimos para ficar ali, com a mão posta sobre a barriga da mãe, desfrutando dessa pequena, essa singela, essa tão poderosa interação que podemos ter. Ela ali dentro, a gente aqui fora. Esperando. Mas a verdade é que para nós ela já chegou.

Daqui a pouco seremos quatro, eu penso todo dia. Como ela vai ser? Será que vai gostar da gente? Será que já percebe o quanto é amada? A Nina beija a barriga, pede que a mãe tome cuidado, que sente direito e não aperte a irmã, a chama da “mana”, a barriga cresce, a Manú grávida fica ainda mais linda, nós todos ainda mais animados. E vem toda aquela mágica, aquela ideia que amadurece dentro de nós, tão real, de repente tão grandiosa, como uma certeza de que nada, nunca, em momento algum a nossa história poderia ser tão perfeita. São assim, esses momentos. E aí que a gente transborda de gratidão e a vida, essa vida da qual eu resmungo diariamente, se enche de sentido.

Vamos aprender tudo outra vez, continuaremos seguindo pelo caminho. Porque esse é o lugar onde mais gostamos de estar. Com nosso jeito, com aqueles manuais, tropeços, conselhos, acertos involuntários, palpites de tanta gente e documentários em DVD notaremos que, apesar das nossas imperfeições, nossas meninas crescerão bem. Sob nosso teto, nossos olhares e a boa mão de Deus.

Queremos ver seu rostinho logo e beija-la. Queremos olhar em seus olhos, cheira-la no pescoço, nos apresentar para ela, apresentar o mundo todo e deixar ela acreditar que nasceu para reinar sobre ele sentada num trono cor-de-rosa com glitter ao lado da irmã mais velha. Queremos que ela venha, sim, mas sobretudo desejamos que ela venha na hora certa, no seu tempo e que, do mesmo jeito que Deus escolheu esse momento da história para ela surgir em nossas vidas, que ele também providencie que nasça em perfeita sincronia com seus planos. Do jeito que vier, do tamanho que tiver, a gente nunca mede o que sente. Com 38, 39 ou 40 semanas, não importa, é nossa menina. Não uma abóbora, uma menina.

A história sem fim – o capítulo final de um livro que não termina

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(1 de agosto de 2014)

Às vezes, tudo parece voltar ao começo. A sensação de que certas experiências se repetem, a história passa pelos olhos e concluímos que vivemos de começar e encerrar ciclos.

Agora é noite. Já fiz minha ronda pela casa. Fui até a cozinha, enchi os três copos de água que sempre deixo sobre os criados-mudos de todos. Fiz um cafuné na Lucy com o pé enquanto cruzava a sala. Entrei no quarto da Nina, a cobri melhor, ajeitei seu cabelo, beijei sua testa e fiz uma prece. Então vim para a minha cama escrever.

Lá fora está frio e alguns pássaros fazem festa nas árvores do campo ao lado de casa. O dia entra em repouso enquanto, ao meu lado, observo por um instante a mulher da minha vida. Ela dorme. A sutileza de seus gestos, a respiração leve, o rosto delicado, os cabelos soltos meio bagunçados sobre o travesseiro de fronha branca que ela faz questão de comprar pelo toque e não pelo preço. Temos sido felizes. Dividimos tanto que, ao longo dos anos, já nem sabemos o que é um e o que é o outro. Mas quando a vejo desse jeito, lembro que ela ainda é aquela menina, a minha menina de 15 anos atrás, para quem paguei um lanche e levei ao cinema no primeiro encontro, dei a mão para atravessar a rua na saída e nunca mais soltei.

Hoje ela me deu a notícia de que está gravida outra vez.

Seremos quatro.

E se havia um desfecho ideal para esse ciclo, ei-lo aqui. Não vou negar que não pensei nisso. Há alguns anos, quando esses relatos sobre paternidade começaram a se tornar uma seqüência e a Manú começou a me incentivar para que os compilasse — talvez, num livro — comecei a pensar que seria bom demais se pudesse, um dia, poder escrever um último capítulo narrando a sensação da paternidade outra vez e testificar que a história se repete, que as sensações de repetem, que a emoção toda vem à tona outra vez e o amor se multiplica em nova medida instantaneamente em nosso peito por um ser humano que já existe mas que ainda nem conhecemos.

Sim, acontece tudo isso.

Sim, o amor se multiplica. Seremos pais, tudo outra vez, a sensação toda outra vez. Dentro dela, um coração novo já bate, a vida pulsa, um ser humano virá ao mundo. Mais um pedaço de nós, mais uma criação de Deus, outra criança para nos realizar e fazer a felicidade, a tão desejada felicidade, ser essa coisa que a gente até alcança com as mãos, até ampara com as mãos, embala no colo até.

Porque já parecia impossível e tínhamos na conta a resignação de que nosso sonho de um par de filhos correndo em volta da mesa talvez fosse grande demais. Mas quem foi que disse que a capacidade de Deus se limita à nossa visão? O Pai ultrapassa barreiras pelos filhos. Seus braços sempre estendidos, o amor que rasga a eternidade para nos alcançar. Somos pequenos demais.

Gratidão. Não posso expressar outro sentimento agora. Impossível imaginar estado de espírito melhor. E sei que não será como da outra vez. A Nina mudou completamente quem somos. Somos pessoas melhores graças a experiência de ter uma filha como ela. Porque tem sido ela, do seu jeito, que nos transformou em pessoas mais preocupadas com outro ser humano além de nós mesmos. Ser pai é ser um pouco mais de si duas vezes, é ser você mesmo e também o outro, é continuidade e desapego. É o nosso amor que se concretiza plenamente em um coração fora de nós.

Porque pais doam, pais protegem, ensinam, enxugam lágrimas e contam histórias. Pais acham bonito até o que é de gosto duvidoso, rolam no chão, brincam de boneca, pegam no colo, constroem mundos imaginários numa barraca no meio da sala. Pais comem os restos, dividem, abrem mão só para ver aquele rosto feliz. Pais disciplinam, falam duro e depois choram escondido, pais atrasam o passo para o filho acompanhar. Pais arrancam dentes moles, pais fazem corpo mole no jogo para ver o pequeno vencer, deixam de lado o futebol na TV para ser derrotado numa batalha de cócegas. Pais curam com beijinhos, pedem beijinhos o tempo todo, têm essa carência eterna do toque de sua cria. Pais saem mais cedo de uma reunião importante no escritório só para ver o ensaio-da-cantata-para-a-festa-de-encerramento-do-primeiro-bimestre-do-pré-primário e depois ficam até mais tarde no trabalho para garantir o pão na mesa toda manhã. Pais sonham, tem esperança, enfrentam e vencem os monstros, reais e imaginários, para que seus filhos trilhem caminhos mais serenos. Pais observam enquanto eles dormem, escutam até o que eles não falam e atendem as necessidades que eles não pedem. Pais acham graça nas semelhanças que tem com os filhos e carregam a convicção de que o universo se tornou um lugar melhor depois que aquela criatura abriu os olhos pela primeira vez e deu o ar de sua graça.

Deus é pai.

Me pego chorando nos cantos da casa, rindo a toa enquanto espero o elevador. Apaixonado que estou de repente por mais essa criança que ainda nem vi o rosto, ainda nem cheirei o pescoço, sequer toquei e sussurrei em seu ouvido sobre meu amor, na esperança que grave em sua mente virgem a primeira mensagem de seu pai.

Talvez seja um prêmio, essa coisa toda. É possível que Deus nos recompense pelas fraudas trocadas, pelas noites em branco e os fios de cabelos brancos, nos pagando com essa moeda tão cara, o amor. Ele faz multiplicar em nós um sentimento que não podemos comprar. E brota na gente esse negócio, surge e fica ali pra sempre. E não há dinheiro que pague, não há preço pelo qual se venda, não há valor que se exija. Porque quem ama, ganha um presente que doa. E quanto mais amor se dá, mais dele se tem. Sim, o amor multiplica. E filhos são a materialização disso.

Eu diria que já quero mais filhos, quero três ou quatro agora. Mas a Manú me mataria se eu falasse esse tipo de coisa.

Queremos que eles cheguem longe, que enxerguem além do que vimos, que caminhem além das linhas que cruzamos, que evitem os erros que comentemos, que não sofram tanto com uma derrota da Seleção, que escutem a Deus, que sonhem um mundo melhor e o transformem no que não fomos capazes de fazer. Os queremos tão bem que queremos que o mundo seja digno de sua existência.

Porque no fundo é isso. Pais e filhos, imagem e semelhança, Deus e o homem.

É claro que essa história não acaba.

E agora, essa criança, esse outro nós dois que vem para nos transformar mais uma vez em pessoas novas. Porque certamente não é a mesma experiência que se repete — já mudamos tanto desde então. É uma nova etapa, a família crescendo, a partir de agora seremos “nós e as crianças”. A árvore e seus frutos, que dão frutos, que darão frutos, que serão árvores.

A Nina, desde o minuto em que soube da notícia, ficou inquieta. Anda agitada pela casa, manifesta sua alegria incontida com abraços e gritinhos (ah, mulheres…), começou a tomar nota de uma possível lista de nomes para a irmã — por razões compreensíveis ela não considera outra hipótese de sexo — e se preocupa excessivamente com o estado de saúde e a barriga da mãe. Ansiosa, tardou a deitar essa noite.

Agora elas dormem. E eu sonho.

Sonho que veremos outra vez um bebê engatinhando pelo chão da sala. Aqueles pezinhos descalços marcando o assoalho com os primeiros passos, os choros, as primeiras palavras, o cheiro de creme Johnson’s no ar, as noites em branco, as fraldas aos quilos, as canções de ninar, os contos de fadas, as histórias inventadas, as “primeiras vezes” em tudo. Sonho também poder ser um pai mais seguro dessa vez e cometer menos falhas nesses dias que são o começo das vidas das pessoas que mais amo nessa Terra. E sonho também que a Galinha Pintadinha já tenha saído definitivamente de moda nos próximos oito meses (quem merece aquela tortura!?).

Tal como no princípio, continuo sonhando com o tempo em que envelheceremos lado a lado, de mãos dadas. Os dois heróis da vida cotidiana sentados junto à mesa, à espera das crianças para um almoço no domingo. E esse será o verdadeiro prêmio da caminhada toda, eu acho. O quintal verde, um balanço perdurado na árvore, passarinhos, a bagunça dos netos espalhada, um cachorro correndo, os braços abertos para quem volta ao lar. Eu sei que vou me vestir com a melhor roupa para esses momentos e vou usar o perfume que algum deles me deu de presente. Estaremos lá. Sim, porque sempre estaremos à sua espera.

E o tempo dando uma trégua e parando naqueles instantes, aqueles pequenos instantes, que definem nossa eternidade.

A vida só começou.


(capítulo final da série Imagem e Semelhança)

Entre quatro paredes

Gosto dos pequenos momentos, dos gestos tão repetidos que já são impensados. Gosto quando, por um instante, me sinto capaz e me torno sensível para contemplar a beleza intrínseca dos momentos do cotidiano, tão do cotidiano, que já quase se traduzem em espaço branco nas lembranças.

Mas são nesses que residem toda graça natural da vida, neles está o significado em grande parte. São dessas horas que se recheiam as memórias no futuro. E poder contempla-los, acho, é viver aquela saudade agora.

Escovar os dentes lado a lado na pia do banheiro, escutar um grilo cantando lá fora, escutar a nossa música tocando no rádio, escutar – e reclamar – do vizinho barulhento. Ver nascer o sol às seis, ver nascer um dente novo na Nina, ver que as legendas da TV estão ficando a cada dia mais embaçadas. Deixar um copo d’água para o outro sobre o criado-mudo, brincar com a filha no chão da sala, embalar a dança sincronizada na cozinha apertada durante as refeições – um pra lá, dois pra cá, entre o abre e fecha das portas de armários, gavetas, forno e geladeira para tirar e colocar tudo sobre a mesa. A troca de olhares, a troca dos lençóis, a troca de roupa, a troca de toques, de presentes, de recados, de afeto. A troca de qualquer coisa por essa vida juntos.

Entre quatro paredes o mundo todo se faz, a vida inteira acontece. Enquanto a Terra gira, a felicidade se revela, as pessoas constroem, Deus se materializa. O homem se encontra.

Sete anos e outra vez a eternidade como tema

Seguir a vida dos outros. Se tem uma coisa que o advento da internet trouxe para a vida urbana moderna e que era, até então, privilégio das pequenas cidades e de tempos muito anteriores à própria rede, foi a possibilidade de saber o que se passa na vida das pessoas com quem temos ou tivemos algum vínculo.

Sem julgamento de valor. Especialmente as redes sociais, como o Orkut (até ontem) e o Facebook (hoje e sabe-se lá até quando), que ajudam na busca por parentes distantes, colegas de colégio, amigos de infância e toda uma variedade de pessoas com quem possivelmente não trocaremos um aperto de mãos tão cedo, mas de quem gostamos de saber o que comeram no almoço, onde passaram as últimas férias, o que pensam do trânsito e por quem torcem no futebol, nas eleições, nas manifestações, nas enquetes de reality show e até nas competições de curling das Olimpíadas de Inverno.

Corro disso, confesso. Não é esse interesse pela rotina que me atrai. Não gosto de ficar na janela, olhando pra rua e tentando entender os fatos. Sou nostálgico demais pra isso. Em geral, me distraio, olho para o céu, vejo alguém passando pela timeline e me perco nas lembranças do passado. Admito que minha curiosidade digital é, em certa parte, alimentada pelo que não vejo. Me concentro pensando sobre o espaço de tempo entre a época em que, há 10 ou 20 anos, convivi com aquelas pessoas e sobre o agora, quando os revejo como adultos.

Quem eles se tornaram, essas pessoas? Era pra ser isso mesmo? O menino que empinava pipas, o menino que contava piadas, o que aprontava na escola, a menina que se vestia estranho, a menina mais inteligente da classe, o menino que tinha um videogame em casa – o herói da rua – e o menino que era dono da bola. Fico tentando imaginar se eles se tornaram o que gostariam de ser.

O fato é que, em algum momento da vida, os planos e projetos passam a ocupar espaço em nossas mentes. Talvez exista uma fase na infância em que tomamos consciência do futuro, de que há perspectiva e algo a se projetar. Talvez, quando adultos abordam crianças com a insistente pergunta: “O que você quer ser quando crescer?”.

Crianças não projetam futuro, não fazem planos. Crianças são o que são agora e afirmam querer ser para sempre aquilo que mais as anima nesse instante exato. E você sabe que não estou querendo fugir das minhas responsabilidades como pai e cidadão adulto, mas acredito que tem uma beleza nisso tudo, há graça nessa inocência. Elas não andam ansiosas.

Até que o negócio todo de “ser alguém na vida”, atender uma vocação e perseguir um certo padrão de sucesso comece a ser incutido. E aí, o menino que soltava pipas e queria ser bombeiro começa a ter que pensar no tipo de carreira pretende seguir.

E aí, crescemos. Já estamos mais velhos do que achávamos que seríamos quando achávamos que estaríamos velhos. Será que nos tornamos a resposta que dávamos?

É uma pergunta retórica.

Não que deveríamos. Acho meus sonhos de agora bem melhores do que ser o camisa 3 do São Paulo FC, o Rocky Balboa ou vocalista de uma banda.

Circunstâncias que nos afetam, fatos que nos afetam, a vida que segue o rumo sem que nos preocupemos em ser protagonistas e donos de nossas escolhas. Às vezes, somos vítimas, não temos opção. Mas outras tantas, simplesmente nos conformamos.

Tenho claras para mim e ainda frescas na memória as cenas e momentos da infância. E confesso que guardo em mim o sentimento do menino. Lembro dos medos, dos sonhos, da impressão que o mundo me causava. Lembro que as preocupações eram tão pequenas. Sei que sou continuação dessa existência, consequência das escolhas que fiz. Hoje, carrego uma tatuagem desbotada na perna, barba no rosto, 93 quilos (oscilando) e fios de cabelos brancos brotando em ritmo preocupante. Mas ainda alimento sonhos. Ainda tenho em mim aquele garoto de sete anos.

Daqui alguns dias a minha filha fará sete anos.

E, assustado com a impiedade do tempo, me pergunto como estaremos, a Manú e eu, quando a Nina tiver nossa idade?

Ela dorme abraçada com um coelho e uma tartaruga. Dois bichinhos de pelúcia, não dos mais bonitos, que compramos numa viagem recente de férias. E às vezes, como ainda há pouco, me pego pensando em como ela já está grande, nas coisas que já faz sozinha, nos argumentos e explicações que acredita serem plenamente factíveis para os pedidos mais absurdos, nas pequenas cartas e bilhetes que agora deixa sobre meu criado-mudo, na sua voz lá do quarto, lendo alto os primeiros livros de histórias que alimentam sua imaginação.

Então, só preciso observá-la dormindo por um instante, só ter que pegá-la no colo adormecida no sofá para levá-la para o quarto… e ver toda sua inocência, sua graça, a minha dependência, a nossa pequenez diante da grandeza da vida.

Não pode ser só para agora. Nessas nobres horas, tudo adquire uma dimensão maior. Não consigo acreditar na finitude do ser que somos se resumindo em matéria, num pacote de átomos que existe até que tudo acabe.

E sei que não entendo seus motivos na maior parte das vezes, mas agradeço a Deus. Eu me rendo, reconheço. Cresce em mim a reverência ao eterno que se fez finito, ao Deus que se fez homem, ao Criador que se diz pai. Que traçou a vida com essa riqueza de detalhes e a singeleza necessária para que pudéssemos compreender que está em nós e na intimidade dos nossos lares, a habitação do altíssimo. O universo inteiro numa canção de ninar, a glória divina numa brincadeira no chão da sala.

Aquieto-me quanto ao futuro. Já não importa o que serei ou como estarão meus amigos de infância daqui outros 30 anos. Há beleza ao redor, há grandeza em cada história. Seja a vida fugaz, o dia de hoje é pouco, sei que tudo vai tão rápido. De novo, aquieto, observo minha criança dormindo. A eternidade precisa ser contemplada.

Orações não respondidas

igreja

Era um dia desses de ficar à toa em casa e eu arrumava qualquer coisa num canto quando ouvi a Nina me chamar lá do quarto. Fui ver o que era e ela estava quieta na cama, meio amuada e reclamava de uma dor de cabeça. Dava pena. Queria fazer algo para ajudar mas não gostaria de, logo de pronto, dar algum remédio. Sugeri então que fizéssemos uma oração juntos e que ela esperasse um pouco ali deitada.

Minutos depois, ela saiu da cama e foi até onde eu estava dizendo que a dor havia passado. Animado com a oportunidade de ensinar para minha filha os sólidos fundamentos de fé que tantas vezes me são fracos, comecei o discurso:

– Está vendo, filha? Quando a gente ora, Deus nos responde.

– É, pai.

Três segundos de silêncio até ela disparar:

– Mas, pai, eu já pedi um montão de vezes para Deus me dar asas e ele nunca me respondeu.

– Asas?

– É, para eu poder voar. E pedi também pra eu poder mandar um dia mas ele não deixa.

– Mandar?

– É. Poder mandar em você e na mamãe, só um dia.

Orações não respondidas.

Certo domingo, um pastor muito querido da nossa comunidade nos visitou para ensinar e, dentre tantas coisas marcantes, disse algo que lembro com frequência de repetir para os outros: “Quando Deus nos diz não, ele não está nos privando, está nos protegendo”.

A Nina pede para comer mais um prato de sobremesa, ela pede para ficar acordada até mais tarde, ela quer ter amigas e amigas por perto todos os dias e noites, quer faltar na escola às vezes, ela quer ver TV além do tempo combinado, quer brincar, quer mais uma, só mais uma história antes de dormir. Ela quer providências inofensivas e também quer feitos inalcançáveis. Em geral, me pede coisas que posso dar. Mas em muitos casos eu preciso dizer não.

Às vezes, ela me faz perguntas que não tenho condições de responder, ela quer motivos quando eles não existem, quer respostas que não sou capaz de lhe dar ou que, como adulto, sei que ela ainda não está preparada para ouvir.

E não é que eu tenha qualquer satisfação em ver minha filha frustrada. Sou tentado, quase todas as vezes, a atendê-la só para ter de volta aquele sorriso, um abraço e o beijo de gratidão na bochecha. Entretanto, deixar de atender o seu pedido não significa uma privação, mas cuidado. Minha negativa para algo que lhe parece tão legítimo e saudável, é porque eu sei que o melhor para ela, certas horas, é apagar a luz e ir dormir, é não abusar do açúcar, é não receber uma satisfação.

Quase sempre adoro esse conceito. Quase sempre. Eu o detesto quando sinto seu efeito sobre mim. Não que Deus me negue coisas de forma taxativa, mas com frequência chego a pensar que ele não parece ter tanta certeza do que vai responder. A espera me parece insuportável, eu tento dizer: “Na dúvida, Deus, que tal fazer o que te pedi e depois a gente vê como é que fica?”. Mas minha sugestão nunca foi aceita.

Das coisas que peço, tão legítimas, não peço dinheiro, não desejo bens ou futilidades, nada que possa me favorecer ou prejudicar alguém. Em grande parte, em minhas orações mais repetidas e íntimas, só quero respostas que dizem respeito a mim e minha família. No fundo, eu gostaria é de entender. Gostaria de discernir os caminhos, de ter revelações grandiosas sobre os próximos passos que preciso dar na vida. Há tantas escolhas a serem feitas. Queria saber por que certas coisas aconteceram de um jeito e não de outro. Por quê pessoas fazem o que fazem? Por quê existe o mal? Por quê, como disse Paulo, o bem que eu desejo fazer eu não faço e o mal que não gostaria de fazer, acabo fazendo? Por quê uma doença, uma tragédia, tal fatalidade, justo com aquela pessoa? Por quê justo comigo?

De circunstâncias a questões existenciais, de um prato de comida pedido por um pai de família às asas desejadas pela Nina, existem orações que nos parecem sem respostas.

Não acho, porém, que Deus se cale, não acredito em seu consentimento com o sofrimento e a incerteza. Tenho para mim que o Deus Pai responde, fala, se relaciona conosco e expressa o tempo inteiro a sua opinião. E quando não posso ouvi-lo, é que surdo, tão surdo, tão insensível acabei me tornando que já não percebo. Dirijo minha busca na direção errada, me expresso sem permitir que ele fale, desabo tentando decifrar enigmas quando sua resposta, sua voz, está bem na minha frente, está na paisagem, em alguém, dentro de mim. Não existe oração sem resposta.

Porque ele fala aos ventos e através dos ventos se manifesta, escancara, faz o mundo gritar sua verdade, tanto e tão alto. Porque ele fala no íntimo e no coração se manifesta, revela, faz nossa consciência perceber sua vontade, tanto e tão perto.

Porque pais querem ensinar seus filhos a buscarem por resoluções e não que as tenham de mão beijada. A Nina quer voar, quer saber porque precisa ir dormir tão cedo, eu quero que ela aprenda a fazer perguntas, que aguce os sentidos e explore o redor. Ela quer um par de patins como presente de Natal, eu quero que ela esteja sensível para perceber e ouvir o sentido de sua existência, que compreenda o amor que a mãe e eu sentimos por ela e que descubra que existe um amor ainda maior em Deus que ela pode experimentar. Ela quer tomar dois sorvetes depois do almoço, quer poder mandar em nós por um dia, eu oro para que ela seja inquieta e determinada em sua busca mas, ao mesmo tempo, seja humilde para compreender que o “não” de um pai é cuidado e não castigo.

Outro dia, ela fazia uma oração antes de se deitar enquanto eu recostava na cabeceira da cama até que adormecesse. Meu pensamento ia longe, confesso, distante um pouco da oração usual que ela fazia. Até que ela concluiu a prece pedindo:

– E Deus, por favor, mude o coração dos vilões.

Crianças. É possível que ela não lembre do que pediu no futuro. É possível que ela não lembre do que pediu hoje. Pode ser que nunca ouça claramente uma resposta para sua oração, mas em sua fé infantil sei que ela acredita que acontecerá.

Não tenho respostas tampouco. Como pai ou como filho, também acredito. Ela quer um mundo sem maldade, ela pede que o bem triunfe sobre o mal e que os homens perdidos encontrem redenção em Deus.

Ela tem asas.

Eu oro. Recostado na cama, cerro os olhos, junto as palmas das mãos, baixo minha fronte e peço que um dia possa ver que ela será parte dessa resposta.

Estar em Deus

Não importa buscar um sentido, importa buscar a Deus.

Ele é o sentido. Tudo é Deus.

Corremos atrás de respostas, passamos a vida em busca de um sentido para nossa existência. Queremos a realização em pílulas, fragmentos de sensação existencial para caminhar um passo após o outro. Mas, precisa?

O que temos em Deus não são repostas, ele talvez não nos dê um propósito tão claro. Ele é a resposta e o sentido. Não são as respostas que buscamos que estão em Deus, nós mesmos é que deveríamos estar n’Ele.

Estar em Deus. O homem e Deus numa relação indistinguível. Porque é o seu Espirito vivendo em nós, misturado ao nosso, indissociável do que somos.

A estranha coleção de lanternas

por Luiz Henrique Matos

semelhancas

“Filha, com quem você acha que é mais parecida, com o papai ou com a mamãe?”

Mãe e filha partilhavam um momento a sós e, numa tarde primaveril qualquer, aquela delicada progenitora fazia uma pergunta inocente. Enquanto isso, não imaginava que a menina, cravada nos cinco anos de idade, ainda não havia aprendido o sentido da palavra ponderação.

“Mãe, sabe o que é…”, a menina arqueou as sobrancelhas, olhou para baixo, contraiu um pouco os lábios, “Me desculpe, mas é que eu sou a cara do meu pai”.

A história me foi contada horas depois. Fiz de conta que não achei nada demais, “Ah, que nada, ela tem os seus olhos, seu jeitinho, as bochechas…”, enquanto, por dentro, uma onda de satisfação das mais imaturas me lavava a alma.

Talvez alguém um dia ainda explique – talvez – o motivo pelo qual pais, tios, avós e amigos chegados insistem nesse jogo esquisito de discutir e tentar descobrir semelhanças com algum familiar nem bem a criança saia da barriga da mãe.

Quando olho para minha filha e paro pra pensar nesse tipo de coisa, acho tudo uma grande bobagem. Qual o sentido, afinal, dessas discussões tolas? Não levam a nada. Ela parece comigo, é a minha cara, vai gostar das mesmas coisas que eu e a opinião dos outros que se exploda.

* * *

Adoramos frequentar livrarias, jogamos o mesmo joguinho do Snoopy no iPad, dançamos ao som de Strawberry Fields Forever e Blitzkrieg Bop no carro, montamos Lego no chão da sala, assistimos às Crônicas de Nárnia com ela deitada sobre meu peito infinitas vezes, temos a mesma mania de ficar parados segurando o braço esquerdo acima do cotovelo e alimentamos uma estranha obsessão por colecionar lanternas – sim, temos por toda a casa, várias delas nas gavetas e, apesar de mal fazermos uso, são tidas como item de primeira necessidade no lar.

Qualquer pai se enche de orgulho ao notar sua pequena cria desenvolver os hábitos e traços que lhe são peculiares. É um sinal da nossa continuidade, da herança que deixaremos, uma espécie de legado para a humanidade que nos identifique – bem, talvez não a humanidade toda, no sentido amplo da coisa, você entende, mas aquela dúzia e meia de parentes com certeza.

Adoramos nos ver em nossos filhos porque amamos que sejam parte de nós. Queremos, claro, que sejam melhores do que seremos, em tudo, que sigam a caminhada numa jornada bem-sucedida, feliz e com realizações. Sonhamos que suas vidas tenham significado e que façam história. E poder imaginar que existe um pouco da gente ali sendo carregado naquele ser humano que amamos mais do que a nós mesmos, é alegria das mais radiantes. Provoca, de algum jeito, um certo conforto, uma falsa sensação de segurança ao imaginar que sabemos o que estão passando.

E seria muito bom se tudo parasse por aí.

Entretanto, em medida sem igual, preciso dizer, dói como poucas coisas notar, vez por outra, que minha menina sofre ao carregar o peso de males que herdou de mim. Das patologias às manias e defeitos mais complexos. Ela é alérgica, ela é sistemática até o último cromossomo, precisa usar um aparelho nos dentes para corrigir um problema genético e tem uma carga exagerada de nostalgia para com as coisas que não cabem nos seis anos vida que acumula.

Imagens e semelhanças.

Ela não tem culpa. Eu a amo tanto, não gostaria que sofresse por nada, muito menos por defeitos que são meus. Não quero que a Nina pague esse preço. Seja dos problemas físicos, seja dos morais. E nesse sentido, Deus sabe como não quero que ela repita os meus erros. Não, ela não precisa.

Eu oro por ela. Gostaria que Deus me dissesse o que ele tem em mente. Que tipo de aprendizado ainda não fui capaz de assimilar e que minha filha, alguns pontos de QI a mais do que eu, pode superar mais cedo? Cedo na vida, eu rogo em minhas preces, quero que ela conheça a Jesus, que desenvolva seu caráter e descubra o sentido da sua existência.

Oro a Deus, o pai sem defeitos. Para que do alto de sua perfeição, aprimore sua criação corrompida. Porque eu sei que nele podemos ser transformados e, ele em nós, corrige nossas falhas, limpa nossas impurezas, cura as doenças, muda a condição em que estamos e até, há de se esperar, faz sumir as manias mais estranhas.

A imagem e semelhança perfeitas, em Jesus.

* * *

Eu a observo brincando, sentada em sua mesinha desenhando cuidadosamente. Tal como a Manú, ela tem um certo talento pra isso, um bom traço, é criativa, passa horas concentrada em seu “trabalho” – como ela chama. Eu a ouço falando qualquer coisa sobre seu dia, cantando a trilha sonora do desenho da TV, contando das amigas da escola, das brincadeiras, tudo nos mínimos detalhes. Fico olhando enquanto ela come com a cabeça apoiada numa da mãos, espetando os legumes com o garfo. Passo um tempo em silêncio, admirado com a velocidade ingrata com que minha menina está crescendo sob nossos olhares. O tempo é um velho cruel e indomável. Preciso desfrutar, tento reter cada instante que posso ao seu lado nessa infância que passa tão rápido. Queria dar pra ela uma lanterna para ajudar a iluminar melhor o caminho que terá pela frente. Que ela vai seguir com as próprias pernas, que ela vai descobrir com seu olhar brilhante, desbravar com sonhos que Deus plantou só na sua mente. Porque é tudo o que eu quero ver nela: nada de mim na verdade. Mas dela. Quero viver para ver o que ela se tornará, sua identidade, sua a visão do mundo, sua imagem graciosa refletindo na vida dos netos que nos dará um dia.

Ela dorme no chão da sala. Estávamos vendo um filme quando pegou no sono. Levanto, preparo sua cama no quarto, aumento a quantidade de cobertas, está frio, então volto para a sala e a pego no colo. Ela está ficando maior, eu estou ficando mais velho, mas esse é o lugar onde espero que ela sempre caiba. Carrego minha menina para a cama com todo o peso desse sentimento no peito, ajeito seu pijama, tiro a franja que lhe cai no rosto e ela suspira inocência.

Admiro minha cria. Ela é bonita. E Deus, que ninguém me ouça, mas é a cara da mãe.


(Esse texto faz parte da série Paternidade)

O escândalo da bondade

Semana de Páscoa.

Estava rolando minha página do Facebook enquanto procrastinava alguma tarefa importante quando vi a foto de uma criança portadora de deficiência raríssima. A legenda dava conta de que passou muito tempo internada, enfrentou inúmeras cirurgias e depois de muito esforço dos médicos, da família e de tantas boas almas que se juntaram nessa corrente, estava curada e vinha se recuperando. Na tela azul da rede social, em meio a outras postagens com imagens de filhotes de cachorros e flores silvestres com frases de autoajuda, a foto da criança era chocante. E o autor fazia uma pergunta, estampada em letras garrafais sobre a imagem: “E aí, quantas curtidas essa pequena guerreira merece?”. No rodapé, centenas de milhares de procrastinadores haviam clicado sobre o pequeno polegar estendido em sinal de solidariedade.

Três ou quatro rolagens abaixo, outra foto. Dois homens tiveram suas casas invadidas pela enchente. Um deles carregava sobre a cabeça sua televisão de tubo, coisa de 21 polegadas e a muda de roupas que conseguiu salvar. O outro, com a água barrenta quase na altura do pescoço, erguia sobre si um cachorrinho vira-latas assustado e livrava a sorte do seu fiel amigo. A legenda dizia algo sobre eleger prioridades, exaltava a conduta do rapaz e convidava os demais admiradores desse herói a curtirem e compartilharem a sua atitude.

Eu não cliquei no joínha e quase fiquei com um peso danado na consciência, questionando se, afinal, sou um indivíduo frio e sem coração. Como eu não podia curtir a pequena guerreira? Como eu, dono recente de um cachorro que encanta – e destrói – o nosso lar, não iria me juntar às miríades que clicavam e comentavam a boa ação do sujeito na enchente?

À noite, em casa, o William Bonner reservou parte do último bloco do Jornal Nacional para contar a história do dono de um supermercado que doava cestas básicas para as pessoas desabrigadas, vítimas da mesma enchente. Havia certa celebração na voz do jornalista, louvando a boa e generosa alma do comerciante como um Super-Homem da periferia carioca.

Um último fato. Tem uma seguradora investindo alguns milhões de reais em uma campanha de publicidade que convida os motoristas de São Paulo a serem mais gentis no trânsito – e quem vive em São Paulo sabe o quanto o trânsito é algo crítico. Fizeram um adesivo, com um coração e tudo, para que as moscas brancas da ética grudem na traseira de seus automóveis e avisem ao cidadão do carro de trás que, sim, respeitam seu vizinho de congestionamento e que, não, não arremessam seus carros em cima dos pedestres pela rua.

Vivemos em um tempo da história – ou talvez nunca tenhamos saído dele – em que o que deveria ser regra se tornou uma exceção esdrúxula. A generosidade, a ternura, a compaixão e os pequenos gestos de solidariedade são noticiados em horário nobre, mobilizam interações em redes sociais e são foco de campanhas de marketing de empresas.

Vivemos em um tempo em que a humanidade sente saudades do que deveria ser um sentimento elementar do homem para a vida em comunidade. De forma espantosa, os valores que mais louvamos no ser humano são os que julgamos serem tão pouco praticados pelas pessoas ao redor, a ponto de darmos destaque, como notícia, quando alguém se voluntaria em cumprir o seu dever cívico, ser gentil ou respeitar o direito do próximo.

Vivemos num tempo em que Jesus faz uma falta danada.

* * *

É no mínimo curioso observar que Jesus viveu de forma escandalosa e integral o exemplo de ser humano que admiramos ainda hoje. Eram suas atitudes, a doçura e a gentileza que encantavam e atraíam multidões. Era a predileção pelos mais fracos, a compaixão pelos carentes, a defesa dos oprimidos, o olhar além da superfície que encarava, constrangia e revelava a alma para aquele que não julgava, mas compreendia. Era o amor abundante, o toque restaurador, a paciência em ouvir. Era ele, o Deus encarnado, a humanidade em sua plenitude.

O mundo hoje destila indignação contra o cristianismo. Quando não indignação, um certo desdém. Não sem razão, se tomarmos como partida que o Cristo que as pessoas enxergam é o que a igreja anuncia em seus templos e canais de televisão. Mas o mundo que rejeita o Cristo é mesmo que o adoraria se o conhecesse, porque se o mundo ainda se comove com gestos de compaixão, ternura e generosidade, então ainda está aberto a Jesus Cristo e sua mensagem.

Ele só pode ser realmente conhecido através dos que afirmam refletir sua imagem. Se a imagem que projetamos é de intolerância, preconceito, atraso e egoísmo, até mesmo Jesus se afastaria – e se afastou – do que ele mesmo chamou de hipocrisia e cegueira.

Seus primeiros seguidores foram chamados “cristãos” pelos outros judeus porque eram vistos como “pequenos cristos”, tal era a semelhança que tinham com seu mestre. Eram também vistos com simpatia pelas pessoas e era justamente essa graça que fazia com que tantos desejassem ser como eles e saber mais sobre o Messias que anunciavam.

Jesus faz muita falta nesse mundo. Ele confiou a seus seguidores a responsabilidade de agir e falar em seu nome. Ser sal para escandalizar uma sociedade insossa, ser luz num mundo cheio de sombras, ser uma fagulha para incendiar a Terra de amor, servir para destruir o egoísmo.

Esse não é um compromisso que se deve cobrar da igreja. Não é a dívida moral de uma instituição. Não é uma mudança que alguém deva assumir porque se diz cristão. Esse é um voto que precisamos assumir como seres humanos. Uns pelos outros, de cada um para Deus.

Porque Deus não escolhe filhos, os homens é que escolhem seus deuses. Deus é um só, o Pai da humanidade toda, o criador do mundo. Para os que acreditam e para os que não acreditam também.

* * *

Na Páscoa, refletimos por um instante na vida de Jesus. Paramos para olhar principalmente os momentos finais de sua jornada na Terra, culminando na morte de cruz no Calvário numa sexta-feira e, dois dias depois, em sua ressurreição redentora.

A Cruz nos diz muita coisa. A gruta vazia está cheia de significado. Mas a histórica da Páscoa não é só sobre morte e ressurreição, mas sobre o renascimento da esperança, sobre o resgate da humanidade da condição de escravos do egoísmo para a de pessoas livres. Os dias da Páscoa antecedem em algumas semanas o momento do Pentecostes em que Jesus cumpre a promessa feita aos seus amigos de que voltaria, em Espírito, para habitar em cada um e inspirá-los na caminhada que os conduziria a uma semelhança total com seu mestre. Antecedem em poucos dias o encontro em que Jesus pede que eles sigam, mundo afora, anunciando e sendo uma boa notícia.

A humanidade inteira parecendo com Jesus.

Isso é urgente, é para agora, é a semente de um novo fruto que desejamos plantar para que nossos filhos colham. É preciso uma revolução. Não dá para procrastinar.

“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês. Tomem sobre o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Jesus, em Mateus 11:28-30).

Seis anos e a eternidade pela frente

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Seis anos. Eu ainda me lembro da festa. Foi uma surpresa tramada pelo meu irmão e minha mãe. À tardinha, saí de bicicleta para buscar um jogo na casa de um amigo e, quando voltamos, tudo escuro, já estavam todos escondidos na cozinha. Amiguinhos, vizinhos, primos e familiares saltaram detrás da geladeira, da porta e debaixo da mesa. Eu lembro da farra, do bolo, de alguns presentes e do meu pai dizendo: “É, cara, já encheu uma mão inteira e agora vai começar a contar na outra”. E aquilo era toda a maturidade com que eu podia imaginar.

São dessa idade as primeiras lembranças ordenadas que guardo da infância. Bom, tem realmente pouquíssimas coisas que eu faço acima da média, uma delas é ter uma memória visual impecável. Eu não sei jogar bola, sou incapaz de tocar uma guitarra, mas sou bom pra burro com a memória. Fatos, cores, cenas, detalhes, diálogos, nada me foge. E desse tempo na infância, às vezes as lembranças me resgatam como uma âncora. Lembro em detalhes da vila onde morávamos lá na Barra Funda, as casas pequenas, todas iguais, grudadas umas nas outras. O cheiro e o som da fábrica de asfalto cujo sinal apitava toda manhã na avenida, os bem-te-vis que cantavam numa árvore cuja copa se projetava sobre o nosso quintal bem perto da janela do quarto onde dormíamos, os três irmãos.

Estávamos nos anos 80, era o tempo do meu primeiro ano na pré-escola, das brincadeiras de bola, de pipa, figurinhas da Copa União e rachas de carrinho na rua. Foi naquele ano que aprendi a decifrar as primeiras palavras escritas e todo o mundo de descobertas que surgiu depois disso. O mundo. O mundo para mim era aprender, era o som dos Titãs tocando “cabeça, cabeça, cabeça dinossauro…” no micro-system do meu primo, era aquele presidente bigodudo anunciando coisas e coisas na tevê com uma voz estridente e preocupante, era a vinheta do jornal da Jovem Pan tocando no rádio do Fusca do meu pai enquanto eu ia pro colégio e o sol nascia através do pára-brisas. E tirando uma viagem por ano para a Praia Grande, meu mundo todo era aquela pequena vila de 30 casas que eu explorava tarde afora em cada detalhe.

Era tudo o que eu tinha. Eu tinha seis anos e nem imaginava o que vinha pela frente.

Hoje a minha filha faz seis anos.

Ontem, antes de dormir, a Manú e eu recapitulamos para ela a história do dia em que nasceu – ela adora ouvir – e depois, enquanto fazíamos a nossa prece rotineira e casualmente me dei conta do tamanho que a Nina tem agora, essa criança cheia de personalidade e graça que já ocupa seu espaço na casa e nas nossas vidas, me senti intensamente grato, fingi um cisco nos olhos, mudei o rumo da conversa e saí de lado. “Hora de dormir, filha, vê se pega logo no sono. Tenha bons sonhos”.

Com o quê nossa menina vai começar a sonhar? Como será que ela vê as coisas hoje?

Não foi um dia de festa surpresa para ela. Teve escola como todo dia, teve trabalho, consulta médica e lição de casa. A rotina que se impõe sobre a gente fez com que o aniversário dela corresse como num dia qualquer. Só mais a noite, já no fim do dia, é que a levamos para um passeio, um sorvete, um livro novo, brincadeiras, uma bonequinha, o lanche e, em poucas horas, a sensação infantil de que o dia era todo dela.

Não sei dizer se daqui a 26 anos ela vai se lembrar desse dia. Tentamos tornar as coisas memoráveis, nos esforçamos nessa busca tola por grandes experiências na vida, mas sabemos bem que não são exatamente essas situações que nos marcam. A memória nos trai, a vida faz curvas e no fim as histórias que levamos na bagagem são, em geral, as menos prováveis. Mas fico tentando imaginar o que a Nina vai guardar desse tempo. Do que ela vai se lembrar? Quais serão, quando adulta, as lembranças remotas que ela terá da infância? Os amigos, a casa, as Escrituras, a escola, a cachorrinha nova que chegou por aqui há duas semanas – Lucy, muito prazer. Será que ela terá consigo a raiz ainda firme com os princípios que a Manú e eu tentamos ensinar diariamente? Que princípios devemos ensinar para ela? A paternidade é um fardo adorável.

Ela tem pressa. Tenho quase certeza de que esses seis anos se passaram, na verdade, em três. Papo sério, acho que tem gente conspirando e fazendo tudo andar mais rápido e os cabelos ficarem brancos mais cedo. E eu bem sei que nesse ritmo, já, já ela vai ganhar o mundo, vai sair de debaixo das nossas asas e voar por aí sem que a gente possa controlar ou prover, vai descobrir e construir seu próprio mundo, sua visão de mundo, vai notar um dia que não passávamos de um casal bem-intencionado que, entre muitos erros, deixaram escapar alguma coisa boa que servirá para que ela seja alguém muito melhor do que jamais imaginamos ser. Esse é o sonho, é um desejo, é até uma oração agora. Sua liberdade será a nossa eterna insegurança. E então, só o que poderá trazê-la de volta vez ou outra para nosso ninho, é essa mesma liberdade, o desejo de vir e sentir-se querida. O único princípio que podemos ensinar pra ela é o amor. A paternidade jamais é um fardo.

Ainda ontem, antes de dormir, enquanto eu me esgueirava quarto afora com aquela lagriminha correndo num canto dos olhos, ela me lançou uma pergunta:

“Pai, quando a gente for pro céu, nossa vida nunca mais vai acabar?”

“Não, filha. Deus fez a gente para viver pra sempre.”

“Pra sempre?”

“É. Isso que chamamos de eternidade.”

“Pai, quando eu for pro céu, eu queria continuar sendo criança.”

Isso deveria ser uma condição, certo? Não resisti: “Faz bem, querida. Você sabia que Jesus falou que todo mundo, os adultos todos, deveriam mudar e tentar ter um coração como as crianças tem?”

“Boa noite, pai” – ela não estava interessada em teologia.

Ela tem seis anos e nem imagina o que vem pela frente. E aí mora toda a beleza da coisa. Somos filhos. Quem é que imagina, afinal?

O semblante

Brasilia

Há uma mensagem entalhada na cruz; há um eco no túmulo vazio.

Somos pessoas remidas, somos seres eternos. Ao crermos em Jesus, em sua mensagem e na ressurreição, recebemos por antecipação a dádiva da eternidade. Somos salvos, isentos de culpa, somos amados e livres para ser e amar. A consciência disso deveria naturalmente transformar nosso semblante e inspirar nossa maneira de viver integralmente. Deveríamos ser mais gratos, mais afetuosos, caridosos, servis, menos egoístas. Deveríamos refletir o caráter gracioso de Jesus Cristo no mundo em cada fôlego de vida. Porque Deus, o dono do Universo, o criador de todas as coisas, o Pai, nos ama, habita em nós e nos chama de filhos.

Mas a obscuridade do mundo nos desvia o olhar. Deixamo-nos dispersar e perder a rota. Somos afetados pelas circunstâncias, pelas sombras que se projetam sobre nossas almas, pela dúvida que paira no canto do ouvido, pelo pecado que nos isola. Permitimos que a soma dos fatos cotidianos nos disperse. Os erros, nossos e dos outros, as notícias do cotidiano, da política, de guerras, um funk tocando alto, um cadarço desamarrado, uma discussão em casa, um pastor corrupto em evidência, uma tempestade que surge sem avisar. E tudo isso é tão pequeno, é fugaz, mas deixamos que questões superficiais, efêmeras e passageiras nos desviem da rota e afetem nosso senso sobre a realidade.

E a realidade não é, absolutamente, o que se passa sob nosso olhar inquieto. A realidade suprema, devastadora e pungente, é a eternidade, a paz, o amor transcendente da graça divina nos tomando nos braços para sempre.

A crônica da montanha

solitude

– Não esquece de ligar quando chegar.
– Tá, pode deixar.

Fazia quase dez anos que estavam casados e nunca tinham ficado mais do que duas ou três noites longe um do outro. Ainda assim, nunca mais do que quatro horas de carro ou um telefonema interurbano de distância. Agora ele viajaria a trabalho para fora do país por uma semana e tudo aquilo era um sentimento inédito.

Abraçaram-se mais do que o normal naquelas vésperas, almoçaram juntos no dia da viagem, trocaram afeto, certezas e olhares confidentes. Chegou o taxi, ele partiu, o coração apertado num misto de apreensão e saudade que durou toda a viagem de dezoito horas. Aterrissou, o peito ainda daquele jeito, se virou com um café no aeroporto, tomou um taxi, acomodou as malas no amplo quarto do Little America Hotel e finalmente ligou para ela avisando que “sim, foi tudo bem, graças a Deus”. Tirou uma foto do quarto com o celular e saiu para comer um sanduíche de peru, caminhar e conhecer os dois pontos turísticos da cidadezinha.

Na primeira noite, durante um jantar, soube que depois de quatro dias de conferência, os participantes seriam levados para um dia de esqui nas montanhas. “Acho que vamos para o leste”, disse um que já havia estado na cidade outras quatro ou cinco vezes. “Mas aqui, eu prefiro outras montanhas. Eu gosto é de ir para Solitude.”

Solitude é uma montanha.

Os dias se passaram sem qualquer grande fato que mereça essas linhas, mas com a observação não menos descartável de que, a cada manhã, enquanto caminhava em silêncio em direção ao centro de convenções e voltava à tarde, ainda calado, para o hotel ou um restaurante, ele podia observar as montanhas cercando a cidade. A neve nos picos, o céu azul, talvez dez ou doze delas se projetando imponentes sobre aquele vale. Havia realmente tanto o que se pensar na vida naqueles dias, decisões importantes a tomar, reflexões que lhe requeriam tempo. Mas ali, longe de tudo, não havia o que pudesse ser feito. Naquele momento, só restava se concentrar no trabalho, aliviar a saudade de casa em ligações pelo Skype, seguir em frente e esperar.

Pisou a neve no dia do esqui. Espatifou-se naquele tapete branco por boas horas. Comeu um hambúrguer, bebeu uma cerveja vermelha local, comprou luvas, um chocolate quente, procurou se manter aquecido. Via aquela gente toda flutuando sobre suas pranchas, por todos os lados, se deixando levar pela velocidade, vivendo na superfície. Tudo parecia uma dança elegante. Mas ele precisava ouvir o som. Olhou para o topo, no frio mais alto, queria subir a montanha, a neve lhe caia nos ombros, sentia que precisava daquilo. Solitude parecia um encontro consigo.

Mas não subiu, não dava, não naquela manhã. Tomou o ônibus de volta para a cidade, caminhou, comeu, fotografou os prédios e as pessoas, observou os pássaros, anotou coisas. Podia ver as montanhas cercando a cidade o tempo todo, todas elas, e se perguntava se o que procurava estaria lá, ao alcance da vista, talvez sob os pés.

Sentou-se na parte elevada do prado para observar o lago, as gaivotas e um pai que brincava com o filho. Lembrou do Drummond e o do “sentimento do mundo” que lhe corria nas veias então, sentiu saudades de casa, da família, onde sabia de verdade quem era, o abrigo de si mesmo onde sua identidade se revelava. O coração não tinha partido.

Balbuciou uma oração, uma precezinha de gratidão e sentiu-se confortado por Deus, bem ali. A alma do homem ansiava por solitude, mas sua maior satisfação agora era saber que, em montanhas ou vales, jamais estava sozinho.

História em tempo real

Ninarte

Ela atravessou a sala e veio caminhando em minha direção.

– Pai?
– Oi, filha.
– Sabe esse caderno que você me deu? – ela o carregava encaixado sob o braço. Eu vou brincar que esse vai ser o meu diário.
– Ah é? E o que você vai escrever aí?
– As coisas que acontecem.
– Entendi. Tá bom então. Acho que vai ser legal.
– É… E pai, quando eu crescer e eu souber ler, vou escrever nele.
– Combinado.

A mesa dela fica no meio da sala, entre a TV e o sofá. É laranja, cheia de figuras do Co-co-ri-có e destoa completamente da decoração off white cuidadosamente planejada pela Manú. Mas ninguém liga, é uma mesinha pequena, com uma cadeirinha também, sobre a qual ela deixa três canecas de plástico transbordando de lápis-de-cor, giz de cera e canetinhas, dezenas de folhas com desenhos, cadernos rabiscados, pincéis, alguns livros e um mundo inteiro de fantasias. Ela gasta horas ali sentada, concentrada, desenhando e pintando.

– Papai, quando eu crescer vou querer ser cabeleireira, costureira e artista. Eu nasci pra isso – ela disse outro dia no carro.

Das três, a última é a única que, para o bem-estar social coletivo, ela pode exercer aos cinco anos de idade. E eu prefiro mesmo que ela não pense em trabalho agora. Eu gostaria de não estar pensando.

Estou sentado na mesa de jantar, tomando essas notas num pequeno caderno de folhas amarelas. É onde quase tudo começa. Acabamos de jantar, tirei a mesa com as louças da casa e lá no quarto mãe e filha se preparam para dormir. Foi um dia cheio. Dias, aliás, eles têm sido.

Li, hoje, uma coluna do jornalista Alexandre Matias comentando a morte prematura do programador e ativista norte-americano Aaron Swartz, que cometeu suicídio na semana passada. Matias lançou mão do trecho de um poema de Allen Ginsberg que diz “vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura” que foi posteriormente parodiado e se propagou por esses ventos digitais como “vi as melhores mentes da minha geração pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios”.

Eu pensava nisso antes do jantar, enquanto descia pelo elevador e caminhava até a portaria do prédio para buscar a pizza que havia pedido. Onde estão os nossos gênios agora? A que fins tem se prestado senão em servir a Máquina com seus préstimos em troca de dinheiro?

Num momento da história em que tantas oportunidades se revelam, em que o acesso à informação e o conhecimento se escancaram, temos preferido mesmo a frieza dos escritórios e carreiras em companhias “inovadoras” ao desconforto da incerteza. Falta algo aqui.

Nosso mundo carece desesperadamente de ideais. Falta nobreza às nossas causas. Falta um significado.

Eu, que não sou nada genial, uma mente ordinária e limitada, fiquei com a dúvida inconveniente. E quando terminamos o jantar e me sentei para tomar essas notas, eu ainda pensava nessa coisa toda. Lembrei dos meus cadernos e lápis, que eu carregava por onde fosse na infância. Como os da Nina, eles tinham um desenho aqui, outro ali, e um monte de histórias inventadas. Esse era meu passa-tempo, eu gostava de escrever. Eu tinha nove anos e, quando crescesse, queria ser jogador de futebol, vocalista de uma banda de rock e escritor. Hoje, no duro, eu passo o dia pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios.

E não é preciso ser gênio para notar que era na infância que nos alimentávamos, além de todinho e lactobacilos vivos, com sonhos puros. Você e eu, admita. Tínhamos, com a imaturidade, também a inquietude, a fé simples e um milhão de interrogações para despejar no mundo dos adultos. Líamos histórias, inventávamos histórias, imaginamos e passamos a querer escrever a nossa própria, de um jeito diferente.

Mas… bem, você conhece essa continuação tanto quanto eu.

As luzes da casa foram se apagando nos minutos que seguiram, o volume todo se reduzia aos poucos, ficava tarde. Então o som dos passinhos veio do corredor e ela se aproximou.

– Tô com sede.
– Sua água ficou aqui.
– Hum.

Continuei no caderno.

– Pai? O que você tá escrevendo aí? Posso pintar? Que legal sua caneta. Isso aqui você usa pra marcar a página onde parou?
– É só uma história, filha, umas coisas.
– Lê pra mim?
– Hum, tá.

Comecei. Do primeiro parágrafo: “Ela atravessou a sala e veio caminhando em minha direção…”

– Haha, ah, paiê!
– O que foi?
– Por quê você…?
– Filha, agora vai dormir, já está tarde.
– Pai, lê pra mim!
– Mas eu ainda não terminei, Nina.
– Então deixa eu te ajudar a escrever sua história?

E eu só queria dizer: “você está na melhor parte dela, querida.”

Noite de domingo

Domingo à noite, clima ameno, avenida central da periferia. As ruas vazias, o lixo espalhado no meio-fio, as portas de aço fechadas, só uma pastelaria aberta, um cachorro dormindo na porta e meia-dúzia de pessoas esperando pelo ônibus no ponto.

O menino dormia em seu colo, a cabeça tombada sobre o ombro e ela tinha que se curvar um pouco para aguentar o peso todo com um braço só. Na outra mão, quatro sacolas cheias de roupas, vasilhas, os mantimentos para a semana e o fio do plástico pesado lhe cravando a pele nas dobras dos dedos.

Quando o SP-0846 recolheu aqueles últimos passageiros, ela ficou aliviada em poder encontrar um banco pra sentar. Colocou o menino de lado com a cabeça deitada sobre o colo, juntou as sacolas entre os pés e rendeu a cabeça no vidro da janela. Pelos seus olhos a cidade passava rápido, as avenidinhas movimentadas, a mistura das luzes das placas, dos semáforos, do neon, dos faróis. Do alto, sondava através das janelas dos carros, as famílias juntas, arrumadas, voltando de alguma celebração dominical.

Desceu do ônibus direto pela viela. O salto da sandália estalava e se arrastava pelo corredor. O menino crescia, estava pesado. Ameaçava chuva. O portãozinho de ferro rangeu quando ela abriu, deixou bater e seguiu até a casa dos fundos. Na TV ligada passava o Topa Tudo, no sofá, sentada, a senhorinha tirava um cochilo com uma bacia de pipoca no colo. Bateu devagar na porta.

– Dá licença.

– Ahn? Éé… Oi! Entra, menina. Tava aqui rezando um pouco.

– Desculpa incomodar.

– Magina, que nada, vem. Cheguei da igreja faz hora, tava te esperando. E já dormiu o meu rapazinho?

– Ih, esse aqui cansou bastante hoje, só correu o dia todo. No primeiro ônibus já estava entregue.

– Tanta inocência. Bota ele lá no quarto.

– Tá, vou ali, só um segundinho.

Atravessou o pequeno cômodo, a cozinha e seguiu lá para o quartinho dos fundos. Deixou cair num canto as sacolas, deitou o menino num colchão de berço que ficava no chão, tirou-lhe os tênis e foi fuçar a cômoda para pegar uma roupa limpa. Sorriu ao ver os Hot Wheels que lhe dava enfileirados no fundo da gaveta junto com os bilhetes. Vestiu nele um shorts, o cobriu com um lençol e acariciou seu cabelo até que suspirasse fundo antes de entrar num sono profundo.

Na cozinha, a senhora requentava algo no fogão.

– Vem, senta aí, toma uma sopa comigo.

– Obrigada, mas já está na hora. Tenho que chegar na casa da patroa antes de o Fantástico acabar.

– E tão te tratando direito naquela casa, menina?

– E tem outro jeito?

– Ai, Dolores, vê se te cuida. Você nem sabe como é que é essa gente. Porque não fala com a Ceição? Ela saiu de uma dessa e foi trabalhar num mercadinho. Trabalha até de domingo, mas pelo menos volta pra casa. Pelamordedeus, você sabe que eu morro de paixão pelo Jônatas, não é disso que tô falando, ele é um anjo, mas minha filha, esse menino aí precisa de você.

– Mas quem é que dá emprego pra alguém como eu? Quem é que confia?

– Você é boa, menina, não fala isso!

– Sou uma bandida – falava fitando o chão.

– Que isso… pensa no que Deus te fez, minha filha. Quanto livramento, pensa na beleza da vida.

– O que foi que ele me fez? Que alegria!? Ficar dois anos naquele inferno por causa de um infeliz? Fui parar naquela jaula porque estava cega! Eu achava bonito, achava romântico ele ficar me prometendo tudo aquilo, me dando flores, perfumes, amor, um filho, me chamando de “minha madame”. Ele falava que estava crescendo no serviço, que ganhava comissão e ia virar gerente. Eu nunca tive noção disso, de dinheiro, eu acreditava. Eu precisava acreditar. Burra! Aí, ele… aí ele morre. Me leva três tiros no peito, me deixa sozinha com o menino, me larga na casa, me chega a polícia e tem toda aquela droga lá no quartinho do fundo. Meu herói era um bandido, a senhora imagina? Eu achava que vivia um conto de fadas, mas era só um sonho. A minha realidade é esse pesadelo. Eu fiquei dois anos naquela cadeia, mas a vida inteira já acabou pra mim e eu continuo aqui. Que chance eu tenho? Deus me abandonou naquele dia e não me ensinou o caminho de volta. O que sobrou pra mim, Dona Graça?

Desandava então no silêncio. Travava os lábios, toda memória represada, nenhuma lágrima. Os dedos espremiam no antebraço a tatuagem que lhe fizeram na primeira semana encarcerada, a cicatriz que nunca a deixava esquecer da ferida que um dia se abriu e ainda doía. Ela esfregava o chão todo dia com tanta força, deixava tudo brilhante com seu empenho, tudo o que queria era se sentir limpa.

– Ele nunca te deixou, Dolores. Misericórdia, não se entrega assim, não. Confie em Deus, ele sempre esteve com você, menina. E a vida a gente reconstrói, num tombo depois do outro, tem que levantar. Tem que levantar! Você é moça ainda, pode ter de tudo. E lembra que você tem seu filho, esse tesouro que te ama mais que tudo, passa a semana falando de você em tudo que é canto. Faz diferente com ele, é sua chance.

Dolores ganhou um abraço, os ombros cederam. Então, se recompôs, ajeitou o cabelo atrás das orelhas, pendurou a bolsa no ombro e, antes de sair, encarou a senhorinha nos olhos.

– Só Deus pra lhe pagar o bem que me faz, dona Graça. Tomara eu consiga um dia ver tudo assim de um jeito bom, como a senhora.

Voltou ainda até o quarto para ver o menino uma última vez. Beijou-lhe a testa, fez uma prece e desejou no íntimo que ele se tornasse um homem como o que ela nunca teve.

– Mãe? – ele acordou.

– Oi.

– Eu dormi?

– Arrâm. Faz tempo. Mas descanse agora, fio, amanhã você tem escola.

– Tá.

– Eu te amo, meu príncipe.

– Você já tá indo?

– Já.

– Não queria.

– Eu sei, mas precisa. Sexta eu volto. Vou te trazer um presente.

– Eu não queria presente, queria não… eu queria vo..

– Jônatas, a gente já conversou. Mas fique em paz, eu vou tentar umas coisas, depois te conto.

– Vou te esperar.

– Se cuida direitinho. Obedece a Dona.

– Ta. Que Deus te acompanhe.

Ela suspirou.

– Nunca me deixou.

Lá fora, o céu desabava em água. Em certo momento, ela descalçou as sandálias para conseguir subir as ruas encharcadas até o ponto, onde um casal de namorados se abrigava sob um guarda-chuva. Chegaria atrasada, o último ônibus para a Zona Norte deveria demorar ainda um tanto. Do outro lado da rua, a tevê na padaria mostrava a abertura do Fantástico.

– Tomara que a patroa deixe a porta no trinco.

A chuva lavava o céu, as ruas, lavou-lhe a alma. Agora era esperar.

Ravel

A mãe ficava rosada, cruzava os braços de um jeito duro, os punhos cerrados e falava fitando o chão enquanto enxugava as lágrimas. Era assim sempre que suas emoções vinham à tona. Tanto quando estava feliz quanto muito brava. E só dava pra saber se era de um ou do outro quando ela falava. E naquele dia, era do outro.

“Que ideia, menino, toma juízo! O que você tem na cabeça? Titica? Cocô? Onde já se viu essa história? Não vê seu pai e eu aqui fazendo de um tudo pra você estudar, ter alguma coisa na vida? E vem com essa agora… Toma tenência, toma noção do que você é, donde nasceu. Isso aqui é a Vila São Paulo, Ravel, não é a capital”. Ela ergueu os olhos e me encarou num instante. “Guarda esse papel aí e vai fazer teu curso que já está na hora”.

Eu ia levantar argumento, mas ouvi a botina do meu pai mastigando a terra do quintal na direção da porta. Sua sombra era tudo o que eu via, crescendo e tapando cada vez mais o sol que entrava no final de tarde. Ele não disse nada, entrou, passou por nós dois e foi fuçar uma caixa de papelão no canto da cozinha.

“O café tá fresco na garrafa, Cícero. Se quiser, já leva pra oficina.”

Quando ele levantou com uma ferramenta na mão e já passava a outra pela garrafa de café, ela então fez o desfecho:

“Piano, Ciço, você já ouviu essa, já soube da extravagância?” – ela adorava usar essa palavra para qualquer coisa – “Seu filho deu agora de querer largar o curso de Torneiro pra tocar piano, como se…”

Nem fiquei. Fui pro meu quarto, peguei o caderno, sentei na mesinha, liguei a fita no walkman e fingi que estudava enquanto, lá no fundo, apesar da raiva, concordava com a mãe. Que idiota eu era, que idiota! Aquilo não tinha o menor sentido. Não pra mim.

É que eu só queria era ser livre, queria ir pra longe daquela prisão de vida, daquela vila suja marrom e laranja, do barulho do martelo lá na oficina na minha orelha o dia inteiro, da poeira impregnada em tudo, da mesma comida no prato, do sapato arrebentado, do colarinho apertado. Eu amava a mãe e o pai, queria levar os dois na bagagem. Mas, eu só queria ter opção de vez em quando, sabe? O rico acha que o pobre quando sofre, sofre menos do que o rico. O branco acha isso do preto, o forte acha isso do fraco, o homem acha que tem ser humano que é menos humano no mundo. Aí, se você é pobre, preto e fraco, às vezes quase começa a acreditar nisso. Tratam a gente como bicho, descartam como objeto. Como se não doesse igual.

O negócio é que eu não queria mais. E também não queria um jeito pra esquecer, queria era ir pra longe. Eu não queria ir pro campinho, nem correr atrás de balão ou brincar de pescotapa. Eu queria ouvir a música, me enfiar no quarto, ficar de barriga pra cima escutando uma das duas fitas K7 que ganhei de prenda na quermesse e tentar adivinhar quais teclas os dedos do pianista estavam tocando naquela hora. Não era nada erudito que me invocava, mas a poesia. Até ali, eu não queria descobrir uma técnica, não queria saber como é que o homem era capaz de realizar aquele milagre, eu queria era ser levado naquela melodia, como o vento, como um passarinho. E se o encantamento com a música foi o que me alimentou até aquela hora, então parecia de repente que eu precisava transbordar, jogar tudo aquilo pra fora. Eu queria aprender a tocar. E música, além de tudo o que eu amava então, era também meu jeito de fugir daquela condição.

Queria poder dizer pra mais alguém o que eu pensava e não só pra mãe, que me ouve, mas retruca, que se altera toda. Bom… pelo menos ela conversa. Ali na pia, o avental molhado na barriga, o cheiro de perfume que ela usa é de tempero, aposto. Mas ela ainda fala. E ele, lá fora na oficina, bate e martela o ferro, é só isso que eu sei. E assobia, a mesma música, toda vez que o trabalho está difícil. Com o pai não tinha carinho, não tinha brinquedo, não tinha conversa, nem conselho. Tinha o jeito dele, tinha um pacote de figurinhas da Copa União na minha penteadeira de vez em quando e uma goiaba cortada em quatro em cima da mesa, junto do prato de comida, quando eu chegava do curso técnico à noite.

Na outra semana, cheguei pro almoço e ele estava lá no fundo, martelando. Pisei na cozinha e a mãe lá, daquele jeito de novo. Nem falava, era só o rosto rosado e molhado, os braços cruzados. Eu quis saber o que que foi e então vi que era braveza outra vez.

“Eu não sei de nada, nem quero saber de nada. Não quero nem ver! Nada! Ai, menino! Agora, olha… Ai, meu Jesus santo…”

Vai saber lá do quê? Enchi o prato, sentei calado, almocei quieto numa só garfada e levantei sem falar. Ela ali na pia, eu passei batido. Fui pro quarto, joguei a mochila num canto e vi um piano perto da janela.

Voltei pra cozinha, parei na frente dela. Nem levantou o rosto, só tapou a boca com a mão, fez que não com a cabeça e desandou no choro enquanto me apontava a porta por onde saí num salto, assustado, engasgado, aquela bola, a coisa toda estranha na barriga e na garganta e corri pra oficina onde o pai estava lá, martelando e batendo. E sei que ele estava agachado trabalhando, de costas pra tudo e nem se mexeu quando chamei, nem quando cheguei perto, nem quando o abracei e deitei a cabeça nas suas costas e chorei.

Aí ele passou a mão devagar na minha cabeça, eu saí, ele passou a mão no martelo e passou os seis meses seguintes trabalhando dobrado e assobiando sem parar.

A mãe só voltou a conversar quando prometi que ia fazer as aulas de piano lá na igreja de manhã e continuaria o técnico à noite.

E toda tardinha, depois da aula, eu mergulhava no piano. Eu treinava os exercícios e depois ficava ali, ainda sem saber direito, eu martelava e batia nas teclas e era só o que eu sabia. A mãe aumentava o som do rádio, os passarinhos armavam um ninho na goiabeira do quintal e o pai eu via lá no fundo pela janela, quase como se quisesse que ele me ouvisse.

Ia para o curso escutando os K7’s no walkman e dormia com os fones no ouvido tocando sem parar. Xopân, eu soube depois que era o nome do rapaz do piano que me ocupou tantas tardes. No começo, eu só dizia nas aulas que queria tocar como ele um dia. Mas ganhei depois no curso uma fita nova. O professor, um pastor moço da capital que vinha até a cidade só para dar as aulas como voluntário, deixou uma música para eu treinar.

A danada da fita tocava a música do pai. No fim, o assobio todo era uma peça famosa de um cara de nome difícil. Escutava a maldição da música no walkman para aprender direito, ensaiava sem parar durante as aulas lá na igreja e o tempo todo eu lembrava era do martelo castigando o aço. Mas aí eu aprendi.

E cheguei em casa um dia e vi que o pai estava lá fora, assobiando na oficina. Entrei no quarto e o vi de novo pela janela, agachado, forjando uma peça no braço. Sentei no piano e toquei a música. Na quinta nota o barulho parou, o assobio parou, o pai parou, ficou em pé, olhou pro céu um minuto, respirou fundo e, num fôlego, tomou o cabo do seu instrumento na mão, agachou e voltou a tocar o martelo. Eu sabia, ele sabia.

Toda tarde então era assim. Eu ensaiava, tocava, enquanto o pai trabalhava lá fora esculpindo suas coisas no torno, moldando as chapas de ferro, fundindo o aço que seria usado depois em novos serviços, atendendo um cliente vez ou outra, sorvendo o café da garrafa sem parar. Sem assobios do pai, sem o radinho da mãe, só o metal gritando na oficina e os sabiás cantando entre as goiabas. Essa era minha música por horas, até que vinha o cheiro do café novo, a hora do banho, o macacão azulado do Liceu e a partida para aula no novo turno.

E na mesma semana em que a escola avisou sobre a data da minha formatura no curso de Torneiro Mecânico, o pastor chegou da cidade com um folheto novo, me convidando para um recital na capital, junto com a ficha de candidatura para uma vaga num conservatório.

Cheguei berrando em casa, sem fôlego, tropeçando, contando tudo para os dois que almoçavam. A mãe ficou daquele jeitinho e o pai de jeito nenhum.

Na noite do recital, em dezembro, eu já estava formado no técnico. O diploma virou quadro na parede da sala e era ali, naquele canto, que eu queria abandonar tudo aquilo. Viajamos para a cidade numa Kombi emprestada de um amigo do pai. A mãe costurou um vestido novo, todo azul escuro, longo, meio fofo e de alças presas nos ombros. Botou um xale bege nas costas, fez um coque no cabelo e usou a maquiagem de festa que ficava guardada na gaveta da cômoda. O pai vestiu o terno da missa. E eu passei um mês torneando na oficina do Liceu para juntar uns trocos e alugar um fraque.

Toquei Báh. Toquei Xopân. E mergulhei tão fundo naquele piano novo, e martelei tão convicto aquelas peças brancas que quase acho que deixei um pouco de mim por ali. E só então, depois, vazio de tudo, reparei que estava num palco, que tinha uma luz sobre mim, que tinha um bocado de gente no teatro e tinha os dois ali. A mãe com as duas mãos tapando a boca, toda rosada da maquiagem e da emoção. E o pai, aplaudindo junto, respirando fundo com a boca aberta e os olhos marejados. E era tudo.

* * *

E foi o pai quem, de novo, duas semanas depois, deixou em cima do piano os papeis: a carta e uma ficha do conservatório me convidando para ingressar no grupo.

Já era Natal e dessa vez a mãe era toda emoção. Mas do outro jeito. Quando desandou a falar, depois de me dar uma fita K7 nova e uma partitura de presente, disse que estava morta de medo, mas que “é bonito demais, bonito demais esse piano. Vai, menino, dá mais graça pra esse mundo com essa sua extravagância, dá orgulho pra sua vila. Só não esquece da gente, promete? Seu pai e eu… promete que não me esquece, tá?”

Gostei demais do presente. Também me sentia emocionado. Perguntei se lhe daria orgulho sendo músico e não Torneiro, igual ao pai.

“De qualquer jeito dá”.

O pai estava lá fora. Assobiava.

Naquela noite, sem música, eu sonhava. Finalmente, era hora mesmo de ser livre, finalmente ver o mundo e outras cores, ser parte daquela arte que eu amava, expressar o dom de Deus, de ganhar a vida com minha música finalmente.

Eu tinha as malas prontas e uma pergunta martelando na mente que não me largava. Como é que seria a música sem o chiado do radinho e o tilintar da louça lá na pia? De que jeito ia soar sem minha terra no quintal, sem o vento atravessando as folhas da goiabeira, sem os sabiás? Como é que seria agora, meu piano ressoando sem a sinfonia do martelo?

Porque eu bem sei que queria ter quem me escutasse e então eu tinha. Queria agora ser maestro, ainda queria ser Xopân, talvez queria ser Torneiro. Eu queria transbordar mas não precisava mais fugir. Lá no fundo, acho, queria era a poesia, eu só queria os passarinhos. Agora nada mais doía. Eu tinha uma opção, sabe?

Eu quero menos

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Dia desses, eu fazia qualquer coisa no Facebook quando me dei conta, observando a linha do tempo na página, que já faz quatro anos que freqüento aquela tela azul. Eu quase alimentei um certo orgulho do meu pioneirismo não fosse uma resistência velada que tenho pela ferramenta. Não sei o que é, eu uso mas não gosto. Ou gosto de não gostar, só pra ter algo do que reclamar.

Zapeei pela página e vi que o Facebook sugeria que eu ficasse amigo de um parente distante. Ele acreditava que eu poderia adicioná-lo à minha rede, dado que temos 26 outros amigos em comum. Senti-me tentado, cliquei, adicionei, tal como se incluísse um item num carrinho de compras. Aproveitei as ofertas do dia e incluí também dois ex-colegas de trabalho e um amigo de infância a quem não via há muitos anos. Saí do Facebook de sacola cheia naquela manhã. E apesar das novas e velhas amizades virtuais, não fiz contato real com ninguém.

Sendo muito sincero, acredito que isso se deva muito menos a um interesse real de resgatar relacionamentos que eu acredite que ainda vão avançar para um novo grau de intimidade – a ponto de eu querer saber, numa conversa pessoal, que o cachorro do Beltrano acabou de sair do petshop de penteado novo e curtir a ideia de que a filha da Fulana ganhou uma festa porque completou aniversário de um ano, três meses, duas semanas e oito dias de vida – e muito mais ao fato de que, tendo por perto todas essas pessoas que frequentam apenas minhas lembranças distantes, sabendo o que elas curtem, comentam e compartilham, eu me sinta menos culpado em não manter um contato real.

Pois é, veja você, cá estou eu reclamando de redes sociais.

Mas veja, não é contra novas formas de se vincular às pessoas que eu tenho andado inconformado – nem poderia, se você está lendo isso agora, muito provavelmente foi porque publiquei em algum canto obscuro da internet – mas contra o tipo de personalidade que assumimos nesse ambiente e, pior, o tipo pessoa que nos tornamos – ou revelamos ser – desde que esses meios passaram a afetar a nossa rotina de forma tão significativa.

A superficialidade das relações nos anestesia, tem nos tornado indiferentes às dores e à vulnerabilidade dos que estão ao nosso redor. Não temos mais nada uns com os outros, senão vínculos cada vez mais frágeis.

O excesso de estímulos e o simplismo das informações, que já quase assimilamos pelos poros, nos torna também impacientes. Já não temos tempo ou não queremos despender esforços com a parte do outro que não nos agrada. No fim, só queremos o que “curtimos” e bloqueamos o resto.

Vivemos uma busca desorientada pela felicidade, como se ela fosse um fim, um destino, e estamos ansiosos, queremos ver pessoas felizes e nos mostrar como pessoas felizes acreditando nisso como um ideal projetado de realização. E cada vez menos essa busca tem como objetivo o bem-estar comum, cada vez menos as conquistas que celebramos tem a ver com a comunidade em que vivemos. Porque estamos sozinhos, à caça da aprovação alheia, vivemos a explosão do ego, a incrível era da contemplação do umbigo e o mundo já não é da nossa conta.

Nesse tempo, relacionamentos amorosos duram pouco, amizades são casuais, casamentos são contratos, efêmeros, buscas existenciais são feitas pelo Google. Não contemplamos mais o horizonte, literal ou figuradamente. Só vemos o que está um palmo à frente e amamos o que temos ao alcance das mãos, literal ou figuradamente. Só merece nossa atenção o que nos oferece, uma pílula que seja, de êxtase instantâneo.

Porque só pensamos em nós, nos bastamos e desejamos, coisas, pessoas, experiências e um deus que nos satisfaça.

* * *

Meu amigo Rui diz que se os primeiros textos bíblicos fossem escritos nos dias de hoje, Deus trocaria a palavra “pecado” por “egoísmo”. Egoísmo é a melhor tradução para o tipo de comportamento tão condenado no homem ao longo da história.

Bem, talvez você não pense em pecado como algo com o que você deva se preocupar porque, afinal, isso trás consigo um vínculo religioso e, em geral, a gente não costuma gostar de ter o nosso senso de liberdade podado por uma regra definida sabe lá onde por alguém alegando se expressar em nome de Deus.

Talvez você, assim como eu, também não pense em egoísmo como algo que lhe diga respeito. Somos, afinal, tão cheios de compaixão, tão desprendidos e beneficentes. Não matamos, não roubamos, não cometemos crimes, doamos algum dinheiro e brinquedos para instituições de caridade, somos capazes de construir relacionamentos sólidos.

No entanto, ao contrário disso tudo, nos animamos com a ideia ou conceito de altruísmo (do latim *alter*: outro + *ismus*: adepto, seguidor). Somos bons cristãos, transbordantes de generosidade. Nos levantamos entusiasmados em defesa do outro, com profundo desejo de nos doar pelo bem-estar alheio. Deixamos de lado nossos interesses para ter como prioridade o bem-estar coletivo, nos doemos pelas feridas do nosso próximo, compartilhamos os “posts” com fotos de criancinhas malogradas na África.

Hmm, bem, talvez a gente pense em egoísmo, sim.

Finalmente, se nós pensamos em Jesus como alguém que conseguimos reconhecer como nosso Deus, então é possível que nossa expressão de devoção esteja sendo feita na direção errada.

De novo, vou gastar uma dose do eruditismo que eu não tenho para recordar que *hamartia* é uma palavra grega que pode ser definida como “errar o alvo, fracassar”. É essa mesma expressão que aparece nas escrituras em parte das referências a pecado.

O egoísmo foi, possivelmente, o sentimento que Jesus mais combateu com seus ensinos. Suas atitudes mostram uma caminhada na direção oposta a isso. E seu caráter, sua história e mensagens revelam que é bem possível que a gente precise dar razão ao Rui.

E, no duro, eu acredito que Jesus é o alvo em cuja direção precisamos seguir. Ele é o padrão perfeito de humanidade, é o Deus encarnado, o ser humano apaixonante e gracioso, o Deus que senta à mesa e divide o pão. Jesus não era egoísta. Suas relações eram profundas, seu interesse no outro era verdadeiro, ele era tolerante com as falhas e defeitos dos que estavam ao seu lado, ele dividia tudo o que tinha, doava de si, do seu tempo, para ouvir e estar junto. Ele sofria verdadeiramente com a dor dos mais frágeis. Compassivo. Lembre-se: ele morreu por cada um daqueles que o insultaram, cuspiram em seu rosto e o penduraram numa cruz de madeira.

Mas, ora, o que raios isso tem a ver com o Facebook? Com Facebook, nada. Mas sinto dizer que a conversa não é sobre redes sociais. Também não estamos discutindo sobre egoísmo ou pecado. Estamos falando de amor. E de falta de amor.

O amor, que em instância primária, não existe, não se constrói e se sustenta sem que tenha no outro – algum outro – seu alvo. Amamos alguém e ao nosso objeto de amor nos entregamos, nos doamos, cedemos, sem pensar absolutamente em extrair qualquer benefício disso que não a própria realização, pura, de poder amar.

A superficialidade das relações de hoje mata o amor. A indiferença mata o amor. Nossa insensibilidade em relação ao próximo mata o amor. O nosso egoísmo mata a Jesus – o amor em essência – e exclui sua face graciosa da Terra.

* * *

Nas horas vagas, quando não estou fazendo qualquer coisa no Facebook, eu leio livros. No último Dia dos Pais, ganhei da Manú e da Nina um livro do arcebispo anglicano sul-africano Desmond Tutu – não, ele não está no Facebook, mas eu curti.

Desde que comecei a leitura, descobri que Tutu é o cara que eu gostaria de ser. Não, não quero ter a vida dele e tampouco usar aquela túnica lilás brilhante com um chapeuzinho de côco, eu só queria ter um doze avos do caráter, da sabedoria e história desse homenzinho negro que foi capaz de liderar um movimento em seu país com a finalidade de perdoar – isso, leia bem – perdoar as pessoas que massacraram seu povo durante o regime de apartheid na África do Sul, enquanto todo o povo ainda sorvia sua sede de vingança pelo sofrimento.

Tutu resgata em sua abordagem uma expressão africana que eu quase gostaria de tatuar: Ubuntu. Em xhosa, diz ele: “Umntu ngumtu ngabantu”, que mal traduzida seria algo como: “Uma pessoa é uma pessoa por intermédio de outras pessoas”. Segundo essa ideia, ninguém vem ao mundo totalmente formado, por isso, um ser humano precisa de outros seres humanos. Ele defende: “Para nós, o ser humano solitário é quase uma contradição”.

“Ubuntu é a essência do ser humano. Ele fala de como a minha humanidade é alcançada e associada à de vocês de modo insolúvel. Essa palavra diz, não como disse Descartes, ‘Penso, logo existo’, mas ‘Existo porque pertenço’. Preciso de outros seres humanos para ser humano. O ser humano completamente autossuficente é sub-humano. Posso ser eu só porque você é completamente você. Eu existo porque nós somos, pois somos feitos para a condição de estarmos juntos, para a família. Somos feitos para a complementaridade. Somos criados para uma rede delicada de relacionamentos, de interdependência como nossos companheiros seres humanos, com o restante da criação.” (…) “A ênfase do Ocidente no individualismo tem mostrado, com frequência, que as pessoas estão sozinhas em uma multidão, despedaçadas pelo próprio anonimato.” (…) “Ubuntu nos ensina que nosso valor é intrínseco a quem somos. Temos importância porque somos feitos à imagem de Deus. Ubuntu nos lembra de que pertencemos a uma única família – a família de Deus, a família humana.”

A internet ainda funcionava a lenha quando Desmond Tutu escreveu e ministrou sobre isso. E não me parece que tenhamos feito algum avanço.

Mas, e se levarmos essa idéia adiante? E se colocarmos em prática todo o conceito, se decidirmos, no mundo contemporâneo, lutar contra o egocentrismo arraigado em nossa formação e seguir o exemplo de vida de Jesus Cristo? Não parece tão simples quanto desconectar o computador e sair por aí distribuindo abraços e oferecendo ajuda a estranhos. Nossas relações mais difíceis são, em geral, as mais próximas, com os que estão ao nosso lado e são capazes de nos fazer revirar as entranhas na busca por uma solução. Quão áspero parece ser ter que esbarrar nas falhas e contradições das pessoas. É tão mais simples, tão mais cômodo e confortável construir nossas bolhas, protegidos pelo escudo de uma tela de computador, atacando e defendendo com nossos cliques, alheios ao mau cheiro do efeito de nossos defeitos sendo expostos e sem precisar engolir o cálice amargo desses encontros.

Eu quero menos, confesso. Gostaria de poder tornar as coisas mais simples. Se tudo anda tão superficial, tão cheio de espuma, às vezes, precisamos mesmo cortar coisas para ganhar, ‘ter’ menos para ‘ser’ mais. Estar ao lado de quem amamos. E a vida toda só parece ser possível através de transparência e troca, de relacionamentos sólidos que se constroem com conversas, com sentimentos revelados, curtindo juntos, compartilhando, estando no Face… no face a face.

Chegadas e partidas

Minha avó está doente. Ela tem 93 anos e até alguns meses atrás, parecia seguir com tanta firmeza e lucidez rumo ao seu centenário quanto eu caminho em direção aos quarenta. Mas uma sequência recente de breves enfermidades a deixou combalida. O negócio é que ela não está exatamente doente, não sofre de nenhum sintoma específico, ela só está cansada. Dorme muito, come pouco, já não reconhece filhos e netos com a clareza de antes. Para quem até pouco tempo estava habituada a frequentar regularmente as reuniões dominicais da igreja e visitar os filhos, não é nada entusiasmante ver-se limitada a uma rotina tão pacata.

Tenho me preocupado com seu estado. E além dos pensamentos habituais sobre sua condição de saúde, por esses dias tem me ocorrido também que minha avó, de alguma forma, é o elo vivo mais antigo que eu tenho com o passado. Nem tanto pelas questões genéticas, que também existem, mas pela relação histórica. Ela carrega vivas as lembranças, as raízes do que somos, os frutos lá da roça que ela semeou um dia.

– Ah, pai, deixa eu aproveitar pra te perguntar uma coisa: como tá a vó?. Tenho pensado nela esses dias – aproveitei um telefonema casual com meu pai para ter notícias.

– Ah, filho… ela tá daquele jeitinho que você viu, não mudou muito. A gente chega lá e ela se levanta um pouco, conversa, fica mais animada. Mas quando a gente sai, ela fica murxinha, só quer dormir. Agora tem uma senhora lá ajudando a cuidar dela. Vamos ver.

– Tsc. Tadinha.

– Bom – longos segundos se passam – ela está se despedindo da gente.

Quando muito, eu a vi duas ou três vezes no último ano. Admito que não sou um neto muito presente, é uma falha que agora eu lamento. A última vez em que a vi, faz coisa de um mês.

– É o Nelinho?

– Não, mãe, esse é o Rique.

– Oi, Rique – e sorriu largo.

Passei calado quase toda a hora em que estivemos ali. Observei meu pai na condição em que quase nunca o percebi: a de filho. Temeroso, abraçado à mãe, honrando tudo o que ela significa com seu silêncio habitual. E tudo o que ela tem é um quarto apertado, arranjado na casa da minha tia, com uma cama, um armário pequeno, uma mala de roupas e um mundo inteiro de apreensão dos filhos e seus corações rendidos naquele espaço.

Quem é que ensina a gente a perder?

Com o que será que ela sonhava quando era criança? Quando ela chegou, jovem, era essa a vida que ela imaginou que teria? Na volta para casa, no carro ao lado do meu pai, enquanto as ruas passavam pela janela, eu pensava em minha avó ali sentada na beira da cama quando me despedi dela. O pijama velho de flanela, um gorro de lã branco cobrindo os ralos fios brancos que ela já não corta desde que se converteu a uma denominação religiosa conservadora e o mingau que ela sorvia de uma xícara. Mas, o tempo todo fina, preocupada com a boa postura. Suas posses se resumem em tão pouco… mas é tudo de que ela precisa. Tem sua família, seu Deus, tem um prato de comida, roupas, tem amor e um teto sob o qual dormir.

Pensei nas palavras de Jesus: “não se preocupem com o que vão comer ou o que vão vestir, não se preocupem com o dia de amanhã, não sejam ansiosos. Busquem o Reino de Deus e todo o resto lhe será dado”.

Mas será que ela pensa nisso? Será que entende que o Criador cuida dela através das mãos das minhas tias, que lhe dão banho, trocam sua roupa, trazem o mingau quente? Deus, com as mãos estendidas, lhe acaricia o rosto marcado, alivia a dor e divide o jugo de quase um século que lhe colocaram sobre os ombros.

Será que entendemos?

Do que o homem precisa na vida, afinal? Perseguimos tanto, trabalhamos duro… e será mesmo que o começo e o fim se resumem, essencialmente, em amar e se relacionar, em estar e cuidarmos uns dos outros?

Parece que faz sentido. Mas não parece que queremos que tudo seja tão simples.

Por que desviamos tanto o olhar e a rota ao longo da vida, que é tão fugaz? Eu não sei. Erramos o alvo. Peregrinos que somos, buscamos preencher o vazio na alma com os milhares de meios que transformamos em fim, até descobrir, já exaustos, a única razão capaz de nos suprir. Uma palavra, o Verbo, o amor.

“Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Jesus, em Marcos 8:36).

Quais eram os sonhos daquela moça? Eu me perguntava, tentando construir na memória a sua história até onde a conheço. Casou cedo, trabalhou no sítio, deu à luz 12 filhos, conseguiu criar os sete que sobreviveram às dificuldades da vida no campo na década de 1930. Perdeu o marido ainda jovem, deixou a terra, os amigos, a família e a vida em Minas Gerais quando se mudou para São Paulo. Fez os filhos crescerem, viu quando casaram e se foram, se multiplicaram, ficaram velhos com ela. Viu o mundo ficando cinza, urbano, digital, viu a história das últimas décadas passando na televisão, em preto-e-branco e colorida, que nem existia quando ela nasceu, que ela trancava no armário, de “castigo”, quando as notícias ficavam tristes demais. Viu guerras, presidentes, novelas, crises e bonanças.

E que diferença isso fez? Que diferença faz toda a história do país e do mundo, a humanidade, o dinheiro, as conquistas e os grandes projetos quando, no fundo, a coisa toda é sobre a vida simples, a rotina comum do homem, da avó de família, de cada um?

Ela está fraca, fala pouco, mas seu olhar vai longe, entra fundo e, nele, ela expressa todo seu legado. Nele, ela pergunta o que é que estou fazendo com a semente que ela plantou. Ela me deu sangue, deu seu filho para ser meu pai, deu carinho, café aguado, limonada e doce de leite feito na panela. Ela me ensinou a ler as primeiras palavras, quando passava uns dias em casa lá na Barra Funda e repassava comigo as letras de algum parágrafo do livro que trazia.

– Rique, que letras são essas?

– S, I, L, E, N, C, I e O.

– Isso, muito bem, “silêncio”.

Ela só não me ensinou as palavras para descrever o que estou sentindo agora.

Enquanto minha avó se despede (e desejo que ela só o faça depois de uma demorada e animada festa de 100 anos, em 2019), me consolo em saber que ela já descansa, amparada pelas mãos do Deus de sua vida. E penso que talvez não faça mesmo diferença, não valha realmente sofrer pelo dia de amanhã. Precisamos hoje – HOJE, eu penso como um grito – buscar pelo Reino dos Céus. Esse reino que, segundo as Escrituras, é “paz, justiça e alegria no Espírito Santo”. E o Espírito Santo é Deus e Deus é amor e o amor se declara, se escancara, se revela explicitamente no Verbo, na palavra, num desabafo, no toque, no convívio, na presença e a vida toda ao lado de quem amamos. Hoje.

A vida é uma centelha. No riso e na dor, nas chegadas e partidas, o contorno de um belo e admirável ciclo. A vida é eterna.

Pausa

De repente, por uns dias, você se vê forçado a parar com a coisa toda. Uma crise, férias, um problema de saúde, o que for, surge e te coloca para dançar em outro ritmo. E você nota que a Máquina talvez não precise realmente funcionar naquela rotação, estar ligada tão intensamente a ponto de esvair as forças que deveriam estar sendo usadas para outro propósito. Você se afasta, olha para a Máquina e se lembra que a vida não é bem… que o meio não pode ser tratado como um fim. Tudo o que você precisava era de solitude, uma certa distância e sua casa a qualquer hora. O pé na grama, o sol na pele, crianças por perto, por aí, a vida se completa lá fora. O homem se completa em Deus. E as coisas parecem estar se ajustando outra vez.

“Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.” (Jesus, em Mateus 6:21)

Assombrações

“Não tenham medo!” (Mateus 14:27)

Hora de dormir. Noite após noite, o ritual se repete: ela veste o pijama, faz xixi, escova os dentes, enrola a gente, pede uma história, conta um milhão de coisas da escola, faz uma oração e dorme. No meio da madrugada, invariavelmente, a vozinha rouca chama lá do quarto e – sim, nos condenem os pais super eficientes – ela encerra as últimas horas da noite dormindo na nossa cama.

Temos tentado, juro, mas parece em vão. Se as experiências de amiguinhas e personagens de desenhos animados servem de lição e inspiração para convencê-la sobre quase tudo, o mesmo não acontece com a ideia fixa de que é difícil dormir sozinha. Ela continua choramingando e nós, às quatro e tantas da manhã, não temos a menor condição física e mental de discutir a relação com nossa filha de cinco anos.

Noite dessas, enquanto ela vestia o pijama, fui até a cozinha buscar o copo de água que sempre deixo sobre o criado-mudo. Cheguei no quarto e vi que ela estava atravessada em cima do colchão, debruçada, procurando algo atrás da cama.

“O que foi, filha?”. Achei que ela procurava algum brinquedo perdido.

“Pai?”. Ela perguntou, ignorando minha dúvida.

“Oi.”

“Tem uma cobra ali atrás?”

Ela tem medo de monstros. E naquele momento, muita coisa sobre essa dificuldade toda fez sentido. Cobras, morcegos, a escuridão, bandidos, dragões, ela acha que algum perigo pode surgir no meio da noite para atacá-la. E não há argumento, parábola ou estudo de caso que a faça abandonar o temor e aceitar uma verdade simples que afirmo todos os dias: “isso é bobagem, você não precisa ter medo”.

Curiosamente, tudo passa, tudo pode ser vencido, se eu simplesmente ficar ali ao seu lado. Ela não dorme sozinha porque tem medo, mas descansa como um anjo – ou princesa, como ela prefere – se me sento ao pé da cama e vigio seu sono. Se estou por perto, as cobras se transformam em minhocas, bandidos voltam para casa janela afora, monstros se apequenam e escondem-se resignados, a escuridão perde a frieza. Então, ela pode repousar e sonhar com suas fantasias coloridas.

Até que se sinta sozinha no meio da noite, acorde, resmungue e cambaleie descabelada para nossa cama. Até que se sinta desamparada e clame pela proteção que o abrigo paterno parece oferecer.

E ainda que isso soe como uma tremenda massagem na auto-estima de um pai que gosta de sentir-se o amparo de sua prole – gosto de falar “prole”, mesmo que minha prole seja de uma pessoinha só – sei que não é bom que seja assim, não é saudável para ela. A Nina precisa saber que já tomei as providências para que nenhum perigo se aproxime e que ela pode fechar os olhos sem esse tipo de preocupação. Eu não estou lá ao pé da cama, mas estou o tempo todo com ela, cuidando, com meus limitados poderes, para que tudo vá bem e ela se acolha guardada em meus braços.

Mas, às dez da noite, às voltas com esses pensamentos enquanto a observo, fico tentando descobrir como fazer para minha filha de cinco anos – com a imaginação fervilhando de fantasias – acreditar que esses temores são tolice, devaneios da imaturidade e que ela pode ter paz, descansar, porque seu pai está de vigia?

“Em paz me deito e logo adormeço, pois só tu, Senhor, me fazes viver em segurança.” (Salmos 4:8)

Ela dorme.

E enquanto ela sonha em ser “uma heroína com asas, coroa dourada, maquiagem e muito brilho” – um dos pedidos que ela dirigiu a Deus na oração que fez -, eu luto com os monstros. Os meus. O estresse da vida cotidiana, a sensação de não estar dando conta do recado, dos recados, da lista enorme de pendências que se acumula. Sem que eu percebesse, a vida adulta foi tomando conta de tudo, lembro à distância, ainda com certo romantismo, da espontaneidade juvenil que regia as coisas e percebo que vou me tornando o tipo de sujeito saudosista que costumo criticar. Alguns fios de cabelo começam a cair, os que não caem vão se tingindo de branco, uma sombra parece se projetar sobre a alma. Está difícil dormir, preciso acender uma luz.

Tenho medo. As minhas assombrações adquirem as formas do cotidiano. Sei que jamais serei totalmente suficiente, que me apavoro com tolices, mas minha imaturidade não me deixa enxergar que não há nada que eu possa fazer, não há nada que eu deva ou precise fazer, que a graça deveria bastar. Cego, não percebo os braços que me acolhem. Eu também sei que monstros não existem, que bandidos não escalam prédios para invadir apartamentos no décimo primeiro andar e que, a menos que se viva na selva, cobras não costumam montar seus ninhos embaixo de camas.

Sei que não preciso ter medo da escuridão porque o Pai zela por mim o tempo todo. Ouço suas histórias, suas promessas e acredito, acredito mesmo, em suas palavras. Mas ainda assim, mesmo sabendo de tudo isso, percebo muitas vezes a inquietação e a dúvida ganhando espaço em minha mente e titubeio, eu paro, retrocedo.

O medo manipula. Dá aparência de dor ao que é só ameaça, dá sensação de trevas ao que são tão somente sombras. Então parece mais fácil fugir, fazer de conta que o problema não está lá e buscar amparo numa muleta qualquer do que encarar a verdade assombrosa de que os monstros, em grande parte, se escondem dentro de nós.

Mas ao tentar ensinar a Nina, tenho aprendido que fugir do problema não resolve o problema, fingir que ele não existe não faz com que ele desapareça. E às vezes, é preciso aceitar que o conflito é necessário e que devemos encarar a realidade, vencer o obstáculo e finalmente seguir em frente. E jamais estamos sozinhos.

É nessas horas em que preciso tomar a decisão que já conheço mas da qual quase sempre me esquivo: eu preciso confiar e seguir em frente. Crer e saber, de forma pura, que o mal já foi vencido e que o Pai, ao meu lado, me protege e preenche.

E eu posso apagar a luz, fechar os olhos e viver em paz.

Abaixo da superfície

Quando você vê a dor nos olhos de outra pessoa, no dia em que presencia o sofrimento explícito na expressão e nas lágrimas de alguém, é impossível ficar indiferente. Qualquer barreira, qualquer resistência se dissipa. Gostaríamos de poder dizer algo, estender a mão, um lenço. Por um instante que seja, você perdoa, deseja sinceras condolências e as diferenças se vão.

De repente, você entende o que se passa de verdade no coração do homem.

Eu gostaria de falar sobre compaixão.

* * *

Há alguns meses, pude testemunhar o sofrimento de um pai que perdeu o filho em uma tragédia. Eu vi a sua dor, vi a sombra negra sobre sua face engessada e, no olhar taciturno, o vazio desesperador. O que seria a vida então?

Na mesma semana, senti o abraço aflito da filha que perdeu seu pai, já idoso, vítima do tempo, do Alzheimer e da morte da esposa que o deixara um ano antes. Amparei seu choro, chacoalhei com os soluços que a faziam descarregar em lágrimas o peso que lhe caía sobre a alma.

De novo, a dor. Mas não somente então, não só na morte – só!? – mas também naqueles que alimentam o sofrimento oculto por detrás dos breves risos, da espuma de sociabilidade, das curtidas no Facebook, do senso comum que nos carrega. As coisas tem que estar mais ou menos bem, porque no dia seguinte tem aula, tem trabalho, tem trânsito, tem hora marcada no dentista, tem uma dúzia de pessoas esperando que você não surte e a rotina deve seguir seu fluxo.

Um dia… ele sempre surge, vem à tona quem somos. Nas medidas desesperadas, nos atos mais grotescos, pessoas revelam o que se passa abaixo da superfície, aquilo que se acumulava nos porões sobe a escada até a sala, abre-se a porta do quarto escuro e ele não tem um bom aspecto.

O garoto tímido que se esconde num computador, atrás de suas dúvidas sobre o mundo e suas escolhas. O velho casal que ainda se ama mas já não se respeita. A menina e sua boneca, olhando pela janela, para o muro, para cada adulto que passa apressado pelo orfanato, pensando se é hoje que ela poderá ter alguém que lhe faça uma trança e que possa chamar de mãe. O vizinho mal humorado que tosse a noite toda, que sobe o elevador com um envelope sob os braços. O filho que ainda espera um telefonema. A jovem mulher, seu bebê ressonando no berço e um travesseiro em silêncio ao seu lado na cama.

O estranho ao seu lado no trem, o conhecido ao seu lado na festa, o amigo ao seu lado na sala, a esposa ao seu lado o tempo todo. Eles podem estar sofrendo. Se esperarmos por evidências talvez seja tarde demais e talvez devêssemos observar mais e tentar entender, estar sensíveis ao outro, nos envolver, tocar sem luvas, viver sem máscaras, ser cúmplices do que se passa sem tecer comentários, sem julgamentos. Carecemos da capacidade de olhar nos olhos e entender o que se passa antes que a tragédia aconteça. Precisamos nos antecipar, porque a dor, estranhamente, é algo que a gente acumula, mas é urgente.

Eu acho que estou falando sobre compaixão.

* * *

A compaixão é uma das coisas que me fazem acreditar em Deus. Bem, eu falo sobre minha fé vez ou outra, mas é raro que alguém me pergunte por que eu creio em Deus, por que desse jeito, em Jesus Cristo e a coisa toda da cruz e da Bíblia. Mesmo entre meus amigos agnósticos, nunca precisei responder a essa pergunta. Mas confesso que eu, entretanto, me questiono o tempo todo a respeito.

Tenho diversos motivos que me trazem à mente a razão da minha fé, mas a que cabe nesse parágrafo e me afeta sensivelmente é porque Jesus é compassivo. Se você ler os evangelhos, verá um sujeito totalmente sensível às pessoas. Pela primeira vez, acompanhamos a história de um deus que jamais desejou devotos ignorantes prostrados diante de seu egocentrismo. Ao contrário, ele se revelou ao homem na condição de homem, homem simples, que foi até o fim. A história conta que ele olhou para as pessoas que o seguiam famintas e foi movido de “íntima compaixão”. Eram para ele “como ovelhas sem pastor”. Perdidas e desamparadas.

“Eu sou o bom pastor”, ele disse em outra ocasião, “e o bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas”. Ele olhava nos olhos e compreendia. E porque compreendia, se aproximava. Estando perto, tocava, oferecia consolo. E sentindo a dor do outro, curava. Porque ele amou. Escolheu não ignorar o que se passava, procurou olhar além do que um rosto revela. Jesus enxergava abaixo da superfície, das cascas e máscaras que o tempo todo escondem quem realmente somos.

E se deu. Ofereceu-se ao cego, à adultera, aos religiosos extremistas, aos doentes, aos pobres, às crianças, a cada um dos excluídos. Ele se revelou Deus sendo o filho o carpinteiro. Era seu mestre e seu cúmplice. Ele não quis sacrifícios, ele foi sacrifício. E porque sofreu, tornou o sofrimento humano santo. E porque triunfou sobre a dor, tornou a vitória possível.

* * *

Ter algo ou alguém como seu deus, imagino, é ter nisso a imagem total do que afirmamos com a perfeição e diante do que aceitamos nos curvar em devoção resoluta. Eu me dobro em louvor ao Nazareno, diante de sua índole, seu amor desinteressado e puro. Sou devoto do Deus que se fez homem, do homem a quem chamo Deus e firmo esperança em suas palavras que prometem que esse seu caráter – espírito – acompanharia aqueles que o seguissem, que então como um espelho, poderiam refletir sua imagem ao mundo, que então como filhos poderiam se dirigir a Deus como Pai.

Porque precisamos olhar para as pessoas – nossos semelhantes – sem que seus sentimentos nos sejam invisíveis. O porteiro do prédio, a faxineira no escritório, o chefe rabugento, o trombadinha no semáforo, o familiar esquecido. O que se passa realmente? Lá no fundo, dentro da embalagem, quem é, como está? Não podemos permanecer indiferentes, devemos compreender o coração do homem e nos aproximar, estender a mão e tocar, oferecer um ombro, oferecer consolo, um milagre, talvez perdão. E sentindo a dor do outro, finalmente podemos ser sua cura. Porque Deus em nós é amor.

Compaixão.

À procura de um significado

por Luiz Henrique Matos

Na maior parte do tempo, com a maior parte das pessoas, as coisas funcionam mais ou menos assim: a não ser que alguém apareça e atrapalhe a forma como encaramos o mundo e as nossas vidas, em geral tudo caminha bem. Enfrentamos algumas dificuldades, conquistamos meia dúzia de feitos, reclamamos um bocado de tudo mas no fundo não trocaríamos o que temos por outra coisa.

Detestamos admitir que fazemos parte da média porque queremos estar no grupo das pessoas diferenciadas, mas acredite, tem muita gente igual e com os mesmos padrões de comportamento que você e eu. Ao longo da vida, nos adequamos aos modelos de conduta e meio-ambiente à nossa volta. Convenhamos, não é preciso lá muito esforço para encontrar uma receita de vida em que as coisas funcionem.

Seguimos confortáveis, numa certa inércia, nos acomodamos em nossa condição até que, certo dia, aparece alguém, uma voz inquieta em nossa orelha, que tem a ousadia de perguntar:

“Por quê?”

Se esse alguém tem um metro e dezenove centímetros de altura, cabelos cacheados e bochechas grandes, a tendência, em grande parte, é que a pergunta tenha uma natureza imprevisível e provoque algum tipo de desconforto, no mínimo uma reflexão. E se você já se deparou com a artilharia de interrogações de uma criança descobrindo o mundo, sabe que na maioria das vezes, nós não temos uma resposta.

Ela diz: “Pai…?” e pelo jeito com que fala, eu sei que devo me preparar para o golpe.

“Pai…?”

Titubeio.

“Oi?”.

“Éé… assim… pai, por que as pessoas morrem? Por que elas vão para o céu? Por que é que japonês tem o olho assim ó, meio fechado? E o chinês!? Por que aquela moça está chorando? Por que é que tem gente que não tem casa, que mora na rua? Por que, pai?”

As questões vão das mais obvias às absolutamente desconcertantes. Algumas dúvidas, eu descubro que também sempre tive mas nunca soube. E o ambiente da nossa casa, que sempre navegou sobre as águas calmas do senso comum, se transformou, sem que eu me desse conta, numa enxurrada de interrogações.

“Por que eu tenho que tomar banho todo dia? Por que a sua barba arranha? Por que o arco-íris não aparece toda vez que chove? Por que a Fulana fala daquele jeito, com aquele sotaque estranho? Ela fala ‘porrrrque’. Pai, por que as pessoas ficam velhas?”

“Pai, por que você tem que trabalhar? Por que não pode ficar brincando aqui comigo só mais um pouquinho?”

“Porque o papai precisa ganhar dinheiro, filha.”

“Por quê?”

Talvez, se também perguntássemos porquê fazemos as coisas que fazemos, é bem possível que deixássemos de fazer a maior parte delas. Porque há algum tempo nós mesmos paramos de fazer perguntas assim. Nos ajustamos, deixamos de questionar o significado das coisas e passamos a vida repetindo um único tipo de pergunta: como?

Nisso reside a mais precisa teologia, o ponto congruente de nossas reflexões existenciais. Talvez Kierkegaard pudesse ter dialogado com a Nina – e, se não é essa uma definição ampla e cientificamente aceita, deveria. Ela não quer conhecer procedimentos, não quer caminhos, ela quer motivos e significados. Disse Paulo a seu discípulo Tito: “para os puros, todas as coisas são puras”, para quem entende que a satisfação da vida está no “ser” e não em ter ou fazer, a felicidade se revela simples e as dúvidas, ao invés de fardos, adquirem a dimensão de grandiosas explorações e descobertas.

“Pai, por que você casou com a mamãe? Por que eu não posso comer a sobremesa antes da comida? Pai, por que Deus fez as cobras? Por que eu tenho que ir para a escola? Por que a gente sente dor? Por que a gente precisa orar? Por que eu orei para Deus sarar meu machucado e ele não sarou?”

Deus não se ofende com perguntas.

Temos medo, vergonha e preguiça de expor nossas questões, mas a dúvida não é algo ruim ou imaturo, não é, em absoluto, a ausência de fé. A dúvida é justamente o reflexo da nossa busca por fundamentos que sustentem nossas crenças. Por isso, as repostas não são, jamais, receitas concretas, certezas definitivas ou instruções simples, mas caminhos, o vislumbre de um significado, um propósito a seguir.

E essa é uma questão que faz sentido quando se pensa na verdadeira religião e na vida. Essa é a pergunta que as Escrituras fazem e procuram responder o tempo todo.

Acho que Deus gosta desse tipo de pergunta, os “porquês”. Acho que ele gostaria que o questionássemos mais, que procurássemos entender suas razões. Porque na maior parte do tempo, suas respostas insinuariam o grande amor que ele sente e nos tornaria mais próximos. Acredito que se buscássemos entender os motivos, para o quê fomos criados, pode ser que a vida adquirisse um outro sentido. Repito: pode ser que nossas escolhas – das mais complexas à simples rotina – fossem diferentes.

Afinal, por que você reclama tanto da sua vida? Por que murmura sobre o clima, sobre seu emprego, a falta de dinheiro, seu casamento, os outros? Por que você acredita em Deus? Por que não acredita? Por que ainda não começou a cuidar da sua saúde? Por que guarda dinheiro? Por que você não conversa mais com aquela pessoa da família? Por que não esquece logo e perdoa? Por que você alimenta esses sonhos? Por que não foi atrás deles? Por que você faz o que faz e é o que é? Quem você é? Por quê?

A verdade é que passamos a vida empenhados na busca por procedimentos, esperamos que nos passem uma lista de regras de conduta e um código moral para obedecer. Reclamamos das leis mas elas são tudo o que mais queremos – nem que seja para fazer o oposto do que nos mandam. Mas Deus, ao contrário do que pregam tantos, não nos impõe regras. Porque ele ama, quer que sejamos livres para escolher nossos caminhos. Como Pai, escuta atento as nossas questões e, se pararmos para ouvir, notaremos que ele nos dá conselhos, compartilha, explica seus motivos e nos revela quem somos.

“Pai, por que eu não posso usar vestido todo dia? Por que o pai e a mãe da minha amiguinha Fulana não moram na mesma casa? Por que quando a gente foi no médico tirar aquela foto (raio-x) eu não vi Jesus dentro de mim? Por que eu tenho que ir dormir agora?”

Daqui alguns dias ela fará cinco anos. E o tempo todo, podemos sentir que ela está absorvendo tudo à sua volta, construindo sua própria visão dos fatos e definindo, ainda sem saber, seu papel no mundo. Em cada pergunta, há algo novo que ela assimila, um fato que molda a sua personalidade e amplia seu repertório. Em cada “porque” a busca por um bom motivo que sacie a sua sede ou uma fagulha que acende outra chama. Eu espero que ela jamais se contente e se acomode num padrão que alguém lhe imponha – mesmo que esse alguém seja eu, com as melhores intenções.

E porque eu a amo, farei o que puder para que essa curiosidade jamais se sacie. Quero que ela seja livre para fazer suas perguntas e entenda a vida a partir de seu olhar. Espero mais é que ela duvide das convenções. Quero que sua mente inquieta me questione, se descubra, me constranja, se revele. Me ensine.

Fantasias

por Luiz Henrique Matos

Numa noite dessas, depois da alucinação toda de outro dia cheio no trabalho e a paralisia toda de outro dia entupido no trânsito de São Paulo, cheguei em casa mais tarde, mais estressado e cansado que o habitual. Mas, depois de passar pelo meu Portal Mágico da Paz – ou, porta da sala adentro – segui a rotina ritualista e purificadora: beijei minhas meninas, conversamos um pouco, comi algo, tomei banho, conversamos outro pouco e vimos TV até que deu a hora de a Nina ir pra cama. Banheiro, escovação, um protesto, pijama, um copo d’água, um beijo na mãe, uma enrolada no pai, uma oração, várias interrupções e, sem falta, a historinha do dia.

E como fazemos diariamente, escolhemos juntos uma história para eu contar. Nessa hora, pode ser que nos aventuremos pela septuagésima vez através de um dos livros da estante dela, por uma narrativa resgatada na lembrança (leia-se: historinha clássica sem livro) ou “alguma coisa de quando você era pequeno”, como ela costuma pedir. A verdade, é que as historinhas são o grand finale do nosso dia como pai e filha, é quando encostamos juntos por alguns minutos na cabeceira da cama, longe da correria, de celulares, televisores, computadores ou outros estímulos digitais e unimos nossa imaginação em algum ponto, uma pequena saga que habita fora – ou muito dentro – de nossas mentes. Todos os dias, um capítulo novo, misturando as nossas experiências cotidianas com a ficção e virando uma página, uma etapa e uma metáfora da vida.

Mas naquela noite, quando entramos no quarto, notei que a cama dela estava inteira ocupada por peças de Lego.

– Tava brincando de Lego, Nina?

– Sim. Essa é uma casa que eu tô construindo – era uma sequência de peças grudadas umas nas outras, enfileiradas, formando ainda a planta baixa da construção toda.

– Que linda.

– Pai, você quer montar comigo?

– Quero. Mas hoje não, tá? Agora é hora de dormir. Vamos arrumar essa bagunça.

– Tá.

Esqueci o assunto em cinco minutos, a cabeça estava cheia. Mas no dia seguinte, à noite, quando ia para meu quarto e olhei pelo corredor, notei que a pequena construção colorida estava ali no chão, ao lado da caixa com as peças e havia avançado um pouco mais, com mais detalhes e as paredes começando a ser erguidas.

Senti-me péssimo. Poucas coisas me frustram tanto quanto perceber que deixei de honrar um compromisso com a Nina. E não é porque ela se lembra da promessa não cumprida e me recorda disso também, mas porque eu, de fato, gosto de sentar ao lado dela, mergulhar um pouco no seu universo e viver aquilo ao seu lado. Fantasiar, deixar as coisas serem, por alguns minutos, como gostaríamos que fossem, simplesmente porque temos o controle da situação.

Ela cria, constrói, compõe mundos inteiros, apenas com um punhado de lápis coloridos e me guia pelas mãos em suas aventuras. Naqueles instantes, a gente esquece a correria toda e tem a sensação de que pode viver nisso, jogar de lado o peso do cotidiano, retroceder no tempo uns 27 anos e lembrar de como era tudo e ficar ali, de short, camiseta e chinelo, sentado na rua da vila, olhando uma formiga atravessar a calçada com uma folha verde nas costas e fazendo de conta que eu era o terrível gigante de quem ela se escondia.

Mas, talvez o mais curioso dessa relação das crianças com a fantasia, seja notar que elas não vivem aquilo como uma experiência momentânea, um faz-de-conta premeditado. Ao contrário, elas mergulham de forma tão natural e intensa como se pudessem assumir aquela verdade para si. Para elas, cada brincadeira é real tanto quanto o que se pode tocar. Para nós, funciona como uma espécie de fuga da realidade nos momentos em que ela quase nos sufoca.

Às vezes, julgamos tudo isso como uma bobagem, aprisionamos nossa infância nas fotografias e avaliamos as nossas crianças como seres imaturos, inferiores e despreparados. E tentamos conduzi-los, adestra-los e determinar suas escolhas em conformidade com algum raio de visão do mundo que elaboramos ou lemos em alguma revista no salão do cabeleireiro.

Tudo isso é mentira. Eles não tem nada de menores. É bem possível que seja dessa “grandeza” infantil que tanto carecemos. Essa maturidade de não se deixar influenciar por pequenos problemas, a nobreza de não julgar, a confiança integral de que o pai é capaz de suprir e providenciar o que for necessário.

Olhamos a vida do alto, mas somos tão, tão pequenos. Tentamos enquadrar a vida numa caixa, tentamos controlar a situação, tentamos e tentamos em vão e, diria o sábio rei, só “corremos atrás do vento”.

Jesus falou disso também, da pureza das crianças e tudo, advertiu sobre o quanto é fundamental que sejamos como elas para entender – e habitar – em seu Reino. E vivia cercado delas, deixava que cantassem. Pode imaginar? Deus vivendo entre os homens, andando na Terra, com todo monte de atribuições, decisões e estresse que esse “cargo” representa? E ensinava sobre a importância de alimentarmos um coração ingênuo, desinteressado e sincero.

Um reino de crianças. Um céu colorido, divertido, sem o peso de ontem ou a preocupação de amanhã.

– Papai, como é que a gente vai parar lá no céu?

Eu respirei fundo. Acessei, nos porões da mente, o pouco de teologia que me atrevi a estudar e o vasto (arrãm) repertório de releituras bíblicas e psicologia familiar que adquiri. E engasguei. Fiquei quieto por um minuto, dois e então tentei mudar de assunto. Tive algum sucesso, a conversa enveredou por alguma superficialidade qualquer, mas foi ela, instantes depois, que concluiu:

– Pai, vai ser assim: vai ter uma festa no céu e Deus vai chamar a gente. E vou com um brinco, um anel e um vestido de princesa.