Corrida – Forrest Gump e eu

por Luiz Henrique Matos

“Run, Forrest, run!”
(Jenny Curran, em Forrest Gump)

Comecei a correr.

Nunca tive muita habilidade para esportes. Reconheço, entretanto, que demorei para aceitar o fato. Ainda aos onze anos, eu tinha certeza de que um dia seria zagueiro do meu time de coração – bom, se um garoto sonha ser zagueiro, já dá indicações significativas de que não nasceu mesmo para a coisa. Mas depois de passar infância e adolescência entre os últimos escolhidos nas seleções de times na várzea da rua de baixo, não tive muita opção e acabei pendurando as chuteiras (sem muito uso, é verdade).

A vida passaria sem maiores dificuldades não fosse o fato de que hoje, beirando os 30 anos, noto que na mesma medida em que perco cabelos, ganho peso. Até que a ciência consiga provar a relação entre um efeito e o outro, eu sigo “expandindo” além do que deveria. Estou quase quinze quilos acima do normal e minha circunferência abdominal exige que eu faça algo urgente a respeito (tudo bem, a Manú exige bem mais do que a circunferência).

Encontrei então na corrida uma alternativa possível. Me pareceu um esporte menos complexo do que o futebol ou o tênis porque correr, no fim das contas, é o mesmo que andar bem depressa e com saltos. Se eu souber colocar um pé na frente do outro e me mover com certo impulso, então devo estar apto para a coisa.

Como fator motivacional, ganhei um par de tênis de presente no Natal. Depois de pensar no assunto por uns dois ou três anos, dei meus primeiros passos.

– Neguinha, andei pensando, acho que vou fazer corrida. É um esporte simples, está na moda, eu posso fazer em qualquer lugar, já tenho esse tênis legal… O que você acha?

A Manú ficou em silêncio. Não sem razão, em onze anos de relacionamento, já deve ser vigésima sexta vez que prometo começar alguma atividade e entrar em forma. Mas lá no fundo, eu podia ouvir minha querida esposa dizer: “Run, Henrique, run!”

Forrest Gump e eu.

Há algum tempo, assisti a uma palestra do Rick Warren e ele ensinou que se conseguirmos praticar algo por seis semanas consecutivas com uma certa frequência, então aquilo se transforma num hábito que não abandonamos com tanta facilidade. Ele falava sobre a disciplina em nossa espiritualidade e em como é importante manter uma rotina devocional para amadurecermos em nossos relacionamentos com Deus e com outras pessoas.

Lembrei disso em fevereiro deste ano, quando finalmente comecei minha atividade física com o tênis que já não era tão novo. Eu estava correndo três vezes na semana e isso me empolgou. Na ocasião, comentei com um amigo: “Eu devo ter um mínimo de inteligência e força de vontade. Não é possível que não seja capaz de fazer algo por míseras seis semanas.”

Na quarta semana, eu parei.

Rick Warren e eu.

Nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, o maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima liderava a principal prova dos jogos. Ele já estava na etapa final, faltavam apenas seis quilômetros para vencer a corrida (uma maratona tem 42) e mantinha um bom ritmo e vantagem sobre o segundo colocado. Vanderlei passava por uma avenida da cidade e era ovacionado pelas pessoas que assistiam nas calçadas. De repente, um sujeito invadiu a pista e se jogou sobre ele. Os dois sumiram no meio da multidão. As pessoas ajudaram, Vanderlei se esquivou do sujeito, levantou, retomou a passada e seguiu em frente. Mas então, com o ritmo comprometido, ele perdeu duas posições e, ao invés do ouro que parecia garantido, voltou para casa com a medalha de bronze.

O maluco que se jogou sobre o corredor e boicotou sua conquista foi Cornelius Horan, um ex-padre irlandês que defendeu seu gesto como uma forma de protesto religioso.

Boicote. Na maior parte das vezes, eu sou o meu próprio padre irlandês. Encontro justificativas bizarras – e até acredito nelas – para arruinar meus planos quando eles estão em seu melhor momento.

Cornelius Horan e eu.

Geralmente, atribuímos nossos fracassos a alguém ou alguma força do mal que certamente conspira contra nossas vidas. Mas o fato é que, em grande parte, somos nós quem atrapalhamos nossos projetos. Os conflitos no casamento, a carreira que não avança, um livro lido pela metade, a reforma da casa inacabada, a vida de oração que se esfria… tudo ia tão bem e, de repente, num dia meio nublado, a gente acorda e simplesmente deixa que a preguiça nos impeça de seguir em frente.

E é aí que nossa vida de oração é interrompida por uma bola de sorvete, que paramos com a corrida por um pecado bobo, que nossa dieta vai pelo ralo porque não quisemos acordar mais cedo. E tudo se mistura, a vida vira essa bagunça toda, nos culpamos por alguns minutos, os dias vão passando, aí culpamos alguém, reclamamos da falta de tempo, reclamamos da vida e aceitamos mais uma derrota porque, afinal, alguma força do mal certamente conspira contra nossas vidas.

A hiena Hardy e eu.

No fundo, gostaríamos mesmo é de calçar um par de tênis e correr dez quilômetros no primeiro dia. Desejamos tomar uma pílula e ver nossas doenças curadas. Dormir e acordar sem preocupações no outro dia. No fundo, esperamos que Deus esteja pronto para aliviar nossa carga e resolver as dificuldades como um motoqueiro que entrega a pizza no prazo combinado. Queremos coisas imediatamente. Queremos juntar as mãos numa oração breve e saber que nosso relacionamento com Deus será íntimo e já não cometeremos tantas bobagens.

Mas a verdade – que preciso aprender urgentemente – é que o progresso se constrói lentamente. Também é verdade que as coisas dependem mais de nós do que gostamos de admitir – tá aí outra coisa para eu aprender urgentemente. Somos responsáveis pelos frutos das sementes que lançamos. E a realização é fruto de disciplina, fé e perseverança.

Como na corrida, é preciso percorrer um passo de cada vez, um metro a cada passada e, assim, um quilômetro inteiro, depois dois, três, quatro, cinco… e quarenta e dois. E um casamento feliz, uma mãe reencontrando sua filha, um rapaz concluindo os estudos, um homem vencendo o câncer, um livro publicado, o pão de cada dia posto sobre a mesa, a voz de Deus ao seu lado, a minha “barriga tanquinho”.

Schwarzenegger e eu.

“Vocês não sabem que de todos os que correm no estádio, apenas um ganha o prêmio? Corram de tal modo que alcancem o prêmio. Todos os que competem nos jogos se submetem a um treinamento rigoroso, para obter uma coroa que logo perece; mas nós o fazemos para ganhar uma coroa que dura para sempre. Sendo assim, não corro como quem corre sem alvo, e não luto como quem esmurra o ar.” (Paulo, em 1 Coríntios 9:24-26).

É importante saber onde se quer chegar. Mas não adianta querer chegar ao destino sem percorrer o trajeto. O corpo precisa entrar em forma, o caráter precisa ser moldado, há um aprendizado em todo processo. Precisamos dar o primeiro passo. Precisamos dar o segundo passo também. Mas confiantes de que nunca estamos sozinhos. Em cada etapa dessa jornada, Deus nos acompanha e nos inspira. E é assim, avançando dia após dia, que os milagres acontecem.

E eu sigo. Num dia de cada vez, sigo acreditando. E caminhando.

Deus e eu.

Duas escolhas (Max Lucado)

“Que farei então de Jesus, que se chama Cristo?” (Mateus 27:22).

Pilatos está certo em sua pergunta. “Que farei então de Jesus, que se chama Cristo?” Talvez você, como Pilatos, esteja curioso sobre este que se chama Jesus.

O que você faz com um homem que afirma ser Deus, mas odeia religião? O que você faz com um homem que se auto denomina o Salvador, mas condena sistemas? O que você faz com um homem que sabe o lugar e a hora de sua morte, mas vai até lá assim mesmo?…

Você tem duas escolhas.

Você pode rejeitá-lo. Essa é uma opção. Você pode, como muitos fizeram, chegar à conclusão de que a idéia de Deus tornar-se um carpinteiro é muito estranha – e sair.

Ou você pode aceitá-lo. Você pode fazer a jornada com ele. Você pode ouvir sua voz no meio de centenas de vozes e segui-lo.

“Duas escolhas” texto devocional de Max Lucado, publicado pelo site Irmãos.com (que reúne a maior parte dos textos do autor em português).