O poder do indivíduo

por Luiz Henrique Matos

Uma coisa é pior do que acordar cedo numa segunda-feira para ir trabalhar: é acordar cedo num domingo para ir trabalhar.

Hoje, levantei às seis, vesti uma roupa quente e caminhei por cerca de um quilometro sob garoa e frio de 14 graus até o colégio onde voto para servir como mesário, convocado pela Justiça Eleitoral há alguns meses.

E viva a democracia.

O interessante foi chegar pontualmente ao trabalho e ter de esperar do lado de fora porque os de dentro trancaram o portão e não encontravam as chaves.

“Parabéns por servir a pátria!”. Ecoavam na minha mente as palavras do senhor que ministrou um treinamento muito produtivo sobre organização de filas e o funcionamento da urna eletrônica. Urna essa que, “esse ano é diferente, mas é igual”, segundo a senhora que falou na sequência.

E lá estive eu, a urna eletrônica, seu apito estridente e mais quatro colegas trabalhando por dez horas, duas sacolas de lanches e 20 reais para o almoço.

Mas, preciso dizer, eu gostei. Gostei da experiência pública, da rotina diferente, das pessoas. Ruim é passar o domingo longe da família, sem descanso, pensando na labuta de amanhã. Mas não posso negar que uma coisa me encantou nessa história.

Na sessão em que trabalhei, votam 397 pessoas – pelas minhas contas imprecisas, quase 200 Antonios. E eu vi entrar uma a uma durante esse dia. Um senhor, nascido em 1921, mancando, acompanhado do filho, dizia com o sorriso discreto em sua dentadura impecável: “Eu não preciso mais, mas toda vez eu teimo em fazer isso!”. Acho que era Antonio o seu nome… E vi ainda uma senhora triste porque votou errado e já não podia voltar atrás. “Tá na mão de Deus, meu filho”. Um travesti, constrangido em mostrar o documento que revelava o que tentava esconder sob a aparência.

Vi gente emburrada, desiludida, animada… mas boa parte da gente fazia questão de manifestar, no sigilo daquela cabine de papelão, sua opção. Queriam, com um gesto pessoal, expressar sua escolha. Um a um, um mais um, assim vai se construindo, sem qualquer ordem mas de forma organizada, uma escolha que determina o futuro da sociedade em que eu vivo.

Um é muito pouco, posso pensar. É só a minha opção. Mas é tudo o que eu tenho. É o que eu posso fazer.

O poder do indivíduo.

Eu, você, o vizinho, o cara sentando no banco aqui do lado. Se cada um fizer sua parte, teremos um todo. E a beleza disso está em reconhecer que a decisão da maioria pode não ser a minha vontade também – bem, eu não diria “beleza disso tudo” assim com tanta animação mas, vá lá, é a democracia e ela em si é extraordinária.

Tem um ditado japonês (ou não) que diz: “se você quer limpar o mundo, comece varrendo a sua calçada”. Vale para o voto, vale para ética, vale para relacionamentos também. Queremos ver mudanças nos outros, mas a coisa toda precisa mesmo começar em nós.

Num certo momento do dia, pedi licença aos colegas no trabalho e subi até minha sessão para votar. Eu havia anotado os números dos meus candidatos num papel. Quer dizer, todos menos um, o mais importante.

Eu tinha dúvidas – ainda tenho. E enquanto subia os degraus daquela escadaria no colégio, e até chegar à urna de votação, não sabia o que fazer. Meu dilema era decidir entre votar no que acredito de fato, numa proposta que julgo coerente com os princípios que sigo e defendo, ou votar no jogo político, escolher o candidato “menos pior” para tentar impedir que o que eu não acredito prevaleça.

Eu tinha uma tela em branco e um teclado à frente. Segui os instintos, votei pela fé. Primeira opção.

Sabia que não venceria. Sabia que não era essa a voz do bom senso naquele momento. Mas eu ainda sou um sujeito ingênuo, com meus vinte e tantos anos (bom, pelos próximo dois meses ainda posso dizer isso) e tenho muito o que aprender com a vida. Mas enquanto não aprendo, sigo minhas convicções. Enquanto não amadureço e descubro que isso tudo não presta e não passa de uma grande mentira, continuo acreditando no poder das minhas escolhas.

Ainda acho que se continuarmos fazendo opções mais para evitar o mal do que para fazer o bem, nunca daremos chances para que as boas iniciativas e propostas tenham espaço. De novo, vale para o voto, vale para ética, vale para relacionamentos também.

Quando eu parar com essa bobagem e for um sujeito esperto, talvez eu deixe também essa mania esquisita de achar que tenho, na ponta dos dedos, o poder de mudar alguma coisa.

Até lá, deixe quieto, são divagações de um mesário novato passando frio e consentindo com um Antonio qualquer, um velho manco, nada lúcido, de sorriso discreto e dentadura alinhada. Eu não preciso, mas eu teimo em fazer isso.