Reunião de pais

por Luiz Henrique Matos

Na semana passada, fui à minha primeira reunião de pais como pai. É bem estranho isso. Já sou pai há um tempo, mas ainda parece que a reunião de pais e mestres é algo em que minha mãe deveria comparecer e não eu. E por motivos que não vem ao caso agora, eu costumava ter um pouco de medo desses eventos quando era garoto.

Mas agora as coisas são diferentes. No mês que vem eu faço 30 anos e preciso amadurecer. Eu lembro do meu pai quando ele tinha essa idade. Já tínhamos uma casa, um carro bacana e ele usava um bigode igual ao do Magnum. No meu aniversário, acho que vou deixar crescer o bigode.

Naquela manhã, a Manú tinha um compromisso importante e acabou que fui até a escola, me fazendo de desinteressado, mas curioso até as últimas para saber o que a Tia Mariza iria me contar sobre a Nina.

Gastei menos de uma meia-hora na sala de aula, sentado numa cadeirinha de uns 10 centímetros de altura, preenchendo formulários e vendo os trabalhos da classe. Até que a professora me chamou. Eu achei que ouviria uma porção de novidades sobre minha filha e que finalmente descobriria o que os professores tanto falam para os pais nessas reuniões bimestrais, mas não tinha nada demais. Por esse ponto, foi meio decepcionante. Nenhuma confidência, nada de conspirações ou planos arquitetados. No fim, a reunião de pais e mestres é só uma reunião entre pais e mestres.

E a única coisa que ouvi sobre minha filha é que ela é sociável, gosta de cantar e dançar, de ouvir histórias e gasta um tempão desenhando, concentrada nas cores e no papel. “É essa coisa da imaginação, da mente do artista que as crianças tem”, definiu a Tia Mariza.

Saí de lá sem novidades pra contar. Nossa Nina é na escola exatamente como é em casa.

Nem digo como isso é algo confortável de se ouvir. Entenda, o período que minha filha passa no colégio é o único tempo em que ela está fora do meu “controle”. Não que ela esteja, de fato, em algum minuto, mas você sabe o que eu quero dizer. Ali, longe do meu olhar, ela é livre para não ser como eu peço que seja quando está ao meu lado. Distante das asas que os cobrem, filhos podem ser como bem entenderem. E o que são, suas atitudes livres, define de certa forma o seu caráter.

São princípios, como costumo insistir em outras conversas. O que o filho aprende do pai, pratica na vida.

Quando a Manú estava grávida, nos matriculamos num curso de educação de filhos. É verdade que hoje não me lembro de muita coisa do que aprendemos ali, mas foi importante na ocasião. Lembro de uma aula em especial, quando o professor nos disse que “os filhos são como uma folha em branco e cabe aos pais preencher esse espaço com as verdades em que acreditam para a formação do caráter da criança”. Não bastasse isso já ser apavorante o suficiente, ele ainda completou: “o espaço que vocês não preencherem, o mundo preencherá”. E eu tenho perdido algumas horas de sono com esse negócio desde então.

Minha filha, uma folha em branco, um lápis na mão e fiquei imaginando que ela seria uma história que a Manú e eu precisaríamos escrever. Pelo menos as primeiras linhas, pelo menos algo que registre os princípios e tenha algo bom para contar, um estilo, estrutura, forma, conteúdo… Mas não, eu não consigo. Não tenho o direito de determinar o que será sua vida. Acho que posso ajudá-la a descobrir. Talvez apontar um caminho, contar algumas experiências, mas é ela, essencialmente, quem vai escolher que direção tomar.

“Você pode pegar as obras de arte da Nina e levar, está bem? Olha aquela ali que bonita”. A professora apontou para os desenhos fixados na parede. Procurei pelas pinturas que tinham o nome dela assinado, recolhi uma a uma, juntei num envelope grande e, meio sem jeito, coloquei na mochila.

Caminhei da escola até a estação de trem e, no caminho, pensava nessa história toda e mantinha a postura e os passos alinhados, com medo de que qualquer tropeço ou distração pudesse pôr em risco aquelas cartolinas desenhadas. Eu ia carregando os desenhos como um troféu, exibia as pontas das folhas coloridas que ficaram pra fora da bolsa como medalhas, uma jóia, me sentindo o Frodo levando o anel precioso.

Não os criamos para nós mesmos, isso é bem difícil de admitir. E acredito que parte da beleza da criação e da escolha de Deus em nos fazer como somos, seja justamente essa liberdade assustadora que às vezes faz a gente querer correr por aí só para sentir o vento no rosto e, em outras horas, voltar rápido para o aconchego dos braços do nosso Pai. Sabe, essas coisas. Precisamos do Pai para nos dar direções, mas acho que seu amor é tão grande que ele não se mete nas nossas decisões sem ser consultado. Ele confia que vamos fazer as escolhas certas com aquilo que aprendemos por caminhar ao seu lado.

Os filhos refletem o caráter daquele que os criou. O que vemos em casa, define em muito o que somos. Daí a importância de se ter para onde voltar. Daí a importância de se ler menos esses manuais de educação de filhos e um pouco mais as histórias que os encantam.

Eu queria ser um pouco assim para minha filha. Isso eu tento aprender. Eu queria ser um filho que faz as coisas certas para ser um pai decente para a Nina. Percorro de volta essa distância para tentar espelhar sabedoria e caráter. Eu costumo pedir a Deus que, se possível, sejam corrigidos os traços imperfeitos que tenho e que ele me deixe apresentável para minha família, para ser um bom pai, para ser divertido, para ser o seu par numa brincadeira, num baile, na entrada da igreja, na caminhada até Cristo. Até que se abra uma trilha que ela percorra sozinha, nos passos que determinar para si, mas lembrando sempre – aí eu torço – o caminho de volta sempre que for preciso. Eu estarei aqui.

Não tem muito que eu possa fazer, a tal da folha em branco. Não é tanto o que faço, mas quem eu sou que vai influenciá-la. Só espero que ela não use um bigode.

Pode ser que eu faça alguns traços, pode ser que eu registre um pequeno conto ou pinte um desenho para ela se lembrar. Pode ser que eu escreva textos assim. Mas serão sempre coisas bem pequenas, discretas mesmo. Eu quero é deixar espaço para que Deus reflita nela a sua beleza, a inspire e ela trace, a seu modo, a história que quiser contar.


Esse texto faz parte da série Paternidade.

A ilustração foi tirada do livro “O homem que amava caixas” de Stephen Michael King.

As coisas não precisam mudar

por Luiz Henrique Matos

Toda vez que estou lendo um bom livro e percebo que está chegando ao fim, fico meio apreensivo. Em geral, paro quando faltam 15 ou 20 páginas e penso se aquela realmente é a melhor hora para concluir a história. Gosto de terminar minha leitura no momento apropriado, é preciso ter o clima ideal para honrar o fim daquele relacionamento que construí durante um tempo. Eu sei, isso é bem esquisito.

Estou lendo um livro muito bom e faltam pouco menos de 20 páginas para acabar. Nesse momento, achei que não era a tal hora ideal. Marquei a página e o coloquei sobre meu criado mudo para poder dormir. Mas antes de apagar a luz do abajur, fiquei observando por algum tempo uma foto que enfeita meu lado da cama (é, casais tem dessas coisas). Estamos lá, Manú e eu, sorridentes, comemorando nosso segundo aniversário de casamento. Lembrei do restaurante em que estávamos, dos amigos com quem festejamos, da viagem que acabáramos de fazer e também que tínhamos comprado há pouquíssimo tempo nosso primeiro apartamento.

Fiquei pensando na vida que levávamos naquele ano. Eu sei que não faz muito tempo – estamos juntos há 11 anos e casados há sete – mas ainda assim, tanta coisa mudou de lá pra cá. É engraçado pensar que algumas histórias que vivemos nesses cinco anos nem passavam pelas nossas mentes naquele dia.

Tivemos uma filha, mudamos de casa, viajamos juntos, o Brasil perdeu duas vezes em Copas do Mundo, guardamos dinheiro, fizemos novos amigos, amadurecemos, mudamos de igreja, mesclamos nosso gosto musical, gastamos dinheiro, vimos o quanto ainda somos imaturos e descobrimos que rugas e cabelos brancos também aparecem em adolescentes como nós.

E aí, olhando para trás, a gente redescobre o óbvio: que as lembranças são boas para recordarmos as histórias que vivemos, o que fizemos de certo e errado. Notamos que um porta-retrato pode nos levar outra vez a um grande dia que vivemos, revela a mulher admirável que nesse instante suspira deitada ao meu lado. E ela é forte, meiga, madura, e ainda aquela menina que numa tarde de março, vestida de branco e brilhando como o sol, entrou ao som de música por aquele jardim, ouviu meus votos de amor eterno, me disse sim, me deixou colocar um anel de ouro em seu dedo e me deu um beijo.

As promessas, os planos, as inquietações. Gastamos tanto tempo tentando entender o mundo e a vida, brigando para mudar o rumo das coisas e procurando nossa realização pessoal em questões tão superficiais, que deixamos de notar muitas vezes que a grande alegria da vida está em guardar e desfrutar do tesouro mais precioso que Deus nos deu.

A minha alegria tem dois nomes curtos e mora aqui em casa. Alegria é voltar ao lar no fim da tarde e dar o segundo beijo do dia, repartir um copo de suco, falar do que se passou e ver um filme na TV. Alegria é ver minha filha gargalhando com as cócegas que eu faço, é sentar ao seu lado e assistir Toy Story pela 78ª vez, é construir todo um reino com peças de Lego, é observá-la por horas a fio, enquanto dorme inocente, tentando imaginar os sonhos que alimenta.

Tenho um amigo que sempre diz que eu me preocupo demais. Ele fala que fico aqui escrevendo essas coisas, mas preciso desligar um pouco e deixar que tudo aconteça naturalmente. Sei não. A verdade é que eu não fico encanado com o que desfruto, mas o contrário. Preocupo-me com o que possa estar tomando o tempo das coisas realmente importantes, entende? E para mim, isso não é lá muito natural.

Sei que ainda sou novo e que possivelmente vivi bem menos da metade do que ainda tenho pela frente. Mas sei também que a vida é fugaz e que ao menor vacilo, os brinquedos espalhados pela casa vão dando lugar a cadernos e roupas de gosto duvidoso, os livros vão ficando cada vez mais grossos e com menos figuras e nossas crianças, de repente, entram pela porta sala com suas crianças a tiracolo.

Eu lembro da minha infância numa vila lá na Barra Funda. Era um bairro industrial e eu gostava especialmente das manhãs quentes, depois de abrir a janela do quarto e ouvir o som das fábricas no quarteirão misturados ao de uma família de bem-te-vis que vivia numa árvore atrás do nosso quintal e cantava o tempo todo. E lembro dos brinquedos que deixava pela sala, dos cadernos, das minhas roupas de gosto duvidoso e dos livros todos, com muitas e poucas figuras. E lembro dos meus pais, do meu irmão e da minha irmã, que também já não tem mais aquela idade, no quanto os amo e em como quase não digo isso a eles.

Eu acho um grande paradoxo pensar que, segundo nossas crenças, viveremos para sempre, mas que só temos alguns anos – uma partícula de tempo na história toda – para determinar essa eternidade. Morreremos daqui a pouco e acabamos gastando nossos dias em futilidades, enquanto vemos nossos relacionamentos mais importantes se converterem em diálogos superficiais.

A verdade é que eu quero saber que fiz coisas relevantes. Que mais do que me preocupar em saber das últimas notícias, da escalação do time do São Paulo em 1982 ou ter assistido aos grandes clássicos do cinema, eu sentei à mesa e fiz a refeição de todas as noites com as pessoas que amo. Que eu tive tantos filhos quanto sonhei, que escrevi um poeminha para a Manú e recitei pessoalmente, que fui, por mais um dia, o herói da Nina na brincadeira do rei e da princesa.

Talvez a gente gaste tempo demais querendo encontrar motivos, querendo encontrar culpados, querendo encontrar uma resposta que nos salve da insanidade que estamos vivendo. Mais tempo, mais dinheiro, mais prazer, mais respostas instantâneas, mais planos complicados. Queremos que Deus seja um escritor de auto-ajuda, com um livro de poucas páginas, muitas figuras e cinco passos básicos para que tudo se resolva. Mas tudo é muita coisa.

Queremos que as coisas mudem, mas as coisas não precisam mudar. Quem precisa mudar somos nós.

Mas, jamais conseguiremos isso sozinhos. Precisamos de um refúgio, de um porto seguro onde ancorar e organizar as idéias, rever os conceitos. Às vezes, eu tenho para mim a idéia estúpida de que, tal como algum ancestral que vivia nas cavernas, eu saio de manhã todos os dias para fazer minha caçada, batalhar e trabalhar nos campos pela colheita – bem, convenhamos, é um jeito emocionante e otimista de se encarar dez horas sentado em frente a um computador. Então eu volto, pouco depois de o sol se pôr, para minha paz, minha casa, minha esposa, minha filha, uma caneca de Nescau e as melhores horas do dia.

E Deus.

Eu penso na Bíblia e nas coisas em que acredito e fico feliz em saber que Jesus é o Deus desse mundo. Isso já basta. Eu creio e é mais do que suficiente para que ele seja meu Deus também. E é verdadeiramente libertador e aconchegante ter esse Deus simples, sem me preocupar com os milagres, com as interferências na história, com discussões bobas sobre crenças e com minhas crises existenciais. É esse Deus a quem chamo de pai, é para ele que me sinto livre de abrir tudo o que se passa, que me rendo, agradeço, peço desculpas e peço conselhos.

E acredito ainda que quando ele nos dá uma família e bons amigos, está nos mostrando um pouco dessa verdade, nos oferecendo refúgios de paz para onde podemos retornar quando o sol se esconde no horizonte. Está nos dando o sinal mais explícito do que realmente importa e faz sentido na vida e que, no fim das contas, deveria ocupar mais do nosso tempo.

Olho outra vez para a foto no porta-retrato que eterniza a boa lembrança. A Manú dorme aqui do lado, ouvindo a trilha-sonora das teclas preenchendo a tela do computador. Então eu levanto, faço a última ronda pela casa para checar se está tudo bem (sempre está, mas preciso fazer isso mesmo assim). Volto, deito, dou um último gole no copo d’água e estico o braço para alcançar o interruptor que apaga a luz do abajur. Já é tarde e eu preciso dormir.

Meu livro repousa fechado no canto. O desfecho ficará mesmo para os próximos dias. No momento ideal para eu ler (e viver) as próximas páginas da história.