Águas de março

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Noite passada, enquanto tentava dormir, me inquietava com o fato de que já estamos em março. Março, poxa. Um terço do ano já se passou e o ano só está começando agora. Porque março é o mês que me faz desacelerar o passo da caminhada, que me força a parar e olhar por sobre o ombro e perguntar como foi que cheguei aqui. Não pelo mesmo motivo que todos nós fazemos em dezembro durante as festas, nem porque eu pessoalmente fique mais velho (meu aniversário também é em dezembro), mas é que de repente realizo, quando vejo a folhinha de fevereiro cair no calendário, que Cecília e Nina estão prestes a comemorar mais um ano.

* * *

É uma manhã de sábado, sou o último a acordar na casa. Manú está na cozinha passando um café no coador – cujo aroma a essa hora mais me chega como um carinho – e escuto o barulho da tv ligada. Sigo cambaleante até a sala e vejo a Nina sentada no sofá com um livro de mais de quinhentas páginas nas mãos. Eu coço os olhos. Quando foi que paramos de ler juntos aquelas pequenas coleções de 20 ou 30 páginas ilustradas em que eu deixava algumas frases incompletas para saber se ela já seria capaz de ler as palavras finais sozinha? Em poucos dias, ela completará dez anos. Dez. Eu posso te jurar que ano passado ela fez cinco e que toda sua história ainda cabe aqui num parágrafo ou dois de memórias.

Enquanto me espreguiço, Cecília corre atrás da Lucy com algo nas mãos que tenta fazê-la engolir. A cachorra foge, o dia todo. E Cici corre na ponta dos pés, de um jeito que parece que flutua. E ela gargalha por tão pouco, de um jeito que parece que é fácil rir assim de qualquer coisa. Atravesso o cômodo atraindo as atenções das duas, que agora me seguem até a cozinha. Para premiar a minha nostalgia, ela faz aniversário apenas dez dias depois da irmã mais velha. Dois anos, na semana seguinte. E ontem mesmo, tenho absoluta certeza, eu ainda escrevia agradecido a crônica final de um livro contando que Manú estava grávida novamente. E nossa pequena tempestade ruiva é um presente melhor do que qualquer sonho que tínhamos sobre o novo bebê que viria completar nossa família.

Eu não posso afirmar que há alguém pulando os anos e envelhecendo mais rápido do que deveria aqui em casa, mas estamos certamente sendo traídos pelo tempo, pela nossa noção de tempo, por um relógio desajustado em algum canto dessa casa cujos ponteiros aceleram além das regras.

Quando criança, uma coisa que eu gostava de fazer era represar água. Qualquer água servia. Eu abria a torneira da pia do banheiro e tapava o ralo com as mãos por um segundo ou três só para ver juntar um pouco de água e então soltar e ver aquilo correr devagar tubulação abaixo (eu não fazia ideia da existência do Sistema Cantareira, preciso dizer em minha defesa). Fazia isso na rua também, colocando um pedaço de pau, uma pedra, o tênis de algum amigo ou o obstáculo que encontrasse em frente à pequena correnteza de água que vinha meio-fio abaixo enquanto a vizinha de cima lavava a calçada. O obstáculo podia reter toda água por um tempo, mas em algum momento o volume era tão grande que o superava ou arrastava.

Eu faço isso ainda. Ponho as mãos na água em movimento e a vejo passar pelos dedos. Quando chove e estou na rua, estendo a mão junto os dedos para ver por quanto tempo consigo reter a água. Eu faço isso ainda, eu pego a Nina no colo quando ela dorme no banco de trás do carro e – comprometendo eternamente meu nervo ciático – a levo para casa. Ela já tem quase um metro e meio, ela acorda no meio do trajeto mas finge que ainda dorme e acomoda o rosto no meu pescoço por uns oito anos até chegar na sua cama. Eu faço isso ainda, quando levanto a Cecília “bem alto! bem alto, pai!” e tudo o que ela tem que garante sua segurança são meus braços que a sustentam naquela aventura. E nessas horas, ela que nunca pára nem por um segundo, fixa bem os olhos nos meus, sorri o melhor sorriso com os dentes separados e gargalha. E aí, o tempo é que pára.

Peço a Deus que me ajude a lembrar desses instantes mágicos para sempre. Em minha pequena fé, desejo que a eternidade seja o espaço onde as memórias nunca pereçam. Que no berço da vida estejam os primeiros passos de minhas meninas, o balbuciar das primeiras palavras, aquele dia no parque, a viagem à praia, as sonecas de sábado à tarde no sofá e cada vela soprada nas festas que marcam a passagem dos seus anos.

Fico tentando conter com os dedos o forte fluxo desse rio, tento parar a chuva, mas a vida muitas vezes é correnteza demais.

Me dou conta de que preciso mesmo é aprender a nadar, me deixar molhar pela chuva e seguir em frente. Isso acontece quando consigo parar de encarar o espelho entre uma aparada e outra na barba, quando deixo de lamentar o volume de água que se foi, o tempo que passou, os dois encantadores anos da Cici que ficaram para trás e os dez doces capítulos da Nina que ela já escreveu.

Há paz, finalmente, quando meu olhar se concentra no que importa, uma obviedade de que me esqueço com frequência: de que há algo a ser feito agora, há o que se desfrutar hoje e que há coisas mais importantes do que respostas para se perseguir na vida. Porque há amor, há Legos, massinhas, lápis e bonecas por todos os lados, há a quem pertencer para sempre, há Deus a nos guiar com sua voz bondosa, há duas meninas dormindo de mãos dadas no quarto ao lado. Há um futuro que se revela atrás da porta que se abre, e o horizonte todo, o dia de amanhã, o esplendor do sonhos e o tempo, todo o tempo que ainda temos pela frente chegando na corrente de um rio.

Em poucos dias haverá uma festa por aqui. Estamos em março e lá fora chove.

Entre nuvens

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Aeroportos. Eu também teimo com aeroportos. Não sei dizer o que é, mas há uma atmosfera estranha, que em um primeiro impacto parece ter um brilho interessante e mágico mas em poucos minutos se revela superficial, limitado e ofuscante demais, perfumado demais, barulhento demais, raso demais. Tentam nos vender como shopping center o que na verdade é só o que é: um terminal de chegadas e partidas. Pessoas indo e voltando, de passagem por algumas horas, até o momento de partir, escutando as descrições de voos, as chamadas de embarque e o ruído das aeronaves decolando lá fora. Estou em um aeroporto agora.

No entanto, observar viajantes está entre meus passatempos favoritos. Mais do que faço em qualquer outro lugar, gasto minhas horas de espera antes de embarcar olhando as pessoas à minha volta e tentando imaginar suas vidas. Porque há algo diferente nesse ambiente, ninguém passa por aqui todos os dias, todos vivem essa coisa transitória, estar nesse lugar não é a rotina de ninguém sentado nessas cadeiras (é claro que os funcionários das lojas e balcões de companhias aéreas são uma exceção). Estão todos em trânsito, indo para algum novo destino ou voltando para seus lugares.

Eu só tento escutar. O casal de meia idade que come uma pizza em silêncio e sem se olhar nos olhos em nenhum momento, um outro casal de idosos que senta lado a lado na mesa do restaurante deixando as cadeiras da frente livres e conversam animados com guias de viagens empilhados sobre a mesa, executivos e executivos sozinhos digitando aceleradamente em seus computadores ou andando de um lado para o outro. Indianos, japoneses, norte-americanos, latinos, gente muito loira e branca de algum canto da Europa, um grupo em excursão viajando em férias, homens com chapéus de cowboy que julguei serem aqui do Texas mas descobri depois que eram de Goiania (estou parado numa conexão em Dallas). Duas crianças entediadas brincando em iPads com capas coloridas e outras crianças, um casal de irmãos, correndo um atrás do outro pelo terminal como se estivessem no quintal de casa. Uma mulher lendo um livro de bolso enquanto bebe uma garrafa de meio litro de Coca-Cola Zero no gargalo. Gente no celular, gente no celular e gente mexendo no celular por todos os lados absortas em suas telas azuis, isoladas em fones de ouvido que sempre me lembram o penteado da Princesa Leia. Tento escutar suas conversas.

Procuro imaginar suas vidas além dessa máscara que enxergo. Sei que você também faz isso. Quero saber como são suas rotinas fora daqui, de onde vieram, para onde estão indo. O que sonham fazer, o que as angustia agora, o que tem em suas casas, do que sentem falta, que carro dirigem, se já roubaram para comer alguma vez na vida. Fico imaginando quem é que os espera do outro lado dessa viagem aérea, quando chegarem em casa.

Foi o escritor John Gardner que disse certa vez que só existem dois tipos de histórias: a pessoa que sai em uma jornada ou um estranho que chega na cidade. Ele falava de literatura, mas talvez seja isso mesmo e eu não esteja entendendo. As histórias, de todos nós e os fragmentos que deixamos transparecer nessas amostras, nesses pequenos contatos que fazemos, no fundo se resumem a duas coisas.

Estou sozinho agora, sentando em uma mesa de restaurante, comendo uma fatia de pizza em que certamente falta alguma coisa na cobertura e espero o horário de embarque do meu voo de volta para São Paulo. É minha décima segunda viagem a trabalho esse ano. Estou cansado. Penso na frase do John Gardner e fico me perguntando onde é que me enquadro em sua sentença. Quem seria eu nesse escrutínio que faço se estivesse do outro lado do balcão me analisando? Personagem de que tipo de história eu sou?

Ainda hoje, um pouco mais cedo, liguei para casa para saber como as meninas estavam. A Nina atendeu o celular da mãe e ligou a câmera para conversarmos. Eu ainda tinha pelo menos 15 horas de viagem pela frente então e enquanto falávamos, ela caminhava por uma área aberta e me contava da festinha infantil em que estavam. De repente, parou de andar, olhou para o alto em silêncio e fixou o olhar por alguns segundos em algo que eu não podia enxergar. Então ela voltou:

– Pai.
– Oi.
– Acabou de passar um avião no céu. Queria que fosse você.

Entre uma garfada e outra na pizza, eu penso que falta orégano e certamente também falta alguma coisa na frase do John Gardner. Porque há um terceiro tipo de história, há uma outra narrativa, a saga que meu personagem vive nesse exato instante e em cada viagem que faço: um peregrino que volta para seu lar.

Por que sempre corremos de volta para o que nos espera, por que nossa alma só se completa quando reencontra a quem pertence. E às vezes isso é a busca de uma vida inteira, às vezes é a volta para casa de uma viagem e inúmeras vezes somos só nós no trânsito depois de um dia de trabalho. De volta para os braços de quem se ama, de volta aos eixos sobre os quais a vida gira diariamente, de volta para o pão com manteiga e café com leite, de volta para o coração de Deus. Todas as histórias são isso mesmo, ir e vir, os ciclos, partir e chegar, a jornada toda. E a vida se realiza na certeza aconchegante de poder ter para quem voltar.

Eu me vejo no outro lado do balcão, refletido num espelho. Já não me analiso ou faço perguntas. Sei muito bem para onde sempre volto.

O livro chegou

Amigos, meu livro saiu hoje. E já está à venda numa livraria perto, mas tão perto de você, que é só clicar em um dos links, baixar e já começar a ler ;-)

Por enquanto, ele estará disponível em formato ebook e você consegue ler no seu celular, tablet, computador, Kindle, Kobo ou Nook.

Se por amizade, curiosidade ou para ter alguma coisa para usar contra mim no futuro você chegar a ler, por favor, me conte depois o que achou, tá bom?

Aqui vão as principais lojas:
– Amazon: para ler, baixe o app do Kindle no seu aparelho e quando fizer a compra pelo site da Amazon, ele sincronizará automaticamente https://goo.gl/10K2lo
– Google Play (Android): compre o livro pela loja e leia no aplicativo Google Play Livros do seu Android https://goo.gl/JjCfe7
– iBooks (iPhone/iPad): no próprio aplicativo de leitura do iPhone ou iPad você pode fazer a compra e começar a ler
– Tem nas outras lojas também (Kobo, Saraiva, Livraria Cultura etc.), é só buscar pelo título do livro

Abraços!

Por quem meus olhos abrem

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Algumas situações ruins que vivemos, às vezes vem cercadas de tantos momentos mágicos que com o passar do tempo a memória se encarrega de nos fazer esquecer as partes negativas e nos apegamos à ideia de que tudo foi perfeito.

Nos últimos meses, as coisas meio que voltaram uns nove anos no tempo aqui em casa. E com a chegada tão esperada da Cecilia e toda alegria de ter um bebê trazendo o milagre da vida e dando seus primeiros passos na sala do nosso apartamento, chegou também – sem ser convidado, preciso enfatizar – a época da areia nos olhos, das overdoses de cafeína, dos sonhos delirantes com noites inteiras de sono que agora parecem tão remotamente impossíveis.

Nossos passeios no shopping acabam com nós dois parados lado a lado, dedos entrelaçados e aquele olhar melancólico em frente a uma loja de enxoval e a boca salivando em desejo por camas fartas, edredons fofos e lençóis de algodão egípcio com 12.000 fios. Tudo o que queremos são noites com horas ininterruptas de sono.

O fato é que a Cecília acorda muito durante a noite. A cada hora, às vezes. Várias vezes numa hora só, em certas ocasiões. Quando o ponteiro marca uma e tantas da madrugada, ela começa a chamar, numa escala de decibéis que certamente não cabem nos 75 centímetros que mede aquele pequeno ser:

– Mamamamamamamaaaaaa!

Levantamos correndo, muitas vezes correndo na direção errada (eu já cheguei a ir para o banheiro ao invés de entrar no quarto das meninas), tantas vezes chutando chinelos, crocs, quinas de cômodas e dando topadas com o cotovelo na maçaneta de alguma porta. O susto nos impulsiona, o despertar é quase um instinto.

Talvez alguém que leia isso recomende técnicas de sono. Alguém sugere um “nana, nenê” aqui, outro indica o “leito compartilhado” ali e talvez apareça também o modelo francês em uma conversa por aí. A gente tá ligado, estamos realmente tentando. Mas tem sido difícil contar para a Cecília sobre nossas metodologias e conseguir que ela concorde em participar dos testes.

* * *

Eu lamentava essa situação outro dia, quando me ocorreu que há pouco mais de um ano estávamos, nós dois, nesse mesmo quarto, vivendo esse mesmíssimo momento, mas ainda sem ela. Os olhos abertos, idas e vindas pela casa, o medo de acordar a Nina, coração aflito esperando Cecília chegar em algum instante daquela madrugada. Ela nasceria em poucas horas e essa era toda a expectativa que tínhamos então (e já nos acordava às duas da manhã para anunciar o que viria pela frente).

Hoje, ela mede alguns poucos centímetros, mas ocupa dois metros de altura entre nós. Pesa doze quilos, mas preenche a casa e nossas vidas com sua presença festeira e o sorriso fácil de poucos dentes separados. Tem apenas alguns meses nessa terra, mas ilumina a vida da gente inteira com aquele cabelo vermelho fogo e a pele branca reluzente.

Ontem ela fez um ano. Antes de ontem, ela nasceu. Amanhã, ela estará por aí ganhando o mundo.

Aquela sensação de que tudo estava sob controle e a certeza de que a paternidade era assunto dominado por aqui, obviamente caiu por terra. Achamos que a Nina e sua serenidade eram o padrão genético que imprimiríamos em qualquer ser humano que resultasse de nós dois. Achamos.

Não estávamos acostumados. Na vida pacata que sempre reinou sob esse teto, jamais imaginamos a chegada de alguém que virasse tudo de pernas para o ar, como Cecília faz. A Nina sempre foi tão calma, tão a gente mesmo, como uma extensão das nossas personalidades. A Cecília, por sua vez, é o conceito não lapidado de personalidade em si.

Se a Nina sempre foi calmaria, a Cecília é tempestade. Nina é solitude, Cecília é multidão. A Nina é “a capela”, mas Cecília é bloco de carnaval. Nina é Beatles e Cecília é Rolling Stones.

Ela tem pressa, ela voa. E se minha vida até então era sempre essa coisa de andar de olhos fechados para sentir a brisa e contemplar, agora eu fico, o tempo todo, de olhos bem abertos. Porque a todo instante, ela nos surpreende. E isso é a maior graça dessa história toda.

Mas, enquanto observo minhas meninas dançando juntas na sala, partilhando uma história na tv e caminhando lado a lado para a vida, sinto que me pesa sobre os ombros o preço do tempo, o limiar da história e me crescem novos fios brancos pelo corpo. Eu limpo as lentes embaçadas dos óculos e olho para o “agora há pouco” como um passado cada vez mais distante. Tenho medo.

* * *

A coisa não é abrupta, nunca é. Não há ruptura que se possa notar assustado, não há dia agendado para que uma despedida seja marcada a tempo. O tempo é sorrateiro, é fugaz como um fósforo que de chama reluzente vira cinzas num piscar de olhos. Só o notamos olhando para trás, só nos damos conta de que tudo foi tão rápido quando já passou.

Só vemos os sinais. Há riscos de giz de cera marcando a altura no batente da porta do quarto, há uma sacola de roupas que já não servem, há fotos, milhares de fotos, gigabytes de fotos, de muitos dias e eventos. Temos os brinquedos antigos esquecidos em alguma caixa velha, os desenhos em rabiscos arquivados nas gavetas do criado-mudo. A verdade é que só temos mesmo as lembranças e todas essas coisas que nos remetem às lembranças.

Elas vão passar, vão crescer e correr tão rápido que meus dedos não poderão alcançar, vão sair pela porta da sala para brincar lá embaixo e, de repente, voltar com as suas crianças para brincarem com a gente.

A diferença de idade entre as duas é um duro contraste. Até outro dia, era a Nina a personagem de parágrafos tão parecidos com esses que agora eu dedico à Cecília. E fico pensando que toda descoberta e novidade de ser pai novamente será, outra vez mais, essa experiência encantadora e assustadora e vou ter que lidar com a Cecilia, daqui oito anos, nesse tamanho que a irmã tem agora – e que já terá 17 anos (de-zes-se-te!) então.

A Nina agora me pergunta sobre o significado da vida. Quando ela começou, pensei que era uma revisão para a prova de ciências. Mas (como sou tolo), a questão era pura filosofia:

– Pai.
– Oi, filha.
– Assim, eu tenho essa pergunta… essa… eu queria saber, o que é a vida?
– Como assim, filha?
– A vida, pai. Isso que eu quero entender. O que é a vida? Eu fico todo dia com essa pergunta. Por que a vida, pai?

Eu digitava qualquer bobagem no computador nessa hora, paralisei uns 15 segundos, até que notei que precisava fechar a tela e conversar à altura.

Tentei ser convincente em alguma explicação sobre existência e propósito, falei de Deus e de como a vida é uma criação dele e vivemos para ele, nosso Pai. Mas sabia que não a supriria, não há argumento racional para isso. Porque uma coisa eu sei: esse é o tipo de pergunta que só nós mesmos podemos responder, é a busca existencial que nos cabe encontrar, é o colo divino que tem a nossa medida. E o que ela não sabe é que o pai dela se faz essas perguntas diariamente.

Semana passada, ela tocou uma música inteira no teclado. Eu voltava de uma viagem a trabalho e havia chegado em casa há pouco, então ela foi até o outro quarto e nos chamou para ouvir o que tinha aprendido. Fiquei em pé, encostado no batente da porta enquanto a olhava de frente. E ela, não a música, era tudo o que eu percebia. Os dedinhos pressionando as teclas de forma coordenada, aquele olharzinho inseguro lendo a partitura, as bochechas formando um sorriso quando acertava as notas. Aí eu chorei. Poxa. Olhando aquilo, tudo aquilo, vivendo aquilo, fiquei comovido. E abracei minha filha. Não exatamente pelo que ela fez, mas por ela e porque a fico observando fazendo essas coisas para nos deixar felizes, sem saber que tudo o que fazemos na vida é tentar fazer coisas que as deixem felizes.

E o significado da vida, esse que ela tanto procura todos os dias, para mim estava naquele instante.

* * *

Abri a porta de casa outro dia e elas estavam, as três, espalhadas pela sala enquanto algum musical passava na TV. Cecilia brincava em um canto quando me viu chegar. Ela deixou o brinquedo de lado (leia: arremessou no chão) e correu, cambaleante, em minha direção. Me abraçou as pernas e eu a peguei no colo e levantei bem no alto, para depois lhe dar um beijo. Então ela também fez um bico, mirou minha bochecha esquerda e deu aquele estalo. Me abraçou, abriu o sorriso, me encarou fundo nos olhos e soltou: “Papa!”.

Ela tem esse olhar que escrutina a gente e tudo ao redor. O mesmo olhar que revela tudo o que ela é. A Cecilia não tem mistério. Eu brinco que ela não é branca, ela é transparente. E amo enxergar nela a pureza da infância, essa autenticidade e liberdade em poder oscilar do pranto ao riso em segundos, em não se limitar às convenções. E penso no quanto disso me falta hoje. Ela tem medo do secador de cabelo, mas adora dormir ao som do aspirador de pó. Ela gosta de comer sozinha com o garfo, mas pede que a gente segure a mamadeira para ela. Ela agarra e penteia os pêlos da Lucy o tempo todo, mas tem aflição de passar a mão em bichinhos de pelúcia. Ela fala “não” quando não quer alguma coisa e fala “não” quando quer também.

Me encanto em perceber que estou vivendo, de novo, essa satisfação da paternidade, o privilégio de testemunhar mais um ser humano dar seus primeiros passos cambaleantes diante dos meus olhos, de ter uma menina pendurada em minha mão passeando pela rua enquanto me faz perguntas sobre a Peppa Pig, sobre brinquedos, sobre minha infância e, talvez, sobre o sentido da nossa existência. Esses dias tão mágicos e excepcionais da vida da gente que, numa fração de segundos, suplantam qualquer parte ruim, qualquer noite mal dormida, qualquer desejo individualista e superficial. E na mesma fagulha de tempo, tudo vai embora. Daqui a pouco ela me pega de surpresa, como a Nina, com perguntas difíceis. Daqui a pouco ela sai por aí com sua mochila nas costas.

Lembrei, outra vez, de uma história que vivemos há coisa de sete anos. Estávamos em férias, viajando para algum lugar que já não recordo. Era noite, a Nina dormiu e eu a carregava no colo. Já não lembro se estávamos em um avião ou um elevador, mas lembro que enquanto esperávamos alguma porta abrir, uma senhora, parada ao lado da Manú, nos observava. Ela contemplou a cena, parou o olhar sobre a Nina, sorriu por longos segundos e emendou:

– E na semana que vem ela fará 20 anos.

Já é tarde agora. As duas dormem juntas num quarto. Não resisto e vou até lá ver como estão. Faz bastante frio nesses dias e tentamos manter tudo bem fechado e aquecido. Puxo a coberta sobre a Nina, que se mexe a noite toda. Coloco mais uma manta em cima da Cecilia, que nunca pára de se mexer. Ajeito os travesseiros sob suas cabeças. Faço minha prece por elas.

Nos olhos, não tenho areia. Tenho talvez um cisco. E as observo admirado. De olhos bem abertos. Porque num piscar de olhos, a vida inteira passa.

Vasectomia, impeachment e um avental aberto

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– O senhor precisa tirar os sapatos, a camisa, toda a roupa e depois colocar essa touca, calçar essa proteção nos pés e vestir esse avental. A parte da frente é fechada e atrás é aberto mesmo.

Eu conhecia aquilo.

Tem uma cena no filme “Alguém tem que ceder” em que o Jack Nicholson está hospitalizado depois de sofrer um infarto e, meio embriagado, anda de um lado para o outro no hospital vestido apenas com um desses aventais e deixando o traseiro à mostra.

Pois bem. Guarde isso.

Cheguei um pouco antes das sete da manhã ao hospital. Eu faria uma vasectomia. Há alguns meses, Manú e eu decidimos que nossa família já tem o tamanho que gostaríamos que tivesse e optamos por esse caminho como forma de evitar imprevistos e horas extras no trabalho. Desde as consultas até a véspera, tudo seguia em ventos favoráveis até o momento em que desci do carro no estacionamento e tive a súbita convicção de que “vasectomia” era uma palavra tatuada na minha testa. Era evidente que cada pessoa com quem cruzava no corredor do hospital sabia que eu passaria aquela manhã de sábado deitado inconsciente numa maca enquanto uma equipe manipulava as minhas partes.

Mas, passado o processo de internação e da troca de roupas, eu já estava há mais de uma hora deitado na maca esperando meu horário. Meus pertences todos estavam guardados em algum armário do hospital e só me restava sondar o teto, recobrar o número de pessoas cujo caminho eu havia cruzado até ali, contar as dobras das cortinas e zapear os canais da TV, onde só se falava do julgamento do impeachment no Congresso.

– Senhor Luiz – uma enfermeira então puxou a cortina para falar algo.

– Oi.

– Está tudo certo? O senhor já fez todo o preparo?

– Sim, tudo certo. Acho que agora é só esperar, né?

– Sim. Mas o senhor precisa tirar a aliança também, ok?

– É, eu sei, mas não consigo. Engordei alguns quilos desde que a coloquei pela primeira e última vez nesse dedo – e mostrei o dedo com a aliança devidamente acomodada numa dobrinha.

– Hum, entendi.

Ela saiu e eu comecei um novo passatempo tentando tirar o anel do meu dedo. Dez minutos depois, meu anular já estava quase em pele viva, eu suava e o bendito pedaço de ouro não movia um milímetro.

Apareceu outra enfermeira e perguntou a mesma coisa. Ela disse que o médico usaria um bisturi elétrico na cirurgia e que um pedaço de metal no corpo não era exatamente uma boa ideia naquela hora. Só mostrei o dedo para ela, que disse mais um tanto de frases que sequer escutei, enquanto pensava em um bisturi elétrico (um bisturi! Elétrico!) sendo usado lá onde eu e todo hospital sabíamos que seria usado.

Ela saiu da sala, eu não notei.

Algum jogo do campeonato espanhol passava na televisão, mas estava truncado demais. Voltei para o canal de notícias onde deputados faziam discursos chatíssimos e acalorados sobre o impeachment na tribuna da câmara. Há meses é só o que se discute no país.

“Bisturi elétrico”, é o que vou responder para meus netos quando me perguntarem o que passava pela minha mente enquanto esse capítulo tão importante da história do Brasil estava sendo escrito.

A primeira enfermeira voltou.

– O senhor não quer tentar passar um sabão para ver se a aliança sai? Geralmente funciona.

– Pode ser. Tem sabão aí?

– Claro. O senhor pode ir ali e usar a pia do setor onde fica a equipe de enfermagem.

Entendeu bem, amigo? Eu, vários quilos a mais, meu dedo vermelho como uma pimenta dedo-de-moça, um longo corredor, espectadores de outros quartos e alas, a equipe de enfermagem. Tudo isso e o avental – aquele avental – aberto nos fundos.

Sentia como se os milhões de espectadores que assistiram ao filme do Jack Nicholson me observassem naqueles longuíssimos minutos. E, definitivamente, aquilo não era uma comédia romântica para mim.

Não bastasse a execração pública, o sabão tão pouco resolveu. Voltei para o quarto com o dedo inchado, a moral destruída e minha aliança agora polida e reluzente. Tudo só se resolveu quando um enfermeiro chegou com um pedaço de barbante nas mãos, amarrou na aliança, enrolou no dedo e, usando uma técnica que eu jamais conseguiria reproduzir, sacou o meu dedo fora do anel, digo, o anel fora do dedo e saiu, cortina a fora, me deixando sem aliança e dignidade, à espera do meu horário finalmente chegar. Liguei outra vez a TV no noticiário, enquanto gritos de “fora, Cunha!”, “fora, Dilma!” e “bisturi elétrico” se misturavam no ar e ecoavam em minha mente.

“O que estou fazendo aqui mesmo?”, me questionei. Eu não precisava daquilo e já quase me arrependia, já quase pensava em tomar pílulas anticoncepcionais masculinas, praticamente desejava ter mais três filhos nos próximos anos, nem me incomodava se fossem quatro.

Olhei para minha mão esquerda espalmada, agora sem aliança. Há uma marca, uma depressão profunda na pele, bem na parte do dedo onde ela fica. Fiquei um longo tempo olhando para aquilo. “Isso não sai mais”, pensei. Mesmo que eu emagreça os 13 quilos que engordei nesses anos, ali estão os 13 anos do dia em que a Manú a acomodou ali definitivamente.

Não sou apegado a simbologias, mas dessa vez me peguei diante de uma realidade insistente. Porque debaixo daquela pequena peça dourada tem tanto da nossa história. E me veio à mente tudo o que aconteceu, tudo o que passamos e vivemos nesses anos. Os planos que tínhamos e traçamos juntos, os lugares em que vivemos e os que já vimos, as filhas com quem tanto sonhamos e nos vieram tão melhores do que jamais poderíamos pensar ser possível. Vivemos nossa própria comédia romântica, ela gosta de dizer (eu excluiria do roteiro qualquer cena envolvendo hospitais e aventais). Crescemos, curtimos, estamos envelhecendo juntos e, sobretudo, vamos nos tornando esse “um só”, o casal, a família. Vamos, dia após dia, preenchendo os espaços entre nós dois com toda carga de sentimentos que empenhamos num relacionamento e definem o que somos juntos. É isso que somos. E uma aliança é um bom símbolo para lembrar disso.

De repente, sem ela nas mãos, me senti nu.

– Senhor Luiz? – a voz de uma nova enfermeira surgiu pela cortina.

– Oi.

– Vamos lá? Está tudo pronto para o seu procedimento. Meu nome é Fulana e eu vou acompanhá-lo até o centro cirúrgico.

– Tá legal.

– O senhor está bem?

– Sim. Só… esse avental. Ele é meio desconfortável. E parece frágil também. Já até rasgou aqui, ó.

– Ah, não se preocupe. Ele é assim de propósito.

– Oi? Mas porquê?

– Ele precisa ser aberto e fininho porque lá embaixo, depois de sedarem o senhor, eles podem rasgar ele todo e o senhor fica sem nada.

Sem nada.

E a comédia virou drama.

“Eu estava sedado”, acho que é isso que vou dizer para meus netos quando me perguntarem algo sobre a política e o tal momento histórico desses dias.

Eu e provavelmente mais 100 milhões de brasileiros que na tentativa de tapar um problema acabaram deixando um outro lado totalmente à mostra. O drama que virou comédia e que virou drama outra vez.

“O senhor fica sem nada…”. Ela estava errada, a enfermeira. É preciso muito em que se apegar para ouvir aquilo e seguir em frente ainda assim.

Acordei algumas horas depois. Sob efeito de Propofol e anestesiado pela minha boa fé, eu me recuperava escutando 100 milhões de deputados falando sobre bisturis elétricos na TV, a Dilma me receitando medicamentos no quarto do hospital e olhava fixamente minha mão esquerda notando as marcas nelas gravadas, as rugas de alguma idade, as cicatrizes de cortes e quedas, os calos do trabalho cotidiano e aquela pequena depressão na pele do dedo Seu-Vizinho que dava conta de que algo importante estava fazendo falta.

Alianças.

São o que nos fazem superar constrangimentos, crises e desafios de qualquer natureza. O que vale, no final, são esses laços que fazemos com as pessoas que amamos e que fazem a vida toda ter sentido e ser leve e a gente topar enfrentar e saber superar qualquer coisa. Porque o país, os mandatos, a vergonha, o escândalo e a coisa toda da história passa diante dos olhos da gente. Mas as pessoas ficam, o amor fica e é isso que nos marca de verdade e a gente carrega até o fim.

Era isso que me passava pela mente nesses dias, espero poder dizer para algum neto.

Sobre meninas e cães

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Uma das coisas legais de ser pai é ter acesso a boa parte das coisas mais bacanas da vida na hora em que você quiser. Carregar uma menina no colo, se sentir o herói de alguém, ter infância eterna (poder voltar a brincar de coisas de criança e fantasiar sem parecer um idiota aos olhos dos outros adultos), dormir acampado no meio da sala e inventar histórias cheias de animais falantes e pessoas que voam.

Você pode dizer que esse prazer depende da disposição da criança e não do adulto, mas o fato é que a esporadicidade desses acontecimentos, hoje, são resultado muito maior da indisponibilidade dos pais do que da falta de interesse das crianças. Tenho filhos e tenho amigos com filhos, basta observar.

Além disso, essa felicidade do pai independe do filho. A Nina está lá, sentada na mesa desenhando flores. A Cecília está aqui, dormindo no carrinho. E eu, como um cachorro quando o dono chega pela porta de casa, usufruo dessa alegria inata e me realizo sem que elas precisem fazer algo a respeito.

O mesmo peso, para mim, tem o fato de poder dormir todas as noites na mesma cama com a mulher mais bonita e inteligente que eu conheço. E a gente esquece, às vezes, o quão afortunados somos por poder dividir um colchãozinho macio e uma coberta quente diariamente com alguém que amamos. Mas isso é ponto para outra conversa.

Pais são como cachorros babões, eu dizia. E não importa como nossos donos se comportem, sempre estaremos por perto.

Todas as noites, quando chego em casa, o ritual se repete. Abro a porta pensando em largar a mochila num canto e beijar minhas meninas, mas no meio desse trajeto de apenas dois passos sou interpelado por 30 quilos de pêlos amarelos que se arremessam na minha direção. “Oi, Lucy. Já te vi”. Ela não escuta, ela pula, rodopia, arfa, lambe e corre para buscar um brinquedo. Com um braço esticado eu tento mantê-la distante para, com o outro, alcançar e tocar minha esposa e minhas filhas para cumprimentá-las. “Agora chega, Lucy! Já deu. Vai pra lá!”.

Ela se afasta por uns dois minutos. Mas o menor balbuciar das palavras “vem”, “cadê?”, “passeio” e “vamos” num raio de 5 quilômetros, aciona novamente sua euforia e o rabo balança como um espanador. Nós a chamamos de Alucynada.

Faz três anos que ela chegou por aqui. A Nina insiste que tem duas irmãs e não uma. Cecília gasta mais tempo tentando escalar seu tronco e montar sobre ela do que entretida com qualquer brinquedo barulhento e iluminado que tenha. A Manú diz que tem três filhas: uma morena, uma ruiva e uma loira. Eu, lobo solitário nessa casa, costumo dizer que por aqui nem o cachorro pôde ser homem para me fazer companhia. Mas a verdade é que a Lucy é a única que fica plantada ao meu lado enquanto assisto algum jogo na TV. Ao meu lado, não. Ela deita sobre os meus pés com aquela massa de pêlos quentes, mesmo que o termômetro da rua aponte 40 graus na sombra.

Quando nos retiramos para dormir, ela se acomoda em um ponto na porta do corredor entre a sala e os quartos. Invariavelmente, eu tropeço em alguma parte do seu corpo ou escorrego numa pequena poça de baba canina quando vou buscar água no meio da noite. A Lucy nem se move.

Esse tipo de coisa, de cães para com os donos, de pais com seus filhos, isso tem um nome só: fidelidade. E ainda que esteja em desuso, é uma palavra das minhas favoritas. Porque, ao contrário do que se vende, fidelidade não é um contrato que te amarra ao outro, mas a liberdade que nos faz querer estar ali voluntariamente. Não é dever, é uma entrega pura ao objeto do nosso afeto. Fidelidade é ser leal, constante. E isso é raro pra caramba.

Em favor dos cães, eu diria que, diferente de nós, eles são menos suscetíveis a intempéries e alterações de humor, a dias ruins, trânsito intenso e chefes mal amados. No entanto, para os pais pesa o fato de que não importa onde estejam, não interessa como estejam ou se nos querem por perto, nossos filhos sempre serão “as crianças” (mesmo que as crianças venham nos visitar trazendo as suas crianças) e o repositório infinito do nosso amor.

A Cecília, que até outro dia só chorava e dormia, agora faz graça e sorri quando me vê. Eu fico maluco quando chego perto e ela abre aquela boquinha com meia dúzia de dentes e cerra os olhinhos. A Nina, que até a semana passada só sorria, agora chora por razões novas. E eu fico destruído quando ela me diz que vai sentir minha falta quando preciso fazer uma viagem a trabalho e fala para a mãe que quando estou fora é como se faltasse um dente em sua boca. Eu queria poder carregar uma em cada braço o tempo todo.

Não importa o que façam, elas só me dão alegria. E como faz a Lucy todas as noites, eu me coloco à porta do quarto, observo seu sono e fico babando.

* * *

Eu acho que também é assim entre a gente e Deus. Ele também é como um cão fiel, babão, à porta sempre esperando. Calado quando nos calamos, pronto a atender quando clamamos, lambendo-nos como suas crias que precisam de cuidado. Não porque nos seja submisso, mas porque como todo pai apaixonado ele está sempre ali, presente, constante, fiel.

Os fundamentalistas ficarão bravos por eu comparar Deus a um cachorro. Eu poderia fazer a relação óbvia e dizer que Deus é nosso pai amoroso. Mas o próprio Deus já disse isso várias vezes e os fundamentalistas continuam bravos com Deus.

Os fundamentalistas gostariam que Deus fosse bravo e rabugento como eles. Mas o problema é que Deus é tão pouco rabugento que sempre os decepciona. E eles ficam bravos de novo e descontam isso nas outras pessoas. Eles acreditam que entendem mais de Deus do que o próprio Deus.

E eu prefiro conversar com gente que não acredita em Deus mas que consegue compreender analogias simples do que com gente que acredita que Deus é rabugento. Até porque eu também não acredito em um Deus rabugento.

O que eu acredito, de verdade, é no que eu sinto pelas minhas meninas e insisto que isso – o amor entre pais e filhos, a pureza da infância, a simplicidade – é uma analogia que nos ensina sobre como nossa relação com Deus deveria ser.

É esse tipo de sentimento que é intenso demais para qualquer um dizer que é capaz de explicar. A gente ama, aquilo cria raízes e o que sentimos passa a ser parte de quem somos. Acredito que existe, sim, essa transcendência na vida. Porque uma satisfação que está no outro, na entrega e que dá sentido a todas as coisas dentro de nós, é que me parece ser a essência de Deus. O amor, basicamente.

E esse tipo de amor não exige reciprocidade. Mesmo sozinho, ele existe. Está lá, acampado na sala ou na porta do quarto, sentado aos pés da cama, ajudando a resolver as tarefas, sendo herói, carregando no colo, curando feridas, brincando no chão da sala e vivendo uma infância eterna.

Olho para a Lucy, deitada aqui aos meus pés, um olho fechado e o outro me observando e pergunto a ela o que acha disso tudo. Diferente dos personagens das histórias da Nina, ela não é um animal falante. Mas leal como em cada instante da sua vida, ela levanta num pulo, abana o rabo de um lado para o outro e começa a me lamber.

É nisso que eu acredito.

O mundo que eu carrego nos braços

Estou andando pelo quarto, com a Cecília no colo há cerca de 30 minutos. Na verdade, já faz uns três ou quatro dias que a Manú e eu estamos nessa. Ela está febril, com algum mal estar e só choraminga, a toda hora. Não dorme direito, tira uns cochilos e já acorda berrando alto, muito alto. Ela só para de chorar, veja só, quando a pegamos no colo.

Tem um livro ou artigo ou ensaio, vai saber, que diz que na França os pais deixam os filhos chorarem por uns 10 minutos antes de atendê-los. Esse texto defende um modelo de criação diferente e diz que, como resultado desse tipo de tratamento, na França as crianças não fazem birra. Há quem diga que deveríamos copiar os franceses. Mas a França é longe demais e a Cecília está chorando aqui, agora, ali no quarto. E o instinto de coruja não me permite ver minha filhinha chorando doente e ignora-la solenemente para ver se algo diferente acontece.

O mais perto da França que a gente está aqui em casa é o biquinho que a Cecília faz quando chora no berço. E Ceci (ou Céci) é um apelido que até pode soar francês para quem a quiser chamar assim – no caso aqui, um parente ou dois.

A gente se preocupa com tanta coisa. Há tanto acontecendo no mundo agora, por esses dias. Coisas demais. Na França, na Turquia, na Somália, nos Estados Unidos e aqui no Brasil também. O noticiário pipoca escândalos, guerra e barbárie. Eu, que sempre figuro na ala dos otimistas, tenho andado ressabiado. Penso na minha família. E dá um certo medo ser pai, marido e cidadão num mundo assim nesses dias.

Lembro quando fui roubado pela primeira vez. Roubado, não extorquido. Fui extorquido aos 10 anos num fliperama quando um moleque mais velho me tomou os últimos 50 centavos que eu tinha paga comprar uma ficha de jogo. Mas fui roubado aos 14, sentado num ônibus ao lado do meu tio Beto, com meu boné azul novinho dos X-Men na cabeça, a caminho de um show dos Beastie Boys no Olympia. Eu pensava na noite bacana que teria pela frente (meu primeiro show!), pensava longe, a cabeça apoiada no vidro da janela, quando um braço se esgueirou pela fresta aberta, vindo do lado de fora, e tomou o boné da minha cabeça. Levei um susto, fiquei pasmo. Não pelo valor do boné, mas por sentir que alguém subtraia algo de mim, violentamente, subitamente, sem que eu visse e muito menos permitisse. Olhei para os lados, procurei o boné no chão, procurei entender o que aconteceu, até que a ficha caiu (uma outra ficha, não aquela extorquida).

É meio assim, pasmo, que me sinto hoje em dia. Roubam a gente todo dia. Ando pela rua com a sensação de que há dez – ou duzentas – mãos tentando puxar minha carteira, arrancar meu suado salário, exigindo que eu pague suas perdulárias contas. Respiro com dificuldade, com o estranho sentimento de que o ar me falta nos pulmões, de que falta aquela brisa fresca da aurora, porque a ganância – a nossa ganância – derruba galho por galho, gota por gota, canto por canto, da natureza que nos sustenta e garante nossa existência. Morremos aos poucos como humanidade, engolidos por essa lama que vai consumindo a vida. Sigo pelo mundo com a percepção de que minha liberdade vai sendo subtraída, de que tentam assassinar a pureza da nossa alegria, pedaço a pedaço, em cada ataque terrorista, em cada apedrejamento, em cada cuspe na cara, lá na Tunísia, no Quênia ou na França.

Mas a França, a Tunísia, o Quênia ou Mariana estão todos longe demais.

A Cecília chora outra vez. Largo correndo o computador aqui no sofá, corro até o quarto e a embalo no colo mais um pouco até ela pegar no sono novamente. A luz dos postes lá na rua atravessam pela janela aberta e refletem na parede onde fico vendo nossa sombra em movimento. Há um pouco dessa luz iluminando parte do seu rosto, o cabelo vermelho, uma das bochechas e os olhinhos fechados. Agora ela repousa, nessa segurança ela descansa. Coitada. Mal sabe sobre que monte de dúvidas ela deposita sua pequena paz. Eu a deixo no berço e volto para o texto.

Às vezes, tenho vontade de me alienar (às vezes nada, penso nisso todo dia). Queria parar de me preocupar com o mundo todo, ser um ignorante. Deixar de acompanhar a política, fazer pouco caso dos desastres distantes, trocar o noticiário pela novela. Penso o que seria se decidisse cuidar só da minha vida e dos meus, olhar para um alvo só e manter o foco. O mundo é grande demais, elaboro. Deveria me ater ao microcosmo de coisas e pessoas que já exigem tanto de mim. Mas logo me dou conta de que não tenho essa habilidade. Não descobri ainda se por virtude ou limitação, mas não consigo não me importar e sofrer profundamente.

O que não quer dizer que eu possa fazer algo, de fato, por eles todos. O que posso fazer além de dedicar àquelas vítimas todas as minhas orações, enviar pacotes de água para Minas Gerais e doar algum dinheiro para instituições de apoio presentes nessas regiões? Isso ajuda, é evidente – e procuro fazer – mas ainda é muito pouco.

É quando me dou conta de que não é bem de alienação que preciso, mas saber claramente que o que está ao meu alcance eu devo realizar agora. Ter consciência de que tem uma porrada de coisas que posso fazer hoje para mudar o meu mundo.

Porque sempre haverá uma calçada para varrer, um vizinho necessitado para alimentar, um voto para se pensar direito, um vereador preguiçoso para cobrar. Tem, todos os dias, um asilo que podemos visitar com as meninas (idosos adoram ver crianças correndo em volta), um pedestre para darmos a preferência no trânsito, uma criança carente a quem podemos pagar os estudos. Tem uma escola e o posto de saúde do bairro em que podemos ser atuantes, tem o condomínio em que vivemos onde podemos ser presentes, a igreja da comunidade em que podemos servir.

Tem esse mundo todo de coisas a serem feitas no mundo ao nosso redor. É, no duro, nesse meio ambiente que nos cerca que podemos fazer grandes mudanças, são as vidas ao nosso redor (vizinhos, amigos, familiares) que podemos transformar.

Um morador aqui no meu bairro conseguiu que uma rua que estava totalmente esburacada há mais de 30 anos (e onde jaz parte do meu dente da frente depois de um tombo de bicicleta em um dos seus buracos há 24), fosse inteira recapeada e reformada. O que ele fez? Pregou duas faixas, grandes, coloridas, destacadas, cobrando o prefeito de uma de suas promessas de campanha. Quando a obra foi concluída, ele colocou outras duas faixas: uma agradecia a nova rua que agora temos e outra cobrava que um parque público fosse construído num terro da rua debaixo. O parque já está em obras.

Parece insignificante perto da lama toda em Brasília. Soa pequeno demais diante de problemas tão críticos no Oriente Médio e na África. Mas, não é. No fundo, é nessa escala que tudo se transforma. No limite dos municípios, do bairro, da rua, dentro de casa, na verdade. Nas necessidades da vida cotidiana, na educação dos nossos filhos, mostrando a eles o que é ser um bom cidadão, o que é ter respeito pelo próximo, o que é estender a mão a quem precisa e ser a voz de quem não a tem para exigir o direito comum a todos. O mundo inteiro, cada cidadão de bem, fazendo sua pequena parte para compor o todo. Acredito nisso, de verdade. Porque não somos a França ou Mariana, nós somos indivíduos. Somos o Henrique, o Mohamed, a Sayuri, o Maputo e a Mercedez, na beleza da nossa diversidade e individualidade. Esse é o mundo que eu consigo abraçar.

“Não usemos bombas nem armas para conquistar o mundo. Usemos o amor e a compaixão. A paz começa com um sorriso”. A frase é de Madre Teresa de Calcutá, lembrada por sua vida dedicada à caridade e que passou a maior parte dos seus dias em um hospital indiano cuidando de leprosos. Essa era sua obra: um pequeno hospital. Esse foi o mundo que ela tocou de fato. Mas por alguma razão, os efeitos de sua vocação transformaram no mundo todo a maneira de se enxergar a fé cristã.

Jesus ministrou, ao todo, por três breves anos. Nasceu na Galileia, uma região da Palestina onde, estima-se, viviam na época cerca de 200 mil pessoas. Em Jerusalém, capital da Judeia naquele tempo, viviam aproximadamente 25 mil pessoas. Sua mensagem, não deve ter alcançado mais do que uma parte dessa pequena região. Se compararmos com o Brasil de hoje, o ministério de Jesus não teria uma cobertura maior do que uma cidade entre as 100 maiores do país. Mas, honestamente, não acho que ele tinha em mente que precisaria de amplitude para começar ou exercer sua missão de vida: o amor. Porque não se ama o mundo todo, ama-se o próximo, o cego, o leproso, a viúva, a criança, o guarda, o ladrão condenado ao seu lado na cruz.

Não é a amplitude, entende? É empenhar amor aqui, é amar o próximo. Faça o que está ao seu alcance e certamente isso tocará mais gente do que poderia imaginar. Não é o tamanho que faz a grandeza da obra, é o significado, é saber que nosso esforço tem como fim o bem estar comum de nossos semelhantes e que a justiça e o bem devem sempre prevalecer. Porque essa, a bondade, é a natureza com que fomos criados.

Transformar o que me cerca, trabalhando duro, pregando no deserto, estendendo a mão ao desamparado, doando um tanto do que recebo. Embalando minhas filhas no colo e orientando seus passos para o mundo. Elas, as duas, serão grandes heroínas. Não é para menos do que isso que as educo.

Cecília chora de novo lá no quarto. Ela só tem sete meses. Esta febril, respira ofegante. Em sua pequenez, em sua fragilidade, ela depende de socorro. Eu a embalo. A Manú chega e a pega também. Só precisa de um pouco de toque para poder voltar a dormir em paz.

Esse é o mundo que eu carrego nos braços agora. A gente fica querendo abraçar o planeta todo, mas todo meu mundo, todo universo, é esse bebê que eu embalo no colo. Agora.