Cenas natalinas: Simeão

por Luiz Henrique Matos

(Inspirado na passagem de Lucas 2:21-40)

Quando acordou naquela manhã fria, Simeão sentiu-se jovem como há tempos não era. Preparou seu desjejum, lavou-se, vestiu uma túnica limpa e caminhou até o jardim nos fundos da casa onde, sozinho, gostava de meditar.

Enquanto se dedicava às flores que cultivava com tanto zelo desde a morte da esposa doze anos antes, sentiu ressurgir um pensamento que há muito adormecera em suas lembranças. Antes quieto, agora bradava; distante, agora vinha a galope. A revelação que tivera na mocidade, de repente tomava sua mente outra vez: não morreria antes de ver surgir o Messias, o Cristo, o libertador de Israel.

E aquilo era real como a enxada que empunhava, perceptível como vento frio que lhe agredia o rosto, era urgente como o instante exato, como o fôlego de ar, era hoje.

Simeão não pôde mais se concentrar noutra coisa. Durante toda a vida, agarrou-se à esperança desse dia. Foi, de fato, o que o manteve vivo e apegado ao Deus de sua vida nos momentos de dor e dúvida. A perda iminente da esposa, atacada por uma doença que a devorou em poucas semanas, a desolação do seu povo oprimido pelo Império Romano, sua Jerusalém tomada de soldados, sádicos, que tratam os judeus com escárnio. Quando jovem, seu coração clamava por redenção e justiça, mas agora ele era um velho viúvo, cansado e resignado.

Mas hoje… como era possível tudo renascer assim? Esse era o dia pelo qual o homem esperou por toda a vida mas para o qual, percebia, nunca havia se preparado. Seu sonho tão íntimo, o segredo que mantinha com Deus, Simeão prometeu a si que jamais falaria no assunto até que visse, com os próprios olhos, o libertador do povo escolhido. Agora, enfim, o consolador surgiu.

Não conseguiu cumprir sua rotina. Largou o jardim como estava, deixou caída a enxada sobre a terra, limpou as mãos na túnica e caminhou, absorto, porta adentro. Lavou o rosto, respirou por algum tempo, tentando manter a lucidez, apoiado sobre os braços enquanto contemplava a própria imagem refletida na água da pia. Cada fio em sua cabeça branca o remetia à promessa da mocidade.

Do que se passou depois disso, lembrou muito pouco. Não notou o estado em que deixou a casa, tampouco os cumprimentos dos vizinhos, o grito do comércio, o barulho da cidade enquanto seguiu obstinado pelo caminho até o templo. Subiu a escadaria como se não lhe pesassem décadas sobre as pernas, atravessou apressado o pátio, a entrada principal e, finalmente, chegou ao interior do lugar sagrado. Cerrou os olhos miúdos, movendo-os ansiosos, procurando por todo o lugar sem saber quem exatamente deveria encontrar.

Mas o templo estava vazio. Num canto, sentada, estava a profetiza Ana, já idosa, que passava seus dias naquele lugar. Um pensamento irônico lhe ocorreu vagamente e Simeão sorriu. Conteve-se, caminhou até uma área mais ampla no interior do templo, longe da porta de entrada e se acomodou. Olhou em volta mas nada lhe prendia a atenção. Tentou orar, mas não conseguia se concentrar. Fechou então os olhos e aguardou em silêncio. Não sairia dali até que as notícias chegassem das ruas ou o próprio Deus lhe mostrasse onde estava o Cristo para que ele fosse lhe prestar culto.

Por uma hora, o homem esperou. Teve dúvida. Talvez fosse tudo uma bobagem, a vontade de ter alguma novidade em sua vida monótona, um desejo íntimo de finalmente partir da vida e descansar, poder ele mesmo florescer num jardim e ter a alegria lhe regando o espírito. Mas, não, não poderia. Era verdade, só poderia ser. Como se fosse ontem, Simeão podia reconhecer aquela sensação em si tal como no dia em que recebeu a revelação que o sustentara até aquele instante.

As lembranças do passado se misturavam às daquela manhã quando o silêncio no interior do templo foi interrompido. Simeão despertou. O som cada vez mais alto de sandálias arrastando pelo chão denunciava que pessoas se aproximavam, chegando pelo corredor de entrada do templo. O velho sentiu sua espinha gelar. Num instante, o coração martelava em seu peito, as mãos suavam, a boca seca mal o deixava engolir. Ele sabia, Ele vinha.

Se havia algo em que Simeão jamais havia parado para refletir era na aparência do Cristo. A medida que os passos se achegavam, tentou construir para si a imagem. Em vão. Não era possível pensar qualquer coisa num momento iminente. Ele se pôs em pé, concentrou o olhar na entrada, começou a caminhar na direção da porta, titubeou, parou, coçou a barba, respirou fundo, ajeitou-se e, tal como se acostumou a fazer durante toda a vida, Simeão esperou.

O interior do templo era escuro e, olhando contra a claridade que vinha da porta, o velho não conseguia distinguir as pessoas que se aproximavam por detrás da luz. Quando finalmente seus olhos pequenos conseguiram se abrir, identificou um casal que chegava com um bebê nos braços, envolto num monte de panos.

Um misto de decepção e dúvida o arrebatou. Não, por Deus!, ainda não era o Messias que vinha bradando a libertação de Israel, cercado por uma multidão de anjos, trazendo a consolação para seu povo, redimindo os judeus dos pecados, do passado, da condenação eterna e trazendo, finalmente, a glória divina para a humanidade.

Eram apenas camponeses. Aproximaram-se com dúvidas, nem sabiam ao certo como deveriam proceder, vinham da Galileia e queriam apresentar seu filho homem, o primogênito, tal como mandava a tradição.

“Vocês precisam procurar o…”. Simeão sabia mas, seus olhos, o pensamento, a dúvida, como era possível? Era o dia, afinal? E a promessa? Ele sabia que o Espírito havia lhe revelado uma verdade, mas e agora? Onde ele estava? Como seria? A essa hora, tudo isso, essa família aqui…

“Bom, acho que posso ajudar. Deixe-me ver a criança”.

A mãe desenrolou os muitos panos que protegiam o menino e o pai o tomou no colo para mostrar ao velho homem.

Quando viu a criança, Simeão pensou por um instante que suas pernas não aguentariam o próprio peso. De repente, sentiu amolecer cada músculo rígido de seu pequeno corpo, seus lábios se moviam como num espasmo, sentiu inundar seu interior com um calor que, naquele momento, dissipava toda sombra de dúvida, a garganta presa, a promessa se cumprindo finalmente, a tempestade de sentimentos que brotava de suas entranhas e se convertiam em riso, em assombro, em paixão, em temor, em louvor, em lágrimas.

Simeão estendeu os braços e segurou a criança. Chegou a pensar que não seria capaz, mas num fôlego o ergueu acima de si e desabou a confissão que represara em seu coração por toda a vida:

“Ó Soberano, como prometeste, agora podes despedir em paz o teu servo. Pois os meus olhos já viram a tua salvação, que preparaste à vista de todos os povos: luz para revelação aos gentios e para a glória de Israel, teu povo”.

Os pais assistiam a cena admirados. E o homem envolveu nos braços aquele a quem gostaria de se entregar, agarrou junto ao peito o pequeno bebê a quem pensou prestar culto. A sua vida enfim estava completa, a promessa se cumpriu. Seus lábios exclamavam adoração ao Pai, seus braços embalavam o Filho de Deus. Era só um menino. Inocente, frágil, silencioso, o Rei de Israel chegou, o Deus vivo rasgou a eternidade e agora estava entre os homens. E seu nome… seu nome é Salvador, redentor, Deus Poderoso, Maravilhoso Conselheiro, Pai Eterno, Príncipe da Paz.

“O nome dele é Jesus”, disse o pai.

Um amante de todos

Nenhuma aridez – salvo as que se aleitavam muito naturalmente no solo palestino. Nenhuma palavra escrita – salvo as que se danaram na ingovernável dança das areias. Aos olhos do Carpinteiro – e creio não ser demasiado lembrar – Deus não se explicava em sistemas ou teologias, em abstrações refinadas e conceitos áridos. Não era um objeto oculto cujo desvendamento exigia muito esforço e algum privilégio – qual queriam os fariseus, e qual ansiaram os gnósticos. E se ao sol não é dado desvelar novidades, como ainda querem os paladinos das ideias corretas.

Se Deus se deixar ver na aridez, será na aridez bastante concreta do deserto. Se conceder encontros consigo nas palavras, serão naquelas infectadas por essa doença do verbo a que chamam poesia – essa doença do Verbo a que chamam Encarnação. Em Jesus, Deus se revela na hora miraculosa da mesa – quando o pão se parte; se exibe desvestido no coito do arado com a terra. Bebendo nas águas da poesia judaica, Jesus fornece-nos a vívida imagem de um Deus cavalheiro, que isca os mais rudes corações com seus engenhos trovadorescos. Um noivo – um prodigioso amante – e o que é mais inconcebível: um amante de todos; mas só por ser, antes, um amante de cada um.

No universo do crente o ouro é o credo. Soada a trombeta, restará como moeda única (aqueles para quem tudo se resume aos mandamentos e ao seu estrito cumprimento, na economia da lei, são os bem-aventurados que herdarão o Reino). O Filho do Homem solicita a palavra e nos previne, não sem gentileza, com uma ressalva que é a suma de sua boa notícia: no universo dos amantes o ouro é outro – e aquele, o ouro dos crentes, é ruidosa palha, é som e fúria.

O Verbo se faz Carne. A prosa acata dolorosamente as setas da poesia. Em ato dramático, o amante abandona tronos e coroas e privilégios a fim de abraçar a condição plebeia da amada – e assim fitá-la nos olhos. Em ato de suprema mesura, o amante torna-se fabricante de móveis, admirador de lírios, e promete a instauração de seu Reino Eterno na terra onde rasteja a relha e onde o corpo lampeja – na terra dos mil e um desejos.

A eternamente mal compreendida cortesia da graça é também essa: a de não exigir da camponesa que escape de sua condição e se adapte aos modos severos da corte; a de não estabelecer, entre a camponesa e as delícias do Reino, obstáculos cuja transposição exigiriam da pobre jovem uma fuga de si mesma.

A cortesia da graça veio liberar os homens de serem deuses; liberá-los para um encontro com Deus na democrática liturgia da vida, onde as hierarquias não imperam e onde os paramentos revelam-se obsoletos. O Verbo se fez Carne a fim de que a carne não sangrasse e fizesse sangrar no disparatado intento de se fazer Verbo.

(por Alysson Amorim, em Amarelo Fosco)

Fonte:  A bacia das Almas

Fé e resistência

Jesus é a sua força. E a fé, sua resistência.
A Bíblia é o seu guia. E o Espírito, seu conforto.
Esteja firme.

-LHM

Um Deus, diversos cultos

por Luiz Henrique Matos

“Irmão! Você diz que há uma só maneira de adorar e servir ao Grande Espírito. Se há somente uma religião, por que os brancos discordam tanto sobre ela? Por que não estão todos de acordo, uma vez que vocês todos sabem ler o livro? […]” (Jaqueta Vermelha, índio Sêneca, 1756-1830).

Atrevo-me a concordar com o Jaqueta Vermelha – ainda que esse me pareça mais o apelido de um motociclista do que nome de líder indígena – e fixo o pensamento especialmente sobre um detalhe: existe apenas um Deus, mas são muitas as formas de culto.

E se tivéssemos isso em mente, aprenderíamos a respeitar e não julgar a busca individual de cada um e as diferentes comunidades que se reúnem para cultuar a Deus – isso vale, num primeiro nível, para outras denominações cristãs e, em outro aspecto mais profundo, a outras culturas e religiões que ignoramos.

É importante ter isso em vista também ao pensarmos no conceito de “salvação” e nas diferentes iniciativas de evangelização entre os cristãos. Cientes de que Deus é um só, mas que são inúmeros os jeitos de nos relacionarmos com ele, deveríamos nos dar conta de que a forma ou o procedimento são muito superficiais e que central é apresentar o Deus único e verdadeiro tal como ele é.

Precisamos nos preocupar mais em falar sobre o “quem” (Deus) às pessoas – é isso, no fundo, que todo ser humano procura e precisa, conscientemente ou não – do que “como”, “por quê” e “onde” que são as imposições da religião. Estamos ligados demais nos assuntos periféricos da fé e nos esquecemos do ponto central, a essência, que é o próprio Deus.

E ele se revela integralmente na pessoa de Jesus Cristo. Ele é a face de Deus que devemos pregar e refletir. Seu caráter, seu amor, sentimentos, palavras, sua história de vida, morte e ressurreição. Isso é fundamentalmente mais importante do que meia-dúzia de passos para a salvação ou as dez regras básicas de sei-lá-o-quê que as igrejas forçam em seus estatutos – essa é a cegueira farisaica da qual Jesus tentou nos curar.

Jesus Cristo é o centro, o caminho, a verdade e a vida. Se formos como ele, as pessoas serão atraídas por ele.

“No essencial, unidade; Nas opiniões, liberdade; Em todas as coisas, o amor.” (Rupertus Maldenius).

Por uma fé simples e uma vida cheia do Espírito

por Luiz Henrique Matos
O nome é de livro pentecostal :) mas esse é mais um da série de estudos e sermões que venho postando por aqui há uns meses (eu não faria o desfavor de colar o texto na íntegra).

“Por uma fé simples e uma vida cheia do Espírito” foi a mensagem que ministrei a um grupo de jovens na cidade de Itapeva (SP) no último dia 30 de maio.

Clique para baixar: Por uma fé simples e uma vida cheia do Espírito

Boa leitura. E depois me diga o que achou.

(foto no Flickr de Peter from Wellington)

Liberdade

por Luiz Henrique Matos

O mundo não entende. As pessoas julgam que o render-se a Cristo as aprisionará a uma espécie de doutrina que regerá suas vidas e lhes podará as escolhas. Mas esse é o grande engano, porque a verdade está justamente no oposto, no fato de que só em Jesus Cristo é que podemos desfrutar a plena liberdade que nos livra da escravidão em que vivemos.

Ele é a liberdade, o amor, a esperança, a paz, o caminho, a verdade e a vida que nossas almas anseiam. E Deus “humaniza” seu plano em seu filho para que possamos compreender o quanto esse amor é real e essa vida é possível. Deus resolve viver na Terra para mostrar na imagem da nossa visão tão limitada, seu plano e seu sentimento. E sua crucificação é a prova do preço que está disposto a pagar para resgatar esse relacionamento e, se assim concordarmos, dar-nos a liberdade eterna e poder nos chamar de filhos.

Afinal, quando alguém morre no lugar de outra pessoa, o objetivo só pode ser o de salvar sua vida.

Música para os meus ouvidos

por Luiz Henrique Matos

Ela tem dois olhos bem redondos, castanhos e quase sempre animados enquanto se concentram em alguma atividade. São esses olhinhos, muitas vezes, a primeira coisa que vejo no dia, bem de perto, quando acordo e ela já está ali na cama, quietinha, esperando. E abre um sorriso, com seus cinco dentes na boca, os olhinhos ainda inchados, as bochechas coradas e os dedos que me cutucam os olhos quando eu ouso fechá-los na tentativa de dormir mais um pouco, uns cinco minutos. Mas não dá, é irresistível. Ela está ali, com a testa colada na minha, respirando no meu rosto, me encarando, animada para começar o dia.

São os olhos espertos que me sondam pelo espelho, enquanto faço a barba no banheiro (“ué, que negócio é esse na cara dele?”, acho que ela pensa). Olhos atentos que me enxergam de longe no supermercado e eu a vejo estender a mão, me chamando para perto. São os olhos vagos semi-cerrados que pedem colo, lá pelas tantas da noite, quando ela já não resiste ao sono. Os mesmos que, cheios de lágrimas, pedem socorro depois do seu fracasso (leia-se: tombo) na tentativa de escalar algum móvel na sala. É o olhar brilhante, vivo, rodeado por aqueles cilhos compridos, o rosto gorducho e a boquinha rosada. É a sensação incrível de ver aquela pessoinha correr estabanada na minha direção ao me ver chegar em casa.

Fiquei mal acostumado. Eu diria: bem acostumado. Minha esposa iria falar que eu sou é carente mesmo. Mas o fato é que todos os dias espero por isso. Chego do escritório e, enquanto subo pelo elevador do prédio, já ajeito os papéis sob o braço e a alça da pasta sobre o ombro para abrir a porta de casa e esperar que ela venha.

Essa é das coisas mais rotineiras, eu bem sei. Sempre achei um clichê, gesto enfadonho, momentos estereotipados nos comerciais, a cena do pai ajoelhado, gravata frouxa no colarinho, sorriso estampado no rosto e braços abertos, esperando o filho que corre para se achegar em seus braços. O fato é que é exatamente assim que acontece. E eu me rendo ao rótulo que se quiser dar a isso e digo, a bem da verdade, é dos momentos que mais espero no dia.

E numa dessas “feiras” das quais se fazem os dias não ociosos da semana aconteceu, como sempre. Todo o ritual se repetiu, do elevador à porta de casa, do tilintar da chave na fechadura aos ruídos dela se movimentando na sala, do ranger da dobradiça enquanto a porta se abria (que agora lembrei ainda não cuidei de arrumar) aos primeiros sons da sola do meu sapato pisando no corredor da sala, do “quem chegô?” dito pela minha esposa ao afrouxar da gravata no colarinho. E foi ali, ao topar de frente com minha menininha correndo que ouvi:

– Papa!

Ela falou!

Saiu em disparada do sofá, as bochechinhas tremendo, os passos concentrados na minha direção. Em disparada, meu peito acelerava na sensação única de ver meu fruto me olhar nos olhos e dizer meu nome – ou a palavra mais simples que signifique essa condição paterna.

– Papapapapapapa… papa!

– Oi Nina!

Ela falou para mim. E se me pedisse o mundo naquela hora eu lhe daria (sabe como é, financiamentos bancários já não são tão difíceis de se conseguir ultimamente).

Eu olhava para aquela coisinha, que ainda precisa de mim para qualquer de suas necessidades básicas de sobrevivência e tinha consciência de que, naquele instante, ela era dona do meu coração. Seus olhinhos redondos brilhavam e o rosto sorridente me perseguia.

Duas silabas elementares no vocabulário de qualquer ser humano com mais de 6 anos, mas que a julgar de onde vinham, tornavam todas as outras coisas menos importantes por um momento. Era o melhor dos elogios que eu podia ter ouvido nesses dias.

Sim – respondendo a uma pergunta que talvez você não tenha feito –, ela já havia falado outras coisas antes. Disse “mamã” para chamar aquela que é justa merecedora da primeira fala. E disse “kissss”, para chamar a nada merecedora cachorrinha no quintal da casa da minha sogra, enquanto fingia estalar os dedos.

(Eu estava em terceiro lugar nessa fila, mas quem se importa com o detalhe de que antes de me chamar ela tenha aprendido a correr atrás de uma poodle que não lhe dá a menor atenção e que ela só vê uma vez por mês? Quem liga? Hein? E estalar os dedos! Hein?!?)

E aquela voz admirada se dirigindo a mim soava como expressão de louvor. Era ela, minha cria, aprendendo uma coisa nova e se expressando para mim. Orgulho, corujice, satisfação, amor, coração mole, euforia, puro exagero. Sim, a mãe dela tem razão, sou meio carente.

Aquela voz, o resmungo, o chorinho pelo qual eu largo tudo e lhe volto minha atenção. Deixo trabalho, abandono um livro aberto sobre a mesa, largo as tarefas por fazer, deixo o feijão esfriar no prato, desligo o futebolzinho na TV. Abandono a mais importante das prioridades, porque meu pequeno fruto precisa de mim. Eu nunca imaginei que seria assim, mas o coração de pai renuncia de si em favor do seu sangue que corre naquelas frágeis veias.

E ainda agora, alguns meses depois, aquela vozinha mínima me chamando ainda é capaz de me mover. E fico pensando que vai ser assim a vida toda. Se ela chama, eu vou. Se estou deitado, me levanto. Se ela diz algo, respondo. Se ela chora, eu acordo. Se ela pede, invariavelmente, eu dou.

Ela é filha, eu sou pai. E quando ouvimos a voz da nossa própria carne nos chamando, que pai não pára e se curva para ouvir, responder, atender ao pedido de um filho?

Quem resiste?

Nenhum pai. Nem o Pai.