Páscoa

Ver o filho de Deus morto numa cruz subverte a lógica da fé num Deus todo poderoso.

Ver o túmulo vazio e o Cristo ressurreto converte a dor em riso, a morte em vida, o fim em principio.

Ver Jesus vivo, refletido em crianças, idosos, homens e mulheres revela o Deus Pai, amoroso e presente.

O amor renasce a cada dia.

Feliz Páscoa!

Ela ainda cabe no meu colo

por Luiz Henrique Matos

No próximo fim de semana ela fará quatro anos. Eu posso jurar que nunca imaginei esse momento da vida dela chegando. Crianças de quatro anos para mim costumavam parecer grandes demais perto do frágil bebê que eu carregava nos braços por aí. Mas agora eu tenho uma menina em casa, a cada dia com mais jeitos, vestidos, vontades, brilhos e argumentos, mandando em mim desde o princípio das eras, tal qual a mãe – e antes que a coisa esquente por aqui, reconheço que obedeço satisfeito a ambas.

De um modo inexplicavelmente rápido e fora de controle, as coisas foram acontecendo. Ainda há pouco éramos um casal de namorados decidindo sobre o cinema de sexta, o curso na faculdade, a data do noivado, o bairro onde morar, o nome do bebê, a maternidade onde ela nasceria… vivíamos momentos tão diferentes em nossas vidas. Hoje, mal conseguimos lembrar o que era viver – ou que graça poderia ter uma casa – sem um filho por perto.

Toda a rotina quadrada se tornou plena em si. E o cotidiano de pai de família que poderia talvez parecer a alguém o resigno de um sujeito acomodado, se tornou para mim a maior conquista a que eu poderia ter acesso. Em geral, são nesses preciosos momentos, que esse mesmo alguém poderia chamar de comuns, que se pode observar a beleza inesquecível de certos detalhes. Aquele tipo de coisa rara que, enquanto acontece você já sabe que jamais esquecerá.

Estou vendo TV ou lendo algo no sofá quando percebo que ela vem lá do quarto pelo corredor cantarolando e pulando (se tem algo que os livros e o Google não explicam mas que é uma espécie de lei natural na formação das crianças é que, antes de aprender a andar civilizadamente, lá pelos 17 anos, elas praticamente só se locomovem pulando ou correndo). Então, ela surge na sala rodopiando e plana como uma bailarina por sobre o piso de madeira. E dançando, com caras, bocas, tropeços e poses, enche de graça toda uma semana. A mãe, aluna de balé durante a infância, se encanta e ensina o “pli-ê, es-tica” por algumas horas. Eu, aspirante a Carlinhos de Jesus, balanço a cabeça fora de ritmo e babo em minha pequena cria.

Eu a chamo de “bailanina”.

Se ela pudesse, passaria os dias vestida com aquele colan cor-de-rosa, o par de sapatilhas, o tutú rodado e o cabelinho penteado em coque.

E se tem uma coisa que mexe comigo, é que eu amo essa espontaneidade dela, o mundo maravilhoso, infantil e imaginário que constrói e me convida para participar quando estou por perto. Posso observar seu olhar curioso, a descoberta de algo novo e, nessas horas, eu gostaria que ela soubesse o quanto isso é precioso, o quanto sua dança tão pura é capaz de mover, que um mundo inteiro gira ao ritmo dessa beleza frágil, pequena e atrapalhada.

Seus passos. Aos saltos, ela atravessa a sala e os anos.

Já faz um tempo, estávamos viajando em família quando entramos no elevador de uma loja. A Nina dormia no meu colo, a Manú a cobria com um casaco e uma senhora nos observava, sorrindo com um jeito meio melancólico, até que disse: “E na próxima semana ela fará 20 anos”.

Eu sei, no duro, que um dia a fantasia vai acabar. Logo, ela terá mais papéis a cumprir, assumirá compromissos, responsabilidades… e essa essência, o que a formou de fato, será uma lembrança na rotina apressada. Logo, ela vai se dar conta que entre milhares de defeitos, seu pai também não dança como o Baryshnikov, não tem respostas para todas as questões da humanidade e é mais baixo e fraco do que ela pensou quando pequena. E então, eu já não serei mais “o cara”, o príncipe, o homem com quem ela quer se casar e que sempre a socorre quando ninguém mais consegue.

Talvez Deus também tenha esse tipo de sentimento em relação a nós. No dia em que vai embora toda aquela espontaneidade de criança, seu coração deve apertar. Vamos costurando nossas complexas teias de problemas, relacionamentos, trabalho, família, círculos sociais e, de repente, o tempo se torna nosso recurso mais escasso. Mergulhamos na rotina e depois nos debatemos para tentar entender onde foi que erramos. Então saímos a procura de algo que nos preencha, buscamos um tipo de felicidade e simplicidade que parece inatingível mas que, de alguma forma, também pareceu tão real e próxima um dia.

Acho que Deus observa tudo isso e procura formas de nos convidar para voltar. “Dance”, ele deve dizer. Nós mudamos nossa visão de mundo, mas Deus não muda sua visão sobre nós. E nós insistimos em pensar que o ser humano se lança eternamente numa busca pessoal por Deus, mas o que as escrituras nos contam é sobre a história de Deus, o Pai incansável, em busca do homem.

Ela será sempre uma menininha para mim.

E eu gostaria que ela soubesse, um dia, que independentemente das escolhas que faça e da mulher que se torne, que ela sempre poderá encher um pai de alegria com sua presença. Que não importa sua estatura ou idade, haverá um colo e dois braços onde se abrigar. Talvez eu não tenha conselhos sábios ou as respostas para todas as questões da humanidade, mas eu vou tentar acompanhá-la numa dança.

Já faz alguns dias, estávamos chegando numa festa de aniversário e ela ainda dormia em meu colo. Ficou um tempo naquele estado confuso, ainda acordando e eu, meio sem jeito, segui cumprimentando as pessoas. Um sujeito veio até mim, estendeu a mão educadamente e em seguida resolveu fazer um gracejo:

– Ei, mocinha, você não acha que já está grande demais para ficar no colo?

Sonolenta, ela só meneou a cabeça. Eu nada disse, apenas sorri, olhei para o homem e desejei no íntimo: “Espero que não… tomara que nunca esteja.”

Eu espero. Sento-me no sofá, no mesmo canto de sempre, de onde assisto TV, leio sob a luz e olho a cidade pela janela. No silêncio, eu alimento minha expectativa, eu aguardo o barulho dos passos, tento ouvir sua voz de menina ao fundo e ver surgir pelo corredor os saltos da minha bailarina.

Que tenha música, que seja com festa, que Deus a preencha e o amor a inspire em cada pequeno passo. Que a vida a contemple.


(Esse texto faz parte da série Paternidade)

Caminhada

por Luiz Henrique Matos

Nas últimas semanas tenho vivido uma experiência que não experimentava há muito tempo: caminhar. Não falo de caminhadas como atividades físicas – que, a propósito, também não faço com a assiduidade que deveria – mas como meio de locomoção básico e fundamental entre minha casa e o escritório.

Devo dizer que não tem sido um ato voluntário. Meu carro está na oficina e meio que aproveitando a situação atípica, resolvi que faria todo trajeto que fosse possível andando.

No fim, noto que tem sido bom. Tirando um ou outro desconforto com o qual eu já não estava habituado – tipo dores nas panturrilhas, pessoas me apertando no trem e a multiplicidade de odores se misturando no ambiente – tenho gostado desses momentos. Em 20 dias a pé, já notei algum avanço físico. Venho me pesando com freqüência e, pelas contas, perdi cerca de 300 gramas. É praticamente a porção de queijo prato fatiado que compro na padaria.

Eu poderia arriscar aqui uma seqüência de metáforas entre a caminhada e a vida (é incrível como é frutífero pensar nesses clichês, posso imaginar uma série deles), mas isso seria muito lugar-comum e acho que vou te poupar disso. Acho.

O que tem sido interessante, principalmente, é a oportunidade de ficar em silêncio e poder me concentrar em uma única atividade durante um tempo. É fato que o período da caminhada não pode ser abreviado, existe uma distância a ser percorrida, eu tenho um limite de velocidade na minha passada e então não há muito que se possa fazer senão ligar a música, colocar um pé na frente do outro e seguir em frente.

Bom, parece meio idiota, mas para alguém que passa a maior parte do dia entretido com uma dezena de atividades simultâneas, isso é um bom exercício de foco. No mais, o que me resta é gastar esses minutos pensando e observando o cenário ao redor.

E acho que posso dividir as coisas dessa forma:

Um: Pensar

O que poderia ser um exercício de auto-conhecimento está sendo, na verdade, a parte menos produtiva da história toda. Eu costumava acreditar que teria oportunidade para meditar e refletir sobre a vida. Pensei que faria minhas orações e tomaria decisões importantes nesse tempo de quietude. Mas tem sido um tanto frustrante por esse ponto. Eu mal começo a considerar alguma situação específica e numa fração de tempo minha mente entra num vazio completo. Quando desperto desse estado, não faço a menor idéia do que se passou, penso em três milhões de coisas e nada que possa reter, é como se o cérebro entrasse em hibernação.

Comecei a ficar preocupado. Até que peguei um livro do escritor Haruki Murakami em que ele comenta sobre o que se passa em sua mente enquanto treina corrida: nada. Ele chama isso de vácuo. E saber que alguém também sofre do mesmo mal é algum consolo, principalmente porque ele é japonês e esses caras japoneses costumam ser bem focados. Mas, por outro lado, ele tem 60 anos, corre 10 quilômetros e nada 1500 metros todos os dias. Nem que eu fosse o Secretário Geral das Nações Unidas acho que conseguiria pensar em coisas produtivas por tanto tempo.

Dois: Observar

Se a reflexão tem sido frustrante, acho que um hábito meio vergonhoso que adquiri tem uma parte de responsabilidade nisso: é a mania de ficar olhando para as pessoas e tentar imaginar a vida que levam. Entenda, não é nenhum julgamento preconceituoso. É que nas ruas, você cruza com todo tipo de gente, fica perto de uma porção de desconhecidos e acaba sendo inevitável ceder à curiosidade de criar personagens a partir desse tipo de suposição.

Se me permite…

Tem um homem, ele trabalha como gari e varre a calçada de uma avenida por onde passa gente e carro sem parar. Eu o vejo quase todos os dias, tem a pele escura, um ou dois dentes faltando no sorriso, bigode ralo, vassoura nas mãos e o uniforme de cor laranja berrante. Ele é nordestino. Fico tentando imaginar as circunstâncias que o trouxeram para o Sudeste. O que será que ele pensa sobre o próprio ofício? Entenda, varrer o pó de uma avenida em São Paulo é algo como enxugar gelo na praia e ele faz isso por oito horas, diariamente. Penso então que quando acaba o expediente, ele toma um banho, troca de roupa e segue para sua casa onde deve ser o herói de alguns garotos. A esposa e os filhos estão esperando em casa pelo pai que chega, já à noite, cansado do dia na rua. Faz sua refeição, checa a lição de casa do mais velho, assiste a novela com a patroa e dorme em paz num quarto bem pequeno. Esse homem deve jogar um futebol com seus meninos no sábado a tarde. Pode ser que ele ligue para os parentes em sua cidade natal de vez em quando, pode ser que sonhe ganhar a vida na cidade para juntar algum dinheiro e voltar para sua terra um dia.

Teve um casal. Ambos desajeitados, brancos, extremamente altos e um pouco obesos. Andavam bem rápido. Eu os vi descendo a rua desde lá de cima, com as mãos dadas e dedos entrelaçados, conversavam animadamente e a toda hora os olhares se cruzavam e sorriam. Deviam namorar há poucas semanas. Pareciam tímidos. E pensei que possivelmente estiveram apaixonados por um tempo antes de se declararem. Deviam trabalhar no mesmo escritório, mas não tinham coragem de se convidar para um café, até que um dia ele mandou o MP3 de uma canção do Elvis Costello para ela por e-mail e foi aí que as coisas começaram. Estavam apressados para ir ao cinema ver qualquer filme em cartaz. Eles ficarão noivos daqui um tempo, farão uma viagem pela Irlanda quando casarem, demorarão para ter filhos, mas quando vierem, ela vai largar o trabalho para se dedicar à casa.

E tinha também uma mulher e sua filha. Eu as vi sentadas num vagão de trem meio vazio numa manhã de terça-feira. A menina de cabelo cacheado, comportada, bonita, banho recém tomado. Tinha aquele olhar inocente, devia ter sete ou oito anos. Carregava sua boneca num braço e a própria mochila sobre o colo, porque a mãe já levava uma carga pesada demais. As sacolas de compras, uma mala, as blusas para caso esfriasse, um guarda-chuva. Ela tinha o olhar cansado, olhava ao redor procurando uma resposta. Queria entender porquê tudo isso com ela, porquê ele foi embora depois de tantas promessas, sempre queria, mas já havia se conformado. Aquela era a vida, que a menina aprendesse e não precisasse passar pelo mesmo. Era assim que ela demonstrava seu afeto. Essa era sua luta diária, sua esperança e sua busca. Ela queria acreditar que tinha um destino naquele trajeto.

É assim que eu gasto meu tempo. Meu rico tempo que deveria ser rico e cheio de meditações, veja você. Mas por favor, entenda, não quero fazer julgamentos e nem acho que esteja em posição para isso. Por isso, me constranjo. Fico encabulado porque acho que é bem possível que alguém pense esse tipo de coisa de mim também. Tenho isso como algo certo. E, sabe, se as pessoas tiverem essa mesma mania, eu devo ser um alvo bem estranho. Eu penso um pouco nisso. Se alguém fica curioso olhando para um sujeito como eu, o que deve pensar? Aí começam as neuras todas.

Geralmente, quando minha mente chega nesse ponto, é o momento em que percebo o quão improdutivo é o tal do estado de vazio em que me afundo. Esse é o limite. E eu penso: sério mesmo, Henrique? Com tantos problemas para resolver e tanta coisa importante em que se concentrar, você está mesmo pensando nisso agora? E aí então o ciclo recomeça.

* * *

Tem sido assim em todos esses dias. Na ida e na volta do trabalho, nos deslocamentos até um comércio ou a oficina para acompanhar o conserto do carro. Vou andando. Minha rotina foi sensivelmente alterada e isso tem tido algum efeito benéfico sobre mim.

O trecho mais longo da caminhada é na volta para casa. Desço numa estação de trem das proximidades e caminho por pouco mais de 40 minutos até abrir a porta da sala. Dou de cara com as duas expressões risonhas e os beijos capazes de restaurar o cansaço da maratona. É nesse instante exato que o tal vazio da mente se preenche com a razão da existência do homem – esse homem, pelo menos. Em um minuto assim, um minuto que qualquer sujeito vive, pensei certo dia que se alguém com quem cruzei pela rua fizesse mesmo de mim algum julgamento, se quisesse encontrar um adjetivo para me definir, poderia ter uma palavra em mente: afortunado.

É uma boa palavra. É a minha riqueza. É um lugar-comum, eu sei. Mas é um bom caminho para se percorrer todos os dias.

Reunião de pais

por Luiz Henrique Matos

Na semana passada, fui à minha primeira reunião de pais como pai. É bem estranho isso. Já sou pai há um tempo, mas ainda parece que a reunião de pais e mestres é algo em que minha mãe deveria comparecer e não eu. E por motivos que não vem ao caso agora, eu costumava ter um pouco de medo desses eventos quando era garoto.

Mas agora as coisas são diferentes. No mês que vem eu faço 30 anos e preciso amadurecer. Eu lembro do meu pai quando ele tinha essa idade. Já tínhamos uma casa, um carro bacana e ele usava um bigode igual ao do Magnum. No meu aniversário, acho que vou deixar crescer o bigode.

Naquela manhã, a Manú tinha um compromisso importante e acabou que fui até a escola, me fazendo de desinteressado, mas curioso até as últimas para saber o que a Tia Mariza iria me contar sobre a Nina.

Gastei menos de uma meia-hora na sala de aula, sentado numa cadeirinha de uns 10 centímetros de altura, preenchendo formulários e vendo os trabalhos da classe. Até que a professora me chamou. Eu achei que ouviria uma porção de novidades sobre minha filha e que finalmente descobriria o que os professores tanto falam para os pais nessas reuniões bimestrais, mas não tinha nada demais. Por esse ponto, foi meio decepcionante. Nenhuma confidência, nada de conspirações ou planos arquitetados. No fim, a reunião de pais e mestres é só uma reunião entre pais e mestres.

E a única coisa que ouvi sobre minha filha é que ela é sociável, gosta de cantar e dançar, de ouvir histórias e gasta um tempão desenhando, concentrada nas cores e no papel. “É essa coisa da imaginação, da mente do artista que as crianças tem”, definiu a Tia Mariza.

Saí de lá sem novidades pra contar. Nossa Nina é na escola exatamente como é em casa.

Nem digo como isso é algo confortável de se ouvir. Entenda, o período que minha filha passa no colégio é o único tempo em que ela está fora do meu “controle”. Não que ela esteja, de fato, em algum minuto, mas você sabe o que eu quero dizer. Ali, longe do meu olhar, ela é livre para não ser como eu peço que seja quando está ao meu lado. Distante das asas que os cobrem, filhos podem ser como bem entenderem. E o que são, suas atitudes livres, define de certa forma o seu caráter.

São princípios, como costumo insistir em outras conversas. O que o filho aprende do pai, pratica na vida.

Quando a Manú estava grávida, nos matriculamos num curso de educação de filhos. É verdade que hoje não me lembro de muita coisa do que aprendemos ali, mas foi importante na ocasião. Lembro de uma aula em especial, quando o professor nos disse que “os filhos são como uma folha em branco e cabe aos pais preencher esse espaço com as verdades em que acreditam para a formação do caráter da criança”. Não bastasse isso já ser apavorante o suficiente, ele ainda completou: “o espaço que vocês não preencherem, o mundo preencherá”. E eu tenho perdido algumas horas de sono com esse negócio desde então.

Minha filha, uma folha em branco, um lápis na mão e fiquei imaginando que ela seria uma história que a Manú e eu precisaríamos escrever. Pelo menos as primeiras linhas, pelo menos algo que registre os princípios e tenha algo bom para contar, um estilo, estrutura, forma, conteúdo… Mas não, eu não consigo. Não tenho o direito de determinar o que será sua vida. Acho que posso ajudá-la a descobrir. Talvez apontar um caminho, contar algumas experiências, mas é ela, essencialmente, quem vai escolher que direção tomar.

“Você pode pegar as obras de arte da Nina e levar, está bem? Olha aquela ali que bonita”. A professora apontou para os desenhos fixados na parede. Procurei pelas pinturas que tinham o nome dela assinado, recolhi uma a uma, juntei num envelope grande e, meio sem jeito, coloquei na mochila.

Caminhei da escola até a estação de trem e, no caminho, pensava nessa história toda e mantinha a postura e os passos alinhados, com medo de que qualquer tropeço ou distração pudesse pôr em risco aquelas cartolinas desenhadas. Eu ia carregando os desenhos como um troféu, exibia as pontas das folhas coloridas que ficaram pra fora da bolsa como medalhas, uma jóia, me sentindo o Frodo levando o anel precioso.

Não os criamos para nós mesmos, isso é bem difícil de admitir. E acredito que parte da beleza da criação e da escolha de Deus em nos fazer como somos, seja justamente essa liberdade assustadora que às vezes faz a gente querer correr por aí só para sentir o vento no rosto e, em outras horas, voltar rápido para o aconchego dos braços do nosso Pai. Sabe, essas coisas. Precisamos do Pai para nos dar direções, mas acho que seu amor é tão grande que ele não se mete nas nossas decisões sem ser consultado. Ele confia que vamos fazer as escolhas certas com aquilo que aprendemos por caminhar ao seu lado.

Os filhos refletem o caráter daquele que os criou. O que vemos em casa, define em muito o que somos. Daí a importância de se ter para onde voltar. Daí a importância de se ler menos esses manuais de educação de filhos e um pouco mais as histórias que os encantam.

Eu queria ser um pouco assim para minha filha. Isso eu tento aprender. Eu queria ser um filho que faz as coisas certas para ser um pai decente para a Nina. Percorro de volta essa distância para tentar espelhar sabedoria e caráter. Eu costumo pedir a Deus que, se possível, sejam corrigidos os traços imperfeitos que tenho e que ele me deixe apresentável para minha família, para ser um bom pai, para ser divertido, para ser o seu par numa brincadeira, num baile, na entrada da igreja, na caminhada até Cristo. Até que se abra uma trilha que ela percorra sozinha, nos passos que determinar para si, mas lembrando sempre – aí eu torço – o caminho de volta sempre que for preciso. Eu estarei aqui.

Não tem muito que eu possa fazer, a tal da folha em branco. Não é tanto o que faço, mas quem eu sou que vai influenciá-la. Só espero que ela não use um bigode.

Pode ser que eu faça alguns traços, pode ser que eu registre um pequeno conto ou pinte um desenho para ela se lembrar. Pode ser que eu escreva textos assim. Mas serão sempre coisas bem pequenas, discretas mesmo. Eu quero é deixar espaço para que Deus reflita nela a sua beleza, a inspire e ela trace, a seu modo, a história que quiser contar.


Esse texto faz parte da série Paternidade.

A ilustração foi tirada do livro “O homem que amava caixas” de Stephen Michael King.

Reinos, princesas e castelos de Lego

por Luiz Henrique Matos

Outra noite, fiquei sozinho em casa com a Nina. Comemos juntos, dei banho nela, pus o pijama e brincamos um pouco sentados no chão da sala – só um pouco mesmo, até eu perceber que existem dois ossinhos nos quadris que não pareciam estar ali até pouco tempo. Na hora de dormir, como de costume, eu contaria algumas histórias. E para a Nina, esse costuma ser o ápice do dia.

Mas para marcar nosso tempo de pai e filha, confabulei uma idéia, dessas que a gente só tem quando sabe que não tem ninguém por perto para repreender: “Filha, já sei! Vamos colocar um colchão aqui na sala e montar sua barraquinha… aí depois a gente trás as cobertas, travesseiros e dormimos lá dentro. Que tal?”

É engraçado como crianças gostam dessas idéias fantasiosas. Para ela, aquilo não era só uma bagunça autorizada na sala, nós estávamos mesmo construindo um castelo. Entre lápis de cor, livros e peças de Lego espalhadas, edificamos o nosso pequeno reino, definimos as regras e vivemos uma aventura.

E o projeto até que correu bem. A exceção se deu por minha tentativa de entrar, deitar e me manter minimamente confortável numa barraca cor-de-rosa de um metro quadrado. Puxa, eu torcia para ela dormir logo e eu poder evitar os sérios danos que aquilo estava causando à minha coluna. Onde eu estava com a cabeça?

Ela gostou, mas na hora de dormir, se mexia de um lado pro outro, virava, chutava as paredes do castelo, me deu uma cotovelada, até que: “Papai, eu não quero dormir aqui! Eu quero ir pro meu quarto e dormir na minha caminha e tomar um leitinho e pôr o cobertor quentinho!”.

E assim, percebendo que minha filha herdou de alguém aqui de casa o temperamento minuciosamente sistemático, vi morrer a idéia mirabolante que eu havia planejado passo a passo e calculado em cada detalhe.

* * *

Se você ainda não é pai, deixe-me dar uma dica: uma coisa boa de se ter filhos é que a gente sempre pode saciar a vontade de brincar, desenhar com giz de cera e correr pela casa fazendo barulhos esquisitos sem que alguém nos julgue por isso. Aliás, pelo contrário, quanto mais estranho você se faz passar para que seus filhos se divirtam, mais as pessoas vão te elogiar e dizer que é um pai presente, amigão e cuidadoso. Mal sabem.

Às vezes, eu fico pensando na minha filha, observo ela concentrada desenhando alguma coisa e percebo que é dessa pureza que Jesus fala quando repreende seus discípulos e diz que “o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas”.

No fundo, a história toda não é sobre ser infantil, é sobre ser puro. A questão da vida eterna ao lado de Deus, não diz respeito sobre o quanto deixamos de errar ou o quão eficientes somos em seguir rigidamente as regras todas, mas tem a ver com o nosso coração e a busca sincera em tentar viver de acordo com o que o Pai nos aconselha.

Crianças acreditam em milagres, acreditam em promessas feitas por pais apressados, acreditam em príncipes e contos de fadas, confiam na fidelidade eterna dos amigos, elas acreditam que podem voar. Mas tem gente – os adultos e suas leis – que trata a fantasia como bobagem, colocam freios na imaginação infantil e acabam por matar a beleza da vida com sua visão pragmática dos fatos. Puxa, “visão pragmática dos fatos” já é, em si, uma expressão que mata muita coisa.

O que eu sinto, é que não preciso ensinar um conjunto de leis para minha filha. Eu preciso lhe ensinar bons princípios. E então os caminhos e a vida toda dela será de acordo com esse bom ensino. Uma a uma, suas decisões serão certas, não porque ela obedeceu cegamente ao que ordenei, mas porque soube escolher conforme suas próprias convicções e interpretação do mundo.

Tá, tá legal, eu sei que esse é o tipo de conselho que aparece em qualquer manual para pais de primeira viagem. Não que eu tenha lido algum livro desses – não li – mas é de se imaginar que conste esse tipo de afirmação. Mas o que eu quero dizer (ou tentar entender) é: quem disse que o mundo é do jeito que eu acho que é?

A Nina acha que é uma bailarina e dança em frente à TV até na trilha de abertura da novela das sete – de preferência usando um vestido florido, que roda suspenso no ar enquanto ela gira em torno do próprio corpo. Ela acha que cobrir os olhos com uma almofada a faz desaparecer. Ela ouve as histórias que contamos sobre reinos, reis e heroínas e arregala os olhinhos brilhantes imaginando tudo aquilo acontecendo de verdade, talvez ali na esquina ou no apartamento de baixo.

Crianças acreditam em coisas impossíveis. E pode até ser que o grande valor disso seja porque também acreditam, piamente, nas coisas possíveis. Em todas elas. Para elas, ainda não há mentira no mundo, não existe essa falsidade que a gente vê por aí e o mundo pode ser, de verdade, aquilo que lhes alimenta os sonhos. E isso basta.

* * *

Há alguns dias, eu dirigia pela cidade e parei meu carro num semáforo. Tinha ali um menino, com seus seis ou sete anos, que possivelmente estaria me pedindo algum trocado. Mas ele se distraiu. Estávamos num cruzamento, carros passavam por todos os lados, a cidade gritava com buzinas e motores, fumaça, pessoas cruzando pelas ruas como manadas e motoristas isolados em suas bolhas. E um garoto pobre, sozinho, sem a mãe ou o pai por perto para protegê-lo de tudo aquilo, estava agachado no canteiro gramado, sentado sobre os calcanhares, brincando com um carrinho quebrado, minúsculo, fazendo barulho de motor com os lábios e a imaginação vagando longe, no mundo que ele construía.

Jesus nos pede para acreditar em coisas impossíveis. Ele diz que devemos amar nossos inimigos, que não precisamos nos preocupar com o que vamos comer ou vestir, ele fala que os pobres, os que choram, os humildes, os pacificadores, que toda essa gente sem rumo aos olhos da nossa sociedade são, na verdade, os felizes e bem-aventurados. Jesus diz que crianças são um modelo de vida.

Elas acreditariam nele se tudo isso lhes fosse contado. E talvez até construíssem algo baseado nessa instrução. Um mundo inteiro, quem sabe. Não dá pra duvidar das crianças, porque elas tem dessas coisas, elas confiam, imaginam e, ao seu jeito, obedecem. Crianças brincam e sonham nos cenários mais improváveis. É bonito de ver. É até um aprendizado talvez.

“Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele.” (Lucas 18:17).

Bom, veja bem, é possível que a coisa toda do aprendizado seja, no fim das contas, eu me converter à visão da minha filha. Seu coração infantil, a pureza nos gestos, a fantasia, o olhar fixo no pai procurando uma direção.

Eu sei que é contraditório. Pode ser um pouco de fantasia, como isso de acreditar que Deus nos chama a todos de filhos, ama o mundo inteiro e pensa coisas boas sobre nós. Aí sim faz mesmo algum sentido que o olhar de todas as pessoas do mundo estejam fixos numa única direção, que exista um caminho bom.

Ali, guardada sob as cobertas, de pijama, na cama em que dorme todas as noites, antes de fechar os olhos, a Nina ainda me chamou uma última vez, só pra oferecer algum consolo: “Papai, outro dia a gente faz cabaninha e eu durmo lá, tá bom?”. Essas coisas acabam comigo.

Eu queria saber com o que ela sonha.

E nessa caminhada, eu só espero não atrapalhar a espontaneidade das coisas com meu jeito sistemático, sabe? Eu fico aqui reclamando e sentindo essa melancolia toda só porque eu já não brinco mais de Playmobill, mas eu prefiro mesmo é que ela cresça com sua própria visão do mundo e de Deus, criando com ele algo tão diferente e tão belo que, em algum ponto, ela acredite que é possível edificar a verdade nessa terra, que dá mesmo para as coisas serem diferentes se ela se conservar menina e que pode, com seu canto, sua dança, sua fé, um vestido florido e boas escolhas, construir o Reino de Deus, com peças de Lego e castelos cor-de-rosa.


(Esse texto faz parte da série “Paternidade”)

Alienação

por Luiz Henrique Matos

Luz vermelha. Ponto morto.

Então, pela manhã eu acordo, tomo banho, troco de roupa, desço o elevador até a garagem no subsolo do prédio. Entro no carro, dirijo com o vidro fechado e o ar-condicionado ligado por cerca de 10 quilômetros até o escritório. Isso leva bem uma hora. Entro no prédio, estaciono na garagem coberta, subo direto pelo elevador até o andar em que trabalho. Almoço no refeitório do prédio. No fim da tarde, o mesmo itinerário até o elevador me deixar novamente na porta de casa. Isso leva bem o dia todo. Chego, tomo meu banho, troco de roupa, desfruto o jantar, vejo TV, brinco com minha esposa e minha filha, leio algo e então deito para dormir.

E o dia passa, inteiro, sem uma única experiência ao ar livre.

Sabe, tem gente – gente mau caráter – que acredita realmente que os fins justificam os meios. Dá pra ver isso a toda hora nos jornais, na vizinhança e por aí. Gente que não mede esforços para conquistar o que deseja ou precisa. Eles tem um plano e fazem o que for necessário para alcançá-lo. Julgamos e condenamos esse tipo de atitude o tempo inteiro.

Mas, sei lá o motivo, há algum tempo, tenho conhecido gente que acredita que os meios por si só se justificam – volta e meia tenho sido essa gente também. Elas não tem um fim concreto em que acreditam ou algo perseguem. O dinheiro, seus bens, o trabalho, tudo o que era instrumento virou objeto. E as pessoas vivem cercadas disso, dedicadas a isso, alienadas em atividades e coisas que estão longe de serem respostas. A gente esquece que o dinheiro serve, o trabalho serve, nossas posses servem… para alguma coisa. E viramos escravos e nem bem sabemos de quê.

Quando o meio vira fim, alguma coisa ficou de fora da história. Talvez a história toda, em muitos casos.

É como correr atrás do vento. E a gente faz o quê com isso?

Luz verde. Primeira marcha. Segunda. Buzina. Uma fechada. E então, rapaz, será que chove?

O enxugador de lágrimas

por Luiz Henrique Matos

Aconteceu uma tragédia em nosso aprazível e pacífico lar. Tudo era calmaria quando, num instante, sem que percebêssemos, a fúria dos mares, os ventos do sul, trovões ensurdecedores e todas as forças da natureza se levantaram para promover a pior e mais temível tempestade em copo d’água da história dessa família. Eu mal tive tempo de correr até o fim do corredor que liga a sala ao quarto, guiando-me pelo som do choro desesperado e então encontrar, desamparada, a Nina derramando rios de lágrimas.

– Que foi, filha? O que aconteceu?
– Doeu, pai.
– Doeu o quê, Nina?
– Meu dedo. Snif! Ó, tem uma pelinha.
– Calma. Vem cá, eu tiro pra você – e dei aquela mordida com a ponta do dente pra tirar a pele.
– Humf…
– Pronto. Viu? Não tem mais nada.
– E uma picada, pai, de pernilongo.
– Onde?
– Aqui.
– Vou fazer um carinho e já sara. Olha bem…
– Sarou, papai.
– Pois é. Tá vendo, não precisa chorar. Vem cá, deixa eu enxugar seu rosto.
– O enxugador de lágrimas?
– É isso aí.

Lembro-me de quando era criança e ganhamos o Shake, nosso primeiro vira-latas. Um dia ele saiu para dar uma volta e se machucou feio numa briga de rua (ah, rapaz, você não conheceu o Shake…). Quando voltou, além de dormir pra burro, ele passava o tempo todo lambendo suas feridas. Eu achava aquilo meio esquisito, até que meu irmão mais velho, cheio da sua sabedoria de Manual do Escoteiro Mirim, disse que a saliva tem um efeito cicatrizante nos animais, que as lambidas são como massagem para os cães e que, também por isso, as mães lambem suas crias quando pequenas. Se isso tudo é verdade, juro que não sei, mas ele é mais velho e quando se tem 10 ou 11 anos, a gente acaba respeitando esse tipo de autoridade.

É engraçado notar como os pais tem um efeito calmante sobre os filhos. A situação pode ser a mais desesperadora – algo como bater a cabeça na quina da mesa ou o fato de a roupa de passeio ser só “rosa branco” e não “rosa pink”, que nas definições da minha filha, tem pesos e gravidades idênticos – e o toque, a voz e o consolo paterno fazem com que tudo fique bem outra vez.

E a paz reina. E os brinquedos se acomodam, os amigos dividem as coisas, a comida fica saborosa, a hora do banho passa a fazer sentido, a TV pode ser desligada sem maiores traumas e garotos com crises crônicas de bronquite durante a madrugada conseguem dormir em paz porque uma mão está repousada sobre seu rosto fazendo algum tipo de carinho e dizendo que tudo vai ficar bem.

Filhos acreditam nos pais.

Para nós, adultos, é divertido observar como situações tão banais adquirem proporções gigantescas no universo (i)limitado de uma criança. E também chega a ser invejável a facilidade com que a dor logo passa, como tudo se resolve e a próxima brincadeira toma forma em instantes.

Talvez seja verdade mesmo que as preocupações nos sobrevém à medida que os anos se acumulam. Ou talvez, a medida que os anos passam, vamos ficando um tanto mais experientes nessa habilidade inata ao ser humano que é tornar complicadas as coisas mais simples. E choramos.

Antes eu dormia como uma pedra, agora eu perco o sono. E eu noto que, a cada dia, vou ficando um pouco menos paciente e menos tolerante em relação a acontecimentos que antes não me incomodavam – peles soltas nos cantos dos dedos e picadas de pernilongo certamente estão entre elas.

A gente fica só um pouco mais velho e já vai perdendo a graça. Perdemos a irreverência da infância e acumulamos a amargura dessas circunstâncias que nos afetam. Olhamos no espelho uma vez e ainda achamos que somos os mesmos meninos. Olhamos uma outra e, num minuto, os anos correm diante dos olhos, que agora precisam fazer alguma força para enxergar direito. Fica no ar o cheiro de menta do creme dental de todas as manhãs e o desejo de ter de volta um pingo daquela inocência. Eu queria bem é resmungar um pouco, abrir o berreiro, e logo vir alguém para resolver tudo com uma voz mansa e cheia de sabedoria, dizendo que tudo vai ficar bem, que eu posso dormir em paz.

E pensar que isso tudo é tão pequeno…

E eu fico refletindo que se tem uma coisa que é real, é que a vida é tão ampla, o mundo todo é tão cheio de opções, com tantos caminhos possíveis, que é estranho imaginar que na maior parte do tempo, queimamos nossos neurônios preocupados com coisas que, no fim das contas, cabem no nosso umbigo – para onde concentramos nossos olhares e esforços a maior parte do tempo.

E, bem, Deus é tão grande. Eu acredito mesmo. Ele é bom, amável, e quando penso que posso simplesmente me dirigir a ele para falar dos meus problemas e contar o que se passa, às vezes deixo de fazer por constrangimento. É estranho pensar que posso ter acesso ao criador do Universo se tão simplesmente aceitar isso como fato – ou, talvez, deixar de resistir. Posso ser dirigido pelo divino em cada um dos passos tortos que teimo dar na caminhada. Posso chamar o autor da vida de “pai” e ele vai achar isso bom.

Então, num pequeno passo, nessa escolha, meus problemas de proporções gigantescas finalmente se resumem à insignificância que têm de fato. E a tempestade dá lugar a calmaria. O oceano revolto era um copo d’água. Os olhos se abrem e, com eles, tantas novas possibilidades. Eu tenho um porto onde ancorar. Deus.

O enxugador de lágrimas.

Lembrei de João, o pescador, que ainda menino, viu passar por sua terra um homem que se dizia o Messias e, tão irresistível era o seu ensino, que ele e o irmão largaram tudo para segui-lo. E João viu morrer seu mestre. Aos pés da cruz, viu Jesus balbuciar a dor, bradar seu amor pela humanidade e dar o último suspiro. Logo depois, João viu morrer ao fio da espada seu irmão Tiago, vítima de um rei ganancioso. Passaram-se os anos e João ainda se despediu de cada um dos amigos de toda sua vida. E ao final dela, com sua missão cumprida, o velho João não esperava pelas visões que teve e registrou.

Das suas notas, de todas as cartas, um trecho em especial me toca.

Confesso que não sei como serão as coisas depois que eu morrer – eu mal sei do meu próximo passo e já me preocupo mais do que deveria – e também não faço muita idéia do fim do mundo, do último dia e tudo isso do Paraíso. Mas, se eu me apego a uma coisa quando penso em Deus, no amor, na minha família e na humanidade, acho que o futuro tem a ver com isso:

“Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede.
Não os afligirá o sol, nem qualquer calor abrasador,
pois o Cordeiro que está no centro do trono será o seu Pastor;
ele os guiará às fontes de água viva.
E Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima”.
(Apocalipse 7:16-17)

Filhos acreditam nos pais.

(Esse texto faz parte da série Paternidade)

O tempo, o amor e um Chevette 1982

por Luiz Henrique Matos

Ela agora me liga no meio do dia para pedir coisas. Estou no escritório, toca o telefone, percebo que é o número de casa e acho que é assunto sério. Então uma voz fina do outro lado derrete minha postura de profissional empenhado, pedindo para que eu leve algum doce no fim do dia, perguntando se pode ir brincar na casa da avó ou querendo assistir um DVD diferente.

Não reclamo, eu gosto. Apesar do constrangimento em falar com uma criança no telefone diante de uma audiência concentrada no trabalho, atender as ligações da minha filha ou esposa durante o dia é como fazer uma visita instantânea até em casa.

Outro dia, tocou o telefone e era ela outra vez.

– Alô?
– Papai…
– Oi, filha?
– Eu quero você aqui.
– O quê?
– Eu quero você aqui em casa agora.

Crianças…

Ela não quer saber se vivemos em uma mansão ou numa quitinete, se dirijo o carro do ano ou um Chevette 1982. Para ela pouco importa o cargo que ocupo, a marca da roupa estampada em sua camiseta suja de chocolate, a quantidade de prêmios que ganhei – e não ganhei nenhum, se quer saber – ou qualquer dessas coisas que nos parecem fundamentais em grande parte do tempo.

Ela não se importa com o valor dos presentes que ganha. Aliás, ela nem se importa com presentes. Ela é feliz quando os recebe e também é quando nada acontece. Basta a brincadeira, uma nova história e pessoas ao seu lado.

A cada mês, minha menina deixa de ser aquele serzinho dependente e começa a revelar um pouco de sua personalidade. Ela tem olhos bons. Quando sorri, eles ficam apertados entre as bochechas e as sobrancelhas. De uns tempos pra cá, os cachos já encostam nos ombros, seu rostinho já não está tão fofo e o português vai se ajustando num vocabulário correto e claro nas idéias que quer expressar. Se em algum momento eu achei que tinha qualquer controle sobre as coisas, já não me iludo.

E aos poucos, limitado como sou, vou percebendo que longe de objetos e artifícios de que lanço mão para mostrar o bom pai que pretendo ser, ela prefere que eu lhe dê algo mais simples: tempo.

E ela não está interessada em recompensas, não espera que eu retribua o seu carinho, ela só me quer por perto. Ela quer alguém para viajar junto em sua imaginação, quer jogar qualquer coisa, brincar do que der na telha, quer um leite fresquinho quando acorda e um braço pra se apoiar enquanto a Dora, a Aventureira, resgata algum animal perdido na floresta.

Nada do que ela me pede, nada, me custa mais do que um mísero centavo. A verdade é que as crianças tem um tipo de amor que eu não entendo e não expresso. Um amor desinteressado, gratuito, livre de coisas, que não exige condições, que aceita um pedido de desculpas quando a gente deixa de brincar e que espera o dia inteiro, às vezes bem longo, só para ganhar um colo e ouvir uma nova história antes de dormir.

– Nina, as princesas dormem sozinhas em suas próprias camas, sabia?
– Mas, pai, a princesa quer ficar aqui, perto do príncipe.

Ela me acha bonito.

Às vezes eu me pego pensando no dia em que ela vai descobrir que eu não sou “o” cara. De príncipe, herói e marido exemplar, um dia minha menina vai me achar careta, fraco e pedir para que eu estacione a 300 metros da escola para que os amigos não a vejam entrar no carro comigo. Mas até que isso aconteça, deixo as preocupações para a hora apropriada. Enquanto ela ainda se sente suprida simplesmente por eu sentar ao seu lado no sofá, eu desfruto.

Eu me regozijo em sua inocência, no pensamento puro, nos contos de fadas, nas palavras mal faladas e no cheiro de xampu de neném que ainda perfuma uma parte da casa.

– Pai…
– Oi, Nina.

Ela me mostra a mão espalmada.

– Você fica… você fica só mais assim, ó. Fica só mais cinco minutos comigo?
– Claro, querida. Como não?

Sorri.

– Tá. Então senta, pai.

Ela não me cobra se estou acima do peso, não quer saber serei um sujeito careca daqui um tempo e também não liga se não me visto segundo o catálogo da Armani. Ela só quer que eu esteja ali.

Pais são assim. Às vezes, depois que passamos da infância e, num instante crescemos, pode acontecer de o assunto acabar. Pode ser que o encanto se quebre. Pode até ser que filhos e pais, em função do tempo e das circunstâncias, deixem de ter a afinidade natural, aquela amizade que parecia instransponível lá atrás. Mas inexplicavelmente, a gente sabe o quanto precisa deles. Bem, às vezes nem sabemos, mas notamos que em determinados momentos, precisamos daquele colo, daquele cheiro, sentimos falta de estar perto, gastando um tempo que parece à toa, mas que preenche um vazio que só esse tipo amor pode completar.

O primeiro amor, aquele desinteressado, que tudo sofria e suportava, que acreditava e esperava, de repente parece cheio de condições, cercado de regras, empoeirado, espremido entre tantas lembranças naquele baú esquecido no sótão. E a gente sente saudades mas não sabe como voltar.

Nesses momentos, numa fagulha, filhos se distanciam, amigos se perdem, casais se separam e o homem, ao longo da história, se afasta do seu Criador.

O filho perde de vista o Pai, que nunca deixou de esperar pela volta de sua criança, ansioso, aguardando por mais uns minutinhos. E Deus tenta dizer que ele não quer súditos ou empregados que o sirvam com sacrifício, ele quer seus filhos invadindo a cozinha, cansados de correr no quintal, pedindo por uma história, contando sobre o novo amigo e precisando de um copo de água para saciar sua sede.

E como em qualquer relacionamento, um e outro não esperavam mais do que presença, nada além daquele amor simples, o respeito, carinho… nada que se represente em coisas, nenhuma grande fortuna. Talvez uma aventura frustrada a bordo de um Chevette, uma história para contar juntos, talvez uma conversa franca de vez em quando.

No amor, não se dá nada que custe mais do que um mísero centavo.

(Esse texto faz parte da série Paternidade)

Vira-latas

por Luiz Henrique Matos

No último fim de semana, depois do almoço, levei minha família a uma sorveteria. Estávamos em Itapeva, cidade natal da Manú e, sabe como é, domingo, casa de parentes, churrasco, excessos… e a gente ainda acha espaço para a sobremesa.

A sorveteria fica num calçadão em pleno centro da cidade. É o único estabelecimento em todo o comércio – fora a farmácia e o boteco – que abre aos domingos.

Parei o carro numa rua acima e enquanto caminhávamos, cruzamos com um vira-latas fuçando o lixo acumulado na rua. Cena típica. Sacos pretos revirados, restos de comida consumidos com voracidade e o forte odor da sujeira cruzando o ar. O pobre animal estava doente. Tremia enquanto procurava algo que lhe saciasse a fome.

Não seria nada diferente do que vemos em qualquer caminhada por qualquer cidade, não fosse o momento em que o coitado percebeu nossa aproximação e parou. Cambaleou um instante e, numa fração de segundos, encarou a Manú com aquele olhar de dor e desamparo.

– Esses bichos ficam o dia todo consumindo porcaria, sem comer direito. Aí chegam num momento que engolem o que tem pela frente pra tentar matar a fome.

Do alto da minha sensibilidade, passei reto e tentei desviar o foco da atenção da minha esposa, sabendo o que poderia vir em seguida caso ela…

Pois é, minha estratégia não deu certo. Entrei na sorveteria, mas ela não se contentou com minha resposta tão compassiva. Ficou ali parada no meio do calçadão, a sobrancelha franzida, a expressão intrigada, olhando pro monte de lixo revirado. Aí – como já era de se esperar – me mandou levar alguma coisa boa pra ele comer.

Claro, ela tinha razão.

Numa sorveteria, o máximo que se consegue de qualidade nutricional mastigável é um pedaço de bolo. Comprei uma fatia e subi a rua com o pratinho em mãos. Cheguei perto, meio constrangido com a cena e acho até que estalei os dedos para chamar.

– Ei, amigão, vem cá… toma. Você deve estar com fome.

Cena fofa. Me senti o próprio explorador do Discovery Channel se aproximando das feras de forma heróica e lhe entregando o alimento.

Afastei-me e observei. Ele comeu o bolo. Virei as costas e voltei para o balcão refrigerado do estabelecimento. Missão cumprida. Três bolas, por favor. A Manú orgulhosa. Chocolate, côco e morango, caprichado. Peraí, a Manú ainda estava lá fora, com a mesma expressão no rosto.

– Que foi, amor? – perguntei, sem querer ouvir a resposta.

– Acho que ele não tá bem…

Quando ela teima com algo, vai até o fim. E eu agradeço a Deus por isso.

E lá fui eu. Sorvete derretendo na mão, me aproximei dos sacos de lixo e vi o pobre coitado botando todo o bolo pra fora. Meu coração apertou. Estranhamente, pela primeira vez na vida, eu assistia a uma cena dessas sem passar mal junto. Eu sentia aquele cheiro azedo do vômito vindo em minha direção e não me movia. Eu queria pegar aquele animal no colo e correr para um hospital ou sei lá o quê.

Joguei o sorvete de lado. Pedi a alguém que trouxesse um pouco de água.

Ele tremia, suava, esfregava os olhos, ele chorava. Ele só tem 12 anos. “João Paulo”, foi o nome que falou quando conseguiu pronunciar a segunda frase. A primeira foi a que me derrubou de vez:

– Dói… dói tudo.

Poucas vezes ele me encarou. Quando o fez, seu olhar era de dor e desespero. Ele queria socorro mas não sabia pedir. Ele não estava drogado – conforme pressupus quando o notei pela primeira vez – ele estava cansado, tinha fome e talvez dengue ou uma intoxicação.

Então, liguei para a ambulância, mas o serviço de atendimento não estava funcionando. Aí liguei pra polícia, que me mandou ligar pro bombeiro, que me mandou ligar num 0800 que não funcionava e então eu liguei de volta e eles me mandaram ligar pra polícia de novo, que me mandou ligar pro bombeiro, mas eu avisei que eles não podiam atender e então ele me mandou esperar na linha e depois mandou eu ligar na guarda municipal, que finalmente resolveu mandar uma viatura pra buscar o menino.

O João Paulo mora com os pais na periferia da cidade. Saiu de casa às 7:30 para catar latinhas e vender. Estava sem comer desde que acordou e já vinha passando mal desde cedo, andando pelas ruas daquele jeito. Eram três horas tarde, um domingo de sol, as famílias reunidas para o farto almoço do fim de semana e o menino virando sacos de lixo para ajudar a sustentar sua casa.

A viatura chegou. Uma mulher dirigia o carro.

– Venha, filho. Entre no carro. Vamos no hospital pra você tomar um sorinho.

Ele se arrastou para dentro do carro. Arrastou também o saco preto com meia dúzia de latas que conseguiu no dia. E foi.

Paguei a conta na sorveteria, reuni a família e voltamos para casa. No caminho, vi o dono do sobrado onde o menino ficou sentado em frente jogando água na calçada e me encarando bravo.

Eu dirigia o carro sem nem perceber o tempo passar. E a gente passa pelo mundo e nem vê que tem alguém sentindo dor na calçada. A gente olha para um menino fuçando no lixo e logo confunde o menino com o lixo. Mais um vira-latas. Nem paramos pra pensar que a criança tem nome, tem pai, tem mãe e precisa de água, de arroz-feijão, de lápis e papel e de uma bola pra brincar. A gente vê que é um menino e nem pensa: “podia ser meu filho”. Podia.

Tem tanta gente viciada no mundo. Cocaína, cigarro, dinheiro, álcool, sexo, televisão, vídeo-game, comida… tem gente viciada em tudo. Mas quando penso nessa insensibilidade toda que nos faz ignorar a necessidade do nosso semelhante, eu acho que o pior vício do homem é o próprio homem. A maioria das pessoas que eu conheço – entre as quais me incluo – nem mesmo resiste à tentação de só se preocupar consigo mesmo.

O centro do mundo é o meu umbigo.

De volta em casa, bebi um copo de água, deitei na cama e me acomodei em minha zona de conforto pra poder cochilar um pouco. Mas aí pensei no João Paulo, lembrei dessa coisa toda dos vícios da nossa sociedade, fiquei cruzando as coisas na minha mente e orei a Deus pedindo para que não me deixasse esquecer que ele me mandou amar as pessoas.

Não quero ser insensível aos problemas dos outros. Por favor, não. Eu quero, na verdade, o contrário. Quero olhar e não conseguir dar um passo sem fazer algo. Eu quero que Deus me ajude a mergulhar num vício novo. Eu quero é ser viciado em gente.

Jesus olhou para o João Paulo… “Jesus olhou para as multidões e foi movido de íntima compaixão.” (João 14:14).

“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados” (Provérbios 31:8-9).

Considerações sobre céu e inferno

Fico pensando se Deus, no último dia, resolvesse nos julgar pela nossa capacidade de demonstrar amor ao próximo. Se no fim das contas, a distinção entre homens bons e maus fosse tão simples quanto avaliar nossa atitude em relação às pessoas que passam pela vida da gente e que tiveram fome, sede, estiveram doentes, presas ou necessitadas de alguma forma.

Fico pensando que se as coisas fossem por aí, então o diabo já deveria começar as obras de ampliação nas instalações do inferno.

Fico pensando na passagem de Mateus 25:31-46 e um certo arrepio me sobe pela espinha.

-LHM

Uma canção para quarta-feira

Amor que nos faz um, do Palavrantiga.

Vale dizer, a versão gravada no cd do Amor é um movimento está impecável.

Imagem e semelhança 1 – Livros, moldes e projeções

por Luiz Henrique Matos

A Nina gosta de livros. E você pode imaginar o orgulho que toma conta do pai coruja quando a filha, num shopping center, prefere a “loja de livros” à de brinquedos. E ela se delicia naquele ambiente. E eu me delicio naquela criatura de um metro de altura e fico pensando na nova Cecília Meireles, na Elizabeth Barret Browning, na Jane Austen que vai se formando sob meu teto.

E eu fico pensando o quanto sou estúpido em querer tudo isso.

Como gente egoísta que somos, caímos no erro de projetar em nossos filhos as nossas frustrações. Escritores, advogados, jogadores de futebol… queremos que nossas crias tenham o sucesso que julgamos não ter tido. Ao invés de lutar pelos nossos sonhos, penduramos as chuteiras e passamos a desejar que os pequenos cresçam e se moldem às expectativas que alimentamos sobre eles.

Aí está a diferença do homem em relação a Deus – ou talvez, o contrário seria mais adequado. O Pai não projeta em nós o desejo de que sejamos como ele. Ao contrário, sua glória pessoal é que sejamos totalmente nós, plenos da identidade que ele sonhou para cada um, individualmente.

Daí o erro da religião em querer moldar o homem num padrão de comportamento, caráter e atitude. Daí o erro de todos nós em desejar que nossas crianças se pareçam conosco ou com o ideal de homem que criamos.

Pobres dos filhos, criados para serem livres, mas aprisionadas em gaiolas e estereótipos. Não foi esse, jamais, o sonho do Pai.

Cada pessoa em sua plena humanidade é o reflexo da glória de Deus. Cada pequenino, transbordante de si mesmo, a imagem e semelhança do Criador.

Essa crônica faz parte da série “Paternidade“. Clique aqui ou na página dedicada do menu para ler os textos anteriores.

Uma Páscoa para quem não acredita em Jesus ou coelhos

por Luiz Henrique Matos

Há alguns meses eu almoçava com uns colegas do trabalho e um deles contou a história de um conhecido que abandonou a carreira na área de vendas de uma multinacional para ser pastor de uma igreja evangélica. “É um ótimo negócio”, disse meu amigo, “ele parou de vender produtos e passou a vender o que todo mundo quer: perdão e vida eterna”. E enquanto boa parte ria, emendou: “vai ficar rico!”.

Aquilo teve um certo efeito em mim. Até então eu pensava que muita gente não acreditava em Jesus por não conhecer sua história ou não compreender a razão de seu gesto pela humanidade. Mas meu amigo provou o quanto eu estava equivocado. E então passei a compreender que boa parte das pessoas que conheço e não são cristãs, conhece a história do cristianismo mas elas não a seguem simplesmente porque não acreditam que isso faça diferença real em suas vidas.

Durante essa semana que passou especialmente, eu sempre paro para pensar no fundamento da minha fé. A época da Páscoa sempre me atrai por duas razões principais e importantes na vida: a essência da fé cristã e os ovos de chocolate.

Direto ao ponto e recapitulando, ainda que não seja novidade para muitos, o ponto central da reflexão sobre a Páscoa é que Jesus Cristo, entre sexta-feira e domingo, morreu numa cruz e ressuscitou. Na cruz, o Deus vivo, como cordeiro de sacrifício sem qualquer impureza (na analogia da tradição judaica) sofreu o peso da culpa e a condenação pelos pecados de toda humanidade e morreu no nosso lugar. Na ressurreição, ele venceu a morte e, na sua vitória, nos deu vida eterna. Através de Jesus, se assim acreditamos, recebemos perdão pelos nossos pecados e vida eterna ao lado de Deus.

Pensar nisso tudo sempre me emociona e faz compreender a profundidade e a razão da minha fé em Deus. Refletir sobre esses dias, em Jesus e tudo o que ele fez por mim, me faz amá-lo intensamente e me faz voltar aos primeiros dias dessa relação.

Agora, se isso tudo faz sentido pra mim, acredito que o meu amigo – e muito mais gente – não vê razão para levar o assunto tão a sério porque, no fim das contas, tanto faz se Jesus era Deus ou não e, ainda que fosse, eles não estão tão preocupados com a questão do perdão de pecados e qualquer coisa sobre vida eterna. Primeiro, porque essa discussão sobre pecado, certo e errado e culpa é uma coisa muito relativa – o certo para você pode ser errado para mim e vice-versa.

E sobre a questão da vida eterna, é mais fácil construir para si um conjunto de crenças nos quais se apegar do que seguir ao pé da letra um único raciocínio defendido por uma igreja, comunidade ou grupo religioso. Até porque, convenhamos, diante de tantas opções, a chance de se estar errado é considerável. Ou ainda, para os extremistas, pode-se simplesmente não acreditar em nada e deixar que as coisas aconteçam naturalmente de acordo com as circunstâncias, o acaso ou o ciclo da evolução.

Sinceramente, acho que por esses pontos todo mundo pode ter razão. Não se pode justificar algo em que se acredita com uma história sendo contada repetidamente ao longo dos anos, por mais que essa história trate dos anseios mais profundos que o homem carrega consigo: redenção e uma resposta para a morte.

Não se pode acreditar em Deus porque as coisas assim parecem convincentes ou convenientes. Porque Deus não se materializa, se explica ou modela.

E um grande erro da igreja, eu acredito, seja esse vício de tentar sistematizar a fé. Certa vez eu ouvi um pastor pregar e ele dizia: “se um dia você conseguir criar uma definição para Deus, jogue fora e fuja, porque você acabou de criar um ídolo”. Não dá. “O homem tentar entender a dimensão de Deus é o mesmo que uma ameba tentar entender o pesquisador, olhando através do tubo do microscópio”.

E porque Deus é incompreensível, também não dá para acreditar que alguém passe a acreditar em sua história porque ela lhe foi contada de maneira convincente. A espiritualidade de um homem, até para o mais incrédulo, é íntima, insondável e inexplicável.

Jesus é a única forma de se ver Deus de algum jeito. Como ser, como agir, como amar, o que fazer, o que não fazer… todas as nossa questões, das fundamentais às mais banais, são respondidas ao olharmos para Jesus.

É por isso que, diferente do que andamos pregando em nossas igrejas, Jesus não prometeu prosperidade às pessoas. Ele também não prometeu benefícios ou poderes sobrenaturais, nem milagres para todos os casos. Ele nos prometeu uma razão de viver. Ele prometeu saciar nossa fome existencial, prometeu uma resposta suficiente. Ele oferece a alegria eterna.

Mas para experimentar essa alegria é preciso, naturalmente, acreditar. Para enxergar Jesus como Deus, é necessário conhecê-lo. E aí reside a grande questão: dois mil anos após a morte de Jesus, como pode um homem chegar a tais conclusões por si só? Não creio que seja possível, salvo exceções eventuais.

O amor, a fé e a esperança são das coisas que não se incutem na mente de um indivíduo. São coisas, aliás, das quais não se convence alguém sequer, até que ele mesmo experimente tais sentimentos e aceite, naturalmente, que existem questões que jamais compreenderemos ou dominaremos.

É impossível sistematizar o amor. E Deus é amor. Daí a coisa toda de alguns parágrafos acima.

Agora, já vi gente tentar, com alguma dose de sucesso, retratar o amor através da arte. E de um jeito mais convincente do que um cientista faria, vi o amor impresso num homem apaixonado. Nas telas, em livros, no cinema e na música. Nas histórias bem ou mal contadas, nas personagens inventadas ou na crua realidade humana, não há como fugir do que nos domina, não há alternativa para nossa impotência diante do que não se explica.

Somos impotentes diante do amor.

E outra vez voltando ao ponto central desse texto – se é que ele ainda tem algum -, só é possível que nos apaixonemos por alguém que, de alguma forma, “experimentamos”. E como alguém pode experimentar a Jesus sem acreditar nele ou no que ele representa?

A materialização de Deus somos nós.

Sei que isso é discurso batido e meio desgastado por aqui, mas a verdade nunca basta: as pessoas só acreditarão no Jesus que amamos se puderem vê-lo personificado no exemplo de vida daqueles que se dizem seus seguidores.

Jesus disse: “amem as pessoas como eu amei a vocês”.

Note, ele não nos pede um sacrifício. Deus não exige ou espera que qualquer um de nós se entregue numa cruz tal como ele fez. Jesus nos pede para amar. Seu mandamento fundamental, que provoca reflexões, não se baseia numa ordem explícita e dolorosa. Ele diz: “Ame! Ame intensamente, da melhor forma, cheios de alegria e compaixão. Ao ponto de não suportarem o sofrimento alheio. Rendam-se ao amor”.

O amor. Esse é o seu único pedido ao homem. Essa é também, sua maior promessa.

Parecer com Deus, portanto, tem muito menos a ver com uma conduta de vida ou práticas religiosas e se resume num ponto mais simples do que muitas vezes gostaríamos: amar o próximo seja ele quem for.

E agora, pensando aqui no sofá de casa, eu acho que esse meu discurso é bastante convincente. Sei que muitos dos meus amigos vão ler essa carta e concordar comigo. Bom, mas não vou ser eu o hipócrita aqui. Admito que não tenho uma soma sequer nessa medida de bondade e amor que Jesus pediu que tivéssemos.

Mas penso que se tem algo na vida que eu deveria buscar, isso passa por me aperfeiçoar num sentimento. Peraí, perdão, o termo não é aperfeiçoar… Não acho que seja possível lapidar o amor de alguma forma. As coisas passam, portanto, pela entrega, pela renúncia, por deixar que o sentimento que me domina, cumpra em mim seu papel. Que o amor, que Deus, seja em mim plenamente para que eu seja, de alguma forma, amor para os outros.

“Isso é impossível”, talvez você diga. E talvez eu mesmo diga isso também. Porque apesar da simplicidade do argumento, isso não é mesmo fácil de pôr em prática. Mas, antes de deixar que minha auto-piedade e o conformismo me façam deitar a cabeça no travesseiro para dormir o bom sono dos ímpios, uma verdade me vem à mente e martela: se Jesus tivesse pensado como eu, talvez a cruz tivesse ficado vazia. E, pimba, uma outra dose de Páscoa para refletir.

Bem, realmente é mais fácil convencer minha filha de três anos que um coelho subiu pelo elevador até nosso apartamento no 11º andar e botou um ovo de chocolate num canto escondido da casa, do que amá-la de forma tão intensa que um dia ela passe a acreditar que esse amor, real e incondicional, tem sua fonte num Deus perfeito e amoroso, que fez tantas coisas por ela.

E… chocolates! Hummm, isso parece uma idéia genial!

O sacrifício do Messias – Walter Wangerin Jr.

Depois de alguns meses – bom, toda leitura para mim, em geral, dura alguns meses – finalmente terminei a leitura de O Livro de Jesus, de Walter Wangerin Jr. Não é uma leitura fácil. Tal como em O Livro de Paulo, Wangerin mergulha nos detalhes da história bíblica para construir seu romance. Sua ficção não muda os fatos, ela os enriquece.

As roupas, os costumes, o clima, a geografia e os alimentos. Cada página contém nuances que ajudam na compreensão da história e enriquecem a narrativa.

Não posso dizer, entretanto, que concordo com todos os seus pontos de vista. Mas me rendo à riqueza do texto, à qualidade de sua imaginação e a capacidade de emocionar contando uma história que já lemos tantas vezes.

Parece-me difícil escrever um romance a respeito de circunstâncias nas quais cremos como reais e cujo personagem principal é tão essencialmente verdadeiro a ponto de tê-lo como seu Deus.

Reescrevo abaixo um trecho:

Durante todo o tempo que convivi com Jesus nunca o ouvi reagir a dor física. Que ele sentia eu via em seu rosto. Seus lábios se comprimiam e branqueavam. Sua testa franzia. Seus olhos arrojavam-se num tique para a esquerda, pálpebras tremulando. Porém, a linha de seu cabelo densamente cacheado nunca se alterava, nem tampouco sua resistência ao desgaste, o que fazia com que ele, mesmo nos ferimentos mais graves, parecesse alinhado, não-perturbado. Ele nunca proferiu nenhum som de resmungo.

Hoje ele grunhe e gargareja de dor.

Não há nenhum pilar natural ou poste na parte alta da praça. Por isso os romanos rebocaram uma imensa carroça de transporte, prenderam as rodas com pedras e amarraram o Senhor, inteiramente despido com exceção de sua roupa de baixo, às tábuas de sua porção posterior.

Certa ocasião, ele se pusera de pé, como uma vela, na popa de um barco açoitado por uma tempestade, seu manto drapejando como uma bandeira, e erguera os braços; e o mar se acalmara por completo.

Com freqüência ele erguera os braços e toda a população ficava em silêncio e era ensinada, e milhares haviam sido alimentados com peixe e com pão.

No alto dos montes, ao crepúsculo, ele erguera os braços como mastros e bandeira, e orara.

Agora seus braços foram erguidos para ele. Estão amarrados às extremidades das traves mais altas da carroça; seu rosto apertado contra a madeira áspera.

O legionário que está em pé e de lado, atrás do meu Senhor, empunha o cabo de um açoite na mão direita. Ele estala o pulso. Faz com que suas tiras e garras de metal agitem-se no ar, um som de serpente. Então, correndo de repente, o legionário gira o braço inteiro acima da cabeça e salta. Precipitando-se até Jesus, dobra-se sobre ele com tamanha violência que as garras de metal vergastam como um ancinho as costas do prisioneiro, fatiando a carne do ombro à cintura; Jesus se contorce; a pele se alarga; suas feridas são sorrisos abertos, o osso branco aparecendo como dentes do lado de dentro, seco como pedra calcária – mas em seguida o sangue corre pelas longas feridas e começa a espalhar-se.

(p. 382)

E segue. Se puder, leia.

É uma pena que não tenhamos tantos livros de Walter Wangerin traduzidos para o português (além dos dois citados, a Mundo Cristão também publicou O Livro de Deus, que completa a trilogia). É uma pena que não tenhamos bons livros de autores cristãos sendo publicados por aqui.

– LHM

Churrasco, futebol, igreja e uns quilos a mais

por Luiz Henrique Matos

No domingo, fizemos um churrasco aqui em casa. Amigos, comida, crianças, preguiça e amenidades. Gosto de ficar assim sem fazer nada ao lado de gente querida. Faz bem para a mente, é bom pra recuperar o tempo que a gente perde trabalhando.

Foi bom também porque, sentado com os amigos depois do almoço, pude falar sobre um assunto que já há algum tempo me angustia.

Em geral, os assuntos que me angustiam por algum tempo estão restritos a trabalho, família, o próximo jogo do São Paulo, a igreja e, mais recentemente, o aumento significativo da minha circunferência abdominal – com o perdão pelo linguajar chulo.

E nesse caso, preciso dizer que não será hoje que abrirei um discurso sobre detalhes estéticos. A verdade é que, dentre as tantas coisas, falávamos do tema menos apropriado para uma ocasião tão singela: igreja.

O ponto essencial é que eu fico imaginando se não seria mais adequado que a igreja privilegiasse sua atuação social, colocando isso no primeiro plano de suas atividades, ao invés de expor suas práticas devocionais e investir recursos na divulgação de suas crenças, doutrinas e mensagens.

Posso estar sendo ingênuo, mas será que ajudar os pobres e auxiliar as famílias não é mais urgente do que discutir a forma como nos comunicamos com o mundo, as melodias de nossas canções e as estratégias de evangelização?

Jesus vivia dessa forma. Ele dedicava seu tempo em servir e se relacionar. Ele ouvia mais do que falava.

Sei de muitas igrejas se preocupam em servir e ajudar os necessitados. Grande parte das que conheço, investem o maior percentual de sua arrecadação em projetos sociais e assistencialistas. Mas quem é que sabe disso?

Em nosso relacionamento com a sociedade, externamos as práticas devocionais e internalizamos os serviços. Mostramos ao mundo nossas atitudes de adoração, nossos cânticos e as pregações impactantes e guardamos, dentro dos muros de nossas comunidades, as obras sociais, os orfanatos e os ministérios de cuidado familiar.

Recebo semanalmente uma série de newsletters de igrejas brasileiras e norte-americanas mostrando sua agenda de atividades. São boletins com design elaborado, mensagens bonitas e linguagem moderna. Falam basicamente de atividades devocionais. Os livros, os clipes musicais, os vídeos inovadores, a presença em redes sociais, a mensagem do culto, a série de pregações, a dinâmica dos grupos pequenos e os acampamentos. De verdade, no que isso parece interessante a alguém que não conhece uma igreja?

Quando mostramos uma preocupação real com os outros, o que fazemos nos torna simpáticos.

Posso também estar errado – eu costumo estar quando alimento minhas utopias -, mas acho que as pessoas estão cansadas dos nossos discursos e divagações. Falo, inclusive, das pessoas de dentro da igreja. Ninguém mais tem paciência para ouvir um grupo de religiosos anunciando salvação, perdão, redenção e um messias, quando não sentem que precisam disso realmente. Quando, principalmente, não conseguem enxergar o Messias nas pessoas que o anunciam.

Eu vejo mais gente mudando de igreja do que gente nova na igreja. Eu vejo sempre as mesmas poucas pessoas servindo a muitos “irmãos de fé” e nenhuma multidão empenhada em servir o mundo.

E então, quando ninguém mais está disposto a ouvir a nossa defesa inovadora do cristianismo no contexto social pós-moderno (bom, sempre tem que ter um titulo bacana para virar tema de livro depois), culpamos a pós-modernidade, a televisão e algum multimilionário com pinta de anti-cristo e investimos mais dos escassos recursos que já temos em plástica pura e simples. Remodelamos nossas canções, redecoramos os salões de reunião, lançamos mão de novas mídias e – me perdoe a expressão – “secularizamos” nossa imagem para torná-la mais interessante ao homem dos nossos dias.

Agora, por outro lado, quem não se sente atraído – ou ao menos respeita – um grupo de pessoas que se empenha em melhorar a condição do mundo? A solidariedade, as boas ações, a generosidade, o amor. Esse é o comportamento que não enfrenta barreiras, que encontra a simpatia das pessoas.

Jesus costumava guardar suas práticas devocionais para os momentos de isolamento. Sua intimidade com Deus era vista pelos que já o conheciam há mais tempo. Diante das multidões, ele não se exibia, ele saciava necessidades.

Do lado de fora da igreja, em sua face mais exposta, deveria aparecer a prática essencial do cristianismo: a preocupação com o próximo. O amor. Internamente, em nossas reuniões e congregações, aí sim, nossa vida devocional é que sustenta a força desse trabalho (intercessão, adoração, estudo, jejum). Outra vez, o amor.

Reclamamos da dificuldade de evangelizar e da grande “concorrência” para expor a Verdade em que cremos no mundo atual, mas somos nós quem esquecemos de refletir a imagem da Verdade em que cremos: Jesus Cristo.

Jesus, puro e simples. Precisamos menos dos recortes periféricos e mais da sua essência.

Bom, é verdade que eu demorei a notar, mas finalmente nos tocamos de que o assunto não era a coisa mais interessante para se discutir num churrasco. Por isso mesmo, deixamos o assunto no ar e, num silêncio momentâneo de reflexão que se seguiu, ouvimos um “alô, você ligado no futebol…” vindo da televisão. Ia começar o jogo. Coisa boa e digestiva para um domingo à tarde, de extrema importância para acalentar nossas inquietações mais íntimas.

– Rapaz, como anda jogando mal esse seu time! – eu disse para provocar um amigo.

– Cara, você engordou, hein? – ele retrucou.

E as coisas, como sempre, ficaram a deriva. Meu peso, o jogo de futebol e as questões fundamentais – e inapropriadas para um churrasco – da igreja.

“A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” (Tiago 1:27).

Esse texto faz parte da série “Correndo atrás do vento”

Leia mais:

1. A teologia não salva

2. Em defesa da crise

3. E o futuro, a quem pertence?

4. Pessoas mudam, o mundo muda (manifesto)

5. Os riscos da prosperidade

6. Clichês

7. Deus não tem um sonho pra você

8. Julgando um livro pela capa (e pessoas por sua opção religiosa)

9. Jesus não tinha inimigos

10. Um Deus, diversos cultos

11. Comodidade

12. Churrasco, futebol, igreja e uns quilos a mais

Um pedaço de nós

por Luiz Henrique Matos

Em geral, temos um certo orgulho e valorizamos mais as coisas que nos mesmos fizemos.

Brinquedos para as crianças, pipas, lavar o carro, pendurar um quadro, construir uma casa – mesmo que seja de bonecas -, constituir família. Filhos.

Precisamos nos envolver, dedicar tempo. Precisamos nos doar para que tenhamos um pouco de nós mesmos semeados naquilo que chamamos “nosso”. Sejam coisas ou pessoas.

Devemos ser parte de algo para entender o seu valor e, finalmente, dar a vida por isso.

Como maridos, pais, artesãos, profissionais, carpinteiros, filhos…

Deus entende dessas coisas.

“Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16).

Cenas natalinas: Inverno na Galiléia

por Luiz Henrique Matos

Belém (Vasily Polenov)

Maria observava. O menino crescia com saúde. Era inteligente, curioso e obedecia aos pais. Gostava de brincar nos quintais poeirentos do vilarejo, correndo entre seus irmãos e amigos, e às vezes se enfiava na oficina para observar o pai trabalhando que, orgulhoso, mostrava seu ofício ao filho. Ele era como qualquer criança entre as outras e era isso que a deixava angustiada.

“O que vai acontecer? Quando é que as coisas vão mudar, afinal?”

O passar dos anos nunca apagou o que lhe aconteceu, mas a construção de sua família, a rotina da vida atribulada em Nazaré cuidando dos filhos, o trabalho de José… isso tudo tomava tanto tempo que Maria chegava a passar meses sem refletir sobre o assunto.

Ela pensava em seu bebê que agora era um yeled formado, um menino alegre, com seus oito anos. E não fosse a verdade irrevogável dita por aquele anjo e o milagre que lhe sobreveio depois daquele dia, Maria julgaria que sua vida seguia o caminhar natural das coisas, tal como seria se nada tivesse sucedido.

Mas era só o inverno apontar e o velho pensamento a inquietava.

Era o chegar do vento seco, dos dias gelados e curtos, as lamparinas acesas sobre a mesa e a lenha estalando no fogo para que a casa pudesse aquecer um pouco. Os anos passavam fugazes, mas a cada novo inverno em Nazaré, a lembrança daquela noite lhe vinha à mente como um lampejo.

Cada momento da viagem a Belém eram nítidos para Maria e ela reconstruía a história de sua gestação em cada detalhe. A noite fria de inverno rigoroso, as hospedarias abarrotadas e sem quarto para a família, a estrebaria, as dores do parto, José ao seu lado lhe soprando a face, o choro da criança rasgando o silêncio da noite, a sensação indescritível de dar vida a um ser humano, os anjos louvando nos céus, o Deus vivo sendo acalmado pelo seu leite. A família reunida, a vida em sua plenitude, a promessa cumprida e descansando numa manjedoura. Glória, sono e o amor mais puro transbordando em seu coração.

* * *

“Mãe, está chegando a hora.”

Os anos passaram. O menino cresceu. Maria observava pela porta, apoiada com a mão espalmada sobre as ancas. Cansada. Viúva, pobre, fazia o possível para sobreviver, assim como grande parte da vizinhança. Os filhos todos crescendo e se aprumando, em pouco tempo estaria sozinha. Às vezes se pegava pensando em como as coisas seriam daqui a pouco.

Seu menino vinha do quintal em silêncio. Ele podia não dizer nada, mas pelos passos ela reconhecia cada um. Era assustador notar como o tempo passou rápido e estranho pensar que as crianças que brincavam por ali, agora já eram adultos.

Aos trinta anos, Jesus já estava na idade em que um homem deixa os pais e forma sua família.

“Mas não, ele não. O filho de Deus precisa cumprir sua missão. Ele estudou, era prodígio na Lei, seria Rabi por entre esse povo e querido por todos. Seria o profeta, o Deus vivo… Mas, o que dirão dele? Como o Messias pode ser o filho dessa viúva pobre e ignorante? Como será? Ah, querido, pode não ser fácil! Eu queria poder estar com você e te ajudar. O que o espera lá fora? Certamente o Poderoso guiará os seus passos, mas pudera eu fazer-te sandálias mais confortáveis… Agora, chegou a hora e eu só penso em como meu filho poderá ser profeta em Israel se tudo o que lhe ensinamos foi a disciplina da obediência, o temor a Deus e o ofício do pai? Ah, Deus, não me deixe ter errado em nada!”

Era inverno, já no começo. A noite se afundava fria, a luz do fogo aceso refletia no seu rosto e a imagem da estrebaria ainda era viva em sua mente.

Na companhia do filho mais velho, ela ainda tentava disfarçar. Enquanto o pensamento vagava, os olhos fitavam seu menino, de ombro apoiado na porta, banho recém tomado, um cálice nas mãos, o sorriso fácil estampado no rosto e os olhos vivos – ele não podia esconder o brilho – cheios de expectativa pelos dias que viriam.

Maria se admirava. Seu coração inquieto e cheio de dúvidas era sempre inundado pelo regozijo da promessa divina que se cumpria sob o teto de sua casa. “Foi para isso que ele nasceu!”. E nessas horas, o velho cântico dos anjos lhe saltava pelos lábios.

“Hosana! Hosana! Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade! Hosana!”

Jesus ria da mãe cantarolando.

“Vá, meu yeled, vá! Eu farei uma prece a cada instante. Que a paz reine através de você.”

Esse texto faz parte da série “Cenas natalinas”

1. O filho
2. Noite em Belém
3. Antes e depois

Pra quê?

por Luiz Henrique Matos

Sabe, acho que a competição toda já passou do ponto para mim.

É que chega um hora em que as pessoas ao redor começam a te observar e cobrar um “próximo passo”. Nessa altura do jogo, já não basta sua capacidade, talento e empenho para que o mérito lhe seja outorgado, agora é preciso vencer, é hora de arregaçar as mangas e partir para a luta. Como se a vida fosse um campo de batalha e nós, combatentes ambiciosos.

Desculpe, mas eu não quero. Peço perdão também pela imaturidade dessas palavras, mas às vezes a infantilidade ergue a voz petulante. Pensando bem, eu nem diria que é infantil, isso tudo é coisa de adolescente, que acredita ter a razão no bolso do shorts e o direito de se expressar e reivindicar sua… sua… bem, adolescentes só querem ter o direito de alguma coisa, não importa exatamente o que seja.

E eu tenho muito disso, admito. Eu quero ter o direito de não precisar provar minhas habilidades a todo instante – até porque, é fato, não sou hábil em muitas coisas, muito menos a cada instante.

Quero viver. Quero amar, estar, crer, ser. Simplesmente ser.

Quero desfrutar a boa vida ao lado da mulher que amo, dos meus filhos, da família, dos amigos, em Deus.

E quero ter o direito de estar errado sem que isso me pese como condenação.

Quero parar de competir, porque acho que não vale a pena e, no fim das contas, isso não é vitória coisa nenhuma.

Eu quero acreditar – e tenho esse direito – que ao invés de me estapear com alguém para ocupar o lugar mais alto, posso lhe estender a mão, chamá-lo de irmão e finalmente estarmos, todos, na posição mais nobre.

Jesus disse: “do que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”.

Quando crescer, eu quero é ganhar a vida.

Transportando tesouros e atropelando cachorros – os heróis da vida pequena

por Luiz Henrique Matos

Atropelei um cachorro na estrada. Foi tudo tão rápido, estava escuro, ele correu para o meio da pista e parou diante do carro, uns cinco metros à frente. Eu nem consegui pisar no freio. Lembro do olhar estático do pobre animal paralisado pela luz alta do farol e em seguida o impacto seco no pára-choque. Vi, depois, a sombra escura e morta no asfalto pelo retrovisor, cada vez mais distante, pequena, até sumir. Sem nada que pudesse fazer, chorei e segui viagem.

Voltávamos do interior do estado, onde visitamos alguns familiares e eu dirigia por uma estrada paralela enquanto as duas dormiam no banco de trás.

E pensando no momento que acabava de viver, me preocupei com algo mais que pudesse nos acontecer. Viajamos por essas estradas tantas vezes e, é bem verdade, não tenho noção real dos riscos que corremos. Olhei de relance para as duas, mãe e filha, que dormiam desconfortáveis e temi pela responsabilidade de levá-las para casa em segurança.

Eu carregava um tesouro precioso. Confiadas à minha direção, estavam as coisas mais importantes que tenho nessa terra e, bem, eu peno em admitir, mas não sou dos melhores motoristas que conheço – e isso já é um auto-elogio – o que torna o desafio um tanto maior.

Exagerando outra vez nas analogias, eu me sinto como um daqueles guerreiros de histórias épicas que saem em cruzadas pela terra com a missão de transportar algum tesouro precioso para o rei. Levam consigo uma carta de recomendação, viajam em nome da coroa e estão dispostos a abrir mão da própria vida em favor de algo que não lhes pertence mas pelo qual, não se sabe a razão, são apaixonados.

Mas, peno em dizer, eu não sou um guerreiro habilidoso. Não manejo bem uma espada, não sei montar cavalos e meu reflexo não é apurado. O fato é que às vezes eu falho nessa missão. Piso feio na bola. Deixo cair, desprotejo, penso mais em mim mesmo do que nelas. Mas, apesar de minhas limitações, a carta do rei sempre me faz lembrar a que vim. Seu olhar não me deixa esquecer que são suas filhas que estão sob minha responsabilidade.

Não, não pense que isso é um desabafo arrependido. Pelo justo contrário, eis aqui meu voto de fidelidade, minha alegria, o reconhecimento, afinal, do que entendo por realização.

Descobri que longe de ser um fardo, essa missão consiste em minha grande alegria. E não é que a minha visão seja limitada ou que me falte ambição, eu só notei que tenho em casa o tesouro mais nobre que jamais poderia sonhar conquistar. E empenhar a própria vida em favor desse prêmio, talvez seja o mais heróico dos gestos que poderei ostentar.

O herói da vida pequena. A refeição em casa. As férias em família. O tempo juntos sentados no sofá da sala vendo o mesmo desenho pela trigésima vez. As brincadeiras simples na rua. O cineminha com pipoca de sexta à noite com a eterna namorada. Deus, a família, os amigos. As melhores coisas da vida não nos custam sequer um centavo.

Que feito pode ser mais nobre do que dar vida a um ser humano, guiar seus primeiros passos e conduzi-lo em sua existência para que um dia seja alguém melhor do que eu jamais sonhei ser? O que pode ser melhor do que amar uma linda mulher e empenhar a vida em protegê-la, sustentá-la e lhe ser fiel? Que massagem no ego pode ser melhor do que descobrir que duas lindas garotas te acham o cara mais bonito, forte e bacana do planeta, apesar da barriga proeminente, da barba por fazer e da toalha molhada largada sobre a cama (tá bom, eu admito que exagerei no bonito, forte e bacana)? Que honra maior em ver multiplicar o fruto desse amor (leia-se netos) e acompanhá-los crescendo saudáveis, santos, unidos e correndo pelo quintal da nossa casa?

Bom, parece simples, mas não é simplório. Parece pouco nobre, talvez porque seja tão comum a todos. Parece não dar nenhuma fama e reconhecimento público, e realmente não dá mesmo. Mas eu acredito sinceramente que nada pode fazer um homem mais feliz.

Penso nisso tudo agora, seguindo de volta pra casa, para que um dia eu não precise ver as coisas importantes que deixei para trás. Para que a vida que eu sempre quis não seja atropelada pelas escolhas erradas que fiz, como uma sombra na escuridão, pequena e distante no retrovisor.

Eu sigo viagem. Eu, meu cavalo, a carta do Rei me incumbindo da nobre tarefa de ser pai e um tesouro incalculável em meus braços. Sim, essa é a grande missão do guerreiro. Habilidoso ou não, sigo satisfeito em saber que já carrego comigo o grande prêmio da vida.

Essa crônica faz parte da série “Paternidade”:

1. A explosão da vida
2. Versos infantis dessa minha felicidade
3. As grandes conquistas do homem
4. As cegonhas não existem
5. O amor, um calção e gestos primitivos (cinco minutos antes de minha vida mudar)
6. Colos, cólicas, chavões e uma crônica de continuação
7. Na falta do que dizer
8. Pequenas lições
9. Doentes curando doentes
10. Primeiros passos
11. Sobre a velhice, rotinas e prioridades
12. Música para os meus ouvidos
13. E o futuro, a quem pertence?
14. Versos infantis 2 – alegria, tristeza e distração
15. De mãos dadas
16. Sobre ser pai no Dia dos Pais
17. A doce presença

O centurião

por Luiz Henrique Matos

Cafarnaum, Galiléia – Ele sabia que aquilo soaria absurdo, mas já não tinha alternativas. Estava em jogo sua reputação, seu nome, a posição na hierarquia do exército romano. Mas a força de seus sentimentos era maior do que o orgulho e o patriotismo. Seu empregado mais estimado estava à beira da morte e aquele a quem tantos chamavam de Messias vinha passando pela cidade. Constrangido, clamou pelo favor de seus amigos judeus. Eles não haveriam de lhe negar o pedido, sabiam de sua compaixão por seus valores e sua crença. Os homens atenderam, foram ao encontro de Jesus e insistentemente lhe pediram para que fosse até a casa do centurião e curasse seu servo, prestes a morrer. Jesus se compadeceu e atendeu sua súplica. O homem, em sua casa, angustiava-se: “O que eu fiz? O que eu fiz? Quem sou eu para pedir ao Filho de Deus para que cure meu servo?”. O mestre ainda caminhava em direção à residência do centurião quando outros amigos lhe vieram ao encontro. Traziam um recado: “Senhor, não te incomodes, pois não mereço receber-te debaixo do meu teto. Por isso, nem me considerei digno de ir ao teu encontro. Mas dize uma palavra, e o meu servo será curado”. Jesus parou, refletiu, admirou-se: “Nem em Israel encontrei tamanha fé!”. O centurião, um estrangeiro, que não era judeu e tão pouco membro daquele sistema de crenças, em seu desespero, em sua compaixão pela dor de seu empregado, ele entendeu a verdade sobre Deus, intercessão, fé e humildade. Era um homem justo, de bom coração e isso era o que importava. Quando os amigos voltaram para casa, o servo estava restabelecido.

(Lucas 7:1-10)

Jesus não tinha inimigos

por Luiz Henrique Matos

Quando ensinava nas sinagogas, pelos caminhos, pelas cidades ou à beira do mar, eles estavam ali. Sempre presentes, contrastavam com a multidão sedenta e admirada. Assistindo inconformados às manifestações e milagres, punham-se aqueles homens de roupas impecáveis, postura superior e a expressão fria da condenação nos olhos.

Eles o odiavam. Queriam entender as motivações por trás de tudo aquilo e revelar sua farsa. Queriam pegá-lo desprevenido, ter um motivo para expor sua fraqueza e a mentira de seu discurso. Mas nunca conseguiram.

Mas ele não, ele não os via como adversários. Jesus não tinha inimigos. Fariseus, escribas e sacerdotes não eram pedras em suas sandálias, atrapalhando a caminhada. Ao contrário, eles também eram o alvo de sua mensagem. Jesus os via como filhos que teimavam em não reconhecer suas próprias limitações.

Ele os conhecia, sabia quem eram, compreendia que seus corações estavam repletos de indagações a seu respeito. Eram como os tantos outros que o seguiam, mas ao ouvir sobre a graça, a esperança e o amor de Cristo, não podiam acreditar naquilo como verdade. Não era possível, isso contrariava toda a história e a base de suas crenças.

Jesus viveu por eles também. Ele sabia que não o aceitariam, mas ainda assim, ele os amou e consagrou-se por aqueles homens.

Envoltos pela superficialidade de seus cargos e posições, eles queriam calar-lhe a voz para que o “falso messias” não atrapalhasse seus costumes e tradições. Aquele Jesus, um incendiário social, precisava parar com seus milagres e o discurso que lhes tirava o domínio sobre o povo.

Eles o perseguiam. Eles o odiavam. Eles queriam entender. Tinham dúvidas. Tinham medo. Eles queriam matá-lo… Ele queria morrer por eles.

Eles desejavam tirar-lhe a vida, mas Jesus sonhava levá-los a viver uma nova vida ao seu lado.

E assim se cumpriu.

Na cruz, Jesus morreu pela humanidade toda. E ele morreu pelos fariseus que tramaram sua prisão, pelos sacerdotes judeus que lhe cuspiram no rosto, pelos guardas que o açoitaram, pela multidão que ainda há pouco o seguia fervorosa, mas que agora, com o mesmo fervor, o condenava aos brados: “crucifica!”.

E ainda ali, inabalável, ele amou.

“Porque Deus amou o mundo…” (João 3:16).

Amou porque essa era a sua condição, porque esse é o seu olhar pelos homens, esse era o presságio da história que ele já conhecia. Pendurado numa cruz, sangrando e ofegante, Deus não se ofendeu com os que lhe impuseram essa dor.

Não podemos saber o que lhe passou à mente. Nunca compreenderemos como é possível que isso tenha acontecido. Jamais seremos capazes de entregar nosso filho para morrer no lugar de pessoas que o perseguiram. Mas ao olhar seu gesto, pelo lampejo da história, pelo fato consumado, sabemos que esse amor nos comprou e que Deus, o próprio Criador, nos adotou como filhos.

Porque Deus não tem inimigos entre os homens. Ele não entra no campo de batalha para guerrear com sua criação. O Pai não olha nossas vestes, não se importa com nossa posição social ou opinião a seu respeito, porque isso não é condição para seu amor paterno e eterno. Nós somos o alvo do seu sacrifício.

“Deus nos amou primeiro.” (1 João 4:19).

Jesus ama os fariseus, os políticos, os ladrões, os ateus, as prostitutas, os publicanos, os pecadores, os discípulos, os traidores. Ele ama até os cristãos.

Deus não se importa com o que somos, ele se importa com quem somos. Ele não quer saber como estamos, ele quer que estejamos nele, guardados em seus braços, remidos por seu amor, lavados em sua pureza, atentos à sua voz, felizes, juntos, em Deus.

Nunca o entenderemos, não conseguimos racionalizar seu gesto, não sabemos como retribuir. Por isso, nos prostramos e adoramos.

“Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.” (1 João 4:16).

Julgando um livro pela capa (e pessoas por sua opção religiosa)

por Luiz Henrique Matos

Um dos meus passeios preferidos é freqüentar livrarias. A Manú, minha mulher, é quem sofre com esse hábito. Não importa onde estejamos, andando pela rua, passeando num shopping ou viajando, se eu vejo uma livraria, invariavelmente paro e gasto um tempo folheando, lendo as orelhas e levando algum exemplar na bagagem (se vou ler ou não, aí já é outro papo).

Mas, não bastasse, o hábito traz consigo um defeito: decido se vou comprar ou não um livro olhando para a capa. No fim das contas, contrario o velho ditado e a capa é o critério de desempate entre levar um ou outro.

Isso é terrível. Penso que essa é a razão de ainda não ter lido as “Confissões” de Santo Agostinho ou “Sobre a brevidade da vida” de Sêneca, que impressos naquelas capas duras, escuras e mal diagramados pela editora, ficam relegados à eterna possível próxima leitura na minha prateleira. Um pecado.

Mas o pior não pára por aí (bem, esse é um texto bastante previsível, imagino. Eu não gastaria o seu tempo falando sobre capas de livros). A coisa feia mesmo é que eu também classifico as pessoas pelos rótulos que estampam. E acho que sei muito sobre elas e sobre sua “qualidade”, apenas pelo julgamento pessoal.

Nosso mundo, cada vez mais, se fundamenta na divulgação e no consumo de informações superficiais. Já não lemos as notícias, apenas as manchetes e os resumos dos jornais. E somamos a isso a conversa na hora do café, a opinião do cobrador de ônibus e a sabedoria do vizinho que conhece a vida alheia como ninguém. Tudo isso misturado de qualquer jeito e, pronto, opinião formada. Somos influenciáveis. Nossas verdades são muito relativas. E, em grande parte, nossas crenças são baseadas no senso comum do que a maioria concorda como sendo certo ou errado.

Mas, bem, esse defeito tem um nome feio à altura: preconceito. Muito menos grave com os livros do que com pessoas. E o perigo maior do preconceito (ou talvez a sua causa primária) é a generalização. É, no fim das contas, a forma como esse julgamento molda minhas escolhas, opções de vida e a forma como trato meu próximo. Tomo como comparação o passado, os gestos semelhantes de outros que também erraram e, com base nisso, me acho no direito de julgar e condenar alguém. Isso me dá um medo danado de mim mesmo.

E para ficar só no campo das opções religiosas, tomo como base o noticiário da última semana. Eu assisto ao Jornal Nacional e, só por ele, já me sinto no direito de apontar o dedo para a barriga do vizinho que ficou à mostra. Ah, não, esse vizinho não é o fofoqueiro de dois parágrafos acima, esse é o outro, o evangélico com quem tomo o elevador pela manhã, cuja aparência e excesso de simpatia deixam bem claros, para mim, o coitado que é. Bem, não tão coitado assim, penso em seguida, até porque é voluntária a sua escolha em freqüentar um lugar que lhe toma duas noites da semana com seus cultos e lhe garfa 10% do seu salário – dinheiro esse que certamente vai para o bolso do pastor e vira, dali um tempo, uma gravata de seda, um carro zero quilômetro ou sei lá, um jatinho (tem tantos pastores querendo comprar jatinhos ultimamente). Pastor esse, que deve ser um desses caras sem formação acadêmica que, não sabendo mais o que fazer da vida e com boa lábia, se viu entre um emprego vendendo filtros Europa ou a chance de “vencer na vida” tirando dinheiro de gente como o meu vizinho.

E então, depois do meu raciocínio genial, eu penso por não mais do que um minuto: “é, parece fazer sentido… provavelmente é isso mesmo… puxa, é claro que é isso!” E amanhã, quando encontrar o vizinho fofoqueiro no corredor (esse também devidamente rotulado), vou ter assunto para falar do caso dos pastores que roubam dinheiro por aí e citar o exemplo do vizinho evangélico, um coitado, que deve estar alimentando esse tipo de gente corrupta.

Opa, mas peraí, eu sou evangélico!

E, perdido num instante de consciência – porque, afinal, tenho para mim que não sou um “coitado” manipulado –, fico achando que tal como odiaria ser visto da forma com que julgo minha companhia de elevador, talvez não faça sentido eu ficar olhando para as pessoas a partir das suas aparências.

Volto o pensamento para a mensagem essencial do livro que digo ser minha base de vida (e do vizinho também) e lembro-me de algo tão simples como “ame seu próximo como a si mesmo e a Deus acima de todas as coisas” ser o resumo de tudo o que recheia aquele exemplar de capa escura, letras miúdas, mais de mil páginas e nenhuma, nenhuma figurinha!

E eu bato na testa tentando firmar uma verdade para mim mesmo: “amor, Henrique, amor! O seu Deus é amor”. E faço uma regrinha para pregar na porta da geladeira, repetir diariamente e nunca mais cair no mesmo erro:

Nem todo pastor evangélico é desonesto.
Nem todo padre é pedófilo.
Nem todo pai-de-santo é safado.
Nem todo rabino é avarento.
Nem todo muçulmano é terrorista.
Nem todo ateu é insensível.
Nem toda pessoa que tem uma opção religiosa é intelectualmente inferior.

Aproveito ainda esse instante para anotar que eu preciso lembrar que somos todos iguais, que todas as pessoas foram criadas por Deus e moldadas à sua imagem e semelhança. E não, também não posso esquecer que Deus não é religioso, não é católico, evangélico, espírita ou hindu (mas não se animem todos porque ateu, seguramente, ele não é).

E, como iguais, meus vizinhos e eu temos os mesmos direitos (de sermos respeitados por nossas escolhas) e deveres (de respeitar o direito alheio). Talvez, se não cruzássemos essa linha, viveríamos em harmonia e até, quem sabe, a relação entre nós iria além do superficial “bom dia” trocado no elevador e descobriríamos, no fim das contas, que alugamos o mesmo tipo de filme na locadora, que temos a mesma profissão, que nossas crianças brincam juntas no parquinho, que torcemos pelo mesmo time e, porque não, lemos os mesmos livros.

Porque, afinal, para livros e pessoas, independentemente da capa que os envolve, o que tem valor é o seu interior.

“Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.” (Mário Quintana – poeta cujos livros não li porque as capas não tinham tanto apelo. Até agora).

A doce presença

por Luiz Henrique Matos

Ela tem a capacidade sobre-humana de fazer desaparecer todo problema.

Do alto de seus 80 centímetros ela torna pequenos todos os meus grandes assombros. Sua voz fina e miúda e o olhar vivo são capazes de curar algumas dores.

Estou deitado no sofá-cama do quarto de hóspedes aqui de casa. Quer dizer, era pra ser um quarto de hóspedes, mas as caixas amontoadas, livros e revistas pelos cantos dão conta da bagunça. Mudamos recentemente e, como em toda mudança, algumas coisas ainda precisam de ajustes. O que deveria ser um quarto, por razões evidentes, ainda não é.

Eu também. Deveria ser uma coisa, seguindo um plano bem arquitetado, mas a bagunça e ausência – ou excesso – de certos valores me descaracterizam. Deitei-me e calei. Quieto. Não é um dia bom.

De repente ela aparece na porta. Pára, olha, sorri e entra correndo (ela corre o tempo todo, saltita, mesmo quando quer ser sorrateira). Observo. E esqueço de tudo por um instante e desfruto o momento de cumplicidade, sem que nada precise ser dito. Nessa hora, ela, assim como eu, não exigimos nada um do outro. Simplesmente nos acomodamos em paz. E o estar é suficiente.

Algo nela me faz perceber quão pequeno eu sou tantas vezes.

E como era antes? Como era a vida sem ela? Já nem sei mais. Sei que toda a existência ganhou um sentido especial, único e enobrecedor com um bebê habitando nossa casa. Mas, peraí, mas não era ela quem deveria depender de mim?

Às vezes eu me pergunto o porquê dessa relação. Qual a razão desse amor? Entenda, esse não é o tipo de amor que se escolhe, ele é instintivo. Filhos não são o tipo de gente que você vá conseguir moldar para incluir no seu padrão de preferências. Eles simplesmente chegam, se impõem em nossas vida e tomam um espaço maior do que poderíamos imaginar que eles deveriam ocupar. E nós os amamos incondicionalmente, sem achar que nos devem alguma coisa por isso (mesmo pensando no valor absurdo da parcela da escola e naqueles brinquedinhos do Mcdonalds que são descartados na mesma tarde).

Tenho repetido de maneira até cansativa que ser pai tem me ajudado a ser um filho melhor para Deus. Bem, eu não diria melhor, mas talvez um pouco mais consciente do sentimento dele e de suas decisões ao longo da história – dentro, é claro, das minhas limitações.

Mas, observar esse relacionamento, me faz pensar nas razões que motivaram o Deus Altíssimo, o Todo Poderoso, o Senhor do Universo – e todas esses substantivos e atributos que escrevemos em letras maiúsculas em sinal de respeito e reverência – a criar o homem, esse ser tão fraco, confuso, falível e imperfeito.

Eu sei o quanto erro na maioria das minhas escolhas, reflito sobre minhas dúvidas e também sobre o quanto ele tem todas as respostas e fico pensando: porquê eu? Porque ele decidiu me amar? Porque ele se faz pequeno e restrito para que possamos compreendê-lo e não se irrita pelo fato de usarmos essa condição para questioná-lo e restringi-lo à nossa pequenez? Porque criamos religiões e costumes formais quando ele só queria que estivéssemos por perto, ao alcance de seu cuidado?

Bem, minhas questões existencialistas não passam pelo meu relacionamento com a Nina e eu sei bem que esse texto já tomou um rumo pouco agradável. Mas no fim, o que estou tentando compreender e expor é que Deus, podendo criar qualquer coisa que desejasse, concebeu o homem e, em nós, escolheu imprimir sua imagem e semelhança. Nos deu um espírito, nos fez conscientes de nossos atos, pôs um coração pulsante de vida e sentimento em nosso peito.

Eu sei que jamais entenderei suas razões, mas sou grato em pensar que ele nos fez para acabar com a solidão e o vazio do mundo. Fico feliz e um tanto intrigado ao pensar que é possível que Deus não quisesse estar só ou não sentisse que simplesmente ser Deus fosse suficiente para si e desejou criar-nos para extravasar esse amor, para que pudéssemos entender a essência do que ele é quando sentíssemos uma parcela do que ele sente.

Talvez as coisas sejam mais simples do que pensamos. Geralmente são.

Deus é amor. E quando amamos, nós o entendemos. Quando amamos plenamente, nele estamos. E é esse amor absurdo, que não se explica, não se escolhe, que chega e se impõe, que ocupa um lugar no peito sem que possamos determinar sua parcela. É como a minha própria criação invadindo meu quarto bagunçado, acabando com o silêncio e a solidão. É como o fruto do meu amor, me olhando nos olhos, trazendo alegria para esse dia cinzento, tendo em si a capacidade sobrenatural de acabar com tristeza…

É um filho desinteressado entregando-se nos braços do pai.

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Versos infantis 2 – Alegria, tristeza e distração

Conchas (Rob Bell)

Um dos bons vídeos de Rob Bell e seu projeto Nooma.

Cochilando nas tempestades

por Luiz Henrique Matos
(Tópico de reflexão para o grupo pequeno em 1/4/9)

“Certo dia Jesus disse aos seus discípulos: ‘Vamos para o outro lado do lago’. Eles entraram num barco e partiram. Enquanto navegavam, ele adormeceu. Abateu-se sobre o lago um forte vendaval, de modo que o barco estava sendo inundado, e eles corriam grande perigo. Os discípulos foram acordá-lo, clamando: ‘Mestre, Mestre, vamos morrer!’ Ele se levantou e repreendeu o vento e a violência das águas; tudo se acalmou e ficou tranqüilo. ‘Onde está a sua fé?’, perguntou ele aos seus discípulos. Amedrontados e admirados, eles perguntaram uns aos outros: ‘Quem é este que até aos ventos e às águas dá ordens, e eles lhe obedecem?'” (Lucas 8:22-25).

No meio da tempestade, Jesus cochilava. Em meio ao desespero, o medo da morte, na violência do vendaval, Jesus pergunta serenamente: “onde está a sua fé?”

No trajeto da vida, as tempestades sempre existirão. O que precisamos saber é que, seja qual for a circunstância, podemos confiar naquele que “aos ventos e às águas dá ordens, e eles lhe obedecem”.

Sem perder a reverência

por Luiz Henrique Matos

Pedro o olhava e via o amigo com quem tantas vezes repartiu a manta durante as vigílias e viagens pelas madrugadas. Maria o olhava e via o filho a quem educou, alimentou e repreendeu quando seguia distraído brincando pelo vilarejo. João Batista o olhava e via o primo, companheiro de jogos durante sua infância.

E todos o chamavam Senhor e Cristo.

Era Deus. E era um homem tão cativante e próximo que a relação com ele chegava a ser ambígua. De Pedro que o negou, na dúvida sobre sua postura de submissão diante da morte iminente. Maria que lhe pediu favores acreditando inocentemente na sua autoridade de mãe. E João, que estando preso, pediu que lhe perguntassem se era ele mesmo o Messias.

Mas ao olhar em seus olhos, ao ouvir seu ensino, sentir seu toque… em sua presença ninguém fica indiferente. Diante do Deus vivo é impossível não ser reverente, cair de joelhos e o amar sem saber de onde ou porquê. Não há como não ser revirado pelo sagrado, o divino, o poder absoluto, o soberano, a verdade, a sabedoria, o amor. Deus em sua essência. E adorá-lo.

É consolador saber que ele está sempre tão perto. Um pai presente e carinhoso, um amigo fiel, uma voz de alento que nos dirige os passos. Mas em meio à descoberta do amor e da graça, não podemos perder de vista que ele é Senhor.

É nessa hora que, mesmo sabendo que Deus deseja um abraço de seu filho pródigo, a única reação possível é prostrar-se diante daquele que é, do Deus vivo e render-se a esse seu amor absurdo. Ele é Deus.

“Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai.” (Filipenses 2:9-11).

De mãos dadas

por Luiz Henrique Matos

De mãos dadas

De mãos dadas

Se tem algo que eu gosto é segurar a sua mão. Não importa a ocasião, ao atravessar a rua, sentados nos sofá, ajudando a fazer força enquanto ela usa o banheiro ou simplesmente para dirigi-la em alguma situação. Aquela mãozinha envolvida na minha me ajuda a ter a dimensão da sua dependência – e o meu desejo de sempre garantir que ela saiba disso. Os dedos finos, a pele delicada, a palma da mão morna e úmida de suor, a minha certeza de ter o que é meu por herança.

Por uma mão ela arrasta uma boneca, um copo de leite, um lápis de cor com a ponta gasta. Por outra ela se arrasta, segue cegamente os passos daquele em quem confia e lhe dirigirá os passos.

Não preciso dizer que ela tem crescido mais rápido do que eu gostaria. Daqui a pouco ela será maior do que eu, mais inteligente, independente e, apesar de mais magra – isso não é nada difícil dado o meu último indicador na balança da farmácia – eu já não conseguirei carregá-la no colo.Mas não importa o quanto ela cresça, acho que sempre terei a sensação de que sua mão cabe dentro da minha e que, desse jeito, continuarei sendo o “papá” a quem ela recorre quando precisa de algo, quando deseja brincar, quando quer descansar.

Gosto de não precisar ouvi-la dizer nada e apenas erguer os braços com a mão espalmada tendo a certeza de que eu retribuirei. Gosto de sentir os dedinhos se entrelaçando aos meus, me dando a sensação tátil do mesmo sangue que somos. Não gosto de vê-la com medo, chorando, mas corro e me precipito em segurá-la, mãos erguidas em minha direção, para que saiba que sempre, sempre estarei ali para ampará-la. Faço tudo para estar.

Imaginar minha cria sozinha, abandonada à sorte, provas e desafios que esse mundo descarrega sobre nós não é dos sentimentos mais agradáveis. Chego a pensar que gostaria de tê-la nos braços o tempo todo. Mas sei que não é possível e, por hora, imagino também que não é o mais apropriado. Ela precisa viver, vai precisar aprender, vai ter que se virar sozinha. O coração debate com a razão e preciso aprender, eu, que o melhor a ser feito é o que é melhor pra ela. Dura realidade.

Ela já toma algumas decisões sozinha. Já fala por si. Ela já sabe andar em alguns lugares que antes lhe pareciam difíceis. Agora ela pedala o velotrol e já não depende de mim para empurrá-la. Eu estufo peito, coruja, ela tem aprendido coisas comigo – e eu ainda não me toquei que “velotrol” é uma palavra que morreu na minha infância e muito provavelmente ela nunca usará na vida!

Mas ainda tenho coisas a ensinar e minha alegria é estar com ela para isso. Caminhando de mãos dadas, fico feliz em poder andar devagar, no seu ritmo e limitações, para lhe mostrar o caminho que eu vejo à frente. Falo da forma mais simples possível para garantir que ela me entenda. Conto histórias e imagino coisas para que o conhecimento lhe seja algo claro.

Quero percorrer ao seu lado as trilhas que já conheço. Quero que sua infância seja recheada das brincadeiras, da ingenuidade e da inocência que eu acho que teve a minha. Quero que saiba que ao contrario do que argumenta um dos seus tios, torcer para o São Paulo é definitivamente uma boa escolha. Quero que ela conheça o Deus amoroso que eu conheço e o ame mais do que eu. Quero aprender tabuada, logaritmos, pi, raiz quadrada e alguma coisa de física – que nunca me entraram na mente – para poder ajudá-la a estudar nas provas do colégio. Quero, a contragosto e sem a mínima pressa (fique isso bem claro e documentado), poder conduzi-la até o altar ao encontro do homem de sua vida e que se realizem, que descubram juntos o amor e a razão do que os dois nasceram para ser: um. Quero repartir minhas experiências e aprendizados para poupar-lhe esforço e sofrimento, mesmo sabendo que, assim como eu fiz um dia, ela vai me achar um tolo antiquado e ignorar a maioria desses conselhos – e eu não me sentirei vingado quando, depois de se dar conta, ela falar que eu tinha razão. Quero mesmo que ela tenha mais razão do que eu, porque isso também mostrará que foi mais longe do que o pai.

E só quero ainda, assim de forma egoísta mesmo, que ela saiba de tudo isso e quando afinal descobrir que não sou tão grande, forte, inteligente quanto pensou a vida toda e então souber que o herói de sua infância é um pobre homem falível e cheio de pecados, que ainda assim se sinta orgulhosa em me chamar de pai. E que eu estarei sempre ali.

É irônico, talvez, saber que um filho não conhece a fraqueza de seu pai até que os anos passem e finalmente os corações se encarem e tudo venha a tona.

É irônico, certamente, depois de alguns anos de convivência mais íntima, saber que o meu Pai, o Deus da minha vida, perfeito e soberano, tem justamente no amor a sua fraqueza. E sensibilizado pelos corações quebrantados, pelas atitudes rebeldes, pelo choro desesperado, pela rendição cega e confiante dos filhos, ele se move, ele se rende, se entrega, encarna, perdoa, carrega, refaz. Ele estende a mão.

O Deus amor é Pai.

E, bem, talvez ele não seja são-paulino, talvez nunca me explique pra que raios servem os logaritmos, talvez tenha me deixado só por um tempo para eu aprender a andar sozinho. Mas, quando estendo minha mão espalmada, morna e úmida de suor para o alto e diante dele estou… arrependido, dependente, grato, resignado, com medo ou simplesmente estou, posso sentir a sua mão, forte e também delicada, e os dedos entrelaçados aos meus me dando a segurança de sua presença e a afirmação eterna de que sou filho, fruto do seu sangue.

Cenas natalinas: Antes e depois

Por Luiz Henrique Matos

“No frio, no escuro, entre os montes pregueados de Belém, o Deus que não conhece nem antes nem depois adentrou o tempo e o espaço. Aquele que desconhece quaisquer fronteiras deixou-se restringir por elas: o chocante confinamento à pele de um bebê, as atemorizantes limitações da mortalidade. ‘Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação’, diria posteriormente um apóstolo; ‘Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.’ Mas as poucas testemunhas oculares não viram nada disso. Elas viram uma criança lutando para fazer funcionar pulmões que nunca tinham sido usados.” (Philip Yancey, “Descobrindo Deus nos lugares mais inesperados”)

Um ano já havia se passado e eles mal se deram conta disso. Foi tudo absurdamente tão depressa que o tempo parecia ter consumido e embaralhado os fatos. Naquela noite fria, o casal acolhia-se em sua casa, nos fundos da carpintaria e, em família – sim, agora eram uma família completa e essa era sua maior satisfação – se preparavam para mais uma temporada do duro inverno da Galiléia.

Sim, era aquela uma data de festa para o bom José e sua Maria. Deus tem cuidado de nós, ele dizia. Mas nenhum dos dois podia evitar o olhar curioso e contemplativo ao sondar o pequeno Jesus crescendo em sua casa.

Foi um ano bom, pensou José enquanto se levantava para recolher qualquer coisa sobre a mesa e observava sua mulher amamentando a criança. Mas ele se dava conta do que se passava a sua volta e se preocupava. O homem, transparente que era em suas expressões, não conseguia esconder o peso da dificuldade que era sustentar sua casa no pequeno povoado em que viviam. E tinha medo. O medo de todo pai em trazer o bom sustento para o lar, em prover sempre o melhor. E o medo único do servo, o judeu que não aprendera de seus mestres como é, afinal, que se cria o filho de Deus.

Dará tudo certo, José, tenha paz homem. A pequena Maria sempre o acalmava. Ele admirava sua confiança. Que mulher incrível. Mas… Senhor, como será daqui dez ou vinte anos? Como sucederá essa história?

Jesus crescia bem. Era um bebê cercado de amor e cuidado. Às vésperas de seu aniversário, já ensaiava os primeiros e trôpegos passos, já balbuciava as expressões fundamentais: ma-mãe… papa… Aba!

E naquela noite, se passava um ano da viagem a Belém e o pernoite na estrebaria, um ano que brilhou no céu a estrela, um ano que José recebera um filho como herança de Deus. A plenitude dos tempos. Naquela noite, a família se reconfortava em casa, sem saber ao certo a proporção e grandeza do que tinham em seu colo, sem saber que viviam o tempo e o dia que dividiria e mudaria toda a história da humanidade.

Era Natal.

O dia em que o mundo todo então iria parar para sempre, e recordar a chegada entre os homens do Messias, do Salvador, o Cordeiro Santo, Filho do Homem, amigo, o princípio e o fim, mestre, Senhor, o bom pastor, o Deus vivo entre nós, uma criança nos braços de José e Maria.

Nessa noite, em que ainda se pode ouvir o canto dos anjos ecoando nos céus: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!”

Antes de Cristo, depois de Cristo, em Cristo.

Cenas natalinas: Noite em Belém

por Luiz Henrique Matos

Por Yeshi, pastor de ovelhas em Belém, ano 0 da era cristã:

“Era noite, como fora outras tantas daquele ano. Estávamos no campo cuidando do rebanho e o silêncio da madrugada fazia o frio parecer ainda mais duro. Às vezes o vento vinha forte, deitando o pasto, movendo os sinos de algumas ovelhas e queimando a pele do rosto. Recostados nas pedras do monte, nos revezávamos num sono superficial.

Foi então que repentinamente apareceu aquele homem subindo da parte baixa, vindo do lado oposto da cidade. Alto, branco, iluminado pela luz radiante da lua cheia e de uma estrela que brilhava absurdamente intensa. Alguns pastores ao meu lado julgaram ser um peregrino, outros um ladrão. Ele se aproximou, saudou-nos com um aceno e parou à distância de alguns metros. Confesso que temi. Então tirou o capuz, olhou-nos a cada um e em uma atitude de euforia anunciou com sotaque que até agora não consigo identificar: ‘Não tenham medo; trago-vos a notícia mais feliz e que se destina a toda a gente! Esta noite, em Belém, a cidade de David, nasceu o Salvador – sim, o Cristo, o Senhor. É assim que o reconhecerão: encontrarão a criancinha envolvida em panos e deitada numa manjedoura.’.

Corremos. Eu já nem me lembro dos instantes posteriores ao que ele disse. Do que falava, afinal, aquele homem? Era um anjo, disse um dos nossos. Subiu entre outros ao céu, entoando um cântico de louvor. Ó Deus, eu não lembro!

do pasto, depois a terra da estrada, até que chegamos à aldeia em Belém, para onde indicou que fôssemos. Ofegante, cansado, eu arfava. Pensava nas minhas ovelhas. Com quem as deixei? E se uma delas fugir? É inverno, preciso tosquiar as lãs. O que estou fazendo nessa aventura? Seguimos ao passo da noite, num ruído intenso de vozes, de sandálias pisoteando a grama.

Avistamos o local, diminuímos o passo. Pelas frestas dava para perceber a luz do fogo aceso. Pelo som discreto, pudemos perceber e chegar ao local que o homem indicara: um estábulo!

Sim, eu ouvi o que o homem havia dito, mas… seria mesmo assim? É bem verdade que nos últimos anos minha presença na sinagoga não vinha sendo muito freqüente. As noites no pasto me deixavam com muito sono e mal conseguia me concentrar nas longas rezas. Mas eu me lembro, conheço as profecias, as mais antigas tradições, a esperança de Israel e, não, o Messias viria em Glória, desceria dos céus. Que lugar é esse?!

Não havia anunciação, trombetas, anjos ou louvores. Não chegávamos a uma celebração. Não havia comida ou bebida abundante. Mas, inexplicavelmente, era possível notar que estávamos para encontrar algo especial. Em todo tempo eu me perguntava por que, afinal, eu havia corrido até ali. Mas meu coração explodia no peito. Eu nem sei o que sentia.

Então me acheguei. Então, eu vi. Por entre os animais, um homem de gestos nervosos, coçava a cabeça com fios grisalhos, limpava as mãos com as mangas arregaçadas na túnica que vestia, recolhia água num pote de barro, limpava o suor que escorria pela testa e movia-se zeloso com a mulher. Vi a mulher, uma jovem, pequena, deitada num leito improvisado, exausta, o rosto inchado, os fios de cabelo soltos e embaraçados, o pescoço erguido com o olhar embriagado e inquieto tentando enxergar algo ao redor, a criança. Vi, sim, eu vi uma manjedoura coberta com alguns panos.

Meus sentimentos se confundiam, o estômago parecia revirar. Subia pela garganta um nó que me fazia respirar e soprar o vapor branco da noite fria. E eu sentia calor e calafrios, euforia e medo, esperança e dúvida, decepção e amor. Amor?

Ali, deitado, inocente, os movimentos curtos, frágil, o ruído de choro, um bebê… o Salvador, o Cristo, o Senhor. Nasceu então. Veio ao mundo! Veio? O Bom Pastor, o Cordeiro Santo. Era Deus? Era só um menino. Era Deus!

– Qual o nome da criança? – balbuciei com a voz afinada pelo nervosismo. Em seguida me odiei por ter me manifestado. Quem é que pergunta o nome de Deus? Mas…

O pai nos avistou, virou-se, sondou com estranheza a presença de tantos homens à porta do estábulo. Olhou para a esposa deitada, fitou a criança. Seus olhos marejaram como eu vira poucas vezes antes num judeu adulto. Ele olhou para o céu, avistou a estrela reluzente. Sorriu.

Eu jamais me esquecerei. Naquela noite em Belém, eu ouvi pela primeira vez o nome.

– Jesus… O nome é Jesus.

Então, repentinamente, me veio um cântico à mente. Nem sei de onde me lembrei. Talvez de tempos antigos, talvez dos tais anjos que nem vi no campo. Foi que, posto à cena, meus lábios tremeram e entoaram em gratidão imensa: ‘Gloria a Deus nas alturas! E paz na terra aos homens de boa vontade!’. Hallelujah!”

Na falta do que dizer…

por Luiz Henrique Matos

Faz umas quatro horas que estou tentando escrever algo aqui nessa tela. Já comecei quatro textos diferentes, esse é o quinto. Acho que agora vai. Acho.

O último eu parei duas vezes. Na primeira, para dar a mamadeira para a Nina, que chorou lá do berço pedindo seu leitinho. Altíssima prioridade. Na segunda, também pela Nina, que resmungava os primeiros gemidos dando sinal de acordaria em breve.

Pensei em deixa-la ali no berço, afinal já passam das onze e é hora de bebê estar dormindo. Mas não resisti. Olhei aquele rostinho, aquele olhar de quem acorda e ainda dorme me sondando, o sorriso banguela se construindo no rosto e a mãozinha vindo na direção das minhas bochechas. Ela me aperta. Mão macia. Mas precisa cortar as unhas. Ela pede colo. Peguei-a e vim para a sala brincar. Isso sim, mais importante do que qualquer palavra mal escrita numa tela de computador.

Me veio à mente então uma pérola: mais importante do que as coisas passageiras que depois podem ser feitas, é dar valor ao que passa rápido e quando vê já não se pode mais fazer (éca, ficou péssimo isso).

Ela só tem cinco meses, mas sinto que a cada hora longe de casa, perco um novo sinal de seu crescimento. Ela já tem cinco meses.

Enquanto escrevo, ela me sonda por cima da tela. Sentada na cadeirinha de balanço (que preferiu, preterindo meu colo), olha insistentemente para mim enquanto narro em voz alta as palavras que despejo nesse teclado. Ela gosta. Ela ri timidamente. Ela não está com sono, definitivamente.

Que valor tem o tempo, afinal? Que prioridade tem as coisas tão urgentes, perto do que é mais importante? Quero saber, um dia lá na frente, que fiz a coisa certa. Que as escolhas, as mais simples, foram as que causaram impacto e tornaram nobre e valioso o viver. Que o olhar apaixonante e curioso de um bebê é, no fim das contas, maior do que o prazo das tarefas no escritório, maior do que o sono, melhor do que o melhor clássico de futebol na tv.

Falando em clássico, a música de Ravel toca ao fundo, completada pela trilha sonora do ritmo da chupeta colorida que estala naquela boquinha vermelha.

Ela me olha fundo nos olhos. Como faz a mãe dela, quando quer me dizer algo sem precisar abrir a boca. E vejo nesse olhar sua inocência, vejo minha filha, me vejo, sangue do meu sangue, vejo um bebê, vejo a mulher que um dia virá a ser (e aí já não quero mais ver nada porque isso vai longe demais pro meu gosto).

Agora ela observa a própria mão, abrindo e fechando. Ela raspa as pontas dos dedos no estofado para saber a textura que tem. Aprende algo novo. Ela tenta alcançar algo que está pendurado no arco da cadeira e arrancar dali a todo custo. Ela se revira toda para saber como ficar, cair, não… ixi, peraí, preciso arrumar… ufa, foi por um triz! Ela tenta engolir um brinquedo maior do que sua cabeça. Ela baba pra caramba.

Pensando bem no primeiro parágrafo dessa história, acho que o texto não dará em nada, senão nesse despejar de palavras e sentimentos que, a bem da verdade, não dizem muita coisa para o cristianismo de alguém. Talvez até digam ou sirvam para tratar de prioridades, para pregar uma vida mais simples e despretensiosa, para dizer que as coisas realmente valiosas e divertidas também não estão em nossa conta bancária (ah, mas não mesmo, dirão os endividados mas você entende do que estou falando).Acho que ela é destra. Puxou o pai?

Pensando bem, acho que o melhor a fazer é abandonar esse computador e voltar a brincar com minha princesinha. É, filhos nos dão essa vantagem, podemos voltar a ver desenho animado e brincar de ser criança sem que os outros adultos nos julguem idiotas. Pelo contrario, até acham bonito, nobre, pedagógico, estimula o sei-lá-o-quê da criança. Eu só sei de uma coisa: é bem legal.

Ela tem cosquinhas. Ela gosta do meu colo… (ou talvez não tenha muita opção). Ela gosta de cheirar um paninho, igual aquele personagem do Snoopy. Puxou a mãe? Opa, ela pediu colo. Agora está aqui deitada nos meus braços e com a cabeça recostada sobre meu peito. Nada paga essa sensação. Volto a um raciocínio antigo, mas que me visita toda semana: Deus nos dá a chance de ter filhos para que possamos, numa minúscula fração, entender o que ele sente como pai.

Ela não fala nada às vezes acho que ela acha que fala , só sorri, chora e resmunga de vez em quando. Mas nem precisa, você sabe bem disso. É que… ahn, aqueles olhinhos, aquelas mãozinhas, aquele sorrisinho… bem, isso não tem nada de diminutivo. Na falta do que dizer, o momento diz tudo.Talvez, voltando ao raciocínio do parágrafo aí de cima, talvez isso também seja a grande lição da paternidade divina. Ele contempla, ele prioriza, se enche de orgulho, sofre, ele sabe… sim, sempre sabe e ama sob qualquer condição.

Pensando… bem, agüenta firme aí que eu vou curtir minha cria.