Sete anos e outra vez a eternidade como tema

Seguir a vida dos outros. Se tem uma coisa que o advento da internet trouxe para a vida urbana moderna e que era, até então, privilégio das pequenas cidades e de tempos muito anteriores à própria rede, foi a possibilidade de saber o que se passa na vida das pessoas com quem temos ou tivemos algum vínculo.

Sem julgamento de valor. Especialmente as redes sociais, como o Orkut (até ontem) e o Facebook (hoje e sabe-se lá até quando), que ajudam na busca por parentes distantes, colegas de colégio, amigos de infância e toda uma variedade de pessoas com quem possivelmente não trocaremos um aperto de mãos tão cedo, mas de quem gostamos de saber o que comeram no almoço, onde passaram as últimas férias, o que pensam do trânsito e por quem torcem no futebol, nas eleições, nas manifestações, nas enquetes de reality show e até nas competições de curling das Olimpíadas de Inverno.

Corro disso, confesso. Não é esse interesse pela rotina que me atrai. Não gosto de ficar na janela, olhando pra rua e tentando entender os fatos. Sou nostálgico demais pra isso. Em geral, me distraio, olho para o céu, vejo alguém passando pela timeline e me perco nas lembranças do passado. Admito que minha curiosidade digital é, em certa parte, alimentada pelo que não vejo. Me concentro pensando sobre o espaço de tempo entre a época em que, há 10 ou 20 anos, convivi com aquelas pessoas e sobre o agora, quando os revejo como adultos.

Quem eles se tornaram, essas pessoas? Era pra ser isso mesmo? O menino que empinava pipas, o menino que contava piadas, o que aprontava na escola, a menina que se vestia estranho, a menina mais inteligente da classe, o menino que tinha um videogame em casa – o herói da rua – e o menino que era dono da bola. Fico tentando imaginar se eles se tornaram o que gostariam de ser.

O fato é que, em algum momento da vida, os planos e projetos passam a ocupar espaço em nossas mentes. Talvez exista uma fase na infância em que tomamos consciência do futuro, de que há perspectiva e algo a se projetar. Talvez, quando adultos abordam crianças com a insistente pergunta: “O que você quer ser quando crescer?”.

Crianças não projetam futuro, não fazem planos. Crianças são o que são agora e afirmam querer ser para sempre aquilo que mais as anima nesse instante exato. E você sabe que não estou querendo fugir das minhas responsabilidades como pai e cidadão adulto, mas acredito que tem uma beleza nisso tudo, há graça nessa inocência. Elas não andam ansiosas.

Até que o negócio todo de “ser alguém na vida”, atender uma vocação e perseguir um certo padrão de sucesso comece a ser incutido. E aí, o menino que soltava pipas e queria ser bombeiro começa a ter que pensar no tipo de carreira pretende seguir.

E aí, crescemos. Já estamos mais velhos do que achávamos que seríamos quando achávamos que estaríamos velhos. Será que nos tornamos a resposta que dávamos?

É uma pergunta retórica.

Não que deveríamos. Acho meus sonhos de agora bem melhores do que ser o camisa 3 do São Paulo FC, o Rocky Balboa ou vocalista de uma banda.

Circunstâncias que nos afetam, fatos que nos afetam, a vida que segue o rumo sem que nos preocupemos em ser protagonistas e donos de nossas escolhas. Às vezes, somos vítimas, não temos opção. Mas outras tantas, simplesmente nos conformamos.

Tenho claras para mim e ainda frescas na memória as cenas e momentos da infância. E confesso que guardo em mim o sentimento do menino. Lembro dos medos, dos sonhos, da impressão que o mundo me causava. Lembro que as preocupações eram tão pequenas. Sei que sou continuação dessa existência, consequência das escolhas que fiz. Hoje, carrego uma tatuagem desbotada na perna, barba no rosto, 93 quilos (oscilando) e fios de cabelos brancos brotando em ritmo preocupante. Mas ainda alimento sonhos. Ainda tenho em mim aquele garoto de sete anos.

Daqui alguns dias a minha filha fará sete anos.

E, assustado com a impiedade do tempo, me pergunto como estaremos, a Manú e eu, quando a Nina tiver nossa idade?

Ela dorme abraçada com um coelho e uma tartaruga. Dois bichinhos de pelúcia, não dos mais bonitos, que compramos numa viagem recente de férias. E às vezes, como ainda há pouco, me pego pensando em como ela já está grande, nas coisas que já faz sozinha, nos argumentos e explicações que acredita serem plenamente factíveis para os pedidos mais absurdos, nas pequenas cartas e bilhetes que agora deixa sobre meu criado-mudo, na sua voz lá do quarto, lendo alto os primeiros livros de histórias que alimentam sua imaginação.

Então, só preciso observá-la dormindo por um instante, só ter que pegá-la no colo adormecida no sofá para levá-la para o quarto… e ver toda sua inocência, sua graça, a minha dependência, a nossa pequenez diante da grandeza da vida.

Não pode ser só para agora. Nessas nobres horas, tudo adquire uma dimensão maior. Não consigo acreditar na finitude do ser que somos se resumindo em matéria, num pacote de átomos que existe até que tudo acabe.

E sei que não entendo seus motivos na maior parte das vezes, mas agradeço a Deus. Eu me rendo, reconheço. Cresce em mim a reverência ao eterno que se fez finito, ao Deus que se fez homem, ao Criador que se diz pai. Que traçou a vida com essa riqueza de detalhes e a singeleza necessária para que pudéssemos compreender que está em nós e na intimidade dos nossos lares, a habitação do altíssimo. O universo inteiro numa canção de ninar, a glória divina numa brincadeira no chão da sala.

Aquieto-me quanto ao futuro. Já não importa o que serei ou como estarão meus amigos de infância daqui outros 30 anos. Há beleza ao redor, há grandeza em cada história. Seja a vida fugaz, o dia de hoje é pouco, sei que tudo vai tão rápido. De novo, aquieto, observo minha criança dormindo. A eternidade precisa ser contemplada.

Orações não respondidas

igreja

Era um dia desses de ficar à toa em casa e eu arrumava qualquer coisa num canto quando ouvi a Nina me chamar lá do quarto. Fui ver o que era e ela estava quieta na cama, meio amuada e reclamava de uma dor de cabeça. Dava pena. Queria fazer algo para ajudar mas não gostaria de, logo de pronto, dar algum remédio. Sugeri então que fizéssemos uma oração juntos e que ela esperasse um pouco ali deitada.

Minutos depois, ela saiu da cama e foi até onde eu estava dizendo que a dor havia passado. Animado com a oportunidade de ensinar para minha filha os sólidos fundamentos de fé que tantas vezes me são fracos, comecei o discurso:

– Está vendo, filha? Quando a gente ora, Deus nos responde.

– É, pai.

Três segundos de silêncio até ela disparar:

– Mas, pai, eu já pedi um montão de vezes para Deus me dar asas e ele nunca me respondeu.

– Asas?

– É, para eu poder voar. E pedi também pra eu poder mandar um dia mas ele não deixa.

– Mandar?

– É. Poder mandar em você e na mamãe, só um dia.

Orações não respondidas.

Certo domingo, um pastor muito querido da nossa comunidade nos visitou para ensinar e, dentre tantas coisas marcantes, disse algo que lembro com frequência de repetir para os outros: “Quando Deus nos diz não, ele não está nos privando, está nos protegendo”.

A Nina pede para comer mais um prato de sobremesa, ela pede para ficar acordada até mais tarde, ela quer ter amigas e amigas por perto todos os dias e noites, quer faltar na escola às vezes, ela quer ver TV além do tempo combinado, quer brincar, quer mais uma, só mais uma história antes de dormir. Ela quer providências inofensivas e também quer feitos inalcançáveis. Em geral, me pede coisas que posso dar. Mas em muitos casos eu preciso dizer não.

Às vezes, ela me faz perguntas que não tenho condições de responder, ela quer motivos quando eles não existem, quer respostas que não sou capaz de lhe dar ou que, como adulto, sei que ela ainda não está preparada para ouvir.

E não é que eu tenha qualquer satisfação em ver minha filha frustrada. Sou tentado, quase todas as vezes, a atendê-la só para ter de volta aquele sorriso, um abraço e o beijo de gratidão na bochecha. Entretanto, deixar de atender o seu pedido não significa uma privação, mas cuidado. Minha negativa para algo que lhe parece tão legítimo e saudável, é porque eu sei que o melhor para ela, certas horas, é apagar a luz e ir dormir, é não abusar do açúcar, é não receber uma satisfação.

Quase sempre adoro esse conceito. Quase sempre. Eu o detesto quando sinto seu efeito sobre mim. Não que Deus me negue coisas de forma taxativa, mas com frequência chego a pensar que ele não parece ter tanta certeza do que vai responder. A espera me parece insuportável, eu tento dizer: “Na dúvida, Deus, que tal fazer o que te pedi e depois a gente vê como é que fica?”. Mas minha sugestão nunca foi aceita.

Das coisas que peço, tão legítimas, não peço dinheiro, não desejo bens ou futilidades, nada que possa me favorecer ou prejudicar alguém. Em grande parte, em minhas orações mais repetidas e íntimas, só quero respostas que dizem respeito a mim e minha família. No fundo, eu gostaria é de entender. Gostaria de discernir os caminhos, de ter revelações grandiosas sobre os próximos passos que preciso dar na vida. Há tantas escolhas a serem feitas. Queria saber por que certas coisas aconteceram de um jeito e não de outro. Por quê pessoas fazem o que fazem? Por quê existe o mal? Por quê, como disse Paulo, o bem que eu desejo fazer eu não faço e o mal que não gostaria de fazer, acabo fazendo? Por quê uma doença, uma tragédia, tal fatalidade, justo com aquela pessoa? Por quê justo comigo?

De circunstâncias a questões existenciais, de um prato de comida pedido por um pai de família às asas desejadas pela Nina, existem orações que nos parecem sem respostas.

Não acho, porém, que Deus se cale, não acredito em seu consentimento com o sofrimento e a incerteza. Tenho para mim que o Deus Pai responde, fala, se relaciona conosco e expressa o tempo inteiro a sua opinião. E quando não posso ouvi-lo, é que surdo, tão surdo, tão insensível acabei me tornando que já não percebo. Dirijo minha busca na direção errada, me expresso sem permitir que ele fale, desabo tentando decifrar enigmas quando sua resposta, sua voz, está bem na minha frente, está na paisagem, em alguém, dentro de mim. Não existe oração sem resposta.

Porque ele fala aos ventos e através dos ventos se manifesta, escancara, faz o mundo gritar sua verdade, tanto e tão alto. Porque ele fala no íntimo e no coração se manifesta, revela, faz nossa consciência perceber sua vontade, tanto e tão perto.

Porque pais querem ensinar seus filhos a buscarem por resoluções e não que as tenham de mão beijada. A Nina quer voar, quer saber porque precisa ir dormir tão cedo, eu quero que ela aprenda a fazer perguntas, que aguce os sentidos e explore o redor. Ela quer um par de patins como presente de Natal, eu quero que ela esteja sensível para perceber e ouvir o sentido de sua existência, que compreenda o amor que a mãe e eu sentimos por ela e que descubra que existe um amor ainda maior em Deus que ela pode experimentar. Ela quer tomar dois sorvetes depois do almoço, quer poder mandar em nós por um dia, eu oro para que ela seja inquieta e determinada em sua busca mas, ao mesmo tempo, seja humilde para compreender que o “não” de um pai é cuidado e não castigo.

Outro dia, ela fazia uma oração antes de se deitar enquanto eu recostava na cabeceira da cama até que adormecesse. Meu pensamento ia longe, confesso, distante um pouco da oração usual que ela fazia. Até que ela concluiu a prece pedindo:

– E Deus, por favor, mude o coração dos vilões.

Crianças. É possível que ela não lembre do que pediu no futuro. É possível que ela não lembre do que pediu hoje. Pode ser que nunca ouça claramente uma resposta para sua oração, mas em sua fé infantil sei que ela acredita que acontecerá.

Não tenho respostas tampouco. Como pai ou como filho, também acredito. Ela quer um mundo sem maldade, ela pede que o bem triunfe sobre o mal e que os homens perdidos encontrem redenção em Deus.

Ela tem asas.

Eu oro. Recostado na cama, cerro os olhos, junto as palmas das mãos, baixo minha fronte e peço que um dia possa ver que ela será parte dessa resposta.

O engano da felicidade

Banksy

Banksy

Está nos comerciais de TV, está nos livros, está nas estampas de camisetas descoladas, nos posts compartilhados pelo Facebook e nas reportagens especiais do Globo Repórter nas noites de sexta. A felicidade retumbante é só o que desejamos, perseguimos e refletimos com a camada da nossa vida que expomos ao mundo.

Mas é um engano danado isso aí.

Outro dia, véspera de uma data comemorativa qualquer, recebi por email o link para um vídeo novo do Google. Um comercial lindíssimo, daqueles com marido e esposa trocando um com o outro momentos singelos da vida a dois. Uma trilha sonora charmosa ao fundo, aquela edição com cortes de vídeo-clipe e um filtro, uma película sobre a imagem que quisera eu ter uns óculos para só enxergar o mundo com aqueles tons. Era a felicidade, o ideal dela estampado num vídeo de 30 segundos que queria me dizer que eu teria tudo aquilo se… se, juro por Deus, se eu instalasse um software para navegar na internet. Sim, a vida é mais bonita e cheia de sorrisos sinceros de uma linda esposa quando você usa o Chrome para acessar seus emails ou o site do banco para pagar uma conta.

Mas o discurso que nos fazem é tudo o que queremos ver. Já não se vendem mais produtos nos comerciais. Quem, afinal, quer saber sobre o índice de gordura hidrogenada e o sabor pasteurizado de um pote de margarina? “Pra quê vender margarina?” – pensa o publicitário enquanto morde a tampinha da sua Bic e pensa em algo genial, segundo seu próprio julgamento genial. Muito melhor é vender o sonho de um lar aprazível, os primeiros raios de sol entrando pela janela da cozinha, a família reunida em torno da mesa, um labrador saltitando por perto e a mulher maquiada servindo uma torrada na boquinha do marido engravatado. Sim, você compra 500 miligramas de creme vegetal e leva junto a felicidade para a geladeira da sua casa.

Automóveis, cartões de crédito, lâminas de barbear, cerveja, apartamentos. As mensagens são nada originais: compre felicidade.

Porque vivemos na era das sensações. E compramos coisas não mais para usar, mas para “sentir” algo. Como se a vida fosse assim, de fato. Como se mais nada importasse. O negócio todo é ser feliz. Queremos um estado de espírito, queremos ser enganados.

Já nem é preciso ser muito esperto para afirmar que essa busca por uma sensação de realização plena da alma soa meio artificial. As carinhas felizes com piscadelas que nos enviamos ao final de mensagens ;-) essa coisa do “felicidário” que andam circulando por aí, o lance do Butão com seu indicador nacional de Felicidade Interna Bruta, tudo isso vem dando nas ventas.

É implicância minha achar que estamos exagerando? Essa busca toda não vai provocar em nossa geração – e na dos nossos filhos – o sentimento de que qualquer experiência contrária, as frustrações e dores, são repulsivas, incomuns e devem ser evitadas a todo custo? Qualquer contrariedade deve ser rejeitada ou esquecida. Como se não pudéssemos aprender nada com isso. Tropeços, dores e frustrações não nos ensinam tanto ou mais do que momentos de júbilo?

A vida, esse todo da existência, é recheado de imprevistos, de circunstâncias e fatos que, gostemos ou não, compõem o que fomos e nos tornamos. É feita de altos e baixos. E são os pontos baixos que fazem os altos ficarem maiores quando então neles.

No relacionamento que procura estabelecer com o homem, Deus jamais promete essa infinita felicidade. Não há um conto de fadas em que habitaremos de forma encantada, cercados de passarinhos em coro, sem dor, sem decepções, sem uma topada com o mindinho do pé na quina de uma penteadeira.

Não, Deus não promete essa sensação de torpor ou uma anestesia para a vida. Isso é justamente o oposto do seu plano, de que tenhamos uma existência livre e rica. Ele não promete um estado de espírito, promete seu Espírito e uma nova perspectiva nos orientando para enxergar o mundo.

Porque a suprema felicidade a que, sim, podemos almejar, é que Deus promete estar presente. E isso nos basta, nisso não há engano. Não é um comercial, não é margarina, um sorvete ou espuma. Não é uma família sorridente ao redor da mesa. Nada efêmero. Essa presença é a promessa inabalável do puro amor e seu reino, nos inspirando para viver a vida como ela é e como deveria ser.

O espelho

“Quando nos livramos do ego, estamos livres para ver o divino”
-Karen Armostrong

Tem dias, em que por mais que eu me esforce, não consigo encontrar alguém ou algo em que eu possa colocar a culpa por meus problemas. Eu olho no espelho e o vidro está rachado. Preciso reconhecer que fracassei. Admitir que a culpa é toda minha, olhar aquele reflexo torto e fitar a dura realidade nos olhos. Perdi uma, ou mais uma.

Imperfeito, incompleto, pecador. Toda vez que me deparo com a frustração de não poder fazer algo contando apenas com minhas forças, caio abraçado com meu orgulho. A consciência de que não sou auto-suficiente é o choque de humildade de que necessito para reconhecer que preciso de ajuda. No fundo do poço, expelidas todas as camadas de superficialidade, eu me revelo. Resta pouco ou quase nada do que é rótulo, cai a máscara, sobra a essência.

E talvez a surpresa mais escandalosa seja, na hora inglória, olhar em frente e enxergar a imagem do Cristo. A notícia pungente é ter que encarar o fato de que, em meu resgate, Deus não me leva de volta a ponto de conforto algum onde eu gostaria de estar. Ele se rebaixa, se acomoda. Deus já estava ali.

Toda vez que me humilho e me sinto inferior à condição do mundo, estou, na verdade, me aproximando da imagem de Jesus. É controverso, mas o padrão de sucesso dele é assim. O Deus que vira homem, o Messias que caminha com ladrões e prostitutas, o Mestre que lava os pés dos seus discípulos, o Senhor que a todos torna e trata como iguais. É na simplicidade da alma que ele me encontra, na essência do que fui criado para ser, sem as cascas, que ele se revela, me cura e me guia de volta pelo Caminho.

Ficamos cegos às vezes, insensíveis. O fato é que Deus nos dá sua presença e temos tanto dele o tempo todo – nos eventos cotidianos e na natureza – que já não nos damos conta do deserto cruel que seria a sua ausência. Não sabemos o que é sentir fome. No entanto, quando nos deparamos com o que somos de fato, como num espelho, entendemos nossa natureza.

Precisamos reaprender a viver carentes da influência de Deus. Com fome, com sede, ansiosos por aprender e ter mais da sua pureza influenciando nossas mentes.

“Ele tinha a natureza de Deus, mas não tentou ficar igual a Deus. Pelo contrário, ele abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo, tornando-se assim igual aos seres humanos. E, vivendo a vida comum de um ser humano, ele foi humilde e obedeceu a Deus até a morte – morte de cruz.” (Filipenses 2:6-8)

Jesus veio ao mundo e nos mostrou que é debaixo para cima que se olha para o céu. E é lavando os pés que nos relacionamos com o próximo. Cada vez que enxergo o reflexo da minha fragilidade e me reconheço nele, me aproximo, me preencho de seu Espírito e sou renovado. Porque a consciência de que dependo totalmente é a revelação de que só sou, de fato, quando estou em Deus.

“Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.” (2 Coríntios 12:9-10)


(Crônica publicada no site carisma.com.br)

A estranha coleção de lanternas

por Luiz Henrique Matos

semelhancas

“Filha, com quem você acha que é mais parecida, com o papai ou com a mamãe?”

Mãe e filha partilhavam um momento a sós e, numa tarde primaveril qualquer, aquela delicada progenitora fazia uma pergunta inocente. Enquanto isso, não imaginava que a menina, cravada nos cinco anos de idade, ainda não havia aprendido o sentido da palavra ponderação.

“Mãe, sabe o que é…”, a menina arqueou as sobrancelhas, olhou para baixo, contraiu um pouco os lábios, “Me desculpe, mas é que eu sou a cara do meu pai”.

A história me foi contada horas depois. Fiz de conta que não achei nada demais, “Ah, que nada, ela tem os seus olhos, seu jeitinho, as bochechas…”, enquanto, por dentro, uma onda de satisfação das mais imaturas me lavava a alma.

Talvez alguém um dia ainda explique – talvez – o motivo pelo qual pais, tios, avós e amigos chegados insistem nesse jogo esquisito de discutir e tentar descobrir semelhanças com algum familiar nem bem a criança saia da barriga da mãe.

Quando olho para minha filha e paro pra pensar nesse tipo de coisa, acho tudo uma grande bobagem. Qual o sentido, afinal, dessas discussões tolas? Não levam a nada. Ela parece comigo, é a minha cara, vai gostar das mesmas coisas que eu e a opinião dos outros que se exploda.

* * *

Adoramos frequentar livrarias, jogamos o mesmo joguinho do Snoopy no iPad, dançamos ao som de Strawberry Fields Forever e Blitzkrieg Bop no carro, montamos Lego no chão da sala, assistimos às Crônicas de Nárnia com ela deitada sobre meu peito infinitas vezes, temos a mesma mania de ficar parados segurando o braço esquerdo acima do cotovelo e alimentamos uma estranha obsessão por colecionar lanternas – sim, temos por toda a casa, várias delas nas gavetas e, apesar de mal fazermos uso, são tidas como item de primeira necessidade no lar.

Qualquer pai se enche de orgulho ao notar sua pequena cria desenvolver os hábitos e traços que lhe são peculiares. É um sinal da nossa continuidade, da herança que deixaremos, uma espécie de legado para a humanidade que nos identifique – bem, talvez não a humanidade toda, no sentido amplo da coisa, você entende, mas aquela dúzia e meia de parentes com certeza.

Adoramos nos ver em nossos filhos porque amamos que sejam parte de nós. Queremos, claro, que sejam melhores do que seremos, em tudo, que sigam a caminhada numa jornada bem-sucedida, feliz e com realizações. Sonhamos que suas vidas tenham significado e que façam história. E poder imaginar que existe um pouco da gente ali sendo carregado naquele ser humano que amamos mais do que a nós mesmos, é alegria das mais radiantes. Provoca, de algum jeito, um certo conforto, uma falsa sensação de segurança ao imaginar que sabemos o que estão passando.

E seria muito bom se tudo parasse por aí.

Entretanto, em medida sem igual, preciso dizer, dói como poucas coisas notar, vez por outra, que minha menina sofre ao carregar o peso de males que herdou de mim. Das patologias às manias e defeitos mais complexos. Ela é alérgica, ela é sistemática até o último cromossomo, precisa usar um aparelho nos dentes para corrigir um problema genético e tem uma carga exagerada de nostalgia para com as coisas que não cabem nos seis anos vida que acumula.

Imagens e semelhanças.

Ela não tem culpa. Eu a amo tanto, não gostaria que sofresse por nada, muito menos por defeitos que são meus. Não quero que a Nina pague esse preço. Seja dos problemas físicos, seja dos morais. E nesse sentido, Deus sabe como não quero que ela repita os meus erros. Não, ela não precisa.

Eu oro por ela. Gostaria que Deus me dissesse o que ele tem em mente. Que tipo de aprendizado ainda não fui capaz de assimilar e que minha filha, alguns pontos de QI a mais do que eu, pode superar mais cedo? Cedo na vida, eu rogo em minhas preces, quero que ela conheça a Jesus, que desenvolva seu caráter e descubra o sentido da sua existência.

Oro a Deus, o pai sem defeitos. Para que do alto de sua perfeição, aprimore sua criação corrompida. Porque eu sei que nele podemos ser transformados e, ele em nós, corrige nossas falhas, limpa nossas impurezas, cura as doenças, muda a condição em que estamos e até, há de se esperar, faz sumir as manias mais estranhas.

A imagem e semelhança perfeitas, em Jesus.

* * *

Eu a observo brincando, sentada em sua mesinha desenhando cuidadosamente. Tal como a Manú, ela tem um certo talento pra isso, um bom traço, é criativa, passa horas concentrada em seu “trabalho” – como ela chama. Eu a ouço falando qualquer coisa sobre seu dia, cantando a trilha sonora do desenho da TV, contando das amigas da escola, das brincadeiras, tudo nos mínimos detalhes. Fico olhando enquanto ela come com a cabeça apoiada numa da mãos, espetando os legumes com o garfo. Passo um tempo em silêncio, admirado com a velocidade ingrata com que minha menina está crescendo sob nossos olhares. O tempo é um velho cruel e indomável. Preciso desfrutar, tento reter cada instante que posso ao seu lado nessa infância que passa tão rápido. Queria dar pra ela uma lanterna para ajudar a iluminar melhor o caminho que terá pela frente. Que ela vai seguir com as próprias pernas, que ela vai descobrir com seu olhar brilhante, desbravar com sonhos que Deus plantou só na sua mente. Porque é tudo o que eu quero ver nela: nada de mim na verdade. Mas dela. Quero viver para ver o que ela se tornará, sua identidade, sua a visão do mundo, sua imagem graciosa refletindo na vida dos netos que nos dará um dia.

Ela dorme no chão da sala. Estávamos vendo um filme quando pegou no sono. Levanto, preparo sua cama no quarto, aumento a quantidade de cobertas, está frio, então volto para a sala e a pego no colo. Ela está ficando maior, eu estou ficando mais velho, mas esse é o lugar onde espero que ela sempre caiba. Carrego minha menina para a cama com todo o peso desse sentimento no peito, ajeito seu pijama, tiro a franja que lhe cai no rosto e ela suspira inocência.

Admiro minha cria. Ela é bonita. E Deus, que ninguém me ouça, mas é a cara da mãe.


(Esse texto faz parte da série Paternidade)

Livres da irrelevância

“Em um mundo em que 840 milhões de pessoas irão para a cama com fome nesta noite por falta de condições financeiras para fazer uma refeição, em um mundo em que 1 milhão de pessoas cometem suicídio todos os anos.

Jesus quer salvar nossa igreja do exílio da irrelevância.

Se tivermos quaisquer recursos, qualquer poder, qualquer voz, qualquer influência, qualquer energia, devemos convertê-los em bênção para quem não tem nenhum poder, nenhuma voz, nenhuma influência.”

(Rob Bell, em Jesus quer salvar os cristãos)

O escândalo da bondade

Semana de Páscoa.

Estava rolando minha página do Facebook enquanto procrastinava alguma tarefa importante quando vi a foto de uma criança portadora de deficiência raríssima. A legenda dava conta de que passou muito tempo internada, enfrentou inúmeras cirurgias e depois de muito esforço dos médicos, da família e de tantas boas almas que se juntaram nessa corrente, estava curada e vinha se recuperando. Na tela azul da rede social, em meio a outras postagens com imagens de filhotes de cachorros e flores silvestres com frases de autoajuda, a foto da criança era chocante. E o autor fazia uma pergunta, estampada em letras garrafais sobre a imagem: “E aí, quantas curtidas essa pequena guerreira merece?”. No rodapé, centenas de milhares de procrastinadores haviam clicado sobre o pequeno polegar estendido em sinal de solidariedade.

Três ou quatro rolagens abaixo, outra foto. Dois homens tiveram suas casas invadidas pela enchente. Um deles carregava sobre a cabeça sua televisão de tubo, coisa de 21 polegadas e a muda de roupas que conseguiu salvar. O outro, com a água barrenta quase na altura do pescoço, erguia sobre si um cachorrinho vira-latas assustado e livrava a sorte do seu fiel amigo. A legenda dizia algo sobre eleger prioridades, exaltava a conduta do rapaz e convidava os demais admiradores desse herói a curtirem e compartilharem a sua atitude.

Eu não cliquei no joínha e quase fiquei com um peso danado na consciência, questionando se, afinal, sou um indivíduo frio e sem coração. Como eu não podia curtir a pequena guerreira? Como eu, dono recente de um cachorro que encanta – e destrói – o nosso lar, não iria me juntar às miríades que clicavam e comentavam a boa ação do sujeito na enchente?

À noite, em casa, o William Bonner reservou parte do último bloco do Jornal Nacional para contar a história do dono de um supermercado que doava cestas básicas para as pessoas desabrigadas, vítimas da mesma enchente. Havia certa celebração na voz do jornalista, louvando a boa e generosa alma do comerciante como um Super-Homem da periferia carioca.

Um último fato. Tem uma seguradora investindo alguns milhões de reais em uma campanha de publicidade que convida os motoristas de São Paulo a serem mais gentis no trânsito – e quem vive em São Paulo sabe o quanto o trânsito é algo crítico. Fizeram um adesivo, com um coração e tudo, para que as moscas brancas da ética grudem na traseira de seus automóveis e avisem ao cidadão do carro de trás que, sim, respeitam seu vizinho de congestionamento e que, não, não arremessam seus carros em cima dos pedestres pela rua.

Vivemos em um tempo da história – ou talvez nunca tenhamos saído dele – em que o que deveria ser regra se tornou uma exceção esdrúxula. A generosidade, a ternura, a compaixão e os pequenos gestos de solidariedade são noticiados em horário nobre, mobilizam interações em redes sociais e são foco de campanhas de marketing de empresas.

Vivemos em um tempo em que a humanidade sente saudades do que deveria ser um sentimento elementar do homem para a vida em comunidade. De forma espantosa, os valores que mais louvamos no ser humano são os que julgamos serem tão pouco praticados pelas pessoas ao redor, a ponto de darmos destaque, como notícia, quando alguém se voluntaria em cumprir o seu dever cívico, ser gentil ou respeitar o direito do próximo.

Vivemos num tempo em que Jesus faz uma falta danada.

* * *

É no mínimo curioso observar que Jesus viveu de forma escandalosa e integral o exemplo de ser humano que admiramos ainda hoje. Eram suas atitudes, a doçura e a gentileza que encantavam e atraíam multidões. Era a predileção pelos mais fracos, a compaixão pelos carentes, a defesa dos oprimidos, o olhar além da superfície que encarava, constrangia e revelava a alma para aquele que não julgava, mas compreendia. Era o amor abundante, o toque restaurador, a paciência em ouvir. Era ele, o Deus encarnado, a humanidade em sua plenitude.

O mundo hoje destila indignação contra o cristianismo. Quando não indignação, um certo desdém. Não sem razão, se tomarmos como partida que o Cristo que as pessoas enxergam é o que a igreja anuncia em seus templos e canais de televisão. Mas o mundo que rejeita o Cristo é mesmo que o adoraria se o conhecesse, porque se o mundo ainda se comove com gestos de compaixão, ternura e generosidade, então ainda está aberto a Jesus Cristo e sua mensagem.

Ele só pode ser realmente conhecido através dos que afirmam refletir sua imagem. Se a imagem que projetamos é de intolerância, preconceito, atraso e egoísmo, até mesmo Jesus se afastaria – e se afastou – do que ele mesmo chamou de hipocrisia e cegueira.

Seus primeiros seguidores foram chamados “cristãos” pelos outros judeus porque eram vistos como “pequenos cristos”, tal era a semelhança que tinham com seu mestre. Eram também vistos com simpatia pelas pessoas e era justamente essa graça que fazia com que tantos desejassem ser como eles e saber mais sobre o Messias que anunciavam.

Jesus faz muita falta nesse mundo. Ele confiou a seus seguidores a responsabilidade de agir e falar em seu nome. Ser sal para escandalizar uma sociedade insossa, ser luz num mundo cheio de sombras, ser uma fagulha para incendiar a Terra de amor, servir para destruir o egoísmo.

Esse não é um compromisso que se deve cobrar da igreja. Não é a dívida moral de uma instituição. Não é uma mudança que alguém deva assumir porque se diz cristão. Esse é um voto que precisamos assumir como seres humanos. Uns pelos outros, de cada um para Deus.

Porque Deus não escolhe filhos, os homens é que escolhem seus deuses. Deus é um só, o Pai da humanidade toda, o criador do mundo. Para os que acreditam e para os que não acreditam também.

* * *

Na Páscoa, refletimos por um instante na vida de Jesus. Paramos para olhar principalmente os momentos finais de sua jornada na Terra, culminando na morte de cruz no Calvário numa sexta-feira e, dois dias depois, em sua ressurreição redentora.

A Cruz nos diz muita coisa. A gruta vazia está cheia de significado. Mas a histórica da Páscoa não é só sobre morte e ressurreição, mas sobre o renascimento da esperança, sobre o resgate da humanidade da condição de escravos do egoísmo para a de pessoas livres. Os dias da Páscoa antecedem em algumas semanas o momento do Pentecostes em que Jesus cumpre a promessa feita aos seus amigos de que voltaria, em Espírito, para habitar em cada um e inspirá-los na caminhada que os conduziria a uma semelhança total com seu mestre. Antecedem em poucos dias o encontro em que Jesus pede que eles sigam, mundo afora, anunciando e sendo uma boa notícia.

A humanidade inteira parecendo com Jesus.

Isso é urgente, é para agora, é a semente de um novo fruto que desejamos plantar para que nossos filhos colham. É preciso uma revolução. Não dá para procrastinar.

“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês. Tomem sobre o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Jesus, em Mateus 11:28-30).