Cenas natalinas – Meditação

– Vou ali no quarto e já volto – ele avisou.

Foi só quando o ano acabou que pôde, finalmente, parar durante aqueles dois ou três dias e tentar colocar as coisas em ordem. A casa em ordem para receber as visitas que chegariam de longe, as contas em ordem para poder tirar uns dias, os presentes das crianças em ordem sob o pinheiro artificial, a gaveta do criado-mudo com as coisas que se acumulavam. A vida toda se colocava no prumo de alguma forma. É o que sobra de tempo, dizia. Nesse tempo é que finalmente respirava.

De sol a sol, todos os dias, a vida ia sendo engolida pelo tempo. Mal viu o tanto que tinha se passado nos últimos doze meses. As crianças cresceram, a barba cresceu e prateou, o cabelo caiu, as plantas regadas deram frutos, amigos partiram para longe, familiares partiram para sempre. Um novo bebê havia chegado.

No quarto, em silêncio, ele observava o bebê dormindo. O sol já caía lá fora, a noite chegava escura. As famílias faziam festa pela vizinhança e na sala havia toda aquela gente se alegrando e bebendo. Sua esposa, os filhos, os netos correndo ao redor da mesa, como eles sonharam um dia. Mas ele ali, parado, contemplava a criança.

A serenidade de um instante, a pureza toda, a vida como ela deveria ser, uma coisa de cada vez. Tudo era felicidade. Fez sua prece como gostava, sentado na cama e olhando através da janela para a imensidão azul sem fim do universo lá no alto.

No céu, uma estrela brilhava intensamente. Ele soube então. E prostrou o espírito em reverência.

Enquanto houvesse a criança no berço, enquanto a estrela brilhasse, enquanto houvesse essa paz tão viva, haveria o Natal e a promessa de Deus para seu povo. Renascia a esperança na alma. Renascia nele o menino.

– Pai – alguém sussurrava para o velho atrás da porta – vem comer. Está na hora da ceia.

A crônica da montanha

solitude

– Não esquece de ligar quando chegar.
– Tá, pode deixar.

Fazia quase dez anos que estavam casados e nunca tinham ficado mais do que duas ou três noites longe um do outro. Ainda assim, nunca mais do que quatro horas de carro ou um telefonema interurbano de distância. Agora ele viajaria a trabalho para fora do país por uma semana e tudo aquilo era um sentimento inédito.

Abraçaram-se mais do que o normal naquelas vésperas, almoçaram juntos no dia da viagem, trocaram afeto, certezas e olhares confidentes. Chegou o taxi, ele partiu, o coração apertado num misto de apreensão e saudade que durou toda a viagem de dezoito horas. Aterrissou, o peito ainda daquele jeito, se virou com um café no aeroporto, tomou um taxi, acomodou as malas no amplo quarto do Little America Hotel e finalmente ligou para ela avisando que “sim, foi tudo bem, graças a Deus”. Tirou uma foto do quarto com o celular e saiu para comer um sanduíche de peru, caminhar e conhecer os dois pontos turísticos da cidadezinha.

Na primeira noite, durante um jantar, soube que depois de quatro dias de conferência, os participantes seriam levados para um dia de esqui nas montanhas. “Acho que vamos para o leste”, disse um que já havia estado na cidade outras quatro ou cinco vezes. “Mas aqui, eu prefiro outras montanhas. Eu gosto é de ir para Solitude.”

Solitude é uma montanha.

Os dias se passaram sem qualquer grande fato que mereça essas linhas, mas com a observação não menos descartável de que, a cada manhã, enquanto caminhava em silêncio em direção ao centro de convenções e voltava à tarde, ainda calado, para o hotel ou um restaurante, ele podia observar as montanhas cercando a cidade. A neve nos picos, o céu azul, talvez dez ou doze delas se projetando imponentes sobre aquele vale. Havia realmente tanto o que se pensar na vida naqueles dias, decisões importantes a tomar, reflexões que lhe requeriam tempo. Mas ali, longe de tudo, não havia o que pudesse ser feito. Naquele momento, só restava se concentrar no trabalho, aliviar a saudade de casa em ligações pelo Skype, seguir em frente e esperar.

Pisou a neve no dia do esqui. Espatifou-se naquele tapete branco por boas horas. Comeu um hambúrguer, bebeu uma cerveja vermelha local, comprou luvas, um chocolate quente, procurou se manter aquecido. Via aquela gente toda flutuando sobre suas pranchas, por todos os lados, se deixando levar pela velocidade, vivendo na superfície. Tudo parecia uma dança elegante. Mas ele precisava ouvir o som. Olhou para o topo, no frio mais alto, queria subir a montanha, a neve lhe caia nos ombros, sentia que precisava daquilo. Solitude parecia um encontro consigo.

Mas não subiu, não dava, não naquela manhã. Tomou o ônibus de volta para a cidade, caminhou, comeu, fotografou os prédios e as pessoas, observou os pássaros, anotou coisas. Podia ver as montanhas cercando a cidade o tempo todo, todas elas, e se perguntava se o que procurava estaria lá, ao alcance da vista, talvez sob os pés.

Sentou-se na parte elevada do prado para observar o lago, as gaivotas e um pai que brincava com o filho. Lembrou do Drummond e o do “sentimento do mundo” que lhe corria nas veias então, sentiu saudades de casa, da família, onde sabia de verdade quem era, o abrigo de si mesmo onde sua identidade se revelava. O coração não tinha partido.

Balbuciou uma oração, uma precezinha de gratidão e sentiu-se confortado por Deus, bem ali. A alma do homem ansiava por solitude, mas sua maior satisfação agora era saber que, em montanhas ou vales, jamais estava sozinho.