A Bíblia é muito fácil de entender

A questão é simples. A Bíblia é muito fácil de entender. Mas nós, cristãos, somos um bando de vigaristas trapaceiros. Fingimos que não somos capazes de entendê-la porque sabemos muito bem que no minuto em que compreendermos estaremos obrigados a agir em conformidade. Tome qualquer palavra do Novo Testamento e esqueça tudo a não ser o seu comprometimento de agir em conformidade com ela. “Meu Deus”, dirá você, “se eu fizer isso minha vida estará arruinada. Como vou progredir na vida?”.

Aqui jaz o verdadeiro lugar da erudição cristã. A erudição cristã é a prodigiosa invenção da igreja para defender-se da Bíblia; para assegurar que continuemos sendo bons cristãos sem que a Bíblia chegue perto demais. Ah, erudição sem preço! O que seria de nós se você? Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. De fato, já é coisa terrível estar sozinho com o Novo Testamento.

Soren Kierkegaard, citado por Paulo Brabo no livro A Bacia das Almas.

Cenas natalinas: Antes e depois

Por Luiz Henrique Matos

“No frio, no escuro, entre os montes pregueados de Belém, o Deus que não conhece nem antes nem depois adentrou o tempo e o espaço. Aquele que desconhece quaisquer fronteiras deixou-se restringir por elas: o chocante confinamento à pele de um bebê, as atemorizantes limitações da mortalidade. ‘Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação’, diria posteriormente um apóstolo; ‘Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.’ Mas as poucas testemunhas oculares não viram nada disso. Elas viram uma criança lutando para fazer funcionar pulmões que nunca tinham sido usados.” (Philip Yancey, “Descobrindo Deus nos lugares mais inesperados”)

Um ano já havia se passado e eles mal se deram conta disso. Foi tudo absurdamente tão depressa que o tempo parecia ter consumido e embaralhado os fatos. Naquela noite fria, o casal acolhia-se em sua casa, nos fundos da carpintaria e, em família – sim, agora eram uma família completa e essa era sua maior satisfação – se preparavam para mais uma temporada do duro inverno da Galiléia.

Sim, era aquela uma data de festa para o bom José e sua Maria. Deus tem cuidado de nós, ele dizia. Mas nenhum dos dois podia evitar o olhar curioso e contemplativo ao sondar o pequeno Jesus crescendo em sua casa.

Foi um ano bom, pensou José enquanto se levantava para recolher qualquer coisa sobre a mesa e observava sua mulher amamentando a criança. Mas ele se dava conta do que se passava a sua volta e se preocupava. O homem, transparente que era em suas expressões, não conseguia esconder o peso da dificuldade que era sustentar sua casa no pequeno povoado em que viviam. E tinha medo. O medo de todo pai em trazer o bom sustento para o lar, em prover sempre o melhor. E o medo único do servo, o judeu que não aprendera de seus mestres como é, afinal, que se cria o filho de Deus.

Dará tudo certo, José, tenha paz homem. A pequena Maria sempre o acalmava. Ele admirava sua confiança. Que mulher incrível. Mas… Senhor, como será daqui dez ou vinte anos? Como sucederá essa história?

Jesus crescia bem. Era um bebê cercado de amor e cuidado. Às vésperas de seu aniversário, já ensaiava os primeiros e trôpegos passos, já balbuciava as expressões fundamentais: ma-mãe… papa… Aba!

E naquela noite, se passava um ano da viagem a Belém e o pernoite na estrebaria, um ano que brilhou no céu a estrela, um ano que José recebera um filho como herança de Deus. A plenitude dos tempos. Naquela noite, a família se reconfortava em casa, sem saber ao certo a proporção e grandeza do que tinham em seu colo, sem saber que viviam o tempo e o dia que dividiria e mudaria toda a história da humanidade.

Era Natal.

O dia em que o mundo todo então iria parar para sempre, e recordar a chegada entre os homens do Messias, do Salvador, o Cordeiro Santo, Filho do Homem, amigo, o princípio e o fim, mestre, Senhor, o bom pastor, o Deus vivo entre nós, uma criança nos braços de José e Maria.

Nessa noite, em que ainda se pode ouvir o canto dos anjos ecoando nos céus: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!”

Antes de Cristo, depois de Cristo, em Cristo.

Cenas natalinas: Noite em Belém

por Luiz Henrique Matos

Por Yeshi, pastor de ovelhas em Belém, ano 0 da era cristã:

“Era noite, como fora outras tantas daquele ano. Estávamos no campo cuidando do rebanho e o silêncio da madrugada fazia o frio parecer ainda mais duro. Às vezes o vento vinha forte, deitando o pasto, movendo os sinos de algumas ovelhas e queimando a pele do rosto. Recostados nas pedras do monte, nos revezávamos num sono superficial.

Foi então que repentinamente apareceu aquele homem subindo da parte baixa, vindo do lado oposto da cidade. Alto, branco, iluminado pela luz radiante da lua cheia e de uma estrela que brilhava absurdamente intensa. Alguns pastores ao meu lado julgaram ser um peregrino, outros um ladrão. Ele se aproximou, saudou-nos com um aceno e parou à distância de alguns metros. Confesso que temi. Então tirou o capuz, olhou-nos a cada um e em uma atitude de euforia anunciou com sotaque que até agora não consigo identificar: ‘Não tenham medo; trago-vos a notícia mais feliz e que se destina a toda a gente! Esta noite, em Belém, a cidade de David, nasceu o Salvador – sim, o Cristo, o Senhor. É assim que o reconhecerão: encontrarão a criancinha envolvida em panos e deitada numa manjedoura.’.

Corremos. Eu já nem me lembro dos instantes posteriores ao que ele disse. Do que falava, afinal, aquele homem? Era um anjo, disse um dos nossos. Subiu entre outros ao céu, entoando um cântico de louvor. Ó Deus, eu não lembro!

do pasto, depois a terra da estrada, até que chegamos à aldeia em Belém, para onde indicou que fôssemos. Ofegante, cansado, eu arfava. Pensava nas minhas ovelhas. Com quem as deixei? E se uma delas fugir? É inverno, preciso tosquiar as lãs. O que estou fazendo nessa aventura? Seguimos ao passo da noite, num ruído intenso de vozes, de sandálias pisoteando a grama.

Avistamos o local, diminuímos o passo. Pelas frestas dava para perceber a luz do fogo aceso. Pelo som discreto, pudemos perceber e chegar ao local que o homem indicara: um estábulo!

Sim, eu ouvi o que o homem havia dito, mas… seria mesmo assim? É bem verdade que nos últimos anos minha presença na sinagoga não vinha sendo muito freqüente. As noites no pasto me deixavam com muito sono e mal conseguia me concentrar nas longas rezas. Mas eu me lembro, conheço as profecias, as mais antigas tradições, a esperança de Israel e, não, o Messias viria em Glória, desceria dos céus. Que lugar é esse?!

Não havia anunciação, trombetas, anjos ou louvores. Não chegávamos a uma celebração. Não havia comida ou bebida abundante. Mas, inexplicavelmente, era possível notar que estávamos para encontrar algo especial. Em todo tempo eu me perguntava por que, afinal, eu havia corrido até ali. Mas meu coração explodia no peito. Eu nem sei o que sentia.

Então me acheguei. Então, eu vi. Por entre os animais, um homem de gestos nervosos, coçava a cabeça com fios grisalhos, limpava as mãos com as mangas arregaçadas na túnica que vestia, recolhia água num pote de barro, limpava o suor que escorria pela testa e movia-se zeloso com a mulher. Vi a mulher, uma jovem, pequena, deitada num leito improvisado, exausta, o rosto inchado, os fios de cabelo soltos e embaraçados, o pescoço erguido com o olhar embriagado e inquieto tentando enxergar algo ao redor, a criança. Vi, sim, eu vi uma manjedoura coberta com alguns panos.

Meus sentimentos se confundiam, o estômago parecia revirar. Subia pela garganta um nó que me fazia respirar e soprar o vapor branco da noite fria. E eu sentia calor e calafrios, euforia e medo, esperança e dúvida, decepção e amor. Amor?

Ali, deitado, inocente, os movimentos curtos, frágil, o ruído de choro, um bebê… o Salvador, o Cristo, o Senhor. Nasceu então. Veio ao mundo! Veio? O Bom Pastor, o Cordeiro Santo. Era Deus? Era só um menino. Era Deus!

– Qual o nome da criança? – balbuciei com a voz afinada pelo nervosismo. Em seguida me odiei por ter me manifestado. Quem é que pergunta o nome de Deus? Mas…

O pai nos avistou, virou-se, sondou com estranheza a presença de tantos homens à porta do estábulo. Olhou para a esposa deitada, fitou a criança. Seus olhos marejaram como eu vira poucas vezes antes num judeu adulto. Ele olhou para o céu, avistou a estrela reluzente. Sorriu.

Eu jamais me esquecerei. Naquela noite em Belém, eu ouvi pela primeira vez o nome.

– Jesus… O nome é Jesus.

Então, repentinamente, me veio um cântico à mente. Nem sei de onde me lembrei. Talvez de tempos antigos, talvez dos tais anjos que nem vi no campo. Foi que, posto à cena, meus lábios tremeram e entoaram em gratidão imensa: ‘Gloria a Deus nas alturas! E paz na terra aos homens de boa vontade!’. Hallelujah!”