Amar é pertencer

Está ficando cada vez mais difícil carregá-la no colo. Aos dez anos e quase 40 quilos, não existe uma posição confortável em que a acomode nos braços e não sobre uma perna caída de um lado ou um cotovelo pendurado do outro, ambos facilmente “esbarráveis” em algum batente de porta ou quina de cômoda e capazes de despertá-la do sono com uma pancada.

Às vezes, ela dorme no sofá ou em nossa cama e fico com pena de acordá-la e mandar que vá sozinha para o quarto. E diante de um preocupado “não faça isso, Henrique, sua coluna…” dito pela mãe, me faço de forte e devolvo um habitual “tá tudo bem, tranquilo, eu levo”. Mas, não sei se quero enganar a ela ou a mim mesmo. Dez passos depois, estou pedindo arrego e tão logo eu praticamente arremesse a Nina na cama, saio ofegante corredor afora, meus braços tremendo e sigo até a cozinha em busca de um copo de água.

(continua lá no Estadão)

Águas de março

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Noite passada, enquanto tentava dormir, me inquietava com o fato de que já estamos em março. Março, poxa. Um terço do ano já se passou e o ano só está começando agora. Porque março é o mês que me faz desacelerar o passo da caminhada, que me força a parar e olhar por sobre o ombro e perguntar como foi que cheguei aqui. Não pelo mesmo motivo que todos nós fazemos em dezembro durante as festas, nem porque eu pessoalmente fique mais velho (meu aniversário também é em dezembro), mas é que de repente realizo, quando vejo a folhinha de fevereiro cair no calendário, que Cecília e Nina estão prestes a comemorar mais um ano.

* * *

É uma manhã de sábado, sou o último a acordar na casa. Manú está na cozinha passando um café no coador – cujo aroma a essa hora mais me chega como um carinho – e escuto o barulho da tv ligada. Sigo cambaleante até a sala e vejo a Nina sentada no sofá com um livro de mais de quinhentas páginas nas mãos. Eu coço os olhos. Quando foi que paramos de ler juntos aquelas pequenas coleções de 20 ou 30 páginas ilustradas em que eu deixava algumas frases incompletas para saber se ela já seria capaz de ler as palavras finais sozinha? Em poucos dias, ela completará dez anos. Dez. Eu posso te jurar que ano passado ela fez cinco e que toda sua história ainda cabe aqui num parágrafo ou dois de memórias.

Enquanto me espreguiço, Cecília corre atrás da Lucy com algo nas mãos que tenta fazê-la engolir. A cachorra foge, o dia todo. E Cici corre na ponta dos pés, de um jeito que parece que flutua. E ela gargalha por tão pouco, de um jeito que parece que é fácil rir assim de qualquer coisa. Atravesso o cômodo atraindo as atenções das duas, que agora me seguem até a cozinha. Para premiar a minha nostalgia, ela faz aniversário apenas dez dias depois da irmã mais velha. Dois anos, na semana seguinte. E ontem mesmo, tenho absoluta certeza, eu ainda escrevia agradecido a crônica final de um livro contando que Manú estava grávida novamente. E nossa pequena tempestade ruiva é um presente melhor do que qualquer sonho que tínhamos sobre o novo bebê que viria completar nossa família.

Eu não posso afirmar que há alguém pulando os anos e envelhecendo mais rápido do que deveria aqui em casa, mas estamos certamente sendo traídos pelo tempo, pela nossa noção de tempo, por um relógio desajustado em algum canto dessa casa cujos ponteiros aceleram além das regras.

Quando criança, uma coisa que eu gostava de fazer era represar água. Qualquer água servia. Eu abria a torneira da pia do banheiro e tapava o ralo com as mãos por um segundo ou três só para ver juntar um pouco de água e então soltar e ver aquilo correr devagar tubulação abaixo. Fazia isso na rua também, colocando um pedaço de pau, uma pedra, o tênis de algum amigo ou o obstáculo que encontrasse em frente à pequena correnteza de água que vinha meio-fio abaixo enquanto a vizinha de cima lavava a calçada. O obstáculo podia reter toda água por um tempo, mas em algum momento o volume era tão grande que o superava ou arrastava.

Eu faço isso ainda. Ponho as mãos na água em movimento e a vejo passar pelos dedos. Quando chove e estou na rua, estendo a mão e junto os dedos para ver por quanto tempo consigo reter a água. Eu faço isso ainda, eu pego a Nina no colo quando ela dorme no banco de trás do carro e comprometendo eternamente meu nervo ciático, a levo para casa. Ela já tem quase um metro e meio, ela acorda no meio do trajeto mas finge que ainda dorme e acomoda o rosto no meu pescoço por uns oito anos até chegar na sua cama. Eu faço isso ainda, quando levanto a Cecília “bem alto! bem alto, papai!” e tudo o que ela tem que garante sua segurança são meus braços que a sustentam naquela aventura. E nessas horas, ela que nunca pára nem por um segundo, fixa bem os olhos nos meus, sorri o melhor sorriso com os dentes separados e gargalha. E aí, o tempo é que pára.

Peço a Deus que me ajude a lembrar desses instantes mágicos para sempre. Em minha pequena fé, desejo que a eternidade seja o espaço onde as memórias nunca pereçam. Que no berço da vida estejam os primeiros passos de minhas meninas, o balbuciar das primeiras palavras, aquele dia no parque, a viagem à praia, as sonecas de sábado à tarde no sofá e cada vela soprada nas festas que marcam a passagem dos seus anos.

Fico tentando conter com os dedos o forte fluxo desse rio, tento parar a chuva, mas a vida muitas vezes é correnteza demais.

Me dou conta de que preciso mesmo é aprender a nadar, me deixar molhar pela chuva e seguir em frente. Isso acontece quando consigo parar de encarar o espelho entre uma aparada e outra na barba, quando deixo de lamentar o volume de água que se foi, o tempo que passou, os dois encantadores anos da Cici que ficaram para trás e os dez doces capítulos da Nina que ela já escreveu.

Há paz, finalmente, quando meu olhar se concentra no que importa, uma obviedade de que me esqueço com frequência: de que há algo a ser feito agora, há o que se desfrutar hoje e que há coisas mais importantes do que respostas para se perseguir na vida. Porque há amor, há Legos, massinhas, lápis e bonecas por todos os lados, há a quem pertencer para sempre, há Deus a nos guiar com sua voz bondosa, há duas meninas dormindo de mãos dadas no quarto ao lado. Há um futuro que se revela atrás da porta que se abre, e o horizonte todo, o dia de amanhã, o esplendor do sonhos e o tempo, todo o tempo que ainda temos pela frente chegando na corrente de um rio.

Em poucos dias haverá uma festa por aqui. Estamos em março e lá fora chove.

Entre nuvens

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Aeroportos. Eu também teimo com aeroportos. Não sei dizer o que é, mas há uma atmosfera estranha, que em um primeiro impacto parece ter um brilho interessante e mágico mas em poucos minutos se revela superficial, limitado e ofuscante demais, perfumado demais, barulhento demais, raso demais. Tentam nos vender como shopping center o que na verdade é só o que é: um terminal de chegadas e partidas. Pessoas indo e voltando, de passagem por algumas horas, até o momento de partir, escutando as descrições de voos, as chamadas de embarque e o ruído das aeronaves decolando lá fora. Estou em um aeroporto agora.

No entanto, observar viajantes está entre meus passatempos favoritos. Mais do que faço em qualquer outro lugar, gasto minhas horas de espera antes de embarcar olhando as pessoas à minha volta e tentando imaginar suas vidas. Porque há algo diferente nesse ambiente, ninguém passa por aqui todos os dias, todos vivem essa coisa transitória, estar nesse lugar não é a rotina de ninguém sentado nessas cadeiras (é claro que os funcionários das lojas e balcões de companhias aéreas são uma exceção). Estão todos em trânsito, indo para algum novo destino ou voltando para seus lugares.

Eu só tento escutar. O casal de meia idade que come uma pizza em silêncio e sem se olhar nos olhos em nenhum momento, um outro casal de idosos que senta lado a lado na mesa do restaurante deixando as cadeiras da frente livres e conversam animados com guias de viagens empilhados sobre a mesa, executivos e executivos sozinhos digitando aceleradamente em seus computadores ou andando de um lado para o outro. Indianos, japoneses, norte-americanos, latinos, gente muito loira e branca de algum canto da Europa, um grupo em excursão viajando em férias, homens com chapéus de cowboy que julguei serem aqui do Texas mas descobri depois que eram de Goiania (estou parado numa conexão em Dallas). Duas crianças entediadas brincando em iPads com capas coloridas e outras crianças, um casal de irmãos, correndo um atrás do outro pelo terminal como se estivessem no quintal de casa. Uma mulher lendo um livro de bolso enquanto bebe uma garrafa de meio litro de Coca-Cola Zero no gargalo. Gente no celular, gente no celular e gente mexendo no celular por todos os lados absortas em suas telas azuis, isoladas em fones de ouvido que sempre me lembram o penteado da Princesa Leia. Tento escutar suas conversas.

Procuro imaginar suas vidas além dessa máscara que enxergo. Sei que você também faz isso. Quero saber como são suas rotinas fora daqui, de onde vieram, para onde estão indo. O que sonham fazer, o que as angustia agora, o que tem em suas casas, do que sentem falta, que carro dirigem, se já roubaram para comer alguma vez na vida. Fico imaginando quem é que os espera do outro lado dessa viagem aérea, quando chegarem em casa.

Foi o escritor John Gardner que disse certa vez que só existem dois tipos de histórias: a pessoa que sai em uma jornada ou um estranho que chega na cidade. Ele falava de literatura, mas talvez seja isso mesmo e eu não esteja entendendo. As histórias, de todos nós e os fragmentos que deixamos transparecer nessas amostras, nesses pequenos contatos que fazemos, no fundo se resumem a duas coisas.

Estou sozinho agora, sentando em uma mesa de restaurante, comendo uma fatia de pizza em que certamente falta alguma coisa na cobertura e espero o horário de embarque do meu voo de volta para São Paulo. É minha décima segunda viagem a trabalho esse ano. Estou cansado. Penso na frase do John Gardner e fico me perguntando onde é que me enquadro em sua sentença. Quem seria eu nesse escrutínio que faço se estivesse do outro lado do balcão me analisando? Personagem de que tipo de história eu sou?

Ainda hoje, um pouco mais cedo, liguei para casa para saber como as meninas estavam. A Nina atendeu o celular da mãe e ligou a câmera para conversarmos. Eu ainda tinha pelo menos 15 horas de viagem pela frente então e enquanto falávamos, ela caminhava por uma área aberta e me contava da festinha infantil em que estavam. De repente, parou de andar, olhou para o alto em silêncio e fixou o olhar por alguns segundos em algo que eu não podia enxergar. Então ela voltou:

– Pai.
– Oi.
– Acabou de passar um avião no céu. Queria que fosse você.

Entre uma garfada e outra na pizza, eu penso que falta orégano e certamente também falta alguma coisa na frase do John Gardner. Porque há um terceiro tipo de história, há uma outra narrativa, a saga que meu personagem vive nesse exato instante e em cada viagem que faço: um peregrino que volta para seu lar.

Por que sempre corremos de volta para o que nos espera, por que nossa alma só se completa quando reencontra a quem pertence. E às vezes isso é a busca de uma vida inteira, às vezes é a volta para casa de uma viagem e inúmeras vezes somos só nós no trânsito depois de um dia de trabalho. De volta para os braços de quem se ama, de volta aos eixos sobre os quais a vida gira diariamente, de volta para o pão com manteiga e café com leite, de volta para o coração de Deus. Todas as histórias são isso mesmo, ir e vir, os ciclos, partir e chegar, a jornada toda. E a vida se realiza na certeza aconchegante de poder ter para quem voltar.

Eu me vejo no outro lado do balcão, refletido num espelho. Já não me analiso ou faço perguntas. Sei muito bem para onde sempre volto.

Enquanto a gente se distrai, o tempo foge

Amigos, estou lançando meu primeiro livro.

Desde criança, gosto de escrever. Acho que sempre foi o jeito que encontrei para entender, organizar e expressar os pensamentos. E acho que não tenho muitas lembranças da infância em que eu não esteja com uma bola, um livro ou lápis e papel no bolso.

(Considerando minha desastrosa virtuosidade com a bola nos pés, restou a esse falido gandula passar as tardes mergulhado em histórias e jogando com palavras).

E o livro é mais um jeito de juntar algumas dessas ideias em uma coletânea de crônicas que tem como temas centrais a paternidade, o cotidiano e espiritualidade.

Estará nas lojas semana que vem, em formato ebook (editado pelo Tiago Ferro e equipe na e-galáxia), terá essa capa bonita da imagem abaixo, com o título “Enquanto a gente se distrai, o tempo foge” estampado numa bela arte criada pelo Dogura Kozonoe.

No dia do lançamento, posto mais detalhes por aqui. O que eu queria agora era poder compartilhar e comemorar essa novidade com vocês que sempre fazem a gentileza de ler as bobagens que escrevo :-)

Até!

 

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Vem aí!

O primeiro livro deste que vos tecla :-)

Darei mais notícias em breve por aqui (ou, se preferir ser alertado por e-mail, digite seu endereço na caixa de cadastro aí na barra lateral).

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Por quem meus olhos abrem

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Algumas situações ruins que vivemos, às vezes vem cercadas de tantos momentos mágicos que com o passar do tempo a memória se encarrega de nos fazer esquecer as partes negativas e nos apegamos à ideia de que tudo foi perfeito.

Nos últimos meses, as coisas meio que voltaram uns nove anos no tempo aqui em casa. E com a chegada tão esperada da Cecilia e toda alegria de ter um bebê trazendo o milagre da vida e dando seus primeiros passos na sala do nosso apartamento, chegou também – sem ser convidado, preciso enfatizar – a época da areia nos olhos, das overdoses de cafeína, dos sonhos delirantes com noites inteiras de sono que agora parecem tão remotamente impossíveis.

Nossos passeios no shopping acabam com nós dois parados lado a lado, dedos entrelaçados e aquele olhar melancólico em frente a uma loja de enxoval e a boca salivando em desejo por camas fartas, edredons fofos e lençóis de algodão egípcio com 12.000 fios. Tudo o que queremos são noites com horas ininterruptas de sono.

O fato é que a Cecília acorda muito durante a noite. A cada hora, às vezes. Várias vezes numa hora só, em certas ocasiões. Quando o ponteiro marca uma e tantas da madrugada, ela começa a chamar, numa escala de decibéis que certamente não cabem nos 75 centímetros que mede aquele pequeno ser:

– Mamamamamamamaaaaaa!

Levantamos correndo, muitas vezes correndo na direção errada (eu já cheguei a ir para o banheiro ao invés de entrar no quarto das meninas), tantas vezes chutando chinelos, crocs, quinas de cômodas e dando topadas com o cotovelo na maçaneta de alguma porta. O susto nos impulsiona, o despertar é quase um instinto.

Talvez alguém que leia isso recomende técnicas de sono. Alguém sugere um “nana, nenê” aqui, outro indica o “leito compartilhado” ali e talvez apareça também o modelo francês em uma conversa por aí. A gente tá ligado, estamos realmente tentando. Mas tem sido difícil contar para a Cecília sobre nossas metodologias e conseguir que ela concorde em participar dos testes.

* * *

Eu lamentava essa situação outro dia, quando me ocorreu que há pouco mais de um ano estávamos, nós dois, nesse mesmo quarto, vivendo esse mesmíssimo momento, mas ainda sem ela. Os olhos abertos, idas e vindas pela casa, o medo de acordar a Nina, coração aflito esperando Cecília chegar em algum instante daquela madrugada. Ela nasceria em poucas horas e essa era toda a expectativa que tínhamos então (e já nos acordava às duas da manhã para anunciar o que viria pela frente).

Hoje, ela mede alguns poucos centímetros, mas ocupa dois metros de altura entre nós. Pesa doze quilos, mas preenche a casa e nossas vidas com sua presença festeira e o sorriso fácil de poucos dentes separados. Tem apenas alguns meses nessa terra, mas ilumina a vida da gente inteira com aquele cabelo vermelho fogo e a pele branca reluzente.

Ontem ela fez um ano. Antes de ontem, ela nasceu. Amanhã, ela estará por aí ganhando o mundo.

Aquela sensação de que tudo estava sob controle e a certeza de que a paternidade era assunto dominado por aqui, obviamente caiu por terra. Achamos que a Nina e sua serenidade eram o padrão genético que imprimiríamos em qualquer ser humano que resultasse de nós dois. Achamos.

Não estávamos acostumados. Na vida pacata que sempre reinou sob esse teto, jamais imaginamos a chegada de alguém que virasse tudo de pernas para o ar, como Cecília faz. A Nina sempre foi tão calma, tão a gente mesmo, como uma extensão das nossas personalidades. A Cecília, por sua vez, é o conceito não lapidado de personalidade em si.

Se a Nina sempre foi calmaria, a Cecília é tempestade. Nina é solitude, Cecília é multidão. A Nina é “a capela”, mas Cecília é bloco de carnaval. Nina é Beatles e Cecília é Rolling Stones.

Ela tem pressa, ela voa. E se minha vida até então era sempre essa coisa de andar de olhos fechados para sentir a brisa e contemplar, agora eu fico, o tempo todo, de olhos bem abertos. Porque a todo instante, ela nos surpreende. E isso é a maior graça dessa história toda.

Mas, enquanto observo minhas meninas dançando juntas na sala, partilhando uma história na tv e caminhando lado a lado para a vida, sinto que me pesa sobre os ombros o preço do tempo, o limiar da história e me crescem novos fios brancos pelo corpo. Eu limpo as lentes embaçadas dos óculos e olho para o “agora há pouco” como um passado cada vez mais distante. Tenho medo.

* * *

A coisa não é abrupta, nunca é. Não há ruptura que se possa notar assustado, não há dia agendado para que uma despedida seja marcada a tempo. O tempo é sorrateiro, é fugaz como um fósforo que de chama reluzente vira cinzas num piscar de olhos. Só o notamos olhando para trás, só nos damos conta de que tudo foi tão rápido quando já passou.

Só vemos os sinais. Há riscos de giz de cera marcando a altura no batente da porta do quarto, há uma sacola de roupas que já não servem, há fotos, milhares de fotos, gigabytes de fotos, de muitos dias e eventos. Temos os brinquedos antigos esquecidos em alguma caixa velha, os desenhos em rabiscos arquivados nas gavetas do criado-mudo. A verdade é que só temos mesmo as lembranças e todas essas coisas que nos remetem às lembranças.

Elas vão passar, vão crescer e correr tão rápido que meus dedos não poderão alcançar, vão sair pela porta da sala para brincar lá embaixo e, de repente, voltar com as suas crianças para brincarem com a gente.

A diferença de idade entre as duas é um duro contraste. Até outro dia, era a Nina a personagem de parágrafos tão parecidos com esses que agora eu dedico à Cecília. E fico pensando que toda descoberta e novidade de ser pai novamente será, outra vez mais, essa experiência encantadora e assustadora e vou ter que lidar com a Cecilia, daqui oito anos, nesse tamanho que a irmã tem agora – e que já terá 17 anos (de-zes-se-te!) então.

A Nina agora me pergunta sobre o significado da vida. Quando ela começou, pensei que era uma revisão para a prova de ciências. Mas (como sou tolo), a questão era pura filosofia:

– Pai.
– Oi, filha.
– Assim, eu tenho essa pergunta… essa… eu queria saber, o que é a vida?
– Como assim, filha?
– A vida, pai. Isso que eu quero entender. O que é a vida? Eu fico todo dia com essa pergunta. Por que a vida, pai?

Eu digitava qualquer bobagem no computador nessa hora, paralisei uns 15 segundos, até que notei que precisava fechar a tela e conversar à altura.

Tentei ser convincente em alguma explicação sobre existência e propósito, falei de Deus e de como a vida é uma criação dele e vivemos para ele, nosso Pai. Mas sabia que não a supriria, não há argumento racional para isso. Porque uma coisa eu sei: esse é o tipo de pergunta que só nós mesmos podemos responder, é a busca existencial que nos cabe encontrar, é o colo divino que tem a nossa medida. E o que ela não sabe é que o pai dela se faz essas perguntas diariamente.

Semana passada, ela tocou uma música inteira no teclado. Eu voltava de uma viagem a trabalho e havia chegado em casa há pouco, então ela foi até o outro quarto e nos chamou para ouvir o que tinha aprendido. Fiquei em pé, encostado no batente da porta enquanto a olhava de frente. E ela, não a música, era tudo o que eu percebia. Os dedinhos pressionando as teclas de forma coordenada, aquele olharzinho inseguro lendo a partitura, as bochechas formando um sorriso quando acertava as notas. Aí eu chorei. Poxa. Olhando aquilo, tudo aquilo, vivendo aquilo, fiquei comovido. E abracei minha filha. Não exatamente pelo que ela fez, mas por ela e porque a fico observando fazendo essas coisas para nos deixar felizes, sem saber que tudo o que fazemos na vida é tentar fazer coisas que as deixem felizes.

E o significado da vida, esse que ela tanto procura todos os dias, para mim estava naquele instante.

* * *

Abri a porta de casa outro dia e elas estavam, as três, espalhadas pela sala enquanto algum musical passava na TV. Cecilia brincava em um canto quando me viu chegar. Ela deixou o brinquedo de lado (leia: arremessou no chão) e correu, cambaleante, em minha direção. Me abraçou as pernas e eu a peguei no colo e levantei bem no alto, para depois lhe dar um beijo. Então ela também fez um bico, mirou minha bochecha esquerda e deu aquele estalo. Me abraçou, abriu o sorriso, me encarou fundo nos olhos e soltou: “Papa!”.

Ela tem esse olhar que escrutina a gente e tudo ao redor. O mesmo olhar que revela tudo o que ela é. A Cecilia não tem mistério. Eu brinco que ela não é branca, ela é transparente. E amo enxergar nela a pureza da infância, essa autenticidade e liberdade em poder oscilar do pranto ao riso em segundos, em não se limitar às convenções. E penso no quanto disso me falta hoje. Ela tem medo do secador de cabelo, mas adora dormir ao som do aspirador de pó. Ela gosta de comer sozinha com o garfo, mas pede que a gente segure a mamadeira para ela. Ela agarra e penteia os pêlos da Lucy o tempo todo, mas tem aflição de passar a mão em bichinhos de pelúcia. Ela fala “não” quando não quer alguma coisa e fala “não” quando quer também.

Me encanto em perceber que estou vivendo, de novo, essa satisfação da paternidade, o privilégio de testemunhar mais um ser humano dar seus primeiros passos cambaleantes diante dos meus olhos, de ter uma menina pendurada em minha mão passeando pela rua enquanto me faz perguntas sobre a Peppa Pig, sobre brinquedos, sobre minha infância e, talvez, sobre o sentido da nossa existência. Esses dias tão mágicos e excepcionais da vida da gente que, numa fração de segundos, suplantam qualquer parte ruim, qualquer noite mal dormida, qualquer desejo individualista e superficial. E na mesma fagulha de tempo, tudo vai embora. Daqui a pouco ela me pega de surpresa, como a Nina, com perguntas difíceis. Daqui a pouco ela sai por aí com sua mochila nas costas.

Lembrei, outra vez, de uma história que vivemos há coisa de sete anos. Estávamos em férias, viajando para algum lugar que já não recordo. Era noite, a Nina dormiu e eu a carregava no colo. Já não lembro se estávamos em um avião ou um elevador, mas lembro que enquanto esperávamos alguma porta abrir, uma senhora, parada ao lado da Manú, nos observava. Ela contemplou a cena, parou o olhar sobre a Nina, sorriu por longos segundos e emendou:

– E na semana que vem ela fará 20 anos.

Já é tarde agora. As duas dormem juntas num quarto. Não resisto e vou até lá ver como estão. Faz bastante frio nesses dias e tentamos manter tudo bem fechado e aquecido. Puxo a coberta sobre a Nina, que se mexe a noite toda. Coloco mais uma manta em cima da Cecilia, que nunca pára de se mexer. Ajeito os travesseiros sob suas cabeças. Faço minha prece por elas.

Nos olhos, não tenho areia. Tenho talvez um cisco. E as observo admirado. De olhos bem abertos. Porque num piscar de olhos, a vida inteira passa.

Sobre meninas e cães

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Uma das coisas legais de ser pai é ter acesso a boa parte das coisas mais bacanas da vida na hora em que você quiser. Carregar uma menina no colo, se sentir o herói de alguém, ter infância eterna (poder voltar a brincar de coisas de criança e fantasiar sem parecer um idiota aos olhos dos outros adultos), dormir acampado no meio da sala e inventar histórias cheias de animais falantes e pessoas que voam.

Você pode dizer que esse prazer depende da disposição da criança e não do adulto, mas o fato é que a esporadicidade desses acontecimentos, hoje, são resultado muito maior da indisponibilidade dos pais do que da falta de interesse das crianças. Tenho filhos e tenho amigos com filhos, basta observar.

Além disso, essa felicidade do pai independe do filho. A Nina está lá, sentada na mesa desenhando flores. A Cecília está aqui, dormindo no carrinho. E eu, como um cachorro quando o dono chega pela porta de casa, usufruo dessa alegria inata e me realizo sem que elas precisem fazer algo a respeito.

O mesmo peso, para mim, tem o fato de poder dormir todas as noites na mesma cama com a mulher mais bonita e inteligente que eu conheço. E a gente esquece, às vezes, o quão afortunados somos por poder dividir um colchãozinho macio e uma coberta quente diariamente com alguém que amamos. Mas isso é ponto para outra conversa.

Pais são como cachorros babões, eu dizia. E não importa como nossos donos se comportem, sempre estaremos por perto.

Todas as noites, quando chego em casa, o ritual se repete. Abro a porta pensando em largar a mochila num canto e beijar minhas meninas, mas no meio desse trajeto de apenas dois passos sou interpelado por 30 quilos de pêlos amarelos que se arremessam na minha direção. “Oi, Lucy. Já te vi”. Ela não escuta, ela pula, rodopia, arfa, lambe e corre para buscar um brinquedo. Com um braço esticado eu tento mantê-la distante para, com o outro, alcançar e tocar minha esposa e minhas filhas para cumprimentá-las. “Agora chega, Lucy! Já deu. Vai pra lá!”.

Ela se afasta por uns dois minutos. Mas o menor balbuciar das palavras “vem”, “cadê?”, “passeio” e “vamos” num raio de 5 quilômetros, aciona novamente sua euforia e o rabo balança como um espanador. Nós a chamamos de Alucynada.

Faz três anos que ela chegou por aqui. A Nina insiste que tem duas irmãs e não uma. Cecília gasta mais tempo tentando escalar seu tronco e montar sobre ela do que entretida com qualquer brinquedo barulhento e iluminado que tenha. A Manú diz que tem três filhas: uma morena, uma ruiva e uma loira. Eu, lobo solitário nessa casa, costumo dizer que por aqui nem o cachorro pôde ser homem para me fazer companhia. Mas a verdade é que a Lucy é a única que fica plantada ao meu lado enquanto assisto algum jogo na TV. Ao meu lado, não. Ela deita sobre os meus pés com aquela massa de pêlos quentes, mesmo que o termômetro da rua aponte 40 graus na sombra.

Quando nos retiramos para dormir, ela se acomoda em um ponto na porta do corredor entre a sala e os quartos. Invariavelmente, eu tropeço em alguma parte do seu corpo ou escorrego numa pequena poça de baba canina quando vou buscar água no meio da noite. A Lucy nem se move.

Esse tipo de coisa, de cães para com os donos, de pais com seus filhos, isso tem um nome só: fidelidade. E ainda que esteja em desuso, é uma palavra das minhas favoritas. Porque, ao contrário do que se vende, fidelidade não é um contrato que te amarra ao outro, mas a liberdade que nos faz querer estar ali voluntariamente. Não é dever, é uma entrega pura ao objeto do nosso afeto. Fidelidade é ser leal, constante. E isso é raro pra caramba.

Em favor dos cães, eu diria que, diferente de nós, eles são menos suscetíveis a intempéries e alterações de humor, a dias ruins, trânsito intenso e chefes mal amados. No entanto, para os pais pesa o fato de que não importa onde estejam, não interessa como estejam ou se nos querem por perto, nossos filhos sempre serão “as crianças” (mesmo que as crianças venham nos visitar trazendo as suas crianças) e o repositório infinito do nosso amor.

A Cecília, que até outro dia só chorava e dormia, agora faz graça e sorri quando me vê. Eu fico maluco quando chego perto e ela abre aquela boquinha com meia dúzia de dentes e cerra os olhinhos. A Nina, que até a semana passada só sorria, agora chora por razões novas. E eu fico destruído quando ela me diz que vai sentir minha falta quando preciso fazer uma viagem a trabalho e fala para a mãe que quando estou fora é como se faltasse um dente em sua boca. Eu queria poder carregar uma em cada braço o tempo todo.

Não importa o que façam, elas só me dão alegria. E como faz a Lucy todas as noites, eu me coloco à porta do quarto, observo seu sono e fico babando.

* * *

Eu acho que também é assim entre a gente e Deus. Ele também é como um cão fiel, babão, à porta sempre esperando. Calado quando nos calamos, pronto a atender quando clamamos, lambendo-nos como suas crias que precisam de cuidado. Não porque nos seja submisso, mas porque como todo pai apaixonado ele está sempre ali, presente, constante, fiel.

Os fundamentalistas ficarão bravos por eu comparar Deus a um cachorro. Eu poderia fazer a relação óbvia e dizer que Deus é nosso pai amoroso. Mas o próprio Deus já disse isso várias vezes e os fundamentalistas continuam bravos com Deus.

Os fundamentalistas gostariam que Deus fosse bravo e rabugento como eles. Mas o problema é que Deus é tão pouco rabugento que sempre os decepciona. E eles ficam bravos de novo e descontam isso nas outras pessoas. Eles acreditam que entendem mais de Deus do que o próprio Deus.

E eu prefiro conversar com gente que não acredita em Deus mas que consegue compreender analogias simples do que com gente que acredita que Deus é rabugento. Até porque eu também não acredito em um Deus rabugento.

O que eu acredito, de verdade, é no que eu sinto pelas minhas meninas e insisto que isso – o amor entre pais e filhos, a pureza da infância, a simplicidade – é uma analogia que nos ensina sobre como nossa relação com Deus deveria ser.

É esse tipo de sentimento que é intenso demais para qualquer um dizer que é capaz de explicar. A gente ama, aquilo cria raízes e o que sentimos passa a ser parte de quem somos. Acredito que existe, sim, essa transcendência na vida. Porque uma satisfação que está no outro, na entrega e que dá sentido a todas as coisas dentro de nós, é que me parece ser a essência de Deus. O amor, basicamente.

E esse tipo de amor não exige reciprocidade. Mesmo sozinho, ele existe. Está lá, acampado na sala ou na porta do quarto, sentado aos pés da cama, ajudando a resolver as tarefas, sendo herói, carregando no colo, curando feridas, brincando no chão da sala e vivendo uma infância eterna.

Olho para a Lucy, deitada aqui aos meus pés, um olho fechado e o outro me observando e pergunto a ela o que acha disso tudo. Diferente dos personagens das histórias da Nina, ela não é um animal falante. Mas leal como em cada instante da sua vida, ela levanta num pulo, abana o rabo de um lado para o outro e começa a me lamber.

É nisso que eu acredito.

O mundo que eu carrego nos braços

Estou andando pelo quarto, com a Cecília no colo há cerca de 30 minutos. Na verdade, já faz uns três ou quatro dias que a Manú e eu estamos nessa. Ela está febril, com algum mal estar e só choraminga, a toda hora. Não dorme direito, tira uns cochilos e já acorda berrando alto, muito alto. Ela só para de chorar, veja só, quando a pegamos no colo.

Tem um livro ou artigo ou ensaio, vai saber, que diz que na França os pais deixam os filhos chorarem por uns 10 minutos antes de atendê-los. Esse texto defende um modelo de criação diferente e diz que, como resultado desse tipo de tratamento, na França as crianças não fazem birra. Há quem diga que deveríamos copiar os franceses. Mas a França é longe demais e a Cecília está chorando aqui, agora, ali no quarto. E o instinto de coruja não me permite ver minha filhinha chorando doente e ignora-la solenemente para ver se algo diferente acontece.

O mais perto da França que a gente está aqui em casa é o biquinho que a Cecília faz quando chora no berço. E Ceci (ou Céci) é um apelido que até pode soar francês para quem a quiser chamar assim – no caso aqui, um parente ou dois.

A gente se preocupa com tanta coisa. Há tanto acontecendo no mundo agora, por esses dias. Coisas demais. Na França, na Turquia, na Somália, nos Estados Unidos e aqui no Brasil também. O noticiário pipoca escândalos, guerra e barbárie. Eu, que sempre figuro na ala dos otimistas, tenho andado ressabiado. Penso na minha família. E dá um certo medo ser pai, marido e cidadão num mundo assim nesses dias.

Lembro quando fui roubado pela primeira vez. Roubado, não extorquido. Fui extorquido aos 10 anos num fliperama quando um moleque mais velho me tomou os últimos 50 centavos que eu tinha paga comprar uma ficha de jogo. Mas fui roubado aos 14, sentado num ônibus ao lado do meu tio Beto, com meu boné azul novinho dos X-Men na cabeça, a caminho de um show dos Beastie Boys no Olympia. Eu pensava na noite bacana que teria pela frente (meu primeiro show!), pensava longe, a cabeça apoiada no vidro da janela, quando um braço se esgueirou pela fresta aberta, vindo do lado de fora, e tomou o boné da minha cabeça. Levei um susto, fiquei pasmo. Não pelo valor do boné, mas por sentir que alguém subtraia algo de mim, violentamente, subitamente, sem que eu visse e muito menos permitisse. Olhei para os lados, procurei o boné no chão, procurei entender o que aconteceu, até que a ficha caiu (uma outra ficha, não aquela extorquida).

É meio assim, pasmo, que me sinto hoje em dia. Roubam a gente todo dia. Ando pela rua com a sensação de que há dez – ou duzentas – mãos tentando puxar minha carteira, arrancar meu suado salário, exigindo que eu pague suas perdulárias contas. Respiro com dificuldade, com o estranho sentimento de que o ar me falta nos pulmões, de que falta aquela brisa fresca da aurora, porque a ganância – a nossa ganância – derruba galho por galho, gota por gota, canto por canto, da natureza que nos sustenta e garante nossa existência. Morremos aos poucos como humanidade, engolidos por essa lama que vai consumindo a vida. Sigo pelo mundo com a percepção de que minha liberdade vai sendo subtraída, de que tentam assassinar a pureza da nossa alegria, pedaço a pedaço, em cada ataque terrorista, em cada apedrejamento, em cada cuspe na cara, lá na Tunísia, no Quênia ou na França.

Mas a França, a Tunísia, o Quênia ou Mariana estão todos longe demais.

A Cecília chora outra vez. Largo correndo o computador aqui no sofá, corro até o quarto e a embalo no colo mais um pouco até ela pegar no sono novamente. A luz dos postes lá na rua atravessam pela janela aberta e refletem na parede onde fico vendo nossa sombra em movimento. Há um pouco dessa luz iluminando parte do seu rosto, o cabelo vermelho, uma das bochechas e os olhinhos fechados. Agora ela repousa, nessa segurança ela descansa. Coitada. Mal sabe sobre que monte de dúvidas ela deposita sua pequena paz. Eu a deixo no berço e volto para o texto.

Às vezes, tenho vontade de me alienar (às vezes nada, penso nisso todo dia). Queria parar de me preocupar com o mundo todo, ser um ignorante. Deixar de acompanhar a política, fazer pouco caso dos desastres distantes, trocar o noticiário pela novela. Penso o que seria se decidisse cuidar só da minha vida e dos meus, olhar para um alvo só e manter o foco. O mundo é grande demais, elaboro. Deveria me ater ao microcosmo de coisas e pessoas que já exigem tanto de mim. Mas logo me dou conta de que não tenho essa habilidade. Não descobri ainda se por virtude ou limitação, mas não consigo não me importar e sofrer profundamente.

O que não quer dizer que eu possa fazer algo, de fato, por eles todos. O que posso fazer além de dedicar àquelas vítimas todas as minhas orações, enviar pacotes de água para Minas Gerais e doar algum dinheiro para instituições de apoio presentes nessas regiões? Isso ajuda, é evidente – e procuro fazer – mas ainda é muito pouco.

É quando me dou conta de que não é bem de alienação que preciso, mas saber claramente que o que está ao meu alcance eu devo realizar agora. Ter consciência de que tem uma porrada de coisas que posso fazer hoje para mudar o meu mundo.

Porque sempre haverá uma calçada para varrer, um vizinho necessitado para alimentar, um voto para se pensar direito, um vereador preguiçoso para cobrar. Tem, todos os dias, um asilo que podemos visitar com as meninas (idosos adoram ver crianças correndo em volta), um pedestre para darmos a preferência no trânsito, uma criança carente a quem podemos pagar os estudos. Tem uma escola e o posto de saúde do bairro em que podemos ser atuantes, tem o condomínio em que vivemos onde podemos ser presentes, a igreja da comunidade em que podemos servir.

Tem esse mundo todo de coisas a serem feitas no mundo ao nosso redor. É, no duro, nesse meio ambiente que nos cerca que podemos fazer grandes mudanças, são as vidas ao nosso redor (vizinhos, amigos, familiares) que podemos transformar.

Um morador aqui no meu bairro conseguiu que uma rua que estava totalmente esburacada há mais de 30 anos (e onde jaz parte do meu dente da frente depois de um tombo de bicicleta em um dos seus buracos há 24), fosse inteira recapeada e reformada. O que ele fez? Pregou duas faixas, grandes, coloridas, destacadas, cobrando o prefeito de uma de suas promessas de campanha. Quando a obra foi concluída, ele colocou outras duas faixas: uma agradecia a nova rua que agora temos e outra cobrava que um parque público fosse construído num terro da rua debaixo. O parque já está em obras.

Parece insignificante perto da lama toda em Brasília. Soa pequeno demais diante de problemas tão críticos no Oriente Médio e na África. Mas, não é. No fundo, é nessa escala que tudo se transforma. No limite dos municípios, do bairro, da rua, dentro de casa, na verdade. Nas necessidades da vida cotidiana, na educação dos nossos filhos, mostrando a eles o que é ser um bom cidadão, o que é ter respeito pelo próximo, o que é estender a mão a quem precisa e ser a voz de quem não a tem para exigir o direito comum a todos. O mundo inteiro, cada cidadão de bem, fazendo sua pequena parte para compor o todo. Acredito nisso, de verdade. Porque não somos a França ou Mariana, nós somos indivíduos. Somos o Henrique, o Mohamed, a Sayuri, o Maputo e a Mercedez, na beleza da nossa diversidade e individualidade. Esse é o mundo que eu consigo abraçar.

“Não usemos bombas nem armas para conquistar o mundo. Usemos o amor e a compaixão. A paz começa com um sorriso”. A frase é de Madre Teresa de Calcutá, lembrada por sua vida dedicada à caridade e que passou a maior parte dos seus dias em um hospital indiano cuidando de leprosos. Essa era sua obra: um pequeno hospital. Esse foi o mundo que ela tocou de fato. Mas por alguma razão, os efeitos de sua vocação transformaram no mundo todo a maneira de se enxergar a fé cristã.

Jesus ministrou, ao todo, por três breves anos. Nasceu na Galileia, uma região da Palestina onde, estima-se, viviam na época cerca de 200 mil pessoas. Em Jerusalém, capital da Judeia naquele tempo, viviam aproximadamente 25 mil pessoas. Sua mensagem, não deve ter alcançado mais do que uma parte dessa pequena região. Se compararmos com o Brasil de hoje, o ministério de Jesus não teria uma cobertura maior do que uma cidade entre as 100 maiores do país. Mas, honestamente, não acho que ele tinha em mente que precisaria de amplitude para começar ou exercer sua missão de vida: o amor. Porque não se ama o mundo todo, ama-se o próximo, o cego, o leproso, a viúva, a criança, o guarda, o ladrão condenado ao seu lado na cruz.

Não é a amplitude, entende? É empenhar amor aqui, é amar o próximo. Faça o que está ao seu alcance e certamente isso tocará mais gente do que poderia imaginar. Não é o tamanho que faz a grandeza da obra, é o significado, é saber que nosso esforço tem como fim o bem estar comum de nossos semelhantes e que a justiça e o bem devem sempre prevalecer. Porque essa, a bondade, é a natureza com que fomos criados.

Transformar o que me cerca, trabalhando duro, pregando no deserto, estendendo a mão ao desamparado, doando um tanto do que recebo. Embalando minhas filhas no colo e orientando seus passos para o mundo. Elas, as duas, serão grandes heroínas. Não é para menos do que isso que as educo.

Cecília chora de novo lá no quarto. Ela só tem sete meses. Esta febril, respira ofegante. Em sua pequenez, em sua fragilidade, ela depende de socorro. Eu a embalo. A Manú chega e a pega também. Só precisa de um pouco de toque para poder voltar a dormir em paz.

Esse é o mundo que eu carrego nos braços agora. A gente fica querendo abraçar o planeta todo, mas todo meu mundo, todo universo, é esse bebê que eu embalo no colo. Agora.

Darwin, poesia e uma menina ruiva

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“E eu, que buscava apenas Deus, encontrei a ti.”
-Elizabeth Barret Browning

Às vezes, a vida precisa de explicações, mas tem momentos em que ela só precisa de poesia. É assim que eu entendo a fé. É claro que se trata de uma escolha – você decide encarar o mundo a partir dessa perspectiva – mas não dá para racionalizar. Escolher acreditar, abrir mão do controle, não tentar esmiuçar as coisas para as quais não tenho explicações. Porque Deus é grande, eterno e tudo, mas ele é também essencialmente simples.

Donald Miller escreveu no livro Blue Like a Jazz: “Meu mais recente esforço de fé não é do tipo intelectual. Eu realmente não faço mais isso. Mais cedo ou mais tarde você simplesmente descobre que há alguns caras que não acreditam em Deus e podem provar que ele não existe e alguns outros caras que acreditam em Deus e podem provar que ele existe – e a esse ponto a discussão já deixou há muito de ser sobre Deus e passou a ser sobre quem é mais inteligente; honestamente, não estou interessado nisso.”

Há algumas semanas, meu pai e alguns dos meus tios foram visitar minha avó de 96 anos no hospital em que estava internada. Era mais de meia-noite, eu estava sentado no sofá da sala, cumprindo meu turno e dando a mamadeira para a Cecília, quando abri o celular e vi que chegaram algumas fotos deles ao lado dela. Minha avó deitada no leito inconsciente, os filhos ao redor. “Estão todos muito mais velhos”, pensei quando vi a primeira foto (ao menos, muito mais velhos do que a imagem infantil que mantenho deles em minha mente). “Mas são crianças de 50 anos tentando puxar a barra da saia de sua mãe”.

Poucos dias depois, minha mãe avisou que ela faleceu.

Chorei pela minha avó. A vida é fugaz. Às vezes, nada parece ter muito sentido, tudo fica impossível de se explicar. O que me ocorria é que quando nasci, minha avó já estava lá e nunca pensei em um mundo sem a sua presença. De certa forma, suas crianças ali ao redor da cama, eu aqui, a Nina e a Cecília em casa, somos a sua eternidade. Essa linha contínua que é a existência do homem sobre a terra nas lembranças que deixamos, na história que vivemos.

Acho que todo homem merece ter um bebê nos braços e todo bebê merece o colo de um pai. É o nosso senso de existência, a coisa toda do pertencimento que temos um ao outro, de que dependemos um do outro.

Quando Deus nos diz que é nosso pai, quando Maria e José acolhem o menino Jesus nos braços, quando Jesus diz para o povo de Jerusalém que só queria poder abrigá-los sob as asas como pequenos filhotes, essas coisas dizem mais do que livros e livros inteiros da Bíblia.

A Cecília faz uns barulhinhos de bebê engraçados enquanto mama. Ela já sorri, abre a boquinha banguela, quando eu falo com ela. Ela é ruiva, tem os fios de cabelo bem vermelhos. Às vezes, ela fica encarando a gente bem dentro dos olhos como se tentasse descobrir algo, como se nos perguntasse todas as perguntas do mundo de uma vez. E a gente é que fica se perguntando um monte de coisas então.

Talvez Darwin explique que o cheirinho de bebê, os grunhidos fofos e os sorrisos banguelas sejam uma estratégia de defesa da nossa espécie nessa fase tão vulnerável da vida. Certamente a ciência pode explicar o porquê do cabelo vermelho numa família em que ruivos são figuras de um passado remoto. Mas, no duro, só Deus pode ter inventado um troço desses.

Outro dia, eu estava aqui na sala de casa quando a Nina chegou e perguntou se podia cantar uma música pra mim. Foram dois minutos. Eu queria que a câmera da minha memória registrasse tudo aquilo pra sempre. Pedi a Deus para não esquecer aquele instante nunca mais. Não só a cena, aquela sensação, a coisa toda, os olhinhos dela me encarando daquele jeito, a voz de criança desafinando e confundindo as frases.

Me explica isso.

Buscamos incansavelmente, o tempo todo, repostas. Mas há coisas incompreensíveis. Em certas horas, o melhor a fazer é se calar.

O desejo humano pela transcendência, o vazio primitivo da eternidade, o amor, o amor!, a inquietação diante da constatação de que a vida começa e acaba, que 96 anos passam como um sopro, que uma noite mal dormida dura quase a eternidade, que senhores de 60 anos são crianças aos pés de sua mãe no leito e isso tudo foge ao nosso controle.

Acredito na Evolução, mas como a casca de uma fruta que tiramos aos poucos e vai revelando sua essência. Para mim, é a descoberta do como, não do porquê. E adoro esse entendimento que vamos adquirindo, como espécie, ao longo dos anos (muitas das descobertas científicas que explicam parte de como tudo funciona, não eram conhecidas há poucas décadas). Isso não elimina, portanto, todo o resto no que diz respeito a fé, onde procuro motivos, onde escancaro minhas dúvidas, onde me rendo à certeza de que não saber não é se apequenar.

Porque jamais saberemos tudo. O universo se revela passo a passo, nos mostra fragmentos, mas diante de todo o resto, diante do inexplicável, só existem as nossas interrogações e assombro. Nessa imensa lacuna, reside minha fé. Mas em tudo, eu enxergo a Deus, que guia nossos passos nessa caminhada.

“Deus não é um argumento”, disse o Rob Bell outro dia num podcast que escutei. “Você não está tentando ganhar um debate, você quer viver. E alguns debates são apenas perda de tempo”.

Cecília só enxerga uns 40 centímetros à sua frente, talvez ela compreenda o que se passa a um metro ou dois. E isso é todo o seu universo, tudo o que pode compreender e, sabe lá, explicar. Com essas primeiras impressões do mundo, ela sorri, chora, interage como sabe e como pode, sem saber o que a aguarda. Ela depende de nós para isso.

É assim, através dos nossos olhos, conduzida pelos nossos braços, que ela vai sendo apresentada e se apresentando. Eu só a carrego, satisfeito por guiar os passos de mais uma menininha nessa jornada. Fico contemplando esses momentos, desejando não esquecer aqueles instantes todos nunca mais. Os olhinhos dela encarando tudo, absorvendo o que lhe passa a frente numa escala de processamento incontrolável. E ela começando a formar, naquela cabecinha ruiva, seu conceito do que é – e do que virá a ser – a vida.

Muitas vezes, queremos explicações. Mas nessas horas é que precisamos mesmo de poesia.

Ócio involuntário

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“A gente vive muito em voz alta e às vezes não se ouve.”
(Guimarães Rosa)

Já disse o quanto aprecio a oportunidade casual de, vez ou outra, ficar sem fazer nada. Gosto de poder escolher alguns momentos de pura falta de obrigação. Ficar deitado no sofá olhando para o teto, gastar uma hora ou duas ou três lendo um livro, sentar num banco na rua, passear em algum lugar com as meninas sem ter um item da lista de pendências a ser resolvido. Para mim, nessas horas a mente se renova e o espírito se acomoda. Algumas vezes, esses momentos coincidem com meus instantes de solitude e contemplação. No entanto, entendo como “fazer nada” algo mais amplo, que inclui, por vezes, o fazer “alguma coisa” trivial e sem obrigações.

Mas, ainda que tenha queimado dois parágrafos com o assunto, não é exatamente esse o tópico agora. Porque aprecio também – numa escala menor, é evidente – certos momentos de ócio involuntário.

Eu não sabia disso. Em geral, esses momentos surgem acompanhados de certa frustração. Você sai de casa cedo, o carro quebra numa rua calma, você liga para o seguro e descobre que precisará aguardar 50 minutos até o guincho chegar. A internet no celular não funciona, você não tem um livro na mochila. Não há nada que possa ser feito a não ser comer o resto daquele pacote de biscoitos que ficou solto no porta-luvas e esperar. Ao redor, só uma padaria vazia e você até tem uns trocos para ir até lá e beber um pingado… Ócio involuntário.

Você está gripado e não pode sair de casa numa quarta-feira. Você precisa descer às nove da noite para caminhar com o cachorro na pracinha. É sábado, acabou a energia elétrica em casa e chove torrencialmente lá fora. O trânsito está engarrafado e você descobre que seu carro é capaz de se mover a 3 km/h. Seu voo atrasa e você já está dentro do avião, parado na pista, com o aviso de desligue os aparelhos eletrônicos aceso. Você está, a contra-gosto numa fila de banco, numa fila de repartição pública, fila de lava-rápido, filas de pronto-socorro, filha da mãe do marceneiro que combinou com você às oito e te deixou plantado esperando na obra por uma longa hora.

Como disse, nenhum desses acontecimentos pelos quais qualquer sujeito gostaria de passar. Nenhuma alternativa de lazer ou passatempo ao alcance das mãos. E, uma vez neles, nenhum grande prazer na experiência em si.

Mas, passados aqueles 30 ou 60 minutos, há um efeito – bom, pode haver – positivo.

Porque se ao invés de resistir e brigar com os ponteiros do relógio para que passem mais rápido ou amaldiçoar a operadora de celular que não provê um sinal decente de conexão à internet, em resumo, se nos resignarmos com a ideia de que não adianta estressar porque a situação é inevitável, bem, há boas chances que tais “acidentes” se tornem ocasiões oportunas para um saudável “fazer nada”.

Meu ócio involuntário.

Nessa fase da vida em que temos um bebê de dois meses em casa, esses momentos acontecem com frequência cada vez maior e chegam a se estender madrugada adentro. Até faço, algumas vezes, um certo malabarismo equilibrando bebê e celular numa mão enquanto dou a mamadeira com a outra e desvio da Lucy deitada no meio do caminho. Mas há certas horas, embalando a pequena pela sala às três da madrugada, em que tudo o que se pode fazer é caminhar de forma ritmada, cantarolar uma canção de ninar e pensar na vida durante o breu da madrugada. Ou melhor, esquecer da vida, o que tantas vezes é necessário para colocar as coisas em ordem.

O silêncio, o nada, essa oração não forçada que é deixar a mente vagar por onde queira. As velhas ideias desordenadas então se encaixam, ideias novas aparecem, entendemos um pouco do porquê algo foi como foi, nos ajeitamos para encarar o que vem do jeito que vem. Fazemos resoluções das coisas necessárias para os próximos dias. Reverenciamos a Deus por aqueles detalhes, aqueles instante fundamentais que deixamos de notar por alguma razão ainda há pouco. A vida ganha mais espaço quando a alma pode escoar um pouco do que a vinha afogando. Há realmente um efeito positivo nisso.

Para me prevenir, passei a carregar um livro porta-luvas do carro, de forma que um ócio involuntário possa eventualmente se tornar numa solitude desejada. Não é nenhum livro do qual eu tenha tanta pressa de terminar (em geral, algum de contos ou ensaios), então ele fica ali, esperando para ser lido nessas ocasiões pelas quais nem eu, nem ele, esperamos. Tenho também papel e caneta sempre à mão (para situações como essa agora, enquanto anoto essas palavras), um folheto de propaganda imobiliária, óculos de sol, chicletes de menta e água. Carrego também um canivete suíço falsificado que, ainda que nunca, jamais tenha tido qualquer utilidade, me ajuda a alimentar a ideia de que em algum momento da vida eu possa finalmente me deparar com a necessidade de revelar o MacGyver que vive em mim. Esse é meu kit de suprimentos.

Porque a verdade é pode acontecer a qualquer hora. Vai acontecer quando eu menos esperar. E eu só quero estar bem preparado para fazer absolutamente nada quando isso me for exigido.

Sobre miniaturas, altares e choros a 120 decibéis

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Tem um ser humano em miniatura vivendo entre nós. É fêmea, mede 52 centímetros e já há duas semanas dorme na nossa cama, no meio da gente.

Ela saiu da barriga da Manú no domingo retrasado. Eu estava lá e a vi chegando ao mundo. Aquela coisa que se movimentava ali dentro até então era mesmo alguém da nossa espécie. Uma menina. A chamamos de Cecília.

Ela é de verdade. Respira, emite sons, dorme algo como 20 horas por dia, chora a impressionantes 120 decibéis e se alimenta de leite que sai dos seios da minha esposa. Se a pegamos no colo quando chora, geralmente se acalma. Nessas horas, dar tapinhas leves na fralda e caminhar pela sala em passos ritmados também tem certo efeito terapêutico.

Aos poucos, ela vai formando as primeiras impressões sobre o que é o mundo e a vida. E nós, bem, nós também. Uma nova perspectiva. Vamos nos conhecendo mais, vamos percebendo um novo tipo de amor criar raízes e frutificar em nossos corações.

Cecília não anda, não fala, nem se comunica de qualquer outra forma que não seja o choro. Ela depende inteiramente de nós para sua sobrevivência. Além de alimentação, higiene e cuidados fisiológicos, no futuro breve também estarão sob nossa responsabilidade a formação intelectual e moral dessa pessoa (e, confesso, tenho sérias dúvidas quanto à minha capacidade de cumprir essa tarefa). Somos uma família de quatro integrantes agora. Ela vai crescer e viver sob nosso teto de hoje em diante, até o dia em que decidir nos deixar para construir seu próprio lar.

Todas as suas atitudes e movimentos agora, disse o médico, são involuntários. Em algumas semanas, no entanto, haverá uma evolução drástica de comportamento. O período de sono, dizem, tende a ficar mais espaçado. A verdade é que da minha parte já não me lembro com clareza o que é sono, mas acho que vai ser bom para todos aqui.

Ainda assim, com seus “movimentos involuntários”, vez ou outra, sua mãozinha de 3 ou 4 centímetros se enrosca na minha barba e eu sinto algo estranho. Certas vezes, enquanto escuta nossa voz, seu olhar nos sonda, olha nos olhos e de alguma forma parece nos reconhecer, parece até que se familiariza com os sons, como quem reconhece finalmente a imagem do rosto associado a uma voz que já conhecia. E nos encara de um jeito tão absurdamente mágico que não importa o que aconteça no mundo a nossa volta, que mesmo que caia por terra a grande Muralha da China ou que o Rogério Ceni faça o milésimo gol da sua carreira em cima do Corinthians numa final de Copa Libertadores, é impossível desviar a atenção daquele rostinho quando ela nos escrutina com seu olhar de quem enxerga o mundo pela primeira vez.

Ah, o mundo. Fico pensando o que ele fará para merecê-la. Não dá pra racionalizar, claro que não.

E aquele ser humano em miniatura se converte no nosso universo todo de repente, vira a razão de estarmos aqui, a chamamos de filha, completamos uma família como gostaríamos que fosse desde o começo e acreditamos que nisso aqui, sob esse teto, existe um núcleo tão sólido quanto uma rocha milenar.

É claro que a todo momento, enquanto olhamos para ela, lembramos da Nina nesses primeiros dias. Os traços são parecidos, os olhos redondos e espertos, a boca rosada, as bochechas… E aí dá mais saudades ainda da Nina e mais nostalgia por vê-la agora, já aos oito anos, tão grande, tão independente, sendo e agindo como uma menina de oito anos, o que às vezes me faz lamentar. E me faz também querer participar mais do que resta da sua infância e aproveitar cada dia dessa vida fugaz.

Por que há algo em sua dependência que me faz agir de forma totalmente desprovida de qualquer interesse puramente pessoal. Por elas, eu não sou o egoísta que costumo ser. Por um instante, paro que agir como se eu estivesse no centro de tudo.

A paternidade é esse amor de entrega simples, de doação, porque não há troca, não há nada que se possa exigir do outro. Somos nós ali, madrugada adentro, acordando a cada 25 minutos para servir leite, para arrumar a manta, para conferir se estão mesmo respirando, para buscar água, para embalar no colo enquanto resmungam por alguma coisa que nenhum de nós sabe o que é. E até viramos compositores de novas canções de ninar com rimas simples e trocadilhos infames, assistimos aos filmes do Corujão com a TV no volume 1, cochilamos sentados no sofá da sala até o dia clarear pela janela. Com olheiras fundas, dores nas costas e os cabelos despenteados, nos surpreendemos sorrindo sozinhos tantas vezes e nos sentimos gratos, porque pudemos notar uma expressão diferente, porque ela deu um sorriso, porque nos olhou um instante nos olhos e aquilo tudo parece como o testemunhar de um milagre.

Porque é assim, queremos que sejam amados e não há um canal de comunicação, não há expectativa, não há ruídos. Esquecemos de nós para realizar uma outra pessoa que não faz ideia que recebe esse esforço. E quando notamos, realizados estamos nós.

Parece o jeito como todas as coisas deveriam ser, no fundo.

E as coisas vão acontecendo assim, numa hora que você não coloca na agenda e nem pode prever. De repente, aquela criatura começa a chorar e resmungar por alguma coisa qualquer, aí você resolve deitar um pouco e a colocar sobre seu peito. Ela dá um último resmungo, ajeita a cabeça, silencia, acalma e dorme. Dorme leve por horas. Você nem se mexe. E nem quer. Porque aquilo parece a mágica da existência humana. E quem é que explica uma coisa dessas? Por que a vida é essa coisa assim tão… tão tanto, tão aos montes dessas pequenas coisas que nos transbordam?

Esses momentos, as experiências… você sabe, os fragmentos de existência que justificam tudo. E que se nos oferecessem por um preço no mercado, não compraríamos, mas quando as vivemos já não trocamos por nada – ninguém pagaria por cinco minutos de filho dormindo no seu colo. Quanto você gastaria por aquele fim de tarde na pracinha empurrando uma criança num balanço? São nossa história, os pequenos trechos da nossa história. E é o tipo de coisa que nos preenche no fim das contas.

Pode me chamar de inocente, se quiser, mas esse é o tipo de acontecimento na nossa história que me faz acreditar em Deus. Um Deus pessoal mesmo. Não essa coisa cósmica e distante, não esse Criador abstrato do universo. Eu não consigo não acreditar que ele é alguém que contempla essa situação toda, que se comove e tudo. Porque Deus é o nosso Pai e também é o Filho.

Chego a ter vontade de erguer algum tipo de altar em momentos assim, só para, lá na frente, lá naquelas horas de mente ocupada pelas questões menos importantes do cotidiano (amanhã, quem sabe), eu possa olhar para esse memorial, relembrar o momento e voltar à essência. Meu altar são essas palavras, acho.

E minhas meninas são as chamas acesas que incandescem.

Faço então uma oração de gratidão, peço que sua luz nunca se apague, contemplo em sua pureza a face divina em sua expressão mais clara e bela, enquanto são crianças, enquanto a inocência é um reino em suas mentes e o filtro de seu olhar. E meu desejo mais íntimo é que elas possam preservar sua pureza, que sejam reflexo desse amor por toda sua vida, pregando paz por onde quer que passem, acreditando que são princesas, que podem voar, alegrando o mundo com seu riso, chorando a 120 decibéis e enxergando a vida, todos os dias, como se ela lhes fosse apresentada pela primeira vez.

Eu só quero estar lá por um tempo, só espero poder testemunhar. Quero sentar no chão em manhãs ensolaradas de verão, quero dedicar tempo, dividir experiências, tomar um lanche e estar junto enquanto elas crescem. Não para ter nada em troca. Não. Porque esse é um amor sem expectativas, é só entrega, é quando deixamos de estar no centro de tudo. É quando Deus nos deixa entender um pouco como ele é.

No fundo, parece mesmo o jeito como todas as coisas deveriam ser.

Uma foto para acrescentar alguém

Cecília chegou. E agora há um personagem novo para ilustrar e inspirar esse blog :)

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Eu não poderia desejar mais

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Trinta e quatro. É a minha idade e também o número que ela já calça. Olho assustado para as Havaianas largadas no meio da sala – não porque estejam largadas no meio da sala, porque até já me parece que ali é seu lugar natural – e me espanto, outra vez, por enxergar as sombras do que teimo negar: não temos mais um bebê em casa.

Ainda que o desenvolvimento do seu vocabulário seja uma das áreas em que pessoalmente me alegro de estar envolvido, me espanto quando ouço uma expressão nova saindo dos seus lábios. Mesmo consciente de que jamais tive bíceps como os do Popeye – nem 10% daquilo, é verdade – uma dose de tristeza me toma quando fico ofegante e desajeitado carregando no colo uma menina que já passou da metade da minha estatura e que um dia, eu juro, coube no meu antebraço.

Fico olhando as fotos, os trabalhinhos de escola, as velhas marcas de sua altura gravadas no batente da porta do quarto, as bonecas antigas, os DVD’s que ela já não assiste porque são, ora bolas, “coisa de criancinha”. Antes do que imaginava, deixei de ser o seu príncipe encantado para me tornar, nas palavras dela, o “papai encantado”.

É muito cedo para esse tipo de nostalgia, eu sei. Ela só tem sete anos, eu sei (mas emendaria: “sete anos e dez meses, cara”). Eu reclamo de não poder ter de volta o que passou mas vivo dizendo que as coisas só vão melhorando a cada ano, eu sei. Não importa o que ela diga, ela será pra sempre minha princesa, eu sei. Eu sei disso tudo, mas é que… você sabe.

Nessas horas, me pego num momento assim, me vejo surpreendido pela possibilidade de poder, quem sabe, viver mais um pouco disso outra vez.

Mais um filho para chegar na família. Falta muito pouco e a Cecília estará por aqui. Vivemos os preparativos e a expectativa de mais uma criança para embalar nos braços, para observar engatinhando pelo assoalho escuro, para instruir nos primeiros passos. O apartamento, como o coração, parece que se expande agora e nós dois vamos nos acostumando à ideia de amar e cuidar, outra vez, de um novo ser sob nossas asas.

Somos esse lar hoje, somos três e um cachorro. E muito em breve novos ruídos, novos perfumes, uma nova pessoa estará entre a gente (e essas madrugadas silenciosas voltarão a ser preenchidas de choros, bocejos, mamadeiras, bocejos, fraldas, mamadeiras, bocejos, bocejos e choros). Tudo é tão mágico. Vejo a Manú desconfortável com os quase oito meses de gestação limitando seus movimentos e lembro das mesmas cenas oito anos atrás, quando aguardávamos a chegada da Nina.

Eu diria que as coisas são diferentes agora. Mas não são. Muito mudou, mas nesses momentos tão particulares, tão nossos, nos olhamos nos olhos e… você sabe, ainda estamos aqui, ainda somos nós dois, tão pequenos, tão inseguros e despreparados, que quase me vejo dando flores a ela pela primeira vez novamente.

A vida, né?

O som do ventilador ligado interrompe o silêncio dessa noite de janeiro. É dia 25, o último dia das férias de todo mundo aqui em casa. Amanhã às 6:00 a rotina se restabelece, nosso ano começa e eu só não quero que o cotidiano engula essa sensação, esse tipo de epifania que só podemos experimentar quando estamos completamente tomados pelo ócio e sensíveis a novas perspectivas – é quando ouço a Deus, costumo acreditar.

Não consigo dormir, escravo de um pensamento que me ocorre desde cedo, enquanto fazia uma oração de gratidão pelo bom ano que tive, por tudo de tão bom que se apresenta por vir: “Não poderia estar melhor, Pai. Eu não poderia desejar mais”.

A alma mergulha numa aventura. Deus sempre diz que o melhor ainda está por vir. Eu acredito. Bebo um copo d’água, sinto a brisa fria passar pela pele, tropeço naqueles chinelos largados pela casa e tomo notas. Tenho minhas meninas aqui comigo agora e nossa casa estará mais cheia em breve. Hoje é um desses dias em que eu gostaria de erguer um altar.

Eu não poderia desejar mais.

Vinte centímetros e o tamanho do mundo todo

Quando a Manú engravidou da Nina, oito anos atrás, comprei um livro de presente para ela. Pode me chamar de insensível, mas quando estou inseguro sobre qualquer coisa vou a uma livraria dar uma volta e procuro um manual de instruções. E dei para ela um manual de instruções da gravidez.

Basicamente, cada capítulo tratava sobre um mês da gestação. Se alguém me contasse isso antes de ter filhos, deduziria que o livro deveria ser um panfleto com nove páginas. Mas surpreendentemente há espaço para se escrever sobre isso em quase 700. Especialistas falavam sobre como o bebê estava, seu tamanho, evolução, se já ouvia, já sentia e também sobre as mudanças que aconteciam no corpo e nas emoções da mulher ao longo daquelas 40 semanas (lição básica sobre gravidez, caso você não tenha filhos: não se calcula uma gestação em meses, conta-se as semanas. E não adianta tentar converter na proporção de 4 por 1 porque nunca dá certo).

Um dia, ela comentou sobre um assunto interessante do livro. No outro, leu um trecho muito esclarecedor. No terceiro, eu o carregava escondido para a sala depois que ela dormia. Descobri naquelas páginas os segredos do que se passava com minha esposa e, melhor, do que viria a acontecer dali para frente. Era um tipo de futurologia. Eu lia o mês seguinte antes e, quando sintomas chatos apareciam, eu tirava de letra. Quando incômodos aqui ou ali surgiam, eu podia ajudar. Quando as alterações de humor que… que… não, absolutamente, n-u-n-c-a aconteceram (amor, você está lendo?) foram relatadas naquelas páginas… bem, eu descobri que minha amada esposa é um ser superior iluminado alheio a essas previsões tolas (querida, um beijo).

Por um lado, saber de antemão o que viria pela frente e conhecer como nossa filha se desenvolvia e crescia, trazia certo conforto. Mas por outro, assustava ainda mais. A insegurança, as dúvidas, o medo de não ser capaz de trazer um ser humano para o mundo eram sombras que nos perseguiam a cada capítulo. Até que a Nina nasceu. E cada pingo de dúvida virou certeza.

Não estávamos prontos. Mas, ao nosso jeito, com manuais, tropeços, conselhos dos mais velhos, acertos involuntários, palpites alheios, documentários em DVD e observando ela crescer sob nosso teto, fomos nos descobrindo pais e aprendendo que, apesar da insegurança nunca passar, a Nina está aqui, perfeita, seguindo bem e começando a aprender com suas próprias escolhas. E a gente se realiza vendo o fruto disso na forma como ela enxerga e vivencia o mundo à sua volta e o quanto nos ensina com seu olhar.

Cinco meses atrás, quando a Manú descobriu que estava grávida novamente, começamos a imaginar se o sentimento seria igual. Parecia que a avalanche de incertezas e aquelas sensações todas nos invadiriam outra vez. Foi então que notamos que grande parte desses sentimentos nunca foram embora. Ter filhos envolve ter medos e dúvidas sobre tudo e perguntas que se renovam a cada festa de aniversário, mas também faz com que nos sintamos cercados de uma das poucas certezas que poderíamos ter na vida.

Dessa vez eu não comprei um livro, mas por precaução – vai saber quantas coisas não mudaram em termos de gravidez, bebês e esposas nesses oito anos? – baixei um aplicativo no meu celular chamado “Minha gravidez” ou coisa assim. Sim, no meu celular. Preenchi um breve cadastro considerando a data da última menstruação para eles calcularem a idade gestacional e depois passei a receber alertas e e-mails sobre o que está acontecendo, semana a semana, com minha filha e com minha esposa.

Dicas sobre alimentação e cremes para o corpo eu descartava. Tópicos relacionados a alteração de humor, evidentemente, também eram ignorados. Mas questões ligadas a hormônios, libido, saúde da mulher, bem-estar e o desenvolvimento da criança, eu lia assiduamente. Até que começaram a medir e divulgar o tamanho do bebê. Sempre gostei da ideia das medidas, achava legal saber que tinha cinco, dez, vinte centímetros… aquela belezinha crescendo ali.

Certo dia, no entanto, abri o aplicativo e a mensagem era a seguinte: “5 semanas: seu bebê tem o tamanho de uma semente de gergelim.”

Achei curioso. Até então, gergelim era, para mim, um elemento específico presente na fórmula do Big Mac, feito de um tipo de plástico comestível. Nunca tive ideia se aquilo era um alimento com origem, identidade própria e tão pouco que havia uma padrão de medida.

Na semana seguinte, abri o app na segunda-feira (dia de aniversário gestacional da minha filha) e: “6 semanas: seu bebê tem o tamanho de uma lentilha.”

Não faço ideia do tamanho de uma lentilha. Só vejo lentilhas servidas numa mesa uma vez por ano, se muito. Sua dimensão tem valor relativo pra mim, que pode se assemelhar a um feijão, milho ou… gergelim.

Mais sete dias e: “7 semanas: seu bebê tem o tamanho de um grão de bico.”

Ok. Idem a semana 6. Grão de bico é igual a feijão que é igual a lentilha que pode ser igual a gergelim. Assumo que minha filha cresceu bem pouco.

“8 semanas: seu bebê tem o tamanho de uma uva moscatel.”

Qual das uvas, entre as cinco opções que vendem na feira, ora raios, é a moscatel? Tive que esperar o sábado para saber e tentava, pela primeira vez na vida, ler as plaquinhas de papel penduradas em varais nas barracas de frutas para identificar a palavra “moscatel” escrita em alguma delas e fazer a bendita associação. Mas aí ela já tinham se passado cinco dias, ela deveria ter crescido ainda mais e estava bem perto da segunda-feira. E na segunda-feira é dia de abrir o aplicativo para checar as novidades e descobrir que:

“9 semanas: seu bebê tem o tamanho de um grão de feijão jalo.”

Jalo? Jalo!? Tá me zoando, né? Tem um jornalista escrevendo isso ou é o estagiário do Ministro da Agricultura? O que é um feijão jalo? Isso é a gestação de um bebê ou treinamento básico de agricultura doméstica para a distribuição de terras da reforma agrária? Tive que ir ao Google pesquisar sobre as diferenças entre os tipos de feijão no Brasil.

E assim, em caráter campestre, a coisa seguiu nas semanas que passaram. A cada vez, minha filha se assemelhava a um item de prateleira do hortifruti: azeitona verde, figo, limão, limão siciliano, pedaço de gengibre, coco seco, pepino, cenoura, manga, alho poró, cebolinha verde, repolho roxo, repolho, abóbora menina. Sim, menina, mas eu prefiro chamá-la de Amora do que de Abóbora. E, finalmente, abóbora – só abóbora – é o tamanho que ela terá lá na semana 40, ao final, quando nascerá.

Apaguei o aplicativo. Desisti de tentar imaginar minha filha, minha segunda princesinha, sendo comparada com uma leguminosa, fruta, tubérculo ou vegetal pelo ex-redator do Globo Rural que resolveu mudar de carreira. Eu lia sobre o tamanho dela e sentia vontade de dirigir até o CEASA para entender do que estavam falando. Pedaço de gengibre? Feijão jalo? Repolho roxo? É orgânico ou transgênico? De safra boa ou ruim? Plantado na terra ou hidropônico?

No fim, não faz falta. Tampouco faz o livro ou qualquer guia que nos instrua, essa é a verdade. Porque, no fundo, ter vivido isso uma vez com a Nina já nos faz encarar essa situação de um jeito diferente. Já sabemos, mais ou menos, como vai ser e como não vai ser. E não ter a incerteza e a tensão que vivemos durante a primeira gestação, de algum jeito, pode beneficia-la. Talvez, até com um peso menor sobre si, com pais menos instáveis, sufocantes e medrosos. Quem sabe até a Nina se sinta mais leve por finalmente não ser o centro de tudo por aqui.

É aquela sensação de que já passamos por essa rua antes, sabe? Parece que estamos viajando de novo para uma cidade que amamos visitar. E agora, ao invés de fixar os olhos no mapa para descobrir em que esquina devemos virar, queremos reparar na paisagem, desfrutar o caminho, prestar atenção aos detalhes.

Tem passado rápido, tem sido maravilhoso. Outro dia nos demos conta de que mais da metade já se foi. Ela começou a se mexer e chutar. E cada hora que faz isso, tem todo um evento aqui em casa e nós três nos mobilizamos e nos reunimos para ficar ali, com a mão posta sobre a barriga da mãe, desfrutando dessa pequena, essa singela, essa tão poderosa interação que podemos ter. Ela ali dentro, a gente aqui fora. Esperando. Mas a verdade é que para nós ela já chegou.

Daqui a pouco seremos quatro, eu penso todo dia. Como ela vai ser? Será que vai gostar da gente? Será que já percebe o quanto é amada? A Nina beija a barriga, pede que a mãe tome cuidado, que sente direito e não aperte a irmã, a chama da “mana”, a barriga cresce, a Manú grávida fica ainda mais linda, nós todos ainda mais animados. E vem toda aquela mágica, aquela ideia que amadurece dentro de nós, tão real, de repente tão grandiosa, como uma certeza de que nada, nunca, em momento algum a nossa história poderia ser tão perfeita. São assim, esses momentos. E aí que a gente transborda de gratidão e a vida, essa vida da qual eu resmungo diariamente, se enche de sentido.

Vamos aprender tudo outra vez, continuaremos seguindo pelo caminho. Porque esse é o lugar onde mais gostamos de estar. Com nosso jeito, com aqueles manuais, tropeços, conselhos, acertos involuntários, palpites de tanta gente e documentários em DVD notaremos que, apesar das nossas imperfeições, nossas meninas crescerão bem. Sob nosso teto, nossos olhares e a boa mão de Deus.

Queremos ver seu rostinho logo e beija-la. Queremos olhar em seus olhos, cheira-la no pescoço, nos apresentar para ela, apresentar o mundo todo e deixar ela acreditar que nasceu para reinar sobre ele sentada num trono cor-de-rosa com glitter ao lado da irmã mais velha. Queremos que ela venha, sim, mas sobretudo desejamos que ela venha na hora certa, no seu tempo e que, do mesmo jeito que Deus escolheu esse momento da história para ela surgir em nossas vidas, que ele também providencie que nasça em perfeita sincronia com seus planos. Do jeito que vier, do tamanho que tiver, a gente nunca mede o que sente. Com 38, 39 ou 40 semanas, não importa, é nossa menina. Não uma abóbora, uma menina.

A história sem fim – o capítulo final de um livro que não termina

nopescoço

(1 de agosto de 2014)

Às vezes, tudo parece voltar ao começo. A sensação de que certas experiências se repetem, a história passa pelos olhos e concluímos que vivemos de começar e encerrar ciclos.

Agora é noite. Já fiz minha ronda pela casa. Fui até a cozinha, enchi os três copos de água que sempre deixo sobre os criados-mudos de todos. Fiz um cafuné na Lucy com o pé enquanto cruzava a sala. Entrei no quarto da Nina, a cobri melhor, ajeitei seu cabelo, beijei sua testa e fiz uma prece. Então vim para a minha cama escrever.

Lá fora está frio e alguns pássaros fazem festa nas árvores do campo ao lado de casa. O dia entra em repouso enquanto, ao meu lado, observo por um instante a mulher da minha vida. Ela dorme. A sutileza de seus gestos, a respiração leve, o rosto delicado, os cabelos soltos meio bagunçados sobre o travesseiro de fronha branca que ela faz questão de comprar pelo toque e não pelo preço. Temos sido felizes. Dividimos tanto que, ao longo dos anos, já nem sabemos o que é um e o que é o outro. Mas quando a vejo desse jeito, lembro que ela ainda é aquela menina, a minha menina de 15 anos atrás, para quem paguei um lanche e levei ao cinema no primeiro encontro, dei a mão para atravessar a rua na saída e nunca mais soltei.

Hoje ela me deu a notícia de que está gravida outra vez.

Seremos quatro.

E se havia um desfecho ideal para esse ciclo, ei-lo aqui. Não vou negar que não pensei nisso. Há alguns anos, quando esses relatos sobre paternidade começaram a se tornar uma seqüência e a Manú começou a me incentivar para que os compilasse — talvez, num livro — comecei a pensar que seria bom demais se pudesse, um dia, poder escrever um último capítulo narrando a sensação da paternidade outra vez e testificar que a história se repete, que as sensações de repetem, que a emoção toda vem à tona outra vez e o amor se multiplica em nova medida instantaneamente em nosso peito por um ser humano que já existe mas que ainda nem conhecemos.

Sim, acontece tudo isso.

Sim, o amor se multiplica. Seremos pais, tudo outra vez, a sensação toda outra vez. Dentro dela, um coração novo já bate, a vida pulsa, um ser humano virá ao mundo. Mais um pedaço de nós, mais uma criação de Deus, outra criança para nos realizar e fazer a felicidade, a tão desejada felicidade, ser essa coisa que a gente até alcança com as mãos, até ampara com as mãos, embala no colo até.

Porque já parecia impossível e tínhamos na conta a resignação de que nosso sonho de um par de filhos correndo em volta da mesa talvez fosse grande demais. Mas quem foi que disse que a capacidade de Deus se limita à nossa visão? O Pai ultrapassa barreiras pelos filhos. Seus braços sempre estendidos, o amor que rasga a eternidade para nos alcançar. Somos pequenos demais.

Gratidão. Não posso expressar outro sentimento agora. Impossível imaginar estado de espírito melhor. E sei que não será como da outra vez. A Nina mudou completamente quem somos. Somos pessoas melhores graças a experiência de ter uma filha como ela. Porque tem sido ela, do seu jeito, que nos transformou em pessoas mais preocupadas com outro ser humano além de nós mesmos. Ser pai é ser um pouco mais de si duas vezes, é ser você mesmo e também o outro, é continuidade e desapego. É o nosso amor que se concretiza plenamente em um coração fora de nós.

Porque pais doam, pais protegem, ensinam, enxugam lágrimas e contam histórias. Pais acham bonito até o que é de gosto duvidoso, rolam no chão, brincam de boneca, pegam no colo, constroem mundos imaginários numa barraca no meio da sala. Pais comem os restos, dividem, abrem mão só para ver aquele rosto feliz. Pais disciplinam, falam duro e depois choram escondido, pais atrasam o passo para o filho acompanhar. Pais arrancam dentes moles, pais fazem corpo mole no jogo para ver o pequeno vencer, deixam de lado o futebol na TV para ser derrotado numa batalha de cócegas. Pais curam com beijinhos, pedem beijinhos o tempo todo, têm essa carência eterna do toque de sua cria. Pais saem mais cedo de uma reunião importante no escritório só para ver o ensaio-da-cantata-para-a-festa-de-encerramento-do-primeiro-bimestre-do-pré-primário e depois ficam até mais tarde no trabalho para garantir o pão na mesa toda manhã. Pais sonham, tem esperança, enfrentam e vencem os monstros, reais e imaginários, para que seus filhos trilhem caminhos mais serenos. Pais observam enquanto eles dormem, escutam até o que eles não falam e atendem as necessidades que eles não pedem. Pais acham graça nas semelhanças que tem com os filhos e carregam a convicção de que o universo se tornou um lugar melhor depois que aquela criatura abriu os olhos pela primeira vez e deu o ar de sua graça.

Deus é pai.

Me pego chorando nos cantos da casa, rindo a toa enquanto espero o elevador. Apaixonado que estou de repente por mais essa criança que ainda nem vi o rosto, ainda nem cheirei o pescoço, sequer toquei e sussurrei em seu ouvido sobre meu amor, na esperança que grave em sua mente virgem a primeira mensagem de seu pai.

Talvez seja um prêmio, essa coisa toda. É possível que Deus nos recompense pelas fraudas trocadas, pelas noites em branco e os fios de cabelos brancos, nos pagando com essa moeda tão cara, o amor. Ele faz multiplicar em nós um sentimento que não podemos comprar. E brota na gente esse negócio, surge e fica ali pra sempre. E não há dinheiro que pague, não há preço pelo qual se venda, não há valor que se exija. Porque quem ama, ganha um presente que doa. E quanto mais amor se dá, mais dele se tem. Sim, o amor multiplica. E filhos são a materialização disso.

Eu diria que já quero mais filhos, quero três ou quatro agora. Mas a Manú me mataria se eu falasse esse tipo de coisa.

Queremos que eles cheguem longe, que enxerguem além do que vimos, que caminhem além das linhas que cruzamos, que evitem os erros que comentemos, que não sofram tanto com uma derrota da Seleção, que escutem a Deus, que sonhem um mundo melhor e o transformem no que não fomos capazes de fazer. Os queremos tão bem que queremos que o mundo seja digno de sua existência.

Porque no fundo é isso. Pais e filhos, imagem e semelhança, Deus e o homem.

É claro que essa história não acaba.

E agora, essa criança, esse outro nós dois que vem para nos transformar mais uma vez em pessoas novas. Porque certamente não é a mesma experiência que se repete — já mudamos tanto desde então. É uma nova etapa, a família crescendo, a partir de agora seremos “nós e as crianças”. A árvore e seus frutos, que dão frutos, que darão frutos, que serão árvores.

A Nina, desde o minuto em que soube da notícia, ficou inquieta. Anda agitada pela casa, manifesta sua alegria incontida com abraços e gritinhos (ah, mulheres…), começou a tomar nota de uma possível lista de nomes para a irmã — por razões compreensíveis ela não considera outra hipótese de sexo — e se preocupa excessivamente com o estado de saúde e a barriga da mãe. Ansiosa, tardou a deitar essa noite.

Agora elas dormem. E eu sonho.

Sonho que veremos outra vez um bebê engatinhando pelo chão da sala. Aqueles pezinhos descalços marcando o assoalho com os primeiros passos, os choros, as primeiras palavras, o cheiro de creme Johnson’s no ar, as noites em branco, as fraldas aos quilos, as canções de ninar, os contos de fadas, as histórias inventadas, as “primeiras vezes” em tudo. Sonho também poder ser um pai mais seguro dessa vez e cometer menos falhas nesses dias que são o começo das vidas das pessoas que mais amo nessa Terra. E sonho também que a Galinha Pintadinha já tenha saído definitivamente de moda nos próximos oito meses (quem merece aquela tortura!?).

Tal como no princípio, continuo sonhando com o tempo em que envelheceremos lado a lado, de mãos dadas. Os dois heróis da vida cotidiana sentados junto à mesa, à espera das crianças para um almoço no domingo. E esse será o verdadeiro prêmio da caminhada toda, eu acho. O quintal verde, um balanço perdurado na árvore, passarinhos, a bagunça dos netos espalhada, um cachorro correndo, os braços abertos para quem volta ao lar. Eu sei que vou me vestir com a melhor roupa para esses momentos e vou usar o perfume que algum deles me deu de presente. Estaremos lá. Sim, porque sempre estaremos à sua espera.

E o tempo dando uma trégua e parando naqueles instantes, aqueles pequenos instantes, que definem nossa eternidade.

A vida só começou.


(capítulo final da série Imagem e Semelhança)

Sete anos e outra vez a eternidade como tema

Seguir a vida dos outros. Se tem uma coisa que o advento da internet trouxe para a vida urbana moderna e que era, até então, privilégio das pequenas cidades e de tempos muito anteriores à própria rede, foi a possibilidade de saber o que se passa na vida das pessoas com quem temos ou tivemos algum vínculo.

Sem julgamento de valor. Especialmente as redes sociais, como o Orkut (até ontem) e o Facebook (hoje e sabe-se lá até quando), que ajudam na busca por parentes distantes, colegas de colégio, amigos de infância e toda uma variedade de pessoas com quem possivelmente não trocaremos um aperto de mãos tão cedo, mas de quem gostamos de saber o que comeram no almoço, onde passaram as últimas férias, o que pensam do trânsito e por quem torcem no futebol, nas eleições, nas manifestações, nas enquetes de reality show e até nas competições de curling das Olimpíadas de Inverno.

Corro disso, confesso. Não é esse interesse pela rotina que me atrai. Não gosto de ficar na janela, olhando pra rua e tentando entender os fatos. Sou nostálgico demais pra isso. Em geral, me distraio, olho para o céu, vejo alguém passando pela timeline e me perco nas lembranças do passado. Admito que minha curiosidade digital é, em certa parte, alimentada pelo que não vejo. Me concentro pensando sobre o espaço de tempo entre a época em que, há 10 ou 20 anos, convivi com aquelas pessoas e sobre o agora, quando os revejo como adultos.

Quem eles se tornaram, essas pessoas? Era pra ser isso mesmo? O menino que empinava pipas, o menino que contava piadas, o que aprontava na escola, a menina que se vestia estranho, a menina mais inteligente da classe, o menino que tinha um videogame em casa – o herói da rua – e o menino que era dono da bola. Fico tentando imaginar se eles se tornaram o que gostariam de ser.

O fato é que, em algum momento da vida, os planos e projetos passam a ocupar espaço em nossas mentes. Talvez exista uma fase na infância em que tomamos consciência do futuro, de que há perspectiva e algo a se projetar. Talvez, quando adultos abordam crianças com a insistente pergunta: “O que você quer ser quando crescer?”.

Crianças não projetam futuro, não fazem planos. Crianças são o que são agora e afirmam querer ser para sempre aquilo que mais as anima nesse instante exato. E você sabe que não estou querendo fugir das minhas responsabilidades como pai e cidadão adulto, mas acredito que tem uma beleza nisso tudo, há graça nessa inocência. Elas não andam ansiosas.

Até que o negócio todo de “ser alguém na vida”, atender uma vocação e perseguir um certo padrão de sucesso comece a ser incutido. E aí, o menino que soltava pipas e queria ser bombeiro começa a ter que pensar no tipo de carreira pretende seguir.

E aí, crescemos. Já estamos mais velhos do que achávamos que seríamos quando achávamos que estaríamos velhos. Será que nos tornamos a resposta que dávamos?

É uma pergunta retórica.

Não que deveríamos. Acho meus sonhos de agora bem melhores do que ser o camisa 3 do São Paulo FC, o Rocky Balboa ou vocalista de uma banda.

Circunstâncias que nos afetam, fatos que nos afetam, a vida que segue o rumo sem que nos preocupemos em ser protagonistas e donos de nossas escolhas. Às vezes, somos vítimas, não temos opção. Mas outras tantas, simplesmente nos conformamos.

Tenho claras para mim e ainda frescas na memória as cenas e momentos da infância. E confesso que guardo em mim o sentimento do menino. Lembro dos medos, dos sonhos, da impressão que o mundo me causava. Lembro que as preocupações eram tão pequenas. Sei que sou continuação dessa existência, consequência das escolhas que fiz. Hoje, carrego uma tatuagem desbotada na perna, barba no rosto, 93 quilos (oscilando) e fios de cabelos brancos brotando em ritmo preocupante. Mas ainda alimento sonhos. Ainda tenho em mim aquele garoto de sete anos.

Daqui alguns dias a minha filha fará sete anos.

E, assustado com a impiedade do tempo, me pergunto como estaremos, a Manú e eu, quando a Nina tiver nossa idade?

Ela dorme abraçada com um coelho e uma tartaruga. Dois bichinhos de pelúcia, não dos mais bonitos, que compramos numa viagem recente de férias. E às vezes, como ainda há pouco, me pego pensando em como ela já está grande, nas coisas que já faz sozinha, nos argumentos e explicações que acredita serem plenamente factíveis para os pedidos mais absurdos, nas pequenas cartas e bilhetes que agora deixa sobre meu criado-mudo, na sua voz lá do quarto, lendo alto os primeiros livros de histórias que alimentam sua imaginação.

Então, só preciso observá-la dormindo por um instante, só ter que pegá-la no colo adormecida no sofá para levá-la para o quarto… e ver toda sua inocência, sua graça, a minha dependência, a nossa pequenez diante da grandeza da vida.

Não pode ser só para agora. Nessas nobres horas, tudo adquire uma dimensão maior. Não consigo acreditar na finitude do ser que somos se resumindo em matéria, num pacote de átomos que existe até que tudo acabe.

E sei que não entendo seus motivos na maior parte das vezes, mas agradeço a Deus. Eu me rendo, reconheço. Cresce em mim a reverência ao eterno que se fez finito, ao Deus que se fez homem, ao Criador que se diz pai. Que traçou a vida com essa riqueza de detalhes e a singeleza necessária para que pudéssemos compreender que está em nós e na intimidade dos nossos lares, a habitação do altíssimo. O universo inteiro numa canção de ninar, a glória divina numa brincadeira no chão da sala.

Aquieto-me quanto ao futuro. Já não importa o que serei ou como estarão meus amigos de infância daqui outros 30 anos. Há beleza ao redor, há grandeza em cada história. Seja a vida fugaz, o dia de hoje é pouco, sei que tudo vai tão rápido. De novo, aquieto, observo minha criança dormindo. A eternidade precisa ser contemplada.

Orações não respondidas

igreja

Era um dia desses de ficar à toa em casa e eu arrumava qualquer coisa num canto quando ouvi a Nina me chamar lá do quarto. Fui ver o que era e ela estava quieta na cama, meio amuada e reclamava de uma dor de cabeça. Dava pena. Queria fazer algo para ajudar mas não gostaria de, logo de pronto, dar algum remédio. Sugeri então que fizéssemos uma oração juntos e que ela esperasse um pouco ali deitada.

Minutos depois, ela saiu da cama e foi até onde eu estava dizendo que a dor havia passado. Animado com a oportunidade de ensinar para minha filha os sólidos fundamentos de fé que tantas vezes me são fracos, comecei o discurso:

– Está vendo, filha? Quando a gente ora, Deus nos responde.

– É, pai.

Três segundos de silêncio até ela disparar:

– Mas, pai, eu já pedi um montão de vezes para Deus me dar asas e ele nunca me respondeu.

– Asas?

– É, para eu poder voar. E pedi também pra eu poder mandar um dia mas ele não deixa.

– Mandar?

– É. Poder mandar em você e na mamãe, só um dia.

Orações não respondidas.

Certo domingo, um pastor muito querido da nossa comunidade nos visitou para ensinar e, dentre tantas coisas marcantes, disse algo que lembro com frequência de repetir para os outros: “Quando Deus nos diz não, ele não está nos privando, está nos protegendo”.

A Nina pede para comer mais um prato de sobremesa, ela pede para ficar acordada até mais tarde, ela quer ter amigas e amigas por perto todos os dias e noites, quer faltar na escola às vezes, ela quer ver TV além do tempo combinado, quer brincar, quer mais uma, só mais uma história antes de dormir. Ela quer providências inofensivas e também quer feitos inalcançáveis. Em geral, me pede coisas que posso dar. Mas em muitos casos eu preciso dizer não.

Às vezes, ela me faz perguntas que não tenho condições de responder, ela quer motivos quando eles não existem, quer respostas que não sou capaz de lhe dar ou que, como adulto, sei que ela ainda não está preparada para ouvir.

E não é que eu tenha qualquer satisfação em ver minha filha frustrada. Sou tentado, quase todas as vezes, a atendê-la só para ter de volta aquele sorriso, um abraço e o beijo de gratidão na bochecha. Entretanto, deixar de atender o seu pedido não significa uma privação, mas cuidado. Minha negativa para algo que lhe parece tão legítimo e saudável, é porque eu sei que o melhor para ela, certas horas, é apagar a luz e ir dormir, é não abusar do açúcar, é não receber uma satisfação.

Quase sempre adoro esse conceito. Quase sempre. Eu o detesto quando sinto seu efeito sobre mim. Não que Deus me negue coisas de forma taxativa, mas com frequência chego a pensar que ele não parece ter tanta certeza do que vai responder. A espera me parece insuportável, eu tento dizer: “Na dúvida, Deus, que tal fazer o que te pedi e depois a gente vê como é que fica?”. Mas minha sugestão nunca foi aceita.

Das coisas que peço, tão legítimas, não peço dinheiro, não desejo bens ou futilidades, nada que possa me favorecer ou prejudicar alguém. Em grande parte, em minhas orações mais repetidas e íntimas, só quero respostas que dizem respeito a mim e minha família. No fundo, eu gostaria é de entender. Gostaria de discernir os caminhos, de ter revelações grandiosas sobre os próximos passos que preciso dar na vida. Há tantas escolhas a serem feitas. Queria saber por que certas coisas aconteceram de um jeito e não de outro. Por quê pessoas fazem o que fazem? Por quê existe o mal? Por quê, como disse Paulo, o bem que eu desejo fazer eu não faço e o mal que não gostaria de fazer, acabo fazendo? Por quê uma doença, uma tragédia, tal fatalidade, justo com aquela pessoa? Por quê justo comigo?

De circunstâncias a questões existenciais, de um prato de comida pedido por um pai de família às asas desejadas pela Nina, existem orações que nos parecem sem respostas.

Não acho, porém, que Deus se cale, não acredito em seu consentimento com o sofrimento e a incerteza. Tenho para mim que o Deus Pai responde, fala, se relaciona conosco e expressa o tempo inteiro a sua opinião. E quando não posso ouvi-lo, é que surdo, tão surdo, tão insensível acabei me tornando que já não percebo. Dirijo minha busca na direção errada, me expresso sem permitir que ele fale, desabo tentando decifrar enigmas quando sua resposta, sua voz, está bem na minha frente, está na paisagem, em alguém, dentro de mim. Não existe oração sem resposta.

Porque ele fala aos ventos e através dos ventos se manifesta, escancara, faz o mundo gritar sua verdade, tanto e tão alto. Porque ele fala no íntimo e no coração se manifesta, revela, faz nossa consciência perceber sua vontade, tanto e tão perto.

Porque pais querem ensinar seus filhos a buscarem por resoluções e não que as tenham de mão beijada. A Nina quer voar, quer saber porque precisa ir dormir tão cedo, eu quero que ela aprenda a fazer perguntas, que aguce os sentidos e explore o redor. Ela quer um par de patins como presente de Natal, eu quero que ela esteja sensível para perceber e ouvir o sentido de sua existência, que compreenda o amor que a mãe e eu sentimos por ela e que descubra que existe um amor ainda maior em Deus que ela pode experimentar. Ela quer tomar dois sorvetes depois do almoço, quer poder mandar em nós por um dia, eu oro para que ela seja inquieta e determinada em sua busca mas, ao mesmo tempo, seja humilde para compreender que o “não” de um pai é cuidado e não castigo.

Outro dia, ela fazia uma oração antes de se deitar enquanto eu recostava na cabeceira da cama até que adormecesse. Meu pensamento ia longe, confesso, distante um pouco da oração usual que ela fazia. Até que ela concluiu a prece pedindo:

– E Deus, por favor, mude o coração dos vilões.

Crianças. É possível que ela não lembre do que pediu no futuro. É possível que ela não lembre do que pediu hoje. Pode ser que nunca ouça claramente uma resposta para sua oração, mas em sua fé infantil sei que ela acredita que acontecerá.

Não tenho respostas tampouco. Como pai ou como filho, também acredito. Ela quer um mundo sem maldade, ela pede que o bem triunfe sobre o mal e que os homens perdidos encontrem redenção em Deus.

Ela tem asas.

Eu oro. Recostado na cama, cerro os olhos, junto as palmas das mãos, baixo minha fronte e peço que um dia possa ver que ela será parte dessa resposta.

Tamanho família

Outro dia, era um domingo à noite, fomos ao shopping jantar. Eu confesso que acho as noites de domingo algo meio deprimentes, como também acho deprimentes shopping centers depois que as lojas estão fechadas e os corredores ficam meio escuros, com as vitrines a meia-luz. Mas foi que deu uma vontade em família de comer hambúrguer e fomos saciar o desejo em uma das lanchonetes aqui perto de casa.

Estava frio e o lugar vazio. Enquanto eu esperava na fila para fazer o pedido, a Manú e a Nina foram guardar uma mesa. Eu mal havia dado um passo e sacado o celular pra jogar uma coisa qualquer e já vi a minha filha passar correndo atrás de mim acompanhada de alguma nova amiga com quem brincava. Acho impressionante a capacidade das crianças de descobrirem afinidade com alguém só porque a pessoa tem basicamente a mesma faixa etária. Seria como se qualquer homem de 32 anos estivesse imediatamente apto para, sei lá, vir em casa assistir a um jogo do São Paulo na TV. Se perguntasse, talvez as duas nem soubessem o nome uma da outra, mas já tinham uma brincadeira preferida juntas e isso bastava.

Quando me sentei à mesa com as meninas para comer, a amiguinha nova da Nina ficou ali ao lado fazendo companhia. Ela já havia jantado e contou, quando lhe perguntamos o que fazia ali, que estava no seu dia de passeio com o pai. Esperei uns minutos e olhei ao redor para tentar adivinhar. Não foi difícil, a praça de alimentação estava quase vazia e poucas mesas atrás de nós um sujeito moreno, de meia-idade, jaqueta jeans, cabelo ralo e rugas nos olhos, estava sentando enquanto segurava uma pequena mochila cor-de-rosa entre os braços e fitava a menina com um sorriso. Acenei com a cabeça, ele retribuiu breve e voltou a observar as meninas que, naquela hora, já corriam pelo corredor outra vez. Ele tinha um olhar melancólico, tinha um cansaço de sei lá o quê, ele tinha um dia na semana para estar com a filha e um passeio num shopping de periferia aos domingos talvez fosse o melhor que ele tinha para oferecer a ela.

Talvez ela fosse o melhor fruto da vida que ele tentou construir um dia. Talvez seja a única lembrança concreta do que ele já teve de melhor. Não sei – não me cabem – as razões que separaram aquela família. Se o homem “pisou na bola”, se a mulher o deixou por outro, se descobriram diferenças irreconciliáveis e já não podiam ter uma vida em comum. Sei que me cortou o peito ver a forma como ele admirava a garota e, depois, o seu andar meio curvado, pendurando a mochila e umas sacolas num dos braços e segurando uma bola colorida no outro enquanto se esforçava para caminhar de mãos dadas com a menina.

Na volta pra casa aquela noite, além de um arrependimento brutal por ter ingerido um combo cheeseburger-batata-refrigerante-tamanho-super-família de forma absolutamente irresponsável, eu voltei no carro em silêncio pensando no homem. Nem troquei palavras com o sujeito, mas me passou pela cabeça naquele dia e às vezes me volta ao pensamento, a angústia de imaginar os dias todos, mesmo esses mais comuns, longe da minha família. Amo apaixonadamente a minha esposa, adoro minha filha e, a medida que o tempo passa, vamos construindo e acumulando tanta coisa juntos – viagens, refeições, experiências, livros, apartamentos, aprendizados, um cachorro – que já nem dá pra saber ao certo o que nessa história é a parte de cada um de nós. Se é que há mesmo uma parte, se é que tem algo que deva ser enxergado de forma isolada, se é que existe mais de uma história aí de fato. No fundo, eu acho que é isso. Somos só nós, andando de mãos dadas.

“Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol.” (Eclesiastes 9:9).

Cenas domésticas – A agente literária

– O que você tá fazendo, pai?
– Estou escrevendo uma história.
– Pra quem?
– Para as pessoas.
– E pra mim?
– Também, filha.
– E é legal?
– Ah, não sei, acho que sim. Tomara.
– Você que tá inventando, pai! Você é que sabe se é legal ou não!

A estranha coleção de lanternas

por Luiz Henrique Matos

semelhancas

“Filha, com quem você acha que é mais parecida, com o papai ou com a mamãe?”

Mãe e filha partilhavam um momento a sós e, numa tarde primaveril qualquer, aquela delicada progenitora fazia uma pergunta inocente. Enquanto isso, não imaginava que a menina, cravada nos cinco anos de idade, ainda não havia aprendido o sentido da palavra ponderação.

“Mãe, sabe o que é…”, a menina arqueou as sobrancelhas, olhou para baixo, contraiu um pouco os lábios, “Me desculpe, mas é que eu sou a cara do meu pai”.

A história me foi contada horas depois. Fiz de conta que não achei nada demais, “Ah, que nada, ela tem os seus olhos, seu jeitinho, as bochechas…”, enquanto, por dentro, uma onda de satisfação das mais imaturas me lavava a alma.

Talvez alguém um dia ainda explique – talvez – o motivo pelo qual pais, tios, avós e amigos chegados insistem nesse jogo esquisito de discutir e tentar descobrir semelhanças com algum familiar nem bem a criança saia da barriga da mãe.

Quando olho para minha filha e paro pra pensar nesse tipo de coisa, acho tudo uma grande bobagem. Qual o sentido, afinal, dessas discussões tolas? Não levam a nada. Ela parece comigo, é a minha cara, vai gostar das mesmas coisas que eu e a opinião dos outros que se exploda.

* * *

Adoramos frequentar livrarias, jogamos o mesmo joguinho do Snoopy no iPad, dançamos ao som de Strawberry Fields Forever e Blitzkrieg Bop no carro, montamos Lego no chão da sala, assistimos às Crônicas de Nárnia com ela deitada sobre meu peito infinitas vezes, temos a mesma mania de ficar parados segurando o braço esquerdo acima do cotovelo e alimentamos uma estranha obsessão por colecionar lanternas – sim, temos por toda a casa, várias delas nas gavetas e, apesar de mal fazermos uso, são tidas como item de primeira necessidade no lar.

Qualquer pai se enche de orgulho ao notar sua pequena cria desenvolver os hábitos e traços que lhe são peculiares. É um sinal da nossa continuidade, da herança que deixaremos, uma espécie de legado para a humanidade que nos identifique – bem, talvez não a humanidade toda, no sentido amplo da coisa, você entende, mas aquela dúzia e meia de parentes com certeza.

Adoramos nos ver em nossos filhos porque amamos que sejam parte de nós. Queremos, claro, que sejam melhores do que seremos, em tudo, que sigam a caminhada numa jornada bem-sucedida, feliz e com realizações. Sonhamos que suas vidas tenham significado e que façam história. E poder imaginar que existe um pouco da gente ali sendo carregado naquele ser humano que amamos mais do que a nós mesmos, é alegria das mais radiantes. Provoca, de algum jeito, um certo conforto, uma falsa sensação de segurança ao imaginar que sabemos o que estão passando.

E seria muito bom se tudo parasse por aí.

Entretanto, em medida sem igual, preciso dizer, dói como poucas coisas notar, vez por outra, que minha menina sofre ao carregar o peso de males que herdou de mim. Das patologias às manias e defeitos mais complexos. Ela é alérgica, ela é sistemática até o último cromossomo, precisa usar um aparelho nos dentes para corrigir um problema genético e tem uma carga exagerada de nostalgia para com as coisas que não cabem nos seis anos vida que acumula.

Imagens e semelhanças.

Ela não tem culpa. Eu a amo tanto, não gostaria que sofresse por nada, muito menos por defeitos que são meus. Não quero que a Nina pague esse preço. Seja dos problemas físicos, seja dos morais. E nesse sentido, Deus sabe como não quero que ela repita os meus erros. Não, ela não precisa.

Eu oro por ela. Gostaria que Deus me dissesse o que ele tem em mente. Que tipo de aprendizado ainda não fui capaz de assimilar e que minha filha, alguns pontos de QI a mais do que eu, pode superar mais cedo? Cedo na vida, eu rogo em minhas preces, quero que ela conheça a Jesus, que desenvolva seu caráter e descubra o sentido da sua existência.

Oro a Deus, o pai sem defeitos. Para que do alto de sua perfeição, aprimore sua criação corrompida. Porque eu sei que nele podemos ser transformados e, ele em nós, corrige nossas falhas, limpa nossas impurezas, cura as doenças, muda a condição em que estamos e até, há de se esperar, faz sumir as manias mais estranhas.

A imagem e semelhança perfeitas, em Jesus.

* * *

Eu a observo brincando, sentada em sua mesinha desenhando cuidadosamente. Tal como a Manú, ela tem um certo talento pra isso, um bom traço, é criativa, passa horas concentrada em seu “trabalho” – como ela chama. Eu a ouço falando qualquer coisa sobre seu dia, cantando a trilha sonora do desenho da TV, contando das amigas da escola, das brincadeiras, tudo nos mínimos detalhes. Fico olhando enquanto ela come com a cabeça apoiada numa da mãos, espetando os legumes com o garfo. Passo um tempo em silêncio, admirado com a velocidade ingrata com que minha menina está crescendo sob nossos olhares. O tempo é um velho cruel e indomável. Preciso desfrutar, tento reter cada instante que posso ao seu lado nessa infância que passa tão rápido. Queria dar pra ela uma lanterna para ajudar a iluminar melhor o caminho que terá pela frente. Que ela vai seguir com as próprias pernas, que ela vai descobrir com seu olhar brilhante, desbravar com sonhos que Deus plantou só na sua mente. Porque é tudo o que eu quero ver nela: nada de mim na verdade. Mas dela. Quero viver para ver o que ela se tornará, sua identidade, sua a visão do mundo, sua imagem graciosa refletindo na vida dos netos que nos dará um dia.

Ela dorme no chão da sala. Estávamos vendo um filme quando pegou no sono. Levanto, preparo sua cama no quarto, aumento a quantidade de cobertas, está frio, então volto para a sala e a pego no colo. Ela está ficando maior, eu estou ficando mais velho, mas esse é o lugar onde espero que ela sempre caiba. Carrego minha menina para a cama com todo o peso desse sentimento no peito, ajeito seu pijama, tiro a franja que lhe cai no rosto e ela suspira inocência.

Admiro minha cria. Ela é bonita. E Deus, que ninguém me ouça, mas é a cara da mãe.


(Esse texto faz parte da série Paternidade)

Seis anos e a eternidade pela frente

Ninaversario_6anos

Seis anos. Eu ainda me lembro da festa. Foi uma surpresa tramada pelo meu irmão e minha mãe. À tardinha, saí de bicicleta para buscar um jogo na casa de um amigo e, quando voltamos, tudo escuro, já estavam todos escondidos na cozinha. Amiguinhos, vizinhos, primos e familiares saltaram detrás da geladeira, da porta e debaixo da mesa. Eu lembro da farra, do bolo, de alguns presentes e do meu pai dizendo: “É, cara, já encheu uma mão inteira e agora vai começar a contar na outra”. E aquilo era toda a maturidade com que eu podia imaginar.

São dessa idade as primeiras lembranças ordenadas que guardo da infância. Bom, tem realmente pouquíssimas coisas que eu faço acima da média, uma delas é ter uma memória visual impecável. Eu não sei jogar bola, sou incapaz de tocar uma guitarra, mas sou bom pra burro com a memória. Fatos, cores, cenas, detalhes, diálogos, nada me foge. E desse tempo na infância, às vezes as lembranças me resgatam como uma âncora. Lembro em detalhes da vila onde morávamos lá na Barra Funda, as casas pequenas, todas iguais, grudadas umas nas outras. O cheiro e o som da fábrica de asfalto cujo sinal apitava toda manhã na avenida, os bem-te-vis que cantavam numa árvore cuja copa se projetava sobre o nosso quintal bem perto da janela do quarto onde dormíamos, os três irmãos.

Estávamos nos anos 80, era o tempo do meu primeiro ano na pré-escola, das brincadeiras de bola, de pipa, figurinhas da Copa União e rachas de carrinho na rua. Foi naquele ano que aprendi a decifrar as primeiras palavras escritas e todo o mundo de descobertas que surgiu depois disso. O mundo. O mundo para mim era aprender, era o som dos Titãs tocando “cabeça, cabeça, cabeça dinossauro…” no micro-system do meu primo, era aquele presidente bigodudo anunciando coisas e coisas na tevê com uma voz estridente e preocupante, era a vinheta do jornal da Jovem Pan tocando no rádio do Fusca do meu pai enquanto eu ia pro colégio e o sol nascia através do pára-brisas. E tirando uma viagem por ano para a Praia Grande, meu mundo todo era aquela pequena vila de 30 casas que eu explorava tarde afora em cada detalhe.

Era tudo o que eu tinha. Eu tinha seis anos e nem imaginava o que vinha pela frente.

Hoje a minha filha faz seis anos.

Ontem, antes de dormir, a Manú e eu recapitulamos para ela a história do dia em que nasceu – ela adora ouvir – e depois, enquanto fazíamos a nossa prece rotineira e casualmente me dei conta do tamanho que a Nina tem agora, essa criança cheia de personalidade e graça que já ocupa seu espaço na casa e nas nossas vidas, me senti intensamente grato, fingi um cisco nos olhos, mudei o rumo da conversa e saí de lado. “Hora de dormir, filha, vê se pega logo no sono. Tenha bons sonhos”.

Com o quê nossa menina vai começar a sonhar? Como será que ela vê as coisas hoje?

Não foi um dia de festa surpresa para ela. Teve escola como todo dia, teve trabalho, consulta médica e lição de casa. A rotina que se impõe sobre a gente fez com que o aniversário dela corresse como num dia qualquer. Só mais a noite, já no fim do dia, é que a levamos para um passeio, um sorvete, um livro novo, brincadeiras, uma bonequinha, o lanche e, em poucas horas, a sensação infantil de que o dia era todo dela.

Não sei dizer se daqui a 26 anos ela vai se lembrar desse dia. Tentamos tornar as coisas memoráveis, nos esforçamos nessa busca tola por grandes experiências na vida, mas sabemos bem que não são exatamente essas situações que nos marcam. A memória nos trai, a vida faz curvas e no fim as histórias que levamos na bagagem são, em geral, as menos prováveis. Mas fico tentando imaginar o que a Nina vai guardar desse tempo. Do que ela vai se lembrar? Quais serão, quando adulta, as lembranças remotas que ela terá da infância? Os amigos, a casa, as Escrituras, a escola, a cachorrinha nova que chegou por aqui há duas semanas – Lucy, muito prazer. Será que ela terá consigo a raiz ainda firme com os princípios que a Manú e eu tentamos ensinar diariamente? Que princípios devemos ensinar para ela? A paternidade é um fardo adorável.

Ela tem pressa. Tenho quase certeza de que esses seis anos se passaram, na verdade, em três. Papo sério, acho que tem gente conspirando e fazendo tudo andar mais rápido e os cabelos ficarem brancos mais cedo. E eu bem sei que nesse ritmo, já, já ela vai ganhar o mundo, vai sair de debaixo das nossas asas e voar por aí sem que a gente possa controlar ou prover, vai descobrir e construir seu próprio mundo, sua visão de mundo, vai notar um dia que não passávamos de um casal bem-intencionado que, entre muitos erros, deixaram escapar alguma coisa boa que servirá para que ela seja alguém muito melhor do que jamais imaginamos ser. Esse é o sonho, é um desejo, é até uma oração agora. Sua liberdade será a nossa eterna insegurança. E então, só o que poderá trazê-la de volta vez ou outra para nosso ninho, é essa mesma liberdade, o desejo de vir e sentir-se querida. O único princípio que podemos ensinar pra ela é o amor. A paternidade jamais é um fardo.

Ainda ontem, antes de dormir, enquanto eu me esgueirava quarto afora com aquela lagriminha correndo num canto dos olhos, ela me lançou uma pergunta:

“Pai, quando a gente for pro céu, nossa vida nunca mais vai acabar?”

“Não, filha. Deus fez a gente para viver pra sempre.”

“Pra sempre?”

“É. Isso que chamamos de eternidade.”

“Pai, quando eu for pro céu, eu queria continuar sendo criança.”

Isso deveria ser uma condição, certo? Não resisti: “Faz bem, querida. Você sabia que Jesus falou que todo mundo, os adultos todos, deveriam mudar e tentar ter um coração como as crianças tem?”

“Boa noite, pai” – ela não estava interessada em teologia.

Ela tem seis anos e nem imagina o que vem pela frente. E aí mora toda a beleza da coisa. Somos filhos. Quem é que imagina, afinal?

História em tempo real

Ninarte

Ela atravessou a sala e veio caminhando em minha direção.

– Pai?
– Oi, filha.
– Sabe esse caderno que você me deu? – ela o carregava encaixado sob o braço. Eu vou brincar que esse vai ser o meu diário.
– Ah é? E o que você vai escrever aí?
– As coisas que acontecem.
– Entendi. Tá bom então. Acho que vai ser legal.
– É… E pai, quando eu crescer e eu souber ler, vou escrever nele.
– Combinado.

A mesa dela fica no meio da sala, entre a TV e o sofá. É laranja, cheia de figuras do Co-co-ri-có e destoa completamente da decoração off white cuidadosamente planejada pela Manú. Mas ninguém liga, é uma mesinha pequena, com uma cadeirinha também, sobre a qual ela deixa três canecas de plástico transbordando de lápis-de-cor, giz de cera e canetinhas, dezenas de folhas com desenhos, cadernos rabiscados, pincéis, alguns livros e um mundo inteiro de fantasias. Ela gasta horas ali sentada, concentrada, desenhando e pintando.

– Papai, quando eu crescer vou querer ser cabeleireira, costureira e artista. Eu nasci pra isso – ela disse outro dia no carro.

Das três, a última é a única que, para o bem-estar social coletivo, ela pode exercer aos cinco anos de idade. E eu prefiro mesmo que ela não pense em trabalho agora. Eu gostaria de não estar pensando.

Estou sentado na mesa de jantar, tomando essas notas num pequeno caderno de folhas amarelas. É onde quase tudo começa. Acabamos de jantar, tirei a mesa com as louças da casa e lá no quarto mãe e filha se preparam para dormir. Foi um dia cheio. Dias, aliás, eles têm sido.

Li, hoje, uma coluna do jornalista Alexandre Matias comentando a morte prematura do programador e ativista norte-americano Aaron Swartz, que cometeu suicídio na semana passada. Matias lançou mão do trecho de um poema de Allen Ginsberg que diz “vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura” que foi posteriormente parodiado e se propagou por esses ventos digitais como “vi as melhores mentes da minha geração pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios”.

Eu pensava nisso antes do jantar, enquanto descia pelo elevador e caminhava até a portaria do prédio para buscar a pizza que havia pedido. Onde estão os nossos gênios agora? A que fins tem se prestado senão em servir a Máquina com seus préstimos em troca de dinheiro?

Num momento da história em que tantas oportunidades se revelam, em que o acesso à informação e o conhecimento se escancaram, temos preferido mesmo a frieza dos escritórios e carreiras em companhias “inovadoras” ao desconforto da incerteza. Falta algo aqui.

Nosso mundo carece desesperadamente de ideais. Falta nobreza às nossas causas. Falta um significado.

Eu, que não sou nada genial, uma mente ordinária e limitada, fiquei com a dúvida inconveniente. E quando terminamos o jantar e me sentei para tomar essas notas, eu ainda pensava nessa coisa toda. Lembrei dos meus cadernos e lápis, que eu carregava por onde fosse na infância. Como os da Nina, eles tinham um desenho aqui, outro ali, e um monte de histórias inventadas. Esse era meu passa-tempo, eu gostava de escrever. Eu tinha nove anos e, quando crescesse, queria ser jogador de futebol, vocalista de uma banda de rock e escritor. Hoje, no duro, eu passo o dia pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios.

E não é preciso ser gênio para notar que era na infância que nos alimentávamos, além de todinho e lactobacilos vivos, com sonhos puros. Você e eu, admita. Tínhamos, com a imaturidade, também a inquietude, a fé simples e um milhão de interrogações para despejar no mundo dos adultos. Líamos histórias, inventávamos histórias, imaginamos e passamos a querer escrever a nossa própria, de um jeito diferente.

Mas… bem, você conhece essa continuação tanto quanto eu.

As luzes da casa foram se apagando nos minutos que seguiram, o volume todo se reduzia aos poucos, ficava tarde. Então o som dos passinhos veio do corredor e ela se aproximou.

– Tô com sede.
– Sua água ficou aqui.
– Hum.

Continuei no caderno.

– Pai? O que você tá escrevendo aí? Posso pintar? Que legal sua caneta. Isso aqui você usa pra marcar a página onde parou?
– É só uma história, filha, umas coisas.
– Lê pra mim?
– Hum, tá.

Comecei. Do primeiro parágrafo: “Ela atravessou a sala e veio caminhando em minha direção…”

– Haha, ah, paiê!
– O que foi?
– Por quê você…?
– Filha, agora vai dormir, já está tarde.
– Pai, lê pra mim!
– Mas eu ainda não terminei, Nina.
– Então deixa eu te ajudar a escrever sua história?

E eu só queria dizer: “você está na melhor parte dela, querida.”

Ciclos

Ela já não tem medo de monstros. De dois meses para cá, como num passe de mágica, as coisas mudaram um pouco aqui em casa. Às nove, dado o alerta da hora de ir para a cama, ela escova os dentes, veste o pijama e, beijos dados, segue para seu quarto.

Não era sem tempo, a gente sabe. Mas até outro dia, esse parecia um cenário muito distante na rotina de casa. Escrevi por aqui sobre toda a tensão dos momentos que antecediam o momento do sono, a insegurança, a incerteza sobre o que estávamos fazendo de errado, como poderíamos ajudar a Nina a superar a dependência que nutria da gente para dormir. E de uma hora pra outra, tudo se foi, numa noite ela chorou e dormiu, noutra reclamou e dormiu, aí finalmente dormiu. E agora é assim, ela sai da sala sozinha, deita e dorme. Sem dengos, sem as histórias, sem aquela carência toda. E de repente, me peguei sentindo uma falta danada daquelas noites.

Ela dorme. Estou sentado no pé da sua cama e a observo. Minha menina está crescendo, o rosto afinando, os cabelos mais lisos presos num rabo-de-cavalo. O pijama, cheio de desenhos de gatos coloridos, já serve só até o meio das canelas. Três mechas vão caindo sobre o rosto, as duas mãos juntas embaixo das bochechas… a cena que eu jamais gostaria de esquecer, um momento, entre tantos, que eu sei de que terei saudade no futuro.

É mais um ciclo que se cumpre. Para ela e para nós. Desde o começo, a espera, a gestação, o corte do cordão umbilical numa madrugada chuvosa de março, as primeiras palavras, o primeiro ano, nove mil e duzentas fotos, os primeiros passos, a caminhada inteira de então em diante.

Ciclos. A gente quase não percebe quando começam, mas terminam quase sempre numa sessão de nostalgia. E para cada um, um novo marco, um altar edificado de celebração, lembrança e saudade.

Ela cresce uma era inteira a cada minuto e vive plenamente a infância, se desenvolve, sorri, cai, levanta, aprende e absorve como uma esponja – dos episódios quase infinitos da novela Carrossel às conversas secretas dos adultos – tudo o que se passa ao seu redor.

Sentado no quarto escuro, olho para a porta entreaberta, sondo a luz que vem da sala pelo corredor e admito uma ponta de medo ao notar a sombra do futuro que se projeta adiante. Bendita incerteza, quando parece que as coisas vão se acomodar e tomar um rumo finalmente, percebo que preciso reaprender a ser pai, ser marido, profissional, a encarar desafios diferentes outra vez.

Mudanças. Às vezes, precisamos mesmo que elas aconteçam para que nos desapeguemos. Alguém deve tirar nosso apoio, de supetão, de repente, para que a gente possa acordar, para que um novo passo seja dado.

É tarde, preciso dormir. Amanhã será um novo dia, mais um começo, outro ciclo.

Assombrações

“Não tenham medo!” (Mateus 14:27)

Hora de dormir. Noite após noite, o ritual se repete: ela veste o pijama, faz xixi, escova os dentes, enrola a gente, pede uma história, conta um milhão de coisas da escola, faz uma oração e dorme. No meio da madrugada, invariavelmente, a vozinha rouca chama lá do quarto e – sim, nos condenem os pais super eficientes – ela encerra as últimas horas da noite dormindo na nossa cama.

Temos tentado, juro, mas parece em vão. Se as experiências de amiguinhas e personagens de desenhos animados servem de lição e inspiração para convencê-la sobre quase tudo, o mesmo não acontece com a ideia fixa de que é difícil dormir sozinha. Ela continua choramingando e nós, às quatro e tantas da manhã, não temos a menor condição física e mental de discutir a relação com nossa filha de cinco anos.

Noite dessas, enquanto ela vestia o pijama, fui até a cozinha buscar o copo de água que sempre deixo sobre o criado-mudo. Cheguei no quarto e vi que ela estava atravessada em cima do colchão, debruçada, procurando algo atrás da cama.

“O que foi, filha?”. Achei que ela procurava algum brinquedo perdido.

“Pai?”. Ela perguntou, ignorando minha dúvida.

“Oi.”

“Tem uma cobra ali atrás?”

Ela tem medo de monstros. E naquele momento, muita coisa sobre essa dificuldade toda fez sentido. Cobras, morcegos, a escuridão, bandidos, dragões, ela acha que algum perigo pode surgir no meio da noite para atacá-la. E não há argumento, parábola ou estudo de caso que a faça abandonar o temor e aceitar uma verdade simples que afirmo todos os dias: “isso é bobagem, você não precisa ter medo”.

Curiosamente, tudo passa, tudo pode ser vencido, se eu simplesmente ficar ali ao seu lado. Ela não dorme sozinha porque tem medo, mas descansa como um anjo – ou princesa, como ela prefere – se me sento ao pé da cama e vigio seu sono. Se estou por perto, as cobras se transformam em minhocas, bandidos voltam para casa janela afora, monstros se apequenam e escondem-se resignados, a escuridão perde a frieza. Então, ela pode repousar e sonhar com suas fantasias coloridas.

Até que se sinta sozinha no meio da noite, acorde, resmungue e cambaleie descabelada para nossa cama. Até que se sinta desamparada e clame pela proteção que o abrigo paterno parece oferecer.

E ainda que isso soe como uma tremenda massagem na auto-estima de um pai que gosta de sentir-se o amparo de sua prole – gosto de falar “prole”, mesmo que minha prole seja de uma pessoinha só – sei que não é bom que seja assim, não é saudável para ela. A Nina precisa saber que já tomei as providências para que nenhum perigo se aproxime e que ela pode fechar os olhos sem esse tipo de preocupação. Eu não estou lá ao pé da cama, mas estou o tempo todo com ela, cuidando, com meus limitados poderes, para que tudo vá bem e ela se acolha guardada em meus braços.

Mas, às dez da noite, às voltas com esses pensamentos enquanto a observo, fico tentando descobrir como fazer para minha filha de cinco anos – com a imaginação fervilhando de fantasias – acreditar que esses temores são tolice, devaneios da imaturidade e que ela pode ter paz, descansar, porque seu pai está de vigia?

“Em paz me deito e logo adormeço, pois só tu, Senhor, me fazes viver em segurança.” (Salmos 4:8)

Ela dorme.

E enquanto ela sonha em ser “uma heroína com asas, coroa dourada, maquiagem e muito brilho” – um dos pedidos que ela dirigiu a Deus na oração que fez -, eu luto com os monstros. Os meus. O estresse da vida cotidiana, a sensação de não estar dando conta do recado, dos recados, da lista enorme de pendências que se acumula. Sem que eu percebesse, a vida adulta foi tomando conta de tudo, lembro à distância, ainda com certo romantismo, da espontaneidade juvenil que regia as coisas e percebo que vou me tornando o tipo de sujeito saudosista que costumo criticar. Alguns fios de cabelo começam a cair, os que não caem vão se tingindo de branco, uma sombra parece se projetar sobre a alma. Está difícil dormir, preciso acender uma luz.

Tenho medo. As minhas assombrações adquirem as formas do cotidiano. Sei que jamais serei totalmente suficiente, que me apavoro com tolices, mas minha imaturidade não me deixa enxergar que não há nada que eu possa fazer, não há nada que eu deva ou precise fazer, que a graça deveria bastar. Cego, não percebo os braços que me acolhem. Eu também sei que monstros não existem, que bandidos não escalam prédios para invadir apartamentos no décimo primeiro andar e que, a menos que se viva na selva, cobras não costumam montar seus ninhos embaixo de camas.

Sei que não preciso ter medo da escuridão porque o Pai zela por mim o tempo todo. Ouço suas histórias, suas promessas e acredito, acredito mesmo, em suas palavras. Mas ainda assim, mesmo sabendo de tudo isso, percebo muitas vezes a inquietação e a dúvida ganhando espaço em minha mente e titubeio, eu paro, retrocedo.

O medo manipula. Dá aparência de dor ao que é só ameaça, dá sensação de trevas ao que são tão somente sombras. Então parece mais fácil fugir, fazer de conta que o problema não está lá e buscar amparo numa muleta qualquer do que encarar a verdade assombrosa de que os monstros, em grande parte, se escondem dentro de nós.

Mas ao tentar ensinar a Nina, tenho aprendido que fugir do problema não resolve o problema, fingir que ele não existe não faz com que ele desapareça. E às vezes, é preciso aceitar que o conflito é necessário e que devemos encarar a realidade, vencer o obstáculo e finalmente seguir em frente. E jamais estamos sozinhos.

É nessas horas em que preciso tomar a decisão que já conheço mas da qual quase sempre me esquivo: eu preciso confiar e seguir em frente. Crer e saber, de forma pura, que o mal já foi vencido e que o Pai, ao meu lado, me protege e preenche.

E eu posso apagar a luz, fechar os olhos e viver em paz.

À procura de um significado

por Luiz Henrique Matos

Na maior parte do tempo, com a maior parte das pessoas, as coisas funcionam mais ou menos assim: a não ser que alguém apareça e atrapalhe a forma como encaramos o mundo e as nossas vidas, em geral tudo caminha bem. Enfrentamos algumas dificuldades, conquistamos meia dúzia de feitos, reclamamos um bocado de tudo mas no fundo não trocaríamos o que temos por outra coisa.

Detestamos admitir que fazemos parte da média porque queremos estar no grupo das pessoas diferenciadas, mas acredite, tem muita gente igual e com os mesmos padrões de comportamento que você e eu. Ao longo da vida, nos adequamos aos modelos de conduta e meio-ambiente à nossa volta. Convenhamos, não é preciso lá muito esforço para encontrar uma receita de vida em que as coisas funcionem.

Seguimos confortáveis, numa certa inércia, nos acomodamos em nossa condição até que, certo dia, aparece alguém, uma voz inquieta em nossa orelha, que tem a ousadia de perguntar:

“Por quê?”

Se esse alguém tem um metro e dezenove centímetros de altura, cabelos cacheados e bochechas grandes, a tendência, em grande parte, é que a pergunta tenha uma natureza imprevisível e provoque algum tipo de desconforto, no mínimo uma reflexão. E se você já se deparou com a artilharia de interrogações de uma criança descobrindo o mundo, sabe que na maioria das vezes, nós não temos uma resposta.

Ela diz: “Pai…?” e pelo jeito com que fala, eu sei que devo me preparar para o golpe.

“Pai…?”

Titubeio.

“Oi?”.

“Éé… assim… pai, por que as pessoas morrem? Por que elas vão para o céu? Por que é que japonês tem o olho assim ó, meio fechado? E o chinês!? Por que aquela moça está chorando? Por que é que tem gente que não tem casa, que mora na rua? Por que, pai?”

As questões vão das mais obvias às absolutamente desconcertantes. Algumas dúvidas, eu descubro que também sempre tive mas nunca soube. E o ambiente da nossa casa, que sempre navegou sobre as águas calmas do senso comum, se transformou, sem que eu me desse conta, numa enxurrada de interrogações.

“Por que eu tenho que tomar banho todo dia? Por que a sua barba arranha? Por que o arco-íris não aparece toda vez que chove? Por que a Fulana fala daquele jeito, com aquele sotaque estranho? Ela fala ‘porrrrque’. Pai, por que as pessoas ficam velhas?”

“Pai, por que você tem que trabalhar? Por que não pode ficar brincando aqui comigo só mais um pouquinho?”

“Porque o papai precisa ganhar dinheiro, filha.”

“Por quê?”

Talvez, se também perguntássemos porquê fazemos as coisas que fazemos, é bem possível que deixássemos de fazer a maior parte delas. Porque há algum tempo nós mesmos paramos de fazer perguntas assim. Nos ajustamos, deixamos de questionar o significado das coisas e passamos a vida repetindo um único tipo de pergunta: como?

Nisso reside a mais precisa teologia, o ponto congruente de nossas reflexões existenciais. Talvez Kierkegaard pudesse ter dialogado com a Nina – e, se não é essa uma definição ampla e cientificamente aceita, deveria. Ela não quer conhecer procedimentos, não quer caminhos, ela quer motivos e significados. Disse Paulo a seu discípulo Tito: “para os puros, todas as coisas são puras”, para quem entende que a satisfação da vida está no “ser” e não em ter ou fazer, a felicidade se revela simples e as dúvidas, ao invés de fardos, adquirem a dimensão de grandiosas explorações e descobertas.

“Pai, por que você casou com a mamãe? Por que eu não posso comer a sobremesa antes da comida? Pai, por que Deus fez as cobras? Por que eu tenho que ir para a escola? Por que a gente sente dor? Por que a gente precisa orar? Por que eu orei para Deus sarar meu machucado e ele não sarou?”

Deus não se ofende com perguntas.

Temos medo, vergonha e preguiça de expor nossas questões, mas a dúvida não é algo ruim ou imaturo, não é, em absoluto, a ausência de fé. A dúvida é justamente o reflexo da nossa busca por fundamentos que sustentem nossas crenças. Por isso, as repostas não são, jamais, receitas concretas, certezas definitivas ou instruções simples, mas caminhos, o vislumbre de um significado, um propósito a seguir.

E essa é uma questão que faz sentido quando se pensa na verdadeira religião e na vida. Essa é a pergunta que as Escrituras fazem e procuram responder o tempo todo.

Acho que Deus gosta desse tipo de pergunta, os “porquês”. Acho que ele gostaria que o questionássemos mais, que procurássemos entender suas razões. Porque na maior parte do tempo, suas respostas insinuariam o grande amor que ele sente e nos tornaria mais próximos. Acredito que se buscássemos entender os motivos, para o quê fomos criados, pode ser que a vida adquirisse um outro sentido. Repito: pode ser que nossas escolhas – das mais complexas à simples rotina – fossem diferentes.

Afinal, por que você reclama tanto da sua vida? Por que murmura sobre o clima, sobre seu emprego, a falta de dinheiro, seu casamento, os outros? Por que você acredita em Deus? Por que não acredita? Por que ainda não começou a cuidar da sua saúde? Por que guarda dinheiro? Por que você não conversa mais com aquela pessoa da família? Por que não esquece logo e perdoa? Por que você alimenta esses sonhos? Por que não foi atrás deles? Por que você faz o que faz e é o que é? Quem você é? Por quê?

A verdade é que passamos a vida empenhados na busca por procedimentos, esperamos que nos passem uma lista de regras de conduta e um código moral para obedecer. Reclamamos das leis mas elas são tudo o que mais queremos – nem que seja para fazer o oposto do que nos mandam. Mas Deus, ao contrário do que pregam tantos, não nos impõe regras. Porque ele ama, quer que sejamos livres para escolher nossos caminhos. Como Pai, escuta atento as nossas questões e, se pararmos para ouvir, notaremos que ele nos dá conselhos, compartilha, explica seus motivos e nos revela quem somos.

“Pai, por que eu não posso usar vestido todo dia? Por que o pai e a mãe da minha amiguinha Fulana não moram na mesma casa? Por que quando a gente foi no médico tirar aquela foto (raio-x) eu não vi Jesus dentro de mim? Por que eu tenho que ir dormir agora?”

Daqui alguns dias ela fará cinco anos. E o tempo todo, podemos sentir que ela está absorvendo tudo à sua volta, construindo sua própria visão dos fatos e definindo, ainda sem saber, seu papel no mundo. Em cada pergunta, há algo novo que ela assimila, um fato que molda a sua personalidade e amplia seu repertório. Em cada “porque” a busca por um bom motivo que sacie a sua sede ou uma fagulha que acende outra chama. Eu espero que ela jamais se contente e se acomode num padrão que alguém lhe imponha – mesmo que esse alguém seja eu, com as melhores intenções.

E porque eu a amo, farei o que puder para que essa curiosidade jamais se sacie. Quero que ela seja livre para fazer suas perguntas e entenda a vida a partir de seu olhar. Espero mais é que ela duvide das convenções. Quero que sua mente inquieta me questione, se descubra, me constranja, se revele. Me ensine.

Fantasias

por Luiz Henrique Matos

Numa noite dessas, depois da alucinação toda de outro dia cheio no trabalho e a paralisia toda de outro dia entupido no trânsito de São Paulo, cheguei em casa mais tarde, mais estressado e cansado que o habitual. Mas, depois de passar pelo meu Portal Mágico da Paz – ou, porta da sala adentro – segui a rotina ritualista e purificadora: beijei minhas meninas, conversamos um pouco, comi algo, tomei banho, conversamos outro pouco e vimos TV até que deu a hora de a Nina ir pra cama. Banheiro, escovação, um protesto, pijama, um copo d’água, um beijo na mãe, uma enrolada no pai, uma oração, várias interrupções e, sem falta, a historinha do dia.

E como fazemos diariamente, escolhemos juntos uma história para eu contar. Nessa hora, pode ser que nos aventuremos pela septuagésima vez através de um dos livros da estante dela, por uma narrativa resgatada na lembrança (leia-se: historinha clássica sem livro) ou “alguma coisa de quando você era pequeno”, como ela costuma pedir. A verdade, é que as historinhas são o grand finale do nosso dia como pai e filha, é quando encostamos juntos por alguns minutos na cabeceira da cama, longe da correria, de celulares, televisores, computadores ou outros estímulos digitais e unimos nossa imaginação em algum ponto, uma pequena saga que habita fora – ou muito dentro – de nossas mentes. Todos os dias, um capítulo novo, misturando as nossas experiências cotidianas com a ficção e virando uma página, uma etapa e uma metáfora da vida.

Mas naquela noite, quando entramos no quarto, notei que a cama dela estava inteira ocupada por peças de Lego.

– Tava brincando de Lego, Nina?

– Sim. Essa é uma casa que eu tô construindo – era uma sequência de peças grudadas umas nas outras, enfileiradas, formando ainda a planta baixa da construção toda.

– Que linda.

– Pai, você quer montar comigo?

– Quero. Mas hoje não, tá? Agora é hora de dormir. Vamos arrumar essa bagunça.

– Tá.

Esqueci o assunto em cinco minutos, a cabeça estava cheia. Mas no dia seguinte, à noite, quando ia para meu quarto e olhei pelo corredor, notei que a pequena construção colorida estava ali no chão, ao lado da caixa com as peças e havia avançado um pouco mais, com mais detalhes e as paredes começando a ser erguidas.

Senti-me péssimo. Poucas coisas me frustram tanto quanto perceber que deixei de honrar um compromisso com a Nina. E não é porque ela se lembra da promessa não cumprida e me recorda disso também, mas porque eu, de fato, gosto de sentar ao lado dela, mergulhar um pouco no seu universo e viver aquilo ao seu lado. Fantasiar, deixar as coisas serem, por alguns minutos, como gostaríamos que fossem, simplesmente porque temos o controle da situação.

Ela cria, constrói, compõe mundos inteiros, apenas com um punhado de lápis coloridos e me guia pelas mãos em suas aventuras. Naqueles instantes, a gente esquece a correria toda e tem a sensação de que pode viver nisso, jogar de lado o peso do cotidiano, retroceder no tempo uns 27 anos e lembrar de como era tudo e ficar ali, de short, camiseta e chinelo, sentado na rua da vila, olhando uma formiga atravessar a calçada com uma folha verde nas costas e fazendo de conta que eu era o terrível gigante de quem ela se escondia.

Mas, talvez o mais curioso dessa relação das crianças com a fantasia, seja notar que elas não vivem aquilo como uma experiência momentânea, um faz-de-conta premeditado. Ao contrário, elas mergulham de forma tão natural e intensa como se pudessem assumir aquela verdade para si. Para elas, cada brincadeira é real tanto quanto o que se pode tocar. Para nós, funciona como uma espécie de fuga da realidade nos momentos em que ela quase nos sufoca.

Às vezes, julgamos tudo isso como uma bobagem, aprisionamos nossa infância nas fotografias e avaliamos as nossas crianças como seres imaturos, inferiores e despreparados. E tentamos conduzi-los, adestra-los e determinar suas escolhas em conformidade com algum raio de visão do mundo que elaboramos ou lemos em alguma revista no salão do cabeleireiro.

Tudo isso é mentira. Eles não tem nada de menores. É bem possível que seja dessa “grandeza” infantil que tanto carecemos. Essa maturidade de não se deixar influenciar por pequenos problemas, a nobreza de não julgar, a confiança integral de que o pai é capaz de suprir e providenciar o que for necessário.

Olhamos a vida do alto, mas somos tão, tão pequenos. Tentamos enquadrar a vida numa caixa, tentamos controlar a situação, tentamos e tentamos em vão e, diria o sábio rei, só “corremos atrás do vento”.

Jesus falou disso também, da pureza das crianças e tudo, advertiu sobre o quanto é fundamental que sejamos como elas para entender – e habitar – em seu Reino. E vivia cercado delas, deixava que cantassem. Pode imaginar? Deus vivendo entre os homens, andando na Terra, com todo monte de atribuições, decisões e estresse que esse “cargo” representa? E ensinava sobre a importância de alimentarmos um coração ingênuo, desinteressado e sincero.

Um reino de crianças. Um céu colorido, divertido, sem o peso de ontem ou a preocupação de amanhã.

– Papai, como é que a gente vai parar lá no céu?

Eu respirei fundo. Acessei, nos porões da mente, o pouco de teologia que me atrevi a estudar e o vasto (arrãm) repertório de releituras bíblicas e psicologia familiar que adquiri. E engasguei. Fiquei quieto por um minuto, dois e então tentei mudar de assunto. Tive algum sucesso, a conversa enveredou por alguma superficialidade qualquer, mas foi ela, instantes depois, que concluiu:

– Pai, vai ser assim: vai ter uma festa no céu e Deus vai chamar a gente. E vou com um brinco, um anel e um vestido de princesa.

Um copo de leite, três biscoitos e um legado para a humanidade

por Luiz Henrique Matos

Um copo de leite gelado e três biscoitos de coco, todas as noites, antes de dormir.

O hábito já me domina há bons meses, mas só me dei conta mesmo alguns dias atrás. Eu observava a cena montada sobre a mesa da cozinha, desviando o olhar que deveria estar sobre o livro aberto ao lado e quando ameacei dar o primeiro gole no leite, me peguei falando sozinho: “É, amigão, a idade chega pra todo mundo.”

A idade. Uma entidade clássica, a fase crucial da vida. Sabe-se lá quando ela vem, nessas horas não importa muito se você está fazendo 64 ou 19 anos, quando seus hábitos ficam velhos, é sinal de que “a idade” chegou. No meu caso, a terceira década foi determinante. Eu nem bem fiz 30 anos num dia de 2010 e, no outro, expressões tais como “no meu tempo”, “não tenho idade pra isso” e “ai, meu ciático!” surgiram como mágica em meu vocabulário cotidiano.

Acabou a minha juventude, lá se foram os vinte e poucos, definitivamente. Agora eu tenho casa própria, sou pai de família, dirijo um sedan prateado, encontrei uns fios de cabelo branco na barba – bem no queixo! – e ouço minhas bandas favoritas tocarem no programa “Clássicos do Rrrrrock” na rádio. Eu penso no futuro, me preocupo com as consequências dos próximos passos, estou deixando a mocidade lá atrás e uma certa melancolia me ocorre vez ou outra.

Hoje é dia de vez ou outra.

* * *

Como serão, afinal, as coisas daqui 30 anos? Desde que deixei três décadas para trás, às vezes me pego lucubrando sobre as próximas.

Terei o dobro da idade de hoje. A Manú e eu estaremos embarcando nos 60, aposentados, gozando das ricas benesses da previdência social na década de 2040. Nossa casa, um bolinho novo sobre a mesa, uns biscoitos, o café fresco na xícara e aquele leite lá do primeiro parágrafo em seu devido copo. A sala toda cheia de fotos, os rostos cheios de rugas, o quintal cheio de netos e as lembranças cheias de pó. E eu ali, gordinho e grisalho, na minha cadeira, fazendo um balanço das escolhas e caminhos que trilhamos.

Legados.

Na etapa final da vida, me conheço bem, estarei encucado com o fato de a altura da grama no quintal estar muito grande para tal época do ano – qualquer época do ano – e pensando que tipo de marca eu terei deixado nas vidas dos meus filhos, na humanidade e em todas essas indagações tão fundamentalmente pequenas e típicas dos seres humanos.

No fundo, essa é a questão. Os anos vão passando e o sujeito começa a refletir sobre essas coisas. Vale para o leitor de auto-ajuda e para o de filosofia clássica também. A gente pensa, quer saber: que tipo de lembrança deixaremos no mundo? Queremos que nossas vidas, de algum jeito, tenham um significado, queremos saber se fizemos as coisas certas.

É nessas crises, com o cérebro embalado por mais uma dose fresca do mais puro leite semi-desnatado que eu considero que, já que não consigo enxergar como é que serão as coisas daqui 20 ou 30 anos, deveria ao menos começar alguma coisa que cresça e dure até lá. Sei lá, talvez plantar uma árvore, escrever um livro de memórias, abrir uma caderneta de poupança. Talvez semear alguns valores na vida da minha filha.

* * *

“Na verdade, quem sabe o que é bom para o homem, nos poucos dias de sua vida vazia, em que ele passa como uma sombra? Quem poderá contar-lhe o que acontecerá debaixo do sol depois que ele partir?” (Eclesiastes 6:12)

* * *

Quem é que sabe? Pode ser até que isso, os legados e tudo, sejam uma grandessíssima bobagem. Nessa semana, enquanto pensava justamente nessa história, esbarrei no verso do rei Salomão que me fez repensar o rumo desse texto algumas vezes. Afinal, vale alguma coisa a gente gastar, neurônios ou tostões que sejam, tentando edificar algo para a posteridade? Faz algum sentido eu querer projetar alguma imagem que gostaria que o mundo – as 11 ou 12 pessoas que me cercam – tivesse de mim quando envelhecer?

Eu penso na minha carreira, penso nas fotografias da família, penso nas convicções que defendo e em cada lição de moral que aplico na Nina. Mas eu sei bem que o que vai marcar a vida da minha filha não são exatamente as coisas que conquistei ou as mensagens registradas, mas o tipo de ser humano que fui. Coisas, isso de fato nós deixamos como herança, mas o caráter é o nosso legado.

Existe uma alegria pura e inconteste que reside no fato de encarar a vida de forma mais simples, desfrutando plenamente do que recebemos de graça e deixando de lado as preocupações vazias com o dia de amanhã – a ansiedade, por definição. Jesus falou sobre isso certa vez. Mas o problema que enfrento em desfrutar de forma livre o dia de hoje é que o amanhã demora muito pra chegar – minha ansiedade, por definição.

Por si só, a vida é uma dádiva. E filhos são um bom legado. O presente, a felicidade irreprimível de ver uma vida crescer sob seu teto, do começo à eternidade. Os primeiros passos, as palavras, o ensino todo sobre alguns impasses da humanidade, sobre a fé em Deus e sobre a importância de guardar seus brinquedos na caixa após o uso.

Ter filhos é experimentar e entender, em alguma proporção, o amor de Deus pelo homem. Eu sei que isso é um clichê bem redundante, mas fatos são mesmo coisas que se repetem incansavelmente até que notemos.

Ter Deus é perceber, a certa altura, que ele não se preocupa com legados ou marcas. Ele simplesmente é, ele está, eternamente, aqui e em todo lugar.

Nós crescemos, adquirimos novos hábitos, somos moldados pelo ambiente e tudo o que nos cerca ao longo do tempo. Mesmo à revelia, jamais abandonamos a condição de filhos, de criação do Pai eterno. Carregamos seus sonhos incrustados em nossos propósitos de vida, refletimos sua imagem, herdamos seus traços. Temos em nós o sentimento de pertencimento ao Criador, ainda que questionemos sua existência ou critiquemos seus atos por tantas e tantas vezes. Ele não liga, ele ama, se oferece e é nele que encontramos o refúgio para onde podemos voltar. O Pai sempre estará lá. Aqui.

Vai chegar o dia em que nossos filhos terão filhos. Vai chegar o dia em que a Nina vai morar longe e virá nos visitar num final de semana com sua família. Ela vai entrar em casa, largar a bolsa sobre o sofá, abrir a geladeira e perguntar da nossa vida, dos parentes que não vê, do que ando lendo. Ela vai descalçar as sandálias, ajudar a mãe na cozinha, vai querer comer um pouco do que quer que seja que estiver em meu prato, vai me cobrar, reclamar que não cuido da saúde direito, que fico tomando café o tempo todo e que isso acaba com o estômago. Ela vai agradecer pela ajuda com as crianças ontem à tarde, vai criticar minha roupa, minha barriga, minha mentalidade retrógrada sobre a política e o mundo e vai ficar brava por ter que repetir cada frase duas ou três vezes porque eu já não escuto direito. E ela vai sair para o quintal, batendo o pé porta afora, cheia das suas razões, mas deixando no rastro cada pequeno gesto que contemplo hoje. Eu, minha xícara na mão, observando aquela mulher, minha filha, a pequena Nina, e a vontade absurda de poder pegá-la no colo, rodar contra o vento e jogar pro alto outra vez. A esperança de que tudo aquilo seja só um truque da imaginação, que ela ainda seja criança e que volte logo, escalando minhas pernas e me cochiche no ouvido o pedido para que eu conte mais uma história.

Meu legado.

Falta muito?

por Luiz Henrique Matos (5/10/11)

– Pai?
– Oi, Nina?
– Vai demorar pra chegar?

Essa é clássica. Estamos na estrada viajando para o interior, no avião atravessando o oceano ou no carro indo até a padaria do bairro, não importa, para a Nina sempre estamos “demorando muiiito”. É a fase, eu sei. Aos quatro anos, minha filha ainda não consegue distinguir com precisão as medidas de tempo e distância. Qualquer coisa pode ser rápida ou devagar, pequena ou grande, dependendo do grau de ansiedade dela no momento.

Às vezes, estou concentrado numa tarefa ou conversando com alguém e ela surge:

– Pai? Papai! Paaaiii!?
– Calma, filha. Espera só um minuto, tá?
– Mas, pai, por favor! – ela puxa a ponta do meu queixo tentando virar meu rosto na sua direção.
– Filha! – olho sério, repreendo, viro de volta.
– É que…
– Nina, o que a gente conversou sobre você saber esperar a sua vez?
– Tá bom – e aí ela fica ali, paradinha, esperando a vez para falar, dá até dó.
– Pronto, filha, agora sim. O que é?
– É… é… pai, é que, sabe… – e começa o assunto.

O curioso de tudo é que eu já sei, em detalhes, tudo o que ela vai me dizer, mas eu paro e escuto. Eu gosto de ouvi-la, tenho uma certa satisfação em observar minha menina expondo seus argumentos e falando de si. É nessas horas que a gente vai descobrindo que eles crescem de verdade. Mais tarde, na hora de dormir, aproveito o momento para contar uma historinha que transmita alguma moral que, subjetivamente, trate sobre a importância da paciência. Não sei se ela entende, ela dorme, eu viro as costas, vou para meu quarto, deito a cabeça no travesseiro e faço as minhas preces antes de cair no sono.

– Pai!?

E começo o mesmo relato diário, repetitivo e insistente as últimas décadas. Pedidos, necessidades urgentes, casos de vida ou morte, mesmo. Eu insisto. Se pudesse alcançar o queixo dele – ou o último fiozinho da barba longa e branca – tentaria puxar na minha direção. E o curioso de tudo é que, apesar de conhecer cada mísera letra de tudo o que vou despejar nos próximos minutos, ele pára e escuta. Talvez ele se satisfaça me ouvindo ali parado, bradando imaturidades, como eu com a Nina. Talvez.

“Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, Senhor.” (Salmo 139:4)

E não importa quantos sermões e histórias eu escute que evoquem o valor da paciência e sua importância para a alma, o estômago e a queda de fios de cabelo, minha tendência é pensar que não é bem de espera que eu preciso. Eu avalio que é bem provável que eu não tenha sido muito específico e ele não tenha entendido do que eu preciso e-x-a-t-a-m-e-n-t-e. É melhor pensar num jeito adequado para falar na próxima vez, talvez uma outra ordem para as palavras, um jeito mais didático.

Mas, porquê, afinal de contas, tudo demora tanto?

Somos imediatistas. A Nina e eu. Talvez você também. Acho que vivemos num período da história em que isso se torna ainda mais evidente e critico. É o que falam. Essa nossa cultura do agora, em que tudo está online, fácil e abundante faz a gente ignorar o valor da espera ou a necessidade de tempo que certas coisas demandam. O excesso de informação, a overdose de estímulos, acabamos desaprendendo – ou, pode ser que nunca tenhamos assimilado isso de verdade – o valor de disciplinas como quietude e contemplação. Não sabemos esperar, não nos prestamos a reconhecer que certas coisas levam mesmo anos ou meses para acontecer.

Não nos prestamos a reconhecer que certas coisas levam mesmo cinco minutos para acontecer.

Há algum tempo, eu estava chegando no escritório pela manhã e, sei lá o motivo, me espantei com um fato cotidiano. Tudo ia acontecendo mais ou menos como na coisa toda da rotina diária. Entro na garagem, estaciono o carro, tranco o carro, esqueço que tranquei o carro, volto para checar, desço até o hall, pego um café na lanchonete, chego na catraca, caramba-cadê-meu-crachá?, procuro num bolso, procuro em outro bolso, procuro na mochila, procuro no casaco, pronto, passo pela catraca, cumprimento o segurança e caminho até a fila do elevador, que demora um bocado pra chegar. O sujeito à minha frente já fez o favor de apertar o botão para subir. Então, passam-se trinta segundos e nada do elevador. Um minuto e nada. Um minuto e meio e ainda nada do elevador. Nem chegamos a dois minutos de espera e o indivíduo apertou outra vez o botão. Não satisfeito com o fato de a máquina não obedecê-lo imediatamente, começou a apertar, insistentemente, o botãozinho, seguidas vezes, na esperança de que ela fosse sensível à sua necessidade e resolvesse acelerar o passo e vir mais rápido porque, afinal, havia um homem com pressa esperando lá no térreo. Absurdo.

Depois de mais alguns minutos esperando, finalmente entramos todos em nosso meio de transporte. Eu olhava de canto e meio assustado para o sujeito, que apertou o sexto andar. Apertei o oitavo, me acomodei próximo à porta, esperei todos entrarem e, tal como faço diariamente, apertei o botão para a porta fechar logo, duas vezes. Aff… quem é que agüenta aqueles segundos intermináveis até que ela resolva fechar sozinha?

Somos egoístas. A Nina, eu e o sujeito do sexto andar. Talvez você também. Julgamos o mundo a partir das nossas perspectivas. Queremos determinar o tempo, queremos do nosso jeito. Queremos. E acreditamos que alguém tem a obrigação de atender esses desejos. E achamos que Deus é um funcionário com boas qualificações para o cargo.

Não pensamos em Deus, só pensamos em nós mesmos, nossos umbigos e o mundo todo girando em torno dele. Queremos que tudo aconteça de acordo com a nossa vontade e julgamos que esse ponto de vista é suficientemente aceitável para todos. Se as coisas acontecessem, afinal, exatamente como planejamos, o mundo seria um lugar melhor. E aí entra a contradição existencial do negócio: como as coisas podem acontecer exatamente como cada um de nós planejou sem que isso afete, diretamente, os planos uns dos outros? Não é necessário então que algo, alguém ou o acaso determinem os fatos?

O ponto é: o homem não está no centro do universo, Deus é quem está no centro do universo – bem, isso se você, como eu, descartou a opção “acaso” no parágrafo anterior. O homem está no centro do coração de Deus. E é nele que nos descobrimos.

Só em Deus entendemos quem somos e a razão de sermos. O Pai revela nossa identidade e em seus braços a vida toda adquire uma nova perspectiva, não mais centrada em mim, mas no outro. Não mais imediatista, mas contemplativa. Não mais materialista, mas cheia de significado. Não mais, mas menos. Porque Deus é simples.

Mas, quanto tempo as coisas levam para acontecer? Quanto ainda mais até que minhas dúvidas sejam sanadas, que meus desejos sejam atendidos, até que certas coisas façam sentido e eu finalmente compreenda?

Somos dependentes. A Nina, eu, o sujeito do sexto andar e a humanidade toda. Talvez você também.

Me ajuda com o banho? Me ajuda com o cadarço? Me faz um copo de leite? Escova meus dentes? Pode pegar a massinha no armário pra gente brincar? Empresta seu celular pra eu jogar? Pode me contar uma história? Pode sarar o machucado na minha perna? Pode ir mais rápido? Pode dormir aqui comigo hoje a noite? Pode ser agora?

Para a Nina, eu sou um repositório de conhecimento, força bruta e um pai com capacidade multitarefa. Ela me julga capaz de resolver seus problemas. Ela julga e espera que eu faça tudo isso. Bem, ela julga e espera que eu faça tudo isso, agora!, ao mesmo tempo. E eu acho que ela vai aprender o valor de certas coisas se conseguir esperar um pouco. Ela precisa conhecer alguns chavões – que para ela ainda não são chavões – como o de que a caminhada vale mais do que o destino final e que a verdadeira felicidade não está no fim, mas no durante. São essas coisas, quase pílulas de auto-ajuda e tal, mas que no fundo, são mesmo o que importa numa boa história.

O tempo, no fim das contas, é muito preciso, o segundo após o outro, o ponteiro nunca falha, nunca muda sua forma. Mas a medida de tempo em cada circunstância é relativa.

Ela acha que eu demoro muito.

Eu não a culpo.

Somos crianças. Sim, todos nós.

Quando coisas ruins acontecem a crianças boas

por Luiz Henrique Matos

“A dor é inevitável, sofrer é opcional.” (Haruki Murakami)

Já faz alguns meses que estou tentando escrever esse texto e nunca consigo terminar. Fico me enganando, dizendo a mim mesmo que é um lance meio autoral, de preciosismo literário (ahãm, como se eu sofresse mesmo disso), mas o fato é que tenho certo medo de escrever sobre esse tema. Virginia Woolf disse certa vez que todo texto carrega em si um pedaço de quem o escreve. No meu caso, um fato concomitante a esse é que muitas vezes algum assunto só fica claro para mim depois que eu o coloco no papel. No fundo, a escrita acaba sendo um exercício de reflexão. E confesso que em alguns momentos não quero refletir sobre certos temas.

Tenho medo de sofrer. E também tenho medo de pensar sobre o sofrimento. Não é por superstição, nada, mas é porque na maior parte do tempo eu sou aquele tipo de pessoa naturalmente otimista, que vê as coisas pelo seu lado bom e, em geral, isso é bem positivo, uma certa vantagem no traço de personalidade. No entanto, isso carrega um fato inegável: nunca estou preparado para as coisas darem errado.

E se tem uma verdade indelével que rege o universo da paternidade das aves estrigiformes, das famílias dos titonídeos e estrigídeos (vulgo, corujas) é que só existe uma coisa pior do que pensar que algo ruim possa acontecer com a gente e essa coisa é pensar que algo ruim possa acontecer com nossos filhos.

* * *

Nenhum pai quer ver seu filho sofrer. Bom, deixe-me corrigir: nenhum pai suporta ver seu filho sofrer. E nunca estamos prontos para isso.

Eu voltei a esse assunto, outra vez, há alguns dias, quando enfrentei duas madrugadas correndo com a Nina entre clínicas e hospitais, tentando encontrar alívio para a dor que ela sentia. Sentado na sala de espera de um pronto-socorro, eu pensava que, se pudesse, tirava aquilo dela ali na hora, com as próprias mãos. Se fosse possível, sofreria toda a dor no lugar dela, só para que pudesse dormir em paz outra vez. Observar aquela criaturinha chorando sem poder fazer algo que solucionasse seu problema imediatamente me doía em dobro. Queria eu ter poder para curá-la. Queria eu ser Deus para tocar em sua testa e mandar embora o que quer a fizesse sofrer.

Mas eu não sou Deus, sou só mais um filho assustado, pedindo socorro também, e ainda queria que Deus me atendesse no pedido quase desesperado para que ele parasse um pouco de resolver os problemas tão complexos de toda a humanidade e viesse cuidar da minha criança por alguns minutos.

Outro dia, a Nina chegou da escola com uma marca vermelha nas costas da mão esquerda. Era uma mordida, obra de um coleguinha com instintos canibais que frequentou a classe dela por um tempo. Na agenda, um recado da professora dava satisfações sobre o ocorrido e explicava que, no fim, tudo ficou bem entre os dois, com o pedido de desculpas e o perdão devidamente concedido.

Eu podia jurar que um filhote de crocodilo invadiu a pré-escola e atacou minha princesa.

– Você chorou, filha? – perguntou a mãe, já chorando.
– Ahãm.
– E doeu muito?
– Muito, muito.

Em mim, crescia a certeza de que era preciso tomar alguma providência para que aquele elemento, o pequeno meliante, jamais ousasse mostrar suas presas-de-leite para minha Nina outra vez. Eu tinha sede de justiça. Mas no fundo, eu também sabia que as coisas não podiam caminhar por aí. Eu precisava ter calma, ser adulto, racional. Falei com a Manú:

– Tadinha, né?
– É, aperta o coração da gente.
– Mas e aí, o que a gente faz?
– Acho melhor matricularmos ela no jiu-jitsu.

Coisas ruins acontecem a crianças boas.

E por mais que eu realmente me esforce para ignorar a realidade e prefira concentrar meus neurônios mentalizando coisas positivas e tentando acreditar que a fé cobrirá minha família contra todo e qualquer mal… bem, por mais que eu afirme que gostaria que as coisas fossem mesmo assim, eu sei que nem sempre poderei ajudar. Reluto em aceitar, mas o fato é que minhas asas não possuem a extensão que eu gostaria que tivessem e eu devo reconhecer, penosamente, que minha filha vai sofrer.

Nem sempre poderei livrá-la da dor ou impedir que o sofrimento venha. Um tombo no parquinho, uma medida disciplinar mais rígida, um resfriado pesado, um fora do primeiro namoradinho (daqui uns 30 ou 35 anos, quem sabe), uma topada na porta com o dedinho do pé.

– Aaaaaaaaaaaaahhhh!!! – era madrugada e a Nina gritou desesperada enquanto dormia. Estava tendo um pesadelo. Assustei, pulei da cama, corri até onde ela estava.
– Nina!? Calma, querida, calma. Está tudo bem, o papai está aqui.
– Ahn!? – ela acordou confusa.
– Tá tudo bem… pronto, calma. Viu? Não foi nada… O que aconteceu, filha?
– Uma cobra… tinha uma cobra querendo me pegar.
– Não tinha nada, filha. Você estava sonhando. Olha só, está tudo bem.
– Tinha sim… ela estava aqui. Mas o papai apareceu e mandou ela embora.

Ela acha que eu tenho poderes para solucionar todas as coisas. Pensa que sou capaz de pega-la no colo e carrega-la por quilômetros sobre meus ombros e que posso abrir as tampas de todo e qualquer tipo de pote. Ela acredita que tenho como fazer a viagem de carro de quase quatro horas durar menos, que posso protegê-la de monstros que assombram seus sonhos.

Não bastasse, soma-se nessa conta o fato de que uma das grandes satisfações em ser pai está em notar, nos pequenos gestos, que minha filha me admira, acha bonito e tem em mim uma referência boa. E soma-se ainda nessa mesma conta o doloroso fato de que uma das grandes paranoias de ser pai seja notar, em algum momento, que minha filha passará por alguma situação difícil em que eu não estarei lá para ajudar.

Ou, estarei mas não poderei impedir o sofrimento. E ela não vai sofrer porque eu deixei de agir e sim porque havia uma pedra para que ela tropeçasse no caminho que escolheu seguir. Circunstâncias, uma palavra necessária aqui. E aí, a questão já nem é o fato de eu poder ou não livra-la da dor, mas de que se eu intervir, aquilo já não será resultado das decisões que ela tomou.

O amor pressupõe liberdade. E quem ama, ama a liberdade do outro.

E na intensidade desse sentimento apaixonado, muitas vezes o pai abre mão do seu poder para dar ao filho a opção de escolha, por saber que o aprendizado é necessário e que nem tudo o que é bom, é necessariamente bom para todo mundo. Deus prefere não ser chamado de Deus do que ser esse deus sádico que alguns pensam que ele é, entende?

Ele é o Pai.

Um pai não deseja o sofrimento do filho, não o permite e tampouco provoca. O sofrimento de um filho, em tudo, rasga o coração do pai, dilacera sua alma. É errado culpa-lo pela dor. Mas o homem todo, em seu crescimento, aprende pela experiência. Sabemos o caminho certo a ser trilhado pelos conselhos que ouvimos e pela vida que trilhamos. Conhecemos a estrada à medida em que a percorremos. E os buracos estarão lá, nem todos provocando acidentes. E as belas paisagens estarão lá, nem todas provocando suspiros.

O sofrimento nos forja.

Ninguém jamais disse que não vamos sofrer, os textos sagrados não afirmam isso, avôs não contam histórias assim para seus netos. Mas as palavras que nos dão esperança, lembram a todo instante que em qualquer circunstância, em cada passo dessa aventura, o Pai está ao nosso lado.

Bem, eu não estou querendo explicar o sofrimento ou sistematizar a dor. Não pretendo. Isso não se explica, não tem teoria válida que sirva de alento. Alento é o ombro amigo, é o lenço cedido, é o choro solidário. O que eu gostaria, de alguma forma, como pai apaixonado, é que minha menina soubesse que se não existem superpoderes em minhas mãos, existe consolo. Que se não existe uma palavra mágica que cure a dor ou a incerteza, existe sempre uma companhia silenciosa, um copo de água com açúcar e um colo à disposição.

Eu sei não poderei explicar na maior parte das vezes – eu nem entendo na maior parte das vezes. E ainda que eu possa, é bem provável que não faça a menor diferença para ela naquela hora. Mas eu estarei lá.

O Pai sempre está por perto.

Filhos, distâncias e talvez um documentário do Discovery Channel

por Luiz Henrique Matos

Às vezes, a Nina passa alguns dias longe de nós. Acontece duas ou três vezes no ano, quando por ocasião das férias escolares, ela fica um tempo na casa da avó materna, que mora no interior.

Ao contrário do que pensam muitos amigos, a opção não é nossa. Ela é quem pede, a avó é quem insiste, os parentes fazem coro e eu acabo cedendo, contrariado na maior parte das vezes.

É que eu detesto ficar longe dela. Fico repetindo para mim mesmo aquela conversinha de que ela já vai passar tanto tempo – a maior parte da vida – longe de casa que eu gostaria de tê-la sob minhas asas tanto quanto fosse possível.

Acho até que já escrevi isso em alguma nota antes, mas o fato é que eu realmente lembro muito pouco da minha vida de casado sem minha a Nina com a gente. A Manú e eu esperamos quatro anos para ter filhos e quando penso nessa época, a ausência dela nas lembranças me parece mais um equívoco do que a história de fato.

Quando ela sai assim e depois volta, a sensação que dá é de como se a gente participasse de um desses documentários do Discovery Channel em que eles acompanham filhotes de cervos que se perdem na savana africana. O bichinho desgarrado, perdido, ao relento… e a mãe desamparada, incansável, segue desesperada na busca por sua cria. Depois de dias, perigos e muitas aventuras (!) eles se reencontram – em geral, quando chega nessa parte do programa, eu já estou dormindo no sofá há algumas dezenas de minutos, mas quando consigo assistir até o fim, não posso negar que a coisa toda é emocionante. A câmera mostra o filhote atrás de uma moita qualquer, aqueles olhinhos e tudo. Depois, fecha a imagem na mãe, que sente o cheiro familiar nas redondezas. Então ela procura, inquieta, os olhos semi-serrados sondam todo o ambiente e, finalmente, ela vê seu filhote à distância. Ela dispara, corre o quanto pode até que esbarra no pequeno animal, finalmente, que se entrega e eles rolam naquela vegetação e ela fica lambendo sua cria sem parar.

A sensação que dá é de como se a gente participasse de um desses livros das Escrituras… filhos perdidos, um pai preocupado, a busca incansável, Deus rasgando a eternidade em busca de suas crias para salvá-los, para mostrar que ele está por perto, que vai ficar tudo bem, existe uma sombra tranqüila, uma água fresca, um caminho seguro.

Filhos precisam voltar para os pais.

Hoje a Nina voltou de viagem. Sete dias na casa da avó, setenta vezes sete dias incontáveis de vazio aqui em casa. Então ela chega, as malas cheias, um pacote de biscoito de polvilho nas mãos, aquele sorrisinho puro que mal sabe o quanto nos domina. Eu a trago para perto, eu cuido, eu rolo com ela, eu lambo minha cria. Família. E a casa está cheia outra vez.

– Papai…

Já é tarde. Ela está na cama deitada e pede que eu conte uma história. Quer saber sobre a minha infância, ouvir alguma aventura, quer saber como era quando eu era filho.

Me faço de macho, me faço de sábio, faço de conta. Faço um esforço danado pensando em como explicar que pai, um dia a gente vira, mas filho… ah, filho a gente nunca deixa de ser. Precisando de colo, precisando aprender o caminho de volta, precisando ouvir que tudo ficará bem, precisando do amor paterno. Eu só dispenso as lambidas.