São 20 centavos, sim

Caro amigo,

Vinte centavos não é pouco dinheiro. Talvez na sua – ok, nossa – perspectiva, não faça falta pensar nessa merreca diante do rombo das tantas outras despesas que nos assaltam cotidianamente. Mas não é preciso ir muito longe para inverter essa ótica.

No Brasil, segundo o IBGE, temos 8,5% da população vivendo na faixa de extrema pobreza. Em grana, isso quer dizer que 16,27 milhões de pessoas vivem com renda mensal entre zero e 70 reais todos os meses (ou 2,33 reais por dia – muito menos do que uma passagem de ônibus). Isso, nossos compatriotas, nossos semelhantes, aqueles a quem chamamos irmãos.

Mas, como já temos feito há muito, vamos continuar ignorando esse fato por mais um instante e nos concentrar numa camada mais “próspera” da sociedade: as pessoas que vivem com um salário mínimo: R$ 678,00. Ainda parece muito pouco? Te soa como minoria? Bem, pasme, o último Censo aponta que 56% (sim, mais da metade) dos domicílios brasileiros vive com até um salário mínimo per capta.

Pois bem, meu caro, estamos falando do brasileiro médio. Tente imagina-lo. Suponha que essa pessoa, como todos de seu meio, vive na periferia da nossa cidade e precisa tomar duas conduções para chegar no trabalho diariamente e depois mais duas para voltar para casa. Agora vamos fazer umas contas: com a passagem a R$ 3,00, ele gasta R$ 12,00 por dia. Com a passagem a R$ 3,20, como queria aumentar o governo, gastaria R$ 12,80. O aumento de R$ 0,80 por dia, no final do mês, somaria R$ 24,00.

Esse acréscimo, na renda de um salário mínimo, representa 4%. Mais do que isso, se dividirmos o valor do salário pelos 30 dias do mês veremos que essa pessoa recebe R$ 22,60 por dia (o preço de um combo especial no McDonald’s). Isso quer dizer que “só” o aumento de 20 centavos no transporte já lhe garfaria um dia inteiro do ordenado.

Já não parece tão pouco, certo?

Se ainda assim você me disser que isso não é da sua conta, juro que paro agora mesmo com as expressões “caro” e “amigo”.

Na semana passada eu estava ouvindo no rádio a notícia sobre a greve dos profissionais dos trens e metrôs. A repórter então abordou um homem para entrevistar. Ele era porteiro num prédio no centro da cidade e estava preso em seu bairro sem conseguir chegar ao trabalho. Ela perguntou se não havia um meio alternativo de transporte e ele respondeu que sim, haviam vans particulares levando as pessoas. Questionado sobre o motivo pelo qual não fazia uso desse meio, o sujeito respondeu: “As vans cobram 5 reais na corrida. Aí não dá. Se eu pagar na ida, não sobre dinheiro pra voltar”.

Você entendeu, meu caro? 20 centavos é muita coisa no bolso de quem vive com R$ 22,60 por dia. E mais da metade dos nossos compatriotas amarga essa condição.

* * *

Ah, tem mais uma coisa.

Se isso não parece suficiente, preciso dizer que revogar o aumento na tarifa do transporte significa, de fato, muito mais. Para o trabalhador e para qualquer cidadão do nosso país, é uma resposta para os que duvidaram do poder da vontade popular. Conseguir que o governo volte atrás numa decisão porque as pessoas foram às ruas e reclamaram seus direitos, significa que, sim, eles precisam parar e ouvir e que, não, eles não podem fazer o que bem entendem com o dinheiro que arrecadam e deveriam administrar com lisura – para usar uma palavra que eles tanto gostam de gastar.

Meu caro, você, eu e eles todos ouviram muitas vozes gritando. Eu gritei, confesso. Conquistar a volta dos 20 centavos significa que o indivíduo pode requerer e conquistar tantos outros direitos que lhe foram roubados ao longo dos anos. E significa que muita gente engravatada – eleitos por nós, não vamos esquecer – vai começar a pensar duas vezes antes de tomar qualquer decisão arbitrária e unilateral. Significa que precisarão fazer alguma coisa decente para que preservem suas posições e gabinetes luxuosos. Nós temos voz. Isso quer dizer ainda que deverão tomar bastante cuidado antes de desrespeitar o povo brasileiro com decretos que ceifam seus direitos básicos.

Meu amigo, os 20 centavos nunca valeram tanto.

Um filho teu não foge à luta

Foto de Fabio Motta (O Estado de S. Paulo)

Foto de Fabio Motta (O Estado de S. Paulo)

Há coisa de três semanas, eu escutava o noticiário político no rádio e senti um amargor me vir à boca. Tudo de novo, as mesmas notícias, os mesmos métodos, nada muda, nunca. Já há tempos isso me incomodava, mas naquela hora, travado no trânsito da Marginal Pinheiros, escrevi um tuíte de desabafo:

“Cansado dessa esquerda enferrujada. Cansado da direita asquerosa. Será mesmo que não tem nada de novo, na prática e nas ideias, a ser feito?”

Pouco tempo depois, li no jornal sobre uma manifestação na Avenida Paulista contra o aumento na tarifa do ônibus. Confesso que ignorei solenemente a questão. De cara, não me parecia diferente das outras tantas marchas lentas e paradas que tomam a cidade ao longo do ano que não me atraem como adepto – Marcha para Jesus, Parada Gay, Marcha da Maconha ou greves de qualquer tipo ou instância.

Mas os dias se passaram e por meio de amigos, informações paralelas em redes sociais e alguns blogs, pude ter uma perspectiva diferente e mais profunda dos fatos. Julguei mal, admito, e assumi um ponto de vista.

A verdade é que estamos todos cansados, com tantas coisas presas na garganta pra serem ditas. E, finalmente, agora escuto uma resposta para minha dúvida solitária no trânsito. Ela vem em gritos de protesto, ali mesmo nas ruas. Há, sim, algo novo sendo feito. Há uma alternativa, nas práticas e nas ideias: o povo.

Filhos deste solo. Está em nossas mãos.

“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados”. (Provérbios 31:8, 9)


(Mais aqui: O poder do indivíduo)

Uma foto para pensar no céu

Tardinha do último sábado, em São Paulo.

Duas canções para lembrar da semana passada

Entre um vídeo e outro (ambos de exibições anteriores, vale dizer), uma observação: eu fui  ;-)

Uma canção para um dia memorável

Ontem, em São Paulo, sob a garoa típica.

Origens

por Luiz Henrique Matos

Se você vive numa cidade como São Paulo, é capaz de morar a 30 minutos de um lugar sem jamais ir até lá. Se esse local – um bairro – foi onde você nasceu, pode soar como anos e anos sem voltar à sua terra natal.

Na última segunda-feira, fui logo cedo levar um casal de primos à rodoviária e aproveitei que tinha algum tempo livre (estou de férias) para esticar o caminho de volta por mais quatro quadras até a rua onde nasci e morei até os nove anos. Cheguei a voltar lá outras vezes depois que nos mudamos, mas já fazia 15 anos que não pisava naquela rua – uma vila – espremida num bairro velho da cidade.

Achei que o lugar não existiria mais – só tem uma coisa que você vê mais do que padarias e pombinhas em São Paulo: obras – mas me enganei. Está tudo lá, exatamente do jeito que era na década de 80. O bairro todo, as casas, as fábricas, o barzinho, a farmácia, o posto de combustível… o tempo foi passando e aquela paisagem industrial só ganhou uma coisa: poeira. O lugar está sujo, cinzento. Pensando bem, talvez sempre tenha sido, mas crianças não notam esse tipo coisa.

Eu vi a casa onde cresci. Sempre pintávamos de bege, mas agora está azul. Eu passei de carro pela rua, a Nina dormindo atrás, nem desci.

Lembrei do tempo bom da infância ali, da vizinhança e das manhãs, mas não tive nenhum flashback ou aqueles sentimentos revividos, nada. Vi o que vi, tirei umas fotos com o celular e fui embora.

Só lembrei mesmo de um evento engraçado. Nas vésperas da mudança, combinei com o Cuca, meu melhor amigo, que um dia voltaríamos ali. Calculamos um tempo, quando já estaríamos bem mais velhos e teríamos rodado todo o mundo, aos 20 anos, e nos reencontraríamos na vilinha (é como chamávamos a rua) para fazer sei lá o quê.

Atrasei 10 anos no acordo selado em 1989. Encontrei o Cuca, casado e de barba, pela internet há alguns anos e as coisas vão como vão. E, sim, ele ainda atende por Cuca.

A Nina nem acordou. Eu até queria que ela conhecesse a casa, a vila, o clima do lugar. Ela vive me pedindo pra contar histórias sobre a minha infância. De repente, notei que na idade dela, eu morava ali, brincava naquele asfalto e dava meus primeiros passos. A história toda que eu conto se passou naquele cenário.

O passado é uma coisa curiosa. Não que eu ache bacana esse saudosismo, nem acho, mas às vezes é bom a gente olhar para trás para entender, nas marcas, caminhos e histórias, a construção do que somos hoje.

Uma foto para a madrugada de sábado

Uma das quatro boas razões para se acordar às seis da manhã diariamente.