A estranha coleção de lanternas

por Luiz Henrique Matos

semelhancas

“Filha, com quem você acha que é mais parecida, com o papai ou com a mamãe?”

Mãe e filha partilhavam um momento a sós e, numa tarde primaveril qualquer, aquela delicada progenitora fazia uma pergunta inocente. Enquanto isso, não imaginava que a menina, cravada nos cinco anos de idade, ainda não havia aprendido o sentido da palavra ponderação.

“Mãe, sabe o que é…”, a menina arqueou as sobrancelhas, olhou para baixo, contraiu um pouco os lábios, “Me desculpe, mas é que eu sou a cara do meu pai”.

A história me foi contada horas depois. Fiz de conta que não achei nada demais, “Ah, que nada, ela tem os seus olhos, seu jeitinho, as bochechas…”, enquanto, por dentro, uma onda de satisfação das mais imaturas me lavava a alma.

Talvez alguém um dia ainda explique – talvez – o motivo pelo qual pais, tios, avós e amigos chegados insistem nesse jogo esquisito de discutir e tentar descobrir semelhanças com algum familiar nem bem a criança saia da barriga da mãe.

Quando olho para minha filha e paro pra pensar nesse tipo de coisa, acho tudo uma grande bobagem. Qual o sentido, afinal, dessas discussões tolas? Não levam a nada. Ela parece comigo, é a minha cara, vai gostar das mesmas coisas que eu e a opinião dos outros que se exploda.

* * *

Adoramos frequentar livrarias, jogamos o mesmo joguinho do Snoopy no iPad, dançamos ao som de Strawberry Fields Forever e Blitzkrieg Bop no carro, montamos Lego no chão da sala, assistimos às Crônicas de Nárnia com ela deitada sobre meu peito infinitas vezes, temos a mesma mania de ficar parados segurando o braço esquerdo acima do cotovelo e alimentamos uma estranha obsessão por colecionar lanternas – sim, temos por toda a casa, várias delas nas gavetas e, apesar de mal fazermos uso, são tidas como item de primeira necessidade no lar.

Qualquer pai se enche de orgulho ao notar sua pequena cria desenvolver os hábitos e traços que lhe são peculiares. É um sinal da nossa continuidade, da herança que deixaremos, uma espécie de legado para a humanidade que nos identifique – bem, talvez não a humanidade toda, no sentido amplo da coisa, você entende, mas aquela dúzia e meia de parentes com certeza.

Adoramos nos ver em nossos filhos porque amamos que sejam parte de nós. Queremos, claro, que sejam melhores do que seremos, em tudo, que sigam a caminhada numa jornada bem-sucedida, feliz e com realizações. Sonhamos que suas vidas tenham significado e que façam história. E poder imaginar que existe um pouco da gente ali sendo carregado naquele ser humano que amamos mais do que a nós mesmos, é alegria das mais radiantes. Provoca, de algum jeito, um certo conforto, uma falsa sensação de segurança ao imaginar que sabemos o que estão passando.

E seria muito bom se tudo parasse por aí.

Entretanto, em medida sem igual, preciso dizer, dói como poucas coisas notar, vez por outra, que minha menina sofre ao carregar o peso de males que herdou de mim. Das patologias às manias e defeitos mais complexos. Ela é alérgica, ela é sistemática até o último cromossomo, precisa usar um aparelho nos dentes para corrigir um problema genético e tem uma carga exagerada de nostalgia para com as coisas que não cabem nos seis anos vida que acumula.

Imagens e semelhanças.

Ela não tem culpa. Eu a amo tanto, não gostaria que sofresse por nada, muito menos por defeitos que são meus. Não quero que a Nina pague esse preço. Seja dos problemas físicos, seja dos morais. E nesse sentido, Deus sabe como não quero que ela repita os meus erros. Não, ela não precisa.

Eu oro por ela. Gostaria que Deus me dissesse o que ele tem em mente. Que tipo de aprendizado ainda não fui capaz de assimilar e que minha filha, alguns pontos de QI a mais do que eu, pode superar mais cedo? Cedo na vida, eu rogo em minhas preces, quero que ela conheça a Jesus, que desenvolva seu caráter e descubra o sentido da sua existência.

Oro a Deus, o pai sem defeitos. Para que do alto de sua perfeição, aprimore sua criação corrompida. Porque eu sei que nele podemos ser transformados e, ele em nós, corrige nossas falhas, limpa nossas impurezas, cura as doenças, muda a condição em que estamos e até, há de se esperar, faz sumir as manias mais estranhas.

A imagem e semelhança perfeitas, em Jesus.

* * *

Eu a observo brincando, sentada em sua mesinha desenhando cuidadosamente. Tal como a Manú, ela tem um certo talento pra isso, um bom traço, é criativa, passa horas concentrada em seu “trabalho” – como ela chama. Eu a ouço falando qualquer coisa sobre seu dia, cantando a trilha sonora do desenho da TV, contando das amigas da escola, das brincadeiras, tudo nos mínimos detalhes. Fico olhando enquanto ela come com a cabeça apoiada numa da mãos, espetando os legumes com o garfo. Passo um tempo em silêncio, admirado com a velocidade ingrata com que minha menina está crescendo sob nossos olhares. O tempo é um velho cruel e indomável. Preciso desfrutar, tento reter cada instante que posso ao seu lado nessa infância que passa tão rápido. Queria dar pra ela uma lanterna para ajudar a iluminar melhor o caminho que terá pela frente. Que ela vai seguir com as próprias pernas, que ela vai descobrir com seu olhar brilhante, desbravar com sonhos que Deus plantou só na sua mente. Porque é tudo o que eu quero ver nela: nada de mim na verdade. Mas dela. Quero viver para ver o que ela se tornará, sua identidade, sua a visão do mundo, sua imagem graciosa refletindo na vida dos netos que nos dará um dia.

Ela dorme no chão da sala. Estávamos vendo um filme quando pegou no sono. Levanto, preparo sua cama no quarto, aumento a quantidade de cobertas, está frio, então volto para a sala e a pego no colo. Ela está ficando maior, eu estou ficando mais velho, mas esse é o lugar onde espero que ela sempre caiba. Carrego minha menina para a cama com todo o peso desse sentimento no peito, ajeito seu pijama, tiro a franja que lhe cai no rosto e ela suspira inocência.

Admiro minha cria. Ela é bonita. E Deus, que ninguém me ouça, mas é a cara da mãe.


(Esse texto faz parte da série Paternidade)

Ravel

A mãe ficava rosada, cruzava os braços de um jeito duro, os punhos cerrados e falava fitando o chão enquanto enxugava as lágrimas. Era assim sempre que suas emoções vinham à tona. Tanto quando estava feliz quanto muito brava. E só dava pra saber se era de um ou do outro quando ela falava. E naquele dia, era do outro.

“Que ideia, menino, toma juízo! O que você tem na cabeça? Titica? Cocô? Onde já se viu essa história? Não vê seu pai e eu aqui fazendo de um tudo pra você estudar, ter alguma coisa na vida? E vem com essa agora… Toma tenência, toma noção do que você é, donde nasceu. Isso aqui é a Vila São Paulo, Ravel, não é a capital”. Ela ergueu os olhos e me encarou num instante. “Guarda esse papel aí e vai fazer teu curso que já está na hora”.

Eu ia levantar argumento, mas ouvi a botina do meu pai mastigando a terra do quintal na direção da porta. Sua sombra era tudo o que eu via, crescendo e tapando cada vez mais o sol que entrava no final de tarde. Ele não disse nada, entrou, passou por nós dois e foi fuçar uma caixa de papelão no canto da cozinha.

“O café tá fresco na garrafa, Cícero. Se quiser, já leva pra oficina.”

Quando ele levantou com uma ferramenta na mão e já passava a outra pela garrafa de café, ela então fez o desfecho:

“Piano, Ciço, você já ouviu essa, já soube da extravagância?” – ela adorava usar essa palavra para qualquer coisa – “Seu filho deu agora de querer largar o curso de Torneiro pra tocar piano, como se…”

Nem fiquei. Fui pro meu quarto, peguei o caderno, sentei na mesinha, liguei a fita no walkman e fingi que estudava enquanto, lá no fundo, apesar da raiva, concordava com a mãe. Que idiota eu era, que idiota! Aquilo não tinha o menor sentido. Não pra mim.

É que eu só queria era ser livre, queria ir pra longe daquela prisão de vida, daquela vila suja marrom e laranja, do barulho do martelo lá na oficina na minha orelha o dia inteiro, da poeira impregnada em tudo, da mesma comida no prato, do sapato arrebentado, do colarinho apertado. Eu amava a mãe e o pai, queria levar os dois na bagagem. Mas, eu só queria ter opção de vez em quando, sabe? O rico acha que o pobre quando sofre, sofre menos do que o rico. O branco acha isso do preto, o forte acha isso do fraco, o homem acha que tem ser humano que é menos humano no mundo. Aí, se você é pobre, preto e fraco, às vezes quase começa a acreditar nisso. Tratam a gente como bicho, descartam como objeto. Como se não doesse igual.

O negócio é que eu não queria mais. E também não queria um jeito pra esquecer, queria era ir pra longe. Eu não queria ir pro campinho, nem correr atrás de balão ou brincar de pescotapa. Eu queria ouvir a música, me enfiar no quarto, ficar de barriga pra cima escutando uma das duas fitas K7 que ganhei de prenda na quermesse e tentar adivinhar quais teclas os dedos do pianista estavam tocando naquela hora. Não era nada erudito que me invocava, mas a poesia. Até ali, eu não queria descobrir uma técnica, não queria saber como é que o homem era capaz de realizar aquele milagre, eu queria era ser levado naquela melodia, como o vento, como um passarinho. E se o encantamento com a música foi o que me alimentou até aquela hora, então parecia de repente que eu precisava transbordar, jogar tudo aquilo pra fora. Eu queria aprender a tocar. E música, além de tudo o que eu amava então, era também meu jeito de fugir daquela condição.

Queria poder dizer pra mais alguém o que eu pensava e não só pra mãe, que me ouve, mas retruca, que se altera toda. Bom… pelo menos ela conversa. Ali na pia, o avental molhado na barriga, o cheiro de perfume que ela usa é de tempero, aposto. Mas ela ainda fala. E ele, lá fora na oficina, bate e martela o ferro, é só isso que eu sei. E assobia, a mesma música, toda vez que o trabalho está difícil. Com o pai não tinha carinho, não tinha brinquedo, não tinha conversa, nem conselho. Tinha o jeito dele, tinha um pacote de figurinhas da Copa União na minha penteadeira de vez em quando e uma goiaba cortada em quatro em cima da mesa, junto do prato de comida, quando eu chegava do curso técnico à noite.

Na outra semana, cheguei pro almoço e ele estava lá no fundo, martelando. Pisei na cozinha e a mãe lá, daquele jeito de novo. Nem falava, era só o rosto rosado e molhado, os braços cruzados. Eu quis saber o que que foi e então vi que era braveza outra vez.

“Eu não sei de nada, nem quero saber de nada. Não quero nem ver! Nada! Ai, menino! Agora, olha… Ai, meu Jesus santo…”

Vai saber lá do quê? Enchi o prato, sentei calado, almocei quieto numa só garfada e levantei sem falar. Ela ali na pia, eu passei batido. Fui pro quarto, joguei a mochila num canto e vi um piano perto da janela.

Voltei pra cozinha, parei na frente dela. Nem levantou o rosto, só tapou a boca com a mão, fez que não com a cabeça e desandou no choro enquanto me apontava a porta por onde saí num salto, assustado, engasgado, aquela bola, a coisa toda estranha na barriga e na garganta e corri pra oficina onde o pai estava lá, martelando e batendo. E sei que ele estava agachado trabalhando, de costas pra tudo e nem se mexeu quando chamei, nem quando cheguei perto, nem quando o abracei e deitei a cabeça nas suas costas e chorei.

Aí ele passou a mão devagar na minha cabeça, eu saí, ele passou a mão no martelo e passou os seis meses seguintes trabalhando dobrado e assobiando sem parar.

A mãe só voltou a conversar quando prometi que ia fazer as aulas de piano lá na igreja de manhã e continuaria o técnico à noite.

E toda tardinha, depois da aula, eu mergulhava no piano. Eu treinava os exercícios e depois ficava ali, ainda sem saber direito, eu martelava e batia nas teclas e era só o que eu sabia. A mãe aumentava o som do rádio, os passarinhos armavam um ninho na goiabeira do quintal e o pai eu via lá no fundo pela janela, quase como se quisesse que ele me ouvisse.

Ia para o curso escutando os K7’s no walkman e dormia com os fones no ouvido tocando sem parar. Xopân, eu soube depois que era o nome do rapaz do piano que me ocupou tantas tardes. No começo, eu só dizia nas aulas que queria tocar como ele um dia. Mas ganhei depois no curso uma fita nova. O professor, um pastor moço da capital que vinha até a cidade só para dar as aulas como voluntário, deixou uma música para eu treinar.

A danada da fita tocava a música do pai. No fim, o assobio todo era uma peça famosa de um cara de nome difícil. Escutava a maldição da música no walkman para aprender direito, ensaiava sem parar durante as aulas lá na igreja e o tempo todo eu lembrava era do martelo castigando o aço. Mas aí eu aprendi.

E cheguei em casa um dia e vi que o pai estava lá fora, assobiando na oficina. Entrei no quarto e o vi de novo pela janela, agachado, forjando uma peça no braço. Sentei no piano e toquei a música. Na quinta nota o barulho parou, o assobio parou, o pai parou, ficou em pé, olhou pro céu um minuto, respirou fundo e, num fôlego, tomou o cabo do seu instrumento na mão, agachou e voltou a tocar o martelo. Eu sabia, ele sabia.

Toda tarde então era assim. Eu ensaiava, tocava, enquanto o pai trabalhava lá fora esculpindo suas coisas no torno, moldando as chapas de ferro, fundindo o aço que seria usado depois em novos serviços, atendendo um cliente vez ou outra, sorvendo o café da garrafa sem parar. Sem assobios do pai, sem o radinho da mãe, só o metal gritando na oficina e os sabiás cantando entre as goiabas. Essa era minha música por horas, até que vinha o cheiro do café novo, a hora do banho, o macacão azulado do Liceu e a partida para aula no novo turno.

E na mesma semana em que a escola avisou sobre a data da minha formatura no curso de Torneiro Mecânico, o pastor chegou da cidade com um folheto novo, me convidando para um recital na capital, junto com a ficha de candidatura para uma vaga num conservatório.

Cheguei berrando em casa, sem fôlego, tropeçando, contando tudo para os dois que almoçavam. A mãe ficou daquele jeitinho e o pai de jeito nenhum.

Na noite do recital, em dezembro, eu já estava formado no técnico. O diploma virou quadro na parede da sala e era ali, naquele canto, que eu queria abandonar tudo aquilo. Viajamos para a cidade numa Kombi emprestada de um amigo do pai. A mãe costurou um vestido novo, todo azul escuro, longo, meio fofo e de alças presas nos ombros. Botou um xale bege nas costas, fez um coque no cabelo e usou a maquiagem de festa que ficava guardada na gaveta da cômoda. O pai vestiu o terno da missa. E eu passei um mês torneando na oficina do Liceu para juntar uns trocos e alugar um fraque.

Toquei Báh. Toquei Xopân. E mergulhei tão fundo naquele piano novo, e martelei tão convicto aquelas peças brancas que quase acho que deixei um pouco de mim por ali. E só então, depois, vazio de tudo, reparei que estava num palco, que tinha uma luz sobre mim, que tinha um bocado de gente no teatro e tinha os dois ali. A mãe com as duas mãos tapando a boca, toda rosada da maquiagem e da emoção. E o pai, aplaudindo junto, respirando fundo com a boca aberta e os olhos marejados. E era tudo.

* * *

E foi o pai quem, de novo, duas semanas depois, deixou em cima do piano os papeis: a carta e uma ficha do conservatório me convidando para ingressar no grupo.

Já era Natal e dessa vez a mãe era toda emoção. Mas do outro jeito. Quando desandou a falar, depois de me dar uma fita K7 nova e uma partitura de presente, disse que estava morta de medo, mas que “é bonito demais, bonito demais esse piano. Vai, menino, dá mais graça pra esse mundo com essa sua extravagância, dá orgulho pra sua vila. Só não esquece da gente, promete? Seu pai e eu… promete que não me esquece, tá?”

Gostei demais do presente. Também me sentia emocionado. Perguntei se lhe daria orgulho sendo músico e não Torneiro, igual ao pai.

“De qualquer jeito dá”.

O pai estava lá fora. Assobiava.

Naquela noite, sem música, eu sonhava. Finalmente, era hora mesmo de ser livre, finalmente ver o mundo e outras cores, ser parte daquela arte que eu amava, expressar o dom de Deus, de ganhar a vida com minha música finalmente.

Eu tinha as malas prontas e uma pergunta martelando na mente que não me largava. Como é que seria a música sem o chiado do radinho e o tilintar da louça lá na pia? De que jeito ia soar sem minha terra no quintal, sem o vento atravessando as folhas da goiabeira, sem os sabiás? Como é que seria agora, meu piano ressoando sem a sinfonia do martelo?

Porque eu bem sei que queria ter quem me escutasse e então eu tinha. Queria agora ser maestro, ainda queria ser Xopân, talvez queria ser Torneiro. Eu queria transbordar mas não precisava mais fugir. Lá no fundo, acho, queria era a poesia, eu só queria os passarinhos. Agora nada mais doía. Eu tinha uma opção, sabe?

À procura de um significado

por Luiz Henrique Matos

Na maior parte do tempo, com a maior parte das pessoas, as coisas funcionam mais ou menos assim: a não ser que alguém apareça e atrapalhe a forma como encaramos o mundo e as nossas vidas, em geral tudo caminha bem. Enfrentamos algumas dificuldades, conquistamos meia dúzia de feitos, reclamamos um bocado de tudo mas no fundo não trocaríamos o que temos por outra coisa.

Detestamos admitir que fazemos parte da média porque queremos estar no grupo das pessoas diferenciadas, mas acredite, tem muita gente igual e com os mesmos padrões de comportamento que você e eu. Ao longo da vida, nos adequamos aos modelos de conduta e meio-ambiente à nossa volta. Convenhamos, não é preciso lá muito esforço para encontrar uma receita de vida em que as coisas funcionem.

Seguimos confortáveis, numa certa inércia, nos acomodamos em nossa condição até que, certo dia, aparece alguém, uma voz inquieta em nossa orelha, que tem a ousadia de perguntar:

“Por quê?”

Se esse alguém tem um metro e dezenove centímetros de altura, cabelos cacheados e bochechas grandes, a tendência, em grande parte, é que a pergunta tenha uma natureza imprevisível e provoque algum tipo de desconforto, no mínimo uma reflexão. E se você já se deparou com a artilharia de interrogações de uma criança descobrindo o mundo, sabe que na maioria das vezes, nós não temos uma resposta.

Ela diz: “Pai…?” e pelo jeito com que fala, eu sei que devo me preparar para o golpe.

“Pai…?”

Titubeio.

“Oi?”.

“Éé… assim… pai, por que as pessoas morrem? Por que elas vão para o céu? Por que é que japonês tem o olho assim ó, meio fechado? E o chinês!? Por que aquela moça está chorando? Por que é que tem gente que não tem casa, que mora na rua? Por que, pai?”

As questões vão das mais obvias às absolutamente desconcertantes. Algumas dúvidas, eu descubro que também sempre tive mas nunca soube. E o ambiente da nossa casa, que sempre navegou sobre as águas calmas do senso comum, se transformou, sem que eu me desse conta, numa enxurrada de interrogações.

“Por que eu tenho que tomar banho todo dia? Por que a sua barba arranha? Por que o arco-íris não aparece toda vez que chove? Por que a Fulana fala daquele jeito, com aquele sotaque estranho? Ela fala ‘porrrrque’. Pai, por que as pessoas ficam velhas?”

“Pai, por que você tem que trabalhar? Por que não pode ficar brincando aqui comigo só mais um pouquinho?”

“Porque o papai precisa ganhar dinheiro, filha.”

“Por quê?”

Talvez, se também perguntássemos porquê fazemos as coisas que fazemos, é bem possível que deixássemos de fazer a maior parte delas. Porque há algum tempo nós mesmos paramos de fazer perguntas assim. Nos ajustamos, deixamos de questionar o significado das coisas e passamos a vida repetindo um único tipo de pergunta: como?

Nisso reside a mais precisa teologia, o ponto congruente de nossas reflexões existenciais. Talvez Kierkegaard pudesse ter dialogado com a Nina – e, se não é essa uma definição ampla e cientificamente aceita, deveria. Ela não quer conhecer procedimentos, não quer caminhos, ela quer motivos e significados. Disse Paulo a seu discípulo Tito: “para os puros, todas as coisas são puras”, para quem entende que a satisfação da vida está no “ser” e não em ter ou fazer, a felicidade se revela simples e as dúvidas, ao invés de fardos, adquirem a dimensão de grandiosas explorações e descobertas.

“Pai, por que você casou com a mamãe? Por que eu não posso comer a sobremesa antes da comida? Pai, por que Deus fez as cobras? Por que eu tenho que ir para a escola? Por que a gente sente dor? Por que a gente precisa orar? Por que eu orei para Deus sarar meu machucado e ele não sarou?”

Deus não se ofende com perguntas.

Temos medo, vergonha e preguiça de expor nossas questões, mas a dúvida não é algo ruim ou imaturo, não é, em absoluto, a ausência de fé. A dúvida é justamente o reflexo da nossa busca por fundamentos que sustentem nossas crenças. Por isso, as repostas não são, jamais, receitas concretas, certezas definitivas ou instruções simples, mas caminhos, o vislumbre de um significado, um propósito a seguir.

E essa é uma questão que faz sentido quando se pensa na verdadeira religião e na vida. Essa é a pergunta que as Escrituras fazem e procuram responder o tempo todo.

Acho que Deus gosta desse tipo de pergunta, os “porquês”. Acho que ele gostaria que o questionássemos mais, que procurássemos entender suas razões. Porque na maior parte do tempo, suas respostas insinuariam o grande amor que ele sente e nos tornaria mais próximos. Acredito que se buscássemos entender os motivos, para o quê fomos criados, pode ser que a vida adquirisse um outro sentido. Repito: pode ser que nossas escolhas – das mais complexas à simples rotina – fossem diferentes.

Afinal, por que você reclama tanto da sua vida? Por que murmura sobre o clima, sobre seu emprego, a falta de dinheiro, seu casamento, os outros? Por que você acredita em Deus? Por que não acredita? Por que ainda não começou a cuidar da sua saúde? Por que guarda dinheiro? Por que você não conversa mais com aquela pessoa da família? Por que não esquece logo e perdoa? Por que você alimenta esses sonhos? Por que não foi atrás deles? Por que você faz o que faz e é o que é? Quem você é? Por quê?

A verdade é que passamos a vida empenhados na busca por procedimentos, esperamos que nos passem uma lista de regras de conduta e um código moral para obedecer. Reclamamos das leis mas elas são tudo o que mais queremos – nem que seja para fazer o oposto do que nos mandam. Mas Deus, ao contrário do que pregam tantos, não nos impõe regras. Porque ele ama, quer que sejamos livres para escolher nossos caminhos. Como Pai, escuta atento as nossas questões e, se pararmos para ouvir, notaremos que ele nos dá conselhos, compartilha, explica seus motivos e nos revela quem somos.

“Pai, por que eu não posso usar vestido todo dia? Por que o pai e a mãe da minha amiguinha Fulana não moram na mesma casa? Por que quando a gente foi no médico tirar aquela foto (raio-x) eu não vi Jesus dentro de mim? Por que eu tenho que ir dormir agora?”

Daqui alguns dias ela fará cinco anos. E o tempo todo, podemos sentir que ela está absorvendo tudo à sua volta, construindo sua própria visão dos fatos e definindo, ainda sem saber, seu papel no mundo. Em cada pergunta, há algo novo que ela assimila, um fato que molda a sua personalidade e amplia seu repertório. Em cada “porque” a busca por um bom motivo que sacie a sua sede ou uma fagulha que acende outra chama. Eu espero que ela jamais se contente e se acomode num padrão que alguém lhe imponha – mesmo que esse alguém seja eu, com as melhores intenções.

E porque eu a amo, farei o que puder para que essa curiosidade jamais se sacie. Quero que ela seja livre para fazer suas perguntas e entenda a vida a partir de seu olhar. Espero mais é que ela duvide das convenções. Quero que sua mente inquieta me questione, se descubra, me constranja, se revele. Me ensine.