José do Egito dirige um táxi


“Eu sei o que é isso aí”, ele disse enquanto me fitava os olhos através do espelho, “quando eu tinha quinze anos, meu pai me expulsou de casa. E foi por causa do casamento com essa outra mulher. Ele me mandou embora, assim ó. Me jogou pra fora e eu fiquei ali na rua, sem ter pra onde ir”.

Suas costas preenchiam todo o banco do carro e ainda sobrava para as laterais. A cabeça quase tocava o teto, ele se apoiava curvado sobre o braço que repousava no volante. Sentado no banco de trás, era isso o que eu via daquele homem. Do seu rosto, só um pedaço dos olhos refletidos no espelho retrovisor, emoldurados também por um par de óculos de armação fina. Seu olhar manso oscilava entre a atenção ao trânsito e me encarar pelo espelho para poder narrar sua história.

“Minha mãe morava em outro estado, eu não tinha família perto, saí pedindo ajuda para algumas pessoas para ver se me deixavam dormir na casa delas uma noite aqui, outra ali, até eu arrumar um trabalho e começar a me virar. Hoje, com a graça de Deus eu tô aqui em São Paulo. Sou eu que ajudo minha família na Bahia. Mas só volto lá para passear. Morar eu não consigo mais”.

O assunto que nos levou ao seu comentário foi uma notícia irrelevante que ouvíamos no rádio. Mas eu disse alguma coisa que serviu como gatilho para ele abrir as comportas dessa represa. Irrelevante também me parece agora qualquer coisa que eu tenha dito. Foi um diálogo longo, eu me lembro. Mas nada me parece merecer mais essas linhas do que a história que escutei.

“Tem meu pai, meus irmãos… Os que também são filhos da minha mãe, mais novos que eu. E os que meu pai teve com essa mulher depois. Eu tinha seis anos de idade. Minha mãe foi embora e deixou a gente com meu pai. Ele se casou de novo. E a nova mulher dele, ela não gostava de mim, sabe? E, cara, eu só tinha seis anos. Ele trabalhava o dia todo e foi deixando a gente. Ele me esqueceu, sei lá. Ela me deixava trancado num quarto, acredita?”

O trânsito estava fluindo livre. Como em raras ocasiões, naquela tarde eu ia chegar mais cedo no destino daquela corrida. Como em raras ocasiões, desejei que chegássemos atrasados.

“Assim que meu pai saia pro trabalho, ela me mandava para o quarto e trancava a porta. Eu ficava o dia todo lá sozinho. Me levava um prato de comida no almoço. Eu tinha que comer ali mesmo. Até as coisas de banheiro, eu tinha que fazer ali no chão, num cantinho”.

Com seis anos?

“Um pouco antes do meu pai chegar, ela abria a porta, me fazia lavar e limpar aquela sujeira e me mandava tomar banho. Aí ele chegava em casa e sentava pra jantar. Só ele tinha janta, com comida mesmo, a gente comia a sobra do que tinha do almoço. E durante o jantar, ela sentava do lado dele e falava, falava e falava de mim pra ele, até ele se convencer de que eu merecia apanhar. Cara, eu apanhava toda noite. Enquanto meus irmãos viam alguma coisa na TV, eu levava surra”.

A mansidão do olhar também estava na fala. Contava a história como se narrasse sua última ida até a quitanda. Falava do pai com afeto.

“Foi assim desde que eu tinha uns seis anos. E durou até perto dos meus quinze anos, por aí. Quando tinha dez, onze, comecei a ir pra escola. Fui aprender tudo atrasado. Mas era sair e voltar para casa. E apanhar. Aos quinze foi quando ele me expulsou de casa e eu fiquei na rua”.

José. Seu nome é José.

“Eu me revoltei, sabe? Não vou dizer que não. Mas eu fiquei tentando entender e não conseguia. Como pode? Com uma criança. Era meu pai”.

Me diga, por favor, que essas pessoas estão presas. Eu pensava. Não. Só me diga que houve justiça, que houve algum tipo de reparação, me conte sobre os pedidos de perdão. Fale, José.

Ameaçava chuva. O céu escurecia com as nuvens se formando, tornando o horizonte de São Paulo ainda mais cinza. Mas era na Bahia dos anos 80 que estávamos. Até que ele me trouxe de volta.

“Hoje, eu sou o filho pra quem ele pede conselho, acredita? Meu pai me liga quase todo dia, me pergunta as coisas, pede ajuda. Para você ver como são as coisas. Meus irmãos que ficaram lá, não tiveram as oportunidades que eu tive. Eu ajudo eles também, direto. Eu fui aquele que se deu bem”.

Eu observava o movimento frenético de carros e pessoas fora da janela, mas o universo todo estava era ali dentro. Me peguei balbuciando, quase num reflexo:

– José do Egito.

– Sou eu! – ele sorriu e se aproximou do espelho, como se quisesse chegar mais perto de mim.

– Conhece a história?

– Esse era meu apelido. Um sujeito na firma onde eu trabalhava disse que eu era José do Egito. Aí eu fui ler para entender. É – sorriu largo – eu mesmo.

– “O mal que vocês me fizeram, Deus transformou em bem”. O sujeito sofreu o que sofreu e depois ajudou o pai e os irmãos. Seu pai ainda é casado com essa mulher?

– Sim. Eu vou lá, tudo certo, cumprimento. Fazer o quê?

– E seu pai?

– Hoje somos amigos. Eu amo meu pai.

Eu ia de carona. No carro e na história. O carro foi desacelerando enquanto chegávamos no destino antes do horário previsto. Ele suspirou e seguiu:

– Ele nunca me falou nada, sabia? Nunca me pediu desculpas. Mas, eu sei. Eu sinto, sabe? O jeito como ele é comigo hoje, como ele fala e me trata. E às vezes, ele me olha de uma forma e fica um silêncio assim, fica me olhando e parece que tem uma coisa que ele quer dizer e não fala. Mas eu também não quero que ele diga, eu prefiro assim. Porque se ele disser… se ele disser, aí eu também vou ter que falar tudo. E tudo… isso aqui, meu irmão – e bateu com o punho cerrado no peito – tudo… eu acho que não consigo.

José dirige um táxi no Egito.

Não tinha um raio de luz naquela tarde. A noite se aproximava, o tempo estava nublado, o ar era frio, o céu escuro, o dia triste. José, não. José era sol.

(Publicado originalmente no Estadão)


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