O homem que falava juridiquês

Ostentando uma camiseta regata da torcida organizada que ganhou na adolescência, Naldo passava as noites de quarta-feira plantado em frente à TV acompanhando os jogos do seu time de coração. Uma xícara cheia de amendoim apoiada no braço do sofá, a cerveja servida no copo de requeijão na mão e o controle-remoto sobre a perna. “Minha religião”, dizia para quem tentasse tirá-lo de casa nesses dias.

No trabalho, ele chegava cedo para dominar a rodinha do café com piadas, comentários e cuspir estatísticas que reforçavam as glórias de seu time no passado: “Temos mais vitórias no primeiro turno com gols de falta cobradas da intermediária do que qualquer outro time do estado fundado após 1935”, encerrava a conversa. Na hora do almoço, convencia a equipe a frequentar o bandejão da rua de trás que mantinha a TV sintonizada no programa do Milton Neves.

Mas, deu que seu time entrou numa draga danada. A má fase começou depois de uma derrota de 6 x 5 para um time do interior e já durava coisa de oito meses. O clube trocou de técnico, vendeu o centroavante e começou a frequentar a zona da degola no campeonato. Aí veio a Copa no Brasil e, na sequência do otimismo nacional, o banho gelado do 7 x 1 contra a Alemanha.

Naldo começou a chegar atrasado no escritório, inventou aula de inglês na hora do almoço, saiu do grupo de WhatsApp dos amigos da faculdade e trabalhava calado no seu canto.

Numa quarta-feira à noite, desanimado depois de um 3 x 2 que seu time tomou de virada, afundou numa fossa e no sofá. Sentado no seu cantinho, ainda de regata, o copo vazio, o controle pendurado na mão, Naldo começou a zapear os canais da TV. Depois de seriados, programas de culinária e documentários sobre o Alasca, parou na TV Justiça e ali ficou entorpecido em um julgamento de Habeas Corpus. No cantinho da tela, acompanhando o nome de um ministro dando seu voto, uma legenda indicava: “Placar: 3 x 2 contra a defesa”.

Ele, que no alto de sua erudição ginasial tinha juízes, impedimento, defesa, vantagem, corte e 11 em campo em seu vocabulário, entendeu quase metade do que se dizia na TV. Não no sentido que deveria, convenhamos, mas o suficiente para lhe prender a atenção.

(…)

Meu texto dessa semana. Continua no site do Estadão.

Onze anos, um email e um sonho para hoje

Hoje a Nina faz onze anos. Todo mês de março eu caio nessa. Passo os dias todos olhando aquela menininha cantarolando pela casa até que percebo mais uma punhalada inescapável do tempo me atingindo. E ali, logo na outra esquina, já vislumbro ele de novo à espreita, dez dias depois, no aniversário da Cecília. Outro golpe. Porque cada ano que elas completam me leva a pensar quão pouco tempo faz que parece que elas nasceram e também quão rápido a vida toda tem passado desde que me lembro de quando eu tinha essa idade.

A paternidade mudou minha vida de tantos jeitos diferentes que eu me sinto em dívida com essas meninas. Porque muda nosso centro de atenção e afeto, muda a ordem e prioridade das coisas, a insegurança eterna de que elas estejam bem, estejam respirando, comendo, estejam dormindo e sorrindo e brincando em harmonia e não levando uma mordida na escola ou dando uma mordida em outra criança na escola. Ser pai, muda o horário em que vamos pra cama, muda a temperatura do prato que comemos (tudo é frio – talvez daí o fato de sushi e patê de atum sempre parecerem boas pedidas), muda a velocidade em que dirigimos e muda definitivamente a assertividade das recomendações de playlists do Spotify e vídeos do Netflix, agora eternamente povoados por desenhos animados e trilhas infantis.

E muda uma outra coisa principalmente: quando temos filhos, plantamos uma semente de esperança no mundo. Como se depositássemos uma moedinha de crédito no futuro da humanidade e que aquele engatinhar, os primeiros passinhos cambaleantes e a formação desse novo ser fosse também, numa analogia preguiçosa, um novo passo possível para cada um de nós. Filhos, eu acho, sempre serão nossos sonhos projetados.

Quando a Nina nasceu, lembro de ter recebido um email de um amigo nos parabenizando pela sua chegada. Ele começou me felicitando pela família, disse estar repartindo nossa alegria, até que seguiu a conversa dizendo que admirava nossa coragem, minha e da Manu, de colocar uma criança em um mundo desequilibrado e hostil. Eram palavras pesadas. Ainda que não fosse sua intenção, sua mensagem nos dizia basicamente que éramos um par de irresponsáveis por deixar alguém crescer como testemunha do apocalipse.

Isso foi há onze anos. Há pouco mais três meses, mandei uma mensagem para ele dando os parabéns pela chegada do seu primeiro filho, que nasceu saudável e sorridente para ajudar a povoar esse mesmo mundo ao lado de minhas filhas.

(…continua no site do Estadão)

Washington

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Estou no avião, voo internacional, uma longa e constipada noite pela frente, as luzes baixam e eu me esforço para dormir. Lá pelas tantas, todo mundo dormindo, eu dormindo, o piloto dormindo (tenho certeza que eles dormem lá na frente) e de repente eu acordo com um sinal apitando distante e abafado em algum lugar lá fora. Me tira o sono e tento olhar pela janela. Nada. Durmo. O sinal persiste. Tento dormir. Deve ser algo lá na cabine, algum alarme no banheiro, um probleminha na asa (na asa!?), eu penso, nunca voei com essa companhia aérea. Cochilo um pouco mais. O barulho…

Assim a coisa vai, por quase uma hora, até a aeromoça acender a luz da cabine para servir o café da manhã. Me estico, bebo água, falta pouco para chegarmos, finalmente. O ruído, que tinha sumido, retoma repentinamente e me ocorre algo que… opa, espera. Eu levo a mão até o bolso da poltrona à frente e meu temor se confirma: deixei o alarme do celular programado para tocar. Às 5h. No avião. Por quase uma hora. Eu congelo. Eu não tiro a mão de lá. Fico fuçando aquele buraco escuro à procura do celular e um botão que pudesse apertar para silenciar aquilo. Olho ao redor e percebo que as pessoas à minha volta já não dormiam mais. Ponho o fone no ouvido. Ponho a cabeça inteira no bolso da poltrona à minha frente. Queria entrar ali, cair num túnel e ser ejetado do avião junto com as malas. Mas aí eu apareceria na esteira de bagagens na frente de todo mundo e isso também seria constrangedor.

Às vezes tenho a sensação de que minha vida é um eterno episódio do Mr. Bean.

Fui a primeira pessoa a sair do avião e o primeiro a entrar no trenzinho, o primeiro na fila da imigração (nunca antes na história daquele país…) e também a sair direto, passos largos, rumo ao táxi que me levaria até o centro da cidade. “Welcome to Washington!”, dizia a grande placa. Sensação térmica de -5 graus na rua e eu de camiseta. Entrei no carro apressado e como num passe de mágica, aquele ambiente morno, o largo banco de couro, esqueci de tudo o que ocorreu no voo, o alarme, a vergonha, o bolso da poltrona à minha frente onde eu habitaria e agora só conseguia pensar no rosto redondo, sorridente e no bigodinho do vocalista do “É o tcham!”. O motorista do táxi, que também tinha um rosto redondo e um bigode, não sorria, mas lembrava igualmente o Compadre Washington. Só que ele era etíope e não baiano. Mero detalhe.

Como é que se diz compadre em inglês?

(…continua aqui no Estadão)

Estourando bolhas

Um dos passatempos favoritos das meninas aqui em casa é fazer bolhas de sabão. Lembro da Nina ainda pequena (quer dizer, menor do que ela é hoje), encantada com aquelas circunferências transparentes flutuando no ar. Eufórica, ela ria e as perseguia tentando capturar alguma com as mãos. Ainda outro dia, eu a notei parar na rua para observar as bolhas sopradas por outra criança sendo levadas pelo vento.

Há alguns meses, estávamos viajando em férias e foi a vez da Cecília, dois anos recém completados, se deparar com um sujeito vestido de palhaço no meio de uma praça fazendo bolhas de sabão gigantes. Ela corria atrás daquilo sorrindo como se não houvesse nada melhor na existência. Para a Manu e eu, foi como reviver a fase em que a Nina fazia o mesmo. Para os outros turistas na praça, Cecília virou uma atração especial tanto quanto o palhaço e suas bolhas translúcidas que, aposto 10 reais, nunca tiveram uma plateia tão entusiasmada.

Às vezes, me pergunto se a graça toda da brincadeira está em fazer as bolhas ou em estourá-las. Voto na segunda opção. Crianças não contemplam bolhas, elas as perseguem e arrebentam no ar e o prazer de desfazer é tão bom quanto o de criar.

Na semana passada eu peguei um taco de beisebol imaginário e estourei minha bolha ideológica. Eu caí de dentro dela, na verdade. Aproveitei a empolgação momentânea e, tal qual minha filha naquela praça, comecei a caçar outras bolhas dentro das quais eu habitava há tempos. Havia gasto bons anos construindo caprichosamente cada uma delas e flutuava no conforto de seu ambiente auto-afirmativo, mas quanto mais alto e distante do chão eu me percebia, pior ficava minha percepção da realidade. Quanto maior ficava o eco da minha própria voz reforçando meus argumentos, mais ruidoso e distorcido se tornava o som de outras bolhas voando ao redor. Eu já não era capaz de ouvir com clareza a opinião de quem não habitava o mesmo círculo que eu.

(…continua lá no Estadão)

Se o mundo acabar amanhã

O Relógio do Juízo Final foi adiantado em 30 segundos essa semana e agora está a dois minutos da meia-noite, horário que representa o fim do mundo. É o que diz o Boletim dos Cientistas Atômicos da Universidade de Chicago. Parece o nome de uma banda do colégio mas trata-se de um grupo de estudiosos que desde 1947 se dedica a calcular, simbolicamente, o estágio em que estamos de destruir a Terra em uma guerra nuclear.

Até semana passada, estávamos a 2:30 minutos do apocalipse, mas fomos rebaixados pelos acadêmicos dado o risco iminente de uma guerra entre EUA e Coreia do Norte e também, alegam, o baixo esforço que nossa espécie tem feito para lidar com as questões relativas às mudanças climáticas.

E aí, me peguei pensando, e se o mundo acabasse amanhã? Ou melhor, se tudo acabasse daqui a pouco, caso Trump e Kim Jong-un levassem a cabo suas promessas e projetos nucleares. Eu lia a notícia sentado no refeitório enquanto mastigava um sanduíche. Infelizmente, perdi a habilidade de fazer refeições sozinho sem mexer no celular, então gasto esse tempo para me atualizar sobre o noticiário cotidiano (mas, nota-se que não me alimento com nada de muito útil).

Em segundos, notícia e pergunta suscitaram minha capacidade inata de dispersão e debates mentais sobre o fim do mundo ocuparam meu universo de possibilidades. Caramba, e se o mundo acabasse mesmo amanhã ou depois?

(… continua no Estadão)

Existe outra cidade

Se um dia você estiver passando perto de uma ciclovia em São Paulo, notar um gordinho barbudo pedalando feliz, deslizando sua bicicleta pelas ruas e lhe ocorrer que ele se parece muito comigo, saiba que aquele não sou eu.

Sou, no entanto, o outro gordinho, 600 metros atrás, ofegante, suando bicas, arrastando uma bicicleta ciclovia acima (não importa que seja uma reta ou descida, a sensação é de que estou sempre subindo). Mas, sim, agora eu pedalo. E ainda que a expressão em meu rosto não demonstre, isso me deixa feliz.

Faz coisa de um ano e meio que a bicicleta se tornou meu principal meio de transporte na cidade. A contragosto, confesso. Antes de adotá-la, tentei inúmeras rotas dirigindo por vias alternativas e testando a capacidade criativa do Waze, tentei andar de ônibus, trem, combinações de carro, ônibus e trem. Mas nada me fez conseguir chegar no trabalho em menos de uma hora. Até que me convenci de que poderia tentar pedalar.

Eu não pedalava desde a adolescência, quando fiquei grande demais para a Caloi Cross azul que herdei do meu irmão e não fiz o upgrade natural para uma Caloi 10. O tempo passou, perdi o interesse, comprei um carro e depois outro e ficava parado em congestionamentos por aí observando ciclistas imunes às filas intermináveis de carros e, apesar de alguma inveja, sentia que jamais poderia adotar aquela coisa juvenil como meio de transporte.

(… continua no Estadão)

Os sábados precisam voltar a ser sábados

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“A gente vive muito em voz alta e às vezes não se ouve.”
-Guimarães Rosa

Foi meu aniversário no último dia dois. Era um sábado e a sensação de acordar com café da manhã na cama e cercado pelas meninas em festa é a melhor possível. Depois, encarar um dia inteiro com a única obrigação de pensar na próxima coisa boa a fazer. Esse é sempre o maior presente, mas que não é possível quando o aniversário cai em dia útil.

Logo cedo, a Nina me disse para fazer três pedidos ao longo do dia. Três coisas que estivessem ao alcance dela para realizar. Eu sabia que era mais para alegrá-la do que a mim, então entrei na onda. Almoçar juntos em um restaurante que gostamos com direito a sorvete na sobremesa foi o primeiro deles.

O segundo foi ir até nossa livraria favorita e ficar à toa folheando livros, passeando entre as prateleiras, correndo atrás da Cecília que insiste em fugir pelos corredores, separando cinco ou seis exemplares para ler um trecho enquanto bebia um café, até decidir por um deles, que seria o meu presente (escolhi ganhar a mais recente edição dupla de Dom Quixote, que me acompanha nesse minuto).

Já era finzinho de tarde quando, por um motivo que me escapa agora, Nina e Cecília se desentenderam. Sem saber como mudar o clima, lancei mão do meu terceiro direito e pedi a elas que deixassem de lado divergências bobas para desfrutar o dia. “Mas, pai…” alguém já dizia quando eu devolvi: “Esse é meu terceiro desejo. Vocês precisam atender”.

Não foi preciso muito esforço para me dar conta de que nada do que poderia e gostaria de ganhar era tão excepcional a ponto de minhas filhas não poderem me proporcionar. Mais do que isso, nada do que fez daquele dia tão especial não podia facilmente acontecer todas as semanas aqui em casa. O ócio voluntário, a despretensão de um dia sem tarefas ou obrigações, a presença de gente querida. Isso, eu acho, deveria ser incorporado à doutrina religiosa de todo homem.

(…continua no Estadão)