A novela, uma primavera e a esperança de um final feliz

Parei de assistir novelas em algum dia lá no final dos anos noventa. Eu não lembro exatamente que novela era, mas me recordo que até aquele momento na minha vida, o fim dos dias se resumiam em chegar da rua, tomar um banho, dar boa noite para o Cid Moreira, assistir a novela e ir dormir. A agenda do Brasil era essa, eu acho. Chegar no escritório no outro dia e comentar sobre a vilã, os mocinhos, tentar descobrir quem matou o patriarca rico, falar o jogo de futebol da semana e o preço da carne. Naqueles dias, a internet era uma coisa incrível que ainda estávamos descobrindo. Aí vieram os reality shows. E tirando a primeira edição de Casa dos Artistas em que votei para o Supla e seu pijama azul ganharem a bolada, nunca mais me interessei por esse tipo de programa.

Conheço pouquíssima gente que assiste a novela hoje em dia. Mas o país inteiro acompanha assiduamente o reality show que virou nossa cena política. Votações públicas na TV Senado, transmissão ao vivo de julgamentos no STF, vídeos mal editados de audiências com juízes federais, tudo passando na televisão em horário nobre. Até temos direito a voto, mas acabamos escolhendo os vilões. Eu nunca imaginei que saberia tanto sobre a vida de um juiz e que me informaria a respeito dele nas colunas sociais dos jornais. Estamos em uma crise econômica, moral e política sem precedentes e enquanto cavamos o buraco em que afundamos, assistimos a derrocada da nossa sociedade bebendo um pingado no balcão da padaria.

Você tem alguma esperança de que as coisas no Brasil serão diferentes? É uma pergunta que eu tenho, de verdade. Lendo as notícias, acompanhando o vai e vem da cena nacional, os julgamentos, as negociatas, gente que vai presa, depois solta e aí prendem de novo, ou não (eu juro que já nem sei quem está livre e quem está preso, deveria ter um aplicativo para ajudar nisso). Mas, será mesmo que podemos ter esperança de que as coisas serão melhores no futuro?

(… continua no Estadão)

Árvores sempre dão crônicas

Há árvores que dão bons frutos, há árvores que dão flores, há árvores que dão boa sombra, há árvores que dão morada para passarinhos, há árvores que dão amparo para uma soneca depois do almoço, há árvores que dão trabalho. Mas toda árvore, cada árvore, sempre dá crônica.

Para as demais coisas, cada uma dá em seu ritmo, mas a crônica a árvore dá o tempo todo. Brota do galho, da história da rua, do amor que escondeu, do fio que rompeu, do sabiá que pousou, da maçã que caiu, da sombra fresca em que alguém cochilou.

Árvores já deram livros e contos. O pé de laranja lima de José Mauro de Vasconcelos, as amendoeiras de Rubem Braga, a árvore do conhecimento do bem e do mal no jardim do Gênesis cujo fruto Eva e Adão imprudentemente provaram, a moradia suspensa de Daniel Defoe para o náufrago Robinson Crusoé. Poupo o leitor de um tratado literário a respeito mas, sobretudo, é crônica que as árvores dão para iluminar de verde o horizonte cinza de quem buscava assunto para escrever.

Quando criança, lembro do dia em que plantamos uma jabuticabeira no quintal de casa. Meu pai a trouxe da feira, abrimos um buraco no gramado, fincamos o pequeno pé e nos plantamos ali por um tempo jogando água e adubo para ela vingar. Achei que na manhã seguinte, nosso novo brinquedo começaria a brotar jabuticabas diariamente em escala industrial. Doce ilusão. Doce, não, amarga. Para minha decepção, a jabuticabeira, que apesar de miúda já era adulta quando plantada, levou ainda um ano ou dois para encher nossos tupperwares com seus frutos.

(… continua no Estadão)

Amar é pertencer

Está ficando cada vez mais difícil carregá-la no colo. Aos dez anos e quase 40 quilos, não existe uma posição confortável em que a acomode nos braços e não sobre uma perna caída de um lado ou um cotovelo pendurado do outro, ambos facilmente “esbarráveis” em algum batente de porta ou quina de cômoda e capazes de despertá-la do sono com uma pancada.

Às vezes, ela dorme no sofá ou em nossa cama e fico com pena de acordá-la e mandar que vá sozinha para o quarto. E diante de um preocupado “não faça isso, Henrique, sua coluna…” dito pela mãe, me faço de forte e devolvo um habitual “tá tudo bem, tranquilo, eu levo”. Mas, não sei se quero enganar a ela ou a mim mesmo. Dez passos depois, estou pedindo arrego e tão logo eu praticamente arremesse a Nina na cama, saio ofegante corredor afora, meus braços tremendo e sigo até a cozinha em busca de um copo de água.

(continua lá no Estadão)

A última casa antes do deserto

deserto

Aquela era a última casa antes do deserto estender-se quase infinito à frente. Por cinco ou dez minutos era só o que eu observava enquanto via passar o mundo em miniatura através da janela do avião.

Havia alguma cidade adiante, mas até que estivéssemos sobre ela, já vinha há quase uma hora notando a sombra da aeronave projetada no chão árido. Mas, à medida que a civilização surgia no horizonte, podia ver claramente a borda que separava o deserto de um muro. E projetando-se acima da altura do muro havia uma casa, isolada, longe um quilômetro ou mais dos primeiros vizinhos e cuja janela abria-se diante das centenas de quilômetros de terra seca e vegetação rasteira sem que houvesse nada adiante.

Em vão, tentei imaginar qual havia sido a última casa que avistei antes daquela paisagem começar tantos minutos antes. Quem seria, sabe lá, o vizinho de janela do menino que talvez habitasse aquele quarto e escrevia mensagens no vidro para alguém que um dia passasse por ali? Quem dormiria ali do outro lado se a terra pudesse ser magicamente dobrada, o deserto fosse sugado e as casas se emparelhassem de repente? Quem sabe, fosse esse o pensamento ocupando as noites solitárias de uma viúva que perdia o sono olhando o silêncio todo à sua frente e esperando que um dia um transeunte por ali passasse e notasse os vasos de flores que ela dispunha delicadas sobre o parapeito.

O avião aterrissou minutos depois e a história dormiu em minha mente por alguns meses até hoje cedo, quando estava na varanda do apartamento trocando alguns vasos de lugar.

(…) continua lá no Estadão.

O homem que virou carro

O homem virou carro. Foi em um fim de ano, quente como agora. O homem dirigia e dirigia, todo dia dirigia. Alguns anos antes, encarava 40 minutos de trânsito pela manhã e no fim de tarde, mas agora chegava a perder duas ou três horas diárias no trajeto entre a casa e o trabalho. “São tantas horas no carro”, pensava, “isso parece minha casa”.

Zeloso com seu habitat, investiu em bancos de couro, aparelhos multimídia, câmbio automático e ar-condicionado. Em casa, a mulher reclamava que usar a mesma geladeira desde que casaram não era dignidade.

Era tanto carro, todo dia, que viciou na relação. Nos fins de semana, ele lavava o carro, lustrava o carro, ia de carro até a padaria comprar pão, contornava até a banca para buscar o jornal. Domingo à tarde, ia para o carro escutar o jogo de futebol pelo rádio, sob pretexto de que a locução tinha mais emoção do que a da TV. “No rádio, qualquer pelada parece jogão, na TV é aquela monotonia de cobrança de lateral e toca pra lá e pra cá”, comentou certa vez com um amigo a quem deu carona, “e gol só é gol mesmo na voz do Zé Silvério”.

Naquela manhã, o trânsito estava especialmente ruim.

(…) continua lá no jornal.

O guarda-roupa da minha avó

Minha avó guardava a televisão dentro do guarda-roupa de vez em quando. Era comum chegarmos em sua casa no domingo à noite, eu naquela expectativa de assistir Os Trapalhões e…

– Vó, cadê a TV?
– Ah, eu guardei.

Nas primeiras vezes, não procurei saber a razão daquela resposta. Eu ainda não sabia que era um millennial, então criança nenhuma naquele tempo questionava autoridades solenes como avós. Além disso, eu iria ganhar biscoitos de polvilho e doce de leite caseiro mais tarde e não seria inteligente criar qualquer atrito com a provedora das delícias pelas quais eu esperava muito mais do que Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.

Até que um dia, não sei se por tédio ou curiosidade, não resisti e perguntei.

(…) continua lá no jornal.

Agora no Estadão

A partir de hoje, Dia das Crianças, escreverei semanalmente no Estadão. É um novo blog, que não substitui este aqui, mas cujos textos não serão reproduzidos na íntegra fora do ambiente do jornal.

Escreverei às quintas. Avisarei sempre que uma crônica nova for publicada e espero (e peço) que sigamos juntos.

O texto de estreia “As manhãs amarelas”, foi para o ar há pouco.

Abraços.