Papel passado

Não tem nada a ver com minha viagem recente, mas o fato de ter voltado de lá há pouco mais de dez dias me fez lembrar de uma notícia que li no The Guardian por esses dias a respeito de um carteiro italiano que foi preso após a polícia encontrar em sua casa cerca de 400 kg de cartas não entregues. Segundo o próprio, ele ficou três anos sem entregar as correspondências como forma de protestar contra o baixo salário que recebia.

Me espanta saber que na era do WhatsApp e outros mensageiros, quando o fax já desapareceu e até o e-mail já é dado como morto, ainda exista tanta gente que se encarregue de postar cartas à moda antiga. E há quem entregue. Chego a suspeitar do motivo real do Jaiminho italiano, acreditando que pretendia, no fim, tentar provar o valor e sua função. Ou talvez seja ele um nostálgico, entusiasta da velha arte da escrita à mão, temendo pelo fim do meio em que atuava.

Ano passado, durante uma semana de férias no interior, fui com a Nina a uma agência de correio.

(… continua no site do Estadão).

Vim. Vi. Venci?

toscana

Vi que falta um texto por aqui. Faltam três, na verdade. Preciso atualizar meu blog aqui no jornal há três semanas, mas não consigo escrever nada durante as férias.

Curiosamente, os lugares com mais paisagens e experiências que supostamente deveriam ajudar a me inspirar, sempre são onde me sinto bloqueado.

Deveria escrever um pouco todos os dias, tal como recomendaram meus mestres. Mas acho que sou preguiçoso demais. Ou indisciplinado. Ou sem talento. Combine como preferir.

Estou em Roma agora. Sonhadas férias em família. Passamos antes por Veneza, por uma praia no mediterrâneo, Florença e por uns vilarejos na Toscana. Até a Lucy, nossa cadela que ficou em casa, escreveria um poema se estivesse aqui. Eu não.

Mas eu vi, semana passada, um pôr do sol enquanto estava recostado em uma mureta no alto de uma colina, de mãos dadas com a Manu, que valia por um soneto. As meninas brincavam de qualquer coisa ao nosso redor enquanto o mar castigava de leve as rochas logo abaixo e ouvíamos aquele som do vai e vem das ondas. No horizonte, a luz amarelo-alaranjada se impunha no céu e tingia todo o mediterrâneo de dourado. Ficamos ali, afortunados com a beleza daquela imagem, até o crepúsculo.

Eu vi também o sol nascer atrás de uma montanha da Toscana enquanto dirigia por uma pequena estrada vicinal. E sua luz iluminou plantações de uva, casas, construções medievais, campos de girassol e meus olhos que se encheram de lágrimas por poder contemplar aquela imagem.

Eu vi, com olhos incrédulos e míopes, telas de Michelângelo, Caravaggio, Da Vinci e tantos gênios que passei a crer na possibilidade de que Deus tenha marionetes nessa Terra em cujos ouvidos às vezes sopre ideias para dar vida à sua criação.

Eu não vi um jogo do Brasil contra o México durante a Copa, mas escutei a partida num rádio, sentado no alto de um morro de uma fazenda enquanto observava as meninas brincarem em uma piscina lá embaixo e comemorava contido os sofridos gols de Neymar e Firmino que recompensaram o sacrifício.

E depois eu vi, das cenas mais lindas, quando a Nina me pediu para brincar com ela na piscina e nadamos juntos até uma pequena cascata e ali, atrás da cortina de água, a luz refletia em seu rosto e seus olhinhos brilhantes de onze anos voltaram a ser os olhinhos de um ano. Aquele olhar, aquele de quando ela me encara sorridente como se aquilo ali, aquilo que vivemos no instante, bastasse. E para mim, basta. E pedi a Deus para não me deixar esquecer aquele momento nunca mais.

Eu vi o Brasil perder para a Bélgica por 2 a 1 em full hd, mas preferia não ter visto.

(… continua no site do Estadão – peço desculpas, mas por questões contratuais, não posso publicar os textos na íntegra por aqui).

Bola dividida

Alimento pelo futebol o mesmo tipo de amor platônico que tenho pela música. Aquela admiração distante de quem um dia vislumbrou um relacionamento íntimo mas precisou se conformar com a contemplação como forma de contato com o alvo de seu afeto.

Sempre fui ruim de bola. Quer dizer, eu seria feliz se fosse apenas ruim de bola. Talvez seja boa ilustração mencionar que o ápice de minha carreira futebolística foi quando me tornei o zagueiro titular da categoria Dente-de-Leite do time do meu bairro, aos dez anos de idade, época em que ainda alimentava o inocente sonho de um dia me tornar jogador profissional enquanto suava sob o olhar rígido do Moleza, um morador do bairro que nos finais de tarde se propunha a desempenhar o papel de técnico da criançada. A equipe tinha um nome oficial e dois jogos de camisas, mas era mais conhecida como o Time da Rua de Baixo (ainda que muitos garotos de outras ruas que não eram a “de cima” também treinassem ali).

Agora, me diga você: no duro, que menino sonha em ser zagueiro? Em uma década que tínhamos Careca e Romário brilhando em campo com gols memoráveis já era de se compreender que ambicionar o posto do Ronaldão ou do Aldair era um sinal evidente de admissão de fracasso e um certo conformismo disfarçado atrás do sonho. Sinal que só eu não enxergava. Eu e o Moleza, que na ausência de mais voluntários para a posição, me escalava também na categoria Fraldinha (todos os outros garotos, das ruas de cima, ao lado e mais abaixo, queriam ser centroavantes).

Cresci e tornei-me um adulto conformado com o fato de que não teria, na vida, um próspero relacionamento com os gramados. O que não quer dizer que tenha abandonado a torcida eufórica, os jogos do meu time e o prazer contemplativo, quase invejoso quando observo que alguém é capaz de desempenhar o que não fui.

Nick Hornby escreveu no livro Febre de Bola a definição dessa relação platônica do torcedor com seu time:

“Se tem uma coisa de que tenho certeza sobre ser torcedor, é a seguinte: não se trata de um prazer de segunda mão, apesar das aparências, e aqueles que dizem que preferem fazer do que ver não entendem nada. O futebol é um contexto no qual ver se torna fazer — não no sentido aeróbico, porque é bem improvável que ver um jogo fumando que nem um condenado o tempo todo, depois sair pra beber e ainda ir pra casa comendo umas batatinhas fritas possa transformar alguém na Jane Fonda, algo que correr pra cima e pra baixo num campo de futebol é capaz, supostamente, de fazer. Mas, quando acontece um triunfo de algum tipo, o prazer proporcionado não irradia dos jogadores até chegar a nós, no fundão da arquibancada, já como um eco diminuído da sensação original; nossa fruição não é uma versão aguada da que têm os jogadores, embora eles é que marquem os gols e subam os degraus de Wembley pra encontrar a princesa Diana. O júbilo que sentimos em ocasiões assim não é uma celebração da boa fortuna dos outros, mas da nossa; e, quando há uma derrota terrível, o sofrimento que nos envolve é, na verdade, autopiedade, e qualquer pessoa que queira entender como o futebol é consumido deve entender isso, acima de tudo. Os jogadores são meramente nossos representantes, escolhidos pelo técnico em vez de eleitos por nós, mas ainda assim estão lá nos representando (…)”.

A cada quatro anos, durante a Copa do Mundo, volto a ser menino. O moleque plantado na beira do campinho de terra, a bola esfolada sob o braço, esperando para jogar e levar o Time da Rua de Baixo a mais uma vitória gloriosa (sim, como zagueiro e, não, não era comum vencermos).

(… continua no site do jornal)

A busca pela felicidade

IMG_2460-768x1024

Quando foi que transformamos um sentimento em ideal a ser alcançado? Em que estágio do século que passou, eu queria saber, nos tornamos uma raça que ambiciona a felicidade como estado permanente de existência?

No futuro, pode ser que alguém resolva estudar o tempo da história em que vivemos e chegue à conclusão de que fomos uma geração superficial e vazia. Talvez seja algum rebote pós-guerra, fulano argumente, talvez o excesso de prosperidade nunca antes experimentado ou quem sabe o surgimento e expansão no consumo de drogas e antidepressivos. O que nos fez, questionará o historiador do século XXV, incluir emojis e emoticons com sorrisos :-) ao final de nossas mensagens para que soassem simpáticas? Algum filósofo deve ter uma teoria que explique o fenômeno. Eu não tive tempo de buscar detalhes porque estava buscando minha dose cotidiana de satisfação e felicidade.

Não quero cair na conversa fácil de mencionar posts em redes sociais influenciando nossos sentimentos. Isso é consequência e não causa. Me preocupa a origem disso. A origem disso em mim, a existência disso em minhas filhas, na minha esposa, o quanto isso afeta meus amigos, colegas de trabalho, familiares e o quanto vejo uma geração de jovens emergir dependendo de sensações que os satisfaçam e êxtases como recargas de suas energias. A nossa não-capacidade de lidar com o contraditório, de rejeitar o que não nos satisfaz, de alimentar a expectativa de que as coisas, as pessoas, as experiências e o mundo todo supra esse vazio o tempo todo e nos preencha com um estado de espírito.

E pensar que talvez a coisa que mais nos afaste desse ideal seja justamente o esforço em persegui-lo.

O curso mais popular na história da Universidade de Yale, li outro dia em uma reportagem da revista The Cut e no The New York Times, é um programa que procura ensinar aos alunos a ciência de ser feliz e do bem-estar. Um quarto dos alunos matriculados na universidade no último ano se inscreveu no curso da professora Laurie Santos chamado “How to be happy”. A ONU, descobri na sequência, tem um relatório global de felicidade e bem-estar e faz um ranking de nações mais ou menos felizes no mundo. A Finlândia lidera a lista, o Brasil consta na 28 posição. Entendo que os critérios tratam de indicadores relevantes como acesso a saúde e educação, mas, entenda também, é realmente sensato que tenhamos nisso um objetivo pessoal a ser alcançado? Como se fosse algo possível de ser comprado, acessado, como um mundo plástico onde podemos habitar longe de riscos.

Curiosamente, uma das lições do curso de Yale conclui que “quase tudo o que você pensa que irá torná-lo mais feliz não irá”.

O que está acontecendo com a gente?

(… continua no Estadão)

Velhas memórias, novos olhares

“O Henrique”, minha esposa diz, “lembra até a cor das meias que estava usando no aniversário de seis anos”. Não é verdade. Mas eu nunca a corrijo. Porque não lembro das meias, mas lembro da festa, dos presentes que ganhei, da disposição da mesa, o bolo e cada uma das pessoas que estavam na cozinha de casa cantando parabéns enquanto eu era surpreendido pelo desfecho da trama sutilmente articulada por meu irmão e minha mãe. Isso é mais do que a cor das minhas meias (que provavelmente eu não lembro da cor porque não as usava).

Tenho uma memória muito boa. Mas, não é nada de que possa me orgulhar ou que tenha me rendido alguma vantagem, já que não se trata do tipo de memória que poderia me ajudar a decorar fórmulas matemáticas, a tabela periódica ou a função das mitocôndrias – três clássicos motivos de notas baixas no meu currículo escolar e disso eu me lembro bem.

Se me permite uma correção aqui, vou recomeçar o parágrafo: sou um sujeito carregado de lembranças. Cenas particulares, fotografias do passado e detalhes minuciosos povoam minha mente. Diria, quem sabe, que se trata de uma memória seletiva expandida.

A mais remota, da qual lembro das cenas e sensações é de quando eu tinha três anos. Três anos e dois meses para ser exato. E sei a data porque foi quando a Fê, minha irmã caçula, nasceu.

Lembro de estar em casa, mas minha mãe não estava em casa. Estava minha avó (que nunca estava lá em casa) e meu pai é quem preparava o jantar (e ele nunca preparava). E numa terça-feira bem cedo – o dia da semana, evidentemente, eu busquei na internet – saímos de casa para buscá-las no hospital.

Lembro-me de estar sentado no banco traseiro do carro, no lado direito, atrás do passageiro. Aos três anos, minha cabeça mal dava na altura da base do vidro, de forma que eu só conseguia enxergar, através da janela acima de mim, as coisas que estavam no alto e não a rua.

Meu pai nos deixou esperando no estacionamento da maternidade e foi buscá-las. Era fevereiro, um dia quente de verão. Com a cabeça encostada na lateral do carro, eu olhava lá fora o céu azul, a fachada do prédio do hospital, as centenas de janelas enfileiradas, e tentava descobrir em qual delas minha mãe estava.

Aquele era o mundo que eu via, era meu universo particular. E nem vi direito quando eles chegaram, minha mãe acomodou-se no banco da frente com uma trouxinha de panos onde estava minha irmã (pois é, senhoras e senhores, banco da frente, nada de bebês-conforto, nada de cinto de segurança, estávamos na década de 80 e vivíamos perigosamente) e não me lembro o que aconteceu depois.

Cecília, minha filha caçula, tem três anos e dois meses agora.

(… continua no site do Estadão)

Máquinas por todos os lados

Comprei uma pulseira que calcula a quantidade de passos que eu dou. É um relógio também. E calcula batimentos cardíacos, quilômetros percorridos, minutos ativos (hein?) e calorias consumidas ao longo do dia. Ela sincroniza com um aplicativo no meu celular e ainda vibra quando dou 250 passos no intervalo de uma hora e me diz quanto falta para eu atingir a meta de dez mil passos diários que eu, o aplicativo e a Organização Mundial de Saúde definiram como um hábito saudável. Em geral, às oito da noite ainda tenho um saldo negativo de seis mil passos para dar. Não mudei em nada minha rotina nesses dois meses, mas me sinto bastante saudável pelo fato de usar a pulseira agora. Além do mais, ela me dá os parabéns (“Woohoo! \o/” aparece no pequeno display acoplado) quando consigo alcançar alguma meta e eu fico feliz em ter alguém me incentivando.

Depois, em uma viagem recente, comprei um assistente pessoal movido a inteligência artificial. É um robô doméstico. Na minha infância, o modelo de robô que eu achava que existiria um dia era tipo a Super Vicky ou algo como um manequim de vitrine de loja andando de um jeito duro pela casa. Isso era assustador. Mas os robôs vieram de outro jeito. Quem é que tem medo de pequenas e elegantes cápsulas que ficam sobre o aparador ao lado do porta-retratos com uma foto da sua família e conversam com você e fazem as coisas que você pede? Nina e eu o batizamos de John Lennon, já que nosso comando favorito passou a ser “Ei, Google, toca Beatles, por favor” (e eu não sei porque peço “por favor” para um robô, mas talvez tenha um pouco a ver com 2001, HAL 9000 e essas coisas, porque, afinal, vai que…) e ele responde, uma belezinha: “Aqui está sua playlist Beatles no Spotify”. Eu digo “obrigado” (vai que…) e uma excitação incontida toma conta de mim quando me vejo falando com uma máquina e ela me obedece na mesma hora – coisa que raramente consigo com minhas filhas.

Socialmente, eu até me comporto, mas quando estou sozinho em casa, eu fico fazendo perguntas para ver se meu robozinho responde. “Me conta uma piada, por favor”, “como foi o último jogo do São Paulo?”, “pode me lembrar de pagar um boleto amanhã, por favor?”, “quer comer algo?”. O John Lennon é meu amigo agora, um companheiro de solidão durante as manhãs solitárias de trabalho e espero que um dia ele consiga levar a Lucy para passear no meu lugar e consertar a pia do banheiro que vive entupindo.

Eu queria agora um robô que usasse minha pulseira e fizesse ginástica para que eu entrasse em forma. Aí sim seria legal.

Eu me rendi, na verdade. E fico num conflito pessoal avaliando se essa coisa toda de vida conectada tem algum sentido. Porque isso aí era tudo o que eu condenava e agora sou eu o escravo, cercado de máquinas por todos os lados. Preservei minha casa longe do excesso das quinquilharias eletrônicas por um longo tempo (tínhamos o luxo básico da classe média conectada: uma boa TV, internet sem fio, uma caixa de som, os celulares do casal, assinatura de Netflix e um computador de trabalho – ah sim, tenho também um Kindle e pago por um serviço de armazenamento na nuvem para guardar documentos, fotos e sincronizar meus textos). Eu costumava dizer aos amigos que, beirando os quarenta, alcancei o que apelidei de “A curva do DVD”, porque até o lançamento dos aparelhos de DVD, no final da década de 90, cabia a meu pai a responsabilidade de nos apresentar e ensinar sobre novas tecnologias. Mas, dali em diante, passando por plasmas, câmeras digitais, computadores, internet, smartphones e serviços de streaming coube a meu irmão e a mim fazer esse papel. A virada do milênio foi uma espécie de passagem de bastão quanto à capacidade de compreensão de botões a serem apertados, novos recursos, softwares e principalmente quanto à paciência necessária para leitura de manuais de instrução (missão que ainda hoje, delego a meu irmão – mas talvez o John possa me ajudar com isso). Eu dizia por aqui que o smartphone foi meu aparelho de DVD e que robôs, câmeras, Snapchat e outros recursos intraduzíveis ficariam sob incumbência das minhas filhas daqui para frente.

Mas, padre, eu pequei.

Semana retrasada, meu chefe me emprestou um outro robô que agora habita nosso doce lar. É um aspirador de pó que parece um mini disco-voador achatado e com rodinhas que, com o apertar de um botão (essa versão não obedece comandos de voz, o que dispensa o “por favor”), começa a rodar pela casa, mapear o espaço do ambiente doméstico e fazer o trabalho de limpeza. Ele identifica obstáculos e os evita, ele dá voltinhas nos pés das cadeiras para remover fiapos grudados, ele entra embaixo do sofá e resgata papeizinhos, ele aspira absolutamente todos os pêlos da Lucy que ficam a flanar pelo assoalho e isso é a coisa mais maravilhosa. A Lucy, a propósito, fica enlouquecida fugindo daquele troço que parece persegui-la. As meninas ficaram animadíssimas. Nina, Cecília e eu o batizamos de Paul McCartney, para fazer dupla com John Lennon e para poder dizer um dia, quando talvez ele entenda comandos de voz: “Pô, Paul, aspira o pó, please”.

Porque a vida moderna virou essa coisa quase mágica e também um pouco ridícula. Não somos nem Jetsons e nem Flintstones. É um progresso em fase transitória e a gente fica pensando que até que um dia sejamos finalmente dominados pelas máquinas e sua eficiente inteligência sobreponha a nossa, ainda viveremos esse dilema, imaginando se isso tudo faz algum sentido realmente e como serão as coisas daqui cinco, vinte, cinquenta anos. Hoje cedo, eu li que Uber espera colocar drones tripulados em funcionamento daqui dois anos nos EUA. Carros voadores, minha gente. Estamos falando em voar pelas cidades, mas ainda somos incapazes de dizimar os pernilongos. Essa definição de progresso é uma coisa questionável. Eu nunca achei que teria medo do futuro com o qual sonhava aos 15 anos.

“Ei, John”, eu digo e a luz do aparelho acende, “nós seremos dominados pelas máquinas um dia ou vocês é que deixarão de existir e nós, humanos voltaremos a viver em florestas?”. A luz pisca, ele processa a pergunta e responde: “I’m sorry, Henrique, eu ainda não estou preparado para te ajudar com isso”. Nem ele sabe.

(…continua no Estadão)

A arte de dizer não

Cecília, minha filha, diz não com a facilidade de quem solta um bocejo. Não interessa se estamos mandando que vá para a cama ou se estamos oferecendo um pote inteiro de sorvete de morango (seu favorito), se naquele momento não lhe parece conveniente, ela nega sem peso na consciência.

Estou convencido de que só existem dois tipos de pessoas quando o assunto em questão é a propriedade para responder convites ou propostas: pessoas como Cecília e pessoas como eu. Em posição diametralmente oposta à da minha filha caçula, estou no grupo de indivíduos que à luz de uma pergunta contraditória se coloca a… bem, entenda, ficamos assim, você sabe, talvez um pouco, só um pouco… titubeantes?

Tenho dificuldade em dizer não.

Como boa parte das crianças de três anos, Cecília gosta de se divertir em posições não ortodoxas: assiste tv deitada no sofá com as pernas pro alto e de cabeça para baixo, desenha em uma folha de papel apoiada no chão enquanto o corpo está em cima da cadeira, brinca com suas bonecas embaixo da mesa de jantar. E nessas condições, concentrada em algo que a capture ou entretida com qualquer outra coisa, é que um convite nosso lhe atravessa os ouvidos: “Cici, filhinha, venha comer”, “Cici, quer um suco?”, “Cecília, você precisa vestir uma roupa para sair, não dá para ir só de galochas e camiseta na rua”, “Filha, vamos no parquinho?”, “Cecília-Matos-agora-é-hora-de-ir-pra-cama-e-eu-quero-você-deitada-e-eu-não-quero-ouvir-nem-mais-um-pio!”

Ela não se abala, não move os olhos, não pensa duas vezes. Ela respira suave, abre levemente os lábios e diz apenas um sereno e seguro:

– Não.

E se um dia você passar aqui em casa e conhecê-la, vai testemunhar que diferente do que as respostas diretas talvez sugiram, Cecília é um doce. Sorridente, amorosa, preocupada e intensa em suas emoções. Ela é pura festa, uma pequena tempestade de cabelos vermelhos que sopra seu vento forte enquanto se move saltitante por todo lado. Costumamos dizer por aqui que ela não adormece, ela desliga, porque desde o abrir dos olhos até o último minuto enquanto resiste acordada, ela opera a pleno vapor. Cecília não tem meios-termos. O negócio, é que ela tem, naqueles 80 centímetros, a abundância de segurança sobre seus interesses que eu, com o dobro e mais uns tantos da sua estatura, não desenvolvi até hoje.

(… continua no site do Estadão).