O taxista e a ditadura

Entrei em um táxi semana passada. Era fim de dia, garoava e a tradicional puxada de assunto perguntando sobre o clima não adiantava muita coisa. Lembrei que o debate presidencial havia terminado há pouco tempo e, como eu não tinha visto, usei o tema como gatilho para uma conversa com o motorista:

– Tá na rua faz tempo?
– Não, senhor. Peguei agora.
– Viu o debate na TV hoje?
– Debate? Eu não! Não quero ouvir o que esses caras tem para falar.
– Ué, mas o senhor não vai votar?
– Voto, sim. Mas não pra presidente. Esse eu anulo. Para mim, nenhum ali presta. Eles só vão nos debates para contar mentira pro povo.
– Entendi.

Era um senhor com mais de 70 anos, negro, sotaque nordestino arrastado, um bigode ralo estampando o rosto. Insisti:

– O senhor não fica preocupado? Digo, o que vai ser desse nosso país?

Ele virou levemente o corpo para olhar para trás e respondeu:

– Menino, vai ser ruim, vai ser péssimo.
– As pesquisas dizem que vai dar Haddad e Bolsonaro no segundo turno. Eu acho preocupante.
– O PT não presta. Não voto neles nunca. E… esse Bolsonaro, esse homem… quanto anos você tem? 38?
– Tenho 37.
– É quase a idade do meu filho. Então, menino, te digo o que falo pra ele: vocês não sabem o que foi a ditadura. O povo, essa meninada agora… ficam falando que aquele tempo foi melhor, que tudo era bom. Ninguém sabe o que era aquilo. Não sabem o que era gente com medo, gente sendo torturada. Todo mundo vivia era com medo. Não sobrava só pra bandido e pobre, não. Vou te falar: sobrava pra filho de rico e filho de pobre, pra branco e pra preto. Se desse bobeira, tomava sarrafo. E se fizesse coisa errada, morria mesmo. Agora ele quer dar um revólver pra cada cidadão? Isso é uma estupidez! Se já tem violência com tanta arma na rua, imagina se tá todo mundo armado? O bandido não pensa duas vezes, ele já vai chegar atirando. Isso aqui vai virar guerra, meu filho.

Ainda que meu senso e valores pessoais dessem razão ao homem, seu discurso apaixonado só me fazia enquadrá-lo numa caixa ideológica da qual partilho e eu pensava que tinha caído no raro caso de um taxista de esquerda (considerando minhas experiências). O que dava indícios de que vinha pela frente uma conversa tranquila.

O trânsito estava parado. Ele estava ofegante e às vezes me fitava pelo espelho retrovisor. Seu sermão acalorado me fez pensar no que ele poderia ter passado nas décadas de 70 ou 80. A família, os filhos, o motivo de ter migrado para São Paulo. Emendei outra pergunta:

– O senhor falou isso tudo… O senhor sofreu muito durante a ditadura?

Ele virou o corpo todo em minha direção e me encarou por um tempo até soltar uma avalanche:

– Sofrer? Sofrer?! Meu filho, eu era policial.

Engoli seco.

Depois de dois segundos, ele continuou:

– Só eu sei o que eu fiz naquele tempo. Só eu sei o que a gente fazia por aí naquela época. Foi muito sofrimento pra esse povo.

A conversa seguiu, com ele me dando detalhes de como levavam ladrões de rua para serem torturados, sobre como atiravam ao menor sinal de suspeita (“não tinha essa de esperar ambulância no local, a ordem era atirar e já ligar pro rabecão vir buscar o corpo”), sobre métodos de tortura para estupradores e ladrões e sobre como ele foi expulso da corporação porque abordou um jovem que consumia maconha na rua e descobriu, dias depois, que era filho de alguém com patente superior que exigiu sua demissão (quer dizer, a justiça não era bem assim para todos, né?). E longe de ser alguém de esquerda, meu taxista era um conservador convicto, defensor de valores morais que o levavam declaradamente para o campo da direita. Mas ele não podia aceitar, dizia, que alguém apoiasse ou falasse em favor desse tipo de ideia.

O carro se aproximava da porta do meu prédio, a conversa tinha enveredado para coisas sobre nossas famílias, os filhos dele e rumos da vida. Antes de me despedir, perguntei:

– E o que o senhor pretende fazer depois de novembro?

– Eu vou embora, menino. Tenho uma terrinha lá na Paraíba, tudo ajeitado. Já estou em São Paulo há 52 anos. Agora vou pegar minha velha, meu mais novo e vamos morar por lá. Planto uma coisa ali, consigo outra lá, vou montar uma lanchonete na cidade pro meu filho. Isso aqui não dá mais. Isso aqui vai virar guerra e eu já tô cansado. Estou me desfazendo desse táxi aqui e dia 4 eu vou me embora.

– Bom, então boa viagem. E boa sorte para nós todos.

– Obrigado. Fica com Deus aí garoto.

Subi o elevador, beijei minhas filhas e minha esposa. Tomei um banho, desfiz as malas e fui para o quarto. Deitei em minha cama. Era tarde. Talvez, tarde demais.

Quando já não escuto os pássaros

Estacionei a bicicleta por um minuto ou dois porque minha atenção foi capturada por aquele som. Olhei para o alto, mirei os menores galhos das árvores que se projetavam até o outro lado da rua e tentei encontrar o pássaro que cantava daquele jeito, aquele canto que nunca havia escutado.

Não foi a primeira vez que me vi interrompido por um pássaro. Minha vida toda foi assim, mas só recentemente me dei conta desse comportamento involuntário. E admito que comecei a desfrutar esses pequenos momentos.

Por motivos de hereditariedade, trago essa mania de meu pai. Andando na rua, pedalando, parado numa mesa de restaurante, basta que um passarinho comece a piar nas redondezas e minha atenção se desvia. Diferentemente do meu progenitor, no entanto, não sou capaz de distinguir raça, estilo ou gênero dos bichos. Meu pai nasceu com a base de dados da Grande Enciclopédia das Aves implantada em seu cérebro, com aquele tipo de ouvido absoluto para pios e cantos, de forma que balbucia “É um Curió” à meia-voz quando um desses se manifesta. Eu, enquanto isso, mal posso distinguir o chamado do Sabiá de um Sanhaço. Mas, escuto passarinhos e tenho um prazer contido em deixar a mente ser levada por um instante na direção daquele som.

Há um grande campo ao lado do prédio onde moro e às vezes, enquanto escrevo durante a madrugada, posso escutar uma revoada de centenas deles nas copas das árvores. Já cheguei também a gastar uma hora ou mais sentado em um parque, observando pássaros reunidos em pequeno lago e depois ser presenteado com seu voo desordenado até que finalmente se agruparam e voaram sobre minha cabeça naquela formação em M e migraram para o oeste. Em outra ocasião, estacionei minha bicicleta no meio da Cidade Universitária para poder ouvir, por cinco minutos, o canto de uma espécie que me era nova.

No fundo, isso não me diz nada. Não há uma mensagem aqui, uma moral, não há contemplação programada, é só um hábito meu, quase instintivo, de escutar aquele som por um tempo e seguir adiante pelo dia. Mas há uma coincidência que envolve o estado de espírito em que tais ocasiões ocorrem.

Porque há, no entanto, períodos em que meus ouvidos se fecham. E eu passo pelas mesmas ruas, caminho pela mesma via e ando com a Lucy pela calçada e sento nas mesmas mesas, mas só ouço os ruídos de sempre, as vozes, motores, as mensagens em minha mente sobre o que se deve fazer agora, sobre os compromissos de amanhã, os conflitos políticos, a crise, sobre as preocupações, martelando um turbilhão de afazeres que parece não ter fim. Já não há passarinhos cantando quando o fluxo da rotina se converte na inércia em que me permito habitar, quando a vida é só existência, quando a rotina perde seu encanto e vira repetição tola.

Nem chego a buscar um antídoto porque não noto tais desvios. Fica lá dentro aquele incômodo, fica a sensação de que tem algo errado, algo faltando na vida quando me permito viver nas condições em que há coisas demais, há estímulos em excesso, quando falta o ócio necessário, não há música, não há brisa e não sobra espaço para eu poder me distrair.

É quando outros cantos também silenciam. Quando brincar com minhas filhas no chão da sala vira só obrigação paterna e não a hora mais legal do dia, quando as “surras de cócegas” antes de dormir duram um calculado minuto e não uma era inteira, quando a saída de casa pela manhã para ir à escola vira pressa, só pressa e uma pressão para que elas se arrumem logo, para que comam logo, para que andem logo e o carro fica em silêncio até chegar ao colégio. É quando o café da manhã em casa com a Manu vira só o tempo para resolver pendências e não os momentos para dividir nossos sonhos. Para mim, os dias sem distração são os mais frios e distantes. Nos dias em que a mente não tem espaço para vagar pelo nada, é o tempo em que o corpo se distancia do momento e sinto que eu deixo de estar presente para aqueles a quem mais amo.

(…continua no site do Estadão)

À prova de desapegos

Um pequeno baú de madeira com cartas de amor manuscritas e alguns desenhos feitos pelas meninas, uma caixa de papelão com álbuns de fotos da era não-digital, uma dúzia de livros, cadernos usados e uma embalagem cartonada com dois carrinhos arranhados, um Playmobil careca e um apito velho. São esses os objetos que me vem à mente sempre que surge a ideia de que um dia minha casa possa ser tomada por um incêndio e eu precise abandoná-la à pressas.

Nenhum eletrônico, nem jóias, nada de dinheiro, documentos ou a escritura da casa (mas pensando bem, seria útil considerar levar ao menos a apólice do seguro residencial). Penso apenas nesse conjunto de papéis velhos e pedaços de madeira e plástico pelos quais ninguém lá na rua me pagaria dez reais, mas carregam um tesouro que pretendo guardar até o fim. A seu modo, são pedaços da história, um tipo de prova de momentos que gostaria de recordar adiante e que não posso confiar na memória para preservá-los. Uma espécie de museu particular.

Quando abri o jornal na semana passada e li sobre o incêndio que atingiu o Museu Nacional no Rio de Janeiro, o sentimento de perda foi um pouco esse que mencionei acima. Gosto de museus muito mais pelo significado e contexto das peças expostas do que por seu valor ou raridade. Daí a preferência familiar, quando viajamos em férias, pelos museus de história, ruínas e monumentos arquitetônicos.

Hoje, é triste constatar que viraram cinzas as tantas relíquias dos tempos de nossa história que não chegamos a testemunhar, as últimas provas da existência de povos que se extinguiram, as memórias da trajetória nacional que se perderam para sempre. Porque todo museu é um compêndio de narrativas que podem ser contadas, uma espécie de janela no tempo para que possamos contemplar e reviver as riquezas que já fomos capazes de edificar.

(… continua lá no site do Estadão)

Cenas urbanas – No táxi

#1

– De onde você é? – perguntou o motorista quando entrei no táxi.
– Sou do Brasil. E você?
– I’m from India. Mas já vivo aqui em Nova York há mais de 10 anos.

Passava das onze da noite, eu voltava de um jantar para o hotel e, depois de um dia inteiro trabalhando, só queria um banho quente e uma cama. Mas, nunca resisto à tentação de dar corda em conversas com pessoas de lugares diferentes de onde vivo.

– Você conhece o Brasil? – emendei.

E para minha surpresa, ele respondeu que sim.

– Sim, conheço. Já fui muito ao Brasil.
– Rapaz, sério? – okay, eu não disse “rapaz” em inglês – que cidade você conheceu?
– Ah, algumas. Eu trabalhava em uma empresa de engenharia aeroespacial. Ainda sou da área. Trabalho como motorista para complementar minha renda. Conheço São Paulo, Rio de Janeiro, já fui à Bahia…
– Que interessante. E o que você mais gostou de lá?
– Oh man, eu adoro o Brasil. Na verdade, acho seu país muito parecido com o meu. As pessoas são calorosas e a comida tem um tempero parecido também.

Eu ia discordar, mas como nunca estive na Índia, fiquei quieto. E ele, cada vez mais empolgado, continuou:

– Mas o que eu mais gostava no Brasil era uma bebida a base de cana. Eu bebia um copo de meio litro todos os dias.

“Cachaceiro”, pensei, “desse jeito não é difícil confundir pastelzinho com samosa”. Mas resolvi conferir:

– Meio litro de cachaça? Really?
– Não! Cachaça, não. Era outra bebida. Queria muito lembrar o nome. Eles fazem na rua, com um motor. Pegam a cana inteira e moem ali mesmo na sua frente. E aí sai um suco que misturam com limão, com abacaxi, côco.
– Garapa?
– Isso! Isso! Garapa! Oh my God, I love garapa!

(…continua lá no Estadão)

Papel passado

Não tem nada a ver com minha viagem recente, mas o fato de ter voltado de lá há pouco mais de dez dias me fez lembrar de uma notícia que li no The Guardian por esses dias a respeito de um carteiro italiano que foi preso após a polícia encontrar em sua casa cerca de 400 kg de cartas não entregues. Segundo o próprio, ele ficou três anos sem entregar as correspondências como forma de protestar contra o baixo salário que recebia.

Me espanta saber que na era do WhatsApp e outros mensageiros, quando o fax já desapareceu e até o e-mail já é dado como morto, ainda exista tanta gente que se encarregue de postar cartas à moda antiga. E há quem entregue. Chego a suspeitar do motivo real do Jaiminho italiano, acreditando que pretendia, no fim, tentar provar o valor e sua função. Ou talvez seja ele um nostálgico, entusiasta da velha arte da escrita à mão, temendo pelo fim do meio em que atuava.

Ano passado, durante uma semana de férias no interior, fui com a Nina a uma agência de correio.

(… continua no site do Estadão).

Vim. Vi. Venci?

toscana

Vi que falta um texto por aqui. Faltam três, na verdade. Preciso atualizar meu blog aqui no jornal há três semanas, mas não consigo escrever nada durante as férias.

Curiosamente, os lugares com mais paisagens e experiências que supostamente deveriam ajudar a me inspirar, sempre são onde me sinto bloqueado.

Deveria escrever um pouco todos os dias, tal como recomendaram meus mestres. Mas acho que sou preguiçoso demais. Ou indisciplinado. Ou sem talento. Combine como preferir.

Estou em Roma agora. Sonhadas férias em família. Passamos antes por Veneza, por uma praia no mediterrâneo, Florença e por uns vilarejos na Toscana. Até a Lucy, nossa cadela que ficou em casa, escreveria um poema se estivesse aqui. Eu não.

Mas eu vi, semana passada, um pôr do sol enquanto estava recostado em uma mureta no alto de uma colina, de mãos dadas com a Manu, que valia por um soneto. As meninas brincavam de qualquer coisa ao nosso redor enquanto o mar castigava de leve as rochas logo abaixo e ouvíamos aquele som do vai e vem das ondas. No horizonte, a luz amarelo-alaranjada se impunha no céu e tingia todo o mediterrâneo de dourado. Ficamos ali, afortunados com a beleza daquela imagem, até o crepúsculo.

Eu vi também o sol nascer atrás de uma montanha da Toscana enquanto dirigia por uma pequena estrada vicinal. E sua luz iluminou plantações de uva, casas, construções medievais, campos de girassol e meus olhos que se encheram de lágrimas por poder contemplar aquela imagem.

Eu vi, com olhos incrédulos e míopes, telas de Michelângelo, Caravaggio, Da Vinci e tantos gênios que passei a crer na possibilidade de que Deus tenha marionetes nessa Terra em cujos ouvidos às vezes sopre ideias para dar vida à sua criação.

Eu não vi um jogo do Brasil contra o México durante a Copa, mas escutei a partida num rádio, sentado no alto de um morro de uma fazenda enquanto observava as meninas brincarem em uma piscina lá embaixo e comemorava contido os sofridos gols de Neymar e Firmino que recompensaram o sacrifício.

E depois eu vi, das cenas mais lindas, quando a Nina me pediu para brincar com ela na piscina e nadamos juntos até uma pequena cascata e ali, atrás da cortina de água, a luz refletia em seu rosto e seus olhinhos brilhantes de onze anos voltaram a ser os olhinhos de um ano. Aquele olhar, aquele de quando ela me encara sorridente como se aquilo ali, aquilo que vivemos no instante, bastasse. E para mim, basta. E pedi a Deus para não me deixar esquecer aquele momento nunca mais.

Eu vi o Brasil perder para a Bélgica por 2 a 1 em full hd, mas preferia não ter visto.

(… continua no site do Estadão – peço desculpas, mas por questões contratuais, não posso publicar os textos na íntegra por aqui).

Bola dividida

Alimento pelo futebol o mesmo tipo de amor platônico que tenho pela música. Aquela admiração distante de quem um dia vislumbrou um relacionamento íntimo mas precisou se conformar com a contemplação como forma de contato com o alvo de seu afeto.

Sempre fui ruim de bola. Quer dizer, eu seria feliz se fosse apenas ruim de bola. Talvez seja boa ilustração mencionar que o ápice de minha carreira futebolística foi quando me tornei o zagueiro titular da categoria Dente-de-Leite do time do meu bairro, aos dez anos de idade, época em que ainda alimentava o inocente sonho de um dia me tornar jogador profissional enquanto suava sob o olhar rígido do Moleza, um morador do bairro que nos finais de tarde se propunha a desempenhar o papel de técnico da criançada. A equipe tinha um nome oficial e dois jogos de camisas, mas era mais conhecida como o Time da Rua de Baixo (ainda que muitos garotos de outras ruas que não eram a “de cima” também treinassem ali).

Agora, me diga você: no duro, que menino sonha em ser zagueiro? Em uma década que tínhamos Careca e Romário brilhando em campo com gols memoráveis já era de se compreender que ambicionar o posto do Ronaldão ou do Aldair era um sinal evidente de admissão de fracasso e um certo conformismo disfarçado atrás do sonho. Sinal que só eu não enxergava. Eu e o Moleza, que na ausência de mais voluntários para a posição, me escalava também na categoria Fraldinha (todos os outros garotos, das ruas de cima, ao lado e mais abaixo, queriam ser centroavantes).

Cresci e tornei-me um adulto conformado com o fato de que não teria, na vida, um próspero relacionamento com os gramados. O que não quer dizer que tenha abandonado a torcida eufórica, os jogos do meu time e o prazer contemplativo, quase invejoso quando observo que alguém é capaz de desempenhar o que não fui.

Nick Hornby escreveu no livro Febre de Bola a definição dessa relação platônica do torcedor com seu time:

“Se tem uma coisa de que tenho certeza sobre ser torcedor, é a seguinte: não se trata de um prazer de segunda mão, apesar das aparências, e aqueles que dizem que preferem fazer do que ver não entendem nada. O futebol é um contexto no qual ver se torna fazer — não no sentido aeróbico, porque é bem improvável que ver um jogo fumando que nem um condenado o tempo todo, depois sair pra beber e ainda ir pra casa comendo umas batatinhas fritas possa transformar alguém na Jane Fonda, algo que correr pra cima e pra baixo num campo de futebol é capaz, supostamente, de fazer. Mas, quando acontece um triunfo de algum tipo, o prazer proporcionado não irradia dos jogadores até chegar a nós, no fundão da arquibancada, já como um eco diminuído da sensação original; nossa fruição não é uma versão aguada da que têm os jogadores, embora eles é que marquem os gols e subam os degraus de Wembley pra encontrar a princesa Diana. O júbilo que sentimos em ocasiões assim não é uma celebração da boa fortuna dos outros, mas da nossa; e, quando há uma derrota terrível, o sofrimento que nos envolve é, na verdade, autopiedade, e qualquer pessoa que queira entender como o futebol é consumido deve entender isso, acima de tudo. Os jogadores são meramente nossos representantes, escolhidos pelo técnico em vez de eleitos por nós, mas ainda assim estão lá nos representando (…)”.

A cada quatro anos, durante a Copa do Mundo, volto a ser menino. O moleque plantado na beira do campinho de terra, a bola esfolada sob o braço, esperando para jogar e levar o Time da Rua de Baixo a mais uma vitória gloriosa (sim, como zagueiro e, não, não era comum vencermos).

(… continua no site do jornal)