O livro chegou

Amigos, meu livro saiu hoje. E já está à venda numa livraria perto, mas tão perto de você, que é só clicar em um dos links, baixar e já começar a ler ;-)

Por enquanto, ele estará disponível em formato ebook e você consegue ler no seu celular, tablet, computador, Kindle, Kobo ou Nook.

Se por amizade, curiosidade ou para ter alguma coisa para usar contra mim no futuro você chegar a ler, por favor, me conte depois o que achou, tá bom?

Aqui vão as principais lojas:
– Amazon: para ler, baixe o app do Kindle no seu aparelho e quando fizer a compra pelo site da Amazon, ele sincronizará automaticamente https://goo.gl/10K2lo
– Google Play (Android): compre o livro pela loja e leia no aplicativo Google Play Livros do seu Android https://goo.gl/JjCfe7
– iBooks (iPhone/iPad): no próprio aplicativo de leitura do iPhone ou iPad você pode fazer a compra e começar a ler
– Tem nas outras lojas também (Kobo, Saraiva, Livraria Cultura etc.), é só buscar pelo título do livro

Abraços!

Enquanto a gente se distrai, o tempo foge

Amigos, estou lançando meu primeiro livro.

Desde criança, gosto de escrever. Acho que sempre foi o jeito que encontrei para entender, organizar e expressar os pensamentos. E acho que não tenho muitas lembranças da infância em que eu não esteja com uma bola, um livro ou lápis e papel no bolso.

(Considerando minha desastrosa virtuosidade com a bola nos pés, restou a esse falido gandula passar as tardes mergulhado em histórias e jogando com palavras).

E o livro é mais um jeito de juntar algumas dessas ideias em uma coletânea de crônicas que tem como temas centrais a paternidade, o cotidiano e espiritualidade.

Estará nas lojas semana que vem, em formato ebook (editado pelo Tiago Ferro e equipe na e-galáxia), terá essa capa bonita da imagem abaixo, com o título “Enquanto a gente se distrai, o tempo foge” estampado numa bela arte criada pelo Dogura Kozonoe.

No dia do lançamento, posto mais detalhes por aqui. O que eu queria agora era poder compartilhar e comemorar essa novidade com vocês que sempre fazem a gentileza de ler as bobagens que escrevo :-)

Até!

 

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Sobre as nuvens

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Não gosto de aviões. Não tenho medo ou qualquer problema, só não aprecio a experiência enlatada e pressurizada da aeronave. Meu nariz entope, meu nariz escorre, minha garganta seca, faz frio demais, meu joelho não cabe direito na poltrona, a comida tem gosto de plástico e, pior de tudo, sou obrigado a sentar mais perto de um desconhecido do que minha bolha social geralmente tolera, por várias horas. Estou em um avião agora.

No entanto, adoro voar. E mesmo tendo que fazer isso diversas vezes nos últimos anos em função de compromissos de trabalho, sempre me encanto com a ideia de estar no céu, flutuando acima das nuvens, me deslocando de um lugar para outro no planeta, como se o mundo e a vida acontecesse lá embaixo e eu apertasse o botão “pause” por algumas horas, alheio à tudo, apenas observando essa existência.

Passo um tempão olhando as cidades, os prédios, as longas rodovias, as florestas, os filetes de rios, o mar se estendendo até a linha do horizonte onde parece encontrar o céu em que estou. No exterior, às vezes eu fico observando os picos das montanhas cobertos de neve. Lugares onde jamais pisei e onde talvez ninguém jamais tenha pisado também, mas que contemplo de uma poltrona. Lugares por onde já passei, mas nunca conseguiria olhar por essa perspectiva.

O mundo é grande demais, eu penso. A Terra é uma massa deslumbrantemente linda e vibrante. E nossa rotina – a rotina de todo mundo – parece bem pequena aqui do alto.

Lembro de certa vez, no começo da minha carreira, em que estava sentado com a Vania, minha chefe, durante o almoço para dividir um problema de trabalho. Era algo bem sério para mim e eu não sabia como resolver.

“Tá vendo aquele quadro ali, Rique?”, ela apontou para uma tela pendurada na parede do restaurante, onde se podia ver uma paisagem bucólica com algumas casinhas num vilarejo de campo. “Sim. O que tem?”, perguntei. “Pense que seu problema é uma daquelas casas ali. Para quem está nelas, aquilo é tudo o que eles tem, é tudo grande e complicado. Mas quando você sai dali e olha por outro ângulo, olha assim de cima, como estamos vendo agora, a verdade é que o problema fica pequeno demais. E você vê que não é tão grave até observar o que tem em volta e além dele”.

Toda vez que olho pela janela do avião, aperto o “pause” e lembro daquela conversa. Enquanto flutuo sobre as nuvens, começo a pensar na vida, na relatividade do tempo, nas minhas coisinhas lá embaixo. Penso na grandeza de Deus que compõe esse universo e em sua sutileza e cuidado com os detalhes da minha existência.

E a vida então se torna uma coisa grande demais para se resumir ao que meus olhos enxergam. Ela se preenche dessa dinâmica mágica, desse ir e vir, do piscar de luzes, do pão de cada dia, de chorar e sorrir, do correr atrás do vento, dos ciclos que percorremos em volta do sol. O sol. Que depois da noite escura, sempre volta a brilhar no céu.

Manias completamente inviáveis para esse momento da vida

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Comecei a dar fim às minhas manias. Acho que foi há mais ou menos um ano, quando me peguei num dilema tentando decidir se organizava os aplicativos do meu celular por ordem alfabética, em sequência gradual de cores ou por assuntos (e sendo por assuntos, como classificá-los então? O que colocar em pastas e o que simplesmente deixar como ícone na tela?). De repente, notei que estava travado nessa questão idiota e meio que resolvi dar um basta.

Não que eu tenha deixado de organizar as coisas, todas as coisas, um pouco além da média, mas desde então venho desafiando minhas manias, tentando confronta-las até o ponto em que consiga viver normalmente sem aquele antigo hábito. As camisas, por exemplo, eu já não organizo por ordem de cores. O mesmo com as calças, que também ficavam em cabides na sequência do jeans mais claro para o mais escuro no final ou as camisetas que eram colocadas em pilhas pre-determinadas por cores, assunto, estampa e textura nas gavetas. Agora, eu praticamente virei um rebelde. Misturo tênis, sapatos e chinelos sem a preocupação de deixar os mais formais de um lado e os informais do outro. Agora eu guardo pijama junto com bermuda, penduro o boné junto com as gravatas, deixo a gaveta fechar com uma beiradinha de tecido sobrando para fora e já consigo ter mais roupas – uma peça ou duas – além do limite estritamente necessário ao qual me condicionava.

Pode parecer tudo muito idiota para você. Mas acredite, é tudo muito idiota para mim também. No entanto, tem sido uma conquista significativa vencer essas barreiras nas quais eu empacava vez ou outra. Em parte, atribuo minha nova fase ao tal dia que comentei acima em que travei com o celular nas mãos, mas há uma grande carga de responsabilidade pesando sobre um cara que trabalha lá no escritório. Porque outro dia, estávamos voltando de uma reunião quando comentei, meio brincando, sobre como catalogava meus livros por temas e interesses. Na hora, ele se entusiasmou:

– Eu te entendo! Sou assim também. E aquele lance de gastar as solas dos sapatos por igual, você também tem?
– Oi?
– É, o sapato tem que gastar a sola por igual!
– Não, eu…
– E deixar as calças penduradas com as barras viradas na mesma direção? E guardar os sapatos com os cadarços dentro?
– Hum, eu não…
– Você também bebe café com a mão esquerda, né? E abre a porta do banheiro usando papel para não contaminar as mãos?

E o cara despejou ali, na minha cara, outras seis esquisitices que eu ainda não conhecia. Mas no momento em que parei para pensar que todas elas soavam como excelentes ideias para incorporar, me dei conta de que não, eu não queria, definitivamente, continuar com aquilo. E foi o segundo basta que me estabeleci.

Primeiro, porque isso me daria um trabalho danado e confesso que não tenho tempo para assimilar novas manias em minha atribulada rotina, por mais tentadoras que sejam. Segundo, porque eu assinaria um atestado de TOC e precisaria começar um tratamento sério e tudo (e convenhamos, ninguém quer ter a doença que o Roberto Carlos tem). Terceiro, porque preciso parar com essa mania de listar as coisas em ordem numérica. E quarto, porque essa é uma doença inviável no meu momento atual de vida — porque meu momento atual de vida inclui ser o único homem numa casa com três mulheres e uma cadela. Todas elas, as quatro, absolutamente, absurdamente, completamente bagunceiras. De pouco adianta você querer alimentar suas velhas manias ali, sossegado, num apartamento modesto, quando todo o ecossistema ao seu redor é o caos instaurado na Terra. Tentei fazer delas pessoas mais parecidas comigo (coitadas), mas a chegada do furacão Lucy ha três anos e de Cecília, a tempestade ruiva, sacramentou o fim dos meus planos. Hoje, há peças de LEGO por todos os lados e o assoalho de madeira da sala se tornou um ladrilho multicolorido.

Então, desisti de minhas manias. Uma a uma, comecei a elimina-las. Já não organizo a área de trabalho do computador diariamente, já não me incomodo de ter uma ou duas folhas de papel sobre minha mesa (três já é demais, certo?), deixo meus tênis jogados num canto da sala durante o fim de semana e até largo a toalha molhada sobre a cama de vez em quando (de propósito, só de maldade, por uns 15 minutos, aí eu vou lá rapidinho e estendo no banheiro). Minhas camisas até estariam refletindo algum novo conceito de diversidade de cores não fossem todas elas azuis, e tenho me permitido deixar as coisas como estão, deixar os cabides virados para lados diferentes, tenho deixado a Manú ocupar o meu lado na pia do banheiro com escovas de cabelo, cremes e maquiagens e deixado a Nina fuçar nos meus livros e guardá-los na estante fora da ordem original.

Mas, o mais importante, é que tenho deixado de me preocupar obsessivamente com a quantidade de coisas que ainda tenho para fazer e as listas infinitas de tarefas e projetos. Joguei fora uma tonelada de pesos que carregava desnecessariamente em minha consciência. Fiz uma única lista, mental, das manias que preciso eliminar em minha vida para ser uma pessoa mais leve. E descobri, de repente, que agora estou aqui travado em uma nova obsessão: a mania de eliminar manias.

Vem aí!

O primeiro livro deste que vos tecla :-)

Darei mais notícias em breve por aqui (ou, se preferir ser alertado por e-mail, digite seu endereço na caixa de cadastro aí na barra lateral).

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Está tudo ficando velho

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Está tudo ficando velho. Cada vez mais cedo, tudo fica obsoleto.

Já percebeu? O DVD, que tanto celebramos e comprávamos em caixas bacanas para dar de presente ou assistir em nossos home theaters, já ficou velho (“home-o-quê?” pergunta minha filha enquanto me embanano em pronunciar “theater” apropriadamente). O CD também ninguém usa mais. Fitas cassete são objetos de análise em vídeos na internet em que se mostram coisas para crianças que elas nunca viram na vida. O vinil sempre foi velho e continua sendo velho hoje. E o Blu-Ray, já viu? Tenho pena do Blu-Ray, porque, no fundo, nunca foi novo. O Blu-Ray é o Benjamin Button das mídias e pode até ser que um dia, de tão velho, fique novo.

Eu estou ficando velho. Quando comecei a escrever o primeiro rascunho deste texto, uma ideia solta num papel, lá em 2015, eu tinha feito aniversário há dois dias. Estava ficando mais velho e essa questão me ocorria então. Hoje, estou mais. As costas doem se não durmo na posição certa e com um travesseiro entre os joelhos, minha barba tem vários fios prateados, voltei a usar óculos em tempo integral e pessoas de 18 anos, que durante a minha infância eram o ponto alto da vida adulta antes de alguém se tornar definitivamente velho, agora me chamam de tio.

O leite de hoje é longa vida mas dura cada vez menos, um centroavante se aposenta com menos anos do que eu tenho de idade, os aparelhos de TV só duram o intervalo entre uma Copa do Mundo e outra (antes, eram vendidos com garantia estendida por três edições), nossos celulares cheios de recursos que adoramos ostentar mas nem chegamos a usar ficam ultrapassados em poucos meses, o pãozinho já sai da padaria vencido, nossas amizades duram a eternidade de um clique, uma curtida e acabam ao primeiro comentário mal interpretado.

A verdade é que nada mais é feito para durar. Fabricamos produtos para que fiquem velhos o quanto antes. E fazemos isso de propósito. Estamos em uma sociedade de consumo. Nunca falamos tanto em sustentabilidade e em salvar o planeta, mas na contramão dessa discussão, nunca produzimos tanto lixo. Tudo é materialista e imediato.

A Cinira, que trabalhou aqui em casa por alguns meses, quando me via descartando um produto com prazo de validade vencido, costumava dizer: “Sêo Henrique, joga fora isso não. O que vence é a embalagem, não o produto”. Mas infelizmente a gente vive numa sociedade em que a embalagem vale mais do que a essência.

Vivemos a era da obsolescência.

Tudo precisa ficar velho logo para que possamos nos preocupar em consumir o item de série mais novo. Porque vendemos a juventude como ideal. Note que essa é a única época na história da humanidade em que envelhecer é ruim. Até pouquíssimo tempo, velhice era sinônimo de sabedoria e maturidade. Pessoas viviam menos anos do que hoje, mas compreendiam e desfrutavam das etapas e ciclos que a vida lhes impunha. Objetos e itens de alto valor eram os que duravam muitos anos. Geladeiras, carros, calças jeans, relógios… o que tinha valor era o que se mantinha funcionando por 20 ou 30 anos.

Há coisa de dois anos, enquanto acompanhava a Manú em uma consulta durante a gestação da Cecília, sua médica comentou que, com frequência cada vez maior, ela atendia mulheres de 50 anos pedindo por algum tratamento que as ajudasse a engravidar. E não o fazem porque sonham em formar mais um ser humano em nosso mundo, mas porque desejam reviver (ou prolongar) um período da vida em que já não estão. Elas têm tido filhos mais novos do que seus netos.

Pela primeira vez, os jovens têm mais conhecimento do que os velhos. Em média, um garoto de 25 anos já recebeu durante seu período escolar e a universidade mais informação do que um homem de 65 anos consumiu durante toda sua vida. E o mundo todo tem na juventude – e em sua inquietude – um ideal de vida a seguir.

Nossa sociedade tem se definido pela efemeridade, nada mais é feito para durar. O problema não é o novo ser legal (porque inovar e repensar as coisas é algo bom), o problema é o velho se tornar lixo automaticamente tão logo algo diferente apareça. Nos tornamos viciados em novidades e em viver novas experiências e sensações.

Meu medo é porque isso está extrapolando o consumo. Temo que estejamos sendo consumidos por esse ideal e transferindo o obsoletismo para outras esferas de nossas vidas. Nossas relações já não são tão duráveis, nossas crenças são superficiais, nossa antiga confiança em sistemas, pessoas e instituições agora são frágeis conexões e os elos tão sólidos que tínhamos estão se tornando cada vez mais relativos.

Nossas vidas agora passam como timelines e tão fácil quanto estabelecer novas conexões também é desfazê-las. E relacionamentos acabam com um clique. Em uma cultura em que nada mais é para sempre e tudo é “para ontem”, vem a reboque a falta de paciência, a intolerância, a ansiedade e o lance todo vira um ciclo vicioso, porque sabemos o que não queremos mais, rompemos e deixamos de curtir o que nos atraiu na semana passada porque o que vale é o agora, mas ainda não sabemos ao certo o que queremos colocar no lugar.

Sem essas bases, também nos questionamos, nos sentimos frágeis, obsoletos e perdidos. Há um efeito bumerangue na forma como tratamos o mundo, porque passamos a ser vistos – e também a nos ver – com o mesmo espírito de intolerância e obsoletismo. A embalagem tem valido mais do que o produto.

“Você é uma coisa que todo o universo está fazendo no mesmo sentido em que uma onda é algo que todo o oceano está fazendo”, disse Alan Watts certa vez. Há raízes que precisam ser preservadas, há elos que devem ser reforçados, há princípios sobre os quais erguemos nossas bandeiras e valores que devem ser mantidos. Estou longe de ser conservador, mas me apego a ideia de que a vida precisa de certas bases para crescer e se sustentar, de que há ciclos que precisam ser respeitados, de que é preciso lançar sementes hoje para se colher frutos na próxima estação, de que o tempo, por mais que nos esforcemos, não muda seu ritmo. E quando os elos que nos unem se tornam frágeis e se rompem, perdemos algo fundamental em nossa identidade: o sentido de pertencimento.

Acredito mesmo nisso, na ideia de que só compreendemos quem somos de fato quando entendemos que pertencemos a uma comunidade, a uma família, a uma raça e sobretudo a um Deus que nos sustenta, nos ama e nos criou à sua imagem. Um Deus que se define como amor. E o elo fundamental que nos une é o amor.

E amar não é possuir, amar é pertencer. O amor não é efêmero, ele é paciente. O amor não é fugaz, ele é um velho maduro e sábio que se fortalece em sua capacidade de atravessar inabalável o tempo.

– Amor?

A Manú me interrompeu há pouco, enquanto escrevia alguns parágrafos acima.

– Oi.
– O que você está escrevendo?
– Um texto sobre obsolescência, o fato de as coisas estarem ficando velhas cada vez mais cedo e como isso afeta as…
– Lê pra mim?
– Tá bom.

Eu leio até a palavra “timelines”, onde parei.

– Gostei. Posta?
– Ainda preciso terminar, acho que ainda estou só na metade.
– Termina então. E poste logo. Poste hoje.
– Haha, tá bom.
– Antes que fique velho.

Tudo o que importa agora

Era só o que importava agora, só para isso ou aquilo outro é que dedicaria seu tempo e sua atenção, ele dizia a si mesmo. Entre uma enxadada e outra na terra, pensava que não havia mais espaço para superficialidades. A vida, de repente, exigia um exercício de foco. No turbilhão das coisas, no ápice da época de colheita e negociação da lavoura, estava se dispondo a dizer não, a cortar pesos desnecessários e se concentrar no essencial. Ele dizia.

Saiu do campo mais cedo naquela quarta-feira, almoçou com as crianças em casa, fizeram a lição de casa juntos, ensinou a mais velha a andar de bicicleta no quintal dos fundos, brincou com a menor no chão da sala, deu uma laranja espremida para o caçula. Tomaram leite com chocolate no lanche da tarde, jogaram juntos a um jogo de tabuleiro antigo, esperaram a mãe chegar da cidade, já de banho tomado. Tocaram-se. Colocaram os meninos na cama antes das oito, estouraram pipoca e assistiram àquele velho filme, o favorito dela, outra vez, antes de dormir.

A vida exige essas coisas, ele dizia. Porque ele precisava, não porque merecia. Ele pensava tudo, no seu turbilhão de lucidez, enquanto ajeitava a coberta e sentia sua garota se acomodando em seu braço para dormir, ela passava os dedos nos pêlos do seu peito, ele ajeitava a mão sob a nuca, mirando o teto do quarto. Não fomos feitos para viver essa loucura a que nos submetemos, de sol a sol, não temos fôlego para o tanto a que temos nos sujeitado, é preciso parar, fazer pausas e refletir. “Preciso fazer escolhas sábias. É o que preciso fazer, boas escolhas”. Ele queria plantar algumas sementes que dessem frutos saudáveis. Na semana que vem as crianças já não serão crianças, nossos corpos já não terão o mesmo ritmo, o tempo é escasso para realizar tantos planos. Certamente. Tudo o que importava então era não perder aquilo, o sentimento de que a vida toda às vezes se coloca ao alcance dos dedos e é preciso agarrá-la para que não escape no tilintar das horas.

Pela janela entreaberta, entrava um feixe de luz da lua. Na penumbra, ele olhou para o vulto da sua mão direita espalmada à frente do rosto.

“Amanhã…”, ele pensava. Piscou. Cochilou por um segundo. E acordou assustado, lembrando que precisava levantar uma hora mais cedo para garantir que estaria no campo à cinco.