Só queria que as eleições fossem Copa

“Antigamente as coisas eram piores. Mas foram piorando” (Paulo Mendes Campos).

Naldo queria que as eleições fossem Copa do Mundo. Desejava que passado o jogo derradeiro, fosse bom ou ruim o resultado, que o povo se juntasse na segunda-feira para se recompor e seguir de novo a rotina, festejando a glória de mais uma taça ou compartilhando a fossa e o consolo de um ombro amigo. A euforia tem seu fim, o poço chega ao seu fundo, mas o dia seguinte estaria logo ali e a vida seguiria, com a temática do noticiário e nas conversas finalmente adquirindo outras cores. Mas Naldo vem dizendo que a vida segue em piorar, que as últimas semanas pareciam uma prorrogação sem fim desde que seu candidato nem passou do primeiro turno.

Dani queria que as Eleições fossem Carnaval. E o dia seguinte, uma quarta-feira de cinzas. Dia para curar o corpo, limpar a bagunça, retomar o trabalho e seguir em frente com as energias prontas para mais um ano que enfim começava nesse país. “Só o Brasil e a China tem seu Ano Novo em outras datas”, ela brincava. Ela queria que as lembranças dos dias que antecederam fossem só festa, serpentina e que gente em passeata na avenida fosse sinônimo de samba e axé. “Muito axé”, dizia Dani. Mas as madrugadas andavam frias demais e a batucada aqui e acolá tinha som de panelaço. Seu candidato estava no segundo turno.

Plínio queria que as eleições fossem um sonho. Desses que resultam de um dia estressante. Uma noite longa e cheia de solavancos, mas com certo alívio depois de um despertar assustado e de perceber que a realidade, a boa e velha realidade com seu chão sólido, permanecia inalterada. Mas ele vivia mesmo era um pesadelo, uma interminável madrugada escura em que pessoas se afastaram, ele viu seus valores serem colocados em cheque e ele próprio se questionava se estava mesmo apoiando uma visão de mundo coerente com o que sempre lutou. Plínio votou arrependido.

Alice queria que as Eleições fossem um churrasco com bebedeira. E a segunda-feira, só aquela ressaca insuportável, arrependimento, o sentimento de ter sido pisoteada por uma manada, mas a certeza de que amanhã tudo estaria bem. Mas, a família havia brigado, o clima andava azedo, nenhum candidato a representava e no dia seguinte, repetia Alice, as coisas não ficariam bem. Ela anulou os votos, todos eles.

Alice era casada com Plínio, que era irmão da Dani, que se casou com Mônica, que era amiga de infância de Naldo, que era casado com a Isa e pai de três filhos cujos melhores amigos eram os gêmeos de Plínio e Alice.

(…continua. Crônica pós-eleitoral para o Estadão. Leia aqui no site do jornal).

O subversivo da sexta-série

Era aula de Matemática e a professora Maria Cristina 1 (você vai entender já já) entrou na aula com um recado em mãos. Na próxima terça, ela disse, faríamos o hasteamento da bandeira e cantaríamos o hino nacional no pátio da frente. O sexto ano, continuou a professora, ficaria com a incumbência de puxar o coro para as demais turmas. Aquilo virou uma euforia só na classe.

Eu tinha 12 anos e estava na sexta-série. E a professora de Matemática, talvez já antevendo que não seria exatamente na matéria dela que eu me destacaria no futuro, teve a ideia de me indicar uma outra área e perguntou se eu aceitava escrever uma redação ou poema para ser recitado naquele dia. Eu não lembro como foi exatamente que eu aceitei a sugestão, mas quando cheguei em casa aquela tarde, tinha essa tarefa em mãos.

Na manhã da terça-feira, passei algum tempo antes da aula fazendo rascunhos e terminando meu poeminha. Por alguma razão que só a adolescência explica, o texto virou uma paródia do Hino Nacional recheada de analogias e críticas ao governo e rimas bem ruins. Hoje, estranhamente, à exceção do teor, eu não lembro de nada do que escrevi.

– Luiz Henrique – chamou a professora de Matemática durante a primeira aula, toda animada – você escreveu a redação para ser lida hoje?

– Ahãm, professora – respondi – tá aqui ó.

Entreguei o texto a ela, que desdobrou a folha, leu atentamente, deu aquela virada no papel para ver se não tinha nada no verso, depois olhou pra mim com um sorrisinho no canto da boca e disse:

– Deixe isso aqui comigo por enquanto, tá bom?

Ela dobrou o papel e colocou no bolso do guarda-pó branco que usava.

Chegou a hora do hino, as classes desceram para o pátio, alguém puxou a corda para subir a bandeira, nos postamos todos em silêncio e reverência, cantamos o hino enfileirados em volta do mastro e voltamos de forma ordenada para as salas de aula. A professora não estava conosco.

Nada de me devolverem o papel, nada de me chamarem para ler o poema (e, poxa, a turma toda sabia que eu iria falar e ficou me pressionando…), nada de falarem qualquer coisinha a respeito, até que…

Até que perto da última aula, a inspetora do corredor abriu a porta da sala e avisou que eu deveria me dirigir até a diretoria do colégio e procurar pela Dona Fulana, coordenadora do sexto ano.

– Oi, Luiz Henrique, pode sentar aqui, por favor.

Eu me sentei e vi que ela estava com meu papel em mãos.

– Foi você quem escreveu isso aqui?

– Foi, sim, Dona Fulana.

Eu, que quase nunca esqueço nomes, esqueci o daquela senhora. Ela tinha uns 587 anos de idade, usava o cabelo pintado de amarelo ocre com laquê para ficar meio enrolado no entorno de todo seu rosto e uns óculos foto-sensíveis que deixavam a lente meio esverdeada. Ela continuou:

– Você acha mesmo que nosso povo é assim? Que o país é desse jeito que você diz aqui? – e citou um trecho do texto.

– Dona Fulana, é só uma sátira. Eu quis fazer algo meio engraçado, na verdade. Mas, é sim, também uma crítica ao que eu acho que…

– Rapazinho, você é um anti-patriota?

– O quê? Eu não, claro que não.

– Menino… – ela titubeava enquanto balançava o papel na mão – é sim. Isso aqui é anti-patriotismo, garoto. Eu não vou nem falar o que… Você sabe o que pode acontecer com você se isso aqui cair nas mãos erradas? Você sabe o que pode acontecer com seus pais se isso aqui parar nas mãos das pessoas erradas?

– Eu não acho que…

– Eles podem ser presos. Você gostaria que seus pais fossem…? – ela não continuou a frase, mas eu entendi.

– Não. Mas…

– Olha aqui. Para sua segurança, isso aqui vai ficar comigo. Para a sua… segurança.

Mas, não era exatamente de temor ou proteção o tom em sua voz. Era de inquisição mesmo. E inquisição foi uma palavra que eu só aprendi anos depois, mas cujo significado entendi ali naquela mesa.

Me levantei e voltei para a classe. Do que me lembro, mesmo com a pressão dos colegas para contar o que a Dona Fulana queria (nunca era boa coisa ser chamado na diretoria), fiquei quieto a respeito por um tempo. Depois eu relatei o que havia acontecido.

Eu tinha alguma noção do que ela estava falando. Estávamos em 1992 e a ditadura militar era um assunto com o qual eu havia tido algum contato durante as aulas de História do Brasil e entendia que havia terminado alguns anos antes. No entanto, para mim isso se referia a um passado tão distante que soava ultrapassado e um pouco ridículo aquele discurso. A distância significava quase metade da minha vida até o momento e, aos 12 anos, com toda relatividade que o tempo possui na infância, eu não cogitava que a ditadura fosse algo pelo qual alguém vivo teria passado.

Tinha uma outra professora na escola, a Maria Cristina 2 (pronto, entendeu?), lecionava Geografia e era a única funcionária negra no colégio inteiro que não trabalhava na limpeza. Era sempre muito exigente e dura com todos. Ninguém na classe tirava nota maior do que 9 em Geografia.

Na semana seguinte ao episódio, ela entrou na classe, passou por mim e antes da aula começar, me chamou na mesa dela.

– Ei, menino, vem cá.

Me aproximei e ela disse:

– Que história é essa do seu poema? Eu fiquei sabendo.

– Ah professora, então, né? A senhora viu? O texto ficou lá com a Dona Fulana, ela disse que é perigoso para minha família se aquilo cair em mãos erradas. Disse que eu sou anti-patriota, mas eu não sou. Não sou mesmo.

Ela me fitou por alguns segundos e sorriu.

– Estou tão orgulhosa.

E aí, algumas coisas começaram a fazer sentido para mim. Ali, naquela sala, alguns papéis se enquadraram em uma perspectiva que eu não possuía até então. Dali em diante, comecei a notar que haviam campos e lados que as pessoas assumiam para julgar os outros, para olhar para o nosso passado, para seus próprios passados, para as histórias e jornadas das quais vinham e fazer suas escolhas sobre por onde seguiriam.

– Seu texto está comigo – ela disse. Eu pedi à Fulana para ver, disse que cuidaria disso e guardei na minha bolsa.

– Ah é? – eu ri.

– Ahãm. Posso ficar com ele?

– Pode.

– Se você quiser, tiro uma cópia e te devolvo.

– Tá bom.

Nunca mais vi aquele pedaço de papel. E confesso que não tenho na memória o que afinal de tão grave ou transgressor eu escrevi. Daquele dia em diante, a professora de Geografia me via no corredor e fazia um afago, enquanto a coordenadora a todo custo me evitava e procurava razões para me inquirir. Jamais a vi sorrir. Mas, o ponto é que as duas haviam vivido o mesmo tempo, presenciado os mesmos fatos, passado juntas pelas consequências daquele regime. Cada uma a seu modo, porém, olhavam para o mundo a partir de óticas diferentes. Talvez porque de um lado estava o oprimido que afinal era livre e, do outro, a mão pesada de quem julgava justo o rigor aplicado pelo opressor.

Existiam lados na história. Os olhares de ambas escondiam um passado que eu não conhecia, mas eram naquele momento como janelas para mim, revelando que nem todo mundo, como eu, observava aquele tempo da história olhando para trás. Aprendi a interpretar aquele silêncio. Para alguns, havia uma sombra que relembrava tempos recentes, recentes demais, algo perto demais para não sentir soprar um vento gelado quando o assunto surgia inesperadamente. Aprendi – depois daquilo e ao longo dos anos seguintes – que há momentos em que é preciso fazer a escolha por um desses lados, é preciso se posicionar, sob risco de, calados, condescender com a injustiça ao silenciarmos diante do mal.

Entre os amigos de turma, a história circulou. Fiquei famoso por um bimestre ou menos. A gente não sabia direito o que era ditadura, mas agora sabíamos o que era censura. E foi assim que a coisa foi tratada entre todos.

E eu, um nerd do sexto F, me tornei um subversivo.

* * *

Continuei escrevendo depois daquilo (a professora de Matemática tinha razão). Escrevi fanzines, panfletos, escrevi em jornais, blogs, escrevi um livro e centenas de emails para grupos de amigos. Nunca mais fui censurado em qualquer coisa que quisesse dizer – por mais que eu ainda acredite que a maior parte não merecia ser publicada, porém por outros motivos – e tenho na escrita a forma com a qual acredito poder expressar com mais clareza meus pensamentos. Mais do que isso, escrever é uma forma que encontro para colocar certa ordem nas ideias e descobrir o que penso sobre algo.

Jamais poderia imaginar que aquela repressão falada em vozes baixas pela escola e que já era um passado tão distante para mim e se tornaria um passado ainda mais e cada vez mais distante em nossa sociedade, poderia um dia retornar à pauta, voltar às rodas de conversas (agora em alta voz) trinta anos depois. Jamais imaginar que o horror do passado que assombrava uma jovem professora na minha adolescência viraria uma alternativa aceitável e um passado glorioso para parte significativa do nosso povo. Me nego a acreditar que, independentemente de candidatos ou partidos, o mal que a simples sombra disso pode representar em nossas vidas seja um assunto menos importante do que outros tópicos na agenda política deste momento.

Não sei o que se passou com Dona Fulana ou a professora de Matemática depois que saí do ginásio. A segunda Maria Cristina, eu encontrei em um estacionamento próximo à escola poucas semanas antes de me formar no Ensino Médio. Ela me abraçou e perguntou se já tinha decidido o que fazer na faculdade. Quando disse que estava em dúvida entre estudar Economia ou Publicidade, ela se mostrou desapontada. “Puxa, menino, então você vai ser mais um desses?”. Eu sorri, sabendo o que ela queria dizer e respondi que não. Até hoje, 26 anos depois, sempre que passo na porta daquela escola, a bandeira hasteada sendo balançada pelo vento me traz essa história toda à memória. Mas nunca achei que um dia ela deixaria de ser uma piada. E quase sempre, quando preciso exercer meu compromisso cívico ao votar, ao escrever, ao educar minhas filhas, ao escolher como tratar meu próximo, eu me lembro, de algum jeito, que muitas vezes é preciso decidir de que lado estou.

Vivemos hoje um momento crítico em que essa escolha precisa ser feita. Porque a questão não é apenas sobre o que acontecerá no país nos próximos anos, mas especialmente sobre o exercício de olhar para trás, para nossa história tão recente e escolher de que lado queremos ficar, de que lado estaríamos se os tempos de hoje fossem aqueles de 1964. É hora, agora, de abandonar as discussões rasas e refletir nessa questão com a complexidade que ela merece. Porque isso é muito maior do que partidos políticos, condutas e dinheiro. Falamos de uma questão moral, da nossa liberdade, de direitos adquiridos com suor e sangue sendo ameaçados.

E ainda que sejamos um só povo e um país e a sociedade inteira vá viver as consequências – boas e ruins – do resultado das eleições deste ano, a escolha que fizermos agora dará a medida do peso em nossa consciência no futuro. Porque também há fundamentos em uma sociedade que jamais deveriam ser negociados: a liberdade, a democracia, o respeito à identidade de cada cidadão, os direitos humanos, a igualdade entre homens e mulheres, o compromisso de incluir os que foram excluídos, o dever de garantir a voz aos que foram calados pela mordaça da injustiça e da opressão.

O voto é um depósito de confiança que fazemos no futuro que desejamos. Meu voto é, sobretudo, sobre o recado que quero dar a mim mesmo nos anos que virão pela frente e a satisfação que precisarei dar às minhas filhas.

Olhando para trás agora, relembrando a história daquela terça-feira em 1992, me ocorre que talvez o sentimento que habitava a consciência daquelas mulheres era o mesmo: medo. A força capaz de paralisar, de calar, de nos levar a fazer escolhas que supostamente nos preservam ou garantam a estabilidade que desejamos. Medo que é também a força que se contrapõe e cala em nossa consciência e apaga de nossos olhares a esperança.

Esperança da qual precisamos tanto nessa hora. Para poder seguir em frente apesar do frio paralisante, para resistir com otimismo e fé, para jamais negociar nossos valores mais preciosos em troca do que for, jamais perder de vista a imagem clara de que somos melhores quando somos juntos, quando somos livres, quando nos unimos e nos permitimos sonhar e semear como sociedade um futuro melhor.

(Minha crônica dessa semana para o Estadão).

Ato patriótico

Aprendi a dobrar a bandeira Nacional quando era escriturário em um banco.

Uma das minhas tarefas de rotina era recolher a bandeira do mastro no final do dia. Para tanto, havia um protocolo a ser seguido. Pelo menos foi o que Leonildo, meu chefe na época, me disse solene da primeira vez.

Na forma de retirar o mastro, de recolher a bandeira, chamar alguém para ajudar a segurar as pontas, jamais deixar cair ou raspar no chão (eu achava que um raio cairia do céu na minha cabeça ou um esquadrão da Rota apareceria atrás de mim se eu derrubasse aquilo) e dobrar, que era um ritual à parte. Primeiro, uma dobra longitudinal em toda a bandeira e depois, formar um triângulo com uma das pontas e ir juntando até ela ficar num formato triangular compacto. Sem sobras, rebarbas, sem amarrotar. Ao final, levar a bandeira repousando sobre as duas mãos, como se fosse uma bandeja – nunca embaixo da axila ou com uma mão só – e guardar no lugar apropriado.

Até hoje, não sei dizer se existe mesmo um jeito oficial de dobrar a bandeira e se é assim mesmo que se faz. Nunca busquei isso no Google para conferir se aprendi, de fato, algum gesto cívico ou fui vítima de trote. Tenho medo da resposta em qualquer dos casos – ainda que ache bonita nossa bandeira e tenha uma guardada em casa e devidamente dobrada, tal qual o protocolo, para ocasiões de Copa do Mundo. Mas sei que foi assim que o Leonildo me ensinou e assim me supervisionava diariamente.

Era preciso um certo espírito de reverência para recolher aquele pedaço de pano que ficava o dia todo pendurado ao relento em uma avenida comercial na periferia da cidade, sujeito à fumaça dos veículos, chuva e vandalismos e depois dormia em berço esplêndido no armário da nossa repartição.

– É patriotismo, menino. Tem uma lei, um protocolo para seguir.

Ele adorava a palavra protocolo.

(…minha crônica dessa semana para o Estadão. Continua lá no site)

O taxista e a ditadura

Entrei em um táxi semana passada. Era fim de dia, garoava e a tradicional puxada de assunto perguntando sobre o clima não adiantava muita coisa. Lembrei que o debate presidencial havia terminado há pouco tempo e, como eu não tinha visto, usei o tema como gatilho para uma conversa com o motorista:

– Tá na rua faz tempo?
– Não, senhor. Peguei agora.
– Viu o debate na TV hoje?
– Debate? Eu não! Não quero ouvir o que esses caras tem para falar.
– Ué, mas o senhor não vai votar?
– Voto, sim. Mas não pra presidente. Esse eu anulo. Para mim, nenhum ali presta. Eles só vão nos debates para contar mentira pro povo.
– Entendi.

Era um senhor com mais de 70 anos, negro, sotaque nordestino arrastado, um bigode ralo estampando o rosto. Insisti:

– O senhor não fica preocupado? Digo, o que vai ser desse nosso país?

Ele virou levemente o corpo para olhar para trás e respondeu:

– Menino, vai ser ruim, vai ser péssimo.
– As pesquisas dizem que vai dar Haddad e Bolsonaro no segundo turno. Eu acho preocupante.
– O PT não presta. Não voto neles nunca. E… esse Bolsonaro, esse homem… quanto anos você tem? 38?
– Tenho 37.
– É quase a idade do meu filho. Então, menino, te digo o que falo pra ele: vocês não sabem o que foi a ditadura. O povo, essa meninada agora… ficam falando que aquele tempo foi melhor, que tudo era bom. Ninguém sabe o que era aquilo. Não sabem o que era gente com medo, gente sendo torturada. Todo mundo vivia era com medo. Não sobrava só pra bandido e pobre, não. Vou te falar: sobrava pra filho de rico e filho de pobre, pra branco e pra preto. Se desse bobeira, tomava sarrafo. E se fizesse coisa errada, morria mesmo. Agora ele quer dar um revólver pra cada cidadão? Isso é uma estupidez! Se já tem violência com tanta arma na rua, imagina se tá todo mundo armado? O bandido não pensa duas vezes, ele já vai chegar atirando. Isso aqui vai virar guerra, meu filho.

Ainda que meu senso e valores pessoais dessem razão ao homem, seu discurso apaixonado só me fazia enquadrá-lo numa caixa ideológica da qual partilho e eu pensava que tinha caído no raro caso de um taxista de esquerda (considerando minhas experiências). O que dava indícios de que vinha pela frente uma conversa tranquila.

O trânsito estava parado. Ele estava ofegante e às vezes me fitava pelo espelho retrovisor. Seu sermão acalorado me fez pensar no que ele poderia ter passado nas décadas de 70 ou 80. A família, os filhos, o motivo de ter migrado para São Paulo. Emendei outra pergunta:

– O senhor falou isso tudo… O senhor sofreu muito durante a ditadura?

Ele virou o corpo todo em minha direção e me encarou por um tempo até soltar uma avalanche:

– Sofrer? Sofrer?! Meu filho, eu era policial.

Engoli seco.

Depois de dois segundos, ele continuou:

– Só eu sei o que eu fiz naquele tempo. Só eu sei o que a gente fazia por aí naquela época. Foi muito sofrimento pra esse povo.

A conversa seguiu, com ele me dando detalhes de como levavam ladrões de rua para serem torturados, sobre como atiravam ao menor sinal de suspeita (“não tinha essa de esperar ambulância no local, a ordem era atirar e já ligar pro rabecão vir buscar o corpo”), sobre métodos de tortura para estupradores e ladrões e sobre como ele foi expulso da corporação porque abordou um jovem que consumia maconha na rua e descobriu, dias depois, que era filho de alguém com patente superior que exigiu sua demissão (quer dizer, a justiça não era bem assim para todos, né?). E longe de ser alguém de esquerda, meu taxista era um conservador convicto, defensor de valores morais que o levavam declaradamente para o campo da direita. Mas ele não podia aceitar, dizia, que alguém apoiasse ou falasse em favor desse tipo de ideia.

O carro se aproximava da porta do meu prédio, a conversa tinha enveredado para coisas sobre nossas famílias, os filhos dele e rumos da vida. Antes de me despedir, perguntei:

– E o que o senhor pretende fazer depois de novembro?

– Eu vou embora, menino. Tenho uma terrinha lá na Paraíba, tudo ajeitado. Já estou em São Paulo há 52 anos. Agora vou pegar minha velha, meu mais novo e vamos morar por lá. Planto uma coisa ali, consigo outra lá, vou montar uma lanchonete na cidade pro meu filho. Isso aqui não dá mais. Isso aqui vai virar guerra e eu já tô cansado. Estou me desfazendo desse táxi aqui e dia 4 eu vou me embora.

– Bom, então boa viagem. E boa sorte para nós todos.

– Obrigado. Fica com Deus aí garoto.

Subi o elevador, beijei minhas filhas e minha esposa. Tomei um banho, desfiz as malas e fui para o quarto. Deitei em minha cama. Era tarde. Talvez, tarde demais.

Quando já não escuto os pássaros

Estacionei a bicicleta por um minuto ou dois porque minha atenção foi capturada por aquele som. Olhei para o alto, mirei os menores galhos das árvores que se projetavam até o outro lado da rua e tentei encontrar o pássaro que cantava daquele jeito, aquele canto que nunca havia escutado.

Não foi a primeira vez que me vi interrompido por um pássaro. Minha vida toda foi assim, mas só recentemente me dei conta desse comportamento involuntário. E admito que comecei a desfrutar esses pequenos momentos.

Por motivos de hereditariedade, trago essa mania de meu pai. Andando na rua, pedalando, parado numa mesa de restaurante, basta que um passarinho comece a piar nas redondezas e minha atenção se desvia. Diferentemente do meu progenitor, no entanto, não sou capaz de distinguir raça, estilo ou gênero dos bichos. Meu pai nasceu com a base de dados da Grande Enciclopédia das Aves implantada em seu cérebro, com aquele tipo de ouvido absoluto para pios e cantos, de forma que balbucia “É um Curió” à meia-voz quando um desses se manifesta. Eu, enquanto isso, mal posso distinguir o chamado do Sabiá de um Sanhaço. Mas, escuto passarinhos e tenho um prazer contido em deixar a mente ser levada por um instante na direção daquele som.

Há um grande campo ao lado do prédio onde moro e às vezes, enquanto escrevo durante a madrugada, posso escutar uma revoada de centenas deles nas copas das árvores. Já cheguei também a gastar uma hora ou mais sentado em um parque, observando pássaros reunidos em pequeno lago e depois ser presenteado com seu voo desordenado até que finalmente se agruparam e voaram sobre minha cabeça naquela formação em M e migraram para o oeste. Em outra ocasião, estacionei minha bicicleta no meio da Cidade Universitária para poder ouvir, por cinco minutos, o canto de uma espécie que me era nova.

No fundo, isso não me diz nada. Não há uma mensagem aqui, uma moral, não há contemplação programada, é só um hábito meu, quase instintivo, de escutar aquele som por um tempo e seguir adiante pelo dia. Mas há uma coincidência que envolve o estado de espírito em que tais ocasiões ocorrem.

Porque há, no entanto, períodos em que meus ouvidos se fecham. E eu passo pelas mesmas ruas, caminho pela mesma via e ando com a Lucy pela calçada e sento nas mesmas mesas, mas só ouço os ruídos de sempre, as vozes, motores, as mensagens em minha mente sobre o que se deve fazer agora, sobre os compromissos de amanhã, os conflitos políticos, a crise, sobre as preocupações, martelando um turbilhão de afazeres que parece não ter fim. Já não há passarinhos cantando quando o fluxo da rotina se converte na inércia em que me permito habitar, quando a vida é só existência, quando a rotina perde seu encanto e vira repetição tola.

Nem chego a buscar um antídoto porque não noto tais desvios. Fica lá dentro aquele incômodo, fica a sensação de que tem algo errado, algo faltando na vida quando me permito viver nas condições em que há coisas demais, há estímulos em excesso, quando falta o ócio necessário, não há música, não há brisa e não sobra espaço para eu poder me distrair.

É quando outros cantos também silenciam. Quando brincar com minhas filhas no chão da sala vira só obrigação paterna e não a hora mais legal do dia, quando as “surras de cócegas” antes de dormir duram um calculado minuto e não uma era inteira, quando a saída de casa pela manhã para ir à escola vira pressa, só pressa e uma pressão para que elas se arrumem logo, para que comam logo, para que andem logo e o carro fica em silêncio até chegar ao colégio. É quando o café da manhã em casa com a Manu vira só o tempo para resolver pendências e não os momentos para dividir nossos sonhos. Para mim, os dias sem distração são os mais frios e distantes. Nos dias em que a mente não tem espaço para vagar pelo nada, é o tempo em que o corpo se distancia do momento e sinto que eu deixo de estar presente para aqueles a quem mais amo.

(…continua no site do Estadão)

À prova de desapegos

Um pequeno baú de madeira com cartas de amor manuscritas e alguns desenhos feitos pelas meninas, uma caixa de papelão com álbuns de fotos da era não-digital, uma dúzia de livros, cadernos usados e uma embalagem cartonada com dois carrinhos arranhados, um Playmobil careca e um apito velho. São esses os objetos que me vem à mente sempre que surge a ideia de que um dia minha casa possa ser tomada por um incêndio e eu precise abandoná-la à pressas.

Nenhum eletrônico, nem jóias, nada de dinheiro, documentos ou a escritura da casa (mas pensando bem, seria útil considerar levar ao menos a apólice do seguro residencial). Penso apenas nesse conjunto de papéis velhos e pedaços de madeira e plástico pelos quais ninguém lá na rua me pagaria dez reais, mas carregam um tesouro que pretendo guardar até o fim. A seu modo, são pedaços da história, um tipo de prova de momentos que gostaria de recordar adiante e que não posso confiar na memória para preservá-los. Uma espécie de museu particular.

Quando abri o jornal na semana passada e li sobre o incêndio que atingiu o Museu Nacional no Rio de Janeiro, o sentimento de perda foi um pouco esse que mencionei acima. Gosto de museus muito mais pelo significado e contexto das peças expostas do que por seu valor ou raridade. Daí a preferência familiar, quando viajamos em férias, pelos museus de história, ruínas e monumentos arquitetônicos.

Hoje, é triste constatar que viraram cinzas as tantas relíquias dos tempos de nossa história que não chegamos a testemunhar, as últimas provas da existência de povos que se extinguiram, as memórias da trajetória nacional que se perderam para sempre. Porque todo museu é um compêndio de narrativas que podem ser contadas, uma espécie de janela no tempo para que possamos contemplar e reviver as riquezas que já fomos capazes de edificar.

(… continua lá no site do Estadão)

Cenas urbanas – No táxi

#1

– De onde você é? – perguntou o motorista quando entrei no táxi.
– Sou do Brasil. E você?
– I’m from India. Mas já vivo aqui em Nova York há mais de 10 anos.

Passava das onze da noite, eu voltava de um jantar para o hotel e, depois de um dia inteiro trabalhando, só queria um banho quente e uma cama. Mas, nunca resisto à tentação de dar corda em conversas com pessoas de lugares diferentes de onde vivo.

– Você conhece o Brasil? – emendei.

E para minha surpresa, ele respondeu que sim.

– Sim, conheço. Já fui muito ao Brasil.
– Rapaz, sério? – okay, eu não disse “rapaz” em inglês – que cidade você conheceu?
– Ah, algumas. Eu trabalhava em uma empresa de engenharia aeroespacial. Ainda sou da área. Trabalho como motorista para complementar minha renda. Conheço São Paulo, Rio de Janeiro, já fui à Bahia…
– Que interessante. E o que você mais gostou de lá?
– Oh man, eu adoro o Brasil. Na verdade, acho seu país muito parecido com o meu. As pessoas são calorosas e a comida tem um tempero parecido também.

Eu ia discordar, mas como nunca estive na Índia, fiquei quieto. E ele, cada vez mais empolgado, continuou:

– Mas o que eu mais gostava no Brasil era uma bebida a base de cana. Eu bebia um copo de meio litro todos os dias.

“Cachaceiro”, pensei, “desse jeito não é difícil confundir pastelzinho com samosa”. Mas resolvi conferir:

– Meio litro de cachaça? Really?
– Não! Cachaça, não. Era outra bebida. Queria muito lembrar o nome. Eles fazem na rua, com um motor. Pegam a cana inteira e moem ali mesmo na sua frente. E aí sai um suco que misturam com limão, com abacaxi, côco.
– Garapa?
– Isso! Isso! Garapa! Oh my God, I love garapa!

(…continua lá no Estadão)