Tem um app pra isso

Comprei um carro novo há coisa de dois meses. O carro tem um sistema de bordo inteligente com telas e luzes por todos os lados. Ele mede coisas e fornece indicadores que eu nem sabia que precisava até conhecer e me viciar: estado geral do motor, nível de calibragem dos pneus, temperatura externa média, consumo de combustível durante a viagem, durante a semana e no longo prazo, além de velocidade média durante a viagem, a semana e o longo prazo também (ainda não descobri o que ele define como “longo prazo”, mas estou prestes a fazer uma pesquisa a respeito porque já não consigo viver sem isso). Tenho tantas informações na minha frente que gasto mais tempo analisando indicadores no painel do que olhando para a rua. Outro dia, me peguei curioso tentando entender porque, afinal, a temperatura média do óleo estava em 65 graus naquela manhã e na anterior chegou a 90, mesmo sem ter a mais pífia ideia do que isso significa.

Semana passada, estava a caminho da escola com minhas filhas e uma luz amarela acendeu no painel. Com a luz, um sinal sonoro estridente. Com o sinal, um ícone incompreensível (tenho que admitir que é um problema meu e não do designer, porque à exceção de emojis, nunca consigo interpretar ícones). Com o ícone incompreensível, veio uma mensagem alarmante na telinha à minha frente: “Atenção! Indicador de risco. Não siga viagem!”. Duas exclamações no espaço de um tuíte. Parecia grave mesmo. Cogitei estacionar e chamar o guincho, mas às seis e meia da manhã o serviço levaria duas horas e minhas filhas perderiam a aula. Então, eu, que aprendi a dirigir num Uno Mille vermelho semi-velho e com embreagem comprometida segui viagem até o colégio para desembarcar as crianças e estacionei no primeiro posto de gasolina que encontrei depois. Abri o manual do carro, segui até a página de indicadores do painel, mas não havia informações que me dissessem o que poderia ser o malogrado desenho piscando. No manual, uma orientação final: “Se não conseguiu esclarecer sua dúvida neste guia, consulte nosso app ou ligue para a central em 0800-ESQUECE”.

O app. Que eu não tinha instalado. Que comecei a baixar ali na hora. E que usei meu suado pacote de dados e mais 25 minutos daquela manhã inalando a mistura de aromas de combustíveis fósseis e esperando pelo download de 250 megabytes. E depois de instalado, fiz um cadastro em que me pediam nome, endereço completo, idade, e-mail e número do chassi do carro (o chassi, gente? Jura, gente? É óbvio que eu não lembrava onde isso estava escrito). E uma vez concluído o cadastro e aceitos os termos de uso e identificado a área de suporte e ter clicado nos devidos procedimentos e botões, recebi a orientação para que apontasse a câmera do celular para o tal ícone no painel e tirasse uma foto para que o sistema de inteligência artificial me dissesse do que se tratava o problema. Eu fiz. Deu erro. Fiz de novo. Deu erro de novo. Se o app era artificialmente inteligente, estava claro que o burro ali era eu. E na quinta vez, depois de um minuto ou dois processando a informação, uma mensagem apareceu na tela do celular com a reveladora orientação que evidentemente salvaria minha vida: “Calibre os pneus do carro”.

Um app, pra isso. Pois é.

“Ô, amigo”, gritei para o frentista que assistiu a cena toda em silêncio, “posso calibrar os pneus aí?”. Depois, comprei uns chicletes para não parecer que estava abusando dos serviços do estabelecimento e fui embora.

* * *

Meu celular agora tem uma função chamada Bem-estar. O seu também tem. Na verdade, é algo mais chique do que isso, eles chamam Bem-estar digital – estudos dizem que se você adicionar a palavra “digital” a algo, ele fica mais sofisticado. É um app. E ele te diz quando você está fazendo um uso abusivo do celular. Mostra indicadores que você nunca imaginou que precisaria, tais como a quantidade de vezes que você desbloqueia o aparelho no dia, quanto tempo gasta em cada app e a quantidade de notificações recebidas. Agora eu confiro o app todos os dias para medir se meu bem-estar digital no momento está mais para bem do que para mal. Várias vezes por dia, na verdade. O que, pensando bem, talvez esteja influenciando negativamente meus indicadores.

(…continua no site do Estadão)

Devagar

“Calma, você está na Bahia, não na Berrini.”

Me peguei falando isso para mim hoje enquanto meus pés, um após outro, afundavam na areia fofa de uma praia e eu o fazia no ritmo de quem sai de um vagão de metrô rumo à rua.

O processo de contemplação e desfrute quando se está na natureza não é automático. Não basta o paraíso logo ali, é necessário que ele esteja aqui dentro também.

E isso é um passo mais complicado, porque eu não só pisava a areia como se fosse concreto, eu era também tomado pelo turbilhão de eventos, demandas e pendências que a rotina paulistana me impõe.

Comentei algo com a Manu na momento: de que a impressão é que hoje, quando viajamos e chegamos a um destino diferente, aquele deslumbramento inicial que sentíamos ao contemplar uma paisagem nova e pessoas novas é prejudicado pelo fato de que ao continuarmos conectados em nossos dispositivos e rotinas ao longo da viagem, acabamos trazendo muito daquilo na bagagem. No fim, o corpo chega ao destino mas o espírito ainda não aterrissou.

Estou lendo um livro chamado Digital Minimalism, mas já já eu falo dele, porque eu li um outro livro recentemente chamado Devagar e do qual eu preciso falar antes. E li um salmo ainda hoje a respeito do qual gostaria de escrever uma linha ou cinco depois.

Carl Honoré publicou Devagar lá no começo dos anos 2000. Demorei uns sete anos para ler esse livro, não porque o título fosse uma regra, mas por circunstâncias que pouco importam neste momento. Fato é que meio movido por curiosidade e meio por uma busca pessoal, seu livro me caiu na consciência como aquele tipo de verdade na qual você sempre acreditou lá no fundo, mas nunca tinha ouvido alguém dizer para poder concordar.

Honoré nos prova e provoca: precisamos desacelerar o passo, a vida é melhor — e mais saudável e mais bela — quando nos permitimos degustar em vez de engolir.

Cal Newport, um quase xará do Honoré, é autor do outro livro (agora sim) Digital Minimalism, um termo que me fisgou de imediato porque resume um bom tanto da minha obsessão recente em tentar expurgar da vida doméstica o excesso de tecnologia, de dispositivos e serviços digitais que nos estimulam à exaustão. Eu achava que era TOC, mas então entendi que não apenas eu e uma meia-dúzia de amigos, mas um bocado de gente no mundo vem expressando uma preocupação crescente com o espaço que isso tudo está tomando em nossas vidas.

Eu vinha tentando praticar um certo grau de minimalismo e a assimilação disso seria natural. Mas, fato é que a opção por ter menos é, no fundo, um tremendo luxo num mundo em que tantos tem tão pouco justamente por falta de opção. Então, o esforço mais recente aqui em casa é para sermos mais generosos. Ter menos, dividir mais e ser alguém melhor vale mais do que um capricho primeiro-mundista.

(…continua lá no site do Estadão)

Os jardineiros da Escandinávia

Na Dinamarca, a diferença de renda entre uma pessoa na base da pirâmide social e a que figura entre as mais prósperas é de apenas quatro vezes – o dado consta em um estudo da OCDE que li há poucos dias. E muito disso se deve ao fato de os limites serem mais curtos, já que ninguém recebe salários excessivamente altos e ridiculamente baixos. Esse nível tão baixo de desigualdade coloca o país escandinavo na posição de segunda nação menos desigual no mundo.

A título de comparação – e chegando no que nos toca – no Brasil, segundo o IBGE, a diferença de renda entre os mais ricos e os mais pobres chega a 36 vezes. Esse abismo é o que nos coloca na outra ponta do ranking e nos confere a condição de nono país mais desigual do mundo. Com um detalhe agravante: os 50% mais pobres em nosso país não contam com uma renda mensal suficiente para uma vida digna (R$ 747 em média, menos de um salário mínimo) como recebem os mais pobres da Dinamarca. O IBGE diz ainda que no último ano a renda do 1% de brasileiros mais ricos cresceu, enquanto os mais pobres ficaram ainda mais pobres.

Fiquei pensando nesses números enquanto conversava com a Nina, minha filha mais velha, outro dia sobre outra questão. Ela me perguntava sobre meu trabalho e tinha curiosidade em saber o que eu gostaria de fazer durante o dia se não fizesse o que faço hoje. Hum. Me perguntou ainda se a faculdade que cursei tinha mais relação com o que eu faço ou com o que eu gostaria de fazer. Hums.

Tive que explicar que em nosso país a maior parte dos que tem o privilégio de cursar uma universidade, faz essa escolha considerando não apenas sua vocação, mas principalmente o potencial de renda que aquela profissão pode lhes garantir no futuro.

“Por quê?”, ela perguntou.

Bem, aí minha filha de 11 anos e eu emendamos uma conversa sobre privilégios, o mercado, injustiças, desigualdade, vocações e sobre as pessoas que podem escolher o que querem fazer com seu tempo entre oito da manhã e seis da tarde. Como, por exemplo, os cidadãos dinamarqueses.

E daquele dia em diante, tenho preenchido parte do meu tempo nas ruas observando outras pessoas exercendo suas profissões e pensando se o fazem com algum senso de realização. Venho tentando imaginar também se, excluindo a questão do talento – ou a falta dele – eu poderia preferir fazer algum daqueles trabalhos em vez de fazer o que eu faço cotidianamente há 23 anos. O balconista do café, o motorista de táxi, o cabeleireiro, a dona de uma floricultura, o dono da imobiliária, o balconista da livraria, o professor universitário, o padeiro, o jardineiro… pessoas com quem costumo cruzar no caminho para o trabalho e que vêm passando pelo escrutínio da minha análise.

(…continua no site do Estadão)

O dia em que a TV morreu

Procuro na memória mas não consigo encontrar quando foi o momento exato em que a televisão morreu aqui em casa. Não lembro sequer o ano, algo entre 2015 e 2018, em que ela deixou de ter o reinado que sempre lhe foi garantido desde que me conheço por telespectad… digo, gente. Não me refiro ao dispositivo, que continua ocupando cada vez mais consideráveis polegadas na sala, mas à TV linear, aos canais sendo transmitidos, a programação regular, os programas intercalados por intervalos comerciais – eu gostava quando chamavam de reclames, mas se eu disser isso alguém pode me chamar de nostálgico – diante dos quais sempre fomos observadores pacientes e conformados.

Fazendo uma conta rápida, eu diria que hoje em 98,5% do tempo que a TV de casa está ligada, o consumo se divide entre Netflix e YouTube. No 1,5% do tempo que resta, sou eu, sentado aqui, escrevendo no computador e com algum canal qualquer transmitindo esportes que não pratico. Assim acontece nesse instante.

Por “um canal qualquer transmitindo esportes que não pratico” entenda o Off. Adoro o Off. Não sei se é porque acho que aquilo tudo é ficção pura ou se, de fato, existem pessoas que passam suas vidas sem estar doze horas por dia em um escritório, fazendo reuniões e respondendo e-mails. Aquela gente bronzeada, viajando por lugares paradisíacos, encarando grandes aventuras e fazendo cotidianamente coisas que eu jamais sonharia fazer uma vez sequer na vida. É tipo o Senhor dos Anéis. Só pode ser ficção.

Então, a TV funciona como uma espécie de proteção de tela, um pano de fundo enquanto estou sozinho na sala. E geralmente aquilo fica só ali, ocupando espaço, um respiro e show de luzes piscando para que eu possa me concentrar nas palavras que preciso juntar. Mas hoje, ao olhar para aquela tela, esse lance todo sobre a morte da TV me distraiu e perdi a linha do que estava escrevendo e comecei a redigir isso que você lê agora.

Esse era para ser um texto sobre desigualdade de renda na Escandinávia. Juro. Mas fica para uma próxima.

(…continua no site do Estadão)

A perda da inocência

– Davi, que machucado é esse no seu joelho? – a tia preocupada perguntou para o sobrinho.
– É que eu fui voar. Só que não deu.

Se tem uma coisa que eu tenho medo é de algo que martela em minha mente como “a perda da inocência”. Falo como pai, tenho pesadelos com isso. Temo a chegada do inevitável momento, o fatídico dia em que os olhos de minhas filhas se abrirão e compreenderão que existem questões subjetivas escondidas sob a superfície, sob as máscaras, sob essa espuma de artificialidades e das quais elas vinham sendo poupadas até ali pelo invólucro da pureza da infância.

Tenho medo do momento em que elas deixarão de ter esse poder, essa espécie de bolha que envolve os primeiros anos de nossa espécie e que faz com que crianças enxerguem o mundo e o percebam sem malícia, que vivam convictas de que são capazes de voar. Para elas, tudo ainda é cru, puro, é só aquilo mesmo que está sendo dito e feito naquela hora.

No fim do ano passado, estava na reunião de classe da Nina quando a professora recomendou aos pais que, para o ano de 2019, lessem um livro sobre a criança aos doze anos – idade que a maior parte da turma fará neste semestre. Eu tinha ficado com a tarefa de escrever a ata da reunião e tomava notas em um papel enquanto ela falava.

Então ela disse: “Neste ano, as crianças estão no ápice da infância e ainda estão aprendendo a fazer a conexão de sua presença no mundo. Elas estão vivendo a alegria de estar no mundo plenamente, estão no “topo da montanha”. E a partir de agora, elas começam a despedida da infância para entrar, aos poucos, na adolescência”.

Eu parei de escrever naquele momento e por alguns minutos deixei de ouvir o que ela dizia. Passei o olhar pelos rostos de outros pais e mães sentados em círculo diante de mim para ver se eles se espantaram com aquilo tanto quanto eu, mas a reunião seguiu em frente.

Eu não. De lá para cá, me pego entrando no quarto da Nina para observar como ela organiza suas coisas sobre sua mesa, os brinquedos, as bonecas, os livros, seus desenhos. Eu me sento mais para ouvi-la e, mais do que saber o que se passa, tento notar as transformações em seu jeito de pensar e enxergar o redor. Eu encaro seus olhinhos brilhantes (rapaz, se tem uma menina com olhos sorridentes e brilhantes, essa menina é a Nina) e fico aliviado em perceber que a pequena camada de pureza ainda está lá, que a inocência ainda reside em seus olhos.

(…continua ali no site do Estadão)

Primavera, poesia e livros como presentes

Tem circulado nas minhas bolhas uma mobilização entre os amigos incentivando que sejam dados livros como presentes neste Natal. Alguns o sugerem como forma de celebrar e incentivar a leitura, outros como caminho para ajudar a fomentar o mercado editorial no Brasil que anda em crise – no resto do mundo, o cenário é diferente e o consumo de livros, especialmente impressos, tem crescido, enquanto no Brasil, dada a crise pela qual passam país, livrarias, editoras e cidadãos, as vendas de livros padecem.

Acho a campanha um tanto piegas. Quem gosta de livros, afinal, já os compraria de qualquer forma. E quem não tem por hábito ler, não me parece que será incentivado a mudar em função de um movimento na internet. Mas como sou um bocado influenciado quando leio em redes sociais coisas que endossam meus interesses, me animei e propus à minha esposa que aderíssemos.

Fiquei com a incumbência de comprar para as crianças da família – leia-se filhas, sobrinhos e afilhados – livros adequados às suas idades e estilos (bem, aos meus irmãos e compadres que eventualmente me leem por aqui, peço desculpas pelo spoiler natalino). Crianças, afinal, são o objeto de nossa tentativa de exercer alguma influência positiva no mundo. E com estímulos eletrônicos por todos os lados, ganhar livros pode ser uma boa chance de conexão com outro tipo de universo.

“É sopa”, pensei, “me dê 15 minutos numa livraria e eu resolvo tudo”. Mas ignorei meu retrospecto em livrarias ao pensar tal coisa. Ignorei, sobretudo, meu retrospecto sozinho em livrarias. E fato foi que duas horas zanzando pelos corredores e folheando exemplares não bastaram para eu comprar os presentes que gostaria. Acabei comprando mais livros do que temos de crianças para presentear e mais da metade eram histórias que eu mesmo gostaria de ler.

Porque comprar livros exige tempo. Foi o que pensei ao final das compras, ainda na livraria, enquanto sentava para um café. Não estou romanceando a questão, mas a escolha é um ritual. Ao dar um livro, você endossa aquela história como algo ao qual acredita que o outro deveria dedicar suas horas, dias, às vezes algumas semanas. E o faz porque confiou na sua sugestão. Você não dá a alguém de quem gosta um livro que desaprova. De preferência, deve dar um livro que já leu e sobre o qual gostaria de conversar depois (se não pensa em conversar depois com a pessoa, não deveria dar presente, né?).

Com as meninas em casa, o legado da leitura é levado à sério. Temos uma estante com alguns exemplares, temos livros nas cabeceiras das camas, deixamos sempre algum na sala. Em casa, só lemos livros de papel para que talvez o exemplo crie nelas o desejo de ler também (tenho um Kindle, que até uso bastante, mas só o ligo depois que as crianças já dormiram ou em viagens a trabalho). Tem funcionado, devo dizer. Assim como funcionou para mim observar minha mãe passar algumas tardes às voltas com romances policiais de Agatha Christie, minha tia nos levar para passear em feiras de livros e bancas de jornais e a professora que nos levava todas as terças para uma rodada de histórias na biblioteca perto da escola.

Isso tudo me vinha à mente enquanto eu relia as páginas de um livro do Ziraldo trinta anos depois de tê-lo em mãos pela primeira vez. “Acho que ele vai gostar desse”, concluí enquanto o separava para um sobrinho.

(… continua ali no Estadão)

Só queria que as eleições fossem Copa

“Antigamente as coisas eram piores. Mas foram piorando” (Paulo Mendes Campos).

Naldo queria que as eleições fossem Copa do Mundo. Desejava que passado o jogo derradeiro, fosse bom ou ruim o resultado, que o povo se juntasse na segunda-feira para se recompor e seguir de novo a rotina, festejando a glória de mais uma taça ou compartilhando a fossa e o consolo de um ombro amigo. A euforia tem seu fim, o poço chega ao seu fundo, mas o dia seguinte estaria logo ali e a vida seguiria, com a temática do noticiário e nas conversas finalmente adquirindo outras cores. Mas Naldo vem dizendo que a vida segue em piorar, que as últimas semanas pareciam uma prorrogação sem fim desde que seu candidato nem passou do primeiro turno.

Dani queria que as Eleições fossem Carnaval. E o dia seguinte, uma quarta-feira de cinzas. Dia para curar o corpo, limpar a bagunça, retomar o trabalho e seguir em frente com as energias prontas para mais um ano que enfim começava nesse país. “Só o Brasil e a China tem seu Ano Novo em outras datas”, ela brincava. Ela queria que as lembranças dos dias que antecederam fossem só festa, serpentina e que gente em passeata na avenida fosse sinônimo de samba e axé. “Muito axé”, dizia Dani. Mas as madrugadas andavam frias demais e a batucada aqui e acolá tinha som de panelaço. Seu candidato estava no segundo turno.

Plínio queria que as eleições fossem um sonho. Desses que resultam de um dia estressante. Uma noite longa e cheia de solavancos, mas com certo alívio depois de um despertar assustado e de perceber que a realidade, a boa e velha realidade com seu chão sólido, permanecia inalterada. Mas ele vivia mesmo era um pesadelo, uma interminável madrugada escura em que pessoas se afastaram, ele viu seus valores serem colocados em cheque e ele próprio se questionava se estava mesmo apoiando uma visão de mundo coerente com o que sempre lutou. Plínio votou arrependido.

Alice queria que as Eleições fossem um churrasco com bebedeira. E a segunda-feira, só aquela ressaca insuportável, arrependimento, o sentimento de ter sido pisoteada por uma manada, mas a certeza de que amanhã tudo estaria bem. Mas, a família havia brigado, o clima andava azedo, nenhum candidato a representava e no dia seguinte, repetia Alice, as coisas não ficariam bem. Ela anulou os votos, todos eles.

Alice era casada com Plínio, que era irmão da Dani, que se casou com Mônica, que era amiga de infância de Naldo, que era casado com a Isa e pai de três filhos cujos melhores amigos eram os gêmeos de Plínio e Alice.

(…continua. Crônica pós-eleitoral para o Estadão. Leia aqui no site do jornal).