Os jardineiros da Escandinávia

Na Dinamarca, a diferença de renda entre uma pessoa na base da pirâmide social e a que figura entre as mais prósperas é de apenas quatro vezes – o dado consta em um estudo da OCDE que li há poucos dias. E muito disso se deve ao fato de os limites serem mais curtos, já que ninguém recebe salários excessivamente altos e ridiculamente baixos. Esse nível tão baixo de desigualdade coloca o país escandinavo na posição de segunda nação menos desigual no mundo.

A título de comparação – e chegando no que nos toca – no Brasil, segundo o IBGE, a diferença de renda entre os mais ricos e os mais pobres chega a 36 vezes. Esse abismo é o que nos coloca na outra ponta do ranking e nos confere a condição de nono país mais desigual do mundo. Com um detalhe agravante: os 50% mais pobres em nosso país não contam com uma renda mensal suficiente para uma vida digna (R$ 747 em média, menos de um salário mínimo) como recebem os mais pobres da Dinamarca. O IBGE diz ainda que no último ano a renda do 1% de brasileiros mais ricos cresceu, enquanto os mais pobres ficaram ainda mais pobres.

Fiquei pensando nesses números enquanto conversava com a Nina, minha filha mais velha, outro dia sobre outra questão. Ela me perguntava sobre meu trabalho e tinha curiosidade em saber o que eu gostaria de fazer durante o dia se não fizesse o que faço hoje. Hum. Me perguntou ainda se a faculdade que cursei tinha mais relação com o que eu faço ou com o que eu gostaria de fazer. Hums.

Tive que explicar que em nosso país a maior parte dos que tem o privilégio de cursar uma universidade, faz essa escolha considerando não apenas sua vocação, mas principalmente o potencial de renda que aquela profissão pode lhes garantir no futuro.

“Por quê?”, ela perguntou.

Bem, aí minha filha de 11 anos e eu emendamos uma conversa sobre privilégios, o mercado, injustiças, desigualdade, vocações e sobre as pessoas que podem escolher o que querem fazer com seu tempo entre oito da manhã e seis da tarde. Como, por exemplo, os cidadãos dinamarqueses.

E daquele dia em diante, tenho preenchido parte do meu tempo nas ruas observando outras pessoas exercendo suas profissões e pensando se o fazem com algum senso de realização. Venho tentando imaginar também se, excluindo a questão do talento – ou a falta dele – eu poderia preferir fazer algum daqueles trabalhos em vez de fazer o que eu faço cotidianamente há 23 anos. O balconista do café, o motorista de táxi, o cabeleireiro, a dona de uma floricultura, o dono da imobiliária, o balconista da livraria, o professor universitário, o padeiro, o jardineiro… pessoas com quem costumo cruzar no caminho para o trabalho e que vêm passando pelo escrutínio da minha análise.

(…continua no site do Estadão)

O dia em que a TV morreu

Procuro na memória mas não consigo encontrar quando foi o momento exato em que a televisão morreu aqui em casa. Não lembro sequer o ano, algo entre 2015 e 2018, em que ela deixou de ter o reinado que sempre lhe foi garantido desde que me conheço por telespectad… digo, gente. Não me refiro ao dispositivo, que continua ocupando cada vez mais consideráveis polegadas na sala, mas à TV linear, aos canais sendo transmitidos, a programação regular, os programas intercalados por intervalos comerciais – eu gostava quando chamavam de reclames, mas se eu disser isso alguém pode me chamar de nostálgico – diante dos quais sempre fomos observadores pacientes e conformados.

Fazendo uma conta rápida, eu diria que hoje em 98,5% do tempo que a TV de casa está ligada, o consumo se divide entre Netflix e YouTube. No 1,5% do tempo que resta, sou eu, sentado aqui, escrevendo no computador e com algum canal qualquer transmitindo esportes que não pratico. Assim acontece nesse instante.

Por “um canal qualquer transmitindo esportes que não pratico” entenda o Off. Adoro o Off. Não sei se é porque acho que aquilo tudo é ficção pura ou se, de fato, existem pessoas que passam suas vidas sem estar doze horas por dia em um escritório, fazendo reuniões e respondendo e-mails. Aquela gente bronzeada, viajando por lugares paradisíacos, encarando grandes aventuras e fazendo cotidianamente coisas que eu jamais sonharia fazer uma vez sequer na vida. É tipo o Senhor dos Anéis. Só pode ser ficção.

Então, a TV funciona como uma espécie de proteção de tela, um pano de fundo enquanto estou sozinho na sala. E geralmente aquilo fica só ali, ocupando espaço, um respiro e show de luzes piscando para que eu possa me concentrar nas palavras que preciso juntar. Mas hoje, ao olhar para aquela tela, esse lance todo sobre a morte da TV me distraiu e perdi a linha do que estava escrevendo e comecei a redigir isso que você lê agora.

Esse era para ser um texto sobre desigualdade de renda na Escandinávia. Juro. Mas fica para uma próxima.

(…continua no site do Estadão)

A perda da inocência

– Davi, que machucado é esse no seu joelho? – a tia preocupada perguntou para o sobrinho.
– É que eu fui voar. Só que não deu.

Se tem uma coisa que eu tenho medo é de algo que martela em minha mente como “a perda da inocência”. Falo como pai, tenho pesadelos com isso. Temo a chegada do inevitável momento, o fatídico dia em que os olhos de minhas filhas se abrirão e compreenderão que existem questões subjetivas escondidas sob a superfície, sob as máscaras, sob essa espuma de artificialidades e das quais elas vinham sendo poupadas até ali pelo invólucro da pureza da infância.

Tenho medo do momento em que elas deixarão de ter esse poder, essa espécie de bolha que envolve os primeiros anos de nossa espécie e que faz com que crianças enxerguem o mundo e o percebam sem malícia, que vivam convictas de que são capazes de voar. Para elas, tudo ainda é cru, puro, é só aquilo mesmo que está sendo dito e feito naquela hora.

No fim do ano passado, estava na reunião de classe da Nina quando a professora recomendou aos pais que, para o ano de 2019, lessem um livro sobre a criança aos doze anos – idade que a maior parte da turma fará neste semestre. Eu tinha ficado com a tarefa de escrever a ata da reunião e tomava notas em um papel enquanto ela falava.

Então ela disse: “Neste ano, as crianças estão no ápice da infância e ainda estão aprendendo a fazer a conexão de sua presença no mundo. Elas estão vivendo a alegria de estar no mundo plenamente, estão no “topo da montanha”. E a partir de agora, elas começam a despedida da infância para entrar, aos poucos, na adolescência”.

Eu parei de escrever naquele momento e por alguns minutos deixei de ouvir o que ela dizia. Passei o olhar pelos rostos de outros pais e mães sentados em círculo diante de mim para ver se eles se espantaram com aquilo tanto quanto eu, mas a reunião seguiu em frente.

Eu não. De lá para cá, me pego entrando no quarto da Nina para observar como ela organiza suas coisas sobre sua mesa, os brinquedos, as bonecas, os livros, seus desenhos. Eu me sento mais para ouvi-la e, mais do que saber o que se passa, tento notar as transformações em seu jeito de pensar e enxergar o redor. Eu encaro seus olhinhos brilhantes (rapaz, se tem uma menina com olhos sorridentes e brilhantes, essa menina é a Nina) e fico aliviado em perceber que a pequena camada de pureza ainda está lá, que a inocência ainda reside em seus olhos.

(…continua ali no site do Estadão)

Primavera, poesia e livros como presentes

Tem circulado nas minhas bolhas uma mobilização entre os amigos incentivando que sejam dados livros como presentes neste Natal. Alguns o sugerem como forma de celebrar e incentivar a leitura, outros como caminho para ajudar a fomentar o mercado editorial no Brasil que anda em crise – no resto do mundo, o cenário é diferente e o consumo de livros, especialmente impressos, tem crescido, enquanto no Brasil, dada a crise pela qual passam país, livrarias, editoras e cidadãos, as vendas de livros padecem.

Acho a campanha um tanto piegas. Quem gosta de livros, afinal, já os compraria de qualquer forma. E quem não tem por hábito ler, não me parece que será incentivado a mudar em função de um movimento na internet. Mas como sou um bocado influenciado quando leio em redes sociais coisas que endossam meus interesses, me animei e propus à minha esposa que aderíssemos.

Fiquei com a incumbência de comprar para as crianças da família – leia-se filhas, sobrinhos e afilhados – livros adequados às suas idades e estilos (bem, aos meus irmãos e compadres que eventualmente me leem por aqui, peço desculpas pelo spoiler natalino). Crianças, afinal, são o objeto de nossa tentativa de exercer alguma influência positiva no mundo. E com estímulos eletrônicos por todos os lados, ganhar livros pode ser uma boa chance de conexão com outro tipo de universo.

“É sopa”, pensei, “me dê 15 minutos numa livraria e eu resolvo tudo”. Mas ignorei meu retrospecto em livrarias ao pensar tal coisa. Ignorei, sobretudo, meu retrospecto sozinho em livrarias. E fato foi que duas horas zanzando pelos corredores e folheando exemplares não bastaram para eu comprar os presentes que gostaria. Acabei comprando mais livros do que temos de crianças para presentear e mais da metade eram histórias que eu mesmo gostaria de ler.

Porque comprar livros exige tempo. Foi o que pensei ao final das compras, ainda na livraria, enquanto sentava para um café. Não estou romanceando a questão, mas a escolha é um ritual. Ao dar um livro, você endossa aquela história como algo ao qual acredita que o outro deveria dedicar suas horas, dias, às vezes algumas semanas. E o faz porque confiou na sua sugestão. Você não dá a alguém de quem gosta um livro que desaprova. De preferência, deve dar um livro que já leu e sobre o qual gostaria de conversar depois (se não pensa em conversar depois com a pessoa, não deveria dar presente, né?).

Com as meninas em casa, o legado da leitura é levado à sério. Temos uma estante com alguns exemplares, temos livros nas cabeceiras das camas, deixamos sempre algum na sala. Em casa, só lemos livros de papel para que talvez o exemplo crie nelas o desejo de ler também (tenho um Kindle, que até uso bastante, mas só o ligo depois que as crianças já dormiram ou em viagens a trabalho). Tem funcionado, devo dizer. Assim como funcionou para mim observar minha mãe passar algumas tardes às voltas com romances policiais de Agatha Christie, minha tia nos levar para passear em feiras de livros e bancas de jornais e a professora que nos levava todas as terças para uma rodada de histórias na biblioteca perto da escola.

Isso tudo me vinha à mente enquanto eu relia as páginas de um livro do Ziraldo trinta anos depois de tê-lo em mãos pela primeira vez. “Acho que ele vai gostar desse”, concluí enquanto o separava para um sobrinho.

(… continua ali no Estadão)

Só queria que as eleições fossem Copa

“Antigamente as coisas eram piores. Mas foram piorando” (Paulo Mendes Campos).

Naldo queria que as eleições fossem Copa do Mundo. Desejava que passado o jogo derradeiro, fosse bom ou ruim o resultado, que o povo se juntasse na segunda-feira para se recompor e seguir de novo a rotina, festejando a glória de mais uma taça ou compartilhando a fossa e o consolo de um ombro amigo. A euforia tem seu fim, o poço chega ao seu fundo, mas o dia seguinte estaria logo ali e a vida seguiria, com a temática do noticiário e nas conversas finalmente adquirindo outras cores. Mas Naldo vem dizendo que a vida segue em piorar, que as últimas semanas pareciam uma prorrogação sem fim desde que seu candidato nem passou do primeiro turno.

Dani queria que as Eleições fossem Carnaval. E o dia seguinte, uma quarta-feira de cinzas. Dia para curar o corpo, limpar a bagunça, retomar o trabalho e seguir em frente com as energias prontas para mais um ano que enfim começava nesse país. “Só o Brasil e a China tem seu Ano Novo em outras datas”, ela brincava. Ela queria que as lembranças dos dias que antecederam fossem só festa, serpentina e que gente em passeata na avenida fosse sinônimo de samba e axé. “Muito axé”, dizia Dani. Mas as madrugadas andavam frias demais e a batucada aqui e acolá tinha som de panelaço. Seu candidato estava no segundo turno.

Plínio queria que as eleições fossem um sonho. Desses que resultam de um dia estressante. Uma noite longa e cheia de solavancos, mas com certo alívio depois de um despertar assustado e de perceber que a realidade, a boa e velha realidade com seu chão sólido, permanecia inalterada. Mas ele vivia mesmo era um pesadelo, uma interminável madrugada escura em que pessoas se afastaram, ele viu seus valores serem colocados em cheque e ele próprio se questionava se estava mesmo apoiando uma visão de mundo coerente com o que sempre lutou. Plínio votou arrependido.

Alice queria que as Eleições fossem um churrasco com bebedeira. E a segunda-feira, só aquela ressaca insuportável, arrependimento, o sentimento de ter sido pisoteada por uma manada, mas a certeza de que amanhã tudo estaria bem. Mas, a família havia brigado, o clima andava azedo, nenhum candidato a representava e no dia seguinte, repetia Alice, as coisas não ficariam bem. Ela anulou os votos, todos eles.

Alice era casada com Plínio, que era irmão da Dani, que se casou com Mônica, que era amiga de infância de Naldo, que era casado com a Isa e pai de três filhos cujos melhores amigos eram os gêmeos de Plínio e Alice.

(…continua. Crônica pós-eleitoral para o Estadão. Leia aqui no site do jornal).

O subversivo da sexta-série

Era aula de Matemática e a professora Maria Cristina 1 (você vai entender já já) entrou na aula com um recado em mãos. Na próxima terça, ela disse, faríamos o hasteamento da bandeira e cantaríamos o hino nacional no pátio da frente. O sexto ano, continuou a professora, ficaria com a incumbência de puxar o coro para as demais turmas. Aquilo virou uma euforia só na classe.

Eu tinha 12 anos e estava na sexta-série. E a professora de Matemática, talvez já antevendo que não seria exatamente na matéria dela que eu me destacaria no futuro, teve a ideia de me indicar uma outra área e perguntou se eu aceitava escrever uma redação ou poema para ser recitado naquele dia. Eu não lembro como foi exatamente que eu aceitei a sugestão, mas quando cheguei em casa aquela tarde, tinha essa tarefa em mãos.

Na manhã da terça-feira, passei algum tempo antes da aula fazendo rascunhos e terminando meu poeminha. Por alguma razão que só a adolescência explica, o texto virou uma paródia do Hino Nacional recheada de analogias e críticas ao governo e rimas bem ruins. Hoje, estranhamente, à exceção do teor, eu não lembro de nada do que escrevi.

– Luiz Henrique – chamou a professora de Matemática durante a primeira aula, toda animada – você escreveu a redação para ser lida hoje?

– Ahãm, professora – respondi – tá aqui ó.

Entreguei o texto a ela, que desdobrou a folha, leu atentamente, deu aquela virada no papel para ver se não tinha nada no verso, depois olhou pra mim com um sorrisinho no canto da boca e disse:

– Deixe isso aqui comigo por enquanto, tá bom?

Ela dobrou o papel e colocou no bolso do guarda-pó branco que usava.

Chegou a hora do hino, as classes desceram para o pátio, alguém puxou a corda para subir a bandeira, nos postamos todos em silêncio e reverência, cantamos o hino enfileirados em volta do mastro e voltamos de forma ordenada para as salas de aula. A professora não estava conosco.

Nada de me devolverem o papel, nada de me chamarem para ler o poema (e, poxa, a turma toda sabia que eu iria falar e ficou me pressionando…), nada de falarem qualquer coisinha a respeito, até que…

Até que perto da última aula, a inspetora do corredor abriu a porta da sala e avisou que eu deveria me dirigir até a diretoria do colégio e procurar pela Dona Fulana, coordenadora do sexto ano.

– Oi, Luiz Henrique, pode sentar aqui, por favor.

Eu me sentei e vi que ela estava com meu papel em mãos.

– Foi você quem escreveu isso aqui?

– Foi, sim, Dona Fulana.

Eu, que quase nunca esqueço nomes, esqueci o daquela senhora. Ela tinha uns 587 anos de idade, usava o cabelo pintado de amarelo ocre com laquê para ficar meio enrolado no entorno de todo seu rosto e uns óculos foto-sensíveis que deixavam a lente meio esverdeada. Ela continuou:

– Você acha mesmo que nosso povo é assim? Que o país é desse jeito que você diz aqui? – e citou um trecho do texto.

– Dona Fulana, é só uma sátira. Eu quis fazer algo meio engraçado, na verdade. Mas, é sim, também uma crítica ao que eu acho que…

– Rapazinho, você é um anti-patriota?

– O quê? Eu não, claro que não.

– Menino… – ela titubeava enquanto balançava o papel na mão – é sim. Isso aqui é anti-patriotismo, garoto. Eu não vou nem falar o que… Você sabe o que pode acontecer com você se isso aqui cair nas mãos erradas? Você sabe o que pode acontecer com seus pais se isso aqui parar nas mãos das pessoas erradas?

– Eu não acho que…

– Eles podem ser presos. Você gostaria que seus pais fossem…? – ela não continuou a frase, mas eu entendi.

– Não. Mas…

– Olha aqui. Para sua segurança, isso aqui vai ficar comigo. Para a sua… segurança.

Mas, não era exatamente de temor ou proteção o tom em sua voz. Era de inquisição mesmo. E inquisição foi uma palavra que eu só aprendi anos depois, mas cujo significado entendi ali naquela mesa.

Me levantei e voltei para a classe. Do que me lembro, mesmo com a pressão dos colegas para contar o que a Dona Fulana queria (nunca era boa coisa ser chamado na diretoria), fiquei quieto a respeito por um tempo. Depois eu relatei o que havia acontecido.

Eu tinha alguma noção do que ela estava falando. Estávamos em 1992 e a ditadura militar era um assunto com o qual eu havia tido algum contato durante as aulas de História do Brasil e entendia que havia terminado alguns anos antes. No entanto, para mim isso se referia a um passado tão distante que soava ultrapassado e um pouco ridículo aquele discurso. A distância significava quase metade da minha vida até o momento e, aos 12 anos, com toda relatividade que o tempo possui na infância, eu não cogitava que a ditadura fosse algo pelo qual alguém vivo teria passado.

Tinha uma outra professora na escola, a Maria Cristina 2 (pronto, entendeu?), lecionava Geografia e era a única funcionária negra no colégio inteiro que não trabalhava na limpeza. Era sempre muito exigente e dura com todos. Ninguém na classe tirava nota maior do que 9 em Geografia.

Na semana seguinte ao episódio, ela entrou na classe, passou por mim e antes da aula começar, me chamou na mesa dela.

– Ei, menino, vem cá.

Me aproximei e ela disse:

– Que história é essa do seu poema? Eu fiquei sabendo.

– Ah professora, então, né? A senhora viu? O texto ficou lá com a Dona Fulana, ela disse que é perigoso para minha família se aquilo cair em mãos erradas. Disse que eu sou anti-patriota, mas eu não sou. Não sou mesmo.

Ela me fitou por alguns segundos e sorriu.

– Estou tão orgulhosa.

E aí, algumas coisas começaram a fazer sentido para mim. Ali, naquela sala, alguns papéis se enquadraram em uma perspectiva que eu não possuía até então. Dali em diante, comecei a notar que haviam campos e lados que as pessoas assumiam para julgar os outros, para olhar para o nosso passado, para seus próprios passados, para as histórias e jornadas das quais vinham e fazer suas escolhas sobre por onde seguiriam.

– Seu texto está comigo – ela disse. Eu pedi à Fulana para ver, disse que cuidaria disso e guardei na minha bolsa.

– Ah é? – eu ri.

– Ahãm. Posso ficar com ele?

– Pode.

– Se você quiser, tiro uma cópia e te devolvo.

– Tá bom.

Nunca mais vi aquele pedaço de papel. E confesso que não tenho na memória o que afinal de tão grave ou transgressor eu escrevi. Daquele dia em diante, a professora de Geografia me via no corredor e fazia um afago, enquanto a coordenadora a todo custo me evitava e procurava razões para me inquirir. Jamais a vi sorrir. Mas, o ponto é que as duas haviam vivido o mesmo tempo, presenciado os mesmos fatos, passado juntas pelas consequências daquele regime. Cada uma a seu modo, porém, olhavam para o mundo a partir de óticas diferentes. Talvez porque de um lado estava o oprimido que afinal era livre e, do outro, a mão pesada de quem julgava justo o rigor aplicado pelo opressor.

Existiam lados na história. Os olhares de ambas escondiam um passado que eu não conhecia, mas eram naquele momento como janelas para mim, revelando que nem todo mundo, como eu, observava aquele tempo da história olhando para trás. Aprendi a interpretar aquele silêncio. Para alguns, havia uma sombra que relembrava tempos recentes, recentes demais, algo perto demais para não sentir soprar um vento gelado quando o assunto surgia inesperadamente. Aprendi – depois daquilo e ao longo dos anos seguintes – que há momentos em que é preciso fazer a escolha por um desses lados, é preciso se posicionar, sob risco de, calados, condescender com a injustiça ao silenciarmos diante do mal.

Entre os amigos de turma, a história circulou. Fiquei famoso por um bimestre ou menos. A gente não sabia direito o que era ditadura, mas agora sabíamos o que era censura. E foi assim que a coisa foi tratada entre todos.

E eu, um nerd do sexto F, me tornei um subversivo.

* * *

Continuei escrevendo depois daquilo (a professora de Matemática tinha razão). Escrevi fanzines, panfletos, escrevi em jornais, blogs, escrevi um livro e centenas de emails para grupos de amigos. Nunca mais fui censurado em qualquer coisa que quisesse dizer – por mais que eu ainda acredite que a maior parte não merecia ser publicada, porém por outros motivos – e tenho na escrita a forma com a qual acredito poder expressar com mais clareza meus pensamentos. Mais do que isso, escrever é uma forma que encontro para colocar certa ordem nas ideias e descobrir o que penso sobre algo.

Jamais poderia imaginar que aquela repressão falada em vozes baixas pela escola e que já era um passado tão distante para mim e se tornaria um passado ainda mais e cada vez mais distante em nossa sociedade, poderia um dia retornar à pauta, voltar às rodas de conversas (agora em alta voz) trinta anos depois. Jamais imaginar que o horror do passado que assombrava uma jovem professora na minha adolescência viraria uma alternativa aceitável e um passado glorioso para parte significativa do nosso povo. Me nego a acreditar que, independentemente de candidatos ou partidos, o mal que a simples sombra disso pode representar em nossas vidas seja um assunto menos importante do que outros tópicos na agenda política deste momento.

Não sei o que se passou com Dona Fulana ou a professora de Matemática depois que saí do ginásio. A segunda Maria Cristina, eu encontrei em um estacionamento próximo à escola poucas semanas antes de me formar no Ensino Médio. Ela me abraçou e perguntou se já tinha decidido o que fazer na faculdade. Quando disse que estava em dúvida entre estudar Economia ou Publicidade, ela se mostrou desapontada. “Puxa, menino, então você vai ser mais um desses?”. Eu sorri, sabendo o que ela queria dizer e respondi que não. Até hoje, 26 anos depois, sempre que passo na porta daquela escola, a bandeira hasteada sendo balançada pelo vento me traz essa história toda à memória. Mas nunca achei que um dia ela deixaria de ser uma piada. E quase sempre, quando preciso exercer meu compromisso cívico ao votar, ao escrever, ao educar minhas filhas, ao escolher como tratar meu próximo, eu me lembro, de algum jeito, que muitas vezes é preciso decidir de que lado estou.

Vivemos hoje um momento crítico em que essa escolha precisa ser feita. Porque a questão não é apenas sobre o que acontecerá no país nos próximos anos, mas especialmente sobre o exercício de olhar para trás, para nossa história tão recente e escolher de que lado queremos ficar, de que lado estaríamos se os tempos de hoje fossem aqueles de 1964. É hora, agora, de abandonar as discussões rasas e refletir nessa questão com a complexidade que ela merece. Porque isso é muito maior do que partidos políticos, condutas e dinheiro. Falamos de uma questão moral, da nossa liberdade, de direitos adquiridos com suor e sangue sendo ameaçados.

E ainda que sejamos um só povo e um país e a sociedade inteira vá viver as consequências – boas e ruins – do resultado das eleições deste ano, a escolha que fizermos agora dará a medida do peso em nossa consciência no futuro. Porque também há fundamentos em uma sociedade que jamais deveriam ser negociados: a liberdade, a democracia, o respeito à identidade de cada cidadão, os direitos humanos, a igualdade entre homens e mulheres, o compromisso de incluir os que foram excluídos, o dever de garantir a voz aos que foram calados pela mordaça da injustiça e da opressão.

O voto é um depósito de confiança que fazemos no futuro que desejamos. Meu voto é, sobretudo, sobre o recado que quero dar a mim mesmo nos anos que virão pela frente e a satisfação que precisarei dar às minhas filhas.

Olhando para trás agora, relembrando a história daquela terça-feira em 1992, me ocorre que talvez o sentimento que habitava a consciência daquelas mulheres era o mesmo: medo. A força capaz de paralisar, de calar, de nos levar a fazer escolhas que supostamente nos preservam ou garantam a estabilidade que desejamos. Medo que é também a força que se contrapõe e cala em nossa consciência e apaga de nossos olhares a esperança.

Esperança da qual precisamos tanto nessa hora. Para poder seguir em frente apesar do frio paralisante, para resistir com otimismo e fé, para jamais negociar nossos valores mais preciosos em troca do que for, jamais perder de vista a imagem clara de que somos melhores quando somos juntos, quando somos livres, quando nos unimos e nos permitimos sonhar e semear como sociedade um futuro melhor.

(Minha crônica dessa semana para o Estadão).

Ato patriótico

Aprendi a dobrar a bandeira Nacional quando era escriturário em um banco.

Uma das minhas tarefas de rotina era recolher a bandeira do mastro no final do dia. Para tanto, havia um protocolo a ser seguido. Pelo menos foi o que Leonildo, meu chefe na época, me disse solene da primeira vez.

Na forma de retirar o mastro, de recolher a bandeira, chamar alguém para ajudar a segurar as pontas, jamais deixar cair ou raspar no chão (eu achava que um raio cairia do céu na minha cabeça ou um esquadrão da Rota apareceria atrás de mim se eu derrubasse aquilo) e dobrar, que era um ritual à parte. Primeiro, uma dobra longitudinal em toda a bandeira e depois, formar um triângulo com uma das pontas e ir juntando até ela ficar num formato triangular compacto. Sem sobras, rebarbas, sem amarrotar. Ao final, levar a bandeira repousando sobre as duas mãos, como se fosse uma bandeja – nunca embaixo da axila ou com uma mão só – e guardar no lugar apropriado.

Até hoje, não sei dizer se existe mesmo um jeito oficial de dobrar a bandeira e se é assim mesmo que se faz. Nunca busquei isso no Google para conferir se aprendi, de fato, algum gesto cívico ou fui vítima de trote. Tenho medo da resposta em qualquer dos casos – ainda que ache bonita nossa bandeira e tenha uma guardada em casa e devidamente dobrada, tal qual o protocolo, para ocasiões de Copa do Mundo. Mas sei que foi assim que o Leonildo me ensinou e assim me supervisionava diariamente.

Era preciso um certo espírito de reverência para recolher aquele pedaço de pano que ficava o dia todo pendurado ao relento em uma avenida comercial na periferia da cidade, sujeito à fumaça dos veículos, chuva e vandalismos e depois dormia em berço esplêndido no armário da nossa repartição.

– É patriotismo, menino. Tem uma lei, um protocolo para seguir.

Ele adorava a palavra protocolo.

(…minha crônica dessa semana para o Estadão. Continua lá no site)