
A professora nos mostrou a folha de papel onde havia o desenho de uma garrafa com rótulo e, dentro do rótulo, o desenho de outra garrafa com um rótulo igual e, dentro, a garrafa de novo e então outro, mais outro e assim ia, diminuindo e diminuindo e mesmo que já não desse para ver, era possível entender que a imagem se repetiria indefinidamente.
Quando perguntada sobre o que a levou a fazer aquele desenho, Cecília respondeu: “É o infinito. Eu queria fazer o infinito porque eu… fico pensando nisso o tempo todo: o que é o infinito? Como é isso?”
Aos dez anos, minha filha sofre com dúvidas existenciais. E também faz perguntas desconfortáveis sobre a natureza das coisas, questiona nossas motivações e contesta decisões que lhe afetam e que a seu ver são “muito injustas”. Para nosso incômodo, ela é o tipo de criança que alguns adultos chamam de difícil. Talvez porque não desempenhe o papel que gente mais velha espera que crianças assumam, mas também pode ser porque suas questões remexem em pontos que deixamos de tocar e preferimos que repousem quietos numa gaveta mental.
Às vezes, chego a desejar que ela se entretivesse com coisas mais triviais e lúdicas. Nessa idade, eu só pensava a que horas passaria o Mundo da Lua na televisão e como é que o Lucas Silva e Silva fazia para registrar tantas coisas naquele gravador cheio de luzes. Pensava também no Chaves, na Caverna do Dragão e no Gato Félix, tudo separado por intervalos em que me abastecia com leite B gelado regado a doses cavalares de Nescau. Fora isso, a vida seguia um curso pacato, interrompido pelos finais de semana e pela escola onde, ali sim, tinha a sensação de que o infinito me era apresentado pelo professor Takahashi na monotonia incalculável das aulas de matemática.
Entrei em seu quarto para desejar um bom sono numa noite dessas e ela estava arrumando o travesseiro na cama. Sentou perto da cabeceira, encolheu os joelhos e me pediu para sentar. “Pai”, ela fez uma pausa enquanto refletia no que diria, “já aconteceu em algum momento de você achar que sua vida está parada? Que os anos estão passando mais devagar? É como se todo mundo estivesse andando junto em um caminho, mas de repente esse caminho se abrisse em dois e seguissem separados. Só que todo mundo vai para um lado e eu vou sozinha para o outro.”
Para o tipo de perguntas que ela faz, os adultos costumam tangenciar oferecendo respostas vagas ou inventam pequenas fábulas que ilustram soluções fáceis porque acham que temas complexos sempre precisam de alegorias para serem compreendidos pelas crianças. E era isso que estava fazendo quando comecei a escrever um conto sobre uma menina que adorava mergulhar no mar, mas que para conseguir enxergar os peixes e tesouros que estavam longe da parte rasa, precisava criar coragem para mergulhar mais fundo.
Não escrevi além de duas ou três linhas. Minha filha merecia uma tentativa de resposta franca e que não descambasse no lugar comum. Além do mais, seria de uma cara de pau tamanha que eu não poderia sustentar. Entre os medos que tenho, um dos mais desconfortáveis é nadar em praias ou lagos onde não consigo enxergar com clareza a profundidade abaixo de mim.
Meu medo maior, no entanto, tem sido outro nesses dias. É o receio de que ela se conforme. Às vésperas de fazer mais um aniversário, me apavora a ideia de que Cecília, percebendo que as expectativas que os outros depositam contradizem seus impulsos, se ajuste ao olhar alheio para caber em modelos.
“O que é a vida? Não a minha vida. Mas, o que é vida, saber que estamos vivos, o que é isso?”, ela levantou como dúvida, sentada no banco de trás do carro enquanto íamos para o shopping center e eu só pensava se comeria um bife mal passado ou macarrão ao sugo no almoço. “O que teria sido do mundo se Eva e Adão não tivessem comido aquela fruta?”, as dúvidas sucedem. “Como eu vou ser no futuro?”.
Ela pensa no futuro e parece que foi ontem que ela nasceu. Naquela manhã de 29 de março, um dia que já estava marcado por outras celebrações domésticas. Mas já não importava. Havia uma voz mais alta a ser escutada, um choro, um riso, a menina e sua presença intensa que sempre se sobrepôs, não porque manda em algo, mas porque sempre foi assim – e tem sido – sua existência radiante.
Ao passo em que se expressa, ela levanta questões para as quais também queremos respostas. Há ciclos se cumprindo em sua vida, em seu corpo e ao redor. Há recomeços pela casa toda que a cercam e afetam.
No último ano, a mãe trocou de trabalho, nos últimos meses ela cresceu doze centímetros, há algumas semanas a irmã viajou para passar uma temporada em outro país, daqui alguns dias eu mudarei de carreira, no mês passado movemos um sofá de lugar na sala da avó e ela chorou porque estávamos mudando tudo. A vida toda em transição. Como será o futuro não é uma dúvida que habita apenas aquela cabecinha ruiva.
E se antes esse caos existencial se refletia também numa bagunça irremediável de brinquedos, cadernos e roupas espalhadas, agora ela calhou de ser eficiente ao extremo. De algumas semanas para cá, ela passou a se deitar sozinha e esperar no escuro virem o sono e os sonhos. Levanta às cinco da manhã despertada por um alarme recém comprado, arruma a cama, alimenta as cachorras, põe a mesa do café. Em vez de uma pré-adolescente de padrões instáveis, a casa está sendo invadida por um protótipo de capa da Forbes.
Seria admirável se não fosse possível notar também uma correção nos modos que a fazem perceber que, se agir como se espera, as coisas pacificam. Ninguém julga quem não provoca. “Muito bem, mocinha! Que linda, Cecília. Nossa, como está responsável e como fala bem. Como cresceu. Já dorme a noite toda, já tira o prato, que exemplo, lindinha que ela é!” Fica mais simples se ajustar e ela dá sinais de que percebe. Ela agradece, sorri discretamente e se fecha naquele olhar de quem entendeu a regra do jogo.
Não, filha, por favor não faça assim. Tentamos achar meios de lhe falar. A conveniência dos outros tem a força de podar o que de belo te compõe. Não corte essa raiz. O conto da água parecia mesmo simplista e não vou subestimar sua inteligência com aquilo, mas não se deixe ficar na superfície se você é quem nos mostra que nós deveríamos ir mais fundo e nos confronta com o absurdo da nossa realidade. Porque quando nos fazemos as perguntas que você nos ensina, é bastante provável que precisemos lidar e fazer algo a respeito com as respostas que encontramos.
Já faz tempo que ensaio escrever esse texto. Eu o comecei há um ano, pouco antes do seu último aniversário e queria, de alguma forma, celebrar um traço de minha filha que me ensinava tanto às vésperas de decisões que precisaria tomar. As inconformadas, desajustadas, questionadoras, jamais trilham o caminho mais fácil. Mas o mundo só é legal, a vida só parece real, quando – ou para quem – as coisas se revelam fora do lugar.
Amanhã ela fará onze anos.
Caminha pela casa e já não saltita como costumava fazer. Entre passeios de bicicleta, tardes regadas a desenhos do Pokémon, Bluey e pilhas de livros de fantasia que sob o braço, ela questiona o que observa ao redor, desenha capivaras e gatos por todos os lados, ri com piadas infames e cresce na velocidade incontrolável do tempo que escorre e que agora a angustia tanto quanto a nós.
Ela me perguntou se podemos escrever um livro juntos. É claro que podemos.
Mas ela tem sua própria história para compor. E talvez esteja notando, pela primeira vez, que há um caminho diante de si que é todo dela, e só dela. Isso pode parecer grande demais para encarar.
*
Passava das onze e eu estava lendo na cama quando escutei sua voz chamando: “Mãe, pai? Não tô conseguindo dormir”. O que há dois meses era o martírio recorrente das noites interrompidas, soou como canção de ninar para meus ouvidos. Fui até lá e deitei ao seu lado. Ela estava inquieta, a perna vinha por cima de mim, o braço esbarrava na orelha, ela se virava de um lado pro outro. Deixei que fosse se ajeitando até encontrar uma posição mais confortável e então, aos poucos, começou a respirar mais devagar até que acalmou e nossa respiração entrou em sincronia. Esperei, enquanto ela, com a cabeça tombada sobre meu peito, submergia no sono.
A menina que desenha o infinito precisa de algo para dar conta da existência, aqui e agora. Um dia de cada vez, um suspiro e uma noite que lhe apascente.
Fiquei por ali mirando as luzes que entravam pela janela e refletiam no teto do quarto. Lá fora dava para ver no céu limpo algumas estrelas. Acabei dormindo por ali e só fui acordado por uma gritaria distante vinda das ruas vizinhas, quando o time-cujo-nome-não-pronunciamos-nesta-casa fez um gol. Levantei com cuidado sua cabeça e puxei o braço em cima do qual ela estava deitada. Ajeitei o travesseiro, arrumei seu cabelo atrás da orelha e a cobri com sua manta e uma prece. Ia fechar a janela, mas desisti. O céu era uma boa imagem do infinito para ela contemplar se acordasse, era também uma alegoria de eternidade que nos consola.
Cecília tem muitas perguntas. E tem o olhar curioso de quem escrutina o redor atrás do que possa saciar suas dúvidas. Ela quer mais do que enxerga, quer saber, deseja entender além do que sua mente é capaz de processar agora. Ela quer abraçar o mundo tanto quanto abraça sua coleção infinita de bichinhos de pelúcia. Ela quer compreender o sentido da vida e também quer uma festa do pijama com um bolo decorado de Naruto e hoje lhe faremos uma.


