Dentes deleites

Encontrei um par de dentes sobre o móvel ao lado da cama hoje pela manhã. Ainda um pouco entorpecido pelo sono – o que, no meu caso, costuma levar umas duas horas para passar – manuseei aquelas coisinhas brancas entre os dedos antes de começar a me preocupar.

Cheguei a pensar que pudesse ter sido real a briga em que me envolvi num bar com dois marmanjos à beira do cais num porto em Cuba, Afinal, tanta gente me mandou para Cuba ultimamente que a ilha agora habita de forma involuntária o meu imaginário e sonhos. Mas logo passei a língua pelos dentes e corri para checar o espelho do banheiro. Gracias! Tudo estava no mais imperfeito e esperado desalinhamento de sempre.

Minhas filhas, já acordadas, também mantinham seus sorrisos impecáveis. Nina, adolescente, sorria radiante como o raio ensolarado que invadia a sala e Cecília, aos sete anos, tinha lá seus buracos de dentes ainda não nascidos, mas nenhuma janela nova desde a véspera. Lucy, a cadela, também preservava a arcada (e não tem, um cão de 35 quilos, dentes como aqueles na boca).

Apreensivo, vi a Manú de costas, sentada à mesa, bebendo um café com leite e segurando um biscoito na outra mão. “Amor?”, eu chamei com a voz trêmula. Ela virou e só me olhou meio de canto. “Bom dia. Dormiu bem?”, eu insisti, tentando provocar nela um sorriso amistoso que não sabia se queria realmente ver. “Ahãm”, ela respondeu, resmungando, sem descolar os lábios. Entre os dedos, eu esmagava o par de dentes enquanto tentava pensar numa piada que a fizesse sorrir.

Me aproximei da mesa, toquei seus ombros, lembrei as juras de amor eterno aos pés daquele altar e pedi “posso ver seus dentes?”.

Com o rosto quase dentro da xícara de café, sorvendo um gole, ela me encarou enquanto perguntava desconfiada “pra quê?”.

“Só quero te ver sorrir. Alegrar esse dia, afinal”, falei com a convicção de um são paulino parabenizando um palmeirense pelo título.

Ela sacou a xícara, me abriu um sorriso e, para nossa felicidade conjugal, estavam lá, todos eles, molares, pré-molares, laterais, caninos, frontais e as belezinhas das restaurações todas em dia.

Sentei, bebi meu café, comi as duas bandas de pão com manteiga e mantive o pensamento intrigado no rio dos dentes.

Fui até o banheiro me lavar e escovar os bons dentes que ainda tenho na boca quando, ao passar pelo quarto, vi um papelzinho, pequenino, caído ao lado da cama. Me abaixei para pegar, desdobrei com cuidado e puder ler, em letras minúsculas e prateadas, um bilhete a mim endereçado, avisando que “por insuficiência de saldo e falta de pagamento” os dentes estavam sendo devolvidos, até “regularização dos débitos devidos, conforme acordo estabelecido” e assinado, com data e rubrica, pela senhorita “Fada do Dente”.

(Publicado originalmente no Estadão)

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Eu quero menos

16/4 – “Baste a quem baste o que lhe basta. O bastante de lhe bastar! A vida é breve, a alma é vasta: ter é tardar”, escreveu Fernando Pessoa. Ter menos coisas não basta, é preciso querer menos para que isso se torne legítimo. Eu quero menos.

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17/6 – Cecília na cama, no último suspiro antes de adormecer agarrada no meu braço, enquanto Lucy, nossa cadela de trinta quilos, ronca no chão ao lado da cama: “Hoje a noite está perfeita. Eu comi brigadeiro, estou abraçada com meu papai e vou dormir com meu cachorrinho”. Ela cai no sono e eu fico acordado, mirando o teto do quarto e grato por ser esse sujeito bem-aventurado.

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19/6 – No carro, a caminho de uma festa, a adolescente liga uma música eletrônica no som. O veículo se converte imediatamente numa loja de fast fashion com os graves e batidas fazendo pular os fragmentos de poeira que vinham se depositando sobre o painel nas últimas semanas. A adolescente aumenta o volume, vira o corpo inteiro para o banco de trás onde estão as três amigas: “Essa música é legalzinha! É beeem das antigas, mas é boa”. Ao que uma das amigas comenta: “Nossa! Antiga mesmo! Essa é muito 2017”.

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Estou lendo e relendo uma coletânea de sermões do Martin Luther King (um dos meus heróis) chamada A Dádiva do Amor, me deparei com isso aqui: “O evangelho, nos seus melhores aspectos, lida com o homem como um todo, não só com sua alma, mas também com seu corpo; não só com seu bem-estar espiritual, mas também com seu bem-estar material. Uma religião que professa preocupação pelas almas dos homens e não está igualmente preocupada com as favelas que os desgraçam, com as condições econômicas que os estrangulam e as condições sociais que os aleijam é uma religião espiritualmente moribunda.”

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13/7 – Manú comprou um secador de cabelos que é tão bonito que, toda vez que vejo, eu tenho vontade de usar. Já teria usado não fosse o fato de que cada fio em minha ovalada cabeça mede menos de um centímetro e, portanto, estão todos completamente secos com o primeiro lufar de vento quando abro a porta do box depois do banho.

Tudo culpa da Apple e seus computadores e celulares. Tudo tem design hoje em dia e eu sou especialmente sensível ao apelo estético dessas bugigangas. O lance é que esses equipamentos domésticos e eletrônicos estão ficando bonitos e, em vez de serem escondidos num armário da lavanderia, agora ficam expostos em cima da mesa como objeto de decoração. Que tristeza isso.

Outro dia, estava andando pelo shopping e vi um aspirador de pó na vitrine e fiquei parado contemplando como se fosse um Monet.

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Caem as máscaras. Há pessoas com quem encontro diariamente no elevador do prédio, na garagem e na rua, mas nunca vi sem máscara no rosto. Aprendemos a nos cumprimentar e interpretar através de olhares e agora fica informação demais.

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14/8 – Escrevo crônica porque vivo poesia.

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Os sábados precisam voltar a ser sábados.

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23/7 – Se eu fosse roteirista do Zorra Total na Globo (ainda existe o Zorra Total?), iria propor uma piada cuja cena teria dois homens das cavernas que passam o dia caçando, enfrentando chuva, predadores, vento e toda sorte de perigos. À noite, os dois chapas estão com suas famílias sentados em volta de uma fogueira em frente à suas cavernas, os olhares fixos no movimento das chamas como se fossem televisores passando a novela. Depois de algum silêncio, um deles solta: “Sabe, cara, sinto que está tudo mudando tão rápido ultimamente. O tempo voa. Eu me pego pensando todos os dias: que mundo é esse que eu vou deixar para os meus filhos?”

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24/7 – Faz um ano que Edu se foi. E quando as pessoas, as nossas, começam a morrer, acontece algo profundo em nós. Nossos familiares, amigos, primos, nossa geração começa a partir, aos poucos, e parte do nosso mundo, as memórias e histórias, ao mesmo tempo em que ressurgem em fragmentos, também se vão. Viram passado, viram saudade. Deixam uma lágrima, um lamento, essa dor. E ficam para sempre em nós.

Que o Edu esteja agora com o Criador, em amor, sem dor. Que dos seus olhos claros Deus recolha as lágrimas e que da eternidade ele desfrute finalmente em paz. Aqui, ele também fica. Na saudade. Até breve, primo.

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28/8 – Uma da madrugada, estou saindo da transmissão do debate presidencial num canal de TV e peguei um táxi com um cara que mede 2,06 metros (sim, ele disse). Ele não cabe no carro e dirige quatorze horas por dia naquele espaço, todos os dias, sem descanso. Mas só reclamava mesmo era do ciúme da esposa e do fato de estar ficando careca.

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30/8 – No saguão do aeroporto, assistindo o Canal Off com o som da tv desligado enquanto espero pelo embarque e um sujeito recorta com sua prancha de snowboard uma montanha de neve em um vídeo em câmera lenta. Ao redor, tem gente falando e falando nos celulares, aquela mistura infinita de todos os perfumes possíveis no ar, o ruído de rodinhas de malas sendo arrastadas para todos os lados e a voz sempre em um volume acima do tolerável do funcionário avisando sobre as filas do voos a serem abertos para embarque, estarem embarcando, prioridade, passageiros platinum, passageiros gold, prata, premium, estarem na última chamada para embarque, no embarque, fechando as portas. “Atenção passageiro Luiz Henrique Matos, por favor comparecer ao portão de embarque número doze”. Off. Chegou minha hora.

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Em São Paulo, os patinetes estão voltando à Faria Lima. Junto com os carros enfileirados e gente com copinhos de café na mão andando com pressa.

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9/9 – Jean-Paul Sartre disse que “somos escravos da nossa liberdade”. Não escolher, portanto, também é um tipo de escolha. No momento de país em que estamos, tudo, tudo é uma ação em favor de algo. Não podemos silenciar.

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Crise de ansiedade. Já faz tempo que era ontem e eu não estava lá. Amanhã era ontem o tempo todo e era lá que eu ficava. O amanhã era meu hoje, o tempo todo, onde eu nunca estava presente.

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“Doenças são palavras não ditas”, teria dito Lacan, citado pela minha terapeuta em circunstâncias que aqui não cabem. Fiquei pensando nessa minha insistência em anotar tudo.

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18/9 – Lúcia andava com um problema, meu terceiro livro,  está a caminho! Pobres crianças.

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25/9 – Se eu fosse roteirista do Zorra Total (dei um Google agora e o programa saiu do ar em 2015. Acho que parei de ver tv uns dez anos antes disso) e não tivesse sido demitido por conta da piada ruim anterior, escreveria uma continuação para a cena com os homens das cavernas.

Num futuro não muito distante dos dias de hoje, duas mulheres passam o dia trabalhando em suas máquinas e telas, enfrentando reuniões infinitas, chefes abusivos, competidores aguerridos, ar-condicionado descalibrado e toda sorte de ameaças. À noite, as duas chapas estão cada uma em sua cama e conversando em uma ligação de vídeo. Os olhares fixos no piscar das telas como se fossem chamas de uma fogueira. Depois de algum silêncio, uma delas solta: “Sabe, amiga, tem tão pouca coisa evoluindo ultimamente. O futuro já não é mais como parecia ser antes. Eu me pego pensando todos os dias: que passado é esse que eu vou deixar para os meus filhos?”

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28/9 – O perdão é por onde nossa cura começa.

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1/10 – Comecei a ler O Pequeno Príncipe para a Cecília antes de dormir. Nunca tinha lido esse livro antes. Desde então, vou deitar me sentindo a própria candidata a miss, podendo citar Saint-Exupéry e falar que “A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar” em algum discurso regado a lágrimas quando ganhar um concurso de beleza.

Durante o dia, no entanto, a coisa muda. A única diferença entre elas e eu – a única – é que pra mim anda um bocado difícil acreditar na paz mundial neste momento.

João e Maria toca na rádio. Eu penso em biscoitos, migalhas e uma casa feita de doces quando leio esse título. Mas o Chico Buarque achou pensar que  “pela minha lei, a gente era obrigado a ser feliz” e que “Vem, me dê a mão/A gente agora já não tinha medo/No tempo da maldade/Acho que a gente nem tinha nascido”. 

Poderia ser do Pequeno Príncipe também. Mas era Chico. E se não dá pra confiar em paz mundial, pelo menos a gente ainda pode se apegar a poesia, o que dá um pouco na mesma.

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3/10 – Na minha mente ultimamente é só política, política, política, política, política, política, política, política, política, política, política, política, política, política, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica, titica. Última mente.

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5/10 – Ontem à noite saí pra correr. Estava cansado, eram quase dez horas e tudo escuro na rua. Mas criei coragem e segui diligente cada passo ofegante. No meio de uma subida, senti que pisei em algo macio, meio fofo. Assustei pensando que era o côco de algum cachorro e voltei para olhar, já condenando mentalmente o vizinho irresponsável que deixou aquilo por ali. Parei a corrida, retrocedi uns dois metros, fixei o olhar na mancha escura no chão que marcava o que eu havia esmagado: era um sapo.

Segui a corrida, com um misto de aflição, nojo e, confesso, uma satisfação culpada. Tenho engolido tantos sapos nos últimos dias que, de alguma forma, foi bom ter vencido um deles no caminho.

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6/10 – Li em um livro do Richard Rohr ano passado, quando esse mato sem cachorro em que estamos agora ainda era capim: “Onde não existem espadas, os escudos não são necessários”. Me soou apropriado.

(Publicado originalmente no Estadão)

Pessoas que andam para trás

Assisti a um vídeo na internet outro dia em que um sujeito corre de costas. Na verdade, era mais do que isso. A cena toda acontecia em uma arquibancada de estádio, com dezenas e dezenas daqueles degraus onde as pessoas se sentam para ver algum jogo ou espetáculo. E ali, no meio da pequena multidão reunida para outros fins, a câmera de algum celular captura a imagem de um homem, vestindo apenas shorts e sem camiseta, descendo em alta velocidade aquela arquibancada inteira. De costas, correndo. E pouca gente ao redor parecia perturbada, o que pode ser um sinal de que ele faz isso por ali com alguma frequência.

Revi a cena duas vezes para entender. Minha primeira reação foi ficar impressionado com o feito. A segunda, foi me perguntar: por quê? Que raios, oras, faz alguém despertar numa manhã e se convencer de que o melhor uso do seu tempo seria passar horas e horas treinando uma forma eficiente de andar para trás? Mais do que isso, correr para trás descendo escadarias. Soa como um retrocesso arriscado e em alta velocidade.

Há algumas semanas, entrei num táxi e estava tocando Nirvana na rádio. Agradeci em silêncio pelo gosto musical do motorista, até que a música acabou e escutei a vinheta da Alfa FM. A Alfa FM, prezada leitora que vive fora de São Paulo, é a estação de rádio que alimenta as caixas de som de consultórios e elevadores da cidade há décadas, com músicas de Diana Ross, Kenny G. e Emílio Santiago. Do Nirvana, não. Eram três da tarde, eu seguia para uma reunião de trabalho, os derradeiros acordes de Smells Like Teen Spirit ainda se arrastavam quando a apresentadora anunciou que estávamos escutando a Tarde dos Clássicos. Naquele momento, em elevadores corporativos de toda cidade, no consultório do meu dentista com seu paciente de boca escancarada restaurando uma obturação e nos lares onde radinhos ainda embalam o momento da faxina e das roupas sendo estendidas nos varais, naquela hora, a trilha sonora ambiente era Nirvana, com Kurt Cobain quebrando sua guitarra ruidosa e a canção que embalou minha adolescência pseudo-rebelde. Nada “smells” menos um “teen spirit” do que aquilo.

Acho que certas coisas, como bandas, filmes, livros e tendências de moda ou se tornam atemporais e nos acompanham indefinidamente – como Beatles, Chico Buarque, Machado de Assis, Os Goonies, Cidadão Kane – ou só deveriam ser reeditados e rotulados como clássicos depois que a geração que experimentou aquilo pela primeira vez já tivesse deixado de existir (ou já fosse velha o bastante para esquecer). É uma regra combinada para a boa moral. E tem ainda uma outra categoria de coisas – a maior parte, eu diria – que são desastres incontestes que deveriam nos envergonhar e não voltar jamais.

Por insistência da minha filha, comecei a assistir a nova temporada de Stranger Things. A Nina agora é adolescente e acha aquela estética oitentista muito exótica. Para mim, aquilo é apenas um flashback, um retrato constrangedor da minha infância aparecendo na tv. Tudo está lá: as bicicletas que eu tive, as roupas iguais às que usei, o jogo de RPG que joguei, os mullets no cabelo que tentei deixar crescer, as músicas que ouvi, o fato de não ser popular na escola, como não fui e, de quebra, acreditar em monstros vivendo em universos paralelos. Como, pois é, acreditei.

Às vezes, sinto que essa celebração exacerbada do passado é uma preguiça intelectual, um fracasso voluntário de nossa geração em criar algo original que estabeleça como marca desse tempo e que nos permita, algum dia, relembrar esses anos 20 como símbolo de algo que nos levou um passo cultural adiante.

Essa falta de originalidade vem intensificando o lançamento de produtos que ridicularizam as duas gerações. Toda essa insistência em reeditar continuações e releituras de filmes, bandas, roupas e afins tem grande potencial de consumo porque resgata uma geração que adquiriu poder de compra sem ter adquirido maturidade. De forma que até doces e bebidas da década de 80 estão sendo fabricados em embalagens com versão retrô para relembrar a infância de pessoas que hoje nem tem mais paladar, índice glicêmico e condição física para comer e beber esse tipo de guloseima. E assim, essa bolha de Ploc com gosto de nostalgia vai fazendo com que algumas pessoas alimentem as melhores lembranças de coisas velhas e outras tenham pesadelos com o passado.

Eu fico achando que cultivar nostalgia por coisas que ganharam fama depois que eu nasci, me tornei um rapazinho, já cultivava um pequeno bigode e alguma consciência cultural, é um pescotapa seco na minha cervical deteriorada. Mas, acho que revivi tantas cenas da minha infância ultimamente que eu também regredi em certos padrões de comportamento. Me peguei emotivo com uma música do A-HA outro dia, comprei uma calça baggy, voltei a beber Nescau (agora com leite sem lactose), comprei pacotes de biscoito Piraquê com embalagem vintage e, putz, voltei a ter pesadelos.

Há alguns dias, depois de uma overdose televisiva regada a Vecna e Demogorgon me assombrando, fui dormir e tive um pesadelo em que vivia em um mundo invertido. Eram os dias atuais e vivíamos numa terra com tragédias, valores distorcidos e condições escatológicas de existência.

No sonho, as pessoas andavam para trás. As ruas foram tomadas por gente gritando palavras de ordem e acreditando ser nobre a ideia de assistir militares desfilando em tanques de guerra enquanto tomavam novamente o poder. Homens e mulheres, com seus lares ornamentados com retratos de família e sua vida pacata de novela das seis, agora rendiam homenagens a personagens brutais e torturadores assumidos. Jovens e velhos celebravam os piores dias da história da nação com uma nostalgia anestésica. O país atravessava um período de inflação nas alturas, com a cesta básica em valores tão altos que tinha gente trocando o gás de cozinha por lenha, comprando osso de vaca e pé de galinha para cozinhar e trocando a carne do frango pelo ovo. Eu queria escapar daquele pesadelo, mas não sabia como acordar. Eu tentava fugir, mas as pernas não obedeciam. Quanto mais força fazia para correr, mais rápido eu andava para trás.

Enquanto trafegava em marcha a ré por aquela distopia, tomava ciência (não, ciência não, essa palavra virou palavrão e tinha sido banida do vocabulário) de que recursos naturais do planeta eram dizimados ao som de motosserras e com sorrisos sarcásticos dos que trocavam o futuro por um punhado de ouro e nióbio (não, nióbio não, nem no pesadelo eles queriam saber do nióbio). Grupos minorizados eram excluídos, os direitos humanos comuns a todos eram atropelados protocolarmente como se fossem heresia diante de um novo dogma nacional. Falando em dogma, fui levado no sonho à visão de um templo religioso, para onde corri em busca de refúgio e respostas, mas os líderes espirituais benziam e consagravam armas e munições em nome de uma guerra santa a ser combatida para a defesa da integridade e poder de seu líder. Era um mundo invertido. Havia um grupo que se autodeclarava pró-vida, mas defendia a pena de morte. Outro, em nome da liberdade religiosa achava nobre ser classificado de terrível. Em favor de uma ideia específica de amor, proclamavam que esse deveria ser condicionado a quem os amou primeiro. Nem Dante imaginou um inferno daquela forma, nem em Stranger Things as coisas pareciam tão estranhas.

Acordei suando, com medo de monstros. Abri os olhos e fiquei aliviado por lembrar que vivemos em uma sociedade obviamente distante dessa fantasia, grato por saber que o tipo de horror que realmente assombrou nossas vidas por décadas não era uma moda, filme ou canção que alguém ousaria reeditar. Imagina esse tipo de coisa hoje em dia? Até parece… Quem, afinal, ainda pensa em andar para trás?

Ainda assustado com aquelas cenas e meio preso às lembranças da criança que fui na década de 80, tive dificuldade para voltar a dormir. Pensei em deixar uma luz acesa no corredor para afastar os fantasmas, mas então lembrei que a conta de energia subiu de novo este mês, pela quinquagésima vez consecutiva e achei que era melhor economizar.

“E o futuro não é mais como era antigamente”, dizia o trecho de uma canção que tocava nas rádios em 1989, já no apagar das luzes daqueles dias sombrios e sob a voz gutural do Renato Russo. Mas, aos nove anos de idade, eu só achava que aquilo era um tipo de conjugação de verbos que eu ainda não tinha aprendido na escola. Meu pretérito imperfeito.

Correndo para trás em alta velocidade. Treinando arduamente uma forma eficiente de caminhar em marcha a ré. A vida soa como retrocesso e, às vezes, queremos acreditar que basta dar ao tempo seu devido espaço e controle para que as coisas se curem aos poucos. Não tem sido assim nesses últimos anos. Em vez de evoluir, habitamos esse estado de suspensão permanente em que, no lugar de progredir como espécie, insistimos em regredir.

Mas, para certas coisas, não basta o tempo para transformar. Não bastam os anos após anos, crepúsculos sem fim, não bastam as grandes descobertas e invenções – do fogo, da roda, da vacina e das viagens ao espaço. A alvorada de novos dias carece da transformação do pensamento que ainda nos enraíza na ideia primitiva de querer ter poder e controle, em conceitos arraigados que nos impedem de deixar ruir nossos privilégios, reconhecer o outro, celebrar o diferente, pedir perdão e promover a reparação necessária. O dia em que seremos irmãos e irmãs, unidos no santo vínculo do Eterno, com nossas relações regidas pelo respeito e pelo amor não virá pela força, mas pela consciência de que pertencemos uns aos outros, à mesma espécie, a essa terra que nos alimenta, às comunidades que edificamos e à ideia comum de sentido nessa existência.

É uma ideia que não é nova, parece coisa do passado. Na verdade, tem uns dois mil anos que circula. Mas talvez ela nunca tenha sido tão necessária como um próximo passo para que tenhamos dias melhores neste mundo.

Estávamos a caminho da escola outro dia e a Nina me pediu para ligar o som. Eram sete da manhã e botamos para tocar Brazuca, nossa seleção particular de MBP. “Põe no modo aleatório, pai”, ela pediu. E assim, aumentamos o volume e deixamos surgir o que seria a trilha sonora para um discreto sol numa manhã de inverno cercada pelo trânsito da Marginal Pinheiros. No banco de trás, Cecília se concentrava nos primeiros acordes de um samba. Sentada ao meu lado, Nina tamborilava os dedos na perna. Naquele carro, tinha comigo um pedaço do que tenho de mais valioso na vida e o que faz ter sentido continuarmos essa luta que nos leva adiante, com alguma pressa, numa caminhada firme e convicta que siga sempre em frente. Para que elas desfrutem um novo tempo em suas vidas e o futuro, finalmente, volte a ser o sonho bom que ele já foi um dia.

Nas caixas de som, Chico cantava, como cantou no fim dos anos 70 e, diferente dos flashbacks constrangedores a que temos assistido, sua letra parecia ecoar como um hino para os dias de hoje: “Apesar de você/Amanhã há de ser/Outro dia/Você vai ter que ver/A manhã renascer/E esbanjar poesia…”

Haverá amanhã.

(Publicado originalmente no Estadão)

Deus me Louvre, mas quem me dera!

Há uma ala no Museu do Louvre, umas três ou quatro salas cujas paredes estão repletas de molduras vazias, sem as obras que lhes preencham. Apenas as molduras douradas, envelhecidas, amadeiradas e vazias. Isso fica no segundo andar, estranhamente vazio em se tratando de um espaço que recebe dez milhões de visitantes por ano, com seus corredores enormes e entroncados onde é bem fácil se perder (especialmente nesses tempos em que eu uso o Waze até para achar o banheiro da minha casa). Mas já voltamos a esse tema. Antes, preciso falar da Monalisa.

Quer dizer, antes de falar da Monalisa, preciso falar de outra coisa: adoro visitar museus. Coisa que faço com frequência muito menor do que gostaria. Me emociono observando pinturas, esculturas, gravuras e fotografias. Não sou erudito, mas gosto de pensar nas histórias por trás das obras, sou profundamente tocado pelo que despertam, leio as notas descritivas e tento aprender sobre arte na medida que minha limitada mente de quarenta anos permite. E gosto ainda, na medida em que minha mente de quinze anos me obriga, de pensar em legendas e balõezinhos com falas quando há pessoas nos quadros e retratos. Mas, ao contrário do segundo andar do Louvre, a esse tema eu espero não voltar. Vamos à Monalisa.

No andar de baixo, vive Monalisa. Ali, com uma expressão impávida (ou como quer que você ache que Monalisa está naquela cena. Aliás, o grande mistério é esse, não? Gosto de pensar que ela está impávida, até porque não sei ao certo o que isso significa). Ela mora ali, a Monalisa, na sala mais tumultuada do antigo palácio de Napoleão, protegida atrás de um vidro e sufocada naquela moldura rebuscada. Ela é menor do que imaginamos que seria e na medida em que Leonardo da Vinci, centenas de anos atrás, a concebeu pensando sabe lá o quê sobre o que seria daquele quadro no futuro, enquanto pintava aquela mulher à sua frente com sua expressão _ (preencha você com o adjetivo que lhe apetecer, eu ia escrever impávida mas acabei de consultar o dicionário e não é bem isso o que acho que ela está pensando).

Se o andar de cima é um semi-deserto silencioso, a salinha de Monalisa é tomada por uma multidão que se aglomera numa fila de quarenta minutos enquanto empunha suas câmeras apontadas para tentar retratar o retrato da mulher que encara profundamente a cada um nos olhos e lentes com sua expressão… enigmática (será? Estou tentando). La Joconde é o nome do quadro em francês e, hoje em dia, há quem avalie o quadro em 13 bilhões de reais. Saber disso em 1503 talvez mudasse um pouco o capricho que Leonardo dispensou ao quadro e, sabe lá, na mulher, talvez mudasse um pouco aquela sua expressão… indiferente.

Nina e eu paramos na entrada daquela sala quase dez anos depois de ter passado por ali pela primeira vez e decidimos não entrar na fila. Ela tinha seis anos na época e mal entendia o lugar em que estava. Agora, aos quinze, enquanto Manu e Cecília passeavam por outra área do museu, ela me orientava sobre o estilo das obras que vem estudando com tanto interesse, me ensinava detalhes sobre técnicas de pintura e movimentos artísticos, chamava minha atenção para artistas de que gostava e tornava aquela a visita mais interessante que eu já fiz a um museu. Nina valia o preço do ingresso.

Circulamos a multidão pelos lados e encaramos a anfitriã de diferentes ângulos, distante, entre braços, cabeças e iPhones acesos. Me sentia mais num festival de rock tentando enxergar um pedaço do palco do que numa exibição de obras centenárias, enquanto algum funcionário gritava para a multidão “Avancez! Avancez!”. Em certo momento, erguemos também nossas câmeras e tiramos nossas fotos ruins da Monalisa, ali solene e com sua expressão… irônica.

Em meio ao tumulto da sala, sendo acotovelado por turistas brasileiros, chineses, lituanos, italianos e libaneses se confundindo naquela Babel, eu só conseguia pensar que a Beyoncé e o Jay-Z fecharam o Louvre inteiro – o negócio todinho – só para eles e queria saber se chegaram a encarar a Monalisa nos olhos e o que acharam que ela estava pensando, afinal.

“I am a single lady!”, ela teria dito, serena, na minha legenda imaginária.

Fiquei curioso também sobre os outros quadros naquele espaço. A sala tem ainda umas vinte obras, belíssimas, mas sempre coadjuvantes na cena, relegadas a uma atenção periférica dos visitantes que desviam o olhar de seu alvo por alguns segundos. E a mesma imaturidade que ignorava a solenidade do momento para pensar no casal que alugou o museu por uma noite, começou a colocar legendas enciumadas e maledicentes nos lábios dos Veronesi, dos Tintoretto e outros artistas ali expostos, cujos soldados se degladiando, discípulos de Jesus e madonas agraciadas certamente reclamavam entre si: “olha lá a vizinha! A gente aqui salvando o Império Romano, a gente aqui testemunhando o primeiro milagre do Cristo, a gente aqui botando o Messias no mundo e essa aí levando a fama, recebendo os olhares. Sempre aí parada, com essa expressão… jocosa”.

O que faz um quadro atrair os olhares, atenção, selfies e audiência e outros, notoriamente bons, clássicos e valiosos (estão no Louvre, oras) serem ignorados? O que leva um quadro, de forma geral, a ser adquirido e exposto em um museu, digno de ingressos pagos e olhares contemplativos? Aquelas milhares de obras (o acervo do Louvre, consta no folder que eu carregava dobrado no bolso da bermuda, tem mais de 400 mil obras), aprisionadas naquelas paredes em centenas de salas de um palácio tão grande que meu relógio apitou dando os parabéns pelos dez mil passos alcançados no dia ainda no meio da visita.

Enquanto isso, no andar de cima (sim, chegamos), havia salas vazias com quadros de outros cantos da Europa e havia as salas vazias com suas molduras sem obras. Meu francês precário me permitiu entender que as molduras ali penduradas simbolizavam os quadros do acervo do museu que estão emprestados para outras instituições e exposições, mas eu preferi ficar com a fantasia que me alimenta até esse instante, de que ali estão os espaços abertos para as obras ainda em concepção no imaginário dos artistas, as pinturas, ideias e retratos que um dia terão valor tão alto que acabarão pagando, elas mesmas, o preço máximo de sua glória: deixarão de viver livres nos ateliês, nas ruas, longe do olhar do povo e serão aprisionadas em palácios, penduradas em altares enquanto ostentam sua nobre posição de obra de arte e são oferecidas para escrutínio do público que se enfileira para contemplá-las com suas expressões… curiosas.

Enquanto passeávamos por aqueles corredores brinquei com a Nina dizendo que as molduras vazias esperavam para serem preenchidas com as pinturas que algum dia ela criaria. Ela sorriu com meu gracejo me encarando no momento exato em que, de onde estava, era seu rosto que acabava emoldurado no espaço de uma das telas.

Graciosa, era a expressão. E devoto em gratidão, contemplei a obra da minha vida.


(Publicado originalmente no Estadão)

O som dos passos e dos pássaros

Cecília aprendeu a ler. Ela já vinha há alguns meses naquele fluxo de juntar letras em sílabas e tentar encontrar alguma sonoridade. Mas, nos últimos dias deu o estalo, aquele estalo, em que a união das sílabas adquiriu sentido, som e palavras, novas palavras que saem do som e se formam em imagens, significados e histórias que agora ela absorve de outra forma.

“Nina”, ela interpelou a irmã mais velha, leitora voraz, apertando uma revista em quadrinhos da Mônica entre os dedos, “ler não é nada chato, é muito legal! Agora eu vou pegar todos os livros do seu quarto!”

Se algum dia ela ganhar o prêmio Nobel de Física, talvez eu não fique tão feliz quanto agora. À noite, já na cama, sussurrei orgulhoso:

– Filha, aprender a ler é tipo decifrar um código secreto. Agora que você conhece os códigos, tem mistérios e universos novos que você vai começar a descobrir.

Há muitos livros pela casa, há uma estante grande e recheada de exemplares no escritório e também livros nos quartos e espalhados. Um luxo particular que acumulamos desde o casamento e que as meninas acompanham. Cecília tem mais livros aos sete anos do que eu tinha aos vinte. E agora vai revisitar essas histórias fazendo isso por ela mesma, palavra por palavra.

Na manhã seguinte, ela segurava um pequeno livro com uma centopéia na capa:

– Pai, alguma vez você já entendeu as palavras que um inseto diz para o outro?

– Sim, uma vez. Eu lembro que um mosquito chegou bem pertinho do meu ouvido, bem pertinho mesmo e falou algo pra mim.

– O que ele disse?!

– Bzzzzzzz bzzzzz!

– Ah não, pai… – e espalmou a mãozinha sobre o rosto.

– E você? Já entendeu o que dizem os insetos? – perguntei apontando a capa do livro.

– Ssshhhhh! Espera um pouco – de repente, ela já estava em outro lugar, o olhar intrigado voltado para o alto, se concentrando em algo distante.

– O que foi, Cici? Eu estava dizendo que…

– Silêncio, pai. Estou escutando o som da natureza.

Postada ao lado da janela, ela se concentrava no que podia ouvir do lado de fora, onde uma dupla de pássaros cantava nas árvores perto da nossa varanda e o vento soprava nas folhagens.

– Estou ouvindo os pássaros – disse, de olhos fechados – e quero ver se consigo escutar algum inseto.

Pouco mais de uma hora depois, eu estava na rua correndo e mirava a copa das mesmas árvores que minha filha sondava da janela tentando escutar também o canto dos pássaros que ela dizia contemplar. Esses milagres ordinários têm feito muita falta ultimamente. Uma criança descobrindo universos novos, pássaros cantando, folhas crescendo e caindo com o passar das estações. Os ciclos da vida que se renovam cotidianamente sob nosso teto, que são maravilhas pelas quais passamos e quase desviamos sem notar, com receio de tropeçar em miudezas porque, afinal, bem, afinal sempre há alguma desculpa.

Corro, um passo após o outro, sentindo o vento gelado do inverno cortando meu rosto, a respiração ofegante, a batida da sola do tênis no asfalto. Escuto o martelar das ferramentas na construção que se ergue ao lado do nosso condomínio, o ronco do motor de uma moto rasgando a rua. O relógio apita avisando que mais um quilômetro foi superado.

Adquiri esse hábito um pouco antes da pandemia começar e… Hahahah, “adquiri o hábito” é uma falácia danada da minha parte. Comecei a tentar a correr no final de 2019 depois de um colapso mental e achei que fazer uma atividade física sozinho, à noite, e sem o escrutínio alheio sobre minha humilhação, seria uma forma de exorcizar através do suor e sacrifício, os demônios que me atormentavam. Sessão de exorcismo. É assim que chamo minhas horas de corrida desde então.

Mas, o passar do tempo e dos quilômetros me permitiu, desde então, adquirir alguma capacidade de fazer isso com certo controle. Se no começo a corrida era uma forma de fugir de uma crise e esmagar no chão, em cada pisada, a carga pesada de cada dia, hoje já é mais como uma trilha que percorro rumo à realização pessoal, uma sensação de alívio e bem-estar provocado pela injeção de serotonina dos treinos. A crise ficou lá atrás e agora corro em direção a uma nova história.

Aprendi, nesse processo, que para ser capaz de correr longas distâncias às vezes é preciso desacelerar e ir mais devagar. Um pé e depois o outro, o ritmo cadenciado, uma letra ligada em outra, formando palavras, caminhos e histórias. Cada pequeno passo é um milagre.

– Onde você vai com todos esses livros, Cici? – ela estava com alguns exemplares da minha coleção empilhados sobre os dois bracinhos curtos e caminhava em direção a sala.

– Ora, pai, eu vou ler! Onde mais você acha que eu iria?

Eu olho para a pequena pilha de livros que deixo sobre a mesa e penso quais desses exemplares, algum dia, ela e a Nina pegarão para ler e de que forma essas histórias serão assimiladas por elas, as opiniões que trocaremos sobre livros, preferências e broncas porque alguém violou a regra sagrada de não profanar as páginas com dobraduras.

Agora ela anda com livros para todos os lados. E como se fosse realmente capaz de ler Dickens, em inglês, abre tomos de 600 páginas em trechos aleatórios e fica tentando decifrar aqueles códigos. Tem uma beleza nisso.

– Mãe, G com R e mais o U dá o que mesmo? E o N com H e mais o I? G com A é GA ou JÁ?

E passa o dia assim. Do outro cômodo, enquanto trabalho, escuto essa música e sorrio. Eu silencio o ruído que sai de alguma reunião no meu computador, fecho os olhos e me concentro nela ali, sentada, os olhos vidrados nas páginas, a mente se expandindo como o Universo e a boca balbuciando as descobertas. É o som da natureza.

Palavra por palavra, ainda, ressoando como música. O som dos passos e dos pássaros, o soprar do vento no rosto marcando o tempo e o ritmo nessa jornada que percorremos, devagar, testemunhando milagres.

O Moleza

No campinho da rua de baixo tinha o Moleza. Quase todo bairro, naqueles tempos, tinha seu campo de futebol empoeirado. A grama, em vez de preencher o campo, o cercava e o espaço de jogo, que deveria ser verde, era aquele terrão vermelho que, nos dias de chuva, se tornava uma piscina de lama e nos dias secos, encardia as meias, cuecas e a sola branca do tênis.

Mas no campinho do nosso bairro, além de tudo isso aí, tinha o Moleza. Um sujeito alto, forte, negro, bigode curto contornando os lábios e que às seis da tarde se punha ali na lateral com um apito pendurado no pescoço, uma bola cheia sob o braço e organizava um treino para os meninos que chegavam e se postavam em círculo ao seu redor.

Ele morava na rua logo em frente, em um pequeno cortiço onde viviam outras quatro ou cinco famílias. Prestava esse serviço à comunidade de garotos que se aglomeravam, acotovelavam e sangravam as canelas para tentar jogar futebol. Vinte entre dez meninos naquele tempo sonhavam em atuar profissionalmente pelo seu time do coração. Mas ali, a gente só queria chutar bola e fazer gols. Ele, no entanto, queria formar homens.

Quando você passava pela primeira experiência de treino naquele time entendia finalmente o motivo do sarcástico apelido do Moleza. Ele era uma versão da periferia paulistana do Telê Santana. E entre seis e oito da noite, diariamente, meninos de 10 a 16 anos colocavam os pulmões pra fora naquele campinho poeirento, na esperança de que o treino intenso garantisse meia horinha de futebol no final e que, de algum jeito, fossem escalados como titulares do glorioso time Amigos da Vila Yara nos jogos com times de outros bairros que ele organizava nos fins de semana. Íamos, crianças e pais, a clubes e várzeas em outros cantos da cidade – quase sempre todos na caçamba aberta de algum caminhão – disputar glória ou fracasso nas manhãs de sábado.

Anos depois, entendi a que se dispunha aquele sujeito. Nunca soube seu verdadeiro nome, nem o que ele fazia da vida durante do dia antes dos treinos – havia um boato entre os garotos de que ele era jogador de basquete. Mas era louvável o esforço cotidiano para atrair algumas dezenas de crianças ansiosas para jogar bola, submetê-los ao esgotamento físico e promover a ideia de que poderiam ter uma vida melhor se tivessem o esporte como apoio. Quem treinava no campinho, seguia uma rotina fora do perigo das ruas e, se em algum momento começasse a faltar nos treinos, era inquirido por um Moleza no auge da contradição do nome que ostentava no canto do campo. “Vem cá! Quer ficar rodando na rua, é? Vai entrar pra malandragem? Já começou a fumar também?”. Era possível escutar o interrogatório que ele fazia com os pródigos quando regressavam cabisbaixos.

Cresci. Sem ter certeza sobre o momento exato, deixei de frequentar os treinos e, com novos amigos e horários, perdi o contato com o grupo. Perdi também a vontade quando a realidade dos fatos se impôs sobre meu sonho: mais do outras prioridades na vida, me dei conta de que futebol não seria o esporte em que eu conseguiria conquistar qualquer centímetro de auto-estima ou algum respeito dos outros garotos na dura vida daquelas ruas. Quem, afinal, dá o mínimo de atenção para o zagueiro perna de pau? Quem se orgulha – ou se conforma – em ser zagueiro aos doze anos? Mas devo ao Moleza e seus métodos o fato de, a despeito da explícita ausência de talento, eu ter conseguido me firmar como titular do time graças à dura disciplina dos treinos.

Quando me casei, fomos morar em outro bairro. Voltava aos finais de semana para visitar meus pais, mas já em outro ritmo, sem notar aquelas ruas com o olhar pedestre do menino, mas os do motorista desatento. Anos depois, porém, voltei a morar naquela vizinhança e hoje, todos os dias, passo em frente ao lugar onde era nosso campinho, que agora é só um terreno vazio, murado, incrustado no meio do bairro e cercado pelo mato não cuidado. Um desperdício. Às vezes, a lembrança da maratona extenuante de exercícios que fiz naquela poeira me vem à mente e penso no Moleza, cujo destino desconheço.

Passo o olhar pelo campinho vazio e não tem crianças brincando por ali, correndo pelo campo chutando uma bola, doutrinadas por apitos, sonhando em conquistar medalhas de latão nos sábados de manhã na categoria Dentinho e trazer a glória da vitória para o Amigos da Vila Yara ao menos por um dia. Glória que é, sobretudo, a alegria de encontrar um oásis de dignidade na crueldade da cidade. Aquilo era um resgate. O Moleza sabia.

As crianças da vila já não tem um professor, um herói discreto que sacrifique seu tempo, que empenhe suas noites depois de um dia cheio no trabalho para salvá-las do risco de estarem vulneráveis nas ruas, livres da pobreza em que ele mesmo vivia, para vender-lhes, com um discurso disciplinador, o sonho de dias bons, para empurrá-las para além das fronteiras do bairro, para longe do que ele sabia, mais do que qualquer um ali, que poderia ser um risco, um desvio na rota da inocência, uma antecipação do fim da pureza, a abreviação na construção da história brilhante, não necessariamente entre linhas e gols, que cada criança merece.

(Publicado originalmente em meu blog no Estadão)

A menina e o vento

(Versos para os 15 anos da Nina)

Ela sentia o vento no rosto e sorria.
No balanço, na corrida,
no gira-gira, voando nos braços do pai, o sopro lhe tocava a face e ela reinava.
Acelerando atrás da vida.

Fechava os olhos
e abria as janelas.
Não tinha as asas que tanto queria,
Mas voava distante naquele vento.

O vento era o tempo.
Teimoso.
Chegava logo e atravessava, rompia, batia portas, levantava cortinas, levava coisas.
Nunca parava.

Crescia o cabelo, seus olhos, os vestidos.
O sorriso, seu brilho crescia. Cresciam os sonhos.
E o tamanho da escova de dentes, da cama, dos chinelos largados pela casa.
A vida passa como sopro.

Crescia o medo do escuro,
do futuro.
Crescia a distância, o abismo, os muros. A menina crescia.
O vento era ventania, difícil, respiro duro.

Mas a menina era leve, a moça era forte.
Sua poesia, sua arte, seu sorriso que atravessa o vento como um toque
que fazia parar o tempo, fazia abrandar a fúria,
que capturava todo afeto solto ao redor.

Porque no meio da ventania,
a menina era a brisa.

(Olhos nos) olhos no céu

Noite passada, depois de lermos uma história, fiquei deitado com a Cecília na cama até ela dormir. E talvez pela primeira vez na vida, eu a ouvi dizer duas palavras mágicas que, depois de um dia longo, tocam fundo na alma de um pai ou mãe: estou cansada.

A lua cheia brilhava no céu e a luz atravessava a janela do quarto, de forma que eu podia ver os contornos do rosto da minha filha e seus olhos entreabertos. Ela me encarava, o sorriso de satisfação estampado fazia as bochechas redondas ficarem ainda mais redondas, os olhinhos piscavam de forma cada vez mais lenta.

“Pai…”, veio um bocejo, “será que amanhã a gente pode ter um dia de papai e filhinha com brincadeira e piquenique?”, foi a última frase que falou. “Claro, querida”.

Resolvi ficar ali, contando os intervalos em que aqueles olhos redondos me encaravam e iam se fechando e fechando até que ela suspirou, tombou o rosto sobre o travesseiro e dormiu inaugurando sua noite de sonhos com a leveza de quem acorda diariamente às seis e meia com a única e determinada missão de brincar até que o dia se esgote.

Naquele olhar me sondando por dois minutos, permaneci ainda por longas horas. Absorvido pelo brilho e pureza, intrigado – e ao mesmo tempo com um pingo de inveja – pelo fato de que minha filha, aos seis anos, não faz ideia do que é ir dormir cansado e acordar ainda cansado no dia seguinte, carregando a tensão das preocupações e questões tão profundas que afetam o mundo agora, mesmo sabendo que eu não tenho qualquer condição de resolver nada disso. Ela não faz ideia do que tratam as notícias, conversas, podcasts, livros e discussões que me ocupam até quando não deveria estar ocupado com nada. Nossa sociedade anda complicada demais. Mas, naquele olhar, um portal para a inocência, ontem eu descansei. Retornei por um tempo ao refúgio que reconstitui as prioridades na alma.

Hoje pela manhã, pegamos a estrada para visitar nossos tios numa cidade aqui perto. No rádio do carro tocava “Chega de saudade”. Ao meu lado, Manu cochilava, atrás dela, Cecília brincava com um joguinho e, sentada atrás de mim, eu podia escutar a Nina cantarolando baixinho a música. “Dentro dos meus braços os abraços, hão de ser milhões de abraços, apertado assim, colado assim, calado assim…”. Espiei através do espelho e só conseguia vê-la mirando a paisagem de florestas e plantações pela janela. Eu a encarei por uns instantes e, ao cruzarmos os olhares, notei seu ar curioso ir mudando de forma, os olhos se fechando aos poucos e formando um pequeno arco que acontece quando ela sorri e as bochechas espremem os olhos. Desde quando ela era bebê é assim, a Nina sorri com os olhos antes de mover os lábios. Eu precisava me concentrar na estrada, mas naquele olhar me encarando por dois ou três segundos, eu permaneci por horas.

O que mora dentro desses olhares? Para além da doçura inocente que, nesse instante, me resgata do azedume adulto, tira a poeira da alma e me devolve ao essencial, me pego pensando sobre que tipo de existência elas contemplam. Se aos meus olhos hoje tudo parece nebuloso, da perspectiva delas, que mundo é esse? Que horizontes vislumbram? Manú e eu enxergamos um futuro para elas que certamente não é o futuro que viverão. Gostaríamos de habitar seus sonhos como testemunhas da história que estão escrevendo. Como pais, pensamos nessas meninas crescendo e tentamos imaginar os caminhos que seguirão e, para além das paisagens que esses olhares hão de absorver, que visão de mundo será formada no interior de nossas filhas.

Tem um universo inteiro nisso, que deveria bastar. John Wesley, com a ambição de quem ajudaria a mudar a história, disse que o mundo todo era sua paróquia. Tenho pretensões mais modestas. Meu lar, esse canto aqui, é minha paróquia. Essas duas meninas, a mulher da minha vida, uma cadela quase idosa são toda glória que a existência poderia legar como continuidade do que Manu e eu somos.

No começo deste ano quase fiquei cego. Sei que eu já te contei sobre isso, mas a iminência da escuridão repentina trouxe outro brilho para as cores que hoje consigo notar. Física e figuradamente, já não enxergo mais da mesma forma.

Porque essa visão, a nossa visão sobre a vida, sempre mira algo tão distante, almeja sonhos e constrói ideais necessários para alimentar a esperança. A esperança é sempre urgente. No entanto, por vezes ignoramos que precisamos tocar a terra, descalçar as sandálias e perceber que o tangível, o agora, que o pó da existência nesse pequeno círculo que habitamos é sagrado, nos constitui e nos une. Queremos epifanias, desejamos enxergar a glória divina nos céus e esquecemos que contemplamos Deus face a face nos olhares doces de meninas sardentas que nos sondam, que sonham com piqueniques antes de dormir e cantarolam bossa nova na estrada.

Deus tem alma de criança.

Tem um universo inteiro nisso… onde podemos deixar orbitar nossos afetos, familiares, amigos e o desconhecido na vizinhança que carece do nosso cuidado. Porque precisamos deixar transbordar um bom tanto do que nos sobra. E ainda expressar mais de, estender mais de, esticar um pouco a, praticar mais a. Agradecer.

Meus olhos ainda enxergam tão pouco. Mas sei que eles miram o céu e que resplandecemos o eterno quando olhares se cruzam e entendem, finalmente entendem e transbordam, a alegria de pertencer.

(Publicado originalmente no Estadão)

Técnicas de negociação

O casal – um casal aí, uns amigos, alguém que a gente conhece – decidiu vender o apartamento onde morava e se mudar. Depois de ótimos anos vivendo no local, a oportunidade de ir para um lugar mais agradável somada à dura convivência com o barulho do salto dos tamancos da vizinha do apartamento de cima martelando em suas cabeças desde as cinco e quarenta da manhã, os levou a decidir pela mudança.

Na ordem geral das coisas, depois de decididos pela mudança, o casal (um casal aí, de amigos, uma família que a gente conhece) começou os arranjos para a venda do apartamento. Providenciaram os reparos básicos e necessários, uma boa organização nos brinquedos das crianças espalhados pela casa, uma ordem nos banheiros, nos livros, nos fios expostos atrás da TV e finalmente tudo parecia pronto para receber potenciais compradores.

– Precisamos fazer um anúncio – disse a esposa em certa manhã enquanto preparavam o café.

– Verdade – respondeu o marido.

– Você escreve?

– Eu?

– É. Quem escreve aqui em casa é você. Faz um anúncio bonitinho para eu publicar no grupo de classificados.

– Tá bom – e bocejou.

Dias mais tarde, depois de meia dúzia de cobranças e uma semi-ameaça de divórcio, o marido (um amigo meu aí) sentou para escrever o anúncio. Na primeira linha, veio a dúvida:

– Querida, que valor nós vamos pedir no apartamento?

– Pelo que tenho visto em outros anúncios, vale uns 90.

– Hum. Falei com um colega e ele comentou que dá para vender até por 100.

– Legal. Então divulgue por 130.

– Por quê?

– Porque aí a gente chega em 100.

– Mas se a gente quer 100, porque já não anunciamos por 100?

– Porque aí a pessoa vai oferecer menos.

– Mas se a gente colocar mais caro, aí é que fica fora do que pretendem pagar.

– Não é assim, Enrico. A gente anuncia por mais, a pessoa oferece menos e aí chegamos num meio termo.

– Então a gente quer 100, mas vamos anunciar por 130. Aí, alguém que não tem 130 para pagar virá até aqui olhar o apartamento assim mesmo e, se tiver interesse, vai nos propor 80 para tentar negociar e, no fim, pagar os 100 que gente quer e, pelo jeito, ele também?

– Isso.

– Qual é o sentido disso?

– É a negociação. A pessoa sente que pagou menos do que pedimos e nós conseguimos uma vantagem sobre a proposta inicial.

– Mas, no fim, os dois queriam o mesmo preço.

– Deixa que eu escrevo o anúncio então.

– Não, pode deixar, Malu. Desculpe. Vou trabalhar no texto aqui.

Horas depois, já no trabalho, ela recebeu uma mensagem do marido no telefone:

“oi, td bem? te mandei um email com uma ideia pro anúncio. vc vê se ficou bom?”

“Tá bom =) Já vejo e te falo”

“pensei em numa proposta um pouco mais ~transparente para o anúncio…”

“Sei.”

“depois me liga :-*”

===

De: Lucio Enrico Gramas

Para: Malú Doisber

Assunto: Anúncio do nosso apartamento (aka sincericídio?)

Amor, segue a ideia para o texto do anúncio. Se gostar, me fale e já posto nos classificados:

VENDO. Lindo apartamento com três quartos na Rua do Limoeiro (bom, nós o achamos lindo, mas pode ser que você tenha um gosto diferente). Temos sido felizes aqui e certamente sua família também pode ser. Ele vem com armários, uma linda vista do parque, pintura nova e trilha sonora bate-estaca embutida no teto. Achamos que vale $100, mas estamos anunciando por $130. Se você visitar e gostar, pode nos oferecer $80 para fecharmos negócio nos $100 que ambos queremos. Caso tenha interesse, ligue ou escreva para o número abaixo.

Me fala?

bjs, E.

===

O telefone do marido não tocou naquela tarde.

(Publicado originalmente no Estadão)

Como voltar?

“Mas, todo dia tem que ir pra escola?”. Cecília, minha filha de seis anos, reagiu com certa indignação ao acordar pelo terceiro dia consecutivo às seis da manhã para ir ao colégio. “Por que agora tem que ir pra escola todo dia?”, queria saber. Demorei para me dar conta de que quase dois anos de quarentena, diante da sua pequena existência, representa uma fração de tempo muito maior e uma mudança mais aguda em sua memória. Ela não lembrava como era ir para a escola em 2019.

E na semana em que a segunda dose da vacina completa vinte dias ainda dolorida em meu braço esquerdo, recebo com certa angústia os convites para encontros, reuniões e cafés que pipocam com mais frequência nas mensagens e emails. Como voltar? Será que já está na hora? Ou já não era sem tempo? Ou, quem sabe, já que esperamos até aqui, vale esperar mais um pouco até que…

Cercado pela bolha de privilégios que me permitiu atravessar a quarentena trabalhando em casa e me isolando sempre que necessário, sou confrontado com o fato de que a rotina, daqui a pouco, se parecerá mais com o que era antes de março de 2020 do que com esse estado de suspensão no espaço tempo em que temos vivido.

Por esses dias, revestidos de máscaras, álcool e protocolos sanitários, certas coisas tem voltado ao estado anterior. Em casa, meninas indo à escola diariamente, Manú e eu topando uns almoços na casa de amigos e encontros familiares, uma ida ao parque. Mas, ao voltar para casa depois dessas saídas, admito que sinto um rastro de culpa e desconforto. É como se já (ou ainda) não soasse certo, não fosse justo poder fazer isso.

E, talvez, porque também me dei conta de que desejo fazer isso menos do que desejei acreditar que gostaria.

Tem muitas coisas que já não quero de volta. Lugares, deslocamentos, atividades… já estava bastante cansado daquilo e só percebi quando precisei parar. Quem gosta de shopping centers barulhentos, congressos corporativos, conversinhas, filas, trânsito e restaurantes cheios na hora do almoço?

A pandemia criou uma camada de proteção para os introvertidos. Sob argumento de que a quarentena exigia o distanciamento, pessoas pouco afeitas a atividades sociais aleatórias puderam recusar convites para reuniões, eventos profissionais, churrascos e aniversários. Agora, com a ameaça de uma volta à normalidade, estamos nessa cilada, à procura de novas desculpas para recusar convites, ansiosos com a ideia de ser obrigado a responder sobre o clima, a rodada do futebol e participar de conversas randômicas com gente desconhecida porque a etiqueta exige afinal.

O que era temporário, ao longo desses meses virou uma rotina inteira nova, à qual confesso que me apeguei. Almoços em casa com minhas filhas, um café com bolo no final da tarde com minha esposa, a corrida na rua depois do trabalho, todo cuidado um tanto mais atento com as pequenas coisas da casa. Troquei a leitura de mais jornais por mais livros e o noticiário frenético no rádio do carro por podcasts e playlists de música clássica na caixa de som e agradeço pela ausência do ruído do trânsito engarrafado duas vezes ao dia (a imagem mais comum que me vem à mente quando penso em minha rotina pré-pandêmica é a de luzes de freio dos carros acesas num corredor infinito à minha frente). Eu gosto disso. Gosto da ideia de que a fronteira entre o trabalho e o lar se resume a uma soleira que separa meu escritório doméstico do corredor da sala.

Há quem partilhe desse sentimento. E acho, no fim, que o que tem nos tocado é esse uso diferente de algo que sentíamos já não nos pertencer: tempo.

Nas primeiras semanas de quarentena, Nina, minha filha mais velha, ainda vivia os últimos dias de seus 12 anos e começava a se sentir confusa com a ideia, com a bagunça, a confusão e o mundo de cabeça pra baixo que a revolução hormonal da adolescência eminente lhe apresentava. Agora, ela tem 14 e, ainda em ebulição plena, já é convidada para outros tipos de interação, engata em novos tipos de conversas, escuta músicas diferentes e, para ela, essa transformação de vida brutal pela qual todos nós passamos nessa idade, aconteceu dentro de um quarto.

Voltar a quê, afinal?

Como voltar sem que isso pareça uma afronta ao fato de que mais de 600 mil brasileiros morreram até agora na pandemia? Voltar a quê depois de uma tragédia? Sem ignorar que nossas redes de afeto foram massacradas e ceifadas de forma trágica – e muitas vezes criminosa? Como voltar sem desrespeitar os que carregam o luto de suas perdas? Há crianças que, mais do que um retorno à escola, precisam aprender a viver sem a presença dos pais (só no Estado de São Paulo, entre março do ano passado e setembro último foram 3.836 crianças que perderam algum dos pais e pelo menos 64 pais morreram antes de verem o nascimento dos filhos, segundo apuração do jornal Agora com dados da entidade Arpen Brasil). Há cadeiras vazias na mesa de jantar, há um lado na cama que não será mais preenchido, há lembranças de histórias que não precisariam ser interrompidas. Saudades. E a isso ninguém se apega. Não quando tais tragédias poderiam ter sido evitadas.

Como voltar e respeitar a memória daqueles que perdemos?

“No meio da pedra tinha um caminho…”, não é o que diria Drummond. Mas eu fui num museu uma vez e vi um meteorito e fragmentos de asteroides que vieram do espaço e se chocaram contra a Terra e fiquei pensando que interrompemos a viagem daquele objeto. Aquelas pedras, segundo a legenda nas plaquinhas coladas no chão, tinham milhões de anos e algumas viajaram outros milhões de quilômetros, por milhões de tempos (eram muitos zeros sempre e eu sou de Humanas), vindas da órbita de outros planetas até caírem em algum canto desse mundo que habitamos. Pedaços de rocha vagando pela galáxia, talvez um naco de algum planeta que saiu espirrado depois de um choque sei lá quantos séculos atrás. E vagou por esse tempo todo e foi coletada e estudada por algum cientista até virar uma atração no museu onde me coloquei diante daquilo por alguns minutos em um dia gelado do ano de 2009 e fiquei com um pensamento martelando enquanto a ponta do meu dedo tocava a superfície da peça: é longe demais, é tempo demais… somos pequenos demais aqui.

E se pudesse voltar lá e conversar com aquela pedra hoje (assumindo, me acompanhe, que realmente dê para conversar com uma pedra – e compreenda, por favor, que às vezes falamos com gente que parece menos sensível do que uma) e falar para ela que esses meses de pandemia vão mudar a história e que a humanidade realmente pode ser diferente depois que um vírus colocou o mundo de joelhos e que vamos mudar nossos hábitos, nosso ímpeto ganancioso e rever práticas e… Acho que ela daria risada, a pedra. E me diria “você não sabe o que é história, amiguinho”.

O mundo dá voltas. E não dá pra voltar.

Vivemos em um fragmento da existência toda e enxergamos a história pela perspectiva dessa pequenez em que estamos agora, olhando para o céu à procura de respostas.

Eu gosto de olhar para o céu enquanto corro nas ruas. As nuvens parecem tremer. E procuro acima, naquela vastidão, pelos sinais do Eterno em quem deposito minha fé. Eu tropeço tanto. Mas dentro de mim Deus permanece.

E talvez nisso resida a maior angústia do isolamento que enfrentamos. Somos organismos, ramos dessa imensa árvore da existência, membros de um corpo ao qual pertencemos todos. Mesmo que estivéssemos perto de quem amamos nesse período de isolamento, faz falta para nossas crianças, para nossos pais, amigos e para nossa sanidade, o convívio. É preciso aprender a voltar. Porque algo que não mudou durante o pequeno traço de história que tem sido a presença humana no universo, é que escrevemos nas paredes de rochas e cavernas que dependemos uns dos outros – e das comunidades a que pertencemos – para sobreviver e prosperar.

Como voltar? Com respeito ao vizinho, com empatia por quem sofre, diálogo com os diferentes, lavando as mãos, aos poucos vamos reconectando as pontas soltas, refazendo alguns laços, tirando a bicicleta da garagem. Há novos hábitos que aprendemos nesse tempo e nos acompanharão adiante, há o desafio de criar novas rotinas, de novo. E há a surpresa bem-vinda da casualidade nas interações inesperadas.

E tem um troço inexplicável, a experiência redentora do toque, o efeito do abraço de nossos afetos quando nos vemos. Poder abandonar o ridículo cutucão de cotovelos e receber, de braços abertos, amigos e queridos no morno conforto desse enlace. Sem máscaras. E mesmo para introvertidos e anti-sociais, essa volta significa redenção.

Cecília volta da escola todos os dias na hora do almoço. Abraça a cadela, me abraça, chega com a roupa suja de terra e areia e o cabelo encardido. A máscara ainda no rosto não esconde que tem um sorriso de satisfação estampado naquelas bochechas sardentas e na boquinha banguela. Com frequência, ela abre a lancheira e, além das sobras de pão e frutas, saca uma pedra que recolheu no pátio da escola.

– Pai, olha o que eu trouxe.
– De novo, filha? Desse jeito você vai acabar com as pedras do pátio. Daqui a pouco, a gente vai conseguir levantar uma parede com tanta pedra que você traz pra casa.
– Mas, pai, isso aqui não é só uma pedra! Isso é uma pedra rara, um tesouro. A gente tem que guardar. E tem que segurar com muito cuidado. Quer tocar?
– Claro, entendi. Posso ver?
– Ahãm. Tó.

Olho para a pedra tentando expressar o escrutínio de quem encontra um tesouro. É uma sobra de brita ou uma pedra qualquer usada em obras.

– Pai, de onde você acha que é?
– Não sei, filha. Acho que nunca vi nada igual.
– É.
– Será que é um pedaço de meteoro?
– Ah, pai…

Preciosidades. Não em pedras que caem do céu, mas em fragmentos da nossa pequena existência, nas voltas que a vida dá. Nas mãos estendidas para enxugar lágrimas, nos abraços possíveis que devemos celebrar. No divino que se manifesta quando nos conectamos novamente com o fato de que só vivemos porque também vivemos uns nos outros.

(Publicado originalmente no Estadão)

Sob este teto

Sob este teto circula o perfume das estações que se confundem nesses trópicos, das refeições, dos vapores dos banhos recém tomados, da cadela com banho atrasado, das meninas que se perfumam e preenchem o ar com sua graça, suas idades, nosso humor.

Sob este teto circulam as meninas, em suas idades e tempos, suas roupas do sono, de escola, de festa, de banho. Em seus humores de infância, adolescência e maturidade, em humores de filme, de fome, a consciência de que já tivemos dias melhores mas que ainda nos sobram mais, amanhã, quem sabe, quando tudo finalmente passar.

Sob este teto passa tanto. O microcosmo da nossa pequena existência, a história minúscula que é todo nosso universo, a eternidade de quatro nomes. Passamos tempo, passamos em branco, passamos a limpo, passam filmes e filmes na tv nas noites que passamos juntos. Teimamos em sonhar com nossos olhos mirando este teto.

Sob este teto, os dias começam e terminam. E a rotina cíclica se impõe, na rigidez ditatorial do relógio, do tempo, paradoxal tempo que não controlamos mas do qual somos senhores, brigando para domar esse animal selvagem. Dias de sol e dias nublados que sob este teto observamos pelas janelas que abrimos na alvorada.

Sob este teto reside tudo tudo tudo de que se faz necessária a vida, a minha. Mora aqui a história, as pessoas, habitam lembranças, sob este teto há dúvidas ruminantes e certezas claras. Há, aqui, portas rangendo e o consolo perene do que podemos chamar de lar.

Sob este teto, com bonecos espalhados pelo chão, com livros emoldurando paredes, retratos gastos colocados pelos cantos e cada vez mais plantas crescendo verdes em canteiros. Há roupas no varal, café esfriando nas xícaras, pernilongos zumbindo rebeldes seu terrorismo, risos infantis na paisagem sonora, há fragmentos da vida ordinária em cada gaveta que se abre.

Sob este teto o extraordinário se manifesta, o amor se move em brisas pelos corredores, na parede sólida da fidelidade, na existência que dança ao ritmo dos ponteiros do relógio. Sob este teto o sagrado se manifesta, eu tiro as sandálias e piso descalço em solo santo, grato e certo de que tudo de que preciso repousa em lençóis brancos e num altar erguido à vida que se eterniza aqui.

(Publicado originalmente no Estadão)

Vivendo de sobras

Temos vivido de sobras. Nesse tempo em que tanto nos falta, em que tantos já nos fazem falta e a completude que sentíamos desfrutar no passado nos parece ceifada, temos aprendido a nos virar com as sobras. Um catado de coisas, esses remendos de atividades que se tornaram uma nova e temporária noção de rotina.

Sobra saudade de quem partiu.

Sobra um vazio no peito, falta um nome para isso, mas sobram as memórias. Porque faltam caminhos, sobra esse sentimento de impotência. Sobra a indignação diante da falta de respeito, de zelo, de honestidade, governo. Sobra o afeto diante do tanto que falta para que se possa ser repartido.

Sobra o quê se não tem diálogo?

Alguns repartem as sobras, outros dividem o que tem até quase lhes fazer falta, mas fazem sua parte para estender a mão a quem tem falta, sobretudo agora em que tanto falta. Outros não dividem, acumulam e acumulam e acumulam suas sobras – convenhamos, esses não fariam falta.

Só nos sobra esperança em meio a tantas notícias ruins.

Tem que nos sobrar um rastro de fé, um grão de mostarda que seja, diante de tanta incerteza, para que possamos mover as montanhas que nos assombram. E também sobra o amor, este sobre todas as coisas, entre as coisas que nos sobram escolher sentir.

Porque abundam sentimentos controversos quando falta tanto para tantos. Faltam escrúpulos, falta caráter, igualdade, justiça. Faltam palavras. Sobra tempo para refletir sobre muita coisa.

Sobra pouco tempo para salvar o mundo.

Estamos privados da liberdade que naquele passado remoto pré-pandêmico usufruímos sem valorizar. Estamos privados de abraços, de toques, de celebrações e momentos festivos. Seguimos escondidos de um inimigo cuja face não enxergamos. Sobram rostos sem máscaras, faltam discernimento e respeito. Estamos nus. Sobramos aqui, isolados, porém menos distantes do que deveríamos. Porque sobram cadáveres, meio milhão de nomes que agora fazem falta para alguém.

Sobram vítimas porque faltam vacinas. Sobra sempre para os mais fracos, para os pobres. Sobra dor. E o que nos sobra é levantar o olhar e seguir em frente.

Estamos vivendo dessas sobras.

Sobra um pouco de café na caneca. Gelado. Era só o que me faltava.

Sobre o quê estávamos falando?

Sobra uma máscara no rosto como refúgio. Sobrancelhas à mostra expressando o sentimento escondido. Sobra um punho cerrado em protesto. Sobra álcool no copo e nas mãos. Sobra vontade de gritar, mas falta quem nos escute. Sobra uma canção nos lábios, um fio de resistência poética, uma música de outros tempos que agora se faz presente, mas cuja letra me falta e sobram apenas versos incompletos sendo cantarolados desde a manhã por todo dia afora: “…amanhã há de ser outro dia.”

Falta o sentimento de amanhã, aquela velha e ilusória certeza, a previsibilidade da próxima semana, os compromissos para o mês que vem. Sobravam planos. Agora sobra apenas o que temos aqui e agora, vivendo o dia de hoje, sentados à mesa, nós quatro, compartilhando graças, trocando farpas, passando a travessa de arroz, servindo um copo de água um para o outro, testando uma sobremesa nova e tentando chegar a um consenso quanto às decisões mais complicadas de cada noite nesse microcosmo que habitamos: que filme veremos hoje à noite? De quem é a vez de tirar a mesa? Quem faz a prece noturna? Quem descer para passear com o cachorro não precisa lavar a louça?

Sob esse teto, temos um ao outro.

Sobra isso que somos. As sobras de que temos vivido e que por hora nos bastam. Ao menos hoje. Porque temos amor de sobra.

(Publicado originalmente no Estadão)

Futuro do pretérito

Em 1964, o jornal The New York Times pediu ao escritor de ficção científica Isaac Asimov que escrevesse um artigo respondendo à pergunta “Como será o mundo daqui a 50 anos?”. No texto publicado no dia 16 de agosto daquele ano, Asimov apontou o que seriam suas previsões para 2014.

É curioso olhar pelo retrovisor da história e constatar que ele acertou diversas mudanças com as quais nos habituamos a conviver nas últimas cinco décadas. Constava entre seus palpites a ideia de que teríamos painéis e paredes iluminadas que mudariam de cor com o toque manual e janelas de vidros que ficariam opacas à medida que a luz do sol incidisse sobre elas. Ele previu também que teríamos aparelhos em nossas cozinhas que fariam café, pão e refeições completas de forma automatizada, escreveu uma ideia bem formulada sobre carros autônomos, sobre computadores se tornarem tão pequenos a ponto de serem usados como cérebros de robôs (inteligência artificial?) e sobre TVs, até então caixotes em tubo, se tornarem telas planas e finas com filmes projetados em 3D. Existem também ideias malucas que a humanidade não foi capaz de inventar, ainda, e outras tantas que ao reler o artigo eu fico em dúvida se aquilo de fato já não existe por aí e eu é que ainda não sei.

E que tal isso aqui? “As comunicações se tornarão visuais e auditivas e você verá e ouvirá a pessoa para quem telefonar. A tela pode ser usada não apenas para ver as pessoas para quem você liga, mas também para estudar documentos e fotografias e ler trechos de livros. Os satélites síncronos, pairando no espaço, possibilitarão a você discar diretamente para qualquer ponto da Terra, incluindo as estações meteorológicas na Antártica (…)”. Esse celular aí no seu bolso, esse mesmo, o Asimov cantou a bola do iPhone quatro décadas antes dele ser lançado.

Algumas dessas previsões são recursos e objetos de algum jeito óbvios para nossa sociedade hoje. As TVs em led, iluminação fotocromática, smartphones, microprocessadores, inteligência artificial… mas, como alguém pensaria nessas ideias antes de serem criadas, antes de serem possíveis, cinquenta anos atrás?

Em seu palpite final, no entanto, Asimov sugeriu que um mal coletivo atingiria a humanidade em nossos dias: o tédio. “Uma doença que se espalha a cada ano e sempre de forma mais intensa”, ele escreveu. Por conta disso, apostou que em 2014 a psiquiatria seria a especialidade médica mais importante no planeta. “Os poucos sortudos que podem estar envolvidos em trabalhos criativos de qualquer tipo serão a verdadeira elite da humanidade, pois só eles farão mais do que servir a uma máquina”.

Em sua ideia mais enfática, seríamos um mundo próspero de tal forma e com tão pouca escassez de recursos que a principal atividade médica seria a de psiquiatra, porque as pessoas estariam tomadas pelo tédio completo.

Duvido um bocado que tanta gente esteja padecendo de tédio em nossos dias. E ainda que desconheça a que taxas psiquiatras e psicólogos se formam e abrem consultórios bem sucedidos no mundo atual (eu certamente cumpro parte da cota frequentando um divã virtual semanalmente), aposto um pacote de jujubas que também não seja “tédio” o diagnóstico que evoca as descobertas de Freud, Jung, Lacan e companhia limitada para tratamento de uma geração que tem na ansiedade, depressão e no esgotamento total alguns dos males mais recorrentes.

Mas, se errou ao dizer que seríamos uma população bocejante e espreguiçada, Isaac Asimov acertou ao dizer que o mundo seria próspero como nunca antes. De fato, acumulamos mais riqueza no planeta durante esses 50 anos do que poderíamos imaginar. Apenas cinco anos depois do vislumbrado 2014, três empresas foram cotadas na Bolsa de Nova York em mais de um trilhão de dólares cada uma. Se fossem somadas e formassem um país, seria a quinta economia do mundo, à frente de nações como Índia, França, Itália, Canadá e, claro, o Brasil (que vem despencando na tabela nos últimos anos, caindo da sétima para a décima segunda posição nesse ranking).

Isaac Asimov não errou a conta de multiplicação, mas a de divisão. Era bom de ficção, mas cabulou as aulas de macroeconomia – ou talvez de ciências sociais, porque o problema não está nas fortunas em si, mas nas mãos que as controlam. A riqueza que somamos ao longo dessas cinco décadas, em vez de tornar a todos mais prósperos, foi empilhada nos cofres de uma minoria que ficou mais e mais e mais e mais rica enquanto o abismo da desigualdade se acentuou. Temos, hoje, quase metade da população mundial (aproximadamente 3,5 bilhões de pessoas) vivendo em condição de pobreza extrema, o que significa viver com menos de US$ 1,90 por dia. Enquanto isso, 1% da população mundial (dá pra fazer a conta na mão) concentra mais dinheiro em suas posses do que os 99% restantes. De 1964 para cá, essa diferença só cresceu. E quem tenta sobreviver com menos de dois dólares por dia, pode estar precisando de cuidados psiquiátricos – entre tantas coisas – mas certamente não está entediado.

De vez em quando, eu volto a esse texto e me pego tentando fazer o caminho contrário. Tento exercitar o olhar e busco enxergar o mundo com os olhos do escritor naqueles dias. Em que contexto histórico Asimov vivia para, olhando para o que via ao redor, vislumbrar o mundo de hoje com tais características, eventos e condições? E, se ele acertou em tantas previsões triviais, por que errou tão feio quando julgou a condição social da humanidade?

Em 1964, o escritor registrou suas previsões tendo como base a visita que fez à Feira Mundial em Nova York e os passeios nos estandes da General Electric, IBM e GM (as potências tecnológicas naquele tempo citadas no artigo). E segundo me relembra o Google e as parcas memórias das aulas de História na oitava série, em 1964 o mundo havia saído há apenas 19 anos da Segunda Guerra Mundial e os Estados Unidos haviam embarcado na Guerra no Vietnã. Eram um país dividido pela segregação racial, planejavam a todo vapor a primeira viagem tripulada para a Lua e acreditavam que o fantasma do comunismo assombrava seus quintais de gramas bem aparadas enquanto gastavam fortunas na Guerra Fria. Era um tempo bem tenso na história. E só me parece que deveríamos ter evoluído desde então.

Em 1964, no Brasil, depois de um golpe de estado, uma ditadura militar instalou-se no país dando início a alguns dos anos mais nefastos da nossa história. Cinquenta anos depois, no 2014 idealizado por Asimov, houve brasileiros que saíram às ruas em protesto mirando 1964 e idealizando ali o seu futuro. Quatro anos depois, elegeram um presidente do século passado. A frase célebre do Millôr Fernandes poderia estar estampada na faixa presidencial: “O Brasil tem um enorme passado pela frente”.

E isso me lembra que há sempre um ponto de partida, a perspectiva, o lugar a partir do qual esse olhar para o futuro é lançado.

Se a máquina do tempo citada em seu livro “O Fim da Eternidade” (publicado em 1955) o trouxesse aos nossos dias e Asimov desembarcasse aqui no bairro, eu lhe cederia uma máscara, uma borrifada de álcool em gel nas mão e contaria que de tédio ninguém tem morrido neste tempo. E tentaria um alinhamento de rota na futurologia.

Daria um desconto na questão da pandemia, afinal nem ele passou por uma dessas (a Gripe Espanhola, última pandemia global que enfrentamos, teve fim em 1920, ano em que o escritor nasceu, me diz a Wikipedia). E quem imaginaria a dinâmica de um mundo tecnológico e controlador sendo dobrado por um vírus? Porque inventar o conceito de telefone celular e de carro autônomo na década de 1960 parece uma coisa bem razoável, mas pensar num vírus letal paralisando o planeta por quase dois anos, aí não amigo, aí já é ter uma imaginação fértil demais.

Mas, aproveitando a visita, perguntaria que previsões ele faria agora para o mundo daqui a mais 50 anos, lá em 2071? Olhando em retrospecto para as últimas cinco décadas, como estaremos nesse futuro meio século adiante? Para além de geringonças tecnológicas, profissões, crises existenciais e meios de transporte, nossos filhos e netos serão adultos em que tipo de sociedade?

Livre da tensão da década de 1960, Asimov daria um curto suspiro atrás da sua máscara, olharia ao redor e veria o mundo de agora como seu ponto de observação: líderes insanos, autoritários, fascistas e delinquentes governando países. O planeta derretendo e a floresta e os recursos naturais que podem nos salvar virando cinzas. Pessoas que não acreditam em ciência, que desafiam os fatos, que acham que se correrem e correrem sem parar vão cair da borda de um planeta plano. A pobreza extrema, a desigualdade social, de raça, gênero e classes calando vozes e oprimindo pessoas minorizadas. A indiferença transbordante nas relações pessoais, que mata o afeto, que enterra o diálogo, que sufoca o amor e nos impede de somar forças.

“Meu rapaz, acho que a máquina falhou. Estou mesmo em 2021 ou 1921?”, talvez ele perguntasse.

A realidade é mais estranha que a ficção. E temos esse lugar a partir do qual olhamos em perspectiva para o horizonte possível, vestindo as lentes dos dias em que estamos e 2071 não parece lá muito atraente. Mais do que o mundo que teremos, me pego aqui conjecturando sobre que mundo queremos, afinal. É urgente semear outro futuro.

(Publicado originalmente no Estadão)

Descolamento da rotina

Enquanto voltávamos para São Paulo um dia após o réveillon, tive a ideia de escrever um conto sobre um homem que viajava no banco de passageiro de um carro em direção à sua casa, com a esposa ao volante, as crianças atrás e ele tentava, a todo custo, guardar cada fragmento de lembrança dos rostos delas porque sabia que ficaria cego no dia seguinte. O conto se chamaria “Um dia antes da escuridão” e narraria a véspera do convívio com a tragédia inevitável. Eu pensava nos pormenores da história e no seu possível final quando a Manu interrompeu meu devaneio com alguma pergunta sobre o trânsito. Ela dirigia, o olhar atento à estrada vazia à nossa frente, as meninas distraídas com a paisagem no banco de trás, o sol da manhã invadindo a janela e revestindo suas peles com os primeiros raios de luz e eu, já cego de um olho, lutava para guardar na memória aqueles instantes e a forma de seus rostos, apavorado com a possibilidade de perder completamente a visão nas horas seguintes.

As nuvens no céu à frente escureciam o horizonte em contraste com a manhã ensolarada até então. Teríamos de encarar uma chuva forte na estrada. O cinza nas nuvens precipitava a escuridão. Escuridão. Só pensávamos nisso, o personagem do conto e eu. A partir do dia seguinte, minha vida poderia ser toda de sombras e a incerteza do que seria o diagnóstico médico para o que eu estava passando martelava uma contagem regressiva em minha cabeça.

Um dia antes da escuridão, a vida era só medo e sombras.

*

Como criar um álbum de retratos na mente? Na iminência de uma despedida, da perda de algo precioso ou do fim programado, a mente tenta se encarregar de construir suas imagens. Eu me fixava nos detalhes, nos sinais que precisava registrar, como pequenos filmes que deveriam habitar na memória dali para sempre. O mundo todo, para mim, poderia estar restrito ao repertório de imagens que vi até aquele momento, eu pensava. Acontecesse o que temia, eu não veria minhas meninas envelhecerem, não conheceria os rostos de meus netos, não fixaria o olhar em minhas rugas no espelho, testemunharia o futuro a partir de outra perspectiva. Os sentidos todos seriam os outros, mas não a visão. O toque, a escuta, o olfato (que já é bem ruim), o paladar, mas não o olhar. O calor do sol, o frescor da brisa, o aroma das ervas, o toque da pele… a vida toda seria diferente diante daquela possibilidade cada vez mais real e naquela hora eu só tentava absorver e reter as cenas que poderiam se tornar minhas últimas lembranças visuais antes de tudo apagar finalmente.

*

Não fiquei cego. Entre consultas e exames e consultas e exames e exames e consultas naquele domingo e nas 24 horas seguintes, seguidas de um diagnóstico de “descolamento da retina” e uma longa espera para internação no hospital, terminei a noite de segunda-feira em uma cirurgia que levaria algumas horas e, segundo prognóstico médico, pouco mais de três meses de recuperação, se tivesse sucesso.

Se. Duas letras que me acompanharam diariamente nas semanas que sucederam.

*

Como aprender a meditar? Procurei no Google. Em casa, deitado de bruços como parte dos cuidados do pós-operatório, eu lutava para administrar o tédio. Precisava caminhar mirando o chão para não atrapalhar a cicatrização. Queixo encostado no peito. Quatro colírios de hora em hora. Escutei podcasts, audiobooks, programas de tv e fazia minhas orações, exercícios de respiração e mindfulness para tentar meditar e de algum jeito dispersar o caos que se instalava em minha mente.

Tem um filme meio velho chamado Inception (se você ainda não viu… não precisa) em que um ladrão atua no inconsciente de suas vítimas roubando ideias de dentro dos seus sonhos. A trama leva a cenas em que os personagens entram em sonhos dentro de sonhos e depois outros sonhos ao ponto que você precisa ficar voltando o filme ou interromper a esposa para tentar entender onde está na história. Quando voltei para casa depois da cirurgia, foi mais ou menos assim também. Passei a viver uma quarentena dentro da quarentena. Uma parada forçada, só que já estava tudo parado. Meus planos de curto prazo e a pequena rotina que vinha seguindo nos últimos meses – com trabalho, corrida, escrita e leitura – parou de forma abrupta. O ano começou com uma pausa dentro da pausa em que a vida já estava, hiato do hiato, colchetes dentro dos parênteses. É, você entendeu.

Um descolamento na rotina.

*

Nunca fui esse tipo de gente que consegue extrair aprendizados quando enfrenta adversidades. Eu só sofro e pronto. Pronto, não, eu fico sofrendo. Ainda assim, diria que sou um otimista contrariado, um devoto cético, um esperançoso ressabiado. Desejo sinceramente que tudo vá bem, mas sempre tem esse mas emendando algo depois da vírgula. E preciso me policiar pra não ficar em conserva naquelas lamúrias. Desta vez, não foi diferente.

No entanto, fui beneficiado com o fato de que me restou muito pouco a fazer no processo pós-operatório senão gastar as horas pensando, fazendo minhas preces e à medida que as luzes e certa nitidez voltavam em meu olho, me peguei mais atento à ideia de capturar os instantes de cada dia como se fossem memórias eternas a serem fixadas para sempre. Anoto esses fragmentos em meu caderno, menos como um diário e mais como um amontoado de sensações que aparecem com um sentido quase inédito e que talvez sirvam para me ensinar algo no futuro. Agora, cada novo dia ainda me parece como aquela manhã de janeiro no carro e os raios de luz e camadas de cores no céu, no papel ou numa tela adquiriram um aspecto mágico. Não mais como a véspera da escuridão, mas como o alvorecer.

Há novos jeitos de enxergar as coisas. As distorções, a falta de profundidade, a perda da visão periférica. Aos poucos, fui forçado a calcular meus movimentos e passos e notar tudo ao meu redor com outro olhar. Eu não tinha certeza de que aquilo seria temporário e a ideia de que havia grandes chances daquela limitação se tornar permanente, acabou ampliando minha capacidade de perceber o entorno (além de despertar certo grau de empatia com quem lida com isso cotidianamente).

Memórias. A possibilidade da perda repentina de algo, a iminência do desconhecido, os ciclos de acasos a que estamos sujeitos todos os dias… nós invariavelmente tropeçamos nas circunstâncias e fatalidades que nos afetam. E isso pode acontecer a qualquer momento.

*

Recuperei a visão. Tive alta há alguns dias. Mas, ficaram sequelas. Elas lembram a todo instante de que estou sujeito ao inesperado, que tragédias não enviam recados com antecedência para que estejamos prontos. Poderia ter sido outra coisa, poderia ter sido algo fatal. As cicatrizes me servem de alerta sobre a fragilidade da nossa carne e da possibilidade sempre iminente de que algo aconteça. A vida é fugaz, esse sopro e tenho me pego refletindo sobre prioridades. Encaro, em escrutínio, o rosto de minha esposa, me pego capturado pelos olhares e expressões de minhas filhas, deito o olhar sobre uma árvore na rua. E tenho sentido certo contentamento com a existência e grato por coisas que me pareciam obviedades.

Um dia depois da escuridão, a esperança renova seu brilho.

Ilhado no sonho dentro do sonho, não pude jamais esquecer que há uma tragédia em curso no mundo. A sombra da dúvida paira sobre cada um de nós, a escuridão é real no amanhã de muitos de nossos irmãos e irmãs. O absurdo em que estamos imersos tenta nos dragar para um estado de alienação e cegueira, mas a contagem cotidiana nos números de casos e mortos pela pandemia, só amplifica o grito lá dentro clamando para que pessoas não virem dados, para que não nos esqueçamos, para que as histórias dos que partiram sejam um memorial de sua existência e que a permanência dos que sobrevivem seja digna, no mínimo digna, pelo menos nobre, de alguma forma merecedora, rendida, exultante, prostrada em reverência e rendida em gratidão pela dádiva que é viver.

Que nossos olhos se abram.

(Publicado originalmente no Estadão)

A distância que nos separa

– Você viu que essa tv vem com dois pares de óculos de 3D?

– Jura?

– Legal, né? Vai dar pra assistir filmes com coisas saltando da tela para o meio da nossa sala.

E assim começou e terminou a breve história dos óculos 3D aqui em casa. Quase oito anos depois, eles repousam na mesma caixa em que vieram, sem nunca terem sido usados.

Não foi por falta de oportunidades, mas uma escolha conjugal. Afinal, a vida já é essa coisa multidimensional. Entre nós, achamos que aos filmes cabe o papel que se espera deles: uma boa história narrada em duas dimensões, contando e contendo a ficção que lhe compete e que nos tira da realidade por alguns minutos, mas sem nos fazer alheios ao que nos cerca. A tela era um escape.

Semana passada, depois da décima terceira reunião virtual no mesmo dia, de 15 horas consecutivas sentado em frente ao computador e de 13 meses com meu olhar concentrado nessa placa de LED para trabalhar, frequentar aniversários, assistir filmes, aulas e qualquer outra atividade que envolva pessoas que não vivem sob esse teto, bem, eu só queria que todas as telas ao meu redor caíssem estilhaçadas no chão como um vidro de Marinex.

Quando a pandemia começou, acreditei, como muita gente, que passaria logo. De forma ainda mais ingênua, cheguei a pensar que, a despeito da tragédia que se impunha, talvez a situação servisse para mudar o foco, para nos unir como espécie em torno de um adversário comum em busca de sobrevivência e cura, já que desde as manifestações de 2013, vínhamos acumulando bofetadas virtuais (bem, nem sempre só virtuais) nessa disputa política que vem se acentuando desde então e fez com que descobríssemos uma face de nossos semelhantes que parecia oculta.

Infelizmente, mesmo a ciência virou bola de disputa política. A verdade, os fatos (os inegociáveis fatos) passaram a ser questionados.

A besta que emergiu entre nós cavou um abismo que separou de forma dramática relacionamentos até então saudáveis e afetuosos. Descobrimos, pelas redes sociais, que pessoas que amamos podem ser chatas pra caramba. A partir de postagens de memes, discursos de ódio, notícias falsas e manifestações, começamos a rotular amigos e parentes em lados distintos do espectro político – como se, de fato, só existissem dois.

No entanto, até o começo do ano passado, ainda tínhamos as festas familiares, os almoços dominicais e encontros esporádicos traziam de volta a revelação de outros lados dessas pessoas. Ali, entretidos em temas mais complexos e, muitas vezes, mais importantes, éramos conduzidos ao sentimento comum de afeto e carinho que nos unia de forma mais profunda. Nessas horas, a vida, essa coisa 3D e complexa, quando saltavam coisas no meio da sala, impunha suas teias, nos convocava à realidade, trazia à tona as lembranças e memórias.

O encontro nos forçava ao toque, forçava o tempo diante do outro, na experiência que coloca à prova nossa valentia, nossas ideias, nos expunha ao debate e fazia escorrer pelo ralo alguns dos argumentos vazios que nutrimos. Olhos nos olhos, deixávamos de lado por um tempo nossas armas, escudos e máscaras e nos permitíamos ser envolvidos pelo abraço reconciliador e pela lembrança das semelhanças que nos unem.

Hoje, vestimos máscaras. Distantes uns dos outros, reduzimos nosso contato ao ambiente virtual, onde o outro é irritante demais. Durante a pandemia, a vida virou tela e só nos restou do outro o que é ruim. A vida agora não é mais tridimensional, é só tela, tela, tela, sem as histórias, as tramas, encontros ao acaso, sem chance para o toque, sem a possibilidade de estarmos face a face diante do outro para espremer nossas diferenças. A tela é um abismo.

É a distância que nos separa.

Nesses tempos, ligo a tv e só quero assistir comédias e filmes de super-heróis. Em 2D, claro. Sem fé nas autoridades, sem sinal de esperança ou de fumaça, tenho esperado ansioso pela chegada dos Vingadores ou do Flash para nos salvar. Ou do Sheldon. Porque o exercício do perdão, da compaixão e o esforço pela tolerância andam um bocado mais difíceis. Faltam abraços. Encarar o outro através de uma tela, exige uma nova dimensão de relacionamento, implica enxergar o que não queremos, porque pode revelar muito do que… de quem… de nós… A tela é um espelho.

(Publicado originalmente no Estadão)

Universos, ciclos e um arco-íris no final da tarde

“Olhai os lírios do campo.” (Mateus 6:28)

No ano em que a sonda Perseverance fez seu pouso em Marte para uma nova jornada de descobertas e explorações à procura de indícios de vida fora da Terra, eu entro em uma nova trajetória de descobertas e explorações neste pequeno mas inescrutável universo que chamamos de lar.

Nina, nossa filha mais velha, completou 14 anos há duas semanas, o que a põe, de acordo com estatutos, estatísticas, termos de uso de redes sociais e regras de projetos de Jovem Aprendiz, oficialmente em novo estágio de faixa etária e, por consequência, um passo mais longe das nossas asas. Dez dias depois, como acontece a cada doze meses – ao menos nisso temos alguma previsibilidade garantida nesses tempos – Cecília chegou aos seis anos, o que a põe, de acordo com a tradição das conquistas celebradas na infância, oficialmente no universo de pequenos indivíduos que usam as duas mãos para mostrar a idade (lembro que me senti um sujeito bastante maduro nesse dia). Como consequência, me ocorre que a partir de agora ela vai se recordar com mais nitidez dos eventos que se passam em sua vida e sua memória da infância passará a ser edificada tendo esses dias – esses loucos, insanos, pandêmicos dias – como pedra fundamental.

Os seis anos de Cecília em nada se parecem com os da Nina oito anos atrás, tal como os 14 da Nina em nada se assemelham à adolescência que Manu e eu vivemos nos anos 90. A vida de cada indivíduo é, obviamente, diferente em perspectivas, experiências, histórias e olhares. Mas, se em quase tudo isso é um ponto a ser celebrado, pela ótica da paternidade, preciso dizer, é jogo duro. Elas começam a habitar mundos distintos, insondáveis e novos para elas e para nós também. E a pergunta que mais fazemos nesses dias ao pensar em nossas filhas é: como podemos participar desse universo?

A pandemia que enfrentamos trouxe essa transformação integralmente para debaixo desse teto que habitamos. E se há o benefício de estarmos perto uns dos outros, testemunhando esse processo, há também o constante atravessar de linhas e fronteiras que deveriam ser respeitadas. Porque não tem, por enquanto, o espaço de vida que elas vivem lá fora, na escola, na rua, nas festas e passeios. É tudo aqui, a transição toda e essas mudanças todas, no quarto ao lado, no sofá da sala, aqui perto, em frente a uma tela. Elas, que entram em novas e desconhecidas etapas de suas vidas e nós, que avançamos os limites da individualidade enquanto formos forçados a trazer a vida inteira, toda rotina de nossos dias, para sentar conosco durante as refeições.

Se a existência no planeta nesses últimos meses mais parece essa coisa encapsulada, compacta, atemporal e difícil de navegar, os ciclos da vida, por outro lado, continuam acontecendo no cotidiano de nossa miudeza doméstica, nos gestos familiares, nas pequenas celebrações, no ritmo da rotina onde a mesa de jantar se tornou o epicentro de qualquer debate.

*

Pouco antes da pandemia começar, as coisas ainda eram diferentes. Houve um mês em 2019 – tipo, mil anos atrás – em que Nina me interpelou com um pedido. Ela queria que eu a ajudasse a andar de monociclo. Aconteceria uma apresentação de circo na escola e ela havia decidido, entre outras atividades, que atravessaria a quadra do colégio pedalando sobre aquela roda.

Acho que foi uma das últimas coisas que fizemos, só nós dois, fora de casa. Saímos algumas tardes nos finais de semana para ela treinar e treinar e, por muito tempo, tudo o que ela conseguia era dar duas ou três pedaladas antes de perder o equilíbrio.

Com o tempo, as pedaladas foram aumentando gradualmente e, numa manhã de sábado, ela já conseguia dar a volta no prédio. Confesso, hoje, que não achei que ela seria capaz e acho tanto quanto empolgado, fiquei surpreso – Nina, assim como eu, tem raras habilidades físicas ou esportivas. A certa altura, já confiante em seu treino, enquanto praticava em uma curva, o pneu deslizou e ela despencou no chão áspero. Tentei minimizar, bati palmas, incentivei para que ela levantasse e seguisse em frente, mas depois de alguns segundos ela continuava caída e de cabeça baixa. Eu me aproximei para checar se precisava de ajuda e ela levantou o rosto com os olhos cheios de lágrimas. Aquele olhar me encarando um pedido de ajuda, aquele nariz ficando vermelho, os lábios franzidos contendo um choro, o braço estendido pedindo apoio e eu agarrando aquele bebê de 1,60 no colo e lembrando imediatamente de cada um dos tombos no parquinho que amparei.

Ela mancou o resto do dia. Na manhã seguinte, pegou o monociclo e desceu para treinar. Dias depois, durante a apresentação do circo, assisti, vibrei e aplaudi na plateia enquanto ela atravessava a quadra do colégio vestida de palhaço e pedalando e se equilibrando sobre aquele monociclo. Ela estava radiante com a própria conquista e eu me sentia satisfeito em participar de seu pequeno projeto. No fundo, me dava conta de que minha presença, cada vez mais, seria menor. Em cada nova etapa, ela se torna ainda mais dona do controle, autora das decisões, responsável por escolher que caminhos deseja trilhar e pilota os veículos que bem decidir. São seus ciclos.

*

Cecília adora peixes. E cachorros, gatos, galinhas, pássaros, sapos, adora animais de qualquer espécie que lhe passe diante dos olhos e ao alcance das mãos. Quer apertá-los e trazer para viverem em seu quarto. Ela gosta de pedalar sua bicicleta e flutuar com seus patins e parece que procura explorar suas forças físicas até o limite daquele corpinho de pouco mais de um metro de altura. Não se contenta em não saber qualquer coisa. Então ela não sabe frear. A bicicleta, às vezes, avança até a guia e tomba. Os patins, com frequência, esbarram nos pés das cadeiras, portas, poltronas e no rabo da cadela dentro de casa. Não enxerga limites para o que quer que seja e, paradoxalmente, acabou de celebrar o segundo aniversário trancada em casa. Ela quer ter uma cauda de sereia.

Ela chegou depois. Quando nasceu, Nina tinha oito anos e em casa já existia a presença de uma irmã mais velha. Já éramos uma família, éramos pais e, ainda que cada filho traga consigo uma experiência completamente nova de sentimentos, perspectivas e mereça sua carga própria de afeto, Cecília não sabe, por exemplo, o que é ser filha única. Ela não viveu com a gente enquanto experimentamos a paternidade pela primeira vez. Os primeiros aniversários, primeiras leituras, dentes caídos, mergulhos… por consequência, muitas das primeiras vezes dela já eram a nossa segunda. O deslumbramento natural em seus olhos precisa ser praticado nos nossos. Então, a seu modo, ela passou a preencher um espaço próprio nesse ambiente e, até por isso, sinto que é ainda mais protagonista nessa relação. Vivemos com ela o jeito que é só dela. Enquanto nossa limitação só era capaz de conceber uma única forma de deslumbramento para essas experiências, Cecília cria suas experiências e nos convida para assistir.

Há algumas semanas, enchemos o pneu da sua bicicleta e saímos para dar uma volta. Era fim de tarde e o sol estava forte. Depois de meia hora correndo atrás dela pela rua, percebi que as perninhas já estavam começando a vacilar e as bochechas vermelhas. “Quer descansar um pouco, Cici? Quer um pouco de água?”. Ela nem respondeu, seguiu convicta como se enfrentasse o sprint final do Tour de France. Em certo momento, numa pequena curva em declive, ela perdeu o equilíbrio e o pedal escapou de seus pés. Eu corri para socorrê-la e tentar evitar o tombo, mas tropecei no pneu, rolei por cima dela e despencamos juntos. Por sorte, havia um gramado onde caímos entrelaçados.

Passado o pequeno susto, ela sorriu. Ainda estávamos no chão e ela se aninhou no meu braço e ficou por ali. Ficamos. Sentindo o sol, o cheiro da grama, o perfume do seu cabelo, mirando o céu e vivendo juntos a nossa primeira vez de uma coisa, qualquer uma, alguma lembrança que seja só nossa e que permaneça. Porque a partir de agora, cada vez mais, suas experiências se tornarão as memórias que carregará pela vida. São seus ciclos.

*

A cada nova etapa, aprendemos a ser pai e mãe, de novo e de novo e tentamos habitar no universo que elas habitam. Achando sempre que é cedo demais para qualquer coisa. Sentindo sempre esse medo de que seja tarde demais para alguma coisa. Dedicamos-lhes preces. Nesses dias cansados, já nem me expresso, porque me faltam… só miro um desejo íntimo e profundo, só me empenho em navegar os pensamentos no que espero, no que gostaria e dirijo intenções para um céu alegórico. Deus, é isso, por favor, obrigado, assim seja.

O mundo segue rendido diante de um vírus, paralisado, chorando com os que choram, celebrando a sobrevivência dos que ficam. A humanidade, aos tropeços, seguindo em frente, procurando curas, lançando foguetes e explorando novas fronteiras do espaço à procura de respostas e de vida. A vida, que a seu modo, continua acontecendo aqui, sob nossos tetos, onde residimos, onde resistimos, testemunhamos meninas se tornarem moças e o desabrochar da vida. E seguimos aprendendo a celebrar nossas pequenas conquistas, soprar velas e dançar com a existência que segue em seus ciclos.

Março acabou faz poucos dias. Como em todos os anos, o fim do mês é marcado pelo aniversário de nossas filhas e uma chuva torrencial nos fins de tarde. Em casa, é uma correria desesperada para fechar as janelas e portas para que não batam e a água não molhe o piso e as cortinas. São as águas de março de Tom Jobim que tomei para mim como forma de marcar o tempo, de contar os anos, essa água torrencial que não controlo mas a quem teimo em resistir. O tempo leva tudo, a tempestade lava tudo. Mas os fins de tarde por aqui, depois de a chuva molhar os jardins, têm findado com o sol do outono que se precipita, o cheiro da terra úmida, o canto das maritacas procurando repouso nas árvores, a luz alaranjada atravessando a sala e um arco-íris que às vezes se projeta no céu, deixando Cecília radiante, nossos olhares cativos e a alma finalmente serena com essas poucas certezas que ainda nos restam.

(Publicado originalmente no Estadão)

Vai passar

O tempo vai passar.
A pandemia vai passar.
A ansiedade vai passar.
O luto vai passar.
Mais um dia vai passar.
Um dia a gente vai voltar a passar…
…passar a roupa, passar crachá, passar o dia atrás de uma mesa.
Esse governo vai passar.
A revolta vai passar.
E o bloquinho vai passar na avenida.
Essa chuva vai passar.
A nuvem de azar a passar.
A nossa canção ainda vai passar na rádio.
Nosso casamento, de papel passado,
a história que passa diante dos olhos
e esse amor não passa nunca
A novela das oito vai passar de novo
e de novo vai passar.
Até a uva vai passar.
O cometa Halley já passou faz tempo, mas eu não consegui ver,
é com pesar.
As tardes vão passar.
Nas árvores vão pássaros.
O álcool gel eu vou passar.
Mantenha distância. Nem mais um passo.
Vai, gado, vai pastar!
O carro quebrado na esquina, é um Passat.
Mais um café? Eu passo.
Mais um perrengue pra passar.
O nome daquele livro? Vou te passar.
Essa ressaca vai passar,
mas não em um passe de mágica,
deixa que te passo um chá.
O sonho vai a passárgada.
O ônibus vai Passaredo.
A modelo já não tem passarela.
Meu time este ano passou em branco, errando passes, veio a passeio
e pelo jeito a má fase não vai passar.
Se a gente ficar passando tão perto,
o vírus vai continuar passando
e passando e passando e passando.
Passando.
Já passou da conta.
Mas vai passar.
Esse tempo vai passar.
Esse medo, esse aqui, vai passar.
A comida na geladeira, vai passar.
Os minutos de fama vão passar.
A senhora ali na rua, foi passear.
A noite escura da alma há de passar.
O tempo de um Brasil cheio de esperança é passado.
Mas vai passando,
num passo de cada vez.
Vai passar a década, o século, esse dia.
A história vai passar a limpo.
Sim, a gente vai passar por essa.

(Publicado originalmente no Estadão)

Fiat lux

À noite, quando chovia e acabava a luz em casa era quase como um susto. Todo mundo parava onde estava, todos sabiam o que tinha acontecido, mas ainda assim alguém se prontificava em avisar que ‘acabou a luz!’, quase gritando, como se a falta de energia afetasse também nossa audição. Era um caos, mas era bom. Ao menos era isso que as crianças achavam daquela interrupção momentânea da rotina. Tudo ficava limitado, o chuveiro ficava frio, a tv não funcionava, não tinha luz para ler gibis. A vizinhança inteira, sendo assistida pelas janelas, era aquela escuridão só. E com a escuridão, vinha um silêncio, tão incomum nas cidades. Tudo parecia uma pausa.

O breu reduzia também o ruído, até que, aqui e ali, os pontinhos de luz provocados pelas chamas das velas iam aparecendo. Mas a luz fraca nunca era o bastante para irradiar, eram só pontos amarelos através dos vidros e a certeza de que ao redor daquelas chamas havia gente que, de repente, teve sua noite modificada pela ausência de algo que, tão constante que era, até parecia parte da linha de existência cotidiana. E as miudezas de cada mesa de cada casa sempre distintas no fim do dia, agora eram praticamente iguais.

Abria-se espaço para conversas intimistas ao redor das velas, as historinhas inventadas, os jogos e teatros de sombras na parede, a ida ao banheiro no escuro, a comida fria, o cheiro de fumaça e da parafina queimando, o medo do quarto ao lado que agora parecia um universo desconhecido e a gente ali, juntos, contemplando o silêncio e a escuridão e adquirindo um outro tipo de percepção do tempo, sem saber quando a luz seria restabelecida (poderiam ser minutos ou horas), racionando os tocos de velas dispostas nos pires de café e os adultos regulando as caixas de fósforos que as crianças insistiam em querer riscar para ver a pequena explosão de pólvora brilhar diante dos olhos, fiat fux, que era então só um nome escrito na caixinha.

A incerteza criava esse estado de suspensão, já que a luz nunca voltava em horário programado. Era sempre a surpresa de notar o repentino acender de um cômodo ou dois da casa, onde os interruptores haviam permanecido ligados, como se o brilho de algo novo surgisse, como se o mundo de novo acendesse e a gente fazia ‘oohhh’, sorrindo aliviados, com alguém avisando que ‘a luz voltou!’ mas de um modo, algum modo, meio tristes com a interrupção daquele pequeno silêncio mágico. Porque se a luz abria cores para que pudéssemos enxergar com clareza, sua ausência revelava as paisagens que ficam sempre escondidas atrás daquele brilho todo que ofusca o silêncio.

(Escrito originalmente para o Estadão)

Com que máscara eu vou?

– Oi… Oi. Alô? Você tá me escutando?

– Oi, amor. Tô, sim. E você me ouve?

– Sim. Dá pra ver direitinho a câmera?

– Agora dá. Mas pare de tremer um pouco.

– Pronto. Só queria apoiar o celular aqui, assim, pra te perguntar uma coisa.

– O quê?

– Você acha que essa camisa ficou boa?

– Sim, tá bonita… você fica bem com essa cor. Põe aquela calça que te dei no Natal. Tem reunião?

– É. Coisa rápida. Aquele contrato que te falei.

– Sei.

– Agora, qual máscara combina melhor com essa roupa? Essa com bolinhas ou essa outra lisa, mais neutra?

– Hum, não tem nenhuma xadrez ou listrada? Bolinha fica muito infantil, seu evento é mais formal, é bom parecer mais sóbrio, né?

– Não tenho. Mas tenho aquela que parece um mosaico, sabe? Colorida. Acho que está ali no varal e…

– Não! Aquela não. Parece uma mini colcha de patchwork.

– Eu gosto. Foi minha avó que fez.

– Então.

– Vou com a lisa então.

– Mas essa lisa não está no mesmo tom da sua roupa. Aí fica destacando muito.

– E se eu comprar uma descartável na farmácia?

– Só se for branca… aquela do tipo verde piscina não dá, né?

– Verde Tiffany, ué.

– Não. Aquilo é verde parede de farmácia.

– Tá, esquece. E essa outra aqui? É das primeiras. Tem até um bico de pato na frente.

– Está desbotando. E essa puxa as suas orelhas pra frente.

– Acho que no fim dessa pandemia as minhas orelhas já estarão pra frente.

– E aquela preta com arame?

– Ela tem uma costura na boca e fico parecendo o Hannibal.

– Fica mesmo. E a que você ganhou da empresa? Tem até uma marca estampada.

– A máscara outdoor? Aquela embaça os óculos demais.

– Todas embaçam.

– A de bolinha não.

– Peraí, mas você vai de óculos?

– Vou. Tenho que ler um negócio lá na reunião. Letras miúdas.

– Então não daria para ser xadrez. Seus óculos são redondos.

– Vixe. Tem isso também?

– Me mostra aquela primeira de novo?

– Essa?

– Isso. Acho que, no conjunto, é a que fica melhor.

– É?

– Certeza. Eu acho.

– Então tá bom. Ou não… Obrigado pelas dicas.

– Hum, viu… só uma coisinha.

– Oi.

– A máscara é essa mesmo. Eu só mudaria uma coisa.

– O quê?

– A roupa.

(Publicado originalmente no Estadão)

Como se não houvesse ontem

Estava aqui pensando: e se 2020 não acabar? Vai que, em 31 de dezembro, noite de Réveillon, de repente o ponteiro do relógio vire meia-noite e ainda estejamos em 2020? Um dia 32, ou o primeiro dia de um novo mês ou, pior de tudo, um eterno 31 de dezembro cujo amanhã nunca chega.

Um tempo sem futuro. Tenho pensado sobre isso mais do que minha sanidade deveria permitir. Que sanidade? Afinal, dá para esperar qualquer coisa deste ano. E, tudo bem que, se a gente não ligar a TV ou fizer uma ceia, vai ser uma noite igual a qualquer outra noite de abril, junho ou outubro.

Comentei a respeito com o André, meu colega e ele riu. Mas só para depois confessar que uma outra ideia lhe ocorreu: “A gente poderia resetar esse ano”, ele disse, “tipo, vamos começar 2020 de novo e tentar outra vez? Aí a gente não contaria para os nossos filhos o que aconteceu na primeira tentativa”.

Ele parece mais otimista do que eu. Se no meu pesadelo nossa existência não tem amanhã, na dele só não teria ontem.

Apagar o passado não é ideia nova. Na ficção científica, em dramas com personagens arrependidos ou num cenário hipotético de, sei lá, acontecer uma pandemia (rá! Já pensou? Que absurdo! A humanidade, em pleno século 21, passar por uma pandemia. Isso jamais aconteceria, né?).

Em um ano como este, o que a gente pensa é seguir em frente, virar a página do calendário e criar para si a ideia de que uma virada de noite traz consigo um significado profundo de renovação e o fim repentino dos nossos problemas.

Outro dia – não me pergunte quantos, porque parei de contar os dias em meados de junho – estávamos em nossa bolha-móvel-motorizada-anti-corona passeando pela cidade quando passamos em frente a um restaurante. Havia uma multidão na calçada do lado de fora do estabelecimento. “Ninguém tá de máscara!”, exclamou minha filha de cinco anos num misto de indignação e inveja.

Na sequência daquele estabelecimento, vimos outros tantos nas mesmas condições. E na sequência das semanas, nas excursões exploratórias que fazemos em nosso carro para além dos muros do condomínio em que vivemos, cada dia mais gente nas ruas, nos bares, em lojas. Ignorando as evidências, as recomendações e o fato de que os índices de contágio e mortes por Covid-19 jamais chegaram ao patamar necessário para que esse tipo de flexibilização fosse possível.

“Essa gente festejando nas ruas”, disse minha esposa, “como se não houvesse amanhã”. Eu olhei com cumplicidade e emendei “ou como se não tivéssemos vivido ontem, né?”.

Como se não houvesse ontem.

Pararam os boletins alarmistas com estatísticas diárias no plantão do telejornal. Sumiu o mapa de mortes com estados e cores vermelha, rosa e laranja no topo das capas dos sites de notícias – a verdade é que o número de mortes não pára de subir, mas eles já não significam a mesma coisa para nossos ouvidos. Cansamos. Cansamos dessa tragédia, de empilhar cadáveres, de ouvir que morrem todos os dias no Brasil o equivalente à queda de quatro aviões lotados, que já morreram mais pessoas por Covid nos EUA do que americanos vitimados nos combates da II Guerra Mundial, que o vírus não poupa atletas, crianças e jovens. Cansamos das imagens de valas comuns cheias de corpos, das cenas de hospitais com pessoas entubadas de bruços, das fotografias de caminhões frigoríficos armazenando e transportando mortos. Estamos exaustos de saber que a vacina, mesmo aprovada, ainda deve demorar. Já deu nas ventas essa coisa de usar máscara. Que saco usar máscara! Não queremos ouvir que governo X comprou milhares de ampolas e governo Y garantiu a compra de freezers. Se a vacina é da China, da Alemanha, do Paraguai ou da Papua Nova Guiné. E quantos porcento dizem que vão tomar versus os quantos vírgula tantos porcento que teimam que não vão. A gente cansou, já faz tempo, de tudo isso. Os sobreviventes, os que até agora não foram infectados ou que ficaram doentes e se curaram, esses todos cansaram. Quem tem razão, cansou. E quem nunca ligou à mínima para os fatos, também.

“Survive is the new success”, disse o Seinfeld numa entrevista que escutei outro dia. Em um momento como esse, estar vivo parece mesmo uma grande conquista.

Mas, sobreviver, ainda que reserve a alguns o direito à alienação, não dá a ninguém o direito de minimizar as proporções da tragédia, de minimizar a memória dos que partiram, de desdenhar do sofrimento dos que perderam entes queridos, dos que sofrem confinados e dos que ainda sofrerão as consequências dessa pandemia, seja pelo efeito psicológico, seja pela crise em seus empregos e negócios. Não podemos voltar à rotina como se o amanhã não estivesse à nossa espera. E não podemos, tampouco, agir como se não tivesse havido ontem. Não é possível que a gente não vá aprender nada.

Já li em algum lugar que crises não provam caráter. Elas o revelam.

Estou certo de que no futuro, em algum momento, minhas filhas irão se referir a este ano como história, um ponto no passado. Só não sei ainda que julgamento a história reservará para mencionar a forma como teremos passado por isso. Ainda não acabou. Mas, se 2020 se tornar o epicentro de uma transformação importante na forma como consumidos, como habitamos, como tratamos uns aos outros, poluímos e exploramos o ambiente ao redor, talvez, ainda que dolorosa, a tragédia não terá sido em vão e isso nos ajudará a evoluir.

Faço assim uma prece. Com a esperança de que o amanhã será melhor para nossos filhos e que os próximos anos que virão, como a virada de noite que surge logo ali na esquina, serão o começo de um novo tipo de humanidade.

Por via das dúvidas, faço também uma crônica para nossos filhos, assim de reserva, programada para o dia 1 de janeiro sob título “Reset: bem-vindo a 2020!”.

(Publicado originalmente no Estadão)

Caixa de bonecas

Certo dia, ainda no primeiro ano de casados, a jovem esposa chegou do trabalho e notou três ou quatro sacos grandes de lixo cheios encostados na parede do pequeno corredor de entrada do apartamento.

“Oi. Tudo bem? Hum, o que é isso?”, ela perguntou enquanto se espremia na parede para desviar dos sacos. “Oi. Foi tudo bem no trabalho? Ah, isso? Eu separei umas roupas velhas para doar”, o marido respondeu enquanto diminuía o volume da tv. “Que legal!”, ela disse com um sorriso motivador. “Nossa, eu tô morta hoje. Vou tomar um banho e já volto”.

No trajeto de dois ou três passos que separava o corredor do quarto, ela voltou com o rosto intrigado e começou a abrir um dos sacos.

“Henrique?”

Danou-se. Pensei antes de responder: “Hum… Oi!”. Ela tirou uma calça verde do saco e, sem olhar na minha direção, perguntou: “Por que tem roupas minhas nesses sacos?”. Danou-se mesmo. Tentei me defender: “Ah, amor… são coisas velhas. Eu olhei no armário e o que tá aí você já não usa há mais de seis meses. Tem roupa que eu te dei no começo do nosso namoro. Nem estão na moda.”

Naquela noite, aprendi uma dura e definitiva lição sobre o prazo de validade das roupas. Naquela noite, minha esposa recém-casada passou a desconfiar que seu marido tinha TOC. Quase vinte anos depois, ela descobriu que eu tenho mesmo. Quer dizer, ela já sabia faz tempo. Quem descobriu fui eu.

E nada coloca mais à prova minha mania de organização do que as três doces mulheres com quem divido o teto do recém mobiliado apartamento para o qual nos mudamos há poucos meses.

Não é de propósito, juro com os pés juntos e simetricamente alinhados. Sou um compulsivo contrariado. Outras pessoas que conheço com manias semelhantes, usufruem raro prazer ao ver um armário clamando por ordem, simetria e processo. Eu sofro. Não quero arrumar, eu preciso. Quando me dou conta, já estou entretido dando um jeito de arrumar livros, armários, estantes e prateleiras pela casa. Mas eu reclamo, o que só piora as coisas para elas. No fundo, adoraria ser um bagunceiro, um desordeiro, relapso. Esse tipo de gente rebelde que não dobra as roupas antes de colocar no cesto de roupa suja, esses anarquistas que não compram várias roupas da mesma cor para poder facilitar a organização da gaveta ou esses desleixados que não ordenam os ícones dos aplicativos de seus celulares por ordem alfabética.

Manu já é vacinada contra mim desde aquele fatídico dia (e ela faz questão de me lembrar o caso com boa frequência como medida preventiva). E Nina, nossa filha mais velha, agora que é adolescente, já não tolera minhas intervenções em seu quarto – até porque ela chama aquele protótipo de cenário de reality show de processo criativo para fazer suas lições e artes. Só me resta a Cecília, que aos cinco anos não reage negativamente às investidas sistemáticas que faço em seu guarda-roupas e caixas de brinquedos. Ainda. Por outro lado, é justamente ela, Cecília, o nome da pequena tempestade que atravessa nosso doce lar todas as tardes, fazendo com que brinquedos e roupas e papéis e acessórios e lápis de cor e livros e cabos e fragmentos de comida se espalhem por todos os cômodos e cantos. Outro dia, no café da manhã, eu comi um pedaço de ração canina achando que era uma rosquinha de côco quebrada.

Eu pouco invisto no guarda-roupas. Concentro meus métodos nas caixas de brinquedos. Não basta dizer que aos cinco anos ela já acumulou mais brinquedos do que eu venho ganhando nos meus 39, é importante ressaltar que precisamos procurar um padrão taxonômico. São quatro caixas no total. A maior é dedicada a bonecas e acessórios, a outra para coisas de cozinha, a terceira armazena centenas de peças de Lego e na quarta ficam os jogos e aleatoriedades (coisas inclassificáveis, como um pote vazio de sorvete, uma gaita, massinhas e um carrinho). É claro que depois de algum tempo com tudo organizado – tipo, 30 ou 40 minutos – os brinquedos já estão fora das caixas e espalhados pela casa.

Na semana passada, entre uma reunião virtual e outra no meio da manhã e depois de me irritar com as notícias do dia, peguei um café na cozinha e, enquanto caminhava pela casa, passei em frente a porta do quarto dela e a ouvi brincando sozinha. Ela simulava uma conversa entre os personagens, com duas ou três vozes diferentes. “Oi, professora! Ah, sim, querida. Toma aqui, bebê. Ah, que cachorrinho mais lindo!”.

A boneca estava conversando com uma peça de Lego, enquanto uma folha de papel amassada era lentamente cozida no fogãozinho. Um bloco de massinhas fazia vez de príncipe e um copo d’água exercia um papel qualquer na cena. Havia bolinhas de algodão fazendo as vezes de espuma e um pote de xampu tinha sido derramado em uma panelinha.

Passei os olhos pelas caixas e as conexões que fazia entre cada objeto e seu suposto repositório, certo de que aquilo estava errado e precisava ser corrigido e… bem… fiquei ali observando e me dando conta, finalmente, de que na cabeça da minha filha objetos não são o que suas etiquetas determinam. Qualquer coisa é brinquedo e qualquer brinquedo é o objeto que ela quiser que seja. Sua imaginação infantil não determina a ordem regular que meu olhar impõe ao classificar e remeter cada item em sua devida caixa.

Lego não precisa encaixar com Lego… ela mistura peça de jogo de tabuleiro com boneca, uma pedra trazida do gramado com massinha e um pouco de macarrão crú. Então, uma casa, uma sala de aula, um planeta exótico e um universo todo se constroem na mente dela. Porque ela pensa de outro jeito, diferente dos padrões aos quais nos condicionamos e a “ordem natural das coisas” não é a ordem exata que eu calculei. E só então paro para reconhecer, contrariado, que as coisas não estão erradas só porque não estão do meu jeito.

Sentei ao lado da minha filha e ganhei alguns minutos mergulhando em sua fantasia enquanto brincávamos juntos.

Eu quero organizar o mundo. Para além deste microcosmo doméstico que prefiro acreditar que administro, também alimento a certeza de que outras coisas também seriam melhores se fossem feitas à minha maneira. Ou, ao menos quero acreditar que existe um jeito desse caos político-social-educacional-moral-sanitário-espiritual-ambiental serem geridos com alguma decência e ordem. Deus certamente não tem TOC — e eu apelo bastante para ele. Mas, tão pouco qualquer uma das figuras públicas eleitas para nos servir – alguns ainda se dizem seus porta-vozes ou escolhidos – e que deveriam colocar ordem nessa bagunça, parecem minimamente preparadas para colocar as coisas nas caixas que em deveriam estar.

O agravante é que, na maior parte do tempo, nós somos as coisas, os brinquedos com o quais eles se divertem.

Marionetes. É o título de uma crônica escrita por Rubem Braga que me veio à mente enquanto brincava com Cecília naquela manhã. Lá em 1948, ele escreveu:

“O menino ganhou uma grande caixa vermelha vinda de Praga. Dentro há um teatrinho de marionetes” (…) O menino, então, leva horas, sozinho, a mexer com os bonecos. Puxa-lhes os cordéis, faz com que briguem, se abracem, ou desmaiem. Depois chegam outros meninos e começa a representação. Não escreveu, nem sequer imaginou nenhuma peça. Vai inventando. E assim, ao acaso, lança os personagens no palco, pegando às vezes o que está mais perto, seja capeta, mulher ou guerreiro antigo. Inventa falas, improvisa enredos, cria situações terríveis que resolve muito naturalmente com sua prepotência de pequeno deus. Quando está cansado de um personagem, seja a Morte ou seja o Rei, faz com que outro lhe aplique uma surra e o expulse de cena – ou simplesmente o lança fora, sem explicar por que veio, nem por que se foi. Como tem uma vitrolinha francesa, faz com que tudo isso aconteça ao som de ‘Au clair de la lune’ ou Sur le pont d’Avignon’. E haja o que houver tudo acaba sempre muito bem como bonecos dançando e o dragão a abanar alegremente o rabo.

As crianças fazem demasiado barulho. Fecho a porta do escritório, volto a ler meus jornais. Pacientemente percorro os telegramas das agências, o noticiário da Câmara, as audiências do senhor presidente da República, noticiário de institutos, editoriais sobre a situação de Berlim, sobre o preço do café… E tudo isso é também absurdo; há enredos estranhos, personagens que entram e saem ninguém sabe por que, ministros, bailarinas, moleques…

Tenho vontade de ir lá dentro chamar o menino, entregar-lhe o Brasil e o Mundo, pedir-lhe para organizar, com todos esses bonecos terríveis e gaiatos, uma história mais coerente e mais divertida.”

Se há um jeito para as coisas se ajustarem, não está na forma como têm sido feitas por nós. Cecília – e nossas crianças – talvez tenha a resposta, tenha um caminho, com seu olhar infantil que não enxerga caixas, fronteiras, preconceitos, que não limita coisas aos seus rótulos e personagens às suas funções. E nossa luta deveria ser para que jamais perdessem essa perspectiva e para que pudessem crescer preservando seu direito inegociável de reinventar e narrar suas histórias.

Não creio que elas seriam capazes de salvar o mundo agora, mas certamente ele seria um lugar mais divertido. E bagunça por bagunça, eu ainda prefiro brincar de marionetes do que continuar sendo uma.

(Publicado originalmente no Estadão)

O livro chegou!

Queridos, o livro chegou por aqui :-)

Estou com meu exemplar em mãos, recém saído do forno, as cores vivas e aquele perfume convidativo das páginas ainda não desbravadas. A edição ficou mais bonita do que imaginei.

Já está à venda no site da Livraria Martins Fontes, da Cortez Editora, em pré-venda na Amazon e, a partir de 26/10, estará disponível na sua livraria favorita.

Falando em livrarias, o lançamento oficial será neste sábado. Se você está no grupo de pessoas que já têm se aventurado a frequentar lojas, fica aqui o convite: sábado (24/10), entre 14h e 17h na livraria Martins Fontes da Paulista (Av. Paulista, 509), os livros estarão lá para venda. Flavio Remontti e eu estaremos por lá autografando exemplares e tocando cotovelos com quem aparecer. Na loja, entrarão apenas cinco pessoas por vez e nós dois estaremos devidamente mascarados, distantes e alcoolizados (ops, “alcoolgelizados”), respeitando os protocolos necessários nesse momento que todos enfrentamos. Caso possa comparecer, será um grande prazer conversar e rever pedaços de rostos conhecidos.

Agora, o mais importante: se você comprar o livro e uma criança perto de você ler a história (a criança pode ser você, claro), ficarei muito feliz em saber o que ela achou. Me escrevam :)

Abraços e mugidos,
Henrique 🐮

PS 1: É a segunda vez que publico um livro e a sensação maravilhosa de ver o projeto pronto é a mesma (aquela história: ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Imagine isso tudo duas vezes?). Mas, é evidente que este não é, nunca, um trabalho solo. Eu preciso agradecer a tanta gente que certamente vou incorrer no erro de esquecer alguém importante (tentarei ser justo, mas já peço desculpas de antemão). Obrigado, sempre, à minha Manu (você é quem tem mais que minhas palavras). Obrigado também pela primeira leitura de tudo, pelo incentivo, pelo amor, por aturar minhas dúvidas e inseguranças e ideias e destemperos e ansiedade e por corrigir minhas vírgulas. Às minhas filhas, Nina (que disse que essa história valia a pena ser contada) e Cecília (que disse que o livro é só pra ela) que  que me fazem querer inventar e contar histórias só para ver algo novo brilhando em seus olhos. Aos meus pais e irmãos, por todos os livros, cadernos, lápis e pela infância que me deram. Aos familiares e amigos queridos que leem as bobagens que escrevo e dão grande prova de afeto ao ler, comentar, encorajar, passar adiante, dar espaço para os textos em veículos de mídia e ao enviar os originais para editores. Ao querido Cláudio Fragata, que acendeu a faísca que essa história precisava e a acompanhou até que ficasse pronta (mesmo nas horas extras em cafés da manhã nas padarias da cidade) e aos colegas da oficina que acompanharam a saga. Obrigado, claro, ao Amir Piedade, Elaine Nunes, Miriam Cortez e toda turma da Cortez Editora. E obrigado, Flávio, por topar embarcar nessa história e dar rosto, cores e vida ao Cuca.

PS 2: A Cortez é coisa fina. O livro tem booktrailer também:

https://www.youtube.com/watch?v=IBmtoeYv0Vo&feature=youtu.be 

Primeiras palavras

Estava sentado na cozinha tomando um café e conversando com a Manu quando Cecília, nossa filha mais nova, chegou com um pedaço de papel dobrado nas mãos.

– Pai, olha, eu escrevi uma história.

– Jura, Cici? Que máximo! Quero ver.

– Tó. Lê pra mim?

Olhei o conteúdo com atenção: uma página de caderno pautada cheia de rabiscos e bolinhas cuidadosamente enfileirados por quase 10 linhas. Tentei me esquivar.

– Filha, leia você. Foi você que escreveu, né? Quero saber o que tem na história.

Sem mais, ela rejeitou o papel dizendo:

– Pai… eu já sei escrever. Mas ainda não aprendi a ler.

De uns tempos para cá, ela tem reclamado que não sabe ler. Conhece as letras, junta umas sílabas aqui e ali, escreve nossos nomes e algumas coisinhas, mas vê a irmã mais velha devorando tijolos de 400 páginas no quarto à noite e corre com seus livrinhos em mãos indignada:

– Por que só a Nina sabe ler e eu não?!

– Você ainda vai aprender, Cici. A Nina já tem 13 anos, você tem cinco. É por isso que você vai à escola.

– Mas eu não quero aprender na escola! Eu quero saber ler hoje.

Ela não quer que a gente leia as histórias para ela. Ela não quer estudar o abecedário ou ser guiada por métodos fônicos ou globais. Cecília quer ler, por download, upgrade de software, osmose ou milagre. Às vezes, finge que sabe, pega um livro, senta no sofá, abre numa página aleatória e fica narrando em voz alta uma história inventada para si mesma.

Eu lembro dessa fase. A atitude dela nesses dias me leva num mergulho também em meus quatro ou cinco anos, na Era pré-Xuxa, nos Anos Bozo, pouco antes de ingressar na escola, e eu tinha inveja do meu irmão mais velho por dois motivos: ele tinha um par de Kichutes (cujo cadarço era tão grande que daria uma volta completa no quarteirão) e lia gibis sozinho deitado no sofá da sala à tarde. Minha mãe, ao lado dele, se entretia com agulhas de tricô e livros. E mais do que aquelas agulhas enormes tilintando e fazendo nós em fios de lãs, eram os livros que me intrigavam. Queria entender o que aquele monte de letras enfileiradas significava.

– Mãe, o que você está lendo?

– A gata triste – ela disse.

Achei estranho. Ela lia vários livros sobre aquela pobre gata infeliz. Anos mais tarde, escutei uma referência sobre os 79 livros publicados pela escritora inglesa Agatha Christie e dentro de mim um enigma pendente se resolveu finalmente.

Tal como minha filha, aprender a ler foi uma ideia fixa que me acompanhou na primeira infância. Sozinho, me distraia juntando as letras. Tenho lembranças nítidas do dia em que invadi o banheiro onde estava minha mãe com a descoberta que mudaria tudo dali para frente: “Mãe, se V com A dá VA e C com A dá CA, então se eu juntar VA com CA dá VACA?”.

Naquela hora, viajei dali para outro mundo. E um universo inteiro, novo, de páginas e histórias, se abriu para mim.

Mary França e Eliardo França foram os autores dos primeiros livros que consegui ler sozinho, mas “O Menino Maluquinho”, em uma edição que guardo até hoje, foi minha primeira conquista ao terminar um livro com mais de 20 páginas — o que soaria como concluir uma maratona para alguém acostumado a fazer caminhadas. Naqueles tempos, o Magnum, o Careca e o Ziraldo eram uma espécie de heróis para mim. O Ziraldo ainda é.

Desde então, não tenho lembranças de andar sem ter um livro como companhia.

Quando Nina nasceu, Manu e eu líamos histórias para ela à noite, a presenteávamos com livros de todo tipo e eu nutria um desejo quase obsessivo para que ela se tornasse uma leitora. Nunca disse isso em voz alta, mas sinto que minhas filhas podem até rejeitar todo meu legado como pai (devo ter algum, eu acho) mas não ser uma leitora voraz não é uma opção. E Nina não desaponta. No último dia dos pais, me escreveu uma cartinha onde, entre versos e votos, consta uma frase assim: “obrigada por me mostrar mundos em livros”. Ela tem desbravado seus próprios mundos agora.

Por isso, quando vejo a Cecília andando pela casa com uma pilha de livros nos braços, descaradamente extraviados do criado-mudo da mãe (maior vítima de seus assaltos literários) e tentando decifrar os códigos passando os dedos miúdos sobre as palavras naquelas páginas, penso com gratidão no privilégio de nossas filhas por ter acesso a livros desde cedo. E, com um sorriso incontido, penso no momento em que VA e CA se unirão em sua mente no estalo definitivo. Há muita coisa nisso.

Palavras são o principal instrumento pelo qual nossa espécie se comunica. E desde que surgiu há cerca de 6.000 anos, o registro escrito de experiências e ideias têm sido a principal forma de perpetuação de aprendizados, histórias, sentimentos e desejos. O que surgiu como forma de transmitir informações na parede de uma caverna ou no casco de uma tartaruga, é agora também uma expressão artística.

Minha filha não está errada. Ela quer compreender e desbravar novos mundos. Talvez entenda, de algum jeito, que há mistérios a serem decifrados ali. Que tem um rito de amadurecimento e um certo poder em saber ler. E certamente ela vai descobrir quão longe sua imaginação pode levá-la à medida que for tocada pelo poder das palavras e transportada para lugares novos através de um simples virar de páginas. O que, no caso dela, será quase um reencontro, porque a infância carrega em si essa pureza da expressão, um deslumbramento que a arte é capaz de nos dar e que perseguimos vida afora.

Há muito dessas crianças em nós. As que fomos um dia, as que desejamos ter sido, as que carregamos nas lembranças distantes. Há essas duas crianças ao nosso redor, nossas meninas crescendo, motivando nossas preces, nos deslocando do eixo e em quem projetamos tantas exageradas expectativas. Há o desejo de que possam crescer e se tornar mulheres felizes e saudáveis. Há em nós, mãe e pai, o sonho de vê-las seguirem a vida fora de nossas asas, para além do que nós seremos capazes de ir, voando mais alto do que o limite que alcançaremos e lendo Guimarães Rosa com a alegria estampada nos lábios.

Poucas coisas são tão belas do que testemunhar uma criança aprendendo algo novo. Talvez esse seja um presente inerente à paternidade. E nesses instantes, quando os olhos delas se abrem, acende em nós aquele desejo de que a partir dessas descobertas elas passem a viver suas próprias histórias, que se tornem protagonistas de sua existência, que sonhem e sonhem, que lutem por nobres causas, que criem para si novos reinos, novos planos, universos inteiros de possibilidades que surgirão à medida que descobrirem o mundo e traçarem, a seu modo, as primeiras palavras em uma página em branco.

(Crônica publicada originalmente no Estadão)

Meu novo livro!

Amigos queridos, estou lançando meu segundo livro.

Dessa vez uma história infantil, minha primeira incursão no ramo da literatura que mais gosto.

Desde que aprendi a ler, comecei a inventar histórias. E quando criança, tanto quanto gostava de ler e colecionar livros, também sonhava um dia poder escrevê-los. Carrego comigo a lembrança da primeira vez em que entrei em uma biblioteca e pensava, aos seis anos, nas pessoas que tinham escrito aqueles livros todos. Há alguns anos, o nascimento das minhas filhas e os momentos de leitura em família, resgataram da estante as minhas obras favoritas da infância – que carrego comigo ainda hoje – para serem lidos ao pé da cama com as meninas. Nessas noites, foram surgindo novos personagens, histórias e o resgate daquele desejo de escrever os livros que me um dia me levaram a gostar de ler.

O livro se chama “Nem que a vaca tussa” e conta a história do Cuca, um garoto de oito anos que mora em um apartamento com os pais e a irmã recém-nascida. O pai do Cuca mantém em um dos quartos uma rara e elegante coleção de brinquedos. Mas o menino não pode entrar no quarto, não pode chegar perto da estante, não pode, claro que não, nem encostar nos brinquedos… “nem que a vaca tussa”, diz o pai. E falando em vacas, no alto da estante, bem na prateleira de maior destaque, tem uma vaquinha de madeira que fica dentro de uma redoma iluminada. Cuca é um menino obediente, sempre seguiu as orientações do pai. Até que um dia…

O livro está sendo editado pela Cortez Editora, que teve a irresponsabilidade de me oferecer um contrato. E tem ilustrações primorosas do Flavio Remontti, o que já faz o preço de capa valer cada centavo. A partir da próxima semana, estará em pré-venda na Amazon e no dia 12/10 (Dia das Crianças) 20/10 disponível em todas as livrarias.

Na próxima semana, postarei mais detalhes. O que eu queria agora era poder compartilhar e comemorar essa novidade com vocês que, por curiosidade, misericórdia, interesse ou masoquismo, leem o que escrevo por aqui.

Até!
Henrique

ATUALIZAÇÃO (10/10): o livro está em pré-venda na Amazon (neste link) e no site da Cortez Editora (com desconto de 40% até dia 12/10).

Abra seu spam

“O que o mundo precisa, é de mais amor”, diria Cabo Daciolo.

Recebi, hoje, uma mensagem de spam que era uma nota de falecimento. Em geral, implacável com mensagens indesejadas, nesse caso não fui capaz de enviar para o lixo um email que trazia no título a notícia “NOTA DE FALECIMENTO”, em letras garrafais. Abri. E um certo sindicato do qual nunca ouvi falar comunicava, com profundo pesar, que Dona Fulana, esposa do aposentado Ilmo Sr. Fulano e mãe do caríssimo Sr. Fulano Filho, falecera no último dia 28.

E com essas duas frases breves acabava a nota. Praticamente um telegrama eletrônico. No rodapé da mensagem, constava o endereço do sindicato, localizado em algum bairro na cidade do Rio de Janeiro, e os links das redes sociais com o convite “Curta nossas mídias sociais e fique por dentro!”, convidavam festivamente. Resisti à tentação de ficar por dentro do que acontece no dia-a-dia daquele sindicato, mas só porque me distraí pensando em Dona Fulana.

Morreu como, a pobre? Com que idade? Foi durante o dia em algum hospital da cidade ou à noite, em casa com o marido? Estava acompanhada? Fiquei com os pensamentos presos ao filho que ela deixou, talvez alguns netos que o email tenha negligenciado e especialmente no marido aposentado, o Ilmo, agora sem sua senhora para dividir os longos dias da quarentena, as partidas de tranca, as sonecas depois do almoço. Ele também no grupo de risco, isolado durante a pandemia.

Era um nome, em um email que recebi, que chegou por engano. Mas aquele já não era um nome pelo qual alguém poderia chamar em voz alta hoje, ela era lembrança. Lembrança que não tive, rosto que nunca vi. Mas agora era dor, era saudade, memória para os dois homens que já não tinham entre si aquela mulher a quem pertenceram. Em mim, não doeu, evidentemente. Mas a reflexão da perda alheia, do sofrimento alheio, da saudade de alguém por outrem, me fez parar por uns instantes e desejar que fossem consolados por Deus de alguma forma.

“Quando os números viram nomes, as pessoas se conscientizam”, disse um amigo na última sexta-feira referindo-se às centenas de mortes diárias que somamos mais como relatório contábil do que obituário. Dona Fulana é um nome. As circunstâncias em que faleceu, não sei dizer, mas para quem sofre a perda, é a perda a causa da dor e não a doença.

Temos mais de cem mil outros nomes no país sendo registrados entre os que partiram vitimados por um vírus – por um vírus e pela negligência dos que minimizam seus efeitos. E temos esse número multiplicado por outros tantos de pais, mães, filhas, netos, amigos, vizinhas que perdem seus queridos neste duro momento que enfrentamos e que agora ficam sem poder se despedir, sem que haja um funeral em honra dos que se foram. O ritual de despedida entre seres amados, o choro final. Porque corpos não são coisas. E nós, seres humanos, temos na cultura do sepultamento algo que nos distingue de outras espécies.

E agora centenas de corpos são empilhados todos os dias em nosso país.

Há mortes inevitáveis, claro. Por Covid ou tantas outras tragédias, pessoas morrem todos os dias. Mas, não é possível tolerar uma morte evitável. Nenhuma. E qualquer gesto, atitude ou expressão que tenhamos que negligencie o cuidado com o próximo, o zelo pela vida humana, que exponha alguém a um risco que poderia ser evitado, é mais do que irresponsabilidade, é reduzir o valor sagrado da vida. É dizer que há pessoas que valem menos, que em favor de certos benefícios ou privilégios, é aceitável que se percam vidas. Isso é a barbárie, é a espécie humana perdendo sua humanidade em favor de ideologias e debates tolos.

Até que a morte bata à sua porta.

Não quero discutir as vidas de milhares hoje. Gostaria de conseguir discutir cada vida. Uma. A mãe. A esposa. Ela, que aqui deixou os que amava. Há um nome. Que poderia ser de alguém que divide o teto com você.

Precisamos lutar para evitar o sofrimento evitável. Precisamos falar de amor. É um pedido: ame.

Ame especificamente. Não dá para amar de forma genérica.

Ame alguém, ame cada um, cada uma – seja você o amor para uma pessoa hoje.

Com um gesto, uma palavra, com seu tempo, seu dinheiro, trabalho, com um ombro disponível, uma chamada de vídeo ou troca de mensagens.

Ninguém ama a humanidade toda. E é fácil amar a humanidade toda uma vez que isso não implica em ter que lidar com as falhas, diferenças, dores e contradições de um relacionamento pessoal.

Ame de forma específica e individual. Ame seu próximo. Seu próximo é todo aquele que você acha que é e ainda aquele que você gostaria que não fosse. Ame o sujeito sem máscara na rua, ame a ativista enclausurada, ame o idoso que sofre no hospital, ame a família ajoelhada na calçada à espera de notícias.

Ame uma pessoa hoje. Isso fará tudo melhor.

Não salvaremos o mundo de uma pandemia, mas poderemos salvar a vida de alguém durante esse caos em que estamos. Todos.


(Publicado originalmente em meu blog no Estadão)

O ano possível

Não está nada normal. Não tem “novo normal” nenhum. A gente ainda está no meio do caos, no auge de uma pandemia, pessoas morrendo às centenas diariamente e autoridades perdidas. Isso não vai ser normal para ninguém, nunca, eu espero.

Sempre fui ligeiramente anti-social. Grandes aglomerações de qualquer tipo, dessas com sete ou oito pessoas, me incomodam. Tenho dificuldade até em receber massagens porque me soa estranho a ideia de alguém encostando em mim e cutucando partes do meu corpo com os dedos. Mas nesses dias, confesso, tenho sentindo falta de uma muvuquinha.

Sinto falta de jogar aquele futebolzinho às quintas-feiras (que eu nunca joguei). Vontade incontida de ir a um show em estádio de uma banda qualquer, de fazer um passeio na rua 25 de Março no sábado pela manhã e navegar naquele mar infinito de pessoas descendo a Ladeira Porto Geral, de me acotovelar na feira do bairro para escolher tomates e tomar um ônibus sem a certeza de que não sairei pela porta dos fundos contaminado por algum vírus. Mas, só sinto falta porque não posso, só tenho esse desejo em alguma fantasia distante porque, de algum jeito, esse direito me foi privado. Estivesse qualquer dessas opções à disposição, eu pagaria 50 reais para me ver livre delas.

Este, no entanto, não é o ano do desejo, nem dos sonhos realizáveis. Este é o ano do que é possível, tempo de fazer o que dá, de aceitar um pouco menos, de fazer concessões e entender que estamos limitados. Só para não pirar.

É assim que tenho chamado esse momento aqui em casa e procurado consolar as meninas quando batemos com a cara na muralha da frustração. Porque não tem dado mesmo para planejar as coisas. E com isso, a gente vive um dia de cada vez – ainda que eles sejam todos praticamente iguais – como o casal da letra de Cotidiano, música do Chico que, a propósito, substituiu o som do alarme do meu despertador. Todo dia fazemos tudo sempre igual.

Esse é o tempo em que a gente realmente não vai dar conta. E teremos que aceitar o desapontamento de não ter a festa de aniversário, não ter sessões de cinema, não ter familiares em casa no almoço de domingo, de não poder ir e vir quando e para onde queremos. E vai ter que estar tudo bem assim, porque é o que tem pra hoje.

Leio que tem muita gente ficando ansiosa nesses dias. Eu, que já sou ansioso, estou me sentindo normal agora, quase conformado. E estou percebendo que mesmo antes eu já não dava conta, eu já não era capaz de abraçar todas as coisas que gostaria e nem realizar tantos planos quanto anotava no caderno. Mas eu me enganava achando que daria, sim, e de que era capaz. Agora, parece que a vida é só a realidade, só o presente, apenas a rotina matutina de selecionar o que é essencial a ser feito.

E quando olhamos para o lado e fazemos essa breve pausa para reordenar as ideias, notamos que na maior parte das vezes o que é essencial de fato estava aqui com a gente o tempo todo. E me resigno dentro de minhas limitações, compreendo a particularidade das circunstâncias e me conforto nos braços de minhas meninas.

O Ano Possível. É assim que tenho chamado este tempo para ter algum conforto pessoal.

Você, chame como quiser. Só não me diga que isso agora é normal.

(Publicado originalmente no Estadão)

Lucy está meio perdida

Lucy, nossa cadela, anda meio perdida. Mudamos de apartamento há pouco mais de um mês e ela ainda está estranhando o novo ambiente e os espaços da casa. Era uma mudança já agendada e precisou acontecer no meio da quarentena. Nossa sorte foi que a mudança aconteceu dentro do mesmo condomínio de prédios em que já morávamos. Ainda que sob o teto o ambiente todo seja diferente, a paisagem lá fora e a vida ao redor segue igual. Mas Lucy tem sete anos e todos os dias, quando descemos para caminhar, ela ainda se confunde com o lado para onde deve sair. E na volta, pobrezinha, força a condução do passeio para a porta do elevador do antigo prédio em que morávamos, cheira o tapete e me olha, esperando que eu aperte o botão (com o cotovelo, importante dizer) e suba para o lugar que ela acostumou a entender como casa. Está perdida ainda, coitada.

Desde a mudança, eu acordo no meio da noite e fico tentando lembrar onde estou. Na penumbra, reconheço as novas paredes pintadas de branco, a porta do banheiro e depois de alguns instantes me dou conta de que nos mudamos. A Manu pediu para que, na casa nova, trocássemos de lugar na cama. Quando viro para dormir, viro para o lado certo, com a barriga apontando para fora, mas ainda sinto que é o lado errado, porque o peso está sobre outro ombro. Então ouço um ruído e me dou conta de que a Lucy está dormindo (e roncando) na porta do nosso quarto. No outro apartamento ela costumava dormir na sala. Eu viro para o outro lado e tento dormir. Pobre Lucy, ela anda meio confusa.

Meus cotovelos, tornozelos e dedos dos pés estão doloridos. Já esbarrei involuntariamente em maçanetas, cantos de paredes, armários e pé da cama. Meti a testa em dois lustres diferentes e no canto de um armário da cozinha. Até a orelha – sim, a orelha esquerda – eu consegui bater na parede. Pois é, bati a orelha esquerda na parede ao tentar pegar uma caixa de papelão outro dia (e eu tenho sonhado com caixas de papelão, minhas roupas cheiram a papelão, meu perfume atual é um aroma que mistura pó, tinta Suvinil e caixa de papelão). E ainda que isso revele um bocado sobre pessoas distraídas, para mim é uma necessidade de adquirir uma adequada noção de ambiente, compreender limites e adaptar os sentidos à massa espacial desta casa em tudo nova. Lucy, nossa cadela, tem passado dias sem comer a ração ou beber água. Só abre exceções quando as meninas fazem pipoca e ela fica ao redor aguardando as sobras, mas me preocupa sua falta de apetite. Está meio desorientada, a Lucy.

Temos móveis novos, uma rede e uma estante para meus livros, armários e um sofá novo na sala. Há mais espaço agora do que antes. Pela primeira vez desde que começamos nossa família, fizemos uma reforma seguindo o sonho de casa que alimentamos nesses anos. Olho para essas novas superfícies, texturas e cheiros e, de algum jeito, fico esperando o momento em que os móveis serão presenteados com pequenas marcas descascadas dos patins que acidentalmente os ataquem, o sofá intacto ganhará manchas de chocolate e a porta da geladeira se encherá de ímãs com os telefones do açougue e da padaria e desenhos das meninas pendurados. Há certa expectativa, confesso, pela poeira sobre o móvel que envelhece, pelas manchas nos rejuntes, pela água escorrendo sob o vaso de manjericão na varanda. Mesmo minha obsessão por organização aguarda, levemente ansiosa, por brinquedos espalhados pelo chão da sala, por pias de banheiros desarrumadas e por ver meus livros sendo sequestrados da estante e distribuídos por outros cômodos (ato esse que, tenho certeza, é uma conspiração das três mulheres da minha vida para colocarem minhas obsessões à prova). Há nessas coisas, nesse acúmulo de desordem e tempo, o esperado processo que transforma uma casa em lar, o mero convívio em relacionamento e até um confinamento familiar em cumplicidade. Durante o dia, a Lucy passou a dormir em cima dos meus pés enquanto trabalho na escrivaninha. Entendi que ela precisa de algo que remeta à sua história, àquilo que é linear e imutável, para que se sinta acolhida. Cães são seres irracionais, afinal. Mas logo ela se adapta, a Lucy.

Ontem, acordei e vi uma nesga de sol invadindo o quarto pela janela. O céu de outono é bem azul. Tomamos o café, pendurei a rede na parede e Cecília quis subir para balançar. A Nina estava ouvindo música e Manu estava trabalhando na sala. Eu quis ler, peguei uns quatro livros e fiquei andando pela casa em busca de um canto onde me largar. Todos os cantos então me pareciam ótimos. O dia parecia finalmente ter um ritmo coordenado com o relógio que tilinta seus ponteiros dentro da mente da gente e as coisas todas estavam no lugar em que deveriam estar. O peito se encheu de repouso e a alma de gratidão. Estamos todos juntos e bem.

Minutos depois, calcei meu par de tênis, vesti a máscara, peguei a coleira e levei a Lucy para passear. Andamos pela rua aqui embaixo por quase uma hora enquanto o sol refletia sobre a pelagem dourada dela, que insistia em cheirar cada palmo de terra à sua frente. Na volta, quando nos aproximamos do antigo prédio onde morávamos, ela passou reto pela entrada e seguiu puxando a guia apressada até a entrada do nosso novo elevador. Subimos, entramos em casa, soltei a coleira e ela correu até seu prato para beber água e comer. Depois, encontrou um canto com sol na varanda, deitou por ali e dormiu.

Tudo está começando a entrar de novo no lugar para a Lucy.


(Texto publicado originalmente no Estadão)

O que ele disse?

– Olha isso aqui. Você viu isso, amor?

Entrei na cozinha pela manhã, ela estava preparando uma tapioca no fogão enquanto segurava o celular em uma das mãos. Virou o aparelho para mim e mostrou a tela. Limpei os olhos ainda embaçados pela noite de sono e vi que havia uma foto dele e uma citação.

– Não é possível. Você leu isso onde? É uma fonte de confiança? Hoje em dia tem gente fazendo de tudo para…

– Olha aqui! – ela me interrompeu – é do jornal que você assina. Você acha que eu tô lendo notícia falsa?

– Não é isso… É que é tão absurdo. É sério mesmo? Deixa eu ver?

– Toma – ela me deu o aparelho e se virou para fechar a tapioca na frigideira.

– Hum. É. Putz.

– Eu te falei… Agora, me diz, como assim?! Como pode? Como ele fala uma coisa dessas, como alguém diz um absurdo desses e ninguém fala nada, ninguém denuncia? Isso é uma manipulação descarada sobre o povo.

– E está esquentando, né?

– Esquentando nada. Continua tudo na mesma morosidade de sempre. Ninguém toma uma atitude.

– Tá esquentando a frigideira. Vai queimar o lado de baixo da tapioca.

– Ah, sim.

– Mas ainda tem muita gente que acredita no que ele fala. O que se pode fazer? Ele fala essas coisas e a base fiel continua lá, aplaudindo. É triste, mas isso tem muito eco no coração das pessoas.

– Aí é que está o problema. Ninguém faz nada, nunca. E as coisas continuam assim. O absurdo vai se normalizando. Ele fala um monte de barbaridades e, como nada acontece, vai esticando a corda.

– E o que a gente pode fazer?

– Passa a faca!

– Faca? Como assim?

– A faca, querido. Me passa a faca para tirar um pouco da manteiga aqui.

– Ah, sim. Tá aqui.

– E a gente achando que o que tinha antes era pior…

– Não gostou dessa marca de manteiga? Comprei achando que era a sua favorita.

– Não, estou falando dele.

– Ah. Que sonho era aquele? Eu dizia que antes a gente não tinha nada a “temer”. Saudades.

(Risos. Risos).

– Tinha que acabar com tudo “de uma” vez?

– Mas não foi de uma vez. Você lembra. Foi um processo. Foram fritando tudo aos poucos.

– Tô falando da manteiga. Você tinha que terminar tudo de uma vez? Não sobrou pra mim…

– Ai, desculpa.

– O problema é: o que dá pra fazer agora?

– Tem requeijão, se você quiser.

– Tô falando dessas declarações.

– Ah. Eu também fico perguntando se não é preciso uma atitude mais drástica.

– Passa a faca?

– Calma, não é pra tanto… Ah, sim, toma, tá aqui.

– Obrigado. Estava fora do meu alcance. Assim como isso tudo parece tão difícil de lidar. O que a gente consegue fazer senão ler essas coisas, se indignar e resistir da forma como sabemos fazer?

– E fazer a nossa parte para isso não contaminar as meninas, para que não sofram no futuro.

– Isso bem que podia acabar logo.

– Confesso que tô com medo é de não acabar tão cedo. A gente não sabe. Só acho é que não vai acabar bem. Como você falou: a corda está esticando.

– Sim. Você viu o que ele disse semana passada? Aquela fala sobre o outro assunto, o que pretendem fazer com a educaçãomeioambientedireitoshumanosagronegóciojustiçacidadaniatrabalhoimpostoseconomiatrânsito?

– Vi. É uma delinquência. Tem tanta coisa importante para fazer, o mundo empilhando tragédias, a sociedade sofrendo… Deveria haver um mínimo de coerência. Pelo menos agora, as coisas poderiam ficar um pouco mais…

– Doce.

– Não. Aí já é querer muito, né?

– Doce. O café ficou muito doce. Você já tinha colocado açúcar?

– Já.

– Putz, eu coloquei de novo.

– Esqueci de avisar, desculpe.

– E o que a gente pode fazer?

– Quer colocar um pouco de água quente? Vai ficar aguado, mas…

– Não. Sobre isso tudo, meu amor. O que a gente, aqui, pode fazer a respeito? Eles falam essas bobagens todos os dias, ficam postando e martelando isso na cabeça das pessoas. Parece aquele negócio do duplipensar. É tão evidente… e a gente não vai gritar que está errado, mostrar que é irracional?

– Mesmo ao usar a palavra duplipensamento é necessário praticar o duplipensamento. Porque ao utilizar a palavra admitimos que estamos manipulando a realidade; com um novo ato de duplipensamento, apagamos esse conhecimento; e assim por diante indefinidamente, com a mentira sempre um passo adiante da verdade.

– Oi?

– Você citou 1984. É isso o que o Orwell fala no livro sobre duplipensamento. Anotei no celular outro dia enquanto pensava nessa situação toda.

– E imaginar que o livro trata de uma distopia.

– Quem dera isso fosse só ficção… Lembra que te falei daquele livro do Amós Oz, “Como curar um fanático”? Ele fala isso. Diz que o fanático, no fim das contas, é um idealista, um ser cheio de boas intenções. Ele acha que tudo o que faz é para te salvar de algo que você não enxerga e só ele, alma caridosa e defensora do bem, é capaz de compreender.

– Então querem me salvar falando que vivo na cegueira?

– Utopia.

– Tem o quê na pia?

– Não é na pia. Eu disse utopia.

– Ah, o que tem?

– Acho que é pode ser disso que a gente precisa agora: construir nossa própria utopia. Começar a desenhar um mundo com o qual sonhamos e semear esse mundo aqui em casa, com as pessoas ao nosso redor. Porque se não dá para mudar o país todo, pelo menos a gente constrói um recomeço nesse núcleo, cuidando do microcosmo familiar, do nosso jardim. E aqui a gente pode ser e fazer o que quiser. Daqui, a gente estende generosidade, amor, compaixão e apoia a quem a gente puder e estiver ao nosso alcance.

(Silêncio).

– O que você acha?

– O Oscar Wilde disse que “o progresso é a realização de utopias”. Acho que você pode ter razão. É o que está ao nosso alcance agora.

– Me alcança o café?

– Sim.

(Suspiros esperançosos).

– Quer outra tapioca com manteiga?

– Quero, obrigado. Com manteiga e utopia.

(Silêncio).

– E se não der certo, o que a gente faz?

– Passa a faca?


(Publicado originalmente no Estadão)

Ficar como?

Fique em casa. Estamos ouvindo isso insistentemente nos últimos meses (pois é, já são meses). O lar, esse refúgio de prazeres familiares, se tornou também uma tentativa de proteção contra um inimigo invisível e poderoso que rendeu a humanidade e tem nos colocado em ameaça diária e em busca por cura, resposta ou qualquer sentido de direção ou perspectiva. Que não vem.

Mas o lar não foi refúgio para João Pedro, um garoto de 14 anos, negro, que morreu na última semana no Rio de Janeiro, dentro de casa, vitimado por um ataque de 70 tiros. Enquanto brincava.

Enquanto brincava com minhas filhas hoje, em casa, essa notícia me voltou aos olhos. Em meio a avalanche de notícias sobre a pandemia e a delinquência política que assolam nossa sociedade, esse fato, esse trágico, absurdo e chocante fato, passou como outros tantos. O menino virou uma estatística na conta de tantos números de mortos que se acumulam no Brasil.

Estamos ficando anestesiados, torpes com as contas de gente que morre por coronavírus, gente que morre no trânsito, gente que morre vítima da violência urbana. Pessoas, que se vão.

Nina, minha filha mais velha, tem 13 anos. Eu tenho falado muito para ela ficar em casa. E privilegiados que somos, temos no lar uma fortaleza. O João Pedro não tinha. Mas ele pensou que sim. “Estou dentro de casa. Calma”, ele disse para a mãe numa mensagem minutos antes de ser assassinado. Milhões de crianças em nosso país estão na mesma condição. Nós deveríamos protegê-los, não matá-los.

Esse vírus. O que nos inquieta e deixa ansiosos é que não podemos fazer muita coisa para combater um inimigo como esse. Ao menos não por hora. Mas, o que matou essa criança, esse menino, não foi vírus. Foi um mal social, foi uma escolha, foi fruto do tipo de sociedade que permitimos que exista quando promovemos a desigualdade, o racismo, a exclusão de nossos semelhantes do círculo de privilégios que habitamos. João Pedro foi mais uma vítima de um mal evitável. E os pobres e os negros que morrem viram estatística. E crianças assassinadas dentro de casa se tornam uma pequena nota segregada no jornal.

Enquanto brincava. Podia ser minha filha.


(Publicado originalmente no Estadão)

Já passamos por isso

Ano passado, li um conto que se passava durante a guerra civil espanhola. Lembro que enquanto mergulhava na história, me distraí pensando sobre o que, afinal, leva uma sociedade ao limite do enfrentamento nesse nível. A despeito dos interesses escusos dos senhores das guerras que lucram com a morte de inocentes, minha dúvida era sobre a gente aqui, o povo, que no fim das contas se permite e se empenha em tomar armas e partir para o combate contra seus semelhantes. E sobre as famílias, as esposas e filhos que ficam em casa e batalham para tentar levar a vida cotidiana enquanto a guerra acontece.

Por coincidência, estava na Espanha com minha família enquanto essa história me caiu nas mãos. Viajávamos em férias e era bonito observar as cores de Barcelona com as pessoas nas ruas, a arquitetura peculiar ornamentando as ramblas, as luzes do verão permitindo que o sol raiasse até dez da noite. A vibrante vida espanhola de hoje não remete em nada ao país que há menos de cem anos viveu uma guerra cruel que colocou em choque seus próprios cidadãos.

Dias depois, na mesma viagem, pegamos um táxi em Lisboa. Sentado no banco da frente, eu conversava com o motorista sobre a história de um monumento que vimos no centro da cidade. “Nada disso aqui é tão antigo”, disse ele, “a maior parte da cidade foi reconstruída depois do último grande terremoto”. Minha esposa quis saber a data. “Foi em 1755”, ele respondeu. Referências e relatividade, pensei na hora. Meu celular tem três anos de uso e eu já o acho pré-histórico e um monumento de quase trezentos é algo moderno na ótica daquele homem. Mas ele emendou uma observação que me trouxe de volta para a conversa: “Pois bem, assim vivemos até que venha o próximo. A verdade é que todos os dias acontecem pequenos tremores cá em Lisboa. Estamos sobre uma placa tectônica bastante instável. Então, pois que a qualquer momento…” ele impôs as reticências numa breve pausa, “…bem, nunca se sabe”.

À noite, no hotel, peguei o celular para me atualizar sobre as notícias do Brasil e passei a ler os jornais do dia. Rodei as redes sociais tempo o bastante para que a discussão política começasse a me deixar ansioso e desliguei tudo. Não é possível que alguém esteja feliz, eu acho. Mesmo quem se sente satisfeito com o resultado das últimas eleições, não me parece usufruir de um sentimento de vitória. Há ainda um clima de embate, as trincheiras ainda estão lá, com escudos levantados, com gente armada e balas na agulha. O clima tenso, o estômago embrulhado. Você também sente isso? A sensação de que alguma coisa ainda mais estranha vai acontecer ali na frente.

A distração momentânea com a leitura sobre a guerra espanhola e a imprevisibilidade iminente da natureza fazendo temer as terras portuguesas me fez olhar para aquelas cidades hoje e pensar que o ser humano, nossa espécie, até que passa bem pela história.

Guerras, pestes, furacões, ditaduras, governantes… há um tempo em que somos vítimas de circunstâncias ou escolhas que fazemos. Mas nos reerguemos, afinal.

Quando o ano de 2019 virou sua última noite, estávamos reunidos com familiares em um sítio no interior do estado e ninguém ali, na China e nem em qualquer canto desse planeta poderia imaginar que três meses depois estaríamos confinados em nossas casas temendo o contágio por um novo vírus. Um inimigo desconhecido, invisível, que nos colocou de joelhos. Diante dos nossos mercados assoberbados, dos objetivos profissionais, dos planos pessoais, do futuro breve que planejamos com nossas notas em bloquinhos de papel e que está agora todo rasurado. Por hora, não somos donos de amanhã nenhum. E acho que essa falta de controle, a imprevisibilidade, a incerteza sobre o futuro é que nos inquieta tanto.

No meio da pandemia (pandemia, nunca imaginei que usaria essa palavra de forma literal) tem sido difícil enxergar o outro lado, quando a vida voltará a seguir sua rotina. Seja lá como for rotina depois disso tudo. Porque certamente seremos pessoas diferentes. Eu espero, sinceramente, que sejamos pessoas melhores.

Há uma frase do arcebispo Desmond Tutu que sempre carrego comigo: “a maior prova de que somos, essencialmente, pessoas boas, é o fato de que o mal ainda nos escandalize tanto”. Tenho lido e assistido aos exemplos de solidariedade e generosidade de pessoas nesse momento. Gente que não se conhece prestando apoio psicológico, fazendo compras no mercado para seus vizinhos idosos, sacrificando o próprio tempo em família para cuidar de enfermos, doando recursos para os que neste momento carecem. Nessas horas, nossos filtros naturais nos fazem olhar para o que é mais importante. Certas atividades e compromissos que ocupavam nosso tempo e rotinas repentinamente deixam de ter importância. E o que mais desejamos é poder ter de volta os familiares e amigos em volta da mesa para um almoço no domingo.

A história nos mostra que em algum momento isso passará. Sim, vai doer, mas passará. Passará como a guerra civil espanhola, passará como o terremoto de Lisboa e talvez – assim faço preces – nos esqueçamos que vivíamos até então numa época em que nos separamos de gente querida porque tínhamos opiniões divergentes sobre, veja só, políticos. Essa fase passará. Olharemos para trás e lembraremos do que fazíamos da vida quando a pandemia passou por aqui e lembraremos com quem estávamos quando o mundo parou por alguns meses.

O salmista, na passagem bíblica que fica exposta no livro aberto na sala de nove entre dez avós católicas, diz que o Criador o acompanha mesmo quando atravessa “o vale da sombra da morte”. Um amigo sempre lembra que crises não são o vale da morte, são apenas a sua sombra. E uma sombra não tem o poder do objeto que a projeta.

Quando voltávamos para casa no avião, pegamos um vôo diurno. Eu tomava notas em meu caderno. Ao meu lado, Cecília assistia ao filme do Touro Ferdinando. É uma história infantil espanhola sobre um touro que não gostava de lutar em arenas. Ele gostava de flores.

No conto do Hemingway que eu lia, ele contava sobre um homem que abandonou o front de batalha. Do alto do monte de onde observava a cena, o personagem principal da história viu um soldado francês ser morto pelo exército pelo qual combatia. Uma morte estúpida de um homem que desistiu de um combate estúpido. “Ele enxergou o que era aquela guerra”, ele disse. Um combate idiota que não valia sua vida.

Vivemos tempos difíceis. Há conflitos, há crises diversas, uma pandemia e uma ansiedade sufocante no ar. Tudo hoje parece ter um jeito de fim iminente. Mas, passará, isso também passará.

Enquanto escrevia em meu caderno, Cecília me interrompeu. Ela subiu a janela do avião e me cutucou:

“Pai, olha lá fora. O pôr do sol!”

Quase me esqueci de que estávamos em um voo. Lá fora, as nuvens passam sob nós como se flutuássemos por cima daqueles algodões brancos. Logo acima, na linha do horizonte, em um risco laranja intenso, o crepúsculo.

Ficamos os dois ali espremendo as cabeças e olhando pelo quadrado transparente até o sol se apagar atrás da curva da Terra. Mais um dia, um de cada vez, assim a história se escreve.

Em um momento como este, o olhar fixo no horizonte talvez seja a única forma de enfrentar o que não podemos controlar.


(Publicado originalmente no Estadão)