As cegonhas não existem


por Luiz Henrique Matos

– Os pais morrem de aflição quando se fala na limpeza do umbigo do bebê, mas é simples. Você deve segurar o pequeno pedaço do cordão e com uma haste de algodão embebida em álcool a 70%, limpar a base do umbigo fazendo um movimento circular e também ao redor num raio de dois centímetros…

“Será que serei um bom pai?”, era o pensamento que me ocorria. Enquanto ela falava, eu anotava, tentava absorver tanta informação quanto me fosse possível, mas minha mente não conseguia fugir desse questionamento sem resposta. “Foco Henrique, foco!”.

– O leite materno é fundamental. É incrível, a mãe produz um leite específico para nossa espécie. Nesse alimento estão todas as vitaminas que a criança vai precisar nos seis primeiros meses de vida. Por isso, mamães, é preciso estimular a produção de leite. O aleitamento é importantíssimo. Mas tudo funciona como uma fábrica, se acabar a demanda, acaba também a produção, o estoque seca.

“Demanda, fábrica, produção… empresa. Vou conseguir sustentar minha casa, dar o melhor para minha família? E se um dia eu perder o emprego? Preciso fazer as contas. Não quero que falte nada para elas”. Fulana, Sicrana, Beltrana… as professoras entravam e saíam daquela sala apertada no curso de gestantes, o ar-condicionado fazia um apito inconveniente, eu brigava com aquela persiana que não fechava direito e minha mente teimava em outras perguntas fora de contexto.

Lá em casa, o quartinho já está pronto, como um ninho montado cuidadosamente para abrigar um filhote. Olho para aqueles móveis, vejo aquelas roupas em miniatura penduradas no varal, aquele perfume inconfundível. “Por que demora tanto pra nascer?”.

– Muito bem, agora os maridos peguem esse bastão e passem nas costas de suas esposas. Façam massagem nos ombros, desçam pela lateral… iiiissso, passem também na região lombar. Lembrem-se, homens, elas estão carregando um peso, é importante que fiquem relaxaaadas…

“O que está passando pelo coração dela? Acho que vai ser uma mãe excelente. Tanto amor, cuidado, tanto carinho, a determinação… ela tem valores que eu não tenho, tomara que prevaleçam nessa educação. Ai, tomara que não sinta muita dor. O parto vai ser bom, ah será”. Eu pressionava o massageador sobre seu corpo, com receio por não machuca-la, eu a tocava querendo que sentisse meu carinho, meu amor, minha vontade de mostrar que estou presente, na mesma passada, de mãos dadas, desejando sustentar aquele peso no lugar dela.

– Peguem a boneca, tirem o macacãozinho e a fralda. Segurem de barriga para baixo, apoiando o bebê na palma de suas mãos e no braço. Suavemente, joguem a água morna com sabão sobre o bebê. Muito cuidado com os olhos e ouvidos. Sim, pode molhar o umbigo que não tem problema. Vistam com cuidado, a fralda não pode ficar muito folgada, não precisa esquentar tanto o bebê, a pomada, o cotonete, o sabonete glicerinado… agora troquem tudo de novo.

“É de verdade… Não é uma brincadeira de casinha, é de verdade! Que boneca que nada, tem uma pessoazinha nova dentro daquela barriga. Não vai simplesmente esvaziar e voltar ao que era. Em poucos dias teremos uma filha nos braços, uma criança dentro de nossa casa para o resto da vida, um bebê. Ai que frio na barriga, que coisa!, que vontade de chorar…”.

* * *

Minha filha nasce daqui alguns dias – talvez hoje, se assim resolver – e, como eu bem previa desde o início, os nove meses findam e eu não tenho a menor idéia do que é ser pai. “Serei um bom pai?” é o que fico encucando enquanto uma avalanche de sentimentos, novos e velhos, me atropelam.

Estou com medo. Estou feliz. Estou ansioso. Entusiasmado. Estou apreensivo. O que é mesmo “apreensivo”? Estou tranqüilo. Curioso. Estou pronto. Estou nada. Ah, acho que estou. Inseguro. Confiante. Alegre. Apaixonado. Estou marido. Estou me tornando um pai.

Ai caramba, pai!?

E quem é que vai me dizer o que fazer? Alguém aí tem um manual de instruções?

Bem, da maneira mais tola imaginável, tenho aprendido que nessas horas em que nenhuma das direções para onde olho me aponta um caminho, acabo mesmo apelando para o alto. Não, eu não busco um super-herói (essa tentativa já foi em vão). Como diria um rei antigo chamado Josafá: “Meus olhos estão em Deus”.

Sim, em Deus sempre há uma resposta. Um novo fôlego me enche os pulmões, a alma, o espírito. Percebo que apesar de mim mesmo, a revelação da verdade eterna se faz presente nesse ponto culminante.

Estou em paz.

É consolador saber que tenho um Pai que me guia por esse caminho desconhecido. Um Pai satisfeito em ensinar. Sua lealdade inabalável. Carinhoso e presente. É algo sobrenatural pensar que Ele também é o Pai dessa criaturinha, uma vida nova que nasceu como fruto do amor entre minha esposa e eu. É assustador pensar que Ele está nos comissionando para conduzir uma pessoa diante de uma vida inteira, num mundo que parece perecer a cada velho novo dia. Caberá a nós guia-la no caminho. Caminho?

Estou perdido.

Mas que caminho é esse? Que credibilidade eu tenho se sou eu mesmo quem tantas vezes tateio na escuridão tentando encontrar uma luz por onde seguir? Que verdades, que princípios, que sementes lançarei nessa terra fértil e pura? Que pai serei?

Fico tendo desses devaneios. Em meu coração, eu só queria que ela soubesse que já a amo, que já está em minhas orações há anos. Que nunca nos vimos, mas já faço hoje qualquer sacrifício por ela e pela mãe. E penso a todo instante no momento em que nossos olhos se encontrarão pela primeira vez e, bobo que sou, direi: “Oi Nina, seja bem-vinda ao mundo. Muito prazer, eu sou o seu pai”. Teremos muito o que conversar.

Estou sonhando.

Quero que ela saiba tomar suas próprias decisões, fazer escolhas boas. Que ela seja boa. Sonho que ela tenha um caráter irrepreensível, seja bonita, que se firme em princípios eternos, seja meiga e de olhos brilhantes, que ame a Jesus Cristo, que use vestidinhos com detalhes floridos. Sonho que ela ame as pessoas, que goste de brincar comigo e de deitar sobre meu peito enquanto vejo a TV. Sonho que ela mude a sociedade em que viverá, que ela corra na minha direção e se jogue nos meus braços quando eu chegar em casa à noite. Sonho que ela tenha grandes sonhos! E espero que durma bem a noite inteira para eu continuar sonhando. Sonho um novo mundo para minha família, com passeios e viagens perto da natureza. Quero uma família grande, mais filhos, uma casa ensolarada – como essas dos comerciais de margarina – e minha esposa e eu sentados juntos na varanda enquanto as crianças brincam no jardim.

Sim, eu sonho e creio que ensinaremos coisas boas a ela. Será uma pequena menina, uma grande mulher. Eu quero, sim meu Deus, ah como quero, que ela seja uma pessoa melhor do que eu!

Meu Pai, será que serei um bom pai?

Estou em dúvida.

Acredito que nunca saberei. Dizem os antigos que saberei sim, quando vierem os netos. Mas isso é coisa distante, nisso eu nem penso agora. O que percebo é uma renovação nos meus sentimentos empoeirados de fé, esperança, vida. Talvez brote daí essa confiança maior do que eu mesmo. Nessa hora em que eu forço a visão para que o foco esteja correto, imito aquele rei e volto meus olhos inteiramente para Deus. Acreditando ser perfeitamente possível, penso lá no fundo: “Pai, vá na frente, eu vou te seguindo”.

Estou grato. Tenho aprendido que a felicidade tem muitas faces.

4 comentários sobre “As cegonhas não existem

  1. Primo, tive que entrar pra comentar pq esse texto mecheu demais comigo..até chorei..rs..tbm tenho aprendido que a felicidade tem várias faces, e ver Deus nos acompanhando nos momentos mais rotineiros tem sido uma delas…tenho certeza que com seu olhos no Pai você será excelente!bjos Lia

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  2. Primo, tive que entrar pra comentar pq esse texto mecheu demais comigo..até chorei..rs..tbm tenho aprendido que a felicidade tem várias faces, e ver Deus nos acompanhando nos momentos mais rotineiros tem sido uma delas…tenho certeza que com seu olhos no Pai você será excelente!bjos Lia

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