Cinzas

Cinzas vulcânicas
é o que todos somos.
Vezes que explodimos,
outras regelamos.
Entre o céu e a terra
pendemos.
Talvez ainda haja esperança,
quando o pó
voltar ao pó.

(Jorge Oliveira)

Publicado no blog Canto do Jó, do meu amigo Jorge Oliveira, português, que a essa hora ainda deve estar sofrendo com os transtornos causados pelas cinzas do vulcão islandês de nome impronunciável.

Da minha lista de pendências

“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados.” (Provérbios 31:8)

Contando histórias


Pai e filho (foto de Jim Skea)

por Luiz Henrique Matos

– Papai?
– Oi, filha.
– Senta aqui comigo.
– Claro, querida. Que que você quer?
– Histórinha, papai! Conta uma histórinha?

E lá vou eu. Em minha saga diária de inventar histórias. As preferidas envolvem uvas (isso aí, uvas. Vai entender…) e um passarinho que vive na árvore da casa da vovó. O resto do enredo é por minha conta e risco. E bota risco! As tramas precisam ser originais, senão:

– Não, papai, essa não. Outra.

Às vezes, eu crio histórias aleatórias, por puro entretenimento. Mas em outros momentos, acabo achando que essa é uma chance de incutir bons princípios e ensinamentos na mente da minha filha. E é nessas horas que uvas deixam de chupar chupetas, fazem orações de agradecimento e passarinhos dividem brinquedos com seus amigos de escola.

Fico tentando pensar num jeito de fazê-la entender verdades importantes, de ser educada de um jeito divertido e aprender um pouco sobre o Deus que eu amo, sobre as coisas certas, sobre ser obediente, sobre torcer pro São Paulo.

E acho que as histórias são um bom jeito para isso. Funcionaram comigo, afinal. Quer dizer, funcionam. Seja quando criança, freqüentando a biblioteca pública ao lado da minha escola no Bom Retiro ou lendo as dicas da revista Alegria. Seja agora, já adulto, extraindo valores dos bons romances que carrego pra todo lado embaixo do braço ou entendendo que através das Escrituras, Deus me mostra suas ilustrações e princípios – porque, em certos casos, não importa tanto a literalidade dos fatos, mas seu significado e efeito.

– Papai, conta uma história de você?
– Conto. Qual você quer?
– De você pequeno. Na bicicleta.

Agora ela deu de querer saber da minha infância.

A verdade é que pais são seres insondáveis, grandiosos, infalíveis, perfeitos – e eu tardo a me dar conta de que eu sou, para minha menininha, um herói. Seu mundo, sua história, tudo parece despertar a curiosidade dos filhos. E de alguma forma, é nesse olhar, nessa expectativa toda, que as crianças firmam sua referência.

Eu me lembro do meu pai enquanto eu ainda era criança. Ele era o homem mais forte, o melhor jogador de futebol, o motorista implacável, o churrasqueiro talentoso e, além do Magnum, o único cara bonito de bigode que poderia existir no mundo. E ele me contava as histórias sobre sua vida no sítio, sobre o pai que perdeu na infância, a vinda para a cidade grande… e me ensinou a andar de bicicleta!

E quem imaginaria que tirar as rodinhas da minha Caloi azul-marinho seria, décadas mais tarde, um grande exemplo de bravura e traria novamente à tona todo o sentimento de conquista e liberdade daquele dia? Quem diria que uma dolorosa cicatriz no joelho seria tão útil para ensinar a Nina sobre certos cuidados que devemos ter ao brincar com os amiguinhos – especialmente se for um pega-pega ultra-mega-super-rápido em volta de uma Kombi num chão cheio de areia?

Todo filho deseja conhecer seu pai. E nessa relação de descoberta, das pequenas coisas e das grandes conquistas, o relacionamento amadurece. No conhecimento transmitido, no aprendizado ensinado e nas histórias inventadas. Na troca de palavras e no toque, nisso se solidifica o amor e se edifica uma vida de cumplicidade. Nisso, um filho admira seu pai, o homem se apaixona por Deus, um pai se aproxima do filho, Deus se revela ao homem, um garoto escolhe seu time de futebol e a paternidade ganha um sentido assustador.

Às oito e meia ela dorme. Depois de ouvir uma ou duas histórias, eu cubro minha menina, oro por ela uma outra vez, desejo que tenha sonhos encantadores e deixo o quarto com a luz indireta acesa, sem deixar de estar atento a cada um de seus movimentos.

Então eu me acomodo num canto da sala, recosto a cabeça em algo macio e, com a Bíblia aberta nas mãos, balbucio meu pedido:

– Pai, senta aqui comigo? Me conta uma história de você?

Essa crônica faz parte da série “Paternidade”:

1. A explosão da vida
2. Versos infantis dessa minha felicidade
3. As grandes conquistas do homem
4. As cegonhas não existem
5. O amor, um calção e gestos primitivos (cinco minutos antes de minha vida mudar)
6. Colos, cólicas, chavões e uma crônica de continuação
7. Na falta do que dizer
8. Pequenas lições
9. Doentes curando doentes
10. Primeiros passos
11. Sobre a velhice, rotinas e prioridades
12. Música para os meus ouvidos
13. E o futuro, a quem pertence?
14. Versos infantis 2 – alegria, tristeza e distração
15. De mãos dadas
16. Sobre ser pai no Dia dos Pais
17. A doce presença
18. Transportando tesouros e atropelando cachorros – os heróis da vida pequena

Duas canções para a sexta-feira

Mais duas do belíssimo projeto PlayingForChange.

“Peace All Over The World”:

e “Don’t worry”:

Para saber mais sobre o projeto, clique aqui.

Uma Páscoa para quem não acredita em Jesus ou coelhos

por Luiz Henrique Matos

Há alguns meses eu almoçava com uns colegas do trabalho e um deles contou a história de um conhecido que abandonou a carreira na área de vendas de uma multinacional para ser pastor de uma igreja evangélica. “É um ótimo negócio”, disse meu amigo, “ele parou de vender produtos e passou a vender o que todo mundo quer: perdão e vida eterna”. E enquanto boa parte ria, emendou: “vai ficar rico!”.

Aquilo teve um certo efeito em mim. Até então eu pensava que muita gente não acreditava em Jesus por não conhecer sua história ou não compreender a razão de seu gesto pela humanidade. Mas meu amigo provou o quanto eu estava equivocado. E então passei a compreender que boa parte das pessoas que conheço e não são cristãs, conhece a história do cristianismo mas elas não a seguem simplesmente porque não acreditam que isso faça diferença real em suas vidas.

Durante essa semana que passou especialmente, eu sempre paro para pensar no fundamento da minha fé. A época da Páscoa sempre me atrai por duas razões principais e importantes na vida: a essência da fé cristã e os ovos de chocolate.

Direto ao ponto e recapitulando, ainda que não seja novidade para muitos, o ponto central da reflexão sobre a Páscoa é que Jesus Cristo, entre sexta-feira e domingo, morreu numa cruz e ressuscitou. Na cruz, o Deus vivo, como cordeiro de sacrifício sem qualquer impureza (na analogia da tradição judaica) sofreu o peso da culpa e a condenação pelos pecados de toda humanidade e morreu no nosso lugar. Na ressurreição, ele venceu a morte e, na sua vitória, nos deu vida eterna. Através de Jesus, se assim acreditamos, recebemos perdão pelos nossos pecados e vida eterna ao lado de Deus.

Pensar nisso tudo sempre me emociona e faz compreender a profundidade e a razão da minha fé em Deus. Refletir sobre esses dias, em Jesus e tudo o que ele fez por mim, me faz amá-lo intensamente e me faz voltar aos primeiros dias dessa relação.

Agora, se isso tudo faz sentido pra mim, acredito que o meu amigo – e muito mais gente – não vê razão para levar o assunto tão a sério porque, no fim das contas, tanto faz se Jesus era Deus ou não e, ainda que fosse, eles não estão tão preocupados com a questão do perdão de pecados e qualquer coisa sobre vida eterna. Primeiro, porque essa discussão sobre pecado, certo e errado e culpa é uma coisa muito relativa – o certo para você pode ser errado para mim e vice-versa.

E sobre a questão da vida eterna, é mais fácil construir para si um conjunto de crenças nos quais se apegar do que seguir ao pé da letra um único raciocínio defendido por uma igreja, comunidade ou grupo religioso. Até porque, convenhamos, diante de tantas opções, a chance de se estar errado é considerável. Ou ainda, para os extremistas, pode-se simplesmente não acreditar em nada e deixar que as coisas aconteçam naturalmente de acordo com as circunstâncias, o acaso ou o ciclo da evolução.

Sinceramente, acho que por esses pontos todo mundo pode ter razão. Não se pode justificar algo em que se acredita com uma história sendo contada repetidamente ao longo dos anos, por mais que essa história trate dos anseios mais profundos que o homem carrega consigo: redenção e uma resposta para a morte.

Não se pode acreditar em Deus porque as coisas assim parecem convincentes ou convenientes. Porque Deus não se materializa, se explica ou modela.

E um grande erro da igreja, eu acredito, seja esse vício de tentar sistematizar a fé. Certa vez eu ouvi um pastor pregar e ele dizia: “se um dia você conseguir criar uma definição para Deus, jogue fora e fuja, porque você acabou de criar um ídolo”. Não dá. “O homem tentar entender a dimensão de Deus é o mesmo que uma ameba tentar entender o pesquisador, olhando através do tubo do microscópio”.

E porque Deus é incompreensível, também não dá para acreditar que alguém passe a acreditar em sua história porque ela lhe foi contada de maneira convincente. A espiritualidade de um homem, até para o mais incrédulo, é íntima, insondável e inexplicável.

Jesus é a única forma de se ver Deus de algum jeito. Como ser, como agir, como amar, o que fazer, o que não fazer… todas as nossa questões, das fundamentais às mais banais, são respondidas ao olharmos para Jesus.

É por isso que, diferente do que andamos pregando em nossas igrejas, Jesus não prometeu prosperidade às pessoas. Ele também não prometeu benefícios ou poderes sobrenaturais, nem milagres para todos os casos. Ele nos prometeu uma razão de viver. Ele prometeu saciar nossa fome existencial, prometeu uma resposta suficiente. Ele oferece a alegria eterna.

Mas para experimentar essa alegria é preciso, naturalmente, acreditar. Para enxergar Jesus como Deus, é necessário conhecê-lo. E aí reside a grande questão: dois mil anos após a morte de Jesus, como pode um homem chegar a tais conclusões por si só? Não creio que seja possível, salvo exceções eventuais.

O amor, a fé e a esperança são das coisas que não se incutem na mente de um indivíduo. São coisas, aliás, das quais não se convence alguém sequer, até que ele mesmo experimente tais sentimentos e aceite, naturalmente, que existem questões que jamais compreenderemos ou dominaremos.

É impossível sistematizar o amor. E Deus é amor. Daí a coisa toda de alguns parágrafos acima.

Agora, já vi gente tentar, com alguma dose de sucesso, retratar o amor através da arte. E de um jeito mais convincente do que um cientista faria, vi o amor impresso num homem apaixonado. Nas telas, em livros, no cinema e na música. Nas histórias bem ou mal contadas, nas personagens inventadas ou na crua realidade humana, não há como fugir do que nos domina, não há alternativa para nossa impotência diante do que não se explica.

Somos impotentes diante do amor.

E outra vez voltando ao ponto central desse texto – se é que ele ainda tem algum -, só é possível que nos apaixonemos por alguém que, de alguma forma, “experimentamos”. E como alguém pode experimentar a Jesus sem acreditar nele ou no que ele representa?

A materialização de Deus somos nós.

Sei que isso é discurso batido e meio desgastado por aqui, mas a verdade nunca basta: as pessoas só acreditarão no Jesus que amamos se puderem vê-lo personificado no exemplo de vida daqueles que se dizem seus seguidores.

Jesus disse: “amem as pessoas como eu amei a vocês”.

Note, ele não nos pede um sacrifício. Deus não exige ou espera que qualquer um de nós se entregue numa cruz tal como ele fez. Jesus nos pede para amar. Seu mandamento fundamental, que provoca reflexões, não se baseia numa ordem explícita e dolorosa. Ele diz: “Ame! Ame intensamente, da melhor forma, cheios de alegria e compaixão. Ao ponto de não suportarem o sofrimento alheio. Rendam-se ao amor”.

O amor. Esse é o seu único pedido ao homem. Essa é também, sua maior promessa.

Parecer com Deus, portanto, tem muito menos a ver com uma conduta de vida ou práticas religiosas e se resume num ponto mais simples do que muitas vezes gostaríamos: amar o próximo seja ele quem for.

E agora, pensando aqui no sofá de casa, eu acho que esse meu discurso é bastante convincente. Sei que muitos dos meus amigos vão ler essa carta e concordar comigo. Bom, mas não vou ser eu o hipócrita aqui. Admito que não tenho uma soma sequer nessa medida de bondade e amor que Jesus pediu que tivéssemos.

Mas penso que se tem algo na vida que eu deveria buscar, isso passa por me aperfeiçoar num sentimento. Peraí, perdão, o termo não é aperfeiçoar… Não acho que seja possível lapidar o amor de alguma forma. As coisas passam, portanto, pela entrega, pela renúncia, por deixar que o sentimento que me domina, cumpra em mim seu papel. Que o amor, que Deus, seja em mim plenamente para que eu seja, de alguma forma, amor para os outros.

“Isso é impossível”, talvez você diga. E talvez eu mesmo diga isso também. Porque apesar da simplicidade do argumento, isso não é mesmo fácil de pôr em prática. Mas, antes de deixar que minha auto-piedade e o conformismo me façam deitar a cabeça no travesseiro para dormir o bom sono dos ímpios, uma verdade me vem à mente e martela: se Jesus tivesse pensado como eu, talvez a cruz tivesse ficado vazia. E, pimba, uma outra dose de Páscoa para refletir.

Bem, realmente é mais fácil convencer minha filha de três anos que um coelho subiu pelo elevador até nosso apartamento no 11º andar e botou um ovo de chocolate num canto escondido da casa, do que amá-la de forma tão intensa que um dia ela passe a acreditar que esse amor, real e incondicional, tem sua fonte num Deus perfeito e amoroso, que fez tantas coisas por ela.

E… chocolates! Hummm, isso parece uma idéia genial!

Uma ilustração para quarta-feira

Gosto muito dessa ilustração. É do desenhista Gabi Campanario (mais trabalhos dele no Flickr – vale a visita)

Ebook: Correndo atrás do vento

Um dos temas que involuntariamente tenho desenvolvido por aqui ultimamente trata da igreja. Sim, todo o blog trata de igreja, mas tenho visto que algumas das crônicas e ensaios tem se concentrado especialmente nessa crítica. Não é proposital, como disse. Mas é inevitável, dado o contexto em que vivemos.

Por isso, resolvi fazer uma experiência. Depois de 7 anos restrito a esse pequeno ambiente digital, reuni os textos da série “Correndo atrás do vento” (que você pode acessar, compilada, num link logo ao lado) em um ebook, devidamente publicado no site Bookess, que se presta habilmente a esse tipo de serviço.

Clique aqui para acessar e baixar o arquivo

É evidente que, como tudo aqui, esse não é um manuscrito finalizado. É um experimento, que pode e deve sofrer revisões, acréscimos, cortes e ajustes. Mas eu acredito que pode ser o primeiro passo (junto com as demais séries) de compilações futuras.

Desnecessário dizer que gostaria de saber a opinião de vocês.

Obrigado pelo carinho e paciência.

Abraços,
Henrique

Os evangélicos-bomba

por Luiz Henrique Matos

Estava pensando nesses caras que amarram uns quilos de dinamite na barriga e, em nome de Alá, se explodem em algum local público e movimentado do mundo. Pensei em como isso algo totalmente possivel de fato, em como tanta gente acredita nesse tipo de absurdo.

Minha curiosidade passava por tentar entender em que momento exatamente um rapaz se convence de que a resposta para todas as coisas passa por apertar um botão e botar tudo pelos ares. A sua vida inclusive.

Minha outra curiosidade era tentar imaginar o tipo de deus em que um indivíduo acredita para chegar à conclusão genial de que ele se satisfaz com esse ódio todo. Que paz, afinal, pode coexistir com a guerra?

E então eu lembrei de um sujeito que eu conheci quando me converti. Um não, vários sujeitos. Pensando bem, igrejas inteiras. E acho que se eles tivessem nascido no Afeganistão, estariam hoje numa fila de voluntários talibãs para morrer em nome de sua fé.

Fé o escambau, essa gente se mata em nome do ódio. Deus, Alá ou seja lá quem for, é um pretexto para a amargura que os entorpece. Fariseus. Estão cegos e acham que podem conduzir alguém a algum lugar.

Se o Bin Laden fosse evangélico e vivesse no Brasil, acho que ele faria um baita sucesso. Com programas na tv, emissoras de rádio e mega cruzadas em praças públicas.

MST? Farc? Al-Qaeda? Que nada, nós teríamos os evangélicos-bomba. Fogo puro.

Eu juro que tenho medo.

Mas pior do que o absurdo desse extremo físico, eu acho que é o que já acontece por aqui. Os evangélicos bomba já estão entre nós. E eles matam silenciosamente. Com suas mensagens, com as pregações escabrosas e as bizarrices doutrinarias, nossos terroristas escravizam inocentes, manipulam vítimas emocionalmente feridas e, aos poucos, minam suas forças. Eles matam, milhares, todos os dias, com suas campanhas que prometem milagres e prosperidade instantâneas, com a culpa e o medo incutidos nas mentes que influenciam e se escondem atrás de um subterfúgio: o deus que professam, mas que contraditoriamente, existe para lhes servir em seus caprichos.

Eu tenho mesmo muito medo.

Tenho medo porque convivo com gente assim. Tenho medo porque, preciso confessar, eu mesmo já quase entrei na fila dos homens-bomba (duvida? Então dê uma olhada em alguns dos textos que escrevi há seis ou sete anos).

Mas eu temo, principalmente, por duas razões fundamentais. Temo pelas pessoas que morrem todos os dias, enganadas, acreditando num deus tão cruel. E temo – me apavoro – pelas pessoas, as que não caem na lorota dos terroristas, mas que acreditam que o cristianismo, no fim das contas, é o que esses bandidos pregam.

Mas há esperança, sempre há. Precisa. Porque em outros momentos da história em que ideologias parecidas ganharam espaço (vide os fariseus do primeiro século, as cruzadas na Idade Média, a inquisição da igreja romana…), Deus providenciou uma mudança de cenário. Não, ele não travou guerras. Ele também não dizimou os enganadores com raios ou enviou exércitos para a batalha – bom, tome cuidado você, se desejou que fosse assim. Deus não faz isso porque Deus não tem inimigos. Deus não fere, não mata, não condena. Deus é Pai, ele é amor.

E o amor é a sua espada, é seu argumento, seu único recurso, é a revolução pela qual escolhe salvar o mundo sempre que teimamos destruí-lo.

Por amor ele criou, viveu entre nós, perdoou, nos ama e procura. Com o amor, ele nos derrota. Amando incondicionalmente, o Pai nos constrange, nos faz cair de joelhos. E amados, nos rendemos, nos prostramos. E já não há outra saída.

O homem cujo coração se rende a Deus, passa a enxergar como ele. Odeia o que Deus odeia e ama o que ele ama.

Porque, pensando bem, não precisamos de algo pelo qual morrer. Precisamos de uma causa pela qual viver.

“Ame o outro como a si mesmo.” (Jesus)

Esse texto faz parte da série “Correndo atrás do vento”. Leia mais:

1. A teologia não salva
2. Em defesa da crise
3. E o futuro, a quem pertence?
4. Pessoas mudam, o mundo muda (manifesto)
5. Os riscos da prosperidade
6. Clichês
7. Deus não tem um sonho pra você
8. Julgando um livro pela capa (e pessoas por sua opção religiosa)
9. Jesus não tinha inimigos
10. Um Deus, diversos cultos
11. Comodidade
12. Churrasco, futebol, igreja e uns quilos a mais

Telefonema para J. D. Salinger

“Bom mesmo é um livro que, quando a gente acaba de ler, fica querendo ser amigo do autor pra poder telefonar para ele toda vez que desse vontade.”

Holden Caulfield, em “O apanhador no campo de centeio” de J. D. Salinger

Uma canção para a terça-feira

Comendo o fruto outra vez

por Luiz Henrique Matos

Ahh, Adão!

Você já pensou no que seria o mundo se ele e Eva não tivessem comido o fruto proibido? Quanto tempo e sofrimento não teriam sido poupados? Como seriam hoje o mundo e as pessoas?

Viveríamos no Paraíso. E a árvore estaria intocada, no centro do jardim. E seríamos inocentes amigos do Criador. Felizes, puros, plenos e realizados. Sem pecado, o mundo estaria muito diferente do que estado lamentável em que se encontra.

Ahh, ilusão. Doce ilusão.

Não faltariam chances. Não teria fim a vontade ardente do erro não cometido. E seria de se perder em contar nos dedos os momentos em que nós, qualquer um de nós, homens, botaríamos o fruto na boca outra vez.

Quem atira a primeira pedra? Quem tem coragem, afinal, de culpar Adão e Eva pelo erro que todos nós cometeríamos?

“Consequentemente, assim como uma só transgressão resultou na condenação de todo os homens, assim também um só ato de justiça resultou na justificação que traz vida a todos os homens. Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem muitos serão feitos justos.” (Romanos 5:18-19)

Ahh, Jesus…

Vida eterna


por Luiz Henrique Matos

Ainda que estejam certas as vozes que anunciam o fim, que o céu não exista e que a vida acabe no meu último fôlego.

Ainda que tudo não passe de cinzas, que o que me cabe esteja restrito a esses dias que podem ser contados e meu destino seja uma cova.

Ainda que não haja céu, que o jardim do Senhor não floresça e que a eternidade seja apenas um sonho.

Ainda que minhas lágrimas não sejam enxugadas por suas mãos, que o fardo pesado não me seja tirado das costas e eu nunca o veja face a face e me sente ao seu lado.

Ainda que tudo tenha fim, terei comigo o seu amor.

Ainda que os outros julguem ser pouco, o seu amor, Pai, eu conheci. E no último dia, no suspiro derradeiro, adorarei. E serei grato, pela vida eterna que vivi em ti.

Sobre escrever

Escrever é uma aventura. Para começar, é um um brinquedo e uma diversão. Então se torna um amante, e depois vira um dono, depois um tirano. A última fase é que quando você está pronto para se reconciliar com sua servidão, você mata o monstro e o atira ao público.
– Winston Churchill

Fonte: blog do Dagomir Marquezi

Aniversário

Não que interesse a alguém, mas só para constar, eu registro: há sete anos, numa tarde lá em casa, esse blog entrou no ar.

E tanta coisa mudou.

Cenas domésticas: conversa séria

por Luiz Henrique Matos

Lá em casa, toda vez que a Nina passa do ponto nas birras ou apronta alguma coisa realmente muito grave, nós a chamamos para “uma conversa muito séria” lá no quarto (calma, antes que a polícia bata na porta de casa, quero deixar claro que “uma conversa muito séria” não passa de três minutos de bronca, a sós, olhando bem na bolinha nos olhos).

Pois bem, num sábado pela manhã estávamos no quarto assistindo TV, enrolando para levantar e a mãe fez o favorzão de trazer café na cama para nós. Bolo, pão com requeijão, iogurte, Nescau no copo, bolachas… só coisa boa. A certa altura, já quase satisfeitos, a Nina foi tentar virar de lado na cama e acabou dando um chute no meu copo de Nescau. Sim senhoras e senhores, lá foram 400ml de líquido marrom bem escuro sendo absorvidos por lençóis, edredon e pelo colchão.

Ela ficou preocupada.

– Pai, disculpa…
– Nina, não se preocupe, filha. Não tem problema, tá? Não foi culpa sua, foi sem querer.

Limpamos a cama, levamos a tralha para o tanque e eu fui para a sala terminar de dar o café da manhã para a Nina. Só havia sobrado o iogurte. Abri, lambi a “tampinha” de alumínio, me ajeitei no sofá e enquanto tentava pegar a primeira colheirada para servir minha filha, fiz alguma grande besteira e espirrei iogurte para todo lado. Sofá, almofadas, roupas e o piso, tudo devidamente afetado.

Eu fiquei preocupado.

Corri para providenciar minha segunda faxina em menos de uma hora e a Nina observava sentadinha no sofá. Quando voltei, meio ofegante, retomei o assunto.

– Ixi, Nina, você viu o que o papai fez?
– Derrubou tudo, né?
– É… aiaiai. Mas agora já está tudo pronto. Vamos tomar o seu danone?
– Mas… pai?
– Oi, Nina.
– E quem é que vai “conversar muito sério” com você?

(para o Frases de Crianças)

Voltando ao paraíso

Ruas de ouro, anjos tocando harpas, um coral de vozes em louvor… Não, eu prefiro a afirmação de Borges. E depois de se estar no paraíso uma vez, é quase impossível resistir a tentação de investir seus recursos para viver essa experiência outra vez.

(Clique nas fotos para ampliar)

El Ateneo, eleita a segunda livraria mais bonita do mundo (eu queria era saber qual é a primeira…). Se interessar a visita, fica na Av. Santa Fe, em Buenos Aires.

Cenas domésticas: nunca é cedo para ensinar

por Luiz Henrique Matos

Era cedo. Estávamos na cozinha e como todos os dias, eu preparava um copo de Nescau para a Nina. “Leitinho, papai, leitinho” é a fala matinal que me desperta, junto com a música do Louis Armstrong que toca no relógio.

Hoje ela foi atrás de mim. Enquanto eu ajeitava o lanchinho da escola, ela virava o copo de leite numa golada só. Depois, não satisfeita, pediu:

– Pai, eu quero também aquele outro. O amarelo.

– Que amarelo, filha?

– Aquele, pai. Abre o armário.

Bom, eram seis da manhã, eu estava com sono e você precisa me desculpar pela falta de paciência com minha pequena.

– Ah, filha, isso não é hora de olhar o armário. Não é hora de doce. E você já comeu.

– Nããão, pai. Eu quero aquele amarelo. Eu esqueci o como chama…

– Nina, eu não sei o que você está querendo. Você já tomou seu leite, agora é hora de se arrumar e ir pra escola.

– Ah, pai… por favoooor! (ela agora está com essa mania de dizer “por favoooor” pra qualquer coisa que queira mesmo, como se fosse um apelo em última instância. Funciona).

– Tá. Eu vou abrir o armário.

Abri a porta e só via pacotes de biscoito, o açucareiro, Nescafé, sal, Ovomaltine, uma lata amarela de leite Ninho… Opa, amarelo!? Leite Ninho?

– Nina, é isso aqui que você quer? Um grudinho*?

Ela sorriu. Ficou um tempo sem dizer nada. Eu, com a cara amassada de sono ainda esperava retomar a rotina. E ela arremata:

– Viu como você aprende?

Realmente.

(*Grudinho é um troço que minha sogra inventou e a Nina adora. A receita é simples: duas colheronas de leite em pó e uns 10 ou 20 mililitros de água. Vira uma pasta grudenta e, segundo dizem, deliciosa – há paladar para tudo)

– Crônica para o blog Frases de Crianças

O sacrifício do Messias – Walter Wangerin Jr.

Depois de alguns meses – bom, toda leitura para mim, em geral, dura alguns meses – finalmente terminei a leitura de O Livro de Jesus, de Walter Wangerin Jr. Não é uma leitura fácil. Tal como em O Livro de Paulo, Wangerin mergulha nos detalhes da história bíblica para construir seu romance. Sua ficção não muda os fatos, ela os enriquece.

As roupas, os costumes, o clima, a geografia e os alimentos. Cada página contém nuances que ajudam na compreensão da história e enriquecem a narrativa.

Não posso dizer, entretanto, que concordo com todos os seus pontos de vista. Mas me rendo à riqueza do texto, à qualidade de sua imaginação e a capacidade de emocionar contando uma história que já lemos tantas vezes.

Parece-me difícil escrever um romance a respeito de circunstâncias nas quais cremos como reais e cujo personagem principal é tão essencialmente verdadeiro a ponto de tê-lo como seu Deus.

Reescrevo abaixo um trecho:

Durante todo o tempo que convivi com Jesus nunca o ouvi reagir a dor física. Que ele sentia eu via em seu rosto. Seus lábios se comprimiam e branqueavam. Sua testa franzia. Seus olhos arrojavam-se num tique para a esquerda, pálpebras tremulando. Porém, a linha de seu cabelo densamente cacheado nunca se alterava, nem tampouco sua resistência ao desgaste, o que fazia com que ele, mesmo nos ferimentos mais graves, parecesse alinhado, não-perturbado. Ele nunca proferiu nenhum som de resmungo.

Hoje ele grunhe e gargareja de dor.

Não há nenhum pilar natural ou poste na parte alta da praça. Por isso os romanos rebocaram uma imensa carroça de transporte, prenderam as rodas com pedras e amarraram o Senhor, inteiramente despido com exceção de sua roupa de baixo, às tábuas de sua porção posterior.

Certa ocasião, ele se pusera de pé, como uma vela, na popa de um barco açoitado por uma tempestade, seu manto drapejando como uma bandeira, e erguera os braços; e o mar se acalmara por completo.

Com freqüência ele erguera os braços e toda a população ficava em silêncio e era ensinada, e milhares haviam sido alimentados com peixe e com pão.

No alto dos montes, ao crepúsculo, ele erguera os braços como mastros e bandeira, e orara.

Agora seus braços foram erguidos para ele. Estão amarrados às extremidades das traves mais altas da carroça; seu rosto apertado contra a madeira áspera.

O legionário que está em pé e de lado, atrás do meu Senhor, empunha o cabo de um açoite na mão direita. Ele estala o pulso. Faz com que suas tiras e garras de metal agitem-se no ar, um som de serpente. Então, correndo de repente, o legionário gira o braço inteiro acima da cabeça e salta. Precipitando-se até Jesus, dobra-se sobre ele com tamanha violência que as garras de metal vergastam como um ancinho as costas do prisioneiro, fatiando a carne do ombro à cintura; Jesus se contorce; a pele se alarga; suas feridas são sorrisos abertos, o osso branco aparecendo como dentes do lado de dentro, seco como pedra calcária – mas em seguida o sangue corre pelas longas feridas e começa a espalhar-se.

(p. 382)

E segue. Se puder, leia.

É uma pena que não tenhamos tantos livros de Walter Wangerin traduzidos para o português (além dos dois citados, a Mundo Cristão também publicou O Livro de Deus, que completa a trilogia). É uma pena que não tenhamos bons livros de autores cristãos sendo publicados por aqui.

– LHM

Churrasco, futebol, igreja e uns quilos a mais

por Luiz Henrique Matos

No domingo, fizemos um churrasco aqui em casa. Amigos, comida, crianças, preguiça e amenidades. Gosto de ficar assim sem fazer nada ao lado de gente querida. Faz bem para a mente, é bom pra recuperar o tempo que a gente perde trabalhando.

Foi bom também porque, sentado com os amigos depois do almoço, pude falar sobre um assunto que já há algum tempo me angustia.

Em geral, os assuntos que me angustiam por algum tempo estão restritos a trabalho, família, o próximo jogo do São Paulo, a igreja e, mais recentemente, o aumento significativo da minha circunferência abdominal – com o perdão pelo linguajar chulo.

E nesse caso, preciso dizer que não será hoje que abrirei um discurso sobre detalhes estéticos. A verdade é que, dentre as tantas coisas, falávamos do tema menos apropriado para uma ocasião tão singela: igreja.

O ponto essencial é que eu fico imaginando se não seria mais adequado que a igreja privilegiasse sua atuação social, colocando isso no primeiro plano de suas atividades, ao invés de expor suas práticas devocionais e investir recursos na divulgação de suas crenças, doutrinas e mensagens.

Posso estar sendo ingênuo, mas será que ajudar os pobres e auxiliar as famílias não é mais urgente do que discutir a forma como nos comunicamos com o mundo, as melodias de nossas canções e as estratégias de evangelização?

Jesus vivia dessa forma. Ele dedicava seu tempo em servir e se relacionar. Ele ouvia mais do que falava.

Sei de muitas igrejas se preocupam em servir e ajudar os necessitados. Grande parte das que conheço, investem o maior percentual de sua arrecadação em projetos sociais e assistencialistas. Mas quem é que sabe disso?

Em nosso relacionamento com a sociedade, externamos as práticas devocionais e internalizamos os serviços. Mostramos ao mundo nossas atitudes de adoração, nossos cânticos e as pregações impactantes e guardamos, dentro dos muros de nossas comunidades, as obras sociais, os orfanatos e os ministérios de cuidado familiar.

Recebo semanalmente uma série de newsletters de igrejas brasileiras e norte-americanas mostrando sua agenda de atividades. São boletins com design elaborado, mensagens bonitas e linguagem moderna. Falam basicamente de atividades devocionais. Os livros, os clipes musicais, os vídeos inovadores, a presença em redes sociais, a mensagem do culto, a série de pregações, a dinâmica dos grupos pequenos e os acampamentos. De verdade, no que isso parece interessante a alguém que não conhece uma igreja?

Quando mostramos uma preocupação real com os outros, o que fazemos nos torna simpáticos.

Posso também estar errado – eu costumo estar quando alimento minhas utopias -, mas acho que as pessoas estão cansadas dos nossos discursos e divagações. Falo, inclusive, das pessoas de dentro da igreja. Ninguém mais tem paciência para ouvir um grupo de religiosos anunciando salvação, perdão, redenção e um messias, quando não sentem que precisam disso realmente. Quando, principalmente, não conseguem enxergar o Messias nas pessoas que o anunciam.

Eu vejo mais gente mudando de igreja do que gente nova na igreja. Eu vejo sempre as mesmas poucas pessoas servindo a muitos “irmãos de fé” e nenhuma multidão empenhada em servir o mundo.

E então, quando ninguém mais está disposto a ouvir a nossa defesa inovadora do cristianismo no contexto social pós-moderno (bom, sempre tem que ter um titulo bacana para virar tema de livro depois), culpamos a pós-modernidade, a televisão e algum multimilionário com pinta de anti-cristo e investimos mais dos escassos recursos que já temos em plástica pura e simples. Remodelamos nossas canções, redecoramos os salões de reunião, lançamos mão de novas mídias e – me perdoe a expressão – “secularizamos” nossa imagem para torná-la mais interessante ao homem dos nossos dias.

Agora, por outro lado, quem não se sente atraído – ou ao menos respeita – um grupo de pessoas que se empenha em melhorar a condição do mundo? A solidariedade, as boas ações, a generosidade, o amor. Esse é o comportamento que não enfrenta barreiras, que encontra a simpatia das pessoas.

Jesus costumava guardar suas práticas devocionais para os momentos de isolamento. Sua intimidade com Deus era vista pelos que já o conheciam há mais tempo. Diante das multidões, ele não se exibia, ele saciava necessidades.

Do lado de fora da igreja, em sua face mais exposta, deveria aparecer a prática essencial do cristianismo: a preocupação com o próximo. O amor. Internamente, em nossas reuniões e congregações, aí sim, nossa vida devocional é que sustenta a força desse trabalho (intercessão, adoração, estudo, jejum). Outra vez, o amor.

Reclamamos da dificuldade de evangelizar e da grande “concorrência” para expor a Verdade em que cremos no mundo atual, mas somos nós quem esquecemos de refletir a imagem da Verdade em que cremos: Jesus Cristo.

Jesus, puro e simples. Precisamos menos dos recortes periféricos e mais da sua essência.

Bom, é verdade que eu demorei a notar, mas finalmente nos tocamos de que o assunto não era a coisa mais interessante para se discutir num churrasco. Por isso mesmo, deixamos o assunto no ar e, num silêncio momentâneo de reflexão que se seguiu, ouvimos um “alô, você ligado no futebol…” vindo da televisão. Ia começar o jogo. Coisa boa e digestiva para um domingo à tarde, de extrema importância para acalentar nossas inquietações mais íntimas.

– Rapaz, como anda jogando mal esse seu time! – eu disse para provocar um amigo.

– Cara, você engordou, hein? – ele retrucou.

E as coisas, como sempre, ficaram a deriva. Meu peso, o jogo de futebol e as questões fundamentais – e inapropriadas para um churrasco – da igreja.

“A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” (Tiago 1:27).

Esse texto faz parte da série “Correndo atrás do vento”

Leia mais:

1. A teologia não salva

2. Em defesa da crise

3. E o futuro, a quem pertence?

4. Pessoas mudam, o mundo muda (manifesto)

5. Os riscos da prosperidade

6. Clichês

7. Deus não tem um sonho pra você

8. Julgando um livro pela capa (e pessoas por sua opção religiosa)

9. Jesus não tinha inimigos

10. Um Deus, diversos cultos

11. Comodidade

12. Churrasco, futebol, igreja e uns quilos a mais

A África dos meus sonhos

Altamente recomendável a leitura do texto “A África dos meus sonhos”, escrito por Marcelo e postado no site do Caio Fábio.

Trouxe a África comigo. Trouxe as ocultas personagens desse intercâmbio. Trouxe os rostinhos dos que ficaram no meio do caminho enquanto prosseguíamos. Sinceramente não sirvo para salvar ninguém por estatística. Ou dou um jeito logo em tudo, ou é melhor nem ter começado!

Nos meus sonhos, voltei a um vilarejo miserável em Oron, miserável cidade de Akwa Ibom State.

Devolvemos a essa vila um jovenzinho-bruxo todo quebrado pelo “vodu cristão”! Ele foi levado ao campo pelo irmão mais velho e quando ia ser imolado com um facão, foi arrancado da morte pelos homens do Chief Mr. Medekon, um dos maiores e mais respeitados anciãos da cidade. Conduzido ao orfanato, coube-nos investigar a causa de sua bruxificação e conversar com seus pais a respeito.

(Continua…)

Clique aqui para ler a íntegra do texto.

Patos

Três fotos aleatórias para levar a mente a outro lugar.

Glenn Gould plays Bach

Confesso minha ignorância: até hoje eu não conhecia Glen Gould. Mas visitando o blog da Livraria Cultura, li o post com esses dois vídeos originais do pianista (considerado por muitos o melhor intérprete de Bach) e não resisti.

Estilo, diversão, envolvimento e técnica absurda. Como bem define o Wagner Brenner (autor do post): “dê um minuto para ser fisgado”.

Simplicidade e sabedoria (Rubem Alves)

Texto de Rubem Alves com o qual me deparei ontem, buscando uma outra coisa pelo Google. Pois é, ainda bem que minha busca deu errado.

Sobre simplicidade e sabedoria

Pediram-me que escrevesse sobre simplicidade e sabedoria. Aceitei alegremente o convite sabendo que, para que tal pedido me tivesse sido feito, era necessário que eu fosse velho.

Os jovens e os adultos pouco sabem sobre o sentido da simplicidade. Os jovens são aves que voam pela manhã: seus vôos são flechas em todas as direções. Seus olhos estão fascinados por 10.000 coisas. Querem todas, mas nenhuma lhes dá descanso. Estão sempre prontos a de novo voar. Seu mundo é o mundo da multiplicidade. Eles a amam porque, nas suas cabeças, a multiplicidade é um espaço de liberdade. Com os adultos acontece o contrário. Para eles a multiplicidade é um feitiço que os aprisionou, uma arapuca na qual caíram. Eles a odeiam, mas não sabem como se libertar. Se, para os jovens, a multiplicidade tem o nome de liberdade, para os adultos a multiplicidade tem o nome de dever. Os adultos são pássaros presos nas gaiolas do dever. A cada manhã 10.000 coisas os aguardam com as suas ordens (para isso existem as agendas, lugar onde as 10.000 coisas escrevem as suas ordens!). Se não forem obedecidas haverá punições.

No crepúsculo, quando a noite se aproxima, o vôo dos pássaros fica diferente. Em nada se parece com o seu vôo pela manhã. Já observaram o vôo das pombas ao fim do dia? Elas voam numa única direção. Voltam para casa, ninho. As aves, ao crepúsculo, são simples. Simplicidade é isso: quando o coração busca uma coisa só.

Jesus contava parábolas sobre a simplicidade. Falou sobre um homem que possuía muitas jóias, sem que nenhuma delas o fizesse feliz. Um dia, entretanto, descobriu uma jóia, única, maravilhosa, pela qual se apaixonou. Fez então a troca que lhe trouxe alegria: vendeu as muitas e comprou a única.

Na multiplicidade nos perdemos: ignoramos o nosso desejo. Movemo-nos fascinados pela sedução das 10.000 coisas. Acontece que, como diz o segundo poema do Tao-Te-Ching, “as 10.000 coisas aparecem e desaparecem sem cessar.“ O caminho da multiplicidade é um caminho sem descanso. Cada ponto de chegada é um ponto de partida. Cada reencontro é uma despedida. É um caminho onde não existe casa ou ninho. A última das tentações com que o Diabo tentou o Filho de Deus foi a tentação da multiplicidade: “Levou-o ainda o Diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e lhe disse: ‘Tudo isso te darei se prostrado me adorares.’“ Mas o que a multiplicidade faz é estilhaçar o coração. O coração que persegue o “muitos“ é um coração fragmentado, sem descanso. Palavras de Jesus: “De que vale ganhar o mundo inteiro e arruinar a vida?“ (Mateus 16.26).

O caminho da ciência e dos saberes é o caminho da multiplicidade. Adverte o escritor sagrado: “Não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne“ (Eclesiastes 12.12). Não há fim para as coisas que podem ser conhecidas e sabidas. O mundo dos saberes é um mundo de somas sem fim. É um caminho sem descanso para a alma. Não há saber diante do qual o coração possa dizer: “Cheguei, finalmente, ao lar“. Saberes não são lar. São, na melhor das hipóteses, tijolos para se construir uma casa. Mas os tijolos, eles mesmos, nada sabem sobre a casa. Os tijolos pertencem à multiplicidade. A casa pertence à simplicidade: uma única coisa.

Diz o Tao-Te-Ching: “Na busca do conhecimento a cada dia se soma uma coisa. Na busca da sabedoria a cada dia se diminui uma coisa.“

Diz T. S. Eliot: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?“

Diz Manoel de Barros: “Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar. Sábio é o que adivinha.“

Sabedoria é a arte de degustar. Sobre a sabedoria Nietzsche diz o seguinte: “A palavra grega que designa o sábio se prende, etimologicamente, a sapio, eu saboreio, sapiens, o degustador, sisyphus, o homem do gosto mais apurado. “A sabedoria é, assim, a arte de degustar, distinguir, discernir. O homem do saberes, diante da multiplicidade, “precipita-se sobre tudo o que é possível saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preço.“ Mas o sábio está à procura das “coisas dignas de serem conhecidas“. Imagine um bufê: sobre a mesa enorme da multiplicidade, uma infinidade de pratos. O homem dos saberes, fascinado pelos pratos, se atira sobre eles: quer comer tudo. O sábio, ao contrário, para e pergunta ao seu corpo: “De toda essa multiplicidade, qual é o prato que vai lhe dar prazer e alegria?“ E assim, depois de meditar, escolhe um…

A sabedoria é a arte de reconhecer e degustar a alegria. Nascemos para a alegria. Não só nós. Diz Bachelard que o universo inteiro tem um destino de felicidade.

O Vinícius escreveu um lindo poema com o título de “Resta…“ Já velho, tendo andado pelo mundo da multiplicidade, ele olha para trás e vê o que restou: o que valeu a pena. “Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas…“ “Resta essa capacidade de ternura…“ “Resta esse antigo respeito pela noite…“ “Resta essa vontade de chorar diante da beleza…“. Vinícius vai, assim, contando as vivências que lhe deram alegria. Foram elas que restaram.

As coisas que restam sobrevivem num lugar da alma que se chama saudade. A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as experiências que deram alegria. O que valeu a pena está destinado à eternidade. A saudade é o rosto da eternidade refletido no rio do tempo. É para isso que necessitamos dos deuses, para que o rio do tempo seja circular: “Lança o teu pão sobre as águas porque depois de muitos dias o encontrarás…“ Oramos para que aquilo que se perdeu no passado nos seja devolvido no futuro. Acho que Deus não se incomodaria se nós o chamássemos de Eterno Retorno: pois é só isso que pedimos dele, que as coisas da saudade retornem.

Ando pelas cavernas da minha memória. Há muitas coisas maravilhosas: cenários, lugares, alguns paradisíacos, outros estranhos e curiosos, viagens, eventos que marcaram o tempo da minha vida, encontros com pessoas notáveis. Mas essas memórias, a despeito do seu tamanho, não me fazem nada. Não sinto vontade de chorar. Não sinto vontade de voltar.

Aí eu consulto o meu bolso da saudade. Lá se encontram pedaços do meu corpo, alegrias. Observo atentamente, e nada encontro que tenha brilho no mundo da multiplicidade. São coisas pequenas, que nem foram notadas por outras pessoas: cenas, quadros: um filho menino empinando uma pipa na praia; noite de insônia e medo num quarto escuro, e do meio da escuridão a voz de um filho que diz: “Papai, eu gosto muito de você!“; filha brincando com uma cachorrinha que já morreu (chorei muito por causa dela, a Flora); menino andando à cavalo, antes do nascer do sol, em meio ao campo perfumado de capim gordura; um velho, fumando cachimbo, contemplando a chuva que cai sobre as plantas e dizendo: “Veja como estão agradecidas!“ Amigos. Memórias de poemas, de estórias, de músicas.

Diz Guimarães Rosa que “felicidade só em raros momentos de distração…“ Certo. Ela vem quando não se espera, em lugares que não se imagina. Dito por Jesus: “É como o vento: sopra onde quer, não sabes donde vem nem para onde vai…“ Sabedoria é a arte de provar e degustar a alegria, quando ela vem. Mas só dominam essa arte aqueles que têm a graça da simplicidade. Porque a alegria só mora nas coisas simples.

(Concerto para corpo e alma, p. 09)

O original está aqui.

Haiti

Os dias têm passado e eu confesso que apesar da vontade não consigo escrever nada que reflita minhas impressões sobre a tragédia no Haiti.

Mas, diante dos fatos, acho que não há mesmo o que dizer. Precisamos às vezes aprender a lamentar e chorar a dor de nossos semelhantes sem querer ter um lampejo de sabedoria ou consolo. Às vezes – na verdade, na maior parte delas -, não temos respostas.

Não existem palavras. E aquelas pessoas não precisam da nossa avaliação, análise ou de mensagens positivas. No “vale da sombra da morte” (usando a expressão de um poeta), no desconsolo da dor, na aflição, só podemos orar e estender a mão para ajudar no que for possível.

* * *

E existe gente que ajuda da forma mais nobre que conheço. Li há alguns minutos uma nota do escritor Donald Miller em seu blog a respeito da bela atuação que a Visão Mundial tem tido no país.

Republico abaixo o seu post e também o vídeo com o trabalho da ONG.

Our parents generation started World Vision in the 1950’s, and it’s grown into an over 2.5 billion-dollar per-year organization providing supplies, food and medical treatment to hurting people around the world. They aren’t the sexiest organization, and they don’t aim to be fashionable, but I’ve been amazed at the people who work at World Vision for may years now. I just wanted to show you what they are doing, already, in Haiti.

Se você quiser ajudar o Haiti, existem diversas entidades e orgãos governamentais recebendo doações. A Folha de S. Paulo publicou uma lista.

– LHM

Um pedaço de nós

por Luiz Henrique Matos

Em geral, temos um certo orgulho e valorizamos mais as coisas que nos mesmos fizemos.

Brinquedos para as crianças, pipas, lavar o carro, pendurar um quadro, construir uma casa – mesmo que seja de bonecas -, constituir família. Filhos.

Precisamos nos envolver, dedicar tempo. Precisamos nos doar para que tenhamos um pouco de nós mesmos semeados naquilo que chamamos “nosso”. Sejam coisas ou pessoas.

Devemos ser parte de algo para entender o seu valor e, finalmente, dar a vida por isso.

Como maridos, pais, artesãos, profissionais, carpinteiros, filhos…

Deus entende dessas coisas.

“Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16).

A Bíblia é humanidade pura

por Luiz Henrique Matos

Deus escreveu sua história através das vidas de pessoas imperfeitas. Eram pecadores, assassinos, adúlteros, impetuosos, mentirosos, trapaceiros, medrosos, idolatras – e a Bíblia não esconde isso em nenhum momento. A Bíblia é humanidade pura. Mas anos depois, quando se lê a respeito desses homens, os registros os tratam como “os pais da fé”. As Escrituras os chamam de amigos de Deus, santos, homens segundo o coração do Pai. Deus conhece suas histórias mas não os trata pelo que fizeram, ele prefere enxergar o que significaram para o mundo. Ele os vê como filhos. O Criador olha para sua criatura e vê a obra completa. O homem.

“A glória de Deus é um ser humano em plenitude de vida.” (Irineu)

Cenas natalinas: Inverno na Galiléia

por Luiz Henrique Matos

Belém (Vasily Polenov)

Maria observava. O menino crescia com saúde. Era inteligente, curioso e obedecia aos pais. Gostava de brincar nos quintais poeirentos do vilarejo, correndo entre seus irmãos e amigos, e às vezes se enfiava na oficina para observar o pai trabalhando que, orgulhoso, mostrava seu ofício ao filho. Ele era como qualquer criança entre as outras e era isso que a deixava angustiada.

“O que vai acontecer? Quando é que as coisas vão mudar, afinal?”

O passar dos anos nunca apagou o que lhe aconteceu, mas a construção de sua família, a rotina da vida atribulada em Nazaré cuidando dos filhos, o trabalho de José… isso tudo tomava tanto tempo que Maria chegava a passar meses sem refletir sobre o assunto.

Ela pensava em seu bebê que agora era um yeled formado, um menino alegre, com seus oito anos. E não fosse a verdade irrevogável dita por aquele anjo e o milagre que lhe sobreveio depois daquele dia, Maria julgaria que sua vida seguia o caminhar natural das coisas, tal como seria se nada tivesse sucedido.

Mas era só o inverno apontar e o velho pensamento a inquietava.

Era o chegar do vento seco, dos dias gelados e curtos, as lamparinas acesas sobre a mesa e a lenha estalando no fogo para que a casa pudesse aquecer um pouco. Os anos passavam fugazes, mas a cada novo inverno em Nazaré, a lembrança daquela noite lhe vinha à mente como um lampejo.

Cada momento da viagem a Belém eram nítidos para Maria e ela reconstruía a história de sua gestação em cada detalhe. A noite fria de inverno rigoroso, as hospedarias abarrotadas e sem quarto para a família, a estrebaria, as dores do parto, José ao seu lado lhe soprando a face, o choro da criança rasgando o silêncio da noite, a sensação indescritível de dar vida a um ser humano, os anjos louvando nos céus, o Deus vivo sendo acalmado pelo seu leite. A família reunida, a vida em sua plenitude, a promessa cumprida e descansando numa manjedoura. Glória, sono e o amor mais puro transbordando em seu coração.

* * *

“Mãe, está chegando a hora.”

Os anos passaram. O menino cresceu. Maria observava pela porta, apoiada com a mão espalmada sobre as ancas. Cansada. Viúva, pobre, fazia o possível para sobreviver, assim como grande parte da vizinhança. Os filhos todos crescendo e se aprumando, em pouco tempo estaria sozinha. Às vezes se pegava pensando em como as coisas seriam daqui a pouco.

Seu menino vinha do quintal em silêncio. Ele podia não dizer nada, mas pelos passos ela reconhecia cada um. Era assustador notar como o tempo passou rápido e estranho pensar que as crianças que brincavam por ali, agora já eram adultos.

Aos trinta anos, Jesus já estava na idade em que um homem deixa os pais e forma sua família.

“Mas não, ele não. O filho de Deus precisa cumprir sua missão. Ele estudou, era prodígio na Lei, seria Rabi por entre esse povo e querido por todos. Seria o profeta, o Deus vivo… Mas, o que dirão dele? Como o Messias pode ser o filho dessa viúva pobre e ignorante? Como será? Ah, querido, pode não ser fácil! Eu queria poder estar com você e te ajudar. O que o espera lá fora? Certamente o Poderoso guiará os seus passos, mas pudera eu fazer-te sandálias mais confortáveis… Agora, chegou a hora e eu só penso em como meu filho poderá ser profeta em Israel se tudo o que lhe ensinamos foi a disciplina da obediência, o temor a Deus e o ofício do pai? Ah, Deus, não me deixe ter errado em nada!”

Era inverno, já no começo. A noite se afundava fria, a luz do fogo aceso refletia no seu rosto e a imagem da estrebaria ainda era viva em sua mente.

Na companhia do filho mais velho, ela ainda tentava disfarçar. Enquanto o pensamento vagava, os olhos fitavam seu menino, de ombro apoiado na porta, banho recém tomado, um cálice nas mãos, o sorriso fácil estampado no rosto e os olhos vivos – ele não podia esconder o brilho – cheios de expectativa pelos dias que viriam.

Maria se admirava. Seu coração inquieto e cheio de dúvidas era sempre inundado pelo regozijo da promessa divina que se cumpria sob o teto de sua casa. “Foi para isso que ele nasceu!”. E nessas horas, o velho cântico dos anjos lhe saltava pelos lábios.

“Hosana! Hosana! Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade! Hosana!”

Jesus ria da mãe cantarolando.

“Vá, meu yeled, vá! Eu farei uma prece a cada instante. Que a paz reine através de você.”

Esse texto faz parte da série “Cenas natalinas”

1. O filho
2. Noite em Belém
3. Antes e depois

A Bíblia é muito fácil de entender

A questão é simples. A Bíblia é muito fácil de entender. Mas nós, cristãos, somos um bando de vigaristas trapaceiros. Fingimos que não somos capazes de entendê-la porque sabemos muito bem que no minuto em que compreendermos estaremos obrigados a agir em conformidade. Tome qualquer palavra do Novo Testamento e esqueça tudo a não ser o seu comprometimento de agir em conformidade com ela. “Meu Deus”, dirá você, “se eu fizer isso minha vida estará arruinada. Como vou progredir na vida?”.

Aqui jaz o verdadeiro lugar da erudição cristã. A erudição cristã é a prodigiosa invenção da igreja para defender-se da Bíblia; para assegurar que continuemos sendo bons cristãos sem que a Bíblia chegue perto demais. Ah, erudição sem preço! O que seria de nós se você? Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. De fato, já é coisa terrível estar sozinho com o Novo Testamento.

Soren Kierkegaard, citado por Paulo Brabo no livro A Bacia das Almas.

Pra quê?

por Luiz Henrique Matos

Sabe, acho que a competição toda já passou do ponto para mim.

É que chega um hora em que as pessoas ao redor começam a te observar e cobrar um “próximo passo”. Nessa altura do jogo, já não basta sua capacidade, talento e empenho para que o mérito lhe seja outorgado, agora é preciso vencer, é hora de arregaçar as mangas e partir para a luta. Como se a vida fosse um campo de batalha e nós, combatentes ambiciosos.

Desculpe, mas eu não quero. Peço perdão também pela imaturidade dessas palavras, mas às vezes a infantilidade ergue a voz petulante. Pensando bem, eu nem diria que é infantil, isso tudo é coisa de adolescente, que acredita ter a razão no bolso do shorts e o direito de se expressar e reivindicar sua… sua… bem, adolescentes só querem ter o direito de alguma coisa, não importa exatamente o que seja.

E eu tenho muito disso, admito. Eu quero ter o direito de não precisar provar minhas habilidades a todo instante – até porque, é fato, não sou hábil em muitas coisas, muito menos a cada instante.

Quero viver. Quero amar, estar, crer, ser. Simplesmente ser.

Quero desfrutar a boa vida ao lado da mulher que amo, dos meus filhos, da família, dos amigos, em Deus.

E quero ter o direito de estar errado sem que isso me pese como condenação.

Quero parar de competir, porque acho que não vale a pena e, no fim das contas, isso não é vitória coisa nenhuma.

Eu quero acreditar – e tenho esse direito – que ao invés de me estapear com alguém para ocupar o lugar mais alto, posso lhe estender a mão, chamá-lo de irmão e finalmente estarmos, todos, na posição mais nobre.

Jesus disse: “do que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”.

Quando crescer, eu quero é ganhar a vida.

Dostoievski e a pena de morte

O diálogo entre o Príncipe Míchkin e o criado do general Iepátchin, em “O idiota”.

Sabe de uma coisa? – secundou o príncipe com ardor. – Essa mesma observação que o senhor fez todo mundo faz, e a máquina, a guilhotina, não foi inventada com esse fim. Mas naquela ocasião me ocorreu uma idéia: e se isso for ainda pior? O senhor acha isso engraçado, isso lhe parece um horror, e no entanto sob um certo tipo de imaginação até um pensamento como esse pode vir à cabeça. Reflita, por exemplo, se há tortura; neste caso há sofrimento e ferimentos, suplício físico e, portanto, tudo isso desvia do sofrimento moral, de tal forma que você só se atormenta com os ferimentos, até a hora da morte. E todavia a dor principal, a mais forte, pode não estar nos ferimentos e sim, veja, em você saber, com certeza, que dentro de uma hora, depois dentro de dez minutos, depois dentro de meio minutos, depois agora, neste instante – a alma irá voar do corpo, que você não vai mais ser uma pessoa, e que isso já é certeza; e o principal é essa certeza. Eis que você põe a cabeça debaixo da própria lâmina e a ouve deslizar sobre sua cabeça, pois essa quarto de segundo é o mais terrível de tudo. O senhor sabe que isso não é fantasia minha, que muitas pessoas disseram isso? Eu acredito tanto nisso que lhe digo francamente qual é minha opinião. Matar por matar é um castigo desproporcionalmente maior que o próprio crime. A morte por sentença é desproporcionalmente mais terrível que a morte cometida por bandidos. Aquele que os bandidos matam, que é esfaqueado à noite, em um bosque, ou de um jeito qualquer, ainda espera sem falta que se salvará, até o último instante. Há exemplos de que uma pessoa está com a garganta cortada, mas ainda tem esperança, ou foge, ou pede ajuda. Mas, no caso de que estou falando, essa última esperança, com a qual é dez vezes mais fácil morrer, é abolida com certeza; aqui existe a sentença, e no fato de que, com certeza, não se vai fugir com ela, reside todo o terrível suplício, e mais forte do que esse suplício não existe nada no mundo. Traga um soldado, coloque-o diante de um canhão em uma batalha e atire nele, ele ainda vai continuar tendo esperança, mas leia par esse mesmo soldado uma sentença como certeza, e ele vai enlouquecer ou começar a chorar. Quem disse que a natureza humana é capaz de suportar isso sem enlouquecer? Para quê esse ultraje hediondo, desnecessário, inútil. Pode ser que exista um homem a quem leram uma sentença, deixaram que sofresse, de depois disseram: “Vai embora, foste perdoado”. Pois bem, esse homem talvez conseguisse contar. Até Cristo falou desse tormento e desse pavor. Não, não se pode fazer isso com o homem.

– Fiódor Dostoievski, no livro “O idiota” (p. 43).

Post para o blog Livros só mudam pessoas.