– O que você tá fazendo, pai?
– Estou escrevendo uma história.
– Pra quem?
– Para as pessoas.
– E pra mim?
– Também, filha.
– E é legal?
– Ah, não sei, acho que sim. Tomara.
– Você que tá inventando, pai! Você é que sabe se é legal ou não!
O engano da felicidade
Está nos comerciais de TV, está nos livros, está nas estampas de camisetas descoladas, nos posts compartilhados pelo Facebook e nas reportagens especiais do Globo Repórter nas noites de sexta. A felicidade retumbante é só o que desejamos, perseguimos e refletimos com a camada da nossa vida que expomos ao mundo.
Mas é um engano danado isso aí.
Outro dia, véspera de uma data comemorativa qualquer, recebi por email o link para um vídeo novo do Google. Um comercial lindíssimo, daqueles com marido e esposa trocando um com o outro momentos singelos da vida a dois. Uma trilha sonora charmosa ao fundo, aquela edição com cortes de vídeo-clipe e um filtro, uma película sobre a imagem que quisera eu ter uns óculos para só enxergar o mundo com aqueles tons. Era a felicidade, o ideal dela estampado num vídeo de 30 segundos que queria me dizer que eu teria tudo aquilo se… se, juro por Deus, se eu instalasse um software para navegar na internet. Sim, a vida é mais bonita e cheia de sorrisos sinceros de uma linda esposa quando você usa o Chrome para acessar seus emails ou o site do banco para pagar uma conta.
Mas o discurso que nos fazem é tudo o que queremos ver. Já não se vendem mais produtos nos comerciais. Quem, afinal, quer saber sobre o índice de gordura hidrogenada e o sabor pasteurizado de um pote de margarina? “Pra quê vender margarina?” – pensa o publicitário enquanto morde a tampinha da sua Bic e pensa em algo genial, segundo seu próprio julgamento genial. Muito melhor é vender o sonho de um lar aprazível, os primeiros raios de sol entrando pela janela da cozinha, a família reunida em torno da mesa, um labrador saltitando por perto e a mulher maquiada servindo uma torrada na boquinha do marido engravatado. Sim, você compra 500 miligramas de creme vegetal e leva junto a felicidade para a geladeira da sua casa.
Automóveis, cartões de crédito, lâminas de barbear, cerveja, apartamentos. As mensagens são nada originais: compre felicidade.
Porque vivemos na era das sensações. E compramos coisas não mais para usar, mas para “sentir” algo. Como se a vida fosse assim, de fato. Como se mais nada importasse. O negócio todo é ser feliz. Queremos um estado de espírito, queremos ser enganados.
Já nem é preciso ser muito esperto para afirmar que essa busca por uma sensação de realização plena da alma soa meio artificial. As carinhas felizes com piscadelas que nos enviamos ao final de mensagens ;-) essa coisa do “felicidário” que andam circulando por aí, o lance do Butão com seu indicador nacional de Felicidade Interna Bruta, tudo isso vem dando nas ventas.
É implicância minha achar que estamos exagerando? Essa busca toda não vai provocar em nossa geração – e na dos nossos filhos – o sentimento de que qualquer experiência contrária, as frustrações e dores, são repulsivas, incomuns e devem ser evitadas a todo custo? Qualquer contrariedade deve ser rejeitada ou esquecida. Como se não pudéssemos aprender nada com isso. Tropeços, dores e frustrações não nos ensinam tanto ou mais do que momentos de júbilo?
A vida, esse todo da existência, é recheado de imprevistos, de circunstâncias e fatos que, gostemos ou não, compõem o que fomos e nos tornamos. É feita de altos e baixos. E são os pontos baixos que fazem os altos ficarem maiores quando então neles.
No relacionamento que procura estabelecer com o homem, Deus jamais promete essa infinita felicidade. Não há um conto de fadas em que habitaremos de forma encantada, cercados de passarinhos em coro, sem dor, sem decepções, sem uma topada com o mindinho do pé na quina de uma penteadeira.
Não, Deus não promete essa sensação de torpor ou uma anestesia para a vida. Isso é justamente o oposto do seu plano, de que tenhamos uma existência livre e rica. Ele não promete um estado de espírito, promete seu Espírito e uma nova perspectiva nos orientando para enxergar o mundo.
Porque a suprema felicidade a que, sim, podemos almejar, é que Deus promete estar presente. E isso nos basta, nisso não há engano. Não é um comercial, não é margarina, um sorvete ou espuma. Não é uma família sorridente ao redor da mesa. Nada efêmero. Essa presença é a promessa inabalável do puro amor e seu reino, nos inspirando para viver a vida como ela é e como deveria ser.
Uma foto para ganhar o dia
O espelho
“Quando nos livramos do ego, estamos livres para ver o divino”
-Karen Armostrong
Tem dias, em que por mais que eu me esforce, não consigo encontrar alguém ou algo em que eu possa colocar a culpa por meus problemas. Eu olho no espelho e o vidro está rachado. Preciso reconhecer que fracassei. Admitir que a culpa é toda minha, olhar aquele reflexo torto e fitar a dura realidade nos olhos. Perdi uma, ou mais uma.
Imperfeito, incompleto, pecador. Toda vez que me deparo com a frustração de não poder fazer algo contando apenas com minhas forças, caio abraçado com meu orgulho. A consciência de que não sou auto-suficiente é o choque de humildade de que necessito para reconhecer que preciso de ajuda. No fundo do poço, expelidas todas as camadas de superficialidade, eu me revelo. Resta pouco ou quase nada do que é rótulo, cai a máscara, sobra a essência.
E talvez a surpresa mais escandalosa seja, na hora inglória, olhar em frente e enxergar a imagem do Cristo. A notícia pungente é ter que encarar o fato de que, em meu resgate, Deus não me leva de volta a ponto de conforto algum onde eu gostaria de estar. Ele se rebaixa, se acomoda. Deus já estava ali.
Toda vez que me humilho e me sinto inferior à condição do mundo, estou, na verdade, me aproximando da imagem de Jesus. É controverso, mas o padrão de sucesso dele é assim. O Deus que vira homem, o Messias que caminha com ladrões e prostitutas, o Mestre que lava os pés dos seus discípulos, o Senhor que a todos torna e trata como iguais. É na simplicidade da alma que ele me encontra, na essência do que fui criado para ser, sem as cascas, que ele se revela, me cura e me guia de volta pelo Caminho.
Ficamos cegos às vezes, insensíveis. O fato é que Deus nos dá sua presença e temos tanto dele o tempo todo – nos eventos cotidianos e na natureza – que já não nos damos conta do deserto cruel que seria a sua ausência. Não sabemos o que é sentir fome. No entanto, quando nos deparamos com o que somos de fato, como num espelho, entendemos nossa natureza.
Precisamos reaprender a viver carentes da influência de Deus. Com fome, com sede, ansiosos por aprender e ter mais da sua pureza influenciando nossas mentes.
“Ele tinha a natureza de Deus, mas não tentou ficar igual a Deus. Pelo contrário, ele abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo, tornando-se assim igual aos seres humanos. E, vivendo a vida comum de um ser humano, ele foi humilde e obedeceu a Deus até a morte – morte de cruz.” (Filipenses 2:6-8)
Jesus veio ao mundo e nos mostrou que é debaixo para cima que se olha para o céu. E é lavando os pés que nos relacionamos com o próximo. Cada vez que enxergo o reflexo da minha fragilidade e me reconheço nele, me aproximo, me preencho de seu Espírito e sou renovado. Porque a consciência de que dependo totalmente é a revelação de que só sou, de fato, quando estou em Deus.
“Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.” (2 Coríntios 12:9-10)
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(Crônica publicada no site carisma.com.br)
Uma música para a sexta-feira
São 20 centavos, sim
Caro amigo,
Vinte centavos não é pouco dinheiro. Talvez na sua – ok, nossa – perspectiva, não faça falta pensar nessa merreca diante do rombo das tantas outras despesas que nos assaltam cotidianamente. Mas não é preciso ir muito longe para inverter essa ótica.
No Brasil, segundo o IBGE, temos 8,5% da população vivendo na faixa de extrema pobreza. Em grana, isso quer dizer que 16,27 milhões de pessoas vivem com renda mensal entre zero e 70 reais todos os meses (ou 2,33 reais por dia – muito menos do que uma passagem de ônibus). Isso, nossos compatriotas, nossos semelhantes, aqueles a quem chamamos irmãos.
Mas, como já temos feito há muito, vamos continuar ignorando esse fato por mais um instante e nos concentrar numa camada mais “próspera” da sociedade: as pessoas que vivem com um salário mínimo: R$ 678,00. Ainda parece muito pouco? Te soa como minoria? Bem, pasme, o último Censo aponta que 56% (sim, mais da metade) dos domicílios brasileiros vive com até um salário mínimo per capta.
Pois bem, meu caro, estamos falando do brasileiro médio. Tente imagina-lo. Suponha que essa pessoa, como todos de seu meio, vive na periferia da nossa cidade e precisa tomar duas conduções para chegar no trabalho diariamente e depois mais duas para voltar para casa. Agora vamos fazer umas contas: com a passagem a R$ 3,00, ele gasta R$ 12,00 por dia. Com a passagem a R$ 3,20, como queria aumentar o governo, gastaria R$ 12,80. O aumento de R$ 0,80 por dia, no final do mês, somaria R$ 24,00.
Esse acréscimo, na renda de um salário mínimo, representa 4%. Mais do que isso, se dividirmos o valor do salário pelos 30 dias do mês veremos que essa pessoa recebe R$ 22,60 por dia (o preço de um combo especial no McDonald’s). Isso quer dizer que “só” o aumento de 20 centavos no transporte já lhe garfaria um dia inteiro do ordenado.
Já não parece tão pouco, certo?
Se ainda assim você me disser que isso não é da sua conta, juro que paro agora mesmo com as expressões “caro” e “amigo”.
Na semana passada eu estava ouvindo no rádio a notícia sobre a greve dos profissionais dos trens e metrôs. A repórter então abordou um homem para entrevistar. Ele era porteiro num prédio no centro da cidade e estava preso em seu bairro sem conseguir chegar ao trabalho. Ela perguntou se não havia um meio alternativo de transporte e ele respondeu que sim, haviam vans particulares levando as pessoas. Questionado sobre o motivo pelo qual não fazia uso desse meio, o sujeito respondeu: “As vans cobram 5 reais na corrida. Aí não dá. Se eu pagar na ida, não sobre dinheiro pra voltar”.
Você entendeu, meu caro? 20 centavos é muita coisa no bolso de quem vive com R$ 22,60 por dia. E mais da metade dos nossos compatriotas amarga essa condição.
* * *
Ah, tem mais uma coisa.
Se isso não parece suficiente, preciso dizer que revogar o aumento na tarifa do transporte significa, de fato, muito mais. Para o trabalhador e para qualquer cidadão do nosso país, é uma resposta para os que duvidaram do poder da vontade popular. Conseguir que o governo volte atrás numa decisão porque as pessoas foram às ruas e reclamaram seus direitos, significa que, sim, eles precisam parar e ouvir e que, não, eles não podem fazer o que bem entendem com o dinheiro que arrecadam e deveriam administrar com lisura – para usar uma palavra que eles tanto gostam de gastar.
Meu caro, você, eu e eles todos ouviram muitas vozes gritando. Eu gritei, confesso. Conquistar a volta dos 20 centavos significa que o indivíduo pode requerer e conquistar tantos outros direitos que lhe foram roubados ao longo dos anos. E significa que muita gente engravatada – eleitos por nós, não vamos esquecer – vai começar a pensar duas vezes antes de tomar qualquer decisão arbitrária e unilateral. Significa que precisarão fazer alguma coisa decente para que preservem suas posições e gabinetes luxuosos. Nós temos voz. Isso quer dizer ainda que deverão tomar bastante cuidado antes de desrespeitar o povo brasileiro com decretos que ceifam seus direitos básicos.
Meu amigo, os 20 centavos nunca valeram tanto.
Um filho teu não foge à luta
Há coisa de três semanas, eu escutava o noticiário político no rádio e senti um amargor me vir à boca. Tudo de novo, as mesmas notícias, os mesmos métodos, nada muda, nunca. Já há tempos isso me incomodava, mas naquela hora, travado no trânsito da Marginal Pinheiros, escrevi um tuíte de desabafo:
“Cansado dessa esquerda enferrujada. Cansado da direita asquerosa. Será mesmo que não tem nada de novo, na prática e nas ideias, a ser feito?”
Pouco tempo depois, li no jornal sobre uma manifestação na Avenida Paulista contra o aumento na tarifa do ônibus. Confesso que ignorei solenemente a questão. De cara, não me parecia diferente das outras tantas marchas lentas e paradas que tomam a cidade ao longo do ano que não me atraem como adepto – Marcha para Jesus, Parada Gay, Marcha da Maconha ou greves de qualquer tipo ou instância.
Mas os dias se passaram e por meio de amigos, informações paralelas em redes sociais e alguns blogs, pude ter uma perspectiva diferente e mais profunda dos fatos. Julguei mal, admito, e assumi um ponto de vista.
A verdade é que estamos todos cansados, com tantas coisas presas na garganta pra serem ditas. E, finalmente, agora escuto uma resposta para minha dúvida solitária no trânsito. Ela vem em gritos de protesto, ali mesmo nas ruas. Há, sim, algo novo sendo feito. Há uma alternativa, nas práticas e nas ideias: o povo.
Filhos deste solo. Está em nossas mãos.
“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados”. (Provérbios 31:8, 9)
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(Mais aqui: O poder do indivíduo)
A estranha coleção de lanternas
por Luiz Henrique Matos
“Filha, com quem você acha que é mais parecida, com o papai ou com a mamãe?”
Mãe e filha partilhavam um momento a sós e, numa tarde primaveril qualquer, aquela delicada progenitora fazia uma pergunta inocente. Enquanto isso, não imaginava que a menina, cravada nos cinco anos de idade, ainda não havia aprendido o sentido da palavra ponderação.
“Mãe, sabe o que é…”, a menina arqueou as sobrancelhas, olhou para baixo, contraiu um pouco os lábios, “Me desculpe, mas é que eu sou a cara do meu pai”.
A história me foi contada horas depois. Fiz de conta que não achei nada demais, “Ah, que nada, ela tem os seus olhos, seu jeitinho, as bochechas…”, enquanto, por dentro, uma onda de satisfação das mais imaturas me lavava a alma.
Talvez alguém um dia ainda explique – talvez – o motivo pelo qual pais, tios, avós e amigos chegados insistem nesse jogo esquisito de discutir e tentar descobrir semelhanças com algum familiar nem bem a criança saia da barriga da mãe.
Quando olho para minha filha e paro pra pensar nesse tipo de coisa, acho tudo uma grande bobagem. Qual o sentido, afinal, dessas discussões tolas? Não levam a nada. Ela parece comigo, é a minha cara, vai gostar das mesmas coisas que eu e a opinião dos outros que se exploda.
* * *
Adoramos frequentar livrarias, jogamos o mesmo joguinho do Snoopy no iPad, dançamos ao som de Strawberry Fields Forever e Blitzkrieg Bop no carro, montamos Lego no chão da sala, assistimos às Crônicas de Nárnia com ela deitada sobre meu peito infinitas vezes, temos a mesma mania de ficar parados segurando o braço esquerdo acima do cotovelo e alimentamos uma estranha obsessão por colecionar lanternas – sim, temos por toda a casa, várias delas nas gavetas e, apesar de mal fazermos uso, são tidas como item de primeira necessidade no lar.
Qualquer pai se enche de orgulho ao notar sua pequena cria desenvolver os hábitos e traços que lhe são peculiares. É um sinal da nossa continuidade, da herança que deixaremos, uma espécie de legado para a humanidade que nos identifique – bem, talvez não a humanidade toda, no sentido amplo da coisa, você entende, mas aquela dúzia e meia de parentes com certeza.
Adoramos nos ver em nossos filhos porque amamos que sejam parte de nós. Queremos, claro, que sejam melhores do que seremos, em tudo, que sigam a caminhada numa jornada bem-sucedida, feliz e com realizações. Sonhamos que suas vidas tenham significado e que façam história. E poder imaginar que existe um pouco da gente ali sendo carregado naquele ser humano que amamos mais do que a nós mesmos, é alegria das mais radiantes. Provoca, de algum jeito, um certo conforto, uma falsa sensação de segurança ao imaginar que sabemos o que estão passando.
E seria muito bom se tudo parasse por aí.
Entretanto, em medida sem igual, preciso dizer, dói como poucas coisas notar, vez por outra, que minha menina sofre ao carregar o peso de males que herdou de mim. Das patologias às manias e defeitos mais complexos. Ela é alérgica, ela é sistemática até o último cromossomo, precisa usar um aparelho nos dentes para corrigir um problema genético e tem uma carga exagerada de nostalgia para com as coisas que não cabem nos seis anos vida que acumula.
Imagens e semelhanças.
Ela não tem culpa. Eu a amo tanto, não gostaria que sofresse por nada, muito menos por defeitos que são meus. Não quero que a Nina pague esse preço. Seja dos problemas físicos, seja dos morais. E nesse sentido, Deus sabe como não quero que ela repita os meus erros. Não, ela não precisa.
Eu oro por ela. Gostaria que Deus me dissesse o que ele tem em mente. Que tipo de aprendizado ainda não fui capaz de assimilar e que minha filha, alguns pontos de QI a mais do que eu, pode superar mais cedo? Cedo na vida, eu rogo em minhas preces, quero que ela conheça a Jesus, que desenvolva seu caráter e descubra o sentido da sua existência.
Oro a Deus, o pai sem defeitos. Para que do alto de sua perfeição, aprimore sua criação corrompida. Porque eu sei que nele podemos ser transformados e, ele em nós, corrige nossas falhas, limpa nossas impurezas, cura as doenças, muda a condição em que estamos e até, há de se esperar, faz sumir as manias mais estranhas.
A imagem e semelhança perfeitas, em Jesus.
* * *
Eu a observo brincando, sentada em sua mesinha desenhando cuidadosamente. Tal como a Manú, ela tem um certo talento pra isso, um bom traço, é criativa, passa horas concentrada em seu “trabalho” – como ela chama. Eu a ouço falando qualquer coisa sobre seu dia, cantando a trilha sonora do desenho da TV, contando das amigas da escola, das brincadeiras, tudo nos mínimos detalhes. Fico olhando enquanto ela come com a cabeça apoiada numa da mãos, espetando os legumes com o garfo. Passo um tempo em silêncio, admirado com a velocidade ingrata com que minha menina está crescendo sob nossos olhares. O tempo é um velho cruel e indomável. Preciso desfrutar, tento reter cada instante que posso ao seu lado nessa infância que passa tão rápido. Queria dar pra ela uma lanterna para ajudar a iluminar melhor o caminho que terá pela frente. Que ela vai seguir com as próprias pernas, que ela vai descobrir com seu olhar brilhante, desbravar com sonhos que Deus plantou só na sua mente. Porque é tudo o que eu quero ver nela: nada de mim na verdade. Mas dela. Quero viver para ver o que ela se tornará, sua identidade, sua a visão do mundo, sua imagem graciosa refletindo na vida dos netos que nos dará um dia.
Ela dorme no chão da sala. Estávamos vendo um filme quando pegou no sono. Levanto, preparo sua cama no quarto, aumento a quantidade de cobertas, está frio, então volto para a sala e a pego no colo. Ela está ficando maior, eu estou ficando mais velho, mas esse é o lugar onde espero que ela sempre caiba. Carrego minha menina para a cama com todo o peso desse sentimento no peito, ajeito seu pijama, tiro a franja que lhe cai no rosto e ela suspira inocência.
Admiro minha cria. Ela é bonita. E Deus, que ninguém me ouça, mas é a cara da mãe.
—
(Esse texto faz parte da série Paternidade)
Um passo após o outro
Um passo após o outro
Não se percorre um caminho, qualquer que seja a distância, sem dar um passo após o outro. Não se come uma boa fruta, nem uma laranja azeda sequer, sem antes plantar a semente na terra, esperar pela chuva e ver crescer a árvore – o que pode levar anos.
Uma coisa de cada vez, a seu tempo, é preciso esperar. É mentira que podemos fazer tudo ao mesmo tempo, que podemos ter qualquer coisa agora e colocar algo na frente, fora da ordem natural das coisas. Nós não somos seres multi-poderosos, nem fomos criados para ser. Não daremos conta de todas as pendências que esperam que resolvamos antes de o sol se pôr no horizonte, nem deveríamos.
Os ciclos precisam se cumprir, cada etapa sucessivamente acontecer, uma tarefa de cada vez, cada decisão bem pensada.
O alimento saboreado na boca, um gole de água fresca saciando a sede, nossas crianças descobrindo a vida em capítulos, a voz da mulher amada recitando poesias e contando sobre as coisinhas do dia. A natureza não tem pressa.
Momentos. Instantes eternos. Um dia após o outro, um passo após o outro, para que se cumpra a caminhada.
Porque a Deus não se apressa.
Livres da irrelevância
“Em um mundo em que 840 milhões de pessoas irão para a cama com fome nesta noite por falta de condições financeiras para fazer uma refeição, em um mundo em que 1 milhão de pessoas cometem suicídio todos os anos.
Jesus quer salvar nossa igreja do exílio da irrelevância.
Se tivermos quaisquer recursos, qualquer poder, qualquer voz, qualquer influência, qualquer energia, devemos convertê-los em bênção para quem não tem nenhum poder, nenhuma voz, nenhuma influência.”
(Rob Bell, em Jesus quer salvar os cristãos)
Leia antes de gastar
Alguns motivos para pensar antes de passar o cartão de crédito na próxima loja:
- Quase 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com menos de um dólar americano por dia. Outros 2,5 bilhões de pessoas vivem com menos de 2 dólares americanos ao dia. Isso quer dizer que mais da metade do mundo vive com menos de 60 dólares por mês.
- 1 bilhão de pessoas no mundo todo não tem acesso a água tratada.
- Falta saneamento básico para 40% das pessoas no mundo inteiro.
- 1,6 bilhão de pessoas não tem eletrecidade no mundo.
- A maioria absoluta das pessoas no mundo não tem carro.
- Quase um bilhão de pessoas não conseguem ler ou assinar o próprio nome.
- Nega-se educação básica a quase 100 milhões de crianças.
- Uma em cada sete crianças no mundo todo precisa trabalhar todos os dias só para sobreviver.
- A cada 7 segundos, em algum lugar do mundo, uma criança com menos de 5 anos de idade morre de fome.
(Dados extraídos do livro “Jesus quer salvar os cristãos”, de Rob Bell)
O escândalo da bondade
Semana de Páscoa.
Estava rolando minha página do Facebook enquanto procrastinava alguma tarefa importante quando vi a foto de uma criança portadora de deficiência raríssima. A legenda dava conta de que passou muito tempo internada, enfrentou inúmeras cirurgias e depois de muito esforço dos médicos, da família e de tantas boas almas que se juntaram nessa corrente, estava curada e vinha se recuperando. Na tela azul da rede social, em meio a outras postagens com imagens de filhotes de cachorros e flores silvestres com frases de autoajuda, a foto da criança era chocante. E o autor fazia uma pergunta, estampada em letras garrafais sobre a imagem: “E aí, quantas curtidas essa pequena guerreira merece?”. No rodapé, centenas de milhares de procrastinadores haviam clicado sobre o pequeno polegar estendido em sinal de solidariedade.
Três ou quatro rolagens abaixo, outra foto. Dois homens tiveram suas casas invadidas pela enchente. Um deles carregava sobre a cabeça sua televisão de tubo, coisa de 21 polegadas e a muda de roupas que conseguiu salvar. O outro, com a água barrenta quase na altura do pescoço, erguia sobre si um cachorrinho vira-latas assustado e livrava a sorte do seu fiel amigo. A legenda dizia algo sobre eleger prioridades, exaltava a conduta do rapaz e convidava os demais admiradores desse herói a curtirem e compartilharem a sua atitude.
Eu não cliquei no joínha e quase fiquei com um peso danado na consciência, questionando se, afinal, sou um indivíduo frio e sem coração. Como eu não podia curtir a pequena guerreira? Como eu, dono recente de um cachorro que encanta – e destrói – o nosso lar, não iria me juntar às miríades que clicavam e comentavam a boa ação do sujeito na enchente?
À noite, em casa, o William Bonner reservou parte do último bloco do Jornal Nacional para contar a história do dono de um supermercado que doava cestas básicas para as pessoas desabrigadas, vítimas da mesma enchente. Havia certa celebração na voz do jornalista, louvando a boa e generosa alma do comerciante como um Super-Homem da periferia carioca.
Um último fato. Tem uma seguradora investindo alguns milhões de reais em uma campanha de publicidade que convida os motoristas de São Paulo a serem mais gentis no trânsito – e quem vive em São Paulo sabe o quanto o trânsito é algo crítico. Fizeram um adesivo, com um coração e tudo, para que as moscas brancas da ética grudem na traseira de seus automóveis e avisem ao cidadão do carro de trás que, sim, respeitam seu vizinho de congestionamento e que, não, não arremessam seus carros em cima dos pedestres pela rua.
Vivemos em um tempo da história – ou talvez nunca tenhamos saído dele – em que o que deveria ser regra se tornou uma exceção esdrúxula. A generosidade, a ternura, a compaixão e os pequenos gestos de solidariedade são noticiados em horário nobre, mobilizam interações em redes sociais e são foco de campanhas de marketing de empresas.
Vivemos em um tempo em que a humanidade sente saudades do que deveria ser um sentimento elementar do homem para a vida em comunidade. De forma espantosa, os valores que mais louvamos no ser humano são os que julgamos serem tão pouco praticados pelas pessoas ao redor, a ponto de darmos destaque, como notícia, quando alguém se voluntaria em cumprir o seu dever cívico, ser gentil ou respeitar o direito do próximo.
Vivemos num tempo em que Jesus faz uma falta danada.
* * *
É no mínimo curioso observar que Jesus viveu de forma escandalosa e integral o exemplo de ser humano que admiramos ainda hoje. Eram suas atitudes, a doçura e a gentileza que encantavam e atraíam multidões. Era a predileção pelos mais fracos, a compaixão pelos carentes, a defesa dos oprimidos, o olhar além da superfície que encarava, constrangia e revelava a alma para aquele que não julgava, mas compreendia. Era o amor abundante, o toque restaurador, a paciência em ouvir. Era ele, o Deus encarnado, a humanidade em sua plenitude.
O mundo hoje destila indignação contra o cristianismo. Quando não indignação, um certo desdém. Não sem razão, se tomarmos como partida que o Cristo que as pessoas enxergam é o que a igreja anuncia em seus templos e canais de televisão. Mas o mundo que rejeita o Cristo é mesmo que o adoraria se o conhecesse, porque se o mundo ainda se comove com gestos de compaixão, ternura e generosidade, então ainda está aberto a Jesus Cristo e sua mensagem.
Ele só pode ser realmente conhecido através dos que afirmam refletir sua imagem. Se a imagem que projetamos é de intolerância, preconceito, atraso e egoísmo, até mesmo Jesus se afastaria – e se afastou – do que ele mesmo chamou de hipocrisia e cegueira.
Seus primeiros seguidores foram chamados “cristãos” pelos outros judeus porque eram vistos como “pequenos cristos”, tal era a semelhança que tinham com seu mestre. Eram também vistos com simpatia pelas pessoas e era justamente essa graça que fazia com que tantos desejassem ser como eles e saber mais sobre o Messias que anunciavam.
Jesus faz muita falta nesse mundo. Ele confiou a seus seguidores a responsabilidade de agir e falar em seu nome. Ser sal para escandalizar uma sociedade insossa, ser luz num mundo cheio de sombras, ser uma fagulha para incendiar a Terra de amor, servir para destruir o egoísmo.
Esse não é um compromisso que se deve cobrar da igreja. Não é a dívida moral de uma instituição. Não é uma mudança que alguém deva assumir porque se diz cristão. Esse é um voto que precisamos assumir como seres humanos. Uns pelos outros, de cada um para Deus.
Porque Deus não escolhe filhos, os homens é que escolhem seus deuses. Deus é um só, o Pai da humanidade toda, o criador do mundo. Para os que acreditam e para os que não acreditam também.
* * *
Na Páscoa, refletimos por um instante na vida de Jesus. Paramos para olhar principalmente os momentos finais de sua jornada na Terra, culminando na morte de cruz no Calvário numa sexta-feira e, dois dias depois, em sua ressurreição redentora.
A Cruz nos diz muita coisa. A gruta vazia está cheia de significado. Mas a histórica da Páscoa não é só sobre morte e ressurreição, mas sobre o renascimento da esperança, sobre o resgate da humanidade da condição de escravos do egoísmo para a de pessoas livres. Os dias da Páscoa antecedem em algumas semanas o momento do Pentecostes em que Jesus cumpre a promessa feita aos seus amigos de que voltaria, em Espírito, para habitar em cada um e inspirá-los na caminhada que os conduziria a uma semelhança total com seu mestre. Antecedem em poucos dias o encontro em que Jesus pede que eles sigam, mundo afora, anunciando e sendo uma boa notícia.
A humanidade inteira parecendo com Jesus.
Isso é urgente, é para agora, é a semente de um novo fruto que desejamos plantar para que nossos filhos colham. É preciso uma revolução. Não dá para procrastinar.
“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês. Tomem sobre o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Jesus, em Mateus 11:28-30).
Seis anos e a eternidade pela frente
Seis anos. Eu ainda me lembro da festa. Foi uma surpresa tramada pelo meu irmão e minha mãe. À tardinha, saí de bicicleta para buscar um jogo na casa de um amigo e, quando voltamos, tudo escuro, já estavam todos escondidos na cozinha. Amiguinhos, vizinhos, primos e familiares saltaram detrás da geladeira, da porta e debaixo da mesa. Eu lembro da farra, do bolo, de alguns presentes e do meu pai dizendo: “É, cara, já encheu uma mão inteira e agora vai começar a contar na outra”. E aquilo era toda a maturidade com que eu podia imaginar.
São dessa idade as primeiras lembranças ordenadas que guardo da infância. Bom, tem realmente pouquíssimas coisas que eu faço acima da média, uma delas é ter uma memória visual impecável. Eu não sei jogar bola, sou incapaz de tocar uma guitarra, mas sou bom pra burro com a memória. Fatos, cores, cenas, detalhes, diálogos, nada me foge. E desse tempo na infância, às vezes as lembranças me resgatam como uma âncora. Lembro em detalhes da vila onde morávamos lá na Barra Funda, as casas pequenas, todas iguais, grudadas umas nas outras. O cheiro e o som da fábrica de asfalto cujo sinal apitava toda manhã na avenida, os bem-te-vis que cantavam numa árvore cuja copa se projetava sobre o nosso quintal bem perto da janela do quarto onde dormíamos, os três irmãos.
Estávamos nos anos 80, era o tempo do meu primeiro ano na pré-escola, das brincadeiras de bola, de pipa, figurinhas da Copa União e rachas de carrinho na rua. Foi naquele ano que aprendi a decifrar as primeiras palavras escritas e todo o mundo de descobertas que surgiu depois disso. O mundo. O mundo para mim era aprender, era o som dos Titãs tocando “cabeça, cabeça, cabeça dinossauro…” no micro-system do meu primo, era aquele presidente bigodudo anunciando coisas e coisas na tevê com uma voz estridente e preocupante, era a vinheta do jornal da Jovem Pan tocando no rádio do Fusca do meu pai enquanto eu ia pro colégio e o sol nascia através do pára-brisas. E tirando uma viagem por ano para a Praia Grande, meu mundo todo era aquela pequena vila de 30 casas que eu explorava tarde afora em cada detalhe.
Era tudo o que eu tinha. Eu tinha seis anos e nem imaginava o que vinha pela frente.
Hoje a minha filha faz seis anos.
Ontem, antes de dormir, a Manú e eu recapitulamos para ela a história do dia em que nasceu – ela adora ouvir – e depois, enquanto fazíamos a nossa prece rotineira e casualmente me dei conta do tamanho que a Nina tem agora, essa criança cheia de personalidade e graça que já ocupa seu espaço na casa e nas nossas vidas, me senti intensamente grato, fingi um cisco nos olhos, mudei o rumo da conversa e saí de lado. “Hora de dormir, filha, vê se pega logo no sono. Tenha bons sonhos”.
Com o quê nossa menina vai começar a sonhar? Como será que ela vê as coisas hoje?
Não foi um dia de festa surpresa para ela. Teve escola como todo dia, teve trabalho, consulta médica e lição de casa. A rotina que se impõe sobre a gente fez com que o aniversário dela corresse como num dia qualquer. Só mais a noite, já no fim do dia, é que a levamos para um passeio, um sorvete, um livro novo, brincadeiras, uma bonequinha, o lanche e, em poucas horas, a sensação infantil de que o dia era todo dela.
Não sei dizer se daqui a 26 anos ela vai se lembrar desse dia. Tentamos tornar as coisas memoráveis, nos esforçamos nessa busca tola por grandes experiências na vida, mas sabemos bem que não são exatamente essas situações que nos marcam. A memória nos trai, a vida faz curvas e no fim as histórias que levamos na bagagem são, em geral, as menos prováveis. Mas fico tentando imaginar o que a Nina vai guardar desse tempo. Do que ela vai se lembrar? Quais serão, quando adulta, as lembranças remotas que ela terá da infância? Os amigos, a casa, as Escrituras, a escola, a cachorrinha nova que chegou por aqui há duas semanas – Lucy, muito prazer. Será que ela terá consigo a raiz ainda firme com os princípios que a Manú e eu tentamos ensinar diariamente? Que princípios devemos ensinar para ela? A paternidade é um fardo adorável.
Ela tem pressa. Tenho quase certeza de que esses seis anos se passaram, na verdade, em três. Papo sério, acho que tem gente conspirando e fazendo tudo andar mais rápido e os cabelos ficarem brancos mais cedo. E eu bem sei que nesse ritmo, já, já ela vai ganhar o mundo, vai sair de debaixo das nossas asas e voar por aí sem que a gente possa controlar ou prover, vai descobrir e construir seu próprio mundo, sua visão de mundo, vai notar um dia que não passávamos de um casal bem-intencionado que, entre muitos erros, deixaram escapar alguma coisa boa que servirá para que ela seja alguém muito melhor do que jamais imaginamos ser. Esse é o sonho, é um desejo, é até uma oração agora. Sua liberdade será a nossa eterna insegurança. E então, só o que poderá trazê-la de volta vez ou outra para nosso ninho, é essa mesma liberdade, o desejo de vir e sentir-se querida. O único princípio que podemos ensinar pra ela é o amor. A paternidade jamais é um fardo.
Ainda ontem, antes de dormir, enquanto eu me esgueirava quarto afora com aquela lagriminha correndo num canto dos olhos, ela me lançou uma pergunta:
“Pai, quando a gente for pro céu, nossa vida nunca mais vai acabar?”
“Não, filha. Deus fez a gente para viver pra sempre.”
“Pra sempre?”
“É. Isso que chamamos de eternidade.”
“Pai, quando eu for pro céu, eu queria continuar sendo criança.”
Isso deveria ser uma condição, certo? Não resisti: “Faz bem, querida. Você sabia que Jesus falou que todo mundo, os adultos todos, deveriam mudar e tentar ter um coração como as crianças tem?”
“Boa noite, pai” – ela não estava interessada em teologia.
Ela tem seis anos e nem imagina o que vem pela frente. E aí mora toda a beleza da coisa. Somos filhos. Quem é que imagina, afinal?
Belíssimo projeto do Voa Flor.
A melhor história real de todos os tempos
O semblante
Há uma mensagem entalhada na cruz; há um eco no túmulo vazio.
Somos pessoas remidas, somos seres eternos. Ao crermos em Jesus, em sua mensagem e na ressurreição, recebemos por antecipação a dádiva da eternidade. Somos salvos, isentos de culpa, somos amados e livres para ser e amar. A consciência disso deveria naturalmente transformar nosso semblante e inspirar nossa maneira de viver integralmente. Deveríamos ser mais gratos, mais afetuosos, caridosos, servis, menos egoístas. Deveríamos refletir o caráter gracioso de Jesus Cristo no mundo em cada fôlego de vida. Porque Deus, o dono do Universo, o criador de todas as coisas, o Pai, nos ama, habita em nós e nos chama de filhos.
Mas a obscuridade do mundo nos desvia o olhar. Deixamo-nos dispersar e perder a rota. Somos afetados pelas circunstâncias, pelas sombras que se projetam sobre nossas almas, pela dúvida que paira no canto do ouvido, pelo pecado que nos isola. Permitimos que a soma dos fatos cotidianos nos disperse. Os erros, nossos e dos outros, as notícias do cotidiano, da política, de guerras, um funk tocando alto, um cadarço desamarrado, uma discussão em casa, um pastor corrupto em evidência, uma tempestade que surge sem avisar. E tudo isso é tão pequeno, é fugaz, mas deixamos que questões superficiais, efêmeras e passageiras nos desviem da rota e afetem nosso senso sobre a realidade.
E a realidade não é, absolutamente, o que se passa sob nosso olhar inquieto. A realidade suprema, devastadora e pungente, é a eternidade, a paz, o amor transcendente da graça divina nos tomando nos braços para sempre.
Chesterton para um mundo hiperconectado
Estamos morrendo por falta de admiração, não por falta de maravilhas.
10 anos de blog
Esperei quase um ano por esse post e finalmente, quando chegou a data de escrevê-lo, tive um lapso e me esqueci. Então, aqui estou, quatro dias atrasado para minha tão esperada mensagem de auto congratulação.
Nessa exata semana, em 24 de fevereiro, esse blog completou 10 anos de vida. “E já tinha blog em 2003?” perguntou-me um amigo hoje pela manhã. Tinha blog, movido a lenha, mas tinha. Ainda não tinha Facebook, Twitter, YouTube, Orkut, Gmail e essas coisas. Não tinha iPhone também. Eu escrevi os primeiros textos num PC 486 no laboratório de informática da faculdade.
Muitas outras coisas aconteceram nesses 10 anos. Eu me casei com a Manú (um mês depois de o blog ter ido ao ar), compramos uma casa, tivemos a Nina, viajamos, construímos uma etapa da nossa nova vida como família. E tal como muda a vida, mudam também as crenças. Perdi algumas convicções que pareciam tão sacramentadas e passei a defender sanguineamente outras tantas que hoje me parecem claras.
Cheguei a pensar, em virtude dessas bodas, em mudar tudo por aqui. Porque a verdade é que já não acredito – até me envergonho – nas coisas que escrevi em 2003. Pobre rapaz, como eu podia pensar daquele jeito? Outro fato é que já desde o começo notei que o nome Missão Virtual não significa nada e estampá-lo no topo dessa página junto com meu nome seria algo como ter montado uma banda na adolescência e ter que lembrar, décadas mais tarde, que Paralamas do Sucesso não quer dizer muita coisa.
Pensei então em fazer um blog novo, com nome novo, design novo e essas coisas que aspirantes se empenham em fazer em suas páginas. Mas desisti. Desisti porque daqui outros 10 anos é bem provável que eu queira jogar no lixo os textos de agora e é perfeitamente possível que eu condene qualquer novo nome que esse blog venha a ter.
A boa verdade é que os anos passam, nós amadurecemos (assim se espera), mudamos e adquirimos perspectiva. Reler as crônicas que registrei por aqui uma década atrás me faz perceber que todo o deslumbramento com a fé tão recente e a novidade da transformação que isso causava em mim eram apenas o primeiro passo de uma jornada que vem se revelando mais interessante, complexa e transformadora a cada dia.
Então, deixe tudo aí, para que eu me envergonhe e também me lembre. Para que existam testemunhas, para que a caminhada tenha sua trilha. E se esses 10 anos são uma história a ser contada, ela precisa ter algum registro.
Bom, pelo menos até que eu mude de ideia.
Não sei em que fase dessa caminhada você chegou por aqui, mas quero agradecer a boa companhia. Vamos em frente, por outros anos mais.
Um abraço sincero,
Henrique
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Atualização (20/7/16):
- Algum tempo depois desse post, o blog mudou de nome. No lugar de Missão Virtual, agora estampa um Correndo atrás do vento no título.
Vocês afirmam ter um Salvador. Por que não parecem salvos?
Mais de cem anos atrás, o filósofo ateu Friedrich Nietzche censurou um grupo de cristãos com as seguintes palavras: “Eca! Vocês me enojam!”. Quando o porta-voz dos cristãos perguntou por que, Nietzche respondeu: “Porque vocês, remidos, não parecem remidos. São tão cheios de temor, tão dominados pela culpa, tão ansiosos, tão confusos e tão sem direção quanto eu. Mas eu posso ser assim. Eu não creio. Não tenho nada sobre o que lançar a minha esperança. Mas vocês afirmam ter um Salvador. Por que não parecem salvos?”
– Brennan Manning, em Convite à solitude (p. 26)
A crônica da montanha
– Não esquece de ligar quando chegar.
– Tá, pode deixar.
Fazia quase dez anos que estavam casados e nunca tinham ficado mais do que duas ou três noites longe um do outro. Ainda assim, nunca mais do que quatro horas de carro ou um telefonema interurbano de distância. Agora ele viajaria a trabalho para fora do país por uma semana e tudo aquilo era um sentimento inédito.
Abraçaram-se mais do que o normal naquelas vésperas, almoçaram juntos no dia da viagem, trocaram afeto, certezas e olhares confidentes. Chegou o taxi, ele partiu, o coração apertado num misto de apreensão e saudade que durou toda a viagem de dezoito horas. Aterrissou, o peito ainda daquele jeito, se virou com um café no aeroporto, tomou um taxi, acomodou as malas no amplo quarto do Little America Hotel e finalmente ligou para ela avisando que “sim, foi tudo bem, graças a Deus”. Tirou uma foto do quarto com o celular e saiu para comer um sanduíche de peru, caminhar e conhecer os dois pontos turísticos da cidadezinha.
Na primeira noite, durante um jantar, soube que depois de quatro dias de conferência, os participantes seriam levados para um dia de esqui nas montanhas. “Acho que vamos para o leste”, disse um que já havia estado na cidade outras quatro ou cinco vezes. “Mas aqui, eu prefiro outras montanhas. Eu gosto é de ir para Solitude.”
Solitude é uma montanha.
Os dias se passaram sem qualquer grande fato que mereça essas linhas, mas com a observação não menos descartável de que, a cada manhã, enquanto caminhava em silêncio em direção ao centro de convenções e voltava à tarde, ainda calado, para o hotel ou um restaurante, ele podia observar as montanhas cercando a cidade. A neve nos picos, o céu azul, talvez dez ou doze delas se projetando imponentes sobre aquele vale. Havia realmente tanto o que se pensar na vida naqueles dias, decisões importantes a tomar, reflexões que lhe requeriam tempo. Mas ali, longe de tudo, não havia o que pudesse ser feito. Naquele momento, só restava se concentrar no trabalho, aliviar a saudade de casa em ligações pelo Skype, seguir em frente e esperar.
Pisou a neve no dia do esqui. Espatifou-se naquele tapete branco por boas horas. Comeu um hambúrguer, bebeu uma cerveja vermelha local, comprou luvas, um chocolate quente, procurou se manter aquecido. Via aquela gente toda flutuando sobre suas pranchas, por todos os lados, se deixando levar pela velocidade, vivendo na superfície. Tudo parecia uma dança elegante. Mas ele precisava ouvir o som. Olhou para o topo, no frio mais alto, queria subir a montanha, a neve lhe caia nos ombros, sentia que precisava daquilo. Solitude parecia um encontro consigo.
Mas não subiu, não dava, não naquela manhã. Tomou o ônibus de volta para a cidade, caminhou, comeu, fotografou os prédios e as pessoas, observou os pássaros, anotou coisas. Podia ver as montanhas cercando a cidade o tempo todo, todas elas, e se perguntava se o que procurava estaria lá, ao alcance da vista, talvez sob os pés.
Sentou-se na parte elevada do prado para observar o lago, as gaivotas e um pai que brincava com o filho. Lembrou do Drummond e o do “sentimento do mundo” que lhe corria nas veias então, sentiu saudades de casa, da família, onde sabia de verdade quem era, o abrigo de si mesmo onde sua identidade se revelava. O coração não tinha partido.
Balbuciou uma oração, uma precezinha de gratidão e sentiu-se confortado por Deus, bem ali. A alma do homem ansiava por solitude, mas sua maior satisfação agora era saber que, em montanhas ou vales, jamais estava sozinho.
História em tempo real
Ela atravessou a sala e veio caminhando em minha direção.
– Pai?
– Oi, filha.
– Sabe esse caderno que você me deu? – ela o carregava encaixado sob o braço. Eu vou brincar que esse vai ser o meu diário.
– Ah é? E o que você vai escrever aí?
– As coisas que acontecem.
– Entendi. Tá bom então. Acho que vai ser legal.
– É… E pai, quando eu crescer e eu souber ler, vou escrever nele.
– Combinado.
A mesa dela fica no meio da sala, entre a TV e o sofá. É laranja, cheia de figuras do Co-co-ri-có e destoa completamente da decoração off white cuidadosamente planejada pela Manú. Mas ninguém liga, é uma mesinha pequena, com uma cadeirinha também, sobre a qual ela deixa três canecas de plástico transbordando de lápis-de-cor, giz de cera e canetinhas, dezenas de folhas com desenhos, cadernos rabiscados, pincéis, alguns livros e um mundo inteiro de fantasias. Ela gasta horas ali sentada, concentrada, desenhando e pintando.
– Papai, quando eu crescer vou querer ser cabeleireira, costureira e artista. Eu nasci pra isso – ela disse outro dia no carro.
Das três, a última é a única que, para o bem-estar social coletivo, ela pode exercer aos cinco anos de idade. E eu prefiro mesmo que ela não pense em trabalho agora. Eu gostaria de não estar pensando.
Estou sentado na mesa de jantar, tomando essas notas num pequeno caderno de folhas amarelas. É onde quase tudo começa. Acabamos de jantar, tirei a mesa com as louças da casa e lá no quarto mãe e filha se preparam para dormir. Foi um dia cheio. Dias, aliás, eles têm sido.
Li, hoje, uma coluna do jornalista Alexandre Matias comentando a morte prematura do programador e ativista norte-americano Aaron Swartz, que cometeu suicídio na semana passada. Matias lançou mão do trecho de um poema de Allen Ginsberg que diz “vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura” que foi posteriormente parodiado e se propagou por esses ventos digitais como “vi as melhores mentes da minha geração pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios”.
Eu pensava nisso antes do jantar, enquanto descia pelo elevador e caminhava até a portaria do prédio para buscar a pizza que havia pedido. Onde estão os nossos gênios agora? A que fins tem se prestado senão em servir a Máquina com seus préstimos em troca de dinheiro?
Num momento da história em que tantas oportunidades se revelam, em que o acesso à informação e o conhecimento se escancaram, temos preferido mesmo a frieza dos escritórios e carreiras em companhias “inovadoras” ao desconforto da incerteza. Falta algo aqui.
Nosso mundo carece desesperadamente de ideais. Falta nobreza às nossas causas. Falta um significado.
Eu, que não sou nada genial, uma mente ordinária e limitada, fiquei com a dúvida inconveniente. E quando terminamos o jantar e me sentei para tomar essas notas, eu ainda pensava nessa coisa toda. Lembrei dos meus cadernos e lápis, que eu carregava por onde fosse na infância. Como os da Nina, eles tinham um desenho aqui, outro ali, e um monte de histórias inventadas. Esse era meu passa-tempo, eu gostava de escrever. Eu tinha nove anos e, quando crescesse, queria ser jogador de futebol, vocalista de uma banda de rock e escritor. Hoje, no duro, eu passo o dia pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios.
E não é preciso ser gênio para notar que era na infância que nos alimentávamos, além de todinho e lactobacilos vivos, com sonhos puros. Você e eu, admita. Tínhamos, com a imaturidade, também a inquietude, a fé simples e um milhão de interrogações para despejar no mundo dos adultos. Líamos histórias, inventávamos histórias, imaginamos e passamos a querer escrever a nossa própria, de um jeito diferente.
Mas… bem, você conhece essa continuação tanto quanto eu.
As luzes da casa foram se apagando nos minutos que seguiram, o volume todo se reduzia aos poucos, ficava tarde. Então o som dos passinhos veio do corredor e ela se aproximou.
– Tô com sede.
– Sua água ficou aqui.
– Hum.
Continuei no caderno.
– Pai? O que você tá escrevendo aí? Posso pintar? Que legal sua caneta. Isso aqui você usa pra marcar a página onde parou?
– É só uma história, filha, umas coisas.
– Lê pra mim?
– Hum, tá.
Comecei. Do primeiro parágrafo: “Ela atravessou a sala e veio caminhando em minha direção…”
– Haha, ah, paiê!
– O que foi?
– Por quê você…?
– Filha, agora vai dormir, já está tarde.
– Pai, lê pra mim!
– Mas eu ainda não terminei, Nina.
– Então deixa eu te ajudar a escrever sua história?
E eu só queria dizer: “você está na melhor parte dela, querida.”
Reticências
Todo fim é a chance de um novo começo. E cada começo pode ser ruptura, pode ser seqüência. Pode ser novo ou de novo.
Porque a vida é um conjunto de ciclos, mas é também continuidade. É divisão e é soma. O sol que nasce e se deita, a vida que brilha e se põe. É todo dia um novo nascimento e a cada fôlego a eternidade soprada por Deus em nossas narinas.
Feliz ano novo, feliz vida nova.
(em memória do Fernando)
Noite de domingo
Domingo à noite, clima ameno, avenida central da periferia. As ruas vazias, o lixo espalhado no meio-fio, as portas de aço fechadas, só uma pastelaria aberta, um cachorro dormindo na porta e meia-dúzia de pessoas esperando pelo ônibus no ponto.
O menino dormia em seu colo, a cabeça tombada sobre o ombro e ela tinha que se curvar um pouco para aguentar o peso todo com um braço só. Na outra mão, quatro sacolas cheias de roupas, vasilhas, os mantimentos para a semana e o fio do plástico pesado lhe cravando a pele nas dobras dos dedos.
Quando o SP-0846 recolheu aqueles últimos passageiros, ela ficou aliviada em poder encontrar um banco pra sentar. Colocou o menino de lado com a cabeça deitada sobre o colo, juntou as sacolas entre os pés e rendeu a cabeça no vidro da janela. Pelos seus olhos a cidade passava rápido, as avenidinhas movimentadas, a mistura das luzes das placas, dos semáforos, do neon, dos faróis. Do alto, sondava através das janelas dos carros, as famílias juntas, arrumadas, voltando de alguma celebração dominical.
Desceu do ônibus direto pela viela. O salto da sandália estalava e se arrastava pelo corredor. O menino crescia, estava pesado. Ameaçava chuva. O portãozinho de ferro rangeu quando ela abriu, deixou bater e seguiu até a casa dos fundos. Na TV ligada passava o Topa Tudo, no sofá, sentada, a senhorinha tirava um cochilo com uma bacia de pipoca no colo. Bateu devagar na porta.
– Dá licença.
– Ahn? Éé… Oi! Entra, menina. Tava aqui rezando um pouco.
– Desculpa incomodar.
– Magina, que nada, vem. Cheguei da igreja faz hora, tava te esperando. E já dormiu o meu rapazinho?
– Ih, esse aqui cansou bastante hoje, só correu o dia todo. No primeiro ônibus já estava entregue.
– Tanta inocência. Bota ele lá no quarto.
– Tá, vou ali, só um segundinho.
Atravessou o pequeno cômodo, a cozinha e seguiu lá para o quartinho dos fundos. Deixou cair num canto as sacolas, deitou o menino num colchão de berço que ficava no chão, tirou-lhe os tênis e foi fuçar a cômoda para pegar uma roupa limpa. Sorriu ao ver os Hot Wheels que lhe dava enfileirados no fundo da gaveta junto com os bilhetes. Vestiu nele um shorts, o cobriu com um lençol e acariciou seu cabelo até que suspirasse fundo antes de entrar num sono profundo.
Na cozinha, a senhora requentava algo no fogão.
– Vem, senta aí, toma uma sopa comigo.
– Obrigada, mas já está na hora. Tenho que chegar na casa da patroa antes de o Fantástico acabar.
– E tão te tratando direito naquela casa, menina?
– E tem outro jeito?
– Ai, Dolores, vê se te cuida. Você nem sabe como é que é essa gente. Porque não fala com a Ceição? Ela saiu de uma dessa e foi trabalhar num mercadinho. Trabalha até de domingo, mas pelo menos volta pra casa. Pelamordedeus, você sabe que eu morro de paixão pelo Jônatas, não é disso que tô falando, ele é um anjo, mas minha filha, esse menino aí precisa de você.
– Mas quem é que dá emprego pra alguém como eu? Quem é que confia?
– Você é boa, menina, não fala isso!
– Sou uma bandida – falava fitando o chão.
– Que isso… pensa no que Deus te fez, minha filha. Quanto livramento, pensa na beleza da vida.
– O que foi que ele me fez? Que alegria!? Ficar dois anos naquele inferno por causa de um infeliz? Fui parar naquela jaula porque estava cega! Eu achava bonito, achava romântico ele ficar me prometendo tudo aquilo, me dando flores, perfumes, amor, um filho, me chamando de “minha madame”. Ele falava que estava crescendo no serviço, que ganhava comissão e ia virar gerente. Eu nunca tive noção disso, de dinheiro, eu acreditava. Eu precisava acreditar. Burra! Aí, ele… aí ele morre. Me leva três tiros no peito, me deixa sozinha com o menino, me larga na casa, me chega a polícia e tem toda aquela droga lá no quartinho do fundo. Meu herói era um bandido, a senhora imagina? Eu achava que vivia um conto de fadas, mas era só um sonho. A minha realidade é esse pesadelo. Eu fiquei dois anos naquela cadeia, mas a vida inteira já acabou pra mim e eu continuo aqui. Que chance eu tenho? Deus me abandonou naquele dia e não me ensinou o caminho de volta. O que sobrou pra mim, Dona Graça?
Desandava então no silêncio. Travava os lábios, toda memória represada, nenhuma lágrima. Os dedos espremiam no antebraço a tatuagem que lhe fizeram na primeira semana encarcerada, a cicatriz que nunca a deixava esquecer da ferida que um dia se abriu e ainda doía. Ela esfregava o chão todo dia com tanta força, deixava tudo brilhante com seu empenho, tudo o que queria era se sentir limpa.
– Ele nunca te deixou, Dolores. Misericórdia, não se entrega assim, não. Confie em Deus, ele sempre esteve com você, menina. E a vida a gente reconstrói, num tombo depois do outro, tem que levantar. Tem que levantar! Você é moça ainda, pode ter de tudo. E lembra que você tem seu filho, esse tesouro que te ama mais que tudo, passa a semana falando de você em tudo que é canto. Faz diferente com ele, é sua chance.
Dolores ganhou um abraço, os ombros cederam. Então, se recompôs, ajeitou o cabelo atrás das orelhas, pendurou a bolsa no ombro e, antes de sair, encarou a senhorinha nos olhos.
– Só Deus pra lhe pagar o bem que me faz, dona Graça. Tomara eu consiga um dia ver tudo assim de um jeito bom, como a senhora.
Voltou ainda até o quarto para ver o menino uma última vez. Beijou-lhe a testa, fez uma prece e desejou no íntimo que ele se tornasse um homem como o que ela nunca teve.
– Mãe? – ele acordou.
– Oi.
– Eu dormi?
– Arrâm. Faz tempo. Mas descanse agora, fio, amanhã você tem escola.
– Tá.
– Eu te amo, meu príncipe.
– Você já tá indo?
– Já.
– Não queria.
– Eu sei, mas precisa. Sexta eu volto. Vou te trazer um presente.
– Eu não queria presente, queria não… eu queria vo..
– Jônatas, a gente já conversou. Mas fique em paz, eu vou tentar umas coisas, depois te conto.
– Vou te esperar.
– Se cuida direitinho. Obedece a Dona.
– Ta. Que Deus te acompanhe.
Ela suspirou.
– Nunca me deixou.
Lá fora, o céu desabava em água. Em certo momento, ela descalçou as sandálias para conseguir subir as ruas encharcadas até o ponto, onde um casal de namorados se abrigava sob um guarda-chuva. Chegaria atrasada, o último ônibus para a Zona Norte deveria demorar ainda um tanto. Do outro lado da rua, a tevê na padaria mostrava a abertura do Fantástico.
– Tomara que a patroa deixe a porta no trinco.
A chuva lavava o céu, as ruas, lavou-lhe a alma. Agora era esperar.
Datas
caíram dois dentes
cresceu mais dois palmos
engordou mais dois quilos
junta duas sílabas para poder ler
tu-do
quase virou mocinha a minha menina
virou menina a minha criança
virou criança o meu bebê
virou bebê aquele sonho
todo
e se cumpre
escorre pelas mãos
o tempo, a vida, o amor é plenitude
felicidade é a caminhada
toda
Excesso de bagagem
Faz coisa de três anos, li um artigo de Anita Patil no The New York Times que contava sobre como alguns norte-americanos, depois de enfrentar a crise financeira de Wall Street em 2008, se viram forçados a viver com menos. Ela citava também o fato de algumas empresas que, atentas à impaciência das pessoas com a pujança de outros tempos, se empenhavam em transmitir uma imagem minimalista em suas propagandas. Na América pós-crise até a simplicidade virou moda e discurso de consumo. Mas um trecho do texto me chamou atenção:
“Roche Fierman, que dirige a Little Elves, serviço de limpeza usado por alguns dos estilistas mais chiques de Nova York, limpou o excesso de sua própria vida. Ela tem apenas três pratos de jantar, as duas prateleiras da sala estão nuas e ela joga fora os livros quando termina de ler. ‘Acho que realmente aprendi com a recessão e com alguns de meus clientes, que são dominados por suas coisas, é que é um modo de vida ridículo’, disse. ‘Levei anos para perceber que realmente não vale a pena se preocupar com coisas.'”
Há cerca de um mês, viajamos em férias. Durante alguns dias, conhecemos lugares novos, revisitamos paisagens em que amamos estar no passado, reencontramos velhos amigos, exploramos pontos turísticos, caminhamos à toa pelas ruas das cidades e, tal como a força da gravidade atrai os corpos para seu centro, fomos por algumas vezes – ok, várias vezes – sugados para dentro de… lojas. Voltamos para casa com a bagagem recheada de novas experiências, perspectivas, lembranças, fotografias, itens de decoração, roupas, eletrônicos, brinquedos e, evidentemente, um adorno para a tralha em si: uma mala azul que, se foi útil para trazer tudo em segurança, agora é um trambolho de metro e tantos que precisa caber em algum lugar da casa.
O Rubem Alves, num trecho com que me deparei ontem a noite, sacramentou: “Simplicidade tem a ver com as coisas que são essenciais. Simplicidade é caminhar com uma mochila leve. A riqueza, ao contrário, é caminhar arrastando muitas malas pesadas, sem alças” (…) “A pobreza simples é uma pobreza feliz. Feliz porque leve. É a comparação, origem da inveja, que a torna infeliz”.
Acho que Roche Fierman tinha razão, não preciso achar nada para que o Rubem Alves também já tenha razão – ele costuma ter – e acabo achando que, apesar do uso justificado de cada novo item que adquiro e trago para casa numa sacola, nas costas ou na consciência, eu também sei que poderia perfeitamente viver sem a maior parte daquilo tudo.
Carregamos muito, além do que dá para suportar. É um mundo louco. Perdemos a noção de leveza, confundimos hiperatividade com eficiência, deixamos de valorizar o ócio e a solitude como elementos fundamentais de recarga das nossas forças e defendemos a competição como virtude. Tentamos armazenar tudo mas nos perdemos em meio a tanta coisa. A certa hora, invariavelmente, cedemos à pressão e caímos. E a queda dói. Sofremos. Por nossos próprios erros, sucumbimos em crise. E no entanto, existe uma amarga ironia em perceber que, muitas vezes, só depois de passarmos pelo rolo compressor do sofrimento é que adquirimos uma noção clara do que é, de fato, elementar na vida. A dor nos descasca e permite enxergar que, no âmago, só sobra o que – ou quem – é realmente essencial.
Desde que voltamos da viagem, estou tentando encontrar espaço em algum armário para acomodar a mala azul. É um objeto caro, grande, oco, inútil e está vazio. O que trouxemos de mais precioso da nossa viagem não veio dentro dela, mas arrasto aquele trambolho pelo apartamento enquanto aproveito e vou depositando ali dentro outras coisas que encontro pelos cômodos.
Não é preciso muito esforço para notar que é bem pouco provável que consigamos nos livrar da carga toda que acumulamos na caminhada. Reconheço que o meu ideal de vida minimalista é utópico e acredito aqui que a distinta senhora citada pelo Times, passados alguns anos, já deixou empoeirar algumas tranqueiras nas prateleiras da sua sala em Manhattan. Porque vivemos em comunidades, em famílias, numa sociedade dirigida pelo consumo e estamos sujeitos a intempéries de todo tipo. Tudo é circunstancial, a gente passa pela rua, pega, bota no bolso, carrega, curte e depois deposita num canto qualquer. Faz parte da ordem caótica de como a vida acontece, desejamos simplicidade mas somos complicados demais. E ao contrário do que eu poderia querer ou esperar, é possível que aí esteja parte da beleza da vida, no imprevisto, no sentido orgânico com que se desenvolve, na perfeição improvável da criação presente em sua total falta de simetria.
Podemos e precisamos gastar um instante, vez ou outra, para colocar uma certa ordem no caos. Priorizar, ter consciência do que realmente importa e deixar por perto aquilo que é tão precioso mas andava esquecido lá no fundo da bagagem. O que está tão perto todo dia, o que mais nos consome e pesa nos ombros, pode não ser o que mais importa realmente.
Porque hoje, ao invés de guardar, talvez possamos nos esvaziar, nos doar, abandonar certos projetos. Talvez seja hora de retomar velhos sonhos. Talvez seja hora, finalmente, de ligar para um amigo, trazer flores para a esposa, visitar aquele parente, ajudar alguém. Talvez seja hora de voltar à essência, de esquecer o orgulho, perdoar, viver mais leves, calar, estar a sós por um pouco, escutando, deixando Deus sussurrar sua vontade. Certamente é hora de voltar à essência.
“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês. Tomem sobre o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Jesus, em Mateus 11).
Uma imagem para um mundo em guerra
Ravel
A mãe ficava rosada, cruzava os braços de um jeito duro, os punhos cerrados e falava fitando o chão enquanto enxugava as lágrimas. Era assim sempre que suas emoções vinham à tona. Tanto quando estava feliz quanto muito brava. E só dava pra saber se era de um ou do outro quando ela falava. E naquele dia, era do outro.
“Que ideia, menino, toma juízo! O que você tem na cabeça? Titica? Cocô? Onde já se viu essa história? Não vê seu pai e eu aqui fazendo de um tudo pra você estudar, ter alguma coisa na vida? E vem com essa agora… Toma tenência, toma noção do que você é, donde nasceu. Isso aqui é a Vila São Paulo, Ravel, não é a capital”. Ela ergueu os olhos e me encarou num instante. “Guarda esse papel aí e vai fazer teu curso que já está na hora”.
Eu ia levantar argumento, mas ouvi a botina do meu pai mastigando a terra do quintal na direção da porta. Sua sombra era tudo o que eu via, crescendo e tapando cada vez mais o sol que entrava no final de tarde. Ele não disse nada, entrou, passou por nós dois e foi fuçar uma caixa de papelão no canto da cozinha.
“O café tá fresco na garrafa, Cícero. Se quiser, já leva pra oficina.”
Quando ele levantou com uma ferramenta na mão e já passava a outra pela garrafa de café, ela então fez o desfecho:
“Piano, Ciço, você já ouviu essa, já soube da extravagância?” – ela adorava usar essa palavra para qualquer coisa – “Seu filho deu agora de querer largar o curso de Torneiro pra tocar piano, como se…”
Nem fiquei. Fui pro meu quarto, peguei o caderno, sentei na mesinha, liguei a fita no walkman e fingi que estudava enquanto, lá no fundo, apesar da raiva, concordava com a mãe. Que idiota eu era, que idiota! Aquilo não tinha o menor sentido. Não pra mim.
É que eu só queria era ser livre, queria ir pra longe daquela prisão de vida, daquela vila suja marrom e laranja, do barulho do martelo lá na oficina na minha orelha o dia inteiro, da poeira impregnada em tudo, da mesma comida no prato, do sapato arrebentado, do colarinho apertado. Eu amava a mãe e o pai, queria levar os dois na bagagem. Mas, eu só queria ter opção de vez em quando, sabe? O rico acha que o pobre quando sofre, sofre menos do que o rico. O branco acha isso do preto, o forte acha isso do fraco, o homem acha que tem ser humano que é menos humano no mundo. Aí, se você é pobre, preto e fraco, às vezes quase começa a acreditar nisso. Tratam a gente como bicho, descartam como objeto. Como se não doesse igual.
O negócio é que eu não queria mais. E também não queria um jeito pra esquecer, queria era ir pra longe. Eu não queria ir pro campinho, nem correr atrás de balão ou brincar de pescotapa. Eu queria ouvir a música, me enfiar no quarto, ficar de barriga pra cima escutando uma das duas fitas K7 que ganhei de prenda na quermesse e tentar adivinhar quais teclas os dedos do pianista estavam tocando naquela hora. Não era nada erudito que me invocava, mas a poesia. Até ali, eu não queria descobrir uma técnica, não queria saber como é que o homem era capaz de realizar aquele milagre, eu queria era ser levado naquela melodia, como o vento, como um passarinho. E se o encantamento com a música foi o que me alimentou até aquela hora, então parecia de repente que eu precisava transbordar, jogar tudo aquilo pra fora. Eu queria aprender a tocar. E música, além de tudo o que eu amava então, era também meu jeito de fugir daquela condição.
Queria poder dizer pra mais alguém o que eu pensava e não só pra mãe, que me ouve, mas retruca, que se altera toda. Bom… pelo menos ela conversa. Ali na pia, o avental molhado na barriga, o cheiro de perfume que ela usa é de tempero, aposto. Mas ela ainda fala. E ele, lá fora na oficina, bate e martela o ferro, é só isso que eu sei. E assobia, a mesma música, toda vez que o trabalho está difícil. Com o pai não tinha carinho, não tinha brinquedo, não tinha conversa, nem conselho. Tinha o jeito dele, tinha um pacote de figurinhas da Copa União na minha penteadeira de vez em quando e uma goiaba cortada em quatro em cima da mesa, junto do prato de comida, quando eu chegava do curso técnico à noite.
Na outra semana, cheguei pro almoço e ele estava lá no fundo, martelando. Pisei na cozinha e a mãe lá, daquele jeito de novo. Nem falava, era só o rosto rosado e molhado, os braços cruzados. Eu quis saber o que que foi e então vi que era braveza outra vez.
“Eu não sei de nada, nem quero saber de nada. Não quero nem ver! Nada! Ai, menino! Agora, olha… Ai, meu Jesus santo…”
Vai saber lá do quê? Enchi o prato, sentei calado, almocei quieto numa só garfada e levantei sem falar. Ela ali na pia, eu passei batido. Fui pro quarto, joguei a mochila num canto e vi um piano perto da janela.
Voltei pra cozinha, parei na frente dela. Nem levantou o rosto, só tapou a boca com a mão, fez que não com a cabeça e desandou no choro enquanto me apontava a porta por onde saí num salto, assustado, engasgado, aquela bola, a coisa toda estranha na barriga e na garganta e corri pra oficina onde o pai estava lá, martelando e batendo. E sei que ele estava agachado trabalhando, de costas pra tudo e nem se mexeu quando chamei, nem quando cheguei perto, nem quando o abracei e deitei a cabeça nas suas costas e chorei.
Aí ele passou a mão devagar na minha cabeça, eu saí, ele passou a mão no martelo e passou os seis meses seguintes trabalhando dobrado e assobiando sem parar.
A mãe só voltou a conversar quando prometi que ia fazer as aulas de piano lá na igreja de manhã e continuaria o técnico à noite.
E toda tardinha, depois da aula, eu mergulhava no piano. Eu treinava os exercícios e depois ficava ali, ainda sem saber direito, eu martelava e batia nas teclas e era só o que eu sabia. A mãe aumentava o som do rádio, os passarinhos armavam um ninho na goiabeira do quintal e o pai eu via lá no fundo pela janela, quase como se quisesse que ele me ouvisse.
Ia para o curso escutando os K7’s no walkman e dormia com os fones no ouvido tocando sem parar. Xopân, eu soube depois que era o nome do rapaz do piano que me ocupou tantas tardes. No começo, eu só dizia nas aulas que queria tocar como ele um dia. Mas ganhei depois no curso uma fita nova. O professor, um pastor moço da capital que vinha até a cidade só para dar as aulas como voluntário, deixou uma música para eu treinar.
A danada da fita tocava a música do pai. No fim, o assobio todo era uma peça famosa de um cara de nome difícil. Escutava a maldição da música no walkman para aprender direito, ensaiava sem parar durante as aulas lá na igreja e o tempo todo eu lembrava era do martelo castigando o aço. Mas aí eu aprendi.
E cheguei em casa um dia e vi que o pai estava lá fora, assobiando na oficina. Entrei no quarto e o vi de novo pela janela, agachado, forjando uma peça no braço. Sentei no piano e toquei a música. Na quinta nota o barulho parou, o assobio parou, o pai parou, ficou em pé, olhou pro céu um minuto, respirou fundo e, num fôlego, tomou o cabo do seu instrumento na mão, agachou e voltou a tocar o martelo. Eu sabia, ele sabia.
Toda tarde então era assim. Eu ensaiava, tocava, enquanto o pai trabalhava lá fora esculpindo suas coisas no torno, moldando as chapas de ferro, fundindo o aço que seria usado depois em novos serviços, atendendo um cliente vez ou outra, sorvendo o café da garrafa sem parar. Sem assobios do pai, sem o radinho da mãe, só o metal gritando na oficina e os sabiás cantando entre as goiabas. Essa era minha música por horas, até que vinha o cheiro do café novo, a hora do banho, o macacão azulado do Liceu e a partida para aula no novo turno.
E na mesma semana em que a escola avisou sobre a data da minha formatura no curso de Torneiro Mecânico, o pastor chegou da cidade com um folheto novo, me convidando para um recital na capital, junto com a ficha de candidatura para uma vaga num conservatório.
Cheguei berrando em casa, sem fôlego, tropeçando, contando tudo para os dois que almoçavam. A mãe ficou daquele jeitinho e o pai de jeito nenhum.
Na noite do recital, em dezembro, eu já estava formado no técnico. O diploma virou quadro na parede da sala e era ali, naquele canto, que eu queria abandonar tudo aquilo. Viajamos para a cidade numa Kombi emprestada de um amigo do pai. A mãe costurou um vestido novo, todo azul escuro, longo, meio fofo e de alças presas nos ombros. Botou um xale bege nas costas, fez um coque no cabelo e usou a maquiagem de festa que ficava guardada na gaveta da cômoda. O pai vestiu o terno da missa. E eu passei um mês torneando na oficina do Liceu para juntar uns trocos e alugar um fraque.
Toquei Báh. Toquei Xopân. E mergulhei tão fundo naquele piano novo, e martelei tão convicto aquelas peças brancas que quase acho que deixei um pouco de mim por ali. E só então, depois, vazio de tudo, reparei que estava num palco, que tinha uma luz sobre mim, que tinha um bocado de gente no teatro e tinha os dois ali. A mãe com as duas mãos tapando a boca, toda rosada da maquiagem e da emoção. E o pai, aplaudindo junto, respirando fundo com a boca aberta e os olhos marejados. E era tudo.
* * *
E foi o pai quem, de novo, duas semanas depois, deixou em cima do piano os papeis: a carta e uma ficha do conservatório me convidando para ingressar no grupo.
Já era Natal e dessa vez a mãe era toda emoção. Mas do outro jeito. Quando desandou a falar, depois de me dar uma fita K7 nova e uma partitura de presente, disse que estava morta de medo, mas que “é bonito demais, bonito demais esse piano. Vai, menino, dá mais graça pra esse mundo com essa sua extravagância, dá orgulho pra sua vila. Só não esquece da gente, promete? Seu pai e eu… promete que não me esquece, tá?”
Gostei demais do presente. Também me sentia emocionado. Perguntei se lhe daria orgulho sendo músico e não Torneiro, igual ao pai.
“De qualquer jeito dá”.
O pai estava lá fora. Assobiava.
Naquela noite, sem música, eu sonhava. Finalmente, era hora mesmo de ser livre, finalmente ver o mundo e outras cores, ser parte daquela arte que eu amava, expressar o dom de Deus, de ganhar a vida com minha música finalmente.
Eu tinha as malas prontas e uma pergunta martelando na mente que não me largava. Como é que seria a música sem o chiado do radinho e o tilintar da louça lá na pia? De que jeito ia soar sem minha terra no quintal, sem o vento atravessando as folhas da goiabeira, sem os sabiás? Como é que seria agora, meu piano ressoando sem a sinfonia do martelo?
Porque eu bem sei que queria ter quem me escutasse e então eu tinha. Queria agora ser maestro, ainda queria ser Xopân, talvez queria ser Torneiro. Eu queria transbordar mas não precisava mais fugir. Lá no fundo, acho, queria era a poesia, eu só queria os passarinhos. Agora nada mais doía. Eu tinha uma opção, sabe?
Tchecov e um conselho fundamental
“Não diga que a lua está brilhando. Mostre-me seu reflexo num caco de vidro.”
– Anton Tchecov, falando sobre a escrita
Eu quero menos
Dia desses, eu fazia qualquer coisa no Facebook quando me dei conta, observando a linha do tempo na página, que já faz quatro anos que freqüento aquela tela azul. Eu quase alimentei um certo orgulho do meu pioneirismo não fosse uma resistência velada que tenho pela ferramenta. Não sei o que é, eu uso mas não gosto. Ou gosto de não gostar, só pra ter algo do que reclamar.
Zapeei pela página e vi que o Facebook sugeria que eu ficasse amigo de um parente distante. Ele acreditava que eu poderia adicioná-lo à minha rede, dado que temos 26 outros amigos em comum. Senti-me tentado, cliquei, adicionei, tal como se incluísse um item num carrinho de compras. Aproveitei as ofertas do dia e incluí também dois ex-colegas de trabalho e um amigo de infância a quem não via há muitos anos. Saí do Facebook de sacola cheia naquela manhã. E apesar das novas e velhas amizades virtuais, não fiz contato real com ninguém.
Sendo muito sincero, acredito que isso se deva muito menos a um interesse real de resgatar relacionamentos que eu acredite que ainda vão avançar para um novo grau de intimidade – a ponto de eu querer saber, numa conversa pessoal, que o cachorro do Beltrano acabou de sair do petshop de penteado novo e curtir a ideia de que a filha da Fulana ganhou uma festa porque completou aniversário de um ano, três meses, duas semanas e oito dias de vida – e muito mais ao fato de que, tendo por perto todas essas pessoas que frequentam apenas minhas lembranças distantes, sabendo o que elas curtem, comentam e compartilham, eu me sinta menos culpado em não manter um contato real.
Pois é, veja você, cá estou eu reclamando de redes sociais.
Mas veja, não é contra novas formas de se vincular às pessoas que eu tenho andado inconformado – nem poderia, se você está lendo isso agora, muito provavelmente foi porque publiquei em algum canto obscuro da internet – mas contra o tipo de personalidade que assumimos nesse ambiente e, pior, o tipo pessoa que nos tornamos – ou revelamos ser – desde que esses meios passaram a afetar a nossa rotina de forma tão significativa.
A superficialidade das relações nos anestesia, tem nos tornado indiferentes às dores e à vulnerabilidade dos que estão ao nosso redor. Não temos mais nada uns com os outros, senão vínculos cada vez mais frágeis.
O excesso de estímulos e o simplismo das informações, que já quase assimilamos pelos poros, nos torna também impacientes. Já não temos tempo ou não queremos despender esforços com a parte do outro que não nos agrada. No fim, só queremos o que “curtimos” e bloqueamos o resto.
Vivemos uma busca desorientada pela felicidade, como se ela fosse um fim, um destino, e estamos ansiosos, queremos ver pessoas felizes e nos mostrar como pessoas felizes acreditando nisso como um ideal projetado de realização. E cada vez menos essa busca tem como objetivo o bem-estar comum, cada vez menos as conquistas que celebramos tem a ver com a comunidade em que vivemos. Porque estamos sozinhos, à caça da aprovação alheia, vivemos a explosão do ego, a incrível era da contemplação do umbigo e o mundo já não é da nossa conta.
Nesse tempo, relacionamentos amorosos duram pouco, amizades são casuais, casamentos são contratos, efêmeros, buscas existenciais são feitas pelo Google. Não contemplamos mais o horizonte, literal ou figuradamente. Só vemos o que está um palmo à frente e amamos o que temos ao alcance das mãos, literal ou figuradamente. Só merece nossa atenção o que nos oferece, uma pílula que seja, de êxtase instantâneo.
Porque só pensamos em nós, nos bastamos e desejamos, coisas, pessoas, experiências e um deus que nos satisfaça.
* * *
Meu amigo Rui diz que se os primeiros textos bíblicos fossem escritos nos dias de hoje, Deus trocaria a palavra “pecado” por “egoísmo”. Egoísmo é a melhor tradução para o tipo de comportamento tão condenado no homem ao longo da história.
Bem, talvez você não pense em pecado como algo com o que você deva se preocupar porque, afinal, isso trás consigo um vínculo religioso e, em geral, a gente não costuma gostar de ter o nosso senso de liberdade podado por uma regra definida sabe lá onde por alguém alegando se expressar em nome de Deus.
Talvez você, assim como eu, também não pense em egoísmo como algo que lhe diga respeito. Somos, afinal, tão cheios de compaixão, tão desprendidos e beneficentes. Não matamos, não roubamos, não cometemos crimes, doamos algum dinheiro e brinquedos para instituições de caridade, somos capazes de construir relacionamentos sólidos.
No entanto, ao contrário disso tudo, nos animamos com a ideia ou conceito de altruísmo (do latim *alter*: outro + *ismus*: adepto, seguidor). Somos bons cristãos, transbordantes de generosidade. Nos levantamos entusiasmados em defesa do outro, com profundo desejo de nos doar pelo bem-estar alheio. Deixamos de lado nossos interesses para ter como prioridade o bem-estar coletivo, nos doemos pelas feridas do nosso próximo, compartilhamos os “posts” com fotos de criancinhas malogradas na África.
Hmm, bem, talvez a gente pense em egoísmo, sim.
Finalmente, se nós pensamos em Jesus como alguém que conseguimos reconhecer como nosso Deus, então é possível que nossa expressão de devoção esteja sendo feita na direção errada.
De novo, vou gastar uma dose do eruditismo que eu não tenho para recordar que *hamartia* é uma palavra grega que pode ser definida como “errar o alvo, fracassar”. É essa mesma expressão que aparece nas escrituras em parte das referências a pecado.
O egoísmo foi, possivelmente, o sentimento que Jesus mais combateu com seus ensinos. Suas atitudes mostram uma caminhada na direção oposta a isso. E seu caráter, sua história e mensagens revelam que é bem possível que a gente precise dar razão ao Rui.
E, no duro, eu acredito que Jesus é o alvo em cuja direção precisamos seguir. Ele é o padrão perfeito de humanidade, é o Deus encarnado, o ser humano apaixonante e gracioso, o Deus que senta à mesa e divide o pão. Jesus não era egoísta. Suas relações eram profundas, seu interesse no outro era verdadeiro, ele era tolerante com as falhas e defeitos dos que estavam ao seu lado, ele dividia tudo o que tinha, doava de si, do seu tempo, para ouvir e estar junto. Ele sofria verdadeiramente com a dor dos mais frágeis. Compassivo. Lembre-se: ele morreu por cada um daqueles que o insultaram, cuspiram em seu rosto e o penduraram numa cruz de madeira.
Mas, ora, o que raios isso tem a ver com o Facebook? Com Facebook, nada. Mas sinto dizer que a conversa não é sobre redes sociais. Também não estamos discutindo sobre egoísmo ou pecado. Estamos falando de amor. E de falta de amor.
O amor, que em instância primária, não existe, não se constrói e se sustenta sem que tenha no outro – algum outro – seu alvo. Amamos alguém e ao nosso objeto de amor nos entregamos, nos doamos, cedemos, sem pensar absolutamente em extrair qualquer benefício disso que não a própria realização, pura, de poder amar.
A superficialidade das relações de hoje mata o amor. A indiferença mata o amor. Nossa insensibilidade em relação ao próximo mata o amor. O nosso egoísmo mata a Jesus – o amor em essência – e exclui sua face graciosa da Terra.
* * *
Nas horas vagas, quando não estou fazendo qualquer coisa no Facebook, eu leio livros. No último Dia dos Pais, ganhei da Manú e da Nina um livro do arcebispo anglicano sul-africano Desmond Tutu – não, ele não está no Facebook, mas eu curti.
Desde que comecei a leitura, descobri que Tutu é o cara que eu gostaria de ser. Não, não quero ter a vida dele e tampouco usar aquela túnica lilás brilhante com um chapeuzinho de côco, eu só queria ter um doze avos do caráter, da sabedoria e história desse homenzinho negro que foi capaz de liderar um movimento em seu país com a finalidade de perdoar – isso, leia bem – perdoar as pessoas que massacraram seu povo durante o regime de apartheid na África do Sul, enquanto todo o povo ainda sorvia sua sede de vingança pelo sofrimento.
Tutu resgata em sua abordagem uma expressão africana que eu quase gostaria de tatuar: Ubuntu. Em xhosa, diz ele: “Umntu ngumtu ngabantu”, que mal traduzida seria algo como: “Uma pessoa é uma pessoa por intermédio de outras pessoas”. Segundo essa ideia, ninguém vem ao mundo totalmente formado, por isso, um ser humano precisa de outros seres humanos. Ele defende: “Para nós, o ser humano solitário é quase uma contradição”.
“Ubuntu é a essência do ser humano. Ele fala de como a minha humanidade é alcançada e associada à de vocês de modo insolúvel. Essa palavra diz, não como disse Descartes, ‘Penso, logo existo’, mas ‘Existo porque pertenço’. Preciso de outros seres humanos para ser humano. O ser humano completamente autossuficente é sub-humano. Posso ser eu só porque você é completamente você. Eu existo porque nós somos, pois somos feitos para a condição de estarmos juntos, para a família. Somos feitos para a complementaridade. Somos criados para uma rede delicada de relacionamentos, de interdependência como nossos companheiros seres humanos, com o restante da criação.” (…) “A ênfase do Ocidente no individualismo tem mostrado, com frequência, que as pessoas estão sozinhas em uma multidão, despedaçadas pelo próprio anonimato.” (…) “Ubuntu nos ensina que nosso valor é intrínseco a quem somos. Temos importância porque somos feitos à imagem de Deus. Ubuntu nos lembra de que pertencemos a uma única família – a família de Deus, a família humana.”
A internet ainda funcionava a lenha quando Desmond Tutu escreveu e ministrou sobre isso. E não me parece que tenhamos feito algum avanço.
Mas, e se levarmos essa idéia adiante? E se colocarmos em prática todo o conceito, se decidirmos, no mundo contemporâneo, lutar contra o egocentrismo arraigado em nossa formação e seguir o exemplo de vida de Jesus Cristo? Não parece tão simples quanto desconectar o computador e sair por aí distribuindo abraços e oferecendo ajuda a estranhos. Nossas relações mais difíceis são, em geral, as mais próximas, com os que estão ao nosso lado e são capazes de nos fazer revirar as entranhas na busca por uma solução. Quão áspero parece ser ter que esbarrar nas falhas e contradições das pessoas. É tão mais simples, tão mais cômodo e confortável construir nossas bolhas, protegidos pelo escudo de uma tela de computador, atacando e defendendo com nossos cliques, alheios ao mau cheiro do efeito de nossos defeitos sendo expostos e sem precisar engolir o cálice amargo desses encontros.
Eu quero menos, confesso. Gostaria de poder tornar as coisas mais simples. Se tudo anda tão superficial, tão cheio de espuma, às vezes, precisamos mesmo cortar coisas para ganhar, ‘ter’ menos para ‘ser’ mais. Estar ao lado de quem amamos. E a vida toda só parece ser possível através de transparência e troca, de relacionamentos sólidos que se constroem com conversas, com sentimentos revelados, curtindo juntos, compartilhando, estando no Face… no face a face.
Jonathan Franzen e o amor
O amor é uma questão de empatia infinita, nascida de uma revelação do coração de que a outra pessoa é tão real quanto nós. É por isso que o amor, como eu o vejo, é sempre específico. Tentar amar toda a humanidade pode ser um esforço digno, mas ironicamente mantém o foco em nossa individualidade, em nosso próprio bem-estar moral ou espiritual. Ao passo que, para amar uma pessoa específica e identificar-se com suas lutas e alegrias como se fossem suas, é preciso abrir mão de parte de si.
– Jonathan Franzen, em Como Ficar Sozinho
Ciclos
Ela já não tem medo de monstros. De dois meses para cá, como num passe de mágica, as coisas mudaram um pouco aqui em casa. Às nove, dado o alerta da hora de ir para a cama, ela escova os dentes, veste o pijama e, beijos dados, segue para seu quarto.
Não era sem tempo, a gente sabe. Mas até outro dia, esse parecia um cenário muito distante na rotina de casa. Escrevi por aqui sobre toda a tensão dos momentos que antecediam o momento do sono, a insegurança, a incerteza sobre o que estávamos fazendo de errado, como poderíamos ajudar a Nina a superar a dependência que nutria da gente para dormir. E de uma hora pra outra, tudo se foi, numa noite ela chorou e dormiu, noutra reclamou e dormiu, aí finalmente dormiu. E agora é assim, ela sai da sala sozinha, deita e dorme. Sem dengos, sem as histórias, sem aquela carência toda. E de repente, me peguei sentindo uma falta danada daquelas noites.
Ela dorme. Estou sentado no pé da sua cama e a observo. Minha menina está crescendo, o rosto afinando, os cabelos mais lisos presos num rabo-de-cavalo. O pijama, cheio de desenhos de gatos coloridos, já serve só até o meio das canelas. Três mechas vão caindo sobre o rosto, as duas mãos juntas embaixo das bochechas… a cena que eu jamais gostaria de esquecer, um momento, entre tantos, que eu sei de que terei saudade no futuro.
É mais um ciclo que se cumpre. Para ela e para nós. Desde o começo, a espera, a gestação, o corte do cordão umbilical numa madrugada chuvosa de março, as primeiras palavras, o primeiro ano, nove mil e duzentas fotos, os primeiros passos, a caminhada inteira de então em diante.
Ciclos. A gente quase não percebe quando começam, mas terminam quase sempre numa sessão de nostalgia. E para cada um, um novo marco, um altar edificado de celebração, lembrança e saudade.
Ela cresce uma era inteira a cada minuto e vive plenamente a infância, se desenvolve, sorri, cai, levanta, aprende e absorve como uma esponja – dos episódios quase infinitos da novela Carrossel às conversas secretas dos adultos – tudo o que se passa ao seu redor.
Sentado no quarto escuro, olho para a porta entreaberta, sondo a luz que vem da sala pelo corredor e admito uma ponta de medo ao notar a sombra do futuro que se projeta adiante. Bendita incerteza, quando parece que as coisas vão se acomodar e tomar um rumo finalmente, percebo que preciso reaprender a ser pai, ser marido, profissional, a encarar desafios diferentes outra vez.
Mudanças. Às vezes, precisamos mesmo que elas aconteçam para que nos desapeguemos. Alguém deve tirar nosso apoio, de supetão, de repente, para que a gente possa acordar, para que um novo passo seja dado.
É tarde, preciso dormir. Amanhã será um novo dia, mais um começo, outro ciclo.











