Caminhada

por Luiz Henrique Matos

Nas últimas semanas tenho vivido uma experiência que não experimentava há muito tempo: caminhar. Não falo de caminhadas como atividades físicas – que, a propósito, também não faço com a assiduidade que deveria – mas como meio de locomoção básico e fundamental entre minha casa e o escritório.

Devo dizer que não tem sido um ato voluntário. Meu carro está na oficina e meio que aproveitando a situação atípica, resolvi que faria todo trajeto que fosse possível andando.

No fim, noto que tem sido bom. Tirando um ou outro desconforto com o qual eu já não estava habituado – tipo dores nas panturrilhas, pessoas me apertando no trem e a multiplicidade de odores se misturando no ambiente – tenho gostado desses momentos. Em 20 dias a pé, já notei algum avanço físico. Venho me pesando com freqüência e, pelas contas, perdi cerca de 300 gramas. É praticamente a porção de queijo prato fatiado que compro na padaria.

Eu poderia arriscar aqui uma seqüência de metáforas entre a caminhada e a vida (é incrível como é frutífero pensar nesses clichês, posso imaginar uma série deles), mas isso seria muito lugar-comum e acho que vou te poupar disso. Acho.

O que tem sido interessante, principalmente, é a oportunidade de ficar em silêncio e poder me concentrar em uma única atividade durante um tempo. É fato que o período da caminhada não pode ser abreviado, existe uma distância a ser percorrida, eu tenho um limite de velocidade na minha passada e então não há muito que se possa fazer senão ligar a música, colocar um pé na frente do outro e seguir em frente.

Bom, parece meio idiota, mas para alguém que passa a maior parte do dia entretido com uma dezena de atividades simultâneas, isso é um bom exercício de foco. No mais, o que me resta é gastar esses minutos pensando e observando o cenário ao redor.

E acho que posso dividir as coisas dessa forma:

Um: Pensar

O que poderia ser um exercício de auto-conhecimento está sendo, na verdade, a parte menos produtiva da história toda. Eu costumava acreditar que teria oportunidade para meditar e refletir sobre a vida. Pensei que faria minhas orações e tomaria decisões importantes nesse tempo de quietude. Mas tem sido um tanto frustrante por esse ponto. Eu mal começo a considerar alguma situação específica e numa fração de tempo minha mente entra num vazio completo. Quando desperto desse estado, não faço a menor idéia do que se passou, penso em três milhões de coisas e nada que possa reter, é como se o cérebro entrasse em hibernação.

Comecei a ficar preocupado. Até que peguei um livro do escritor Haruki Murakami em que ele comenta sobre o que se passa em sua mente enquanto treina corrida: nada. Ele chama isso de vácuo. E saber que alguém também sofre do mesmo mal é algum consolo, principalmente porque ele é japonês e esses caras japoneses costumam ser bem focados. Mas, por outro lado, ele tem 60 anos, corre 10 quilômetros e nada 1500 metros todos os dias. Nem que eu fosse o Secretário Geral das Nações Unidas acho que conseguiria pensar em coisas produtivas por tanto tempo.

Dois: Observar

Se a reflexão tem sido frustrante, acho que um hábito meio vergonhoso que adquiri tem uma parte de responsabilidade nisso: é a mania de ficar olhando para as pessoas e tentar imaginar a vida que levam. Entenda, não é nenhum julgamento preconceituoso. É que nas ruas, você cruza com todo tipo de gente, fica perto de uma porção de desconhecidos e acaba sendo inevitável ceder à curiosidade de criar personagens a partir desse tipo de suposição.

Se me permite…

Tem um homem, ele trabalha como gari e varre a calçada de uma avenida por onde passa gente e carro sem parar. Eu o vejo quase todos os dias, tem a pele escura, um ou dois dentes faltando no sorriso, bigode ralo, vassoura nas mãos e o uniforme de cor laranja berrante. Ele é nordestino. Fico tentando imaginar as circunstâncias que o trouxeram para o Sudeste. O que será que ele pensa sobre o próprio ofício? Entenda, varrer o pó de uma avenida em São Paulo é algo como enxugar gelo na praia e ele faz isso por oito horas, diariamente. Penso então que quando acaba o expediente, ele toma um banho, troca de roupa e segue para sua casa onde deve ser o herói de alguns garotos. A esposa e os filhos estão esperando em casa pelo pai que chega, já à noite, cansado do dia na rua. Faz sua refeição, checa a lição de casa do mais velho, assiste a novela com a patroa e dorme em paz num quarto bem pequeno. Esse homem deve jogar um futebol com seus meninos no sábado a tarde. Pode ser que ele ligue para os parentes em sua cidade natal de vez em quando, pode ser que sonhe ganhar a vida na cidade para juntar algum dinheiro e voltar para sua terra um dia.

Teve um casal. Ambos desajeitados, brancos, extremamente altos e um pouco obesos. Andavam bem rápido. Eu os vi descendo a rua desde lá de cima, com as mãos dadas e dedos entrelaçados, conversavam animadamente e a toda hora os olhares se cruzavam e sorriam. Deviam namorar há poucas semanas. Pareciam tímidos. E pensei que possivelmente estiveram apaixonados por um tempo antes de se declararem. Deviam trabalhar no mesmo escritório, mas não tinham coragem de se convidar para um café, até que um dia ele mandou o MP3 de uma canção do Elvis Costello para ela por e-mail e foi aí que as coisas começaram. Estavam apressados para ir ao cinema ver qualquer filme em cartaz. Eles ficarão noivos daqui um tempo, farão uma viagem pela Irlanda quando casarem, demorarão para ter filhos, mas quando vierem, ela vai largar o trabalho para se dedicar à casa.

E tinha também uma mulher e sua filha. Eu as vi sentadas num vagão de trem meio vazio numa manhã de terça-feira. A menina de cabelo cacheado, comportada, bonita, banho recém tomado. Tinha aquele olhar inocente, devia ter sete ou oito anos. Carregava sua boneca num braço e a própria mochila sobre o colo, porque a mãe já levava uma carga pesada demais. As sacolas de compras, uma mala, as blusas para caso esfriasse, um guarda-chuva. Ela tinha o olhar cansado, olhava ao redor procurando uma resposta. Queria entender porquê tudo isso com ela, porquê ele foi embora depois de tantas promessas, sempre queria, mas já havia se conformado. Aquela era a vida, que a menina aprendesse e não precisasse passar pelo mesmo. Era assim que ela demonstrava seu afeto. Essa era sua luta diária, sua esperança e sua busca. Ela queria acreditar que tinha um destino naquele trajeto.

É assim que eu gasto meu tempo. Meu rico tempo que deveria ser rico e cheio de meditações, veja você. Mas por favor, entenda, não quero fazer julgamentos e nem acho que esteja em posição para isso. Por isso, me constranjo. Fico encabulado porque acho que é bem possível que alguém pense esse tipo de coisa de mim também. Tenho isso como algo certo. E, sabe, se as pessoas tiverem essa mesma mania, eu devo ser um alvo bem estranho. Eu penso um pouco nisso. Se alguém fica curioso olhando para um sujeito como eu, o que deve pensar? Aí começam as neuras todas.

Geralmente, quando minha mente chega nesse ponto, é o momento em que percebo o quão improdutivo é o tal do estado de vazio em que me afundo. Esse é o limite. E eu penso: sério mesmo, Henrique? Com tantos problemas para resolver e tanta coisa importante em que se concentrar, você está mesmo pensando nisso agora? E aí então o ciclo recomeça.

* * *

Tem sido assim em todos esses dias. Na ida e na volta do trabalho, nos deslocamentos até um comércio ou a oficina para acompanhar o conserto do carro. Vou andando. Minha rotina foi sensivelmente alterada e isso tem tido algum efeito benéfico sobre mim.

O trecho mais longo da caminhada é na volta para casa. Desço numa estação de trem das proximidades e caminho por pouco mais de 40 minutos até abrir a porta da sala. Dou de cara com as duas expressões risonhas e os beijos capazes de restaurar o cansaço da maratona. É nesse instante exato que o tal vazio da mente se preenche com a razão da existência do homem – esse homem, pelo menos. Em um minuto assim, um minuto que qualquer sujeito vive, pensei certo dia que se alguém com quem cruzei pela rua fizesse mesmo de mim algum julgamento, se quisesse encontrar um adjetivo para me definir, poderia ter uma palavra em mente: afortunado.

É uma boa palavra. É a minha riqueza. É um lugar-comum, eu sei. Mas é um bom caminho para se percorrer todos os dias.

Reunião de pais

por Luiz Henrique Matos

Na semana passada, fui à minha primeira reunião de pais como pai. É bem estranho isso. Já sou pai há um tempo, mas ainda parece que a reunião de pais e mestres é algo em que minha mãe deveria comparecer e não eu. E por motivos que não vem ao caso agora, eu costumava ter um pouco de medo desses eventos quando era garoto.

Mas agora as coisas são diferentes. No mês que vem eu faço 30 anos e preciso amadurecer. Eu lembro do meu pai quando ele tinha essa idade. Já tínhamos uma casa, um carro bacana e ele usava um bigode igual ao do Magnum. No meu aniversário, acho que vou deixar crescer o bigode.

Naquela manhã, a Manú tinha um compromisso importante e acabou que fui até a escola, me fazendo de desinteressado, mas curioso até as últimas para saber o que a Tia Mariza iria me contar sobre a Nina.

Gastei menos de uma meia-hora na sala de aula, sentado numa cadeirinha de uns 10 centímetros de altura, preenchendo formulários e vendo os trabalhos da classe. Até que a professora me chamou. Eu achei que ouviria uma porção de novidades sobre minha filha e que finalmente descobriria o que os professores tanto falam para os pais nessas reuniões bimestrais, mas não tinha nada demais. Por esse ponto, foi meio decepcionante. Nenhuma confidência, nada de conspirações ou planos arquitetados. No fim, a reunião de pais e mestres é só uma reunião entre pais e mestres.

E a única coisa que ouvi sobre minha filha é que ela é sociável, gosta de cantar e dançar, de ouvir histórias e gasta um tempão desenhando, concentrada nas cores e no papel. “É essa coisa da imaginação, da mente do artista que as crianças tem”, definiu a Tia Mariza.

Saí de lá sem novidades pra contar. Nossa Nina é na escola exatamente como é em casa.

Nem digo como isso é algo confortável de se ouvir. Entenda, o período que minha filha passa no colégio é o único tempo em que ela está fora do meu “controle”. Não que ela esteja, de fato, em algum minuto, mas você sabe o que eu quero dizer. Ali, longe do meu olhar, ela é livre para não ser como eu peço que seja quando está ao meu lado. Distante das asas que os cobrem, filhos podem ser como bem entenderem. E o que são, suas atitudes livres, define de certa forma o seu caráter.

São princípios, como costumo insistir em outras conversas. O que o filho aprende do pai, pratica na vida.

Quando a Manú estava grávida, nos matriculamos num curso de educação de filhos. É verdade que hoje não me lembro de muita coisa do que aprendemos ali, mas foi importante na ocasião. Lembro de uma aula em especial, quando o professor nos disse que “os filhos são como uma folha em branco e cabe aos pais preencher esse espaço com as verdades em que acreditam para a formação do caráter da criança”. Não bastasse isso já ser apavorante o suficiente, ele ainda completou: “o espaço que vocês não preencherem, o mundo preencherá”. E eu tenho perdido algumas horas de sono com esse negócio desde então.

Minha filha, uma folha em branco, um lápis na mão e fiquei imaginando que ela seria uma história que a Manú e eu precisaríamos escrever. Pelo menos as primeiras linhas, pelo menos algo que registre os princípios e tenha algo bom para contar, um estilo, estrutura, forma, conteúdo… Mas não, eu não consigo. Não tenho o direito de determinar o que será sua vida. Acho que posso ajudá-la a descobrir. Talvez apontar um caminho, contar algumas experiências, mas é ela, essencialmente, quem vai escolher que direção tomar.

“Você pode pegar as obras de arte da Nina e levar, está bem? Olha aquela ali que bonita”. A professora apontou para os desenhos fixados na parede. Procurei pelas pinturas que tinham o nome dela assinado, recolhi uma a uma, juntei num envelope grande e, meio sem jeito, coloquei na mochila.

Caminhei da escola até a estação de trem e, no caminho, pensava nessa história toda e mantinha a postura e os passos alinhados, com medo de que qualquer tropeço ou distração pudesse pôr em risco aquelas cartolinas desenhadas. Eu ia carregando os desenhos como um troféu, exibia as pontas das folhas coloridas que ficaram pra fora da bolsa como medalhas, uma jóia, me sentindo o Frodo levando o anel precioso.

Não os criamos para nós mesmos, isso é bem difícil de admitir. E acredito que parte da beleza da criação e da escolha de Deus em nos fazer como somos, seja justamente essa liberdade assustadora que às vezes faz a gente querer correr por aí só para sentir o vento no rosto e, em outras horas, voltar rápido para o aconchego dos braços do nosso Pai. Sabe, essas coisas. Precisamos do Pai para nos dar direções, mas acho que seu amor é tão grande que ele não se mete nas nossas decisões sem ser consultado. Ele confia que vamos fazer as escolhas certas com aquilo que aprendemos por caminhar ao seu lado.

Os filhos refletem o caráter daquele que os criou. O que vemos em casa, define em muito o que somos. Daí a importância de se ter para onde voltar. Daí a importância de se ler menos esses manuais de educação de filhos e um pouco mais as histórias que os encantam.

Eu queria ser um pouco assim para minha filha. Isso eu tento aprender. Eu queria ser um filho que faz as coisas certas para ser um pai decente para a Nina. Percorro de volta essa distância para tentar espelhar sabedoria e caráter. Eu costumo pedir a Deus que, se possível, sejam corrigidos os traços imperfeitos que tenho e que ele me deixe apresentável para minha família, para ser um bom pai, para ser divertido, para ser o seu par numa brincadeira, num baile, na entrada da igreja, na caminhada até Cristo. Até que se abra uma trilha que ela percorra sozinha, nos passos que determinar para si, mas lembrando sempre – aí eu torço – o caminho de volta sempre que for preciso. Eu estarei aqui.

Não tem muito que eu possa fazer, a tal da folha em branco. Não é tanto o que faço, mas quem eu sou que vai influenciá-la. Só espero que ela não use um bigode.

Pode ser que eu faça alguns traços, pode ser que eu registre um pequeno conto ou pinte um desenho para ela se lembrar. Pode ser que eu escreva textos assim. Mas serão sempre coisas bem pequenas, discretas mesmo. Eu quero é deixar espaço para que Deus reflita nela a sua beleza, a inspire e ela trace, a seu modo, a história que quiser contar.


Esse texto faz parte da série Paternidade.

A ilustração foi tirada do livro “O homem que amava caixas” de Stephen Michael King.

Alienação

por Luiz Henrique Matos

Luz vermelha. Ponto morto.

Então, pela manhã eu acordo, tomo banho, troco de roupa, desço o elevador até a garagem no subsolo do prédio. Entro no carro, dirijo com o vidro fechado e o ar-condicionado ligado por cerca de 10 quilômetros até o escritório. Isso leva bem uma hora. Entro no prédio, estaciono na garagem coberta, subo direto pelo elevador até o andar em que trabalho. Almoço no refeitório do prédio. No fim da tarde, o mesmo itinerário até o elevador me deixar novamente na porta de casa. Isso leva bem o dia todo. Chego, tomo meu banho, troco de roupa, desfruto o jantar, vejo TV, brinco com minha esposa e minha filha, leio algo e então deito para dormir.

E o dia passa, inteiro, sem uma única experiência ao ar livre.

Sabe, tem gente – gente mau caráter – que acredita realmente que os fins justificam os meios. Dá pra ver isso a toda hora nos jornais, na vizinhança e por aí. Gente que não mede esforços para conquistar o que deseja ou precisa. Eles tem um plano e fazem o que for necessário para alcançá-lo. Julgamos e condenamos esse tipo de atitude o tempo inteiro.

Mas, sei lá o motivo, há algum tempo, tenho conhecido gente que acredita que os meios por si só se justificam – volta e meia tenho sido essa gente também. Elas não tem um fim concreto em que acreditam ou algo perseguem. O dinheiro, seus bens, o trabalho, tudo o que era instrumento virou objeto. E as pessoas vivem cercadas disso, dedicadas a isso, alienadas em atividades e coisas que estão longe de serem respostas. A gente esquece que o dinheiro serve, o trabalho serve, nossas posses servem… para alguma coisa. E viramos escravos e nem bem sabemos de quê.

Quando o meio vira fim, alguma coisa ficou de fora da história. Talvez a história toda, em muitos casos.

É como correr atrás do vento. E a gente faz o quê com isso?

Luz verde. Primeira marcha. Segunda. Buzina. Uma fechada. E então, rapaz, será que chove?

O tempo, o amor e um Chevette 1982

por Luiz Henrique Matos

Ela agora me liga no meio do dia para pedir coisas. Estou no escritório, toca o telefone, percebo que é o número de casa e acho que é assunto sério. Então uma voz fina do outro lado derrete minha postura de profissional empenhado, pedindo para que eu leve algum doce no fim do dia, perguntando se pode ir brincar na casa da avó ou querendo assistir um DVD diferente.

Não reclamo, eu gosto. Apesar do constrangimento em falar com uma criança no telefone diante de uma audiência concentrada no trabalho, atender as ligações da minha filha ou esposa durante o dia é como fazer uma visita instantânea até em casa.

Outro dia, tocou o telefone e era ela outra vez.

– Alô?
– Papai…
– Oi, filha?
– Eu quero você aqui.
– O quê?
– Eu quero você aqui em casa agora.

Crianças…

Ela não quer saber se vivemos em uma mansão ou numa quitinete, se dirijo o carro do ano ou um Chevette 1982. Para ela pouco importa o cargo que ocupo, a marca da roupa estampada em sua camiseta suja de chocolate, a quantidade de prêmios que ganhei – e não ganhei nenhum, se quer saber – ou qualquer dessas coisas que nos parecem fundamentais em grande parte do tempo.

Ela não se importa com o valor dos presentes que ganha. Aliás, ela nem se importa com presentes. Ela é feliz quando os recebe e também é quando nada acontece. Basta a brincadeira, uma nova história e pessoas ao seu lado.

A cada mês, minha menina deixa de ser aquele serzinho dependente e começa a revelar um pouco de sua personalidade. Ela tem olhos bons. Quando sorri, eles ficam apertados entre as bochechas e as sobrancelhas. De uns tempos pra cá, os cachos já encostam nos ombros, seu rostinho já não está tão fofo e o português vai se ajustando num vocabulário correto e claro nas idéias que quer expressar. Se em algum momento eu achei que tinha qualquer controle sobre as coisas, já não me iludo.

E aos poucos, limitado como sou, vou percebendo que longe de objetos e artifícios de que lanço mão para mostrar o bom pai que pretendo ser, ela prefere que eu lhe dê algo mais simples: tempo.

E ela não está interessada em recompensas, não espera que eu retribua o seu carinho, ela só me quer por perto. Ela quer alguém para viajar junto em sua imaginação, quer jogar qualquer coisa, brincar do que der na telha, quer um leite fresquinho quando acorda e um braço pra se apoiar enquanto a Dora, a Aventureira, resgata algum animal perdido na floresta.

Nada do que ela me pede, nada, me custa mais do que um mísero centavo. A verdade é que as crianças tem um tipo de amor que eu não entendo e não expresso. Um amor desinteressado, gratuito, livre de coisas, que não exige condições, que aceita um pedido de desculpas quando a gente deixa de brincar e que espera o dia inteiro, às vezes bem longo, só para ganhar um colo e ouvir uma nova história antes de dormir.

– Nina, as princesas dormem sozinhas em suas próprias camas, sabia?
– Mas, pai, a princesa quer ficar aqui, perto do príncipe.

Ela me acha bonito.

Às vezes eu me pego pensando no dia em que ela vai descobrir que eu não sou “o” cara. De príncipe, herói e marido exemplar, um dia minha menina vai me achar careta, fraco e pedir para que eu estacione a 300 metros da escola para que os amigos não a vejam entrar no carro comigo. Mas até que isso aconteça, deixo as preocupações para a hora apropriada. Enquanto ela ainda se sente suprida simplesmente por eu sentar ao seu lado no sofá, eu desfruto.

Eu me regozijo em sua inocência, no pensamento puro, nos contos de fadas, nas palavras mal faladas e no cheiro de xampu de neném que ainda perfuma uma parte da casa.

– Pai…
– Oi, Nina.

Ela me mostra a mão espalmada.

– Você fica… você fica só mais assim, ó. Fica só mais cinco minutos comigo?
– Claro, querida. Como não?

Sorri.

– Tá. Então senta, pai.

Ela não me cobra se estou acima do peso, não quer saber serei um sujeito careca daqui um tempo e também não liga se não me visto segundo o catálogo da Armani. Ela só quer que eu esteja ali.

Pais são assim. Às vezes, depois que passamos da infância e, num instante crescemos, pode acontecer de o assunto acabar. Pode ser que o encanto se quebre. Pode até ser que filhos e pais, em função do tempo e das circunstâncias, deixem de ter a afinidade natural, aquela amizade que parecia instransponível lá atrás. Mas inexplicavelmente, a gente sabe o quanto precisa deles. Bem, às vezes nem sabemos, mas notamos que em determinados momentos, precisamos daquele colo, daquele cheiro, sentimos falta de estar perto, gastando um tempo que parece à toa, mas que preenche um vazio que só esse tipo amor pode completar.

O primeiro amor, aquele desinteressado, que tudo sofria e suportava, que acreditava e esperava, de repente parece cheio de condições, cercado de regras, empoeirado, espremido entre tantas lembranças naquele baú esquecido no sótão. E a gente sente saudades mas não sabe como voltar.

Nesses momentos, numa fagulha, filhos se distanciam, amigos se perdem, casais se separam e o homem, ao longo da história, se afasta do seu Criador.

O filho perde de vista o Pai, que nunca deixou de esperar pela volta de sua criança, ansioso, aguardando por mais uns minutinhos. E Deus tenta dizer que ele não quer súditos ou empregados que o sirvam com sacrifício, ele quer seus filhos invadindo a cozinha, cansados de correr no quintal, pedindo por uma história, contando sobre o novo amigo e precisando de um copo de água para saciar sua sede.

E como em qualquer relacionamento, um e outro não esperavam mais do que presença, nada além daquele amor simples, o respeito, carinho… nada que se represente em coisas, nenhuma grande fortuna. Talvez uma aventura frustrada a bordo de um Chevette, uma história para contar juntos, talvez uma conversa franca de vez em quando.

No amor, não se dá nada que custe mais do que um mísero centavo.

(Esse texto faz parte da série Paternidade)

Não vou deixar a vida me levar

Às vezes, na vida, a gente é dotado de tão boas intenções que nos envolvemos em alguns projetos e acabamos deixando de lado detalhes importantes.

Pessoas. Estou falando de filhos, esposas, amigos, pais, familiares… porque nenhuma carreira, obra social ou ministério é mais importante do que aqueles que estão – ou deveriam estar – ao nosso lado diariamente.

Não podemos deixar que a vida nos engula, a rotina nos absorva e os dias escorram pelos dedos como areia fina. A vida é nossa e a escolha de como vamos usar esse tempo está, o tempo todo, em nossas mãos.

-LHM

Presente de aniversário

Ontem foi meu aniversário e ao chegar em casa, além de um excelente presente dado por minha esposa e filha, recebi também um carta, assinada pelas duas, com o criminoso conteúdo abaixo:

02/12/09

Filha, hoje é aniversário do papai. Fala o que você deseja para ele e eu escrevo aqui nessa cartinha.

– Bolo… vela… hmmm sorvete… não, sorvete não, sorvete é ruim… não, sorvete sim, põe aí mãe… e presente.

Isso é o que ela deseja para você!

Mas eu também perguntei:

– Filha, você gosta do papai?
– Ahâm
– Ele é divertido?
– Ele não é divertido, ele é papai… feliz aniversário pra ele. Vou fazer um desenho.

Esperamos que goste.

Bjs,
Mamãe e Nina

Amamos você!

Entre os rabiscos que ela própria fez, havia o desenho (com a devida legenda, evidentemente) de um bolo e uma vela.

Não se deveria deixar pais emotivos receberem esse tipo de coisa. Mas a vida tem dessas peças. Foi a melhor coisa do dia.

Transportando tesouros e atropelando cachorros – os heróis da vida pequena

por Luiz Henrique Matos

Atropelei um cachorro na estrada. Foi tudo tão rápido, estava escuro, ele correu para o meio da pista e parou diante do carro, uns cinco metros à frente. Eu nem consegui pisar no freio. Lembro do olhar estático do pobre animal paralisado pela luz alta do farol e em seguida o impacto seco no pára-choque. Vi, depois, a sombra escura e morta no asfalto pelo retrovisor, cada vez mais distante, pequena, até sumir. Sem nada que pudesse fazer, chorei e segui viagem.

Voltávamos do interior do estado, onde visitamos alguns familiares e eu dirigia por uma estrada paralela enquanto as duas dormiam no banco de trás.

E pensando no momento que acabava de viver, me preocupei com algo mais que pudesse nos acontecer. Viajamos por essas estradas tantas vezes e, é bem verdade, não tenho noção real dos riscos que corremos. Olhei de relance para as duas, mãe e filha, que dormiam desconfortáveis e temi pela responsabilidade de levá-las para casa em segurança.

Eu carregava um tesouro precioso. Confiadas à minha direção, estavam as coisas mais importantes que tenho nessa terra e, bem, eu peno em admitir, mas não sou dos melhores motoristas que conheço – e isso já é um auto-elogio – o que torna o desafio um tanto maior.

Exagerando outra vez nas analogias, eu me sinto como um daqueles guerreiros de histórias épicas que saem em cruzadas pela terra com a missão de transportar algum tesouro precioso para o rei. Levam consigo uma carta de recomendação, viajam em nome da coroa e estão dispostos a abrir mão da própria vida em favor de algo que não lhes pertence mas pelo qual, não se sabe a razão, são apaixonados.

Mas, peno em dizer, eu não sou um guerreiro habilidoso. Não manejo bem uma espada, não sei montar cavalos e meu reflexo não é apurado. O fato é que às vezes eu falho nessa missão. Piso feio na bola. Deixo cair, desprotejo, penso mais em mim mesmo do que nelas. Mas, apesar de minhas limitações, a carta do rei sempre me faz lembrar a que vim. Seu olhar não me deixa esquecer que são suas filhas que estão sob minha responsabilidade.

Não, não pense que isso é um desabafo arrependido. Pelo justo contrário, eis aqui meu voto de fidelidade, minha alegria, o reconhecimento, afinal, do que entendo por realização.

Descobri que longe de ser um fardo, essa missão consiste em minha grande alegria. E não é que a minha visão seja limitada ou que me falte ambição, eu só notei que tenho em casa o tesouro mais nobre que jamais poderia sonhar conquistar. E empenhar a própria vida em favor desse prêmio, talvez seja o mais heróico dos gestos que poderei ostentar.

O herói da vida pequena. A refeição em casa. As férias em família. O tempo juntos sentados no sofá da sala vendo o mesmo desenho pela trigésima vez. As brincadeiras simples na rua. O cineminha com pipoca de sexta à noite com a eterna namorada. Deus, a família, os amigos. As melhores coisas da vida não nos custam sequer um centavo.

Que feito pode ser mais nobre do que dar vida a um ser humano, guiar seus primeiros passos e conduzi-lo em sua existência para que um dia seja alguém melhor do que eu jamais sonhei ser? O que pode ser melhor do que amar uma linda mulher e empenhar a vida em protegê-la, sustentá-la e lhe ser fiel? Que massagem no ego pode ser melhor do que descobrir que duas lindas garotas te acham o cara mais bonito, forte e bacana do planeta, apesar da barriga proeminente, da barba por fazer e da toalha molhada largada sobre a cama (tá bom, eu admito que exagerei no bonito, forte e bacana)? Que honra maior em ver multiplicar o fruto desse amor (leia-se netos) e acompanhá-los crescendo saudáveis, santos, unidos e correndo pelo quintal da nossa casa?

Bom, parece simples, mas não é simplório. Parece pouco nobre, talvez porque seja tão comum a todos. Parece não dar nenhuma fama e reconhecimento público, e realmente não dá mesmo. Mas eu acredito sinceramente que nada pode fazer um homem mais feliz.

Penso nisso tudo agora, seguindo de volta pra casa, para que um dia eu não precise ver as coisas importantes que deixei para trás. Para que a vida que eu sempre quis não seja atropelada pelas escolhas erradas que fiz, como uma sombra na escuridão, pequena e distante no retrovisor.

Eu sigo viagem. Eu, meu cavalo, a carta do Rei me incumbindo da nobre tarefa de ser pai e um tesouro incalculável em meus braços. Sim, essa é a grande missão do guerreiro. Habilidoso ou não, sigo satisfeito em saber que já carrego comigo o grande prêmio da vida.

Essa crônica faz parte da série “Paternidade”:

1. A explosão da vida
2. Versos infantis dessa minha felicidade
3. As grandes conquistas do homem
4. As cegonhas não existem
5. O amor, um calção e gestos primitivos (cinco minutos antes de minha vida mudar)
6. Colos, cólicas, chavões e uma crônica de continuação
7. Na falta do que dizer
8. Pequenas lições
9. Doentes curando doentes
10. Primeiros passos
11. Sobre a velhice, rotinas e prioridades
12. Música para os meus ouvidos
13. E o futuro, a quem pertence?
14. Versos infantis 2 – alegria, tristeza e distração
15. De mãos dadas
16. Sobre ser pai no Dia dos Pais
17. A doce presença

Cenas domésticas: hora de nanar

por Luiz Henrique Matos

Era noite, todos cansados, a família toda deitada na cama de casal, as luzes apagadas e uma fresta da janela aberta mostrava o céu escuro com as poucas estrelas que a cidade grande permite ver. A Nina, como sempre, estava deitada no “meínho” (como gosta de dizer) e, contrariando o desejo dos pais, teimava em não dormir. Depois da bronca derradeira, ela silenciou por um instante e tentou o último diálogo:

– Mamãe?
– O que é, Nina?
– Tá esculo?
– Tá…
– Tá noite?
– Tá…
– O céu já tá dumindo?!

Quem resiste?