Quando passamos muito tempo sob um holofote, ficamos cegos, não conseguimos enxergar bem. Faz mal ao nosso caráter ficar embaixo da luz.
– Rick Warren, falando sobre fama
Rupertus Maldenius
Para pensar em nossas tão acaloradas diferenças.
No essencial, unidade; Nas opiniões, liberdade; Em todas as coisas, o amor.
– Rupertus Maldenius
Os seres humanos são como rios
Um dos preconceitos mais arraigados e difundidos consiste em crer que cada homem possui certas qualidades definidas: que é bom ou mau, inteligente ou estúpido, enérgico ou apático, etc. Ora os homens não são assim. Podemos dizer que um ser humano se mostra mais frequentemente bom ou mau, mais inteligente que estúpido, mais enérgico que apático, ou a inversa, mas será sempre mentira se dissermos que é sempre bom ou inteligente, mau ou estúpido. Os seres humanos são como os rios: a água é igual em toda a parte mas cada rio tem as suas peculiaridades; pode ser estreito, largo, tranquilo, de curso rápido, água limpa ou turva, fria ou morna. Acontece o mesmo com as pessoas. Cada pessoa traz dentro de si o germe de todas as qualidades humanas e por vezes revela umas, por vezes outras. Em alguns homens estas mudanças costumam ser muito bruscas.
– Leon Tolstoi (Ressurreição I. Porto: Civilização, 1999, p. 281)
Fonte: Canto do Jó
Minhas escolhas
Cada manhã ao acordar, no primeiro – ou segundo – abrir dos olhos.
Cada direção em que olho. E sigo.
Cada dúvida que me martela o pensamento,
Sobre cada pensamento que me vem à mente.
Cada passo que dou,
Cada pessoa que cruzo pela rua, ou pela casa, na vida.
Cada palavra que pronuncio,
Na oração que faço…
Em cada escolha, eu só tenho uma chance de fazer a coisa certa.
Todo dia, eu preciso decidir entre o certo e o errado,
Escolher entre fazer o bem ou o mal,
Minha opção entre Deus e… eu mesmo.
Preciso escolher o que farei num instante, num piscar de olhos.
Se seguirei ou não por um atalho que me surge no caminho.
Como vou lidar com meus relacionamentos.
Como reagirei diante das tentações: do falar, aceitar, pensar, agir.
Mas a escolha, bem, ela só pode ser uma.
O caminho, só pode ser um.
O Caminho.
Estreito. Doce. E estreito.
Pausas…
Recebi esse texto na semana passada por e-mail. Quase não li, achei que fosse um powerpoint transcrito. Mas num breve momento de ócio resolvi arriscar e me surpreendi. Tanto que posto aqui, para reflexão.
Toda sexta-feira à noite começa o shabat para a tradição judaica. Shabat é o conceito que propõe descanso ao final do ciclo semanal de produção, inspirado no descanso divino, no sétimo dia da Criação.
Muito além de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como fundamental para a saúde de tudo o que é vivo. A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa. Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue.
Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar se torna uma necessidade do planeta.
Hoje, o tempo de ‘pausa’ é preenchido por diversão e alienação. Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações ‘para não nos ocuparmos’. A própria palavra entretenimento indica o desejo de não parar. E a incapacidade de parar é uma forma de depressão.
O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento cresce nessas condições. Nossas cidades se parecem cada vez mais com a Disneylândia. Longas filas para aproveitar experiências pouco interativas. Fim de dia com gosto de vazio. Um divertido que não é nem bom nem ruim. Dia pronto para ser esquecido, não fossem as fotos e a memória de uma expectativa frustrada, que ninguém revela para não dar o gostinho ao próximo.
Entramos no milênio num mundo que é um grande shopping. A Internet e a televisão não dormem. Não há mais insônia solitária; solitário é quem dorme. As bolsas do Ocidente e do Oriente se revezam fazendo do ganhar e perder, das informações e dos rumores, atividade incessante. A CNN inventou um tempo linear que só pode parar no fim. Mas as paradas estão por toda a caminhada e por todo o processo. Sem acostamento, a vida parece fluir mais rápida e eficiente, mas ao custo fóbico de uma paisagem que passa.
O futuro é tão rápido que se confunde com o presente. As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado.
Nossos namorados querem ‘ficar’, trocando o ‘ser’ pelo ‘estar’. Saímos da escravidão do século XIX para o leasing do século XXI – um dia seremos nossos?
Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante. Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca tantos fizeram tanto por tão poucos. Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrupção.
O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair – literalmente, ficar desatento. É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida. A pergunta que as pessoas se fazem no descanso é ‘o que vamos fazer hoje?’ – já marcada pela ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando não sabemos o que fazer numa tarde de Domingo.
Quem ganha tempo, por definição, perde. Quem mata tempo, fere-se mortalmente. É este o grande ‘radical livre’ que envelhece nossa alegria – o sonho de fazer do tempo uma mercadoria.
Em tempos de novo milênio, vamos resgatar coisas que são milenares. A pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois. A pausa é que dá sentido à caminhada. A prática espiritual deste milênio será viver as pausas. Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar.
Afinal, por que o Criador descansou? Talvez porque, mais difícil do que iniciar um processo do nada, seja dá-lo como concluído.
– Rabino Nilton Bonder, da Congregação Judaica
Descontentes de si
Semeadores do Evangelho, eis aqui o que devemos pretender nos nossos sermões: não que os homens saiam contentes de nós, senão que saiam muito descontentes de si; não que lhes pareçam bem os nossos conceitos, mas que lhes pareçam mal os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições e, enfim, todos os seus pecados.
– Padre Antonio Vieira
Do blog Celebrai!
Frase: C. S. Lewis
Só existem dois tipos de pessoas no fim das contas – as que dizem a Deus: ‘Seja feita a tua vontade’; e aquelas a quem Deus diz: ‘A sua vontade seja feita.’
– C. S. Lewis
Frase: A. W. Tozer
Um pouco de reflexão para começar a semana.
“O que vem à nossa mente quando pensamos em Deus é o que existe de mais importante a nosso respeito.”
– A. W. Tozer
Deficiências – Mário Quintana
Um pouco de poesia para o fim de semana.
“Deficiente” é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.
“Louco” é quem não procura ser feliz com o que possui..
“Cego” é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
“Surdo” é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.
“Mudo” é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
“Paralítico” é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.
“Diabético” é quem não consegue ser doce.
“Anão” é quem não sabe deixar o amor crescer. E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:
“Miseráveis” são todos que não conseguem falar com Deus.
– Mario Quintana
Do site do Caio Fábio.
Olhos fechados
Um dia vieram e levaram o meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunita, não me incomodei.No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico não me incomodei.No quarto dia, vieram e levaram-me;
Já não havia ninguem para reclamar…– Pr. Martin Niemöller, alemão, foi um opositor do nazismo, contra quem escreveu este poema
Do blog Poesia Evangélica
Música para os meus ouvidos

Ela tem dois olhos bem redondos, castanhos e quase sempre animados enquanto se concentram em alguma atividade. São esses olhinhos, muitas vezes, a primeira coisa que vejo no dia, bem de perto, quando acordo e ela já está ali na cama, quietinha, esperando. E abre um sorriso, com seus cinco dentes na boca, os olhinhos ainda inchados, as bochechas coradas e os dedos que me cutucam os olhos quando eu ouso fechá-los na tentativa de dormir mais um pouco, uns cinco minutos. Mas não dá, é irresistível. Ela está ali, com a testa colada na minha, respirando no meu rosto, me encarando, animada para começar o dia.
São os olhos espertos que me sondam pelo espelho, enquanto faço a barba no banheiro (“ué, que negócio é esse na cara dele?”, acho que ela pensa). Olhos atentos que me enxergam de longe no supermercado e eu a vejo estender a mão, me chamando para perto. São os olhos vagos semi-cerrados que pedem colo, lá pelas tantas da noite, quando ela já não resiste ao sono. Os mesmos que, cheios de lágrimas, pedem socorro depois do seu fracasso (leia-se: tombo) na tentativa de escalar algum móvel na sala. É o olhar brilhante, vivo, rodeado por aqueles cilhos compridos, o rosto gorducho e a boquinha rosada. É a sensação incrível de ver aquela pessoinha correr estabanada na minha direção ao me ver chegar em casa.
Fiquei mal acostumado. Eu diria: bem acostumado. Minha esposa iria falar que eu sou é carente mesmo. Mas o fato é que todos os dias espero por isso. Chego do escritório e, enquanto subo pelo elevador do prédio, já ajeito os papéis sob o braço e a alça da pasta sobre o ombro para abrir a porta de casa e esperar que ela venha.
Essa é das coisas mais rotineiras, eu bem sei. Sempre achei um clichê, gesto enfadonho, momentos estereotipados nos comerciais, a cena do pai ajoelhado, gravata frouxa no colarinho, sorriso estampado no rosto e braços abertos, esperando o filho que corre para se achegar em seus braços. O fato é que é exatamente assim que acontece. E eu me rendo ao rótulo que se quiser dar a isso e digo, a bem da verdade, é dos momentos que mais espero no dia.
E numa dessas “feiras” das quais se fazem os dias não ociosos da semana aconteceu, como sempre. Todo o ritual se repetiu, do elevador à porta de casa, do tilintar da chave na fechadura aos ruídos dela se movimentando na sala, do ranger da dobradiça enquanto a porta se abria (que agora lembrei ainda não cuidei de arrumar) aos primeiros sons da sola do meu sapato pisando no corredor da sala, do “quem chegô?” dito pela minha esposa ao afrouxar da gravata no colarinho. E foi ali, ao topar de frente com minha menininha correndo que ouvi:
– Papa!
Ela falou!
Saiu em disparada do sofá, as bochechinhas tremendo, os passos concentrados na minha direção. Em disparada, meu peito acelerava na sensação única de ver meu fruto me olhar nos olhos e dizer meu nome – ou a palavra mais simples que signifique essa condição paterna.
– Papapapapapapa… papa!
– Oi Nina!
Ela falou para mim. E se me pedisse o mundo naquela hora eu lhe daria (sabe como é, financiamentos bancários já não são tão difíceis de se conseguir ultimamente).
Eu olhava para aquela coisinha, que ainda precisa de mim para qualquer de suas necessidades básicas de sobrevivência e tinha consciência de que, naquele instante, ela era dona do meu coração. Seus olhinhos redondos brilhavam e o rosto sorridente me perseguia.
Duas silabas elementares no vocabulário de qualquer ser humano com mais de 6 anos, mas que a julgar de onde vinham, tornavam todas as outras coisas menos importantes por um momento. Era o melhor dos elogios que eu podia ter ouvido nesses dias.
Sim – respondendo a uma pergunta que talvez você não tenha feito –, ela já havia falado outras coisas antes. Disse “mamã” para chamar aquela que é justa merecedora da primeira fala. E disse “kissss”, para chamar a nada merecedora cachorrinha no quintal da casa da minha sogra, enquanto fingia estalar os dedos.
(Eu estava em terceiro lugar nessa fila, mas quem se importa com o detalhe de que antes de me chamar ela tenha aprendido a correr atrás de uma poodle que não lhe dá a menor atenção e que ela só vê uma vez por mês? Quem liga? Hein? E estalar os dedos! Hein?!?)
E aquela voz admirada se dirigindo a mim soava como expressão de louvor. Era ela, minha cria, aprendendo uma coisa nova e se expressando para mim. Orgulho, corujice, satisfação, amor, coração mole, euforia, puro exagero. Sim, a mãe dela tem razão, sou meio carente.
Aquela voz, o resmungo, o chorinho pelo qual eu largo tudo e lhe volto minha atenção. Deixo trabalho, abandono um livro aberto sobre a mesa, largo as tarefas por fazer, deixo o feijão esfriar no prato, desligo o futebolzinho na TV. Abandono a mais importante das prioridades, porque meu pequeno fruto precisa de mim. Eu nunca imaginei que seria assim, mas o coração de pai renuncia de si em favor do seu sangue que corre naquelas frágeis veias.
E ainda agora, alguns meses depois, aquela vozinha mínima me chamando ainda é capaz de me mover. E fico pensando que vai ser assim a vida toda. Se ela chama, eu vou. Se estou deitado, me levanto. Se ela diz algo, respondo. Se ela chora, eu acordo. Se ela pede, invariavelmente, eu dou.
Ela é filha, eu sou pai. E quando ouvimos a voz da nossa própria carne nos chamando, que pai não pára e se curva para ouvir, responder, atender ao pedido de um filho?
Quem resiste?
Nenhum pai. Nem o Pai.
Frase: Borges – Argumentos não convencem ninguém
No meu entender, qualquer coisa sugerida é bem mais eficaz do que qualquer coisa apregoada. Talvez a mente humana tenha uma tendência a negar declarações. Lembrem o que diz Emerson: argumentos não convencem ninguém. Não convencem ninguém porque são apresentados como argumentos. E então os contemplamos, e refletimos sobre eles, e os ponderamos, e acabamos decidindo contra eles.
Mas quando algo é simplesmente dito ou – melhor ainda – insinuado, há uma espécie de hospitalidade em nossa imaginação. Estamos dispostos a aceitá-lo. Lembro ter lido, há uns trinta anos, as obras de Martin Buber – que considerei poemas extraordinários. Então, quando fui para Buenos Aires, abri o livro de um antigo amigo meu, Dujovne, e descobri em suas páginas, para grande espanto, que Martin Buber era um filósofo e que toda sua filosofia estava contida nos livros que eu lera como poesia.
Talvez eu tenha aceito aqueles livros porque chegaram a mim pela poesia, pela sugestão, pela música da poesia, não como argumentos. Creio que em alguma passagem de Walt Whitman a mesma idéia pode ser encontrada: a idéia de razões serem inconvincentes. Creio que ele diz em alguma parte achar o ar noturno, as poucas estrelas graúdas, bem mais convincentes que meros argumentos.
Jorge Luis Borges em Esse Ofício do Verso
Do blog A ignorância é uma escolha (via PavaBlog)
Frase: Max Lucado
A lógica diz: “cerre os punhos”. Jesus diz: “Encha a bacia”. A lógica diz: “Esmurre o nariz dela”. Jesus diz: “lave-lhes os pés”. A lógica diz: “Ela não merece isso”. Jesus diz: “Isso mesmo, mas você também não”.
– Max Lucado, no livro “Ouvindo Deus na Tormenta”
O essencial
Já transferi todos os meus bens para minha família. Existe, porém, uma coisa mais que eu gostaria de oferecer a meus filhos: a fé cristã. Com ela, poderiam ser ricos, mesmo que eu não lhes tivesse dado nenhum centavo. Sem essa fé cristã, eles seriam pobres, mesmo que eu lhes tivesse dado o mundo inteiro.
– Patrick Henry, político norte-americano do século XVIII
Precisamos de gente
A necessidade mais básica da vida das pessoas é a ligação afetiva. As pessoas que se apegam a outras prosperam e crescem, e as que não o fazem, murcham e morrem. É um fato clinicamente comprovado, por exemplo, que desde a infância até a idade adulta, a saúde depende dos contatos sociais que uma pessoa tem. […] Quase todo problema emocional ou psicológico, de uma compulsão à depressão, tem como uma de suas principais causas o isolamento emocional.
– Henry Cloud em “A chave do crescimento” (leia um trecho aqui)
Tristeza e angústia – Ricardo Gondim
Tristeza é um pai no corredor do hospital pediátrico; uma alvorada no cemitério; uma fila no começo do expediente da mina de carvão; um vestido de noiva na liquidação do brechó; um lamento em chinês nos escombros de um terremoto.
Contudo, só o triste percebe; só o lagrimoso enxerga; só o desconsolado acorda. Portanto, bem-aventurado o que ouve; o que sabe o antônimo de inexpugnável; o que aceita a robustez da impotência.
Angústia é um relógio que marca centésimos de segundos; um verdugo que dá instruções ao condenado do patíbulo; uma enfermeira que aplica a quimioterapia mesmo sabendo que não haverá cura; uma tia que intui notícias ruins.
Contudo, só o angustiado se reinventa; só o inquieto arroja; só o desassossegado percebe. Portanto, bem-aventurado o que luta; o que vive dependurado na palha da esperança; o que se inspira no olhar do Cordeiro.
Soli Deo Gloria.
Fonte: PavaBlog
Nossos legados
Bom para repensar algumas prioridades:
Nenhum sucesso na vida – ser presidente de uma nação, ser rico, frequentar faculdade, escrever um livro ou qualquer outra coisa – é capaz de sobrepujar o sucesso do homem que tem a sensação do dever cumprido e cujos filhos e netos se levantam e o chamam abençoado.
– Theodore Roosevelt, 1917
Outra frase de Donald Miller
Não sei dizer porque ainda não li um livro de Donald Miller (talvez me ocupe demais aquela meia dúzia de exemplares que tento assimilar ao mesmo tempo).
Às vezes olho os céus infinitos, o universo no qual
não conseguimos ver limite, e pergunto a Deus o que signi-
fica. Você realmente fez tudo isso para nos deslumbrar? Você
realmente o mantém mudando, girando ao redor dos eixos
para afastar o tédio? Não permita, Deus, que sua glória nos
distraia. E não permita, Deus, que a ignoremos.– Donald Miller na introdução de “Fé em Deus e pé na tábua”, editora Thomas Nelson
Clique aqui para ler o primeiro capítulo.
E o Levi levantou
Texto publicado no devocional Iluminalma (recomendo), na última terça-feira.
VERSÍCULO:
“Depois disso, Jesus saiu e viu um publicano chamado Levi,
sentado na coletoria, e disse-lhe: “siga-me”.” (Lucas 5:27)PENSAMENTO:
Depois de capturar os corações da multidão, Jesus chama um outro
discípulo, Levi (Mateus). Duas coisas são significativas sobre este
chamamento. Primeiro, Jesus chamou alguém que nenhum outro líder
religioso teria escolhido: um publicano e simpatizante romano. Para
qualquer judeu da época de Jesus, Mateus era considerado mais como
um traidor à sua herança e à sua fé. Segundo, o publicano seguiu,
deixando para trás sua profissão e sua fortuna. Este é um lembrete
poderoso de que não há ninguém que devemos considerar inalcançável
com o Evangelho e inútil para nosso Senhor.
É proibido pensar?
Por Luiz Henrique Matos
No começo, tudo parecia interessante. Embrenhei-me na leitura e sentei atendo às novas vozes que entoavam sua crítica endereçada a uma parte da igreja que, mercantilista, pasteurizou o evangelho. Surgia um contraponto ao velho discurso evangélico massificado na mídia.
Eu gostei de tudo isso. Parecia um eco do que dizia meu coração. Era equilíbrio num pensamento adequado, humano, cheio de essência bíblica.
E surgiram novos pensadores no meio da igreja. Gente intelectual, de ouvido atento e voz ácida contra os que pregam heresias. Gente empenhada em preservar a verdade das Escrituras. Gente finalmente mais preocupada, mais preocupada com… com o quê mesmo?
Com o tempo (pouco tempo) a crítica construtiva deu lugar a uma voz de combate. E líderes cristãos passaram a tomar posição numa batalha ideológica.
Serei sincero, não sei ainda o que pensar a respeito desse tipo de manifestação. Tenho minhas inquietações e indignações com alguns comportamentos que observo na igreja. Às vezes tenho vontade de entoar esse mesmo discurso e virar as mesas dos que fazem comércio no templo, tal como nosso mestre naqueles dias em Jerusalém. Às vezes até viro.
Mas depois, feita a obra, vejo que ainda assim a dor não passa, percebo que a cura não vem pela explosão impetuosa. Noto uma vez mais que só pela graça, o amor, a cruz é que ocorrem transformações. Em Deus. Percebo, afinal de contas, que não importa tanto o que eu digo ou escrevo, mas vale sim o que eu faço, o exemplo que dou, as pessoas que formo. São mais que palavras.
Ao vociferar uma crítica, tenho medo que minha opinião fique restrita a isso: mera opinião. Tenho medo de julgar, de filtrar o que entendo como lei e condenar os outros baseado no simplismo de minhas interpretações, sem pensar com o coração de Deus. E tenho medo também de apontar o dedo ante os olhos dos outros sem enxergar a sujeira que eu mesmo produzo. Também peco. Talvez não os mesmos erros desses “cambistas”, mas peco com outras tantas e iguais falhas.
Acredito que a auto-reflexão na igreja é positiva e necessária. Mas prezo pela atitude sábia, pela ponderação construtiva dos que respeitam a liberdade e resgatam a essência das boas novas que pregamos. Sem batalhas particulares, sem combates contra “carne ou sangue” como nos ensinou o apóstolo, sem levantes que tentam separar o joio do trigo antes da hora. Não existe guerra santa.
“O conhecimento traz orgulho, mas o amor edifica.” (Paulo, na primeira carta ao Coríntios, capítulo 8, verso 1).
Por isso, opto por não dar nomes aos bois. Já o fiz e me arrependi. Pobres dos bois. Hoje, prefiro exaltar as boas obras dos que ajudam a construir dignamente o Reino. Faço minha escolha baseado no amor que promove a paz. Decido meu caminho pensando nas pessoas, vidas, que acabam ignoradas quando nossos olhos se voltam exclusivamente para ideais.
Precisamos ser um. Respeitando as diferenças. Vivendo em Jesus Cristo, como Ele, que viveu e morreu por todos. Todos.
“A maior carência do nosso tempo é por uma igreja que se torne o que a igreja raramente tem sido: o corpo de Cristo com o rosto voltado para o mundo, amando aos outros independentemente de religião ou cultura, derramando-se numa vida de serviço, oferecendo esperança a um mundo aterrorizado e apresentando-se como alternativa genuína ao que se passa hoje.” (Brennan Manning).
Frases sobre religião
“Cristão é o cara que crê em Cristo; carola é o que o teme.”
– Stanislaw Ponte Preta
“A verdadeira religião é a vida que levamos e não o credo que professamos.”
– Louis Nizer
“Ir somente à igreja não faz você cristão mais do que ir à garagem não faz de você um carro.”
– Laurence J. Peter
“Creio no Deus que fez os homens e não no Deus que os homens fizeram.”
– Alphonse Karr
“A graça barata é inimiga mortal de nossa Igreja… (…) Graça barata significa justificação do pecado, e não do pecador. (…) A graça barata é a graça que nós dispensamos a nós próprios. A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma congregação, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado. (…)”
– Dietrich Bonhoeffer
Respeitando as fontes, li as quatro primeiras no blog do Sérgio Pavarini e a última, do Bonhoeffer, no blog Celebrai!.
Tragédias – O que os números não dizem
por Luiz Henrique Matos

Parecem só números. Os frios números dos economistas, estatísticos, contabilistas, pesquisadores. Os relatórios chegam das agências através de notas, com dados, gráficos, escalas, percentuais, contagens, somas e/ou subtrações.
Chegam também as imagens. Duras imagens. Mas tão artificiais e estáticas como poderiam ser as produzidas em qualquer estúdio. Vemos na tela da TV, do computador ou nas páginas de sites e jornais. Fatos, dados e fotos. Nada mais.
E eu leio, quase como se meu olhar passasse por sobre uma receita de bolo:
– 100.000 mortos por ciclone que atingiu Mianmar. 1.500.000 foram afetados.
– 1 mãe é morta na frente dos filhos em Taubaté (SP).
– 18.000 soterrados em terremoto na China. Mais de 12.000 mortos.
– 45 pessoas morrem após explosões no oeste da Índia.
– 1 criança jogada da janela do 6º andar morre em São Paulo (SP).
– 4.000 soldados americanos já morreram desde a invasão do Iraque.
– 48 mortos e 5 desaparecidos em naufrágio de barco no rio Solimões (AM).
Faz diferença para você?
São pessoas. João, Johnny, Cheng, Mohammed, Maria, Jen, Isabella, Hashid, Park, Lee… gente, vidas, com sangue correndo nas veias, coração pulsando, a mente atribulada em medo, desesperados. São planos que não se cumpriram, famílias destruídas, crianças órfãs, cidades inteiras arruinadas. É mais, muito mais do que podemos calcular.
Não, por favor, não são números. Nunca poderão ser.
Eram, são, somos pessoas. Criados e sonhados por Deus. Cada um para quem o Pai concedeu seu sopro de vida. Homens, mulheres e crianças por quem Jesus Cristo morreu naquela cruz.
Sonhos interrompidos.
Há lágrimas nos céus. Angústia, dor e luto no coração do Pai, que vê sua criação sucumbir diante da fúria de uma catástrofe.
E nós. Não podemos ser apenas espectadores, leitores e analistas dos fatos que chegam pela mídia. Não podemos passar por mais essa sem nos comover. Não, não dá para encarar a tragédia com a mesma normalidade e inércia do mais recente aumento de 0,25 pontos percentuais na taxa de juros nominais. Que se danem os juros!
Não importam os dados, importam as pessoas.
Precisamos ter o coração de Deus. O Deus que rasgou o céu, o tempo e a eternidade para resgatar aqueles a quem ama. O Deus que se sacrificou e levou a dor da humanidade em seus ombros. O Deus que deixou o mandamento para que os seus filhos sejam na terra o que ele mesmo é.
Devemos resgatar o caráter e a atitude de Cristo, que são nosso exemplo e direção de vida.
E hoje, vale, muito mais que palavras, a intercessão sincera, seja em oração, em donativos ou em atitudes. Vale, mais que um sermão, ser mão estendida para ajudar.
“Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’. “Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’. “O Rei responderá: ‘Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’.” (Mateus 25:34-40).
Lições de Eclesiastes
Ainda influenciado pelas lições de Salomão postadas na última semana, estou há alguns dias encarando esses versículos e tentando entendê-los. Mas não dá. Tem coisas que simplesmente são o que são e tem conclusões que, no fim das contas, só nos deixam com as mesmas dúvidas. Para quem procura por respostas, penso eu que tais frases só nos levam, uma vez mais, a uma única Verdade.
“Percebi ainda outra coisa debaixo do sol:
Os velozes nem sempre vencem a corrida;
os fortes nem sempre triunfam na guerra;
os sábios nem sempre têm comida;
os prudentes nem sempre são ricos;
os instruídos nem sempre têm prestígio;
pois o tempo e o acaso afetam a todos.”
Sobre a velhice, rotinas e prioridades
por Luiz Henrique Matos
Eu nem posso dizer que não haviam me avisado. As frases-feitas me passam pela mente como verdades nas quais eu não quis acreditar. “O tempo voa”, “vixe, passa rápido”, “aproveite agora”, “você vai ver como cresce rapidinho”… eles tinham razão.
No mês passado ela fez um ano. Já fez um ano! Corre para todo lado, balbucia as primeiras palavras, arrasta os brinquedos pela sala, faz as manhas de todo neném quando quer algo e engorda e cresce em ritmo de gado novo. O que eu posso fazer? Nada, nem sei por que pergunto. Os cabelinhos encaracolados, a pele branca, bochechas gordas, a boquinha rosa… Nina, meu neném, até há pouco tempo totalmente dependente, agora é uma pessoinha cheia de vontades, uma menina, criança, que daqui a pouco cresce e cresce mais. E assim vai. Quando se vê, já foi.
Passa rápido demais. E percebo que tem coisas dos últimos anos que se misturaram na memória. Vi-me mais uma vítima de outra verdade, a de que depois dos dezoito os anos já quase não se contam. E ficam esparsos, cada vez mais, os momentos memoráveis do dia-a-dia. A praga da rotina.
Não, não reclamo da vida. Ela é boa demais da conta. Tenho esposa, uma filha, trabalho. Tenho Deus, meu Senhor e Pai. Minha família e meus amigos. O que paro pra pensar é na rotina – sempre ela – e nos dias que insistem a passar, na parte da vida que se contam nas horas, que observo já vivida, lá atrás, através do retrovisor do carro que dirijo em primeira marcha no trânsito caótico dessas nossas avenidas.
Também não vou me iludir, o auto-engano é frustrante demais. Sei que as coisas continuarão como são e assim sempre serão. Mas eu não. Quero fazer diferente.
E isso passa pelos momentos memoráveis, daqueles mais simples, de um dia de boas risadas, boa comida, de descompromisso.
É o que eu quero. Estar com minha família e aproveitar. Lembrar que os recursos mais valiosos são aqueles para os quais dedico mais tempo. Jesus disse: “onde estiver o seu coração, ali estará o seu tesouro”. Falta agora um pouco dessa ordem em mim.
Deus, família, trabalho, igreja… tudo tem sua ordem, seu tempo, valor. Mas mais do que uma fração de minutos ou dias, importa a qualidade e não a quantidade que se emprega.
Para entender esse valor, recordo das boas marcas e lembranças. São essas coisas que quero viver mais. Em casa, à mesa, na rua, no chão, na estrada, à mesa, de mãos dadas. Sei que sou mais do que o acaso. Sei, em Deus, que existe um propósito para a vida. E eu gostaria de envelhecer e saber que cumpri com integridade minha jornada, o bom caminho. Mas não só. Se for assim não tem graça. Bom será saber que o fiz ao lado daqueles a quem amo.
Todos lá sentados num gramado de verde quase escuro, numa tarde de sol brando e céu azul, ao lado do pomar, em frente à casa de madeira clara, o cão correndo pelo jardim, as crianças brincando na terra, os adultos brincando na terra, uma boa rede estendida, a mesa posta com toalha branca embaixo da árvore cujo galho serve de sustento para o balanço de pneu de caminhão, o suco fresco servido gelado, a moça grávida sonhando com os dias da nova vida que carrega no ventre ao lado do marido que lhe acaricia os cabelos, o cheiro de café coado e recém fervido no bule invadindo o ar… e a certeza de que isso não nos custa mais do que um bom sonho.
Salomão sabia das coisas. Já idoso, no fim da vida, tratou de registrar o que observou para que pudéssemos aprender alguma coisa.
“Portanto, vá, como com prazer a sua comida e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. Esteja sempre vestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo. Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol. O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria.” (Eclesiastes 9:7-10).
E penso, decido agora, que não vou eu esperar o fim da vida para chegar às mesmas conclusões que o sábio rei. Posso e vou fazer agora, aquilo que de fato tem valor. Quero ser o homem rico, cheio do tesouro que realmente interessa e vale a pena acumular.
Meu coração está no meu tesouro.
E confesso que às vezes eu queria mesmo é que o tempo não passasse assim de forma tão brusca. Que minha menina pudesse caber em meus braços para sempre. Que eu conseguisse me manter o humor do garoto que conquistou o coração da moça mais bonita, que um dia me disse o “sim” definitivo num altar. Tanta coisa. É bobagem minha, tempo gasto à toa. Importante é o que posso fazer desde agora.
Deus não faz um só dia igual ao anterior. Não tem amanhã que possa ser previsto e também não existe ontem que possa ser vivido outra vez. E acho mesmo que para o amor, hoje é nosso melhor momento. O que faço agora é o semear do fruto que colherei daqui a pouco e também lá na frente. E minhas prioridades revelam meus valores, me revelam.
O resto, Salomão me ensinou, é correr atrás do vento.
“Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos, porque isso é o essencial par ao homem.” (Eclesiastes 12:13).
A frase de Santo Agostinho
Em casa tenho uma estante de livros. Às vezes fico de bobeira, olhando e arrumando meus exemplares. Folheio os novos que comprei e ainda não li. Evito os mais antigos cuja leitura abandonei na metade com o compromisso de terminar em breve e que até agora não fiz. Hoje cedo, num desses momentos, folheei um clássico que surrupiei na biblioteca dos meus pais. E me deparei com isso.
“Criaste-nos para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós.”
– Santo Agostinho em “Confissões”
Frases de Borges
Que coisa boa é ler a verdade transcrita por uma pena tão nobre e talentosa. Foi em migalhas e frases que fui lendo textos de Jorge Luis Borges até conhecer a coleção de contos de “O livro da areia”. Desde então gosto cada vez mais de sua obra.
No último ano, em visita à sua cidade natal, comprei um exemplar original em espanhol de “El Aleph”, mas ainda não me atrevi a ler (detalhe não importante: não sei espanhol).
Bem, direto ao ponto, peço desculpas por não lembrar onde foi que achei essa primeira tradução com um trecho de “Fragmentos de um Evangelho Apócrifo”. Vale a leitura.
Feliz aquele que não insiste em ter razão, porque ninguém tem ou todos têm.
Feliz aquele que perdoa aos outros e aquele que perdoa a si mesmo.
Bem aventurados os mansos, porque não condescendem com a discórdia.
Que a luz de uma lâmpada se acenda, embora nenhum homem a veja. Deus a verá.
Não odeies teu inimigo, porque, se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que tua paz.
Outra, que li há pouco, está no site Releituras. É um trecho do texto “Uma oração”.
A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios.
Bom fim de semana!
Uma resposta
por Luiz Henrique Matos
“Minha resposta é o amor”.
Lá do fundo do salão, eu observava a quantidade de pessoas com os braços levantados, respondendo a um convite que pedia que se manifestassem aqueles que passavam por um momento de dificuldade ou dor.
Uma voz, sobrepondo todos os meus pensamentos momentâneos, me martelava a mente, falando algo sobre o amor e sobre respostas.
Vendo aquilo, me questionava como é possível, no meio da igreja, tantas pessoas ainda lutarem diariamente contra o sofrimento. Estou errado, eu sei – isso é uma questão circunstancial, pessoal e nada prática – mas às vezes me parece antagônico.
“Hoje eu trago respostas. A partir de agora eu planto em cada coração o meu consolo, uma nova direção e a minha providência”.
Enquanto via aquelas pessoas, ainda que por alguns segundos, fui levado a um pensamento sobre a vida de cada um. Afinal, quem eram eles? Do que sofriam? Não eram os mesmos que ainda há pouco participaram da ceia e cantaram em gratidão ao bom Deus?
Eu olhava aquela multidão e até o fundo era possível ver algumas dezenas de mãos erguidas. Alguns rostos eram conhecidos e eu já vira em outros domingos, outros eu nunca tinha visto.
O homem na cadeira à minha frente levantou o braço direito. Parecia um pouco constrangido em admitir que precisava de ajuda. Mas ele precisava de ajuda! O que ele tem? Sua mão levantada era um pedido de socorro. Estava com a mulher e dois filhos. Eu não o conheço. Do que ele precisa?
“Minha resposta é o amor”.
Convenço-me cada vez mais de que a igreja é uma comunidade de doentes se prestando a ajudar uns aos outros. E meu espanto vem em parte porque noto que somos curados à medida que ajudamos outros a vencerem suas batalhas e obterem auxílio em suas dores.
Em grande parte, foi o que Jesus fez. Em seu sofrimento, permitiu que fôssemos resgatados e salvos.
“Minha resposta é o amor”.
Deus falava com sua voz pungente em meu coração naquela manhã de domingo. E sua manifestação (sim, eu acredito nisso) fazia meu peito arder em compaixão. Por um instante, pude ver com seus olhos e saber que a dor de seus filhos, faz o Pai se retorcer em angústia e desejo em ajudar. Acima do bem e do mal, ele ama. Deus é amor.
Agora, três dias depois, reflito sobre aquela situação tentando entender que sentido tem eu saber e ouvir uma resposta quando o clamor desesperado vinha de outros corações.
“Escreva”, sugeriu meu amigo-conselheiro. Não gosto. Prefiro guardar esse tipo de experiência para mim. Falar sobre assunto assim me parece polêmico, exibicionista e algo dotado de certo orgulho próprio. Mas eu cedi.
Enquanto penso sobre aquele momento, percebo a intenção paterna me incomodar outra vez a mente. E para mim a resposta vem em saber que pela fé somos levados a acreditar no poder curador e consolador do nosso Deus. No entanto, na prática, ele nos mostra que sua manifestação se dá através do toque de nossas mãos e das palavras de consolo que saem dos nossos lábios.
Temos a Deus. Deus é amor. E somos a sua resposta uns para os outros.
“Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele. Dessa forma o amor está aperfeiçoado entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro. Se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ele nos deu este mandamento: Quem ama a Deus, ame também seu irmão.” (1 João 4:16–20).
(Escrito para coluna no site ComunidadeCarisma.net)
Frases sobre o futuro
Hoje, passando o dia numa reciclagem profissional, me deparei com duas frases de pensadores da cultura corporativa, mas que no instante me levaram a pensar sobre minha espiritualidade, sonhos e futuro.
“Se você quiser ter alguma certeza sobre o futuro, trate de construí-lo.”
– Peter Drucker
“O maior perigo para o sucesso no futuro é o sucesso do passado.”
– Alvin Tofler
O que me levou a um outra frase, essa de um grande líder cristão coreano, que ouvi há alguns meses:
“Me diga qual é a sua visão e eu te direi aonde você vai chegar.”
– Paul Yonggi Cho
A construção das Escrituras

Uma citação de Borges:
Clássico é aquele livro que uma nação ou um grupo de nações ou o extenso tempo decidiram ler como se em suas páginas tudo fosse deliberado, fatal, profundo como o cosmos e capaz de interpretações sem fim. Não é, repito, uma obra que possui estes ou aqueles méritos; é um livro que as gerações dos homens, impelidas por diversas razões, lêem com prévio fervor e com misteriosa lealdade.
– Jorge Luis Borges, Sobre os clássicos (1952)
E segue, o comentário do Paulo Brabo em sua Bacia das Almas. Um texto sobre a construção literária da Bíblia e as referências e interpretações cruzadas nos livros que compõem as Escrituras.
Mesmo os que asseguram que a Bíblia tem um único autor não negarão o fato de que o livro não foi escrito de uma única sentada. Fica claro que, em muitos sentidos, a composição do livro foi um processo, uma longa agonia em que o responsável por cada pequena porção deixou uma contribuição que, na maior parte das vezes, procurava não ignorar o que já havia sido dito. Os estatutos legais deitados nos livros de Êxodo e Levítico, por exemplo, são retabulados e expandidos, com diferentes ênfases, em Deuterônomio; as mesmas leis são interpretadas de maneira inusitada, mas não totalmente arbitrária, pelos profetas – mil páginas ou anos depois. A isso, que os teólogos chamam de revelação progressiva, alguns estudiosos do mesmo texto vêem como evidência de um longo processo de transmissão, adaptação e reutilização de um grupo central de tradições.
O mundo e a igreja
O mundo pode fazer quase tudo tão bem ou melhor do que a igreja. Não é preciso ser cristão para construir casas, alimentar o faminto ou curar os enfermos. Há apenas uma coisa que o mundo não pode fazer. Ele não pode oferecer graça.
– Gordon MacDonald
