Hemingway e a escrita

Ernest Hemingway

Ernest Hemingway

“Quando um homem tem a habilidade de escrever e o desejo de escrever, não há crítico que possa causar danos a seu trabalho se este for bom, ou salvá-lo se for ruim”.

“No início da carreira, o autor obtém um enorme prazer com aquilo que escreve, e o leitor, nenhum. Passado um tempo, tanto o escritor quanto o leitor obtêm um prazer pequeno. Finalmente, se o escritor tiver realmente alguma qualidade, ele não obterá o mínimo prazer, e o prazer total caberá ao leitor”.

“Um livro sobre o qual você fala é um livro que você não escreve”.

“Não há temas contemporâneos. Os temas sempre foram o amor, a ausência deste, a morte e a fuga ocasional e temporária dela, a que damos o nome de vida, a imortalidade ou a mortalidade da alma, o dinheiro, a honra e a política”.

Frases do escritor Ernest Hemingway, em citações extraídas do blog Máquina de Escrever, no portal G1.

Aliás, vale dizer, seus romances são melhores do que as citações. Gosto especialmente de Verdade ao Amanhecer.

Uma música para a segunda-feira

Duas versões para a mesma música. Interpretações primorosas para a canção Hallelujah, de Leonard Cohen.

No primeiro vídeo, K. D. Lang e, mais abaixo, Jeff Buckley.

Boa semana!

O custo da religião

As pessoas não percebem o custo da religião. Pensam que a fé é um cobertor aconchegante, quando na verdade é uma cruz.

Flannery O’Connor

Fonte: Canto do Jó

Instantes eternos (Max Lucado)

NatGeo

“Trata com bondade o teu servo, Senhor, conforme a tua promessa”. Salmos 119:65

Instantes eternos. Você os teve. Nós todos os tivemos.

Compartilhar a balança da varanda em uma noite de verão com seu neto.

Ver o rosto dela no brilho de uma vela.

Colocar seu braço no do seu marido enquanto você passeia por folhas douradas e respira o ar fresco do outono.

Ouvir seu filho de seis anos agradecer a Deus por tudo desde o peixe-dourado até a vovó.

Tais momentos são necessários porque eles nos lembram que tudo está bem. O Rei ainda está no trono e a vida ainda merece ser vivida. Os instantes eternos nos lembram que o amor ainda é o maior bem e o futuro não é nada a temer.

Da próxima vez que um instante na sua vida começar a ser eterno, deixe que ele seja.

Texto de Max Lucado publicado no Irmaos.com

Abba!

Tudo começou quando Jesus me ensinou a invocar a Deus usando a expressão Abba. Os historiadores, Joachim Jeremias, por exemplo, afirmam que abba era a palavra do dialeto siro-ocidental aramaico que uma criança usava para se referir ao seu pai. O Talmud, comentário rabínico da Torah, diz que “quando uma criança saboreia o trigo, aprende a dizer abba e imma”, querendo dizer que “papai” e “mamãe” são as primeiras palavras de um pequeno recém-desmamado que está aprendendo a falar. Na verdade, a melhor tradução para abba seria “papa” ou mesmo “pa”, algo como o mero balbuciar, assim como para imma, seria “mama” ou simplesmente “ma”.

Trecho de “A oração de uma palavra só”, texto de Ed René Kivitz para a Cristianismo Hoje.

Donald Miller – Fé em Deus e pé na tábua

Through Painted Deserts

Through Painted Deserts

Quando termino de ler algum livro, é como se uma fase diferente terminasse em minha vida. Desde sempre foi assim, mas até hoje nunca havia me dado conta disso. Quando termino de ler algum livro de que gosto, eu preciso ainda de alguns dias para voltar à antiga realidade e assimilar as marcas – sutis ou profundas – que aquela experiência produziu em mim.

Li o primeiro livro de Donald Miller, “Fé em Deus e pé na tábua”, sem muito entusiasmo até a primeira metade – o que me fez demorar mais do que o normal para concluir a leitura. No começo, achei a história cheia de detalhes desnecessários e sem significado. Mas depois de narrada a experiência no Grand Cannion, comecei a me apegar ao livro. A partir dessa altura, o autor começa a detalhar suas reflexões e o ensaio vai tomando forma no contexto de sua história (dois amigos, ele e Paul, que resolvem deixar a vida no Texas e viajar em uma Kombi pelo interior dos Estados Unidos até chegar no Oregon), com tudo se ajeitando e as conclusões ficando mais claras.

Admito que ainda prefiro o segundo livro, “Como os pingüins me ajudaram a entender Deus”, que li no começo do ano passado (e é muito bom apesar do título que a editora deu para a versão em português) e está sendo adaptado para o cinema, numa parceria entre o próprio Miller e Steve Turner, autor de “Cristianismo Criativo?”.

Ultimamente, seus livros estão entre meus preferidos. Suas idéias não são novas, já as li em outros autores e, se consideradas apenas do ponto de vista teológico, não se aprofundam. Mas ele mesmo afirma que não quer falar de teologia, mas de um ponto de vista. E em seu ponto de vista e, muito mais, no estilo de escrita, Donald Miller é um grande autor. Seu texto tem a qualidade e o ritmo que poucos autores conseguem atualmente – e nenhum entre o que escrevem sobre espiritualidade. É o tipo de influência que os “artistas cristãos” (seja lá o que isso signifique exatamente) precisam em nossas igrejas.

No mais, resta torcer (e fazer alguma ‘pressão’) para que a Thomas Nelson, editora do escritor nos EUA com sede no Brasil, se habilite a publicar outros de seus livros em português (“To Own a Dragon”, “Searching for God knows what” e “A Million Miles in a Thousand Years” ainda não lançado nos EUA).

Aos interessados em materiais produzidos pelo escritor, recomendo o site oficial (www.donmillerwords.com), a revista eletrônica dirigida por ele (www.burnsidewriterscollective.com), seu blog (www.donmilleris.com) e, mais recente, o twitter (www.twitter.com/donmilleris).

Conseguindo, postarei por aqui alguns trechos que destaquei enquanto lia.

– LHM

O amor absurdo

Ele é Deus e não precisava ser fiel. Mas ele é, sempre é. Ainda que não sejamos.

Ele é Deus e não deve satisfação a ninguém. Mas ele dá. E se você não entender, ele explica outra vez em parábolas.

Ele é Deus e não precisa sofrer, porque o mundo, afinal, está sujeito ao seu poder. Mas ele sofre para nos mostrar que é possível superar a dor. Ele chora pelo amigo que morreu.

Ele é Deus e não precisaria nos dar nada. Mas ele provê, ele restaura, presenteia, abençoa, mima, agracia, facilita as coisas.

Ele é Deus e nós somos criação sua.

Ele, que é soberano e eterno, é quem se entrega e doa de si para provar a nós, seres tão pequenos e limitados, o seu amor absurdo.

Ele ama. Ele é amor.

– LHM

O Paraíso é uma espécie de livraria

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

“Sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de livraria”

Jorge Luis Borges

A frase é antiga, mas nunca tinha colocado aqui. Me faz lembrar uma viagem que fiz a Buenos  Aires em 2007 e a livraria que visitei na ocasião – ver no post “Paraíso na Terra”.

Faz lembrar também outras quatro coisas importantes para postar aqui hoje:

1. Semana passada tivemos o dia internacional do livro. E para a ocasião, um excelente vídeo foi produzido pelo pessoal do blog Ler Devia Ser Proibido.

2. O site Trocando Livros tem feito um trabalho bem legal. Você se cadastra e escreve os livros que deseja trocar. Quando alguém solicita um livro seu, você envia pelo correio e ganha um crédito. Esse crédito te dá direito a pedir qualquer livro que outro usuário tenha cadastrado no site. Eu uso e recomendo.

3. A iniciativa do Sérgio Pavarini, do PavaBlog, em lançar o mob de leitura “Livros só mudam pessoas”. Além de um blog muito bacana sobre literatura, tem boas iniciativas, campanhas e distribuição de exemplares para os seguidores. Eles estão no Twitter (@livrosepessoas) também.

4. Bookcrossing. Expressão antiga para os meios digitais, mas muito pertinente para nossos tempos em que termos como sustentabilidade, crise e educação estão sempre em pauta.

É isso. Bom feriado a todos. Semana que vem espero que a loucura diminua um pouco e eu consiga voltar a postar crônicas por aqui.

LHM

O que (não) estou lendo

Eu e minha irritante mania de ler vários livros ao mesmo tempo. E não terminar nenhum tão cedo quanto gostaria. Dos atuais, na ordem, estou com essas “pendências” de cabeceira. Todos excelentes.

O mais recente eu comprei ontem, “As memórias do livro”, depois de entrar numa livraria com um amigo e ouvir dele enquanto apontava um exemplar:

– Meu sogro escreve e está lendo esse livro. Ele disse que pela primeira vez na vida sentiu inveja de um autor.

Comprei um exemplar na mesma hora. E agora administro a ansiedade entre as prioridades na leitura.

Alguém aí sabe resolver isso?

As origens da Bíblia na internet

As origens da Bíblia na internet

Codex Sinaiticus, que contém partes da Bíblia, está disponível na internet.

http://www.codexsinaiticus.org

Um dos mais importantes livros da História acaba de chegar à internet. É o Codex Sinaiticus, uma obra escrita no século 4 e que contém partes do Antigo Testamento e a versão completa mais antiga que se conhece do Novo Testamento. Especialistas reuniram os vários trechos do livro, que estavam na Inglaterra, na Rússia, na Alemanha e no Egito. Os primeiros trechos, em inglês e alemão, entraram no ar em julho, e a versão integral estará disponível até 2009.

Fonte: Revista Aventuras na História

Coisas modernas?

Quando o todo se encontra em mau estado, é impossível que as partes se comportem bem. É da alma que vêm para o corpo todos os males e todos os bens. É pois da alma que é preciso cogitar, tratando-a antes de tudo. constitui erro hoje disseminado entre os homens, procurar curar separadamente a alma ou o corpo.
Platão

Fonte: citação impressa no rodapé do receituário do meu médico  :)

Da vida eterna

Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida,
somos os mais infelizes de todos os homens.
– Paulo, em 1 Coríntios 15:19

E o futuro, a quem pertence?

por Luiz Henrique Matos

Sementes (crédito: pictoscribe)

Estava pensando na minha filha ainda há pouco. Pela manhã eu olhei o tamanho que ela já está, os dois anos que passaram tão rápido e essas coisas de todo pai. A preocupação bateu quando tentei imaginar essa menininha já adulta, daqui alguns anos, construindo sua família e tudo mais.

E somado a isso, andei pensando também nessa coisa toda de aquecimento global, corrupção, violência, fome e pobreza. O mundo anda cada vez mais complicado. Parece-me que à medida que se amplia o acesso às informações sobre o caos em que estamos vivendo, cresce também a voracidade com que essa desigualdade se agrava.

E eu pensei na Nina outra vez. Que será do mundo quando ela já for adulta? Vai saber… Eu fico com um certo receio em pensar no tipo de prato que meus netos comerão à mesa, do ar que vão respirar, o tipo de proteção métodos de segurança que precisarão seguir antes de sair na rua. Tanta coisa.

Geralmente quando penso no legado que poderei deixar para meus filhos e netos, me vem à mente experiências, aventuras, princípios, erros e acertos que eu tanto gostaria de que se lembrassem. Penso também nos recursos materiais que me esforço para guardar e que poderão lhe garantir algum conforto. Mas esqueço do mundo.

Quer dizer, eu lembro de ensinar a Nina que ela precisa dividir seus brinquedos, ser “boazinha” e doar o que não usa. Eu procuro dar o exemplo fazendo alguma coisa. Mas é pouco, muito pouco.

O mundo, termo que generaliza pessoas – que é termo que generaliza o José, o Mohamed, o John, o Akira, o Makelele e cada ser humano que respira nesse planeta. Pois bem, o mundo precisa de algo mais de mim. Eu preciso fazer mais por ele, por todos.

Coisas simples. Se me foi dada uma condição de vida melhor que de meus semelhantes, então eu posso doar mais. Se eu aprendi a fazer algo que pode ajudar outros a se desenvolverem, então eu posso ensinar. Se… pois é, existem várias alternativas em minha mente, mas o gesto mais simples de estender a mão ao próximo é um passo que precisa ser dado. Como diz a sabedoria popular: comece limpando a sua calçada.

Sou cristão. Não digo isso porque acho que esse fato me garanta alguma condição especial. Pelo contrário, acho que minha crença me obriga a seguir um exemplo e alguns mandamentos a respeito de amor, generosidade, hospitalidade, doação, serviço, compaixão e entrega, que constam de forma enfática nos livros sagrados.

Há algum tempo, um amigo me falava sobre essa questão de plantar e colher. Está na Bíblia, mas é basicamente a velha regra natural da agricultura: o que você planta hoje, colhe amanhã. Às vezes o amanhã não é literal, às vezes quem vai colher o fruto dessa semente que lançamos não somos nós, mas outra pessoa, outra geração. Isso vale para gestos, coisas, investimentos – e plantas, evidentemente.

Até poucos meses, nosso mundo vinha passando por um período de bonança que há muito tempo não se via. Abundância de recursos, dinheiro, crédito, todo mundo esbanjando e aproveitando sua prosperidade. Tudo, segundo essa conversa com meu amigo, fruto de boas sementes plantadas lá atrás.

Pois é, mas acontece que nossa colheita também produz coisas. A maneira como arrancamos tais “frutos”, sem deixar a terra pronta para receber novas sementes, sem regar um pouco, pode impedir o novo plantio. Ficamos tão afobados em aproveitar a boa onda que deixamos de lado nossa obrigação em preservar para o futuro.

E a Nina, o que ela vai colher? Bom, tudo depende do que eu decidir plantar hoje.

(crédito da foto: flickr de pictoscribe)

Três da tarde (Max Lucado)

O céu está em lágrimas. Ouve-se o balido de um cordeiro. Lembra a hora do grito? “Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz…” Três da tarde, hora do sacrifício no templo. Menos de uma milha a leste dali, um sacerdote ricamente vestido conduz um cordeiro ao sacrifício sem saber que seu trabalho é em vão. O céu não está olhando para o cordeiro dos homens, mas para “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. (João 1:29)

Max Lucado

Fonte: devocional do Cristianismo Hoje

Frase: G. K. Chesterton

Uma das grandes desvantagens de termos pressa é o tempo que isso nos faz perder.

G. K. Chesterton

Citado por Francisco Madia em sua coluna no Propaganda & Marketing

Donald Miller – Três bênçãos

Fui criado acreditando que a qualidade da vida de um homem aumentaria muito não com a obtenção de status ou sucesso, não pela experiência da paixão ou por causa da prosperidade no trabalho ou na academia, mas com sua proximidade de Deus. Perturba-me saber que a vida cristã é simples assim. O evangelho – as boas novas – é algo simples, mas é o portão é o início da trilha. Resolver os conflitos da falta de fé é um trabalho duro. Deus deu três bênçãos ao homem: alimentá-lo como os pássaros, vesti-lo como as flores e ser seu amigo mais íntimo. Gente demais fica com as duas primeiras e ignora a terceira. Mais cedo ou mais tarde, você descobre que a vida é criada específica e brilhantemente para colocar o homem em ligação com o Senhor do Céu. É um esforço, com dores de parto e acidentes de percurso, mão cobertas de sangue e testa suada, a cabeça nas mãos, momentos de grane solidão e questionamento, momentos de dor e desejo. Tudo isso leva a Deus, imagino.

Donald Miller, “Fé em Deus e pé na tábua”, p. 130

Um recado para os adultos

Bom fim de semana a todos.

Calvin - Um recado para os adultos

Calvin - Um recado para os adultos

Fonte: Pavablog

Samaritana

por Luiz Henrique Matos

Jesus e a mulher samaritana

Jesus e a mulher samaritana

Era meio-dia. Cansado, Jesus senta-se à beira de um poço em que uma mulher está tirando água. Ele conversa com ela, uma samaritana, pede um pouco d’água. Ela dá, contrariada, confusa, ele era um judeu e lhe dirigia a palavra. Ele diz que se ela quiser, tem para oferecer a água da vida, que pode saciar a sua sede para sempre. Ela pede dessa água. Ele fala que não são os cinco homens com quem ela já viveu que poderão responder às suas dúvidas, não é aí que está a resposta. Ela se espanta, o chama de profeta, quer saber como e para onde pode dirigir suas orações. Ele fala que Deus procura seguidores sinceros, adoradores verdadeiros. E aí a história segue… E no fim, ela evangeliza sua cidade inteira.

A água da vida. Só Ele pode nos saciar.

Cenas domésticas – Herbalife

por Luiz Henrique Matos

Centro de São Paulo, rua lotada, multidões de pessoas se empilhando por todo lado e ambulantes vociferando suas ofertas de produtos piratas.

Nesse embaraço, o pai a carrega no colo já há quase uma hora. O braço cansado, a coluna pendente, as pernas fracas, o suor em bicas. Ela já tem dois anos. Ela já tem quase 15 quilos. Ela sorri. Está tudo bem.

Ela para de olhar a rua por um segundo, sonda o rosto do pai, o fixa nos olhos, passa os dedos pela barba e com os dedinhos juntos aperta-lhe as bochechas enquanto exclama sorridente:

– Gordinho!

Era só o que me faltava.

Em defesa da crise

por Luiz Henrique Matos

Wall Street

Wall Street

Por outro lado, essa crise até que é boa. “O mundo andava muito cafajeste” disse uma mulher numa entrevista recentemente. É verdade. O consumo desenfreado, a ganância das empresas, os lucros estratosféricos, a falta de consciência. Estávamos tomando decisões sem medida, sem pesar conseqüências, sem pensar no futuro. Afinal, pensar no futuro era ganhar muito dinheiro agora.

Mas as bolhas sempre estouram. E quando uma coisa estoura – bolhas ou bombas –, existe o efeito natural e físico de o que está dentro se misturar e afetar o que está fora.

É claro que não estou falando das pessoas que estão sem casa, dos pais de família desempregados e todas as tragédias. Isso é lamentável, é doloroso, é algo que os que estão sendo menos afetados – ou que, incrivelmente, estão incólumes nesse tempo – precisam observar para ajudar de alguma forma.

Mas é aí justamente que pode estar um ponto de mudança positiva. Não na tragédia mas no seu efeito sobre nós.

Talvez, o estouro dessa bolha, produza em nós uma atitude mais consciente.

Talvez a gente pare para pensar. Talvez percebamos, só agora, que precisamos cuidar do planeta, que precisamos controlar o aquecimento global, que não precisamos de uma TV de plasma ou LCD – ou saber a diferença entre uma coisa e outra –, que podemos gastar menos, doar mais, ajudar o vizinho que perdeu o emprego, cuidar do carro, talvez percebamos que a internet de oito megabytes por segundo serve tanto quando a de um, que o jeans de dois anos é mais confortável do que o da vitrine, que se o tênis for lavado vai ficar parecendo novo, que as “suaves prestações” prometidas pelos grandes magazines nunca foram, na verdade, tão suaves assim.

Talvez descubramos que podemos reformar as coisas ao invés de trocar por uma nova, que a boa refeição feita em casa junto com os amigos é mais aconchegante e gostosa do que a do restaurante caro, que bons livros podem ser comprados em sebos ou emprestados em bibliotecas, que precisamos passar mais tempo em casa porque, afinal, todo o tempo que passamos correndo atrás de dinheiro acabou não dando em nada. Ou melhor, deu sim, veja só no que deu…

Talvez percebamos que o dinheiro é algo que existe para nos servir e não o contrário. Talvez o que é “talvez” seja uma oportunidade.

A crise é dura. É como uma onda forte, inesperada, que chega varrendo tudo e tirando coisas do lugar. Mas quando passa, a água limpa e tira alguns excessos.

E no fim, logo ali na frente, tenho fé, sairemos dessa ainda mais fortes. Alguns antes do que outros, mas todos, certamente, mais conscientes quanto ao seu papel nesse mundo.

“Há quem dê generosamente, e vê aumentar suas riquezas; outros retêm o que deveriam dar, e caem na pobreza. O generoso prosperará; quem dá alívio aos outros, alívio receberá.” (Provérbios 11:24 5 25).

O dinheiro pode ser santificado, quando ajuda a salvar pessoas

Se me dissessem que essa entrevista era o depoimento de um pastor ou líder religioso, eu não veria diferença. Mas o espanto (no bom sentido) é notar que tais declarações foram dadas por um dos poucos (dá para contar nos dedos) bilionários deste país – até o ano passado, figurava na lista de homens mais ricos do mundo publicada pela revista Forbes. Abaixo, estou copiando alguns trechos da entrevista que Elie Horn, dono da construtora Cyrela, concedeu à revista EXAME (edição que saiu ontem nas bancas).

Boa leitura e bom fim de semana.

Sobre a crise

Desde que a crise começou, já ouvi palestras e conversei com uns 100 especialistas. A verdade é que ninguém consegue prever nada. Para mim, é uma lição divina para a humanidade: “Fique mais quieto, não seja arrogante, seja mais humilde, não pense só no lucro”.

Não sabíamos com que intensidade nem com que rapidez, mas sabíamos que a tempestade chegaria. Quanto mais perto a crise chegava, mais eu me dedicava a entendê-la. Mas valeu a pena. Se amanhã ficar claro que erramos um pouco nas previsões, podemos até perder um pouco de participação de mercado. Mas é melhor perder mercado do que perder as calças.

Sobre erros

Errar é humano, perseverar no erro é diabólico. Se você repete um erro, você é burro.

Calo a boca, tento aprender com os erros e faço outra coisa. Estou acostumado a perder e seguir em frente. Se não for humilde, vou apanhar mais. O humilde sofre menos porque está acostumado a apanhar. Tive uma aula (de religião) muito boa ontem. O que é este mundo? Por que Deus o criou? A resposta é: teste. Sou testado o tempo todo como homem, pai, marido, empresário, construtor. O teste consiste em evoluir, cada um na sua profissão, e deixar o mundo um pouco melhor do que quando chegamos a ele. Deus criou o homem imperfeito de propósito, para que ele possa melhorar o mundo. Se você acerta mais do que erra, você já evoluiu. Se for o contrário, você é um desastre.

Sobre Deus e o dinheiro

Deus cria seres diferentes, com credos diferentes, para cada um, no fim, chegar a Ele à sua maneira. Acredito em Deus e na missão humana. Qual a minha missão nesta Terra? Primeiro, fazer o bem. Grande parte do meu patrimônio, não vou dizer quanto, irá para a caridade. Meu pai doou 100% do que tinha. Como isso dá um significado ao trabalho? Eu posso transformar o produto do trabalho em dinheiro e depois usar o dinheiro para ajudar pessoas menos favorecidas. O dinheiro pode ser santificado, quando ajuda a salvar pessoas.

Não. Estamos aqui com a missão de ligar o espiritual ao material. Na hora em que você ganhou um tostão e esse tostão ajuda a salvar uma criança, você santificou e dignificou o dinheiro fruto de seu trabalho. Nessa hora, tudo o que parece ser egoísta deixa de ser.

Parte da minha missão é fazer com que o homem se aproxime mais de Deus. Hoje ser crente está um pouco fora de moda, mas isso está errado. A gente não pode ter vergonha de acreditar em Deus. Se todos os homens fossem mais religiosos e respeitassem a ética e o bem, não haveria tanta violência no mundo, nem maldade nem pobreza. O que precisamos é fazer com que isso aconteça. Não é tão fácil, não é tão óbvio e não está na moda também. Mas essa é a nossa missão.

Pobres ateus!

Do texto abaixo, eu tentei selecionar um trecho para destacar, mas não consegui. Ele todo é sensacional e merece não apenas leitura, mas apreciação.

Antes, o crédito: é de Ariovaldo Ramos.

Pobres ateus!
Disseram-me que o ateísmo está crescendo.
Fiquei a pensar… Quem quer o mundo oco e solitário dos ateus?
Não eu!
Eu quero o mundo povoado dos cristãos, dos judeus, dos muçulmanos, dos animistas…
Quero um mundo onde a gente não esteja só.
Um mundo com anjos de pé e caídos.
De entidades, de elfos, de mística, de mágica, de mistérios…
Quero o mundo onde os tambores invoquem.
Onde a multidão de línguas estranhas dos pentecostais façam os seres da escuridão retroceder.
Quero o mundo que produziu Beethoven que, surdo, dizia ouvir a música que Deus queria escutar, a quem aplaudiu na nona.
Que desafiou Mozart a zombar de Deus enquanto, qual o profeta Balaão, só conseguia emitir os sons que boca de Deus entoa!
Quero o encanto catártico de Haendell gritando ALELUIA! de forma arrebatadora!
A beleza de Bach nos fazendo ver a paz da Família Eterna.
Quero mundo das lindas e majestosas catedrais e dos pregadores das praças, das esquinas, dos caminhos…
Da riqueza sonora profunda dos cantos gregorianos e dos vociferantes pregadores: convocando os homens a mudar e o Espírito Santo a se levantar contra o mal.
Quero o mundo que faça um ser humano, diante a pior das borrascas, ver o seu salvador andando sobre o mar, anunciando a possibilidade.
Aquele em que o guerreiro, diante da incerteza, se ajoelha perante o Eterno e se levanta com um brilho nos olhos, certo de que tem uma missão, um motivo para brandir a espada, porque se há de correr o sangue humano, tem de haver uma razão, que dando significado a vida o faça não temer a morte.
Um mundo de poetas e romancistas, que fazem a morte gerar vida, que contam histórias porque, em meio ao mais insano, há algo para contar, e se há o que contar, então significa; e se há como contar, então há um significante anterior, de modo que, por mais que cada leitor possa, de alguma maneira, reinventar, ninguém consegue negar que leu e, se leu, podia ser lido.
Quero a fé que faz uma menina entrar numa das melhores faculdades do pais, sonhando que, um dia, tudo o que sabe ajudará um ser desprovido de tudo, num dos miseráveis cantões do planeta, a sorrir com esperança!
Quero a loucura dos missionários que abandonam tudo no presente, certos de que levarão milhares a viver o futuro.
Quem quer o socialismo frio do ateus?
Eu quero o socialismo dos crentes que, em meio à marcha dos trabalhadores e, diante do impasse do confronto com as forças do estabelecido, grita ao megafone: companheiros, avancemos! Deus está do nosso lado!
Da ciência não quero as equações, quero o grito de “Eureka!”, onde o cálculo se mistura com a revelação.
Da matemática quero a música, a certeza de que há sons no universo, que não só os podemos cantar, mas que há quem nos ouve.
Que ouviremos a grande e última trombeta, que reunirá toda a criação para o canto da redenção.
Eu não quero capitalismo nenhum, mas prefiro o dos seres humanos que acreditavam que o trabalho é um culto ao Criador e que o seu produto tinha de gerar um mercado a serviço do bem.
Quem quer o capitalismo consumista dos ateus, que reduz a vida ao aqui e agora, e transforma todos em desesperados que, pensando que não sobrará para eles, correm para acumular para o nada?
Os ateus dizem que evoluímos, mas que não vamos para lugar nenhum; que a ciência pode tudo; que verdade é a palavra dos vencedores; que os mais fortes sobreviverão, e que é o direito natural deles.
Não! Mil vezes não!
Quero o mundo onde os fracos tenham direito ao Reino; onde os mansos herdarão a terra; onde os que choram serão consolados; onde os que têm fome e sede de justiça serão fartos; onde os que crêem na justiça estejam prontos a morrer por ela; onde os mortos ressuscitarão.
Quem quer um mundo explicado, onde tudo é virtude ou falha de um neuro-transmissor qualquer?
Quero um mundo onde a fé , o amor e a paixão curem, mudem histórias e construam caminhos! Onde os artistas tenham o que registrar!
Um mundo onde o sol nasça e se ponha, onde as estrelas, polvilhando o infinito, apontem um caminho, falem da esperança de uma grande e decisiva família, e que qualquer ser humano ao ver isso, não se envergonhe de falar: maravilha! Um Deus fez isto!
Mas não quero a teologia técnica…
Quero o Deus apaixonado dos cristãos, que abandona sua Glória e se faz gente, trazendo a divindade para a humanidade e, ressuscitado, ao voltar, leva a humanidade para a divindade!
Quero o Deus inquieto de Israel, o pai dos judeus, com quem é possível lutar.
Quero do Deus que se permite ser detido por um Jacó.
Quero o Deus chorão de Jesus de Nazaré, que mesmo a gente tendo brigado com Ele, nunca conseguiu brigar conosco.
O Deus Pai, Mãe e Filho que repartiu conosco o privilégio de ser!
Quero o mundo do medo do desconhecido, e do maravilhar-se com o desconhecido: o mundo do encanto.
Como disse o pai da filosofia moderna, o que se descobre ser ao pensar, precisa de um mundo para aterrissar, precisa que haja alguém que faça pensar valer a pena, alguém que, ao fim, é da onde se pensa, e se ele não existe, então nada existe, porque o que pensa não tem como pensar a partir de si.
Quero o mundo que ri da finitude; que desdenha das limitações; que resiste ao sofrimento; que olha para o infinito sabendo que nossa existência não é determinada pela morte ou por nossas impossibilidades; que não somos frutos de um acidente.
Quero mundo que se sustenta na fé de que ressuscitaremos, de que brilharemos como o sol ao meio dia; de que vale a pena lutar pelo bem; de que vale a pena existir!

Ariovaldo Ramos

O livro da vida

Para quem sempre – e ainda – discute se salvação é algo que se “perde”, gostei dessa citação de Max Lucado no devocional da Cristianismo Hoje.

E eu continuo repetindo o que sempre digo nessas conversas: Deus não usa Liquid Paper.

Não existe um ponto a partir do qual você passa a ser menos salvo em relação ao momento em que Cristo salvou sua vida. O fato de estar mal-humorado durante o café não quer dizer que, naquele momento, você está condenado. Quando você perdeu a paciência ontem, não perdeu sua salvação. Seu nome não fica sumindo e aparecendo o tempo todo no Livro da Vida, dependendo de seu humor ou comportamento.

Você é salvo não pelo que faz, mas pelo que Cristo fez.

A volta ao que poderia ter sido

A fim de abarcar o peso deste momento, e na tentativa de rastrear o espírito que o possibilitou, é preciso lembrar que as coisas poderiam ter sido diferentes. Estamos habituados, pelo menos superficialmente, à noção da vertiginosa democracia do Espírito – homens e mulheres, jovens e velhos falando indiscriminadamente com profética lucidez. Esquecemos que, mesmo diante da singularidade da pessoa e do ensino de Jesus, essa prodigalidade era naquele momento da história – e permanece no nosso – extraordinária.

Enquanto aguardam o momento da manifestação do Espírito, e sem saber exatamente o que esperar dele, cento e vinte pessoas estão reunidas debaixo de um mesmo teto e de uma mesma perplexidade. Trata-se de gente comum, sem qualquer pendor para a eloquência ou para a revolução, que viu-se arrebatada numa aventura ao lado de um homem absolutamente extraordinário em palavras, idéias e atos. Esse seu herói fez justiça sem empunhar uma espada, propôs uma nova ordem sem apelar para hierarquias, mostrou-se homem de Deus condenando gente de bem e louvando repulsivos marginais. Esse sujeito original foi assassinado injustamente, ressuscitou com justiça, abraçou-os ternamente e por fim partiu, deixando-lhes nas mãos trementes a mais maravilhosa e terrível das heranças. Maravilhosa, porque ele chamou-os de amigos e convidou-os a partilhar da sua glória vivendo como ele viveu e para o mesmo fim; mas também terrível, porque quem seria capaz de viver à altura daquele homem? De que forma? Com que recursos?

Trechos de “A volta ao que poderia ter sido”, de Paulo Brabo. Recomendo ler a íntegra do texto.

Aliás, vale a leitura de toda a série “Rastros dos apóstolos” da qual o texto faz parte.

A teologia não salva

por Luiz Henrique Matos

A teologia não salva vidas. A questão da igreja e suas diferentes faces, alvo de tantas discussões desde sempre, são aspectos perifericos da fé. Ficamos presos a debates sobre a história, as interpretações, as pequenas diferenças, o que se pode ou não fazer, as maneiras de se conduzir uma reunião ou pastorear um grupo. Mas no fim das contas, isso não contribui em nada para melhorar o mundo em que vivemos. Isso não ajuda os cristãos a viverem o chamado de Jesus Cristo para que resgatem as ovelhas perdidas.

Tenho visto tantas pessoas, em tantas igrejas diferentes, com diferentes formas de culto e costumes dos mais diversos. E em todos os lugares, entre fundamentalistas e liberais, existem jovens dispostos a se manterem castos por amor a Deus, existem pessoas empenhadas em orar pelos enfermos e ajudar os pobres tal como Jesus ordenou, existem casais dedicados a apoiar familias em dificuldades, existem pregadores apaixonados pelas Escrituras.

Não importa o estilo ou a doutrina, a liberalidade ou o tradicionalismo, onde houver pessoas se chamando por “povo de Deus” e dispostas a se renderem à sua vontade, ali Deus cuida para que sua família floresça e seu amor seja vivo.

É consolador saber que em meio às nossas guerras particulares, o Pai mantém seus olhos e seu interesse fixos no coração do homem. Apesar do homem.

O tempo de Deus e suas promessas

por Luiz Henrique Matos

Sempre resisti em postar aqui estudos, sermões e esboços que escrevi. Não são textos com qualquer proposta literária (intenção inicial desse espaço) e são longos, cheios de tópicos e pouco amigáveis para uma leitura rápida – coisa importante para um blog.

Mas hoje descobri esse recurso do WordPress: consigo postar arquivos para download. Agora aguenta! Segue aqui o primeiro da série, chamado “O tempo de Deus e suas promessas”. Clique no link abaixo para fazer o download.

Download – O tempo de Deus

Cenas domésticas – Aniversário

Da série “Coisas lá de casa”…

Mãe: Nina, fala pra mamãe: quantos aninhos a Nina vai fazer?!?
Nina: Deeeeeezzzz!
Mãe: Não, filha, são dois… assim ó, com dois dedinhos. Conta junto com a mamãe. Depois do número 1 vem o…
Nina: Dooooooiissss
Mãe (empolgada): Isso, bebê!!! Que linda! Agora fale… quantos aninhos a Nina vai fazer?!?
Nina: Deeeeeezzzzz!!

Playing for change

Isso é sensacional.

A arte da ficção

Texto interessantíssimo de Henry James, copiado do blog Amarelo Fosco, de Alysson Amorim.

O romance precisa se levar a sério para que o público o leve a sério também. A velha superstição sobre a ficção ser “iníqua” sem dúvida morreu na Inglaterra; mas seu espírito subsiste num certo olhar oblíquo que se dirige a qualquer história que não admita, mais ou menos, ser apenas uma anedota. Mesmo o romance mais anedótico sente de algum modo o peso da proscrição que antes se dirigia contra a leviandade literária: a anedota nem sempre consegue se passar por ortodoxia. Ainda se espera, embora as pessoas talvez tenham vergonha de dizer, que uma produção que, afinal, é apenas uma “simulação” (pois o que mais é uma história?) deva ser de algum modo apologética – deva renunciar à pretensão de tentar realmente representar a vida. Isso, claro, qualquer história sensata, consciente, rejeita fazer, pois logo percebe que a tolerância que lhe é emprestada sob essa condição é apenas uma tentativa de sufocá-la, disfarçada na forma de generosidade.

A velha hostilidade evangélica ao romance, que era tão explícita quanto estreita, e que o considerava tão pouco favorável ao nosso ser imortal quanto a peça de teatro, era na verdade bem menos insultuosa. A única razão para a existência do romance é que ele tenta de fato representar a vida. Quando ele desdenha dessa tentativa, a mesma tentativa que se vê na tela do pintor, terá chegado a uma situação muito estranha. Não se espera de uma pintura que seja tão humilde que possa ser esquecida; e a analogia entre a arte do pintor e a arte do romancista é, até onde posso ver, completa […].

A história também se permite representar a vida; não se espera dela, não mais do que da pintura, que faça apologias. O tema da ficção está arquivado, como em documentos e registros, e para que seja explorado é preciso falar dele com segurança, com a tonalidade do historiador. Alguns romancistas de renome têm o costume de entregar-se que deve com frequência levar às lágrimas pessoas que tomam sua ficção a sério. Recentemente me espantei, ao ler muitas páginas de Anthony Trollope, com sua falta de discrição quanto a isso. Numa digressão, num parêntese ou aposto, ele concede ao leitor que ele e esse amigo confiante estão apenas “simulando acreditar” […].

Tal traição de um ofício sagrado me parece, confesso, um crime terrível […] Implica que o romancista está menos ocupado em procurar a verdade (quero dizer, claro, a verdade que ele assume, as premissas que lhe garantimos, quaisquer que sejam) do que o historiador, e ao fazê-lo está se privando de uma pincelada do quarto em que está. Representar e ilustrar o passado, as ações do homem, é a tarefa de qualquer escritor, e a única diferença que posso ver é a favor do romancista, se bem sucedido, porque ele tem bem mais dificuldade de coletar suas provas, que estão longe de ser puramente literárias. Parece-me que lhe dá um grande caráter o fato de ele ter em comum tanto com o filósofo como com o pintor; essa dupla analogia é uma herança magnífica.

Henry James em “A arte da ficção”.

Do direito de mudar de opinião

por Luiz Henrique Matos

Andei revendo alguns dos meus primeiros textos, vasculhando coisas que publiquei no site no começo de minha conversão e percebi que discordo de grande parte do que anotei há quatro ou cinco anos.

Achei algumas coisas bem estranhas e pensei em tirar tudo do ar (estão públicos no blog, aqui e aqui) e deixar apenas as mensagens que condizem – ou não contradizem – minha visão atual a respeito de Deus, a igreja e as coisas que circundam nossa espiritualidade. Olhando para trás, sinto que eu era um penoso protótipo de evangélico fundamentalista.

Sem a pretensão de ser como tal, lembrei da frase atribuída ao nosso ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso, quando questionado sobre as contradições de seu discurso. “Esqueçam o que escrevi”, pediu na ocasião.

Mas, contrariando o primeiro impulso, resolvi deixar tudo lá. Discordo de mim mesmo em diversas coisas e leio alguns desses textos envergonhado pela sua visão tão pequena e religiosa. Mas não os apaguei justamente porque acho que deixar livre e transparente essa opinião passa em alguma parte pelo processo sadio de evolução, crescimento e maturidade pessoal dessa caminhada (que, definitivamente, ainda não atingi).

Apesar de já não pensar como antes e não ver motivos para permitir que algumas idéias se difundam pelos mecanismos de busca do Google (tem gente que chega ao site justamente por meio dos textos mais antigos), estou contente em saber que a respeito do que enxergo hoje acerca disso tudo, sinto-me uma pessoa melhor e mais feliz com meu Deus. No fim, acho que é o que vale realmente.