Minha Páscoa

por Luiz Henrique Matos

“Porque, sempre que comerem desse pão e beberem desse cálice, vocês anunciam a morte do Senhor até que ele venha.” (1 Coríntios 11:26).

* * *

Hoje pela tarde, sexta-feira, eu me vi numa cruz. Olhei para cima e, olhos nos olhos, me vi em Cristo. Não, não me vi em seu lugar, eu me vi naquelas feridas, me vi como sangue jorrando de sua carne, me vi como um espinho afiado cravado em sua testa e perfurando o olho. Hoje me vi como um prego atravessando os tendões até romper o seu punho.

Pude me contemplar por inteiro naquele corpo que se contraía em câimbras e agonia. Vi naquelas feridas o meu orgulho, minha vaidade, meu egoísmo, minhas mais ocultas sujeiras. Vi, em seu brado de dor, ecoar minhas mentiras, as razões infundadas, minha impureza.

Ouvi, no sarcasmo de seus algozes, minha voz  ressoar. Sondei a trilha de seu martírio e observei minha história, minha vida exposta em cada uma de suas lagrimas de dor. Eu pingava sobre a terra árida numa mistura de água e sangue.

Vi meu passado, todos os meus desvios, minha consciência pesada de tantos e tão duros erros que nunca eu quis lembrar de novo.

Estava tudo ali, numa cruz. Eu o apedrejei.

No corpo dilacerado de um homem inocente, vi a minha condenação. Em sua alma, doía o peso dos meus pecados.

Hoje olhei fundo nos olhos do homem em cujo rosto cuspi.

Eu vi.

E ele não me julgava. Sequer questionava. Em seus olhos cansados e cheios de lágrimas, vi o absurdo, o incompreensível, minha maior interrogação: eu vi amor.

É possível?

* * *

Hoje pela manhã, domingo, me vi num túmulo vazio. Havia faixas de linho dobradas no canto e um cheiro de perfume de ervas. Não, eu não vi o corpo do homem morto. “Ressuscitou!” gritavam algumas mulheres do lado de fora.

Mas para mim, ainda ecoava na mente o sussurro daquele cordeiro pascal. “Pai, perdoa-lhe”. Ainda tinha visões com o brilho daquela olhar. Como pode  alguém ter compaixão quando mais carece dela? Com pode alguém amar quando tem todas os motivos para o ódio? Como pode um juiz se destituir do poder de julgar? Como pôde Deus morrer?

Olhei para a gruta vazia e só vi crescer minhas dúvidas. Pois se vi na cruz as minhas culpas sendo levadas, o que sou eu agora? Que será da vida breve que ainda tenho?

E caminhava para casa. Fora daquele túmulo, mais ningúem exclamava, todos correram, ningúem restou. Vi tão somente o jardineiro. Simples, cabisbaixo o homem. Eu passaria reto, admito, sem percebê-lo. Mas ele então ergueu o rosto e me chamou. Pelo nome! Ele me chamou pelo nome. Pude ver seus olhos. O olhar. Era ele.

Era Ele.

Senti o fraquejar de minhas pernas até cair de joelhos e me dobrar aos seus pés. Prostrado, assim estava eu, meu corpo, minha alma, meu todo, eu. Senhor meu! Tentei, mas não consegui dizer nada. Ele me tocou. Como um pai que ampara o filho, ergue-me pela mão, abraçou-me, consolou. “Pronto, querido. Acabou”.

Acabou.

Hoje olhei fundo nos olhos do homem que morreu em meu lugar há três dias.

E ele não me julgava, sequer questionava. Em seus olhos atentos e cheios de vida vi brilhar a alegria, o triunfo, a esperança da vida eterna, a paz, o compreensível, minha maior certeza: eu vi amor.

É possível!

* * *

Hoje é Páscoa. E percebo numa noite de tempestade, o refrigério cair do céu. O que me lava, o sangue, o vinho. O que me salva, o corpo, o pão. Em memória de Jesus Cristo, reparto a ceia e reflito que não foi há dois mil anos que aconteceu minha páscoa, mas no exato momento em que olhei para a cruz e vi quem eu verdadeiramente sou em Cristo: filho de Deus.

“Jesus fez também muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, penso que nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para os livros que seriam escritos.” (João 21:25).

À Ele.

Primeiros passos

por Luiz Henrique Matos 

 

Soltei minha pasta no chão, larguei o paletó sobre a mesa, afrouxei o nó da gravata e arregacei as mangas da camisa. Eu acabara de ouvir a novidade e não podia acreditar que estava acontecendo. Bem, quer dizer, podia sim, já havia imaginado centenas de vezes como seria esse momento. Mas nada se parecia com aquilo.

Ajoelhei, abri os braços e fiz o convite:

– Vem, filha. Vem aqui com o papai.

Ela riu. Sempre ri. Soltou seu apoio no encosto da cadeira e deu o primeiro passo, cambaleou, tentou se equilibrar, ôôô, caiu sentada. Sem problemas, a fralda amortece a queda. Pronto, vamos recomeçar. Em pé. Um passinho, dois, outro, mais um, vários, vários passos. Ela vinha atravessando a sala em minha direção, com aquela insegurança típica da inauguração dos momentos importantes da vida, com um sorriso de conquista naquela boquinha banguela, seus olhos alternando entre o chão logo à frente e o meu olhar concentrado, orgulhoso, paterno, protetor, satisfeito, radiante, coruja.

– Que belezinha! Minha princesinha já está andando! Parabéns, filha. Que linda! Agora ninguém te segura… Amor, vai tirando tudo o que é de vidro aí de cima do móvel. Amor, você viu isso?! Preciso filmar! Amor, cadê a câmera?

Ela andou. E agora sai descontrolada pela sala, quartos, banheiros, cozinha, corredor, shopping center e ruas. Ela vai a toda, cambaleando, tropeçando, caindo e confiante. Independente.

Será que ainda vai precisar de mim para alguma coisa?

Até ontem só andava mesmo de mãos dadas, com aquela mãozinha suada apertando o meu dedo indicador e um pedaço de pão preso na boca. De mãos dadas com o pai, seus passos são mais largos, ela se sente mais segura. Eu era seu ponto de equilíbrio. E ainda pedia colo para qualquer coisa.

O tempo vai passando. Não me cabe julgar a velocidade das coisas, é o tempo, e pronto. Mas com o passar dos dias consigo enxergar um pouco do meu papel como pai se cumprindo, uma porção do trabalho finalmente frutificando.

Às vezes (cada vez menos) é possível perceber sua insegurança. Ela olha os cinco metros à sua frente – que a visão em miniatura deve transformar em cinco quilômetros – e fica com medo, ameaça sentar, pede colo. Vencendo os instintos super-protetores (são muitos, acredite), eu mantenho distância, estendo os braços e a incentivo a seguir sozinha.

Lembro que Deus já fez isso comigo. Não faz muito tempo, eu nem sabia andar. Levantou-me, estendeu o dedão para que eu me apoiasse e soltou minha mão no momento certo. Na outra ponta, de olhos esbugalhados e braços abertos, estava lá, coruja, orgulhoso de ver sua cria caminhando pela primeira vez com as próprias pernas. Cambaleante, mas vitorioso. Era eu.

Deus me fez para aprender a andar sozinho.

Apesar de já andar sozinha pela casa, a Nina ainda me pede colo. Quando está cansada, quando cai e começa a chorar, quando precisa de alguma coisa ou, nos mais deliciosos instantes, quando corre para um abraço.

Eu nem ligo, eu gosto, é minha filha.

Às vezes eu peço colo.

(Crônica escrita para o Comunidade Carisma.net)

Vem como está

Comentário de hoje do Jorge Oliveira em seu blog, o Canto do Jó. Ele cita uma frase de Philip Yancey e avalia:

Hoje também somos chamados, não a fugirmos dos “impuros e contaminados” ou de enclausurarmo-nos nas paredes da nossa “santa” igreja, mas a sermos agentes e veículos da poderosa graça de Deus, levando O Jesus que está em nós a todos. Os desanimados, os desviados, os errantes, os doentes, os toxicodependentes e todos os outros que andam moribundos nos “campos das bolotas”, são potenciais reservatórios das misericórdias de Deus. Deixemos pois Jesus tocar essas pessoas com as nossas mãos e sarar as suas dores. Juntos comeremos o banquete da graça de Deus.

Ainda ontem li uma frase que completa esse raciocínio. De Ricardo Gondim no texto Linhas Alinhavadas em seu blog:

Graça dá o que o outro não merece; misericórdia, ao contrário, não dá o que o outro merece.

Como nos velhos tempos

por Luiz Henrique Matos

Eram seis da tarde. A reunião de culto começava com ameaça de chuva. Os primeiros acordes já saltavam pelas caixas, embalados seqüencialmente pela guitarra, violão, teclado, bateria, percussão, contrabaixo, vozes. Música.

Como todo domingo, as luzes daquele galpão de fábrica transformado em igreja foram se apagando, as mãos de quase duas mil pessoas iam se levantando e, em alto som, as vozes de um grande coral cantavam elogios ao bom Deus. Eu estava lá, de olhos fechados, mente aberta, coração entregue.

E foi num segundo, entre uma frase e outra que “pufff…”, apagão! Centenas de olhares de interrogação foram dirigidos ao palco. Tudo escuro, tudo em silêncio. Acabou a energia no bairro.

A equipe da música não se deixou intimidar. O vocalista marcou o compasso nas palmas e começou a cantar sem o microfone. Aos poucos o som foi crescendo, as palmas entrando no ritmo, da frente para o fundo do salão as vozes foram-se somando e a música seguiu. Sem instrumentos, sem microfones, as canções do repertório foram improvisadas.

Alguém ao lado pode não ter gostado. Uma senhorinha mais atrás começou a fazer uma oração em voz muito alta. Eu achei tudo aquilo ótimo. Uma massa de vozes fugindo da inércia que uma liturgia padronizada produz. Sem automatismos. Éramos um grande coral desafinado, mas finalmente muito sincero.

A energia voltou duas músicas mais tarde. Tudo correu normalmente para o fim das canções, o momento dos recados, recolhimento de ofertas e o início do sermão. E foi ali mesmo, no meio da mensagem, enquanto o pastor pregava sobre um tema tão marcante, que a escuridão voltou.

Bem – eu pensei – não vai dar para fazer um coral agora. E fiquei imaginando qual seria a decisão daquela liderança. E me senti grato ao ouvir aquele homem gritando, pedindo a todos que fizessem o máximo de silêncio possível porque a mensagem seria pregada até o fim.

E assim foi, sem luz, sem microfones, sem anotações, sem telões ou recursos áudios-visuais. Uma multidão em silêncio, atenta a cada palavra, concentrada no significado da mensagem, nos textos, nos tópicos. No fim, todos reunidos em silêncio, de mãos dadas para uma oração conjunta.

Fui pra casa imaginando como não era nos tempos antigos. Pensei em Jesus, que pregava assim para tanta gente, todos os dias, nos caminhos da Terra Santa. Pensei nas cordas vocais do nosso pastor e que ele deveria estar precisando de uma pastilha Valda.

Eu acho mesmo que às vezes é muito bom voltar à simplicidade. Somos bombardeados por informação de todos os lados, a todo instante. E deixar de lado os recursos tecnológicos e novas mídias de apoio ajuda a ter um único foco em alguns momentos.

Naquela noite, tínhamos à frente somente a escuridão e foi bom, bom demais, perceber o silêncio quase soberano ser rasgado por uma voz exaltada anunciando a única verdade fundamentalmente necessária: Jesus Cristo, o Senhor.

Obrigado aos meus irmãos da Comunidade Carisma, por não desistirem de alimentar esse rebanho faminto.

Donald Miller

 

Até o último domingo, eu nada sabia sobre Donald Miller. Numa busca rápida, baixei o primeiro capítulo “Blue Like a Jazz” e, na nota do autor, li isso:

Eu nunca gostei de jazz porque é impossível defini-lo. Mas, certa noite, eu estava do lado de fora do Bagdad Theater, em Portland, e vi um homem tocando saxofone. Fiquei parado ali durante 15 minutos e em nenhum momento ele abriu os olhos.
Depois disso, passei a gostar de jazz.
Algumas vezes você precisa ver alguém amar alguma coisa antes de você mesmo conseguir amá-la. É como se a pessoa estivesse mostrando o caminho.
Eu não costumava gostar de Deus porque Deus não pode ser definido — mas só até que tudo isso acontecesse.

Novos tempos, velhas brigas

Em tempos de Dawkins empunhando sua espada de ataque à religião e das “defesas da fé” encabeçadas por alguns setores da igreja, uma frase de Donald Miller vale a leitura:

Meu mais recente esforço de fé não é do tipo intelectual. Eu realmente não faço mais isso. Mais cedo ou mais tarde você simplesmente descobre que há alguns caras que não acreditam em Deus e podem provar que ele não existe e alguns outros caras que acreditam em Deus e podem provar que ele existe – e a esse ponto a discussão já deixou há muito de ser sobre Deus e passou a ser sobre quem é mais inteligente; honestamente, não estou interessado nisso.

Fonte: Ed René Kivitz.

Faz muita falta

Os pastores devem pregar mais a Bíblia. Infelizmente, os sermões, em sua grande maioria, são tópicos. Em outras palavras, os pastores lêem o texto bíblico apenas como pretexto e dizem o que querem, geralmente sem a menor conexão com o que foi lido. As igrejas não precisam de mais superstição, mais mensagens de auto-ajuda e mais historinhas bonitinhas, mas de Bíblia. Chega de contar ilustração e testemunhos, precisamos da Palavra.

Trecho de entrevista do Ricardo Gondim para a revista Enfoque Gospel. Leia a íntegra aqui.

Doentes curando doentes

por Luiz Henrique Matos

Ela estava gripada, dava dó. O olho inchado, a ponta do nariz vermelha, a respiração de boca aberta, ofegante, tadinha. De madrugada, lá do outro quarto, dava para ouvir os espirros, meio abafados pelo travesseiro. Dava para ouvir o ruído do nariz entupido, que escorria durante todo o dia. Dava para ficar preocupado. Ela nem tinha 70 centímetros de comprimento.

Minhas orações se intercalavam e contradiziam ao mesmo ritmo em que eu a balançava no colo. Pai, eu te peço que cure minha filha dessa doença. E eu ouvia um gemido, um chorinho, a voz rouquinha. Ai, Deus… passe essa dor para mim, mas não deixe que ela sofra. Os remédios, a dosagem, a inalação, o médico. Ué, cadê o telefone do doutor? A gente precisa ligar pra saber o que fazer. Tentava imaginar o que mais poderia ser feito para melhorar aquela situação. Senhor, cuide da minha menina…

E entre preocupações e tentativas, me surpreendia em atitudes curiosas. Naquela noite, ela estava deitada na cama, estirada, corpo dolorido e cansada. Eu dosava pelo conta-gotas um pouco de soro fisiológico em cada uma daquelas narinas minúsculas. Passei a massagear levemente a parte superior do nariz para que a entrada do soro fosse facilitada, apoiei sua cabecinha sobre um travesseiro mais alto, tirei as mantas e bichinhos de pelúcia que pudessem fazê-la espirrar ou acumular poeira. Isso fez com que ela respirasse com mais facilidade. Passou a descansar melhor. Dormiu.

Aí tentei lembrar de onde eu tirei tais instintos. Será que vinham no pacote da paternidade? Hum, não, acho que não. Recordei minha infância, a chateação de uma rinite alérgica que me prejudica o olfato até hoje (acredite, às vezes posso confundir cheiro de perfume com tempero de comida). E me vieram à mente as noites da nariz travado, as madrugadas em que a mãe trazia o travesseiro mais alto para eu dormir, da vez em que os carpetes de casa foram tirados e da revolucionária substituição dos cobertores de lã Parahyba por moderníssimos edredons. Lembrei que, um dia, eu mesmo precisei passar pelo que, agora, fazia pela minha filha.

Doentes curam doentes.

Confesso que aquilo estava longe do meu ideal de paternidade e muito, mas muito distante do tipo de conhecimento que imaginei transmitir para minha prole. Mas aprendi que as dores, sofrimentos momentâneos e tempestades pelas quais passo, devem servir – e servirão – para que eu ajude outras pessoas que porventura estejam lutando o combate que em algum momento já venci. Depois de passar a enxergar, devo guiar o cego na escuridão. Deus espera isso de mim. De nós.

Naquela noite ali no quarto, eu a segurava no colo, pedindo ao Pai que a curasse e aliviasse sua dor. E percebi em meu coração que ele observava, desejando embalar em seus braços a menina que criou para chamar de filha. Ela é dele. Dele, o Deus que se entrega, e cuida daqueles que ama.

E aí aprendo outra vez, na dor e na alegria, que a paternidade me aperfeiçoa como filho.

“Porque todos aqueles que pedem recebem; aqueles que procuram acham; e a porta será aberta para quem bate. Por acaso algum de vocês, que é pai, será capaz de dar uma pedra seu filho, quando ele pede pão? Ou lhe dará uma cobra, quando ele pede um peixe? Vocês, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos. Quanto mais o Pai de vocês, que está no céu, dará coisas boas aos que lhe pedirem!” (Mateus 7: 8-11).

(Crônica escrita para o ComunidadeCarisma.Net)

Cenas natalinas: Noite em Belém

por Luiz Henrique Matos

Por Yeshi, pastor de ovelhas em Belém, ano 0 da era cristã:

“Era noite, como fora outras tantas daquele ano. Estávamos no campo cuidando do rebanho e o silêncio da madrugada fazia o frio parecer ainda mais duro. Às vezes o vento vinha forte, deitando o pasto, movendo os sinos de algumas ovelhas e queimando a pele do rosto. Recostados nas pedras do monte, nos revezávamos num sono superficial.

Foi então que repentinamente apareceu aquele homem subindo da parte baixa, vindo do lado oposto da cidade. Alto, branco, iluminado pela luz radiante da lua cheia e de uma estrela que brilhava absurdamente intensa. Alguns pastores ao meu lado julgaram ser um peregrino, outros um ladrão. Ele se aproximou, saudou-nos com um aceno e parou à distância de alguns metros. Confesso que temi. Então tirou o capuz, olhou-nos a cada um e em uma atitude de euforia anunciou com sotaque que até agora não consigo identificar: ‘Não tenham medo; trago-vos a notícia mais feliz e que se destina a toda a gente! Esta noite, em Belém, a cidade de David, nasceu o Salvador – sim, o Cristo, o Senhor. É assim que o reconhecerão: encontrarão a criancinha envolvida em panos e deitada numa manjedoura.’.

Corremos. Eu já nem me lembro dos instantes posteriores ao que ele disse. Do que falava, afinal, aquele homem? Era um anjo, disse um dos nossos. Subiu entre outros ao céu, entoando um cântico de louvor. Ó Deus, eu não lembro!

do pasto, depois a terra da estrada, até que chegamos à aldeia em Belém, para onde indicou que fôssemos. Ofegante, cansado, eu arfava. Pensava nas minhas ovelhas. Com quem as deixei? E se uma delas fugir? É inverno, preciso tosquiar as lãs. O que estou fazendo nessa aventura? Seguimos ao passo da noite, num ruído intenso de vozes, de sandálias pisoteando a grama.

Avistamos o local, diminuímos o passo. Pelas frestas dava para perceber a luz do fogo aceso. Pelo som discreto, pudemos perceber e chegar ao local que o homem indicara: um estábulo!

Sim, eu ouvi o que o homem havia dito, mas… seria mesmo assim? É bem verdade que nos últimos anos minha presença na sinagoga não vinha sendo muito freqüente. As noites no pasto me deixavam com muito sono e mal conseguia me concentrar nas longas rezas. Mas eu me lembro, conheço as profecias, as mais antigas tradições, a esperança de Israel e, não, o Messias viria em Glória, desceria dos céus. Que lugar é esse?!

Não havia anunciação, trombetas, anjos ou louvores. Não chegávamos a uma celebração. Não havia comida ou bebida abundante. Mas, inexplicavelmente, era possível notar que estávamos para encontrar algo especial. Em todo tempo eu me perguntava por que, afinal, eu havia corrido até ali. Mas meu coração explodia no peito. Eu nem sei o que sentia.

Então me acheguei. Então, eu vi. Por entre os animais, um homem de gestos nervosos, coçava a cabeça com fios grisalhos, limpava as mãos com as mangas arregaçadas na túnica que vestia, recolhia água num pote de barro, limpava o suor que escorria pela testa e movia-se zeloso com a mulher. Vi a mulher, uma jovem, pequena, deitada num leito improvisado, exausta, o rosto inchado, os fios de cabelo soltos e embaraçados, o pescoço erguido com o olhar embriagado e inquieto tentando enxergar algo ao redor, a criança. Vi, sim, eu vi uma manjedoura coberta com alguns panos.

Meus sentimentos se confundiam, o estômago parecia revirar. Subia pela garganta um nó que me fazia respirar e soprar o vapor branco da noite fria. E eu sentia calor e calafrios, euforia e medo, esperança e dúvida, decepção e amor. Amor?

Ali, deitado, inocente, os movimentos curtos, frágil, o ruído de choro, um bebê… o Salvador, o Cristo, o Senhor. Nasceu então. Veio ao mundo! Veio? O Bom Pastor, o Cordeiro Santo. Era Deus? Era só um menino. Era Deus!

– Qual o nome da criança? – balbuciei com a voz afinada pelo nervosismo. Em seguida me odiei por ter me manifestado. Quem é que pergunta o nome de Deus? Mas…

O pai nos avistou, virou-se, sondou com estranheza a presença de tantos homens à porta do estábulo. Olhou para a esposa deitada, fitou a criança. Seus olhos marejaram como eu vira poucas vezes antes num judeu adulto. Ele olhou para o céu, avistou a estrela reluzente. Sorriu.

Eu jamais me esquecerei. Naquela noite em Belém, eu ouvi pela primeira vez o nome.

– Jesus… O nome é Jesus.

Então, repentinamente, me veio um cântico à mente. Nem sei de onde me lembrei. Talvez de tempos antigos, talvez dos tais anjos que nem vi no campo. Foi que, posto à cena, meus lábios tremeram e entoaram em gratidão imensa: ‘Gloria a Deus nas alturas! E paz na terra aos homens de boa vontade!’. Hallelujah!”

A grande questão

Nos últimos meses leio um livro do Philip Yancey (“A Bíblia que Jesus lia”) quase como degusto um café: em pequenas doses diárias, em momentos oportunos e raros de quietude. Em um desses instantes, encontrei a frase abaixo. Frase que não explica qualquer coisa, mas resume em alguma parte o processo de reconhecimento e encontro com Deus.

Não sei Quem – ou o Que – formulou a questão. Não sei quando foi formulada. Nem me lembro se a respondi. Mas em algum momento em disse “Sim” a Alguém – ou a Alguma Coisa -, e a partir desse momento tive certeza de que a existência tem sentido e que, por isso, minha vida, em entrega pessoal, tinha um objetivo.

Dag Hammarskjöld em “Marcas”

Buenos dias, novos Aires

Quatro bons dias em terras portenhas e fotos do final de semana para lembrar da arquitetura impecável, dos restaurantes, do vinho seco, dos dias sem compromissos. Para lembrar do povo educado, da gente elegante, do café com churros, dos livros de Borges. Para lembrar do porto, das praças, das feiras, do doce de leite e dos alfajores. Para lembrar do frio, dos taxistas malucos, da cidade cheirosa, da paisagem urbana que se sente europeia. Para lembrar que corre sangue verde-e-amarelo nas veias, para lembrar do Maradona e do Pelé. Para lembra-los: “pentacampeões!”.

Pequenas lições

por Luiz Henrique Matos

Até outro dia ela cabia no meu antebraço, seu tamanho exato. Hoje, eu mal consigo segura-la nos braços. Poucos meses se passaram mas muita coisa mudou. Na essência, é um ser humano em evolução tão intensa e mais rápida do que eu posso assimilar.

Hoje mesmo, durante o café da manhã eu a observava brincando no chão da sala, deitada de costas sobre o edredom, assistindo pela qüinquagésima vez aos clipes do “Cocoricó” (cuja trilha, confesso, canto entusiasmado entre o barbear e um nó torto na gravata).

– Como cresce rápido, não é mesmo dona?

– Poizé. Num instante eles cresce. Igual a vida. Quando a gente vê, rapidim, tudo já passô (sic).

Sotaque mineiro, analfabeta, cheia de razão, recolhia a louça de ontem espalhada sobre a mesa. Falou, é verdade, aquilo que todo mundo já sabe. Mas com o peso de setenta anos nas costas, filhos adultos, netos, um bebê adotado, viúva… imagino que suas histórias e lutas sejam interessantes. As dos antigos sempre são. Imagino que suas afirmações tenham sempre um peso maior de verdade e sabedoria do que essas conclusões da minha imaturidade.

Fugaz. O tempo voa, a vida passa e o que, de verdade, é importante fazer? Seria o desafio melancólico da auto-ajuda que questiona onde estão empenhados nosso tempo, dinheiro e esforços? Ou o melhor mesmo é viver despreocupado e deixar que as coisas aconteçam por si só?

Não sei dizer. Ou, prefiro não decidir isso agora. Em ambos os casos, não dá para seguir sozinho.

Ela passa por trás da mesa, percebo que calça o par Havaianas antigas da minha esposa. E volta então para a cozinha, onde lava, passa, prepara a comida que fará no almoço.

E percebo, entre uma mordida no pão sovado e um gole na xícara de leite frio com chocolate, que a sabedoria não é privilégio da “gente letrada”, mas dos que observam, e vivem, e seguem com dignidade a vida que nos absorve.

“Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. Esteja sempre vestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo. Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol. O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria.” (Salomão, homem que observou, já velho, em Eclesiastes 9:7-10).

Na falta do que dizer…

por Luiz Henrique Matos

Faz umas quatro horas que estou tentando escrever algo aqui nessa tela. Já comecei quatro textos diferentes, esse é o quinto. Acho que agora vai. Acho.

O último eu parei duas vezes. Na primeira, para dar a mamadeira para a Nina, que chorou lá do berço pedindo seu leitinho. Altíssima prioridade. Na segunda, também pela Nina, que resmungava os primeiros gemidos dando sinal de acordaria em breve.

Pensei em deixa-la ali no berço, afinal já passam das onze e é hora de bebê estar dormindo. Mas não resisti. Olhei aquele rostinho, aquele olhar de quem acorda e ainda dorme me sondando, o sorriso banguela se construindo no rosto e a mãozinha vindo na direção das minhas bochechas. Ela me aperta. Mão macia. Mas precisa cortar as unhas. Ela pede colo. Peguei-a e vim para a sala brincar. Isso sim, mais importante do que qualquer palavra mal escrita numa tela de computador.

Me veio à mente então uma pérola: mais importante do que as coisas passageiras que depois podem ser feitas, é dar valor ao que passa rápido e quando vê já não se pode mais fazer (éca, ficou péssimo isso).

Ela só tem cinco meses, mas sinto que a cada hora longe de casa, perco um novo sinal de seu crescimento. Ela já tem cinco meses.

Enquanto escrevo, ela me sonda por cima da tela. Sentada na cadeirinha de balanço (que preferiu, preterindo meu colo), olha insistentemente para mim enquanto narro em voz alta as palavras que despejo nesse teclado. Ela gosta. Ela ri timidamente. Ela não está com sono, definitivamente.

Que valor tem o tempo, afinal? Que prioridade tem as coisas tão urgentes, perto do que é mais importante? Quero saber, um dia lá na frente, que fiz a coisa certa. Que as escolhas, as mais simples, foram as que causaram impacto e tornaram nobre e valioso o viver. Que o olhar apaixonante e curioso de um bebê é, no fim das contas, maior do que o prazo das tarefas no escritório, maior do que o sono, melhor do que o melhor clássico de futebol na tv.

Falando em clássico, a música de Ravel toca ao fundo, completada pela trilha sonora do ritmo da chupeta colorida que estala naquela boquinha vermelha.

Ela me olha fundo nos olhos. Como faz a mãe dela, quando quer me dizer algo sem precisar abrir a boca. E vejo nesse olhar sua inocência, vejo minha filha, me vejo, sangue do meu sangue, vejo um bebê, vejo a mulher que um dia virá a ser (e aí já não quero mais ver nada porque isso vai longe demais pro meu gosto).

Agora ela observa a própria mão, abrindo e fechando. Ela raspa as pontas dos dedos no estofado para saber a textura que tem. Aprende algo novo. Ela tenta alcançar algo que está pendurado no arco da cadeira e arrancar dali a todo custo. Ela se revira toda para saber como ficar, cair, não… ixi, peraí, preciso arrumar… ufa, foi por um triz! Ela tenta engolir um brinquedo maior do que sua cabeça. Ela baba pra caramba.

Pensando bem no primeiro parágrafo dessa história, acho que o texto não dará em nada, senão nesse despejar de palavras e sentimentos que, a bem da verdade, não dizem muita coisa para o cristianismo de alguém. Talvez até digam ou sirvam para tratar de prioridades, para pregar uma vida mais simples e despretensiosa, para dizer que as coisas realmente valiosas e divertidas também não estão em nossa conta bancária (ah, mas não mesmo, dirão os endividados mas você entende do que estou falando).Acho que ela é destra. Puxou o pai?

Pensando bem, acho que o melhor a fazer é abandonar esse computador e voltar a brincar com minha princesinha. É, filhos nos dão essa vantagem, podemos voltar a ver desenho animado e brincar de ser criança sem que os outros adultos nos julguem idiotas. Pelo contrario, até acham bonito, nobre, pedagógico, estimula o sei-lá-o-quê da criança. Eu só sei de uma coisa: é bem legal.

Ela tem cosquinhas. Ela gosta do meu colo… (ou talvez não tenha muita opção). Ela gosta de cheirar um paninho, igual aquele personagem do Snoopy. Puxou a mãe? Opa, ela pediu colo. Agora está aqui deitada nos meus braços e com a cabeça recostada sobre meu peito. Nada paga essa sensação. Volto a um raciocínio antigo, mas que me visita toda semana: Deus nos dá a chance de ter filhos para que possamos, numa minúscula fração, entender o que ele sente como pai.

Ela não fala nada às vezes acho que ela acha que fala , só sorri, chora e resmunga de vez em quando. Mas nem precisa, você sabe bem disso. É que… ahn, aqueles olhinhos, aquelas mãozinhas, aquele sorrisinho… bem, isso não tem nada de diminutivo. Na falta do que dizer, o momento diz tudo.Talvez, voltando ao raciocínio do parágrafo aí de cima, talvez isso também seja a grande lição da paternidade divina. Ele contempla, ele prioriza, se enche de orgulho, sofre, ele sabe… sim, sempre sabe e ama sob qualquer condição.

Pensando… bem, agüenta firme aí que eu vou curtir minha cria.

Cura para metropolecite aguda

Uma dose de São Luiz do Paraitinga (SP) para esquecer do trânsito, das filas, do trabalho, dos prazos. Para esquecer das buzinas, do fast food, do cheiro podre do rio. Para esquecer da vida, das telas, do telefone, da rotina. Para esquecer da cor cinza, da fumaça, do despertador. Para lembrar que a vida nasce da terra.

Nada pop

por Luiz Henrique Matos

Decepcionado. Foi assim que me achei diante da frase que transcrevia a última declaração do Vaticano. Tanto fiquei que procurei pela notícia nas páginas da BBC para testificar que, de fato, foi divulgada uma nota oficial. Um dos trechos (o principal) afirma que:

“Cristo constituiu sobre a terra uma única Igreja e instituiu-a como grupo visível e comunidade espiritual, que desde a sua origem e no curso da história sempre existe e existirá”. “Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele.”

Faz pouco tempo que deixei de ser católico, nalgum instante entre 2001 e 2002, quando me converti ao protestantismo. Afora o fundamental fato de que isso me levou a um relacionamento mais próximo de Deus, vi e vejo falhas de igual tamanho e proporção. São os podres frutos da religiosidade, coisa tão demasiada e controversamente humana.

Mas apesar de não tê-lo como meu líder espiritual, confesso que me desapontei com Joseph Ratzinger. Pois foi dele mesmo que, há pouco tempo, ouvi num português agringolado a frase que vinha me inspirando boas idéias para redigir outra mensagem. Sua percepção se baseava num argumento que concordo e busco.

“O mundo precisa de vidas limpas, de almas claras, de inteligências simples que rejeitem ser consideradas criaturas objeto de prazer”.

Não que esse argumento destoe da frase da última semana, eles sequer tem relação. Mas ao ouvir aquilo, senti uma proximidade de interesses, encontrei um ideal fundamentado nas Escrituras, que ultrapassa qualquer princípio denominacional. Acreditei estar menos distante o dia em que os diferentes grupos cristãos perceberiam que, afinal, uma essência nos une e que todas as diferenças não são absurdamente opostas a ponto de nos tornar inimigos.

Mas, pobre de mim que sonho tais bobagens.

O documento de Roma só mostra quão imaturos estamos ao concentrar esforços em idéias tão pequenas. De fato, não posso acusar só um dos lados. Vejo meus colegas protestantes perseguirem o catolicismo como não se faz com o diabo. Enquanto os dois lados se atacam, o diabo ri dessa tolice toda, vendo seu trabalho terceirizado.

E quem é cristão, afinal? Não o somos todos? Ou nenhum de nós é? Lembro da história contada por Lucas, no livro de Atos, no momento em que Barnabé e alguns outros chegam a cidade de Antioquia e aquele povo, ao ver suas características e atitudes tão semelhantes às de Cristo, passam a chamá-los “cristãos” (pequenos cristos).

E hoje, espelhamos algo cristão ao tomar tais atitudes? Na verdade, diminuímos o Reino com nossas vaidades. Como diria um irmão: “apequenamos Deus”. Cristo é maior do que o papa católico, as denominações protestantes ou qualquer opinião empoeirada dos ortodoxos.

Eu, bem, sou mesmo um bocó. Mas assumo. Sim, sou dos tolos que se emocionam ao ler a sagrada passagem do Evangelho de João, fazendo coro com Jesus em sua oração derradeira e sonhando testemunhar o dia em que se cumprirá seu único pedido ainda não realizado:

“Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste. (João 17: 20-23).

Que assim seja (amém).

Devolvam!

Da lista de textos que eu gostaria de ter escrito, leio “Devolvam!”de Ricardo Gondim publicado no blog do Paulo Brabo.

“Lentamente, teólogos e exegetas, cientistas e técnicos, gramáticos e lingüistas, minaram os sonhos e fantasia dos meninos, esvaziaram a verdade dos poetas, quiseram explicar o mistério, captar a verdade, sistematizar Deus, dissecar o poema e criticar a alegoria. E conseguiram!”

Esses assassinos da beleza, no ímpeto de explicar o impossível e mapear os rumos do Espírito, deixaram o mundo mais pobre, a fé mais segura, a oração menos incerta e Deus ficou pequeno.

Agora, quem precisar de milagre, pode dispor de hábeis evangelistas que ajudam a abrir as janelas do céu; quem tiver dúvidas, pode comprar exaustivos manuais sobre Deus; quando a vida parecer ameaçadora, é possível domesticá-la, contratando profetas de aluguel.”

 

Colos, cólicas, chavões e uma crônica de continuação

por Luiz Henrique Matos
(Continuação da carta anterior)

– Amor, vem cá! Aconteceu uma coisa estranha…

Eram os primeiros minutos do dia 19 de março de 2007, madrugada de domingo para segunda-feira. Eu acabara de fechar a tela do computador onde escrevia minha última mensagem, falando sobre minha esposa, a beleza da gravidez e as pequenas surpresas que Deus nos faz. Já calçava os chinelos e me preparava para ir para a cama quando ouvi sua voz vindo lá do banheiro. “Coisa estranha”, que raios seria isso? Corri para checar.

A bem da verdade, estranho era ouvi-la falar assim. Vindo do banheiro, chamados mais comuns diziam respeito a “Amor, me traz a toalha?”, “Por que você não abaixa a bendita tampa do vaso?” ou, tão comuns quanto, desesperos hitchcockianos que berravam “Henrique-corraqui-pelamordedeus-porque-tem-uma-mariposa-enorme-no-box!”.

Cheguei no banheiro, ela estava de pé em frente ao vaso, uma expressão curiosa naquele rosto meigo e o dedo apontando para algumas gotas avermelhadas no tapete. Olhei para ela, olhei para o tapete, olhei para ela:

– É, neguinha, das duas uma: ou estourou sua bolsa ou sua bexiga está frouxa…
– Bobo.

Alguns telefonemas e uma hora depois, preparávamos as malas para seguir até a maternidade. Nada garantia que a hora do parto havia chegado, mas nada também nos fazia acreditar no contrário. Nove meses se passaram e aquele me parecia o primeiro momento real dessa gravidez.

Malas nas mãos, chaves no bolso, caminhávamos pelo corredor rumo a porta da sala quando nos entreolhamos. Olhamos para a casa que deixávamos e concordamos:

– Quando voltarmos… seremos três.

Chuva. Escuridão na rua. Vai devagar! Hospital vazio. Acabou a energia, subiremos de escada. Enfermeira com sono. Boa noite. Exames estranhos. Telefonemas para a médica. Vai nascer. Ai, ai, ai! Cadastros infindáveis na recepção. Minha esposa saindo pelo corredor em uma maca. Elevador parado, mais escadas. Eu recebendo uma trouxa com roupas. Vestiário médico. Touca, máscara, protetores. Centro cirúrgico. Nossa amiga Amanda na sala de cirurgia. É bom ter um rosto conhecido por perto. Olá, essa é a equipe médica. Como vão, tudo bem? Ar-condicionado gelado. Cadê o fotógrafo? Oi amor, você está bem? Está nascendo! São três e vinte da manhã. Estava com o cordão enrolado no pescoço. Tire as fotos! Esqueça as fotos, quero vê-la nascer. Nascendo, nascendo, está saindo… Olha a Nina, que bebezão! Linda, maravilhosa! Vão cortar o cordão. Um beijo na Manú. Parabéns, agora você é mãe. Te amo. Eu também, muito. A enfermeira vindo. Olhe mamãe, sua filha! Que linda. Veja papai, sua filha. Posso pegar? Só se for rápido, ela precisa ir para o… Tá bom, é rapidinho.

Eu a tomo nos braços, o tempo pára, ela aquieta, meu coração acelera, a respiração ofegante, aquele rostinho, eu a observo estático, meus olhos marejam, lacrimejam, se fecham, eu choro e choro. É verdade, eu sou pai. Meu Deus, obrigado! Ela é sua, meu Pai, ela é toda sua. Obrigado.

– Oi Nina, minha filha, eu sou seu pai, seja bem vinda! – e eu contente por ter dito o que planejei.

As horas que se seguiram foram de algum sentimento que até agora não sei dizer. Vivenciei todos os chavões que uma canção romântica poderia expressar. “Uma sensação indescritível”, “sentimento único”, “amor que rasga o peito”… tantos que quase me via num balbuciar sertanejo. Num transe abobado, eu conversava animadamente com enfermeiras, seguranças, manobristas e comigo mesmo.

Enquanto minhas mulheres não vinham, sentei sozinho naquele quarto escuro. Eram quase seis da manhã quando abri meu bloco de notas e tentei escrever os detalhes sobre as últimas horas que vivi. Não consegui. Desde então, venho pensando em uma forma de registrar os momentos, as emoções, os passos daquela noite para que minha memória fraca não falhe ao tentar lembrar de um dos dias mais incríveis da minha vida.

Foram 39 horas ininterruptas, acordado e vendo minha vida mudar. Amigos, familiares, gente querida nos cercando, o telefone tocando. E depois desse dia, já passaram-se mais de dois meses. E vemos que as semanas seguem e nos levam aos passos inevitáveis de todos os pais, com os choros indecifráveis, colos, cólicas, listas de dúvidas para o pediatra, leite a cada três horas, corridas desesperadas para o hospital, livros de orientação, uma vontade de ter aquele bebê grudado em nós para não deixá-la desprotegida.

Eu, na verdade, queria poder carregar as duas no meu colo e permitir que elas se sentissem seguras. Mas não tenho bíceps e capacidade para tanto. Aliás, nem mesmo tenho a segurança que gostaria. Isso não está em mim, apesar da pose. Isso sim, eu sei, encontro no bom Pai que, nesses dias, está nos ensinando a ser pais.

E eu queria também escrever uma carta. Duas, na verdade. Uma para a nova mãe que vi nascer naquela noite. Outra, para a filha que verei crescer sob meus olhos atentos. Para minha esposa, pensava em registrar todo sentimento, amor, respeito, carinho, apoio, dedicação e tanto mais de coisas que gostaria que ela soubesse que eu sinto e quero viver ao seu lado. Para minha filha, pretendia deixar os grandes conselhos e princípios que, imagino, ela deverá ter, e assinar de próprio punho tudo o que sinto, penso e sonho para sua vida. Mas não consigo.

Foram dias de rabiscos mentais e tentativas vãs. Frustrado, demorei a aceitar a falta de inspiração, quando era justamente essa que não me faltava. Me vi então diante de uma única resposta possível para esse momento. Não, não foi num versículo bíblico como era de se esperar, tão pouco foi em uma frase devastadora de Shakespeare e ainda menos em um verso derradeiro nalgum poema de Fernando Pessoa. Foi sim, outra vez, num velho chavão, que encontrei orientação: “essa história não se escreve, essa história se constrói”. Ora, detesto chavões. Mas são eles mesmos, como diria um pensador, “uma verdade desgastada”.

Pois é, para minhas amadas, espero um dia ter mais do que verdades gastas para declarar. Espero e me esforço por um poema na ponta da pena para poder lhes escrever. Ao longo da vida juntos, nos gestos da rotina, nos presentes, nas flores enviadas de surpresa, nos passeios de fim de tarde, nas orações feitas à mesa, nos clássicos momentos no sofá, na corrida cotidiana que insiste em acelerar, enquanto trago o leite, o pão e o jornal do domingo de manhã, enquanto vejo o futebol na TV, o programa infantil ou a novela das oito. Nos nossos dias, às minhas queridas espero poder escrever e renovar minha declaração apaixonada.

Continuo acreditando no que agora testifico. E sigo também, na observação contemplativa daquele pequeno tesouro dormindo no berço e imaginando que o Criador fez uma vida nova brotar no ventre de minha Manú. A Nina que nasceu há dois meses e que não tem mais fim, é eterna, é assim, ora bolas, a eternidade divina frutificando do nosso amor.

E encontro novamente paz, em uma verdade nada desgastada, que proclama: “Eu te louvarei, porque de um modo tão admirável e maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado, e esmeradamente tecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e no teu livro foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram ordenados para mim, quando ainda não havia nem um deles.” (Salmo 139:14-16).

O amor, um calção e gestos primitivos (cinco minutos antes de minha vida mudar)

por Luiz Henrique Matos

Lá fora na rua, um grupo festeja. Não sei o motivo, mas aqui quieto na sala de casa, dou risada ao imaginar que essa gente deve ser engraçada. Ouço as risadas, as palmas, a gritaria alegre de algumas pessoas reunidas e fico pensando que Deus tem uma pureza engraçada. Ele nos dá as melhores experiências e lições de vida justamente quando estamos desprovidos daquilo que tanto perseguimos para ser felizes.

Afinal, quem é que precisa de mais do que uma gargalhada para entender uma porção da felicidade? Quem é que precisa de mais do que um escorregão para encontrar ensinamentos a respeito da vida?

E percebo por essas, que o que mais atrai nas pessoas são justamente os gestos primitivos e tão naturais a nós. E percebo por outras, que necessidades vitais também estão na capacidade de rir, cantar, brincar um pouco, abraçar os amigos, comer à mesa com a família. Nos pequenos momentos que nos distraem daquilo que julgamos ser o que de fato importa, nem vemos que, ora bolas, o que importa de verdade está ali ao alcance de um gesto, uma palavra, um olhar, às vezes até de um silêncio.

Gestos humanos, primitivos. São condições à própria vida. Me parecem os tipos de valores e sentimentos que nos formam, independentemente das épocas, da história, desde o princípio. É o que nos faz o que somos, criaturas moldadas à imagem e semelhança de um Deus admirável.

* * *

Aqui dentro, mudo de assunto mas não de conclusão. Observo por um instante, deitada num colchão no chão da sala, a mulher da minha vida. Que cochila. A sutileza de seus gestos, a respiração leve, os cabelos soltos meio bagunçados sobre a fronha de estampa verde xadrez. Uma almofadinha sob a barriga para sustentar os nove meses de gestação. Ela espera por nossa filha. “Puxa, amanhã pode ser o dia em que seremos pais!”. Ela veste meu calção branco – sei lá eu o porquê de ela fazer isso, mas estou certo de que ela o veste da maneira mais charmosa e honrosa que aquele calção velho jamais poderia desejar (partindo do pressuposto, evidente, de que os calções são dotados de algum desejo, honra ou vaidade).

E aqui, apaixonado outra vez mais, acho curioso esse sentimento que nos leva a acreditar e desejar ter uma vida inteira ao lado de outra pessoa. Eu sinto isso. Quero passar ao lado dessa menina todos os meus dias, minhas alegrias e dores, minhas dúvidas e conquistas, meus sonhos e falhas, minhas noites de sono repartidas em uma cama. Cumprirei meu voto de “felizes para sempre” e, sem esperar que chegue o sempre, seremos felizes todos os dias.

Lembro, por um pouco, de alguns retratos de infância que víamos juntos há alguns dias e penso então num belíssimo futuro, no tempo que envelheceremos lado a lado, de mãos dadas, dois heróis da vida simples sentados juntos à mesa. Mas não qualquer mesa. Será uma mesa grande e velha, de madeira já gasta, posta com comida farta, doce de leite e suco de frutas, à espera dos filhos e netos para um almoço no domingo.

Bom, vou dizer uma outra bobagem, mas acho até que é desses detalhes que se preenche o amor. Talvez eu esteja mesmo tendo algumas variações, mas penso aqui que um sentimento precisa de mais do que um significado e um dicionário para ser real. Para ser real ele tem que ser vivido. E o que se vive não são palavras ditas, não ditas, malditas ou escritas, é a vida. Coisas do cotidiano, vitórias extraordinárias, derrotas nem tanto (bem, assim se espera sempre com otimismo). É de tudo que se compõe a vida.

Ela respira fundo, me olha sonolenta. “Sobre o que você tá escrevendo?”. Eu olho para ela, olho para a tela. “Sobre a vida, sobre Deus, família… essas coisas”. Vira de lado, dolorida, coitada, a barriga pesa. Cochila outra vez.

Não, não é uma brincadeira essa história de casar e construir uma família. Isso é um gesto de honra. Honra, reforço a expressão, outra palavra cujo significado pouco se vive nesses nossos dias de relações casuais, convicções hedonistas, falsas verdades e calções brancos dotados de sentimentos.

Enquanto escrevo, vejo o pedaço de metal dourado que me enlaça um dos dedos – o anular, cujo nome sempre me esqueço – e penso que, outra vez, uma coisa tão pequena e arcaica, me faz lembrar dos sentimentos, os sonhos, os planos, a entrega e a decisão de uma vida inteira que estão empenhados nessa aliança.

Sim, honra e amor, Deus e o homem, as amizades e risos, os sonhos e nossos sentimentos primitivos… Sim, o eterno é a promessa de uma aliança.

* * *

PS.: Escrevo agora, depois de seis dias, para a última revisão desse texto. Foi que, nem cinco minutos depois do ponto final dessa carta, nos primeiros instantes do dia seguinte, ouvi minha esposa chamando, agora lá no quarto. Sua bolsa amniótica havia rompido. Deixei o computador como estava e corremos para o hospital, para ver, dali três horas, nossa pequena Nina surgir nesse mundo. Era real, seríamos pais no dia seguinte. Continua.

As cegonhas não existem

por Luiz Henrique Matos

– Os pais morrem de aflição quando se fala na limpeza do umbigo do bebê, mas é simples. Você deve segurar o pequeno pedaço do cordão e com uma haste de algodão embebida em álcool a 70%, limpar a base do umbigo fazendo um movimento circular e também ao redor num raio de dois centímetros…

“Será que serei um bom pai?”, era o pensamento que me ocorria. Enquanto ela falava, eu anotava, tentava absorver tanta informação quanto me fosse possível, mas minha mente não conseguia fugir desse questionamento sem resposta. “Foco Henrique, foco!”.

– O leite materno é fundamental. É incrível, a mãe produz um leite específico para nossa espécie. Nesse alimento estão todas as vitaminas que a criança vai precisar nos seis primeiros meses de vida. Por isso, mamães, é preciso estimular a produção de leite. O aleitamento é importantíssimo. Mas tudo funciona como uma fábrica, se acabar a demanda, acaba também a produção, o estoque seca.

“Demanda, fábrica, produção… empresa. Vou conseguir sustentar minha casa, dar o melhor para minha família? E se um dia eu perder o emprego? Preciso fazer as contas. Não quero que falte nada para elas”. Fulana, Sicrana, Beltrana… as professoras entravam e saíam daquela sala apertada no curso de gestantes, o ar-condicionado fazia um apito inconveniente, eu brigava com aquela persiana que não fechava direito e minha mente teimava em outras perguntas fora de contexto.

Lá em casa, o quartinho já está pronto, como um ninho montado cuidadosamente para abrigar um filhote. Olho para aqueles móveis, vejo aquelas roupas em miniatura penduradas no varal, aquele perfume inconfundível. “Por que demora tanto pra nascer?”.

– Muito bem, agora os maridos peguem esse bastão e passem nas costas de suas esposas. Façam massagem nos ombros, desçam pela lateral… iiiissso, passem também na região lombar. Lembrem-se, homens, elas estão carregando um peso, é importante que fiquem relaxaaadas…

“O que está passando pelo coração dela? Acho que vai ser uma mãe excelente. Tanto amor, cuidado, tanto carinho, a determinação… ela tem valores que eu não tenho, tomara que prevaleçam nessa educação. Ai, tomara que não sinta muita dor. O parto vai ser bom, ah será”. Eu pressionava o massageador sobre seu corpo, com receio por não machuca-la, eu a tocava querendo que sentisse meu carinho, meu amor, minha vontade de mostrar que estou presente, na mesma passada, de mãos dadas, desejando sustentar aquele peso no lugar dela.

– Peguem a boneca, tirem o macacãozinho e a fralda. Segurem de barriga para baixo, apoiando o bebê na palma de suas mãos e no braço. Suavemente, joguem a água morna com sabão sobre o bebê. Muito cuidado com os olhos e ouvidos. Sim, pode molhar o umbigo que não tem problema. Vistam com cuidado, a fralda não pode ficar muito folgada, não precisa esquentar tanto o bebê, a pomada, o cotonete, o sabonete glicerinado… agora troquem tudo de novo.

“É de verdade… Não é uma brincadeira de casinha, é de verdade! Que boneca que nada, tem uma pessoazinha nova dentro daquela barriga. Não vai simplesmente esvaziar e voltar ao que era. Em poucos dias teremos uma filha nos braços, uma criança dentro de nossa casa para o resto da vida, um bebê. Ai que frio na barriga, que coisa!, que vontade de chorar…”.

* * *

Minha filha nasce daqui alguns dias – talvez hoje, se assim resolver – e, como eu bem previa desde o início, os nove meses findam e eu não tenho a menor idéia do que é ser pai. “Serei um bom pai?” é o que fico encucando enquanto uma avalanche de sentimentos, novos e velhos, me atropelam.

Estou com medo. Estou feliz. Estou ansioso. Entusiasmado. Estou apreensivo. O que é mesmo “apreensivo”? Estou tranqüilo. Curioso. Estou pronto. Estou nada. Ah, acho que estou. Inseguro. Confiante. Alegre. Apaixonado. Estou marido. Estou me tornando um pai.

Ai caramba, pai!?

E quem é que vai me dizer o que fazer? Alguém aí tem um manual de instruções?

Bem, da maneira mais tola imaginável, tenho aprendido que nessas horas em que nenhuma das direções para onde olho me aponta um caminho, acabo mesmo apelando para o alto. Não, eu não busco um super-herói (essa tentativa já foi em vão). Como diria um rei antigo chamado Josafá: “Meus olhos estão em Deus”.

Sim, em Deus sempre há uma resposta. Um novo fôlego me enche os pulmões, a alma, o espírito. Percebo que apesar de mim mesmo, a revelação da verdade eterna se faz presente nesse ponto culminante.

Estou em paz.

É consolador saber que tenho um Pai que me guia por esse caminho desconhecido. Um Pai satisfeito em ensinar. Sua lealdade inabalável. Carinhoso e presente. É algo sobrenatural pensar que Ele também é o Pai dessa criaturinha, uma vida nova que nasceu como fruto do amor entre minha esposa e eu. É assustador pensar que Ele está nos comissionando para conduzir uma pessoa diante de uma vida inteira, num mundo que parece perecer a cada velho novo dia. Caberá a nós guia-la no caminho. Caminho?

Estou perdido.

Mas que caminho é esse? Que credibilidade eu tenho se sou eu mesmo quem tantas vezes tateio na escuridão tentando encontrar uma luz por onde seguir? Que verdades, que princípios, que sementes lançarei nessa terra fértil e pura? Que pai serei?

Fico tendo desses devaneios. Em meu coração, eu só queria que ela soubesse que já a amo, que já está em minhas orações há anos. Que nunca nos vimos, mas já faço hoje qualquer sacrifício por ela e pela mãe. E penso a todo instante no momento em que nossos olhos se encontrarão pela primeira vez e, bobo que sou, direi: “Oi Nina, seja bem-vinda ao mundo. Muito prazer, eu sou o seu pai”. Teremos muito o que conversar.

Estou sonhando.

Quero que ela saiba tomar suas próprias decisões, fazer escolhas boas. Que ela seja boa. Sonho que ela tenha um caráter irrepreensível, seja bonita, que se firme em princípios eternos, seja meiga e de olhos brilhantes, que ame a Jesus Cristo, que use vestidinhos com detalhes floridos. Sonho que ela ame as pessoas, que goste de brincar comigo e de deitar sobre meu peito enquanto vejo a TV. Sonho que ela mude a sociedade em que viverá, que ela corra na minha direção e se jogue nos meus braços quando eu chegar em casa à noite. Sonho que ela tenha grandes sonhos! E espero que durma bem a noite inteira para eu continuar sonhando. Sonho um novo mundo para minha família, com passeios e viagens perto da natureza. Quero uma família grande, mais filhos, uma casa ensolarada – como essas dos comerciais de margarina – e minha esposa e eu sentados juntos na varanda enquanto as crianças brincam no jardim.

Sim, eu sonho e creio que ensinaremos coisas boas a ela. Será uma pequena menina, uma grande mulher. Eu quero, sim meu Deus, ah como quero, que ela seja uma pessoa melhor do que eu!

Meu Pai, será que serei um bom pai?

Estou em dúvida.

Acredito que nunca saberei. Dizem os antigos que saberei sim, quando vierem os netos. Mas isso é coisa distante, nisso eu nem penso agora. O que percebo é uma renovação nos meus sentimentos empoeirados de fé, esperança, vida. Talvez brote daí essa confiança maior do que eu mesmo. Nessa hora em que eu forço a visão para que o foco esteja correto, imito aquele rei e volto meus olhos inteiramente para Deus. Acreditando ser perfeitamente possível, penso lá no fundo: “Pai, vá na frente, eu vou te seguindo”.

Estou grato. Tenho aprendido que a felicidade tem muitas faces.

À beira da cratera

por Luiz Henrique Matos

Sexta-feira, 12 de janeiro de 2007. Uma história real.

– Corre! Corre! A gente precisa descer agora!
– Ahn?

Enquanto a gritaria e o pânico reinavam, meu gene mineiro prevaleceu e o sossego costumeiro me fez tirar metodicamente os fones de ouvido, ajeitar os fios sobre a mesa, fechar as telas do computador, afastar a cadeira, levantar devagar, pegar minhas coisas na gaveta e pensar se era realmente necessário tanta urgência e gritaria. “Isso é exagero, coisa de mulher…”, pensei na hora. Mas ainda assim resolvi seguir o fluxo e descer pelas escadas do prédio. Dezessete andares, rapidinho! E lá pelo décimo as minhas panturrilhas já doíam.

No caminho, degrau por degrau, eu tentava entender a razão do alvoroço. Em cada lance de escadas uma nova multidão surgia pelas portas e se juntava ao fluxo gravitacional. Para baixo e avante! Os mais heróicos ajudavam os mancos. Os pacientes estimulavam os retardatários. Os apavorados passavam direto pelas frestas, “não pára, não pára, sai da frente!”. E eu pensando por que raios o alarme de emergência não tocava, “de certo é trote”, foi o que me veio.

Alguém disse que a rua estava cedendo e prestes a desmoronar, que havia um buraco e alguns dos carros no estacionamento já haviam desabado – pensei no meu, lembrei que tenho seguro. Outros falavam em explosão. Era algo nas obras do metrô. Quase todos achavam que o prédio cairia dali há pouco. Tinha gente que não achava nada, só descia. Eu achei que era piada.

Já no térreo, me deu uma tontura, eram muitos andares, aquela descida circular. No fim da linha dei de cara com dois sujeitos recostados na mureta e fumando em paz, nada do pânico de minutos atrás. “Ai minha panturrilha!”. Mas afinal, se a ordem era evacuar, que eu fosse então para fora do prédio, onde vi todo um mundo reunido, quase unânimes a ostentar a mesmíssima expressão.

Procurei um rosto conhecido. Bebi um golezinho d’água – antes de sair, lembrei também de passar a mão na garrafinha descartável – e fui para a rua. Alguém contou uma versão mais convincente dos fatos: aconteceu um desabamento nas obras do metrô, que fica ali na rua ao lado e um buraco gigante se formou, engolindo carros, caminhões, trator e casas. Era bom tomar cuidado porque ainda tinha terra caindo e ninguém sabia ao certo o que poderia acontecer.

Um colega tinha estacionado o carro daquele lado, seguimos na direção do acidente. A poucos metros do local tivemos que voltar porque a polícia começou a isolar a área. Aquelas fitas amarelas nos forçavam a recuar e lá no fundo, mais atrás, só deu tempo de ver um caminhão tombado com as rodas pro ar e, mais na frente, a beirada da cratera, que ali então, eu nem sabia de que tamanho era. O carro do colega, sabe-se lá que fim levara. Minhas panturrilhas eu já quase nem sentia.

Encontrei um outro conhecido, ofegante, todo suado, que confirmou a versão anterior. “Vi tudo da janela”, ele disse, “o asfalto rasgando como papel e engolindo tudo o que tinha na rua. Foi caminhão, carro, muro, tudo”. Olhei para a cara dele e curioso, perguntei “e tinha gente também?”. Respirando cansado ele disse que “tinha sim, no caminhão, o cara que dirigia. Além do povo que trabalhava lá no fundo”.

Então a aventura perdeu a graça.

Ouvi uns dois operários contando da correria dos colegas para escapar da nuvem de poeira atrás deles. Vi uma moça voltando do local, chorando em desespero porque viu o carro dentro do buraco. Escutei um funcionário do metrô gritando para eu sair de baixo da rede elétrica porque corria o risco de os fios caírem. Me dei conta de que aquilo deveria ser maior e mais grave do que eu imaginava e que, afinal de contas, não era nada bacana ir pra casa mais cedo na sexta-feira se fosse por causa disso.

O que são as panturrilhas?

Voltei calado para a frente do prédio e ouvi um sujeito dizer ao megafone que “aparentemente” não corríamos risco. De qualquer forma, ouvi ele falar também em “bom fim de semana a todos” e presumi que, aparentemente, o melhor negócio seria ir para casa.

Dei um tempo. Acalmei os ânimos, comprei um sorvete e fui até meu carro. Antes de sair pela rua deserta interditada, subi até a cobertura do estacionamento para tentar enxergar o cenário lá de cima. Primeiro eu vi barro, vi um guindaste torto, vi uma bagunça nas ruas, vi um monte de helicópteros que zumbiam sobre minha cabeça e vi então a cratera imensa. Caramba, o que era aquilo!?

Caminhõezinhos de brinquedo num buraco feito no barro? Tudo parecia de mentira. Mas não era, as sirenes tornavam a realidade mais densa. Denso também era o ar, cheio de pó, cheio de interrogações, cheio de folhas girando numa ventania que anunciava chuva, mesmo sob sol ardente. Eu nunca havia visto algo como aquilo. Pisquei os olhos, consciente de que aquilo marcaria a história da cidade em que nasci. Deveria marcar, “mas esse povo esquece rápido”, é coisa que só penso agora.

Olhei para o lado e dentre a meia dúzia de embasbacados que observei mirando o acidente, puxei assunto com um sujeito, expressando uma esperança de “tomara Deus que ninguém tenha morrido”. Sem nem me olhar na cara ele concordou, “tomara”. Nem lembro mais o que falamos depois disso.

Peguei o carro, liguei o rádio, tocava uma baladinha, sintonizei a freqüência de notícias e uma chamada falava do acidente. A repórter, a caminho, tentava chegar no local. Eu variava, “de que adianta? Agora já foi, agora eu já sei… é feio demais”.

A cidade calma, mês de férias, sol de verão, transito livre como nunca, como é que pode? Em casa, acessei a internet e vi as primeiras imagens, sob créditos de amigos meus aqui na empresa. Liguei a TV, e já tinham imagens aéreas, ao vivo, lá no canal 7. ”Ahn, os helicópteros…”, captei.

E ali na tela eu vi tudo de novo, eu quase que me vi. Mas, ali já parecia mentira. Não dá para acreditar muito em televisão. Aquela é a tela em que eu vejo o 007, assisto ao Chaves, onde passo, zapeando sem querer querendo, pelo Ronie Von e seus genéricos da Ultrafarma. Na tela tudo parece artificial, uma ficção em que daqui a pouco o mocinho aparece e salva todo mundo. Nessas horas, cadê o Duro de Matar?

Na minha mente sim, meu Deus, aquilo me batia feito estaca. No mesmo ritmo tocava a toda hora o telefone celular, eram os amigos preocupados:

– Caiu no buraco?

Não, não caí. Mas acho que, desde então, caí um pouco mais na realidade. Uma que nem imaginei que existia. De que, com panturrilhas firmes ou não, um passo em falso pode definir muita coisa sobre onde estaremos daqui a pouco. Que vida fugaz, que coisa!, que escolhas ainda posso fazer para fazer o planeta e as pessoas e os relacionamentos e a vida serem um tanto melhores?

Poema sob tempestades

por Luiz Henrique Matos

Choveu a noite toda.

Pela manhã a grama está mais verde e as pequenas árvores no quintal já parecem mais fortes, com seus frutos amadurecendo.

Os pardais já não voam como nos dias de sol, mas cantam alto, reclusos entre as telhas e galhos.

Pensando bem, é reconfortante saber que as tempestades produzem vida e nos tornam mais fortes e frutíferos.

É um consolo ver águas torrenciais caindo do céu e no meio do caos lembrar da promessa divina de que vai passar, o mundo não acabará em um dilúvio.

Todo o tempo do mundo

por Luiz Henrique Matos

Nesse exato momento percebo que há vinte minutos eu parei uma tarefa importantíssima, urgentíssima e atrasadíssima para seguir o impulso de escrever um texto. E então me percebo mais uma vez diante de um dos defeitos que menos gosto de ver em mim: falta de concentração.

Como são quase todos os defeitos, esse também é daqueles que às vezes viram qualidade. Na contramão da minha dispersão exagerada, me sinto motivado em saber que minha lista de tarefas é maior do que o tempo para realiza-las. Apesar de começar tarde, dificilmente atraso. É justamente nessas horas que me supero (e espero que aconteça o mesmo hoje, com as tantas tarefas que deixei de lado para escrever esses parágrafos).

E fico pensando (mas não por muito tempo porque senão eu perco a concentração): e se eu não tivesse mais prazo para realizar tantas coisas? E se os dias já não tivessem fim e todo o tempo me fosse dado para cumprir sonhos, planos e objetivos?

E volto a pensar: mas não é assim que as coisas são?

Estou espantado em notar que essa é uma realidade cada vez mais próxima na curta vida que temos nessa terra. Num ímpeto escatológico, fico a interrogar: como é que vou me virar quando estiver no céu, com toda a eternidade diante de mim? Não haverá tempo, começo ou fim, datas… o que faremos então?

Cá entre nós, não acho que no dia em que bater as botas – e vá lá, as asas –, acordarei diante de Deus, com uma túnica branca, cabelo encaracolado, a capacidade automática de administrar o tempo (que tempo?) e habilidades musicais instantâneas para tocar harpa. Bom, a menos que exista algum estágio preparatório ou um programa de integração para iniciantes.

A verdade é que não consigo conceber direito a idéia de eternidade porque essa nunca me soa natural. Isso, ao mesmo tempo em que acredito que pensar em uma vida finita seja tão doloroso para todos nós justamente porque somos frutos eternos.

Talvez por isso, Jesus tenha dito o célebre “basta a cada dia o seu próprio mal” no sermão em que tratou sobre a ansiedade do homem no dia-a-dia (Mateus 6). Temos coisas mais importantes a fazer!

Qualquer tempo pode ser curto quando visto sob a ótica da brevidade da vida terrena, mas posto em comparação à eternidade, não experimentamos nada. Diante do eterno esse pequeno fragmento de vida natural é todo o tempo que temos para plantar e regar os frutos que colheremos para sempre.

Pois é, preciso me organizar. Ou deixarei para realizar minhas grandes obras quando o tempo já for curto demais. Quer dizer, como lá sei eu quanto tempo ainda tenho?

E você, como você vai aproveitar os poucos anos que lhe servirão para abrir as portas da eternidade?

Bem, tudo começa com uma escolha…

Momento de lucidez

por Luiz Henrique Matos

Aquela vontade que não cessa. A vontade de seguir os conselhos dessa doce voz, de responder aos santos impulsos, de realizar o que de fato cremos como verdade e justiça.

Mas, por que não faço? Por que não sou?

É o desejo cru da santidade, de deixar cair a máscara do trabalho pelo dinheiro, de ver ruir o consumo desnecessário em que vivemos. É querer não querer aparecer e ser maior do que deveríamos.

A angústia por não mentir, a incessante expectativa em não pecar, não desviar o olhar, não titubear no julgamento. É o querer pôr freio na língua e ter os passos retos.

O caminho da retidão, da entrega, de viver aos pés das letras da Palavra que nos aconselha o amor verdadeiro ao próximo, tal qual o temos por nós mesmos. E é deixar tudo por esse amor, entregar a vida toda por aquele se entregou totalmente por nós.

Viver para caridade, para as pessoas. Ajudar a curar suas feridas, liberta-los das prisões, vesti-los de sua nudez, guia-los na escuridão, auxilia-los em suas necessidades. Ainda que seja eu mesmo um enfermo, cativo, nu, cego e pobre.

Sou salvo, não por merecimento, sim por misericórdia. E essa graça me basta. Porque sei nesse instante – como nem sempre acontece – que o poder de meu Pai se aperfeiçoa nas tantas fraquezas que tenho. Hoje sou filho, pequeno Cristo.

* * *

Essa busca… na maior parte das vezes se apaga, passa incólume na rotina, nos dias que se vão sem que sequer consigamos parar e pensar. É preciso parar e pensar. A reflexão verdadeira nos leva à essência do que somos, onde habita a verdade, onde fala o Espírito.

E Deus mesmo mora ali, no coração, na mente, no estômago, na região inescrutável de nosso ser. Na intimidade do avesso é que podemos ver sua impressão e as cicatrizes e as costuras e marcas deixadas pela sua intervenção. E só do avesso, esse mesmo, é que mostramos quem realmente somos.

Pela graça de Deus somos o que somos, na paráfrase plural do desabafo de Paulo. Mas estamos mais próximos do que deveríamos ser quando acometidos por esses ímpetos de lucidez e santidade. Pudera eu ser sempre assim.

Caminho seguro

por Luiz Henrique Matos

Josafá! Se o nome não fosse tão feio eu o daria a um futuro filho (é claro que minha esposa não sabe disso). Mas o que me encanta nesse homem não é exatamente a beleza de seu nome (ou nesse caso, a falta dela), mas sua fé tão sincera.

A frase registrada no livro de 2 Crônicas me inspira. Cercado por inimigos que vinham ataca-lo, esse rei orou: “pois não temos força para enfrentar esse exército imenso que vem nos atacar. Não sabemos o que fazer, mas os nossos olhos se voltam para ti”. E seu exército seguiu para o campo cantando músicas de adoração. Naquele dia, o povo de Josafá venceu a guerra sem precisar levantar uma espada.

Ter os olhos em Deus. Não há batalha impossível ao seu lado, não há alegria completa sem a sua presença.

Deus é Pai. Que cria, disciplina e ensina. Pai que estende a mão para levar seus filhos na direção certa. E de mãos dadas com ele, só assim, é que poderemos trilhar os seus caminhos.

Faça-se o dia claro ou a escuridão da noite. Ponha-se o sol num entardecer ou venha no horizonte a tempestade. Andemos no topo da montanha ou num vale de sombras. Não importa, qualquer caminho é possível, todo momento é seguro quando estamos com Deus.

A dor é superável, a alegria é sublime, o amor é intenso. As dificuldades são duras, mas possíveis. É nele que está a resposta, ele é o sabor da vitória, é a força e o poder. É nele que temos novo fôlego.

Porque a fé, ora se não, a fé não é confiar e esperar o espetacular, a fé não elimina a dúvida, a tentação ou a dor. A fé, ora sim, é a crença natural, é o saber pelo simples saber, é crer apesar da dúvida, é fruto da graça divina, é presente de Deus Pai.

O Pai. Que se coloca à mostra para os que enxergam, fala o tempo todo aos ouvidos que lhe são sensíveis e tem sempre a mão estendida para um filho perdido. Atento ao primeiro pedido de colo.

Chame esse filho João, José, Joaquim ou… Josafá.

Reforma Protestante

Na última terça-feira, 31 de outubro, alguns cristãos comemoraram os 489 anos da Reforma Protestante. Um pouco do que penso sobre isso, li no texto de um dos pastores da minha comunidade. O artigo é “Marteladas em Wittemberg”, do Rui Luís Rodrigues.

Marteladas em Wittemberg

Na próxima terça-feira, o mundo protestante comemorará 489 ano do início da Reforma. Segundo a tradição, em 31 de outubro de 1517 Martinho Lutero, monge agostiano e professor de Teologia, afixou na porta da capela universitária de Wittemberg suas 95 testes, nas quais criticava o sistema penitencial católico, especialmente a venda de indulgências. De acordo com pesquisas recentes, é bem provável que esse evento (as “marteladas em Wittemberg”) seja ummito criado posteriormente. Não há provas de que Lutero de fato pregou suas teses na porta da capela; mas temos a certeza de que, pouco depois dessa data, as teses foram impressas e amplamente divulgadas nos principados alemães, provocando a revolução religiosa que dividiu o cristianismo ocidental.

Comemorar a Reforma, só de olhos e ouvidos abertos. Como estudioso da primeira metade do século XVI, cada vez fico mais convencidode que divisão radical da cristandade poderia ter sido evitada; e que, se não foi, isso se deveu em parte a razões de natureza política. Deixando de lado essa discussão, o que há para comemorar hoje? Acima de tudo, o fato de que mais do que nunca nos últimos quinhentos anos, hoje as posições católicas e portestantes encontram-se muito próximas. Na década de 1950, o teólogo católico Hans Küng defendeu sua brilhante tese de doutoramento, na qual mostrou não haver divergência entre o ensino sobre a justificação pela fé, conforme defendido pelo maior deólogo reformado do século XX (o suíço Karl Barth) e o ensino católico sobre o mesmo tema. Há poucos anos, uma comissão mista, formada por teólogo católicos e luteranos, produziu um documento no qual afrimava que as perspectivas católicas e luteranas coincidem essencialmente acerca desse mesmo assunto.

Para ver, é preciso abrir os olhos. Enquanto continuarmos a celebrar ideologiamente a “Reforma” como justificativa da divisão da cristandade, perderemos de vista que o objetivo principal dos primeiros reformadores não era a divisão. Melhor celebrar a Reforma pensando que, num futuro muito próximo, católicos e protestantes poderão dar passos cada vez mais significativos na direção da unidade. Trata-se de um dever que, como cristãos, temos diante do mundo numa era de divisões.

Cura interior

por Luiz Henrique Matos

Cura interior. No meu caso, teve nome, Colicesctomia com Colecistite por Videolaparoscopia. Um nome muito peculiar é verdade. Mas na linguagem quase popular, chamam de cirurgia de extração da vesícula biliar por vídeo. Já no palavrório totalmente popular, “retirada da visícra” transmitida pela TV. Em resumo, entrei na faca.

Cura interior. Hoje eu acredito e defendo esse processo. Passei pela minha há algumas semanas e agora gozo o alivio da restauração.

Mas, nem tudo foi tão simples (se é que parece ter sido). Antes, lamentei por algum tempo a minha falta de fé. Pensava que sendo eu um cristão tão convicto, bem que poderia experimentar um milagre, desses espetaculares, e passar incólume por essa luta.

“Ué”, qualquer um de nós poderia perguntar, “mas Deus ainda não cura os doentes tal como fez tantas vezes na Bíblia?”. É verdade, mas para entender o motivo, minha pequena fé me faz apelar à dose de razão que tenho. E é por ela que percebi e passei a crer em mais duas coisas.

A primeira foi ao descobrir que o verdadeiro processo de cura de Deus para mim passava por essa cirurgia. E vai muito além da “visícra” – que até doer eu nem sabia que existia. O que ele tinha a mudar dizia respeito a meu relacionamento com ele, ao meu caráter e, principalmente, ao estilo de vida que eu vinha levando. E agora, só eu, meus lençóis e o surrado travesseiro em que recosto a nuca sabemos o quanto tenho sido realmente curado.

A segunda aconteceu quando, refletindo sobre os motivos pelos quais eu não era milagrosamente atingido por um raio celestial que curasse meu estômago, fui levado – para minha decepção – a reconhecer que Jesus não realiza seus milagres por espetáculo puro e simples. Sua intenção, ao contrário, é atender à grande carência de seu povo. Sofresse um indivíduo do primeiro século de lepra, asma ou colecistite calculosa, certamente não haveria na Judéia uma medicina avançada como a que temos hoje. O Deus Pai providencia o que seus filhos precisam, até que esses evoluam e se tornem capazes de aprender os meios naturais sobre como isso acontece.

E agora, do que precisam as pessoas de nossos dias em sua dependência da intercessão divina? Quais são os males que carecem da ação de Jesus Cristo hoje?

Cura, eu ainda diria. Estamos doentes. Não mais leprosos, tuberculosos ou febris, mas quantos não somos os dependentes de enfermidades “emocionais”? Quantas não são as famílias contaminadas pelo câncer da separação, dos relacionamentos desajustados, dos filhos que se perdem pela falta de atitude dos pais? Quantos não sofremos de estresse, depressão ou fraquejamos pela asfixia de sentirmo-nos incapazes para ações aparentemente tão banais?

Estamos contaminados. E para conter essas epidemias das “feridas da alma”, precisamos sim do toque curador de Jesus Cristo. Instantâneo, puro, renovador, eterno. O toque que afaga, transforma, refaz. Precisamos. E muito, porque filhos que somos, ainda não descobrimos os meios que o Pai usa para curar esses males.

Mas, – não é preciso ser muito inteligente para saber – Jesus já não caminha entre nós, como homem, desde que começou a conta do nosso calendário. Ele fez melhor, resolveu viver dentro dos que crêem nele e a esses incumbiu a tarefa de realizar tantos milagres e feitos quantos ele mesmo realizou.

Faz através de nós. Pode e quer fazer. Tudo o que conhecemos e lemos a seu respeito, os seus feitos… esse agora é um papel nosso, trazer cura para as pessoas em nome de Cristo Jesus. Cabe a nós, filhos e herdeiros, entender, ministrar, tocar e cumprir tudo o que recebemos como fruto da promessa.

E, quer saber? Cura interior, cirurgia na alma ou seja lá qual nome você quiser dar a isso, agora livre de meu preconceito tolo, a isso chamo, sem ironias, de cristianismo. E isso cabe a nós.

“Estes sinais acompanharam os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem algum veneno mortal não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados”. (Marcos 16:17-18).

As grandes conquistas do homem

por Luiz Henrique Matos

Desde criança, sempre acreditei que um dia eu faria algo que marcasse e mudasse a história das pessoas. Inventaria algo que fosse um divisor de águas na humanidade, uma salvação para os povos. Nunca soube direito o que seria, mas era um pensamento megalomaníaco qualquer.

Bem, preciso ser honesto antes de continuar essa confissão vergonhosa… pensamentos assim ainda me assaltam a mente. Sonhos impossíveis. Mas não são por vaidade, tão menos por orgulho. Esse sonho infantil, passava e passa por grandes feitos que tragam alegria para as pessoas. Eu diria então que é uma megalomania altruísta.

Quem sabe não seria um livro publicado mundialmente? Talvez um projeto de erradicação da fome. Uma canção tocante (ainda que eu seja inteiramente desprovido de ritmo e afinação). Ou, não seria eu um atleta nas Olimpíadas trazendo orgulho para minha pátria? Um grande artista? O vencedor de um Oscar para melhor documentário? Um prêmio Nobel da paz? Um líder político, um explorador espacial, um super-herói (por razões racionais esse último já não me vem tanto à mente)?

Bem, os amigos mais próximos são testemunhas de que nenhuma das opções acima fazem parte de meu acervo de dons e possibilidades. Mas foram e são sonhos, agora devidamente confessados. E só não me envergonho mais em escrevê-los nessa carta porque sei muito bem que você também pensa essas bobagens enquanto vive o ócio da vida comum, durante suas tarefas rotineiras, ao comer um pão com manteiga ou escovar os dentes em frente ao espelho.

A verdade é que nenhum de nós quer passar despercebido pela vida. Nós sonhamos! Queremos fazer algo que marque a geração em que vivemos. Desejamos ter a nossa saga particular e deixar uma lembrança para nossa descendência.

E foi há pouco, vendo um programa bobo de TV, que percebi que há algumas semanas eu estou sim, de maneira inimaginável, começando a escrever algo na história.

Serei pai. E daqui cinco meses uma garotinha (as chances são de 80%) sairá de dentro da minha esposa. Uma vida totalmente nova, inédita, um ser humano a mais no planeta. Uma pessoazinha de algumas gramas e centímetros…

E isso é muito mais do que uma estatística demográfica para o mundo, é o resultado da soma do que minha esposa e eu somos. É como se o amor que sentimos um pelo outro pudesse ser medido e se transformasse em algo que podemos tocar. Sim, amor tem tamanho e ela é a prova viva disso.

É a prova de que o amor cresce, engorda e se desenvolve. Ela será a nossa marca, uma assinatura que deixaremos no mundo. Uma ovelha no rebanho do bom Pastor. Daremos a ela um nome e nossos sobrenomes. Com os olhos em Deus, daremos a ela o melhor que tivermos e que não tivermos também. Na verdade, se necessário, deixaremos de ter para que nada lhe falte.

Eu sei muito bem que essa não é a história que estará nas prateleiras das livrarias. Não passará em horário nobre e dublado no canal de televisão de alguma emissora no norte europeu. Não será noticiada em primeira página. Também não a lerão as pessoas que não conhecemos, não ganharemos medalhas, prêmios ou condecorações por isso.

Mas quem se importa? Seremos pais e essa é a glória – que talvez venha ainda acompanhada de uma camiseta de “Super Pai” pintada a dedo na 2a Série, uma caneca feita de barro por aquelas mãozinhas finas ou mesmo um beijo melado na bochecha quando eu chegar do trabalho para jantar. Isso importa.

Valores importam porque são o que nos moldam. São nossa família. E aquilo que somos e vivemos, eu sei, refletirá nessa vidinha que hoje pulsa, se prepara e surgirá em nossa casa e inverterá as nossas vidas sem pedir licença.

Quando casamos, iniciamos nossa família. Mas agora sinto que estamos começando a história daquilo que realmente somos. E ainda teremos mais filhos, que nos darão netos e bisnetos e talvez até alguns tataranetos (quem sabe o que ciência não há de preparar até lá?).

E quando estivermos velhinhos, sentados em nossas cadeiras de balanço, tomando um chá com biscoitos (bem, acho que ainda gostarei muito mais de um Toddynho do que dos chás), esses pequenos resultados de nosso amor, virão nos visitar num fim de tarde ensolarado. E então, entre uma brincadeira e outra, contarei a eles sobre os grandes feitos que seu avô realizou.

Sim, poderão haver aventuras, viagens, expedições inter-espaciais. Poderei ostentar livros premiados, ações humanitárias e conquistas materiais. Curiosamente ou não, não tenho a mesma fé em relação a música e a carreira como atleta.

Poderei ser ali, nesse futuro imaginado, um homem marcante para as pessoas. Mas hoje, percebo e acredito, que a grande obra de minha vida será a mais simples delas. Uma vida vivida com amor, a Deus e à minha família. Os filhos como frutos desse amor simples e tão comum. Eles serão o símbolo da história, do nome. Será essa, afinal, a mais nobre das obras, a melhor das conquistas, o grande triunfo. E me alegrarei, realizado em saber (ah, como creio!), que eles foram muito além de nós nessa jornada.

Hoje, oro e espero fazer direito. Espero honrar a confiança de Deus Pai em mim e na minha Manú, porque Ele nos dará a chance – e o amor, a vontade e o desafio – de escrever a nossa história, de escolher como e por o quê seremos lembrados um dia.

“Eis que os filhos são herança da parte do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão. Como flechas na mão dum homem valente, assim os filhos da mocidade. Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava; não serão confundidos, quando falarem com os seus inimigos à porta.” (Salmos 127: 3-5).

Ops!

por Luiz Henrique Matos

Muito bem. Sem as ilustrações que tornam melhor a explicação das mensagens, aproveito agora o isolado repente de um aprendizado – expressado na onomatopéia desse título – para dar razão a uma verdade que precisei sentir antes de crer. Que segue:

A única boa conduta que um homem pode ter por si só é o reconhecimento de seus erros.

A afirmação tão contundente deve-se ao fato de que todas as outras boas condutas pela qual pode ser avaliado, não lhe são originais de fato, mas reflexo da misericórdia divina. A bondade, a honra, a justiça, o amor, a fé, o ajudar a velhinha carente a atravessar a rua no semáforo são tão somente fragmentos de Cristo impressos em seu caráter. Esse bom caráter é a “imagem e semelhança” de Deus que herdamos. Isso é parte intrínseca de sua personalidade.

Mas veja pois e então que quanto ao arrependimento, essa é realmente a única atitude nobre que pode um homem ter por iniciativa própria. Reconhecer seus próprios erros e se dispor a mudar não é algo do qual Deus necessite em momento algum.

O arrependimento é a rejeição sincera ao comportamento anterior, o lançar fora a ilusória e altiva auto-suficiência, é esvaziar-se de si mesmo. E justamente nessa condição é que a visão se enquadra ao ângulo exato para enxergar a cruz. O ponto final da jornada egocêntrica.

A cruz. É esse o ponto da encruzilhada em que o caminho mal passa pela conversão e um novo rumo é tomado. É o ponto em que o homem vê que os erros dos quais, afinal, se arrependeu, estão perdoados. As penas que deveria sofrer, já foram sofridas. Suas dívidas já foram pagas. Sua morte foi consumada na crucificação de Jesus Cristo, o mesmo que agora, ressurreto, o convida para a vida eterna.

Que atitude boa pode o homem ter diante de tamanha glória? Que vida pode um homem viver então senão de gratidão e entrega àquele que o preenche de virtudes por amor? Quem não amaria um Deus assim? Quem não o teria como Pai?

“Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16).

Radicais e extremistas

Li agora no Teologia Brasileira um novo texto do Irmão T chamado “Bem-aventurados os pacificadores!”. Ele escreve sobre a conturbada e violenta relação entre o oriente e o ocidente, também expressada no convívio entre muçulmanos e cristãos. Leia abaixo um trecho:

É triste notar que radical e extremo viraram sinônimos de violência. Cristianismo radical deveria significar exatamente o oposto: extremo amor ao próximo. De qualquer forma, concordo com a rainha em um ponto: só venceremos essa guerra através da união de cristãos e muçulmanos que verdadeiramente buscam a paz. A desunião entre os dois grupos é o grande obstáculo a ser vencido.

O texto completo no site.

Versos infantis dessa minha felicidade

por Luiz Henrique Matos

Felicidade eu tenho,
Deitada ao meu lado,
Suspirando em paz,
Descansando em sonhos,
A repousar

Cabelos soltos sobre cama,
Como solta ela está,
Entregue, inocente,
Renovando a vida e o dia,
A repousar

Felicidade eu sinto,
Realizado nesse leito,
Enquanto leio, paro e olho,
A admiro e assisto,
A repousar

E sonho, ah, eu sonho acordado,
Com o filho que ela tem em seu ventre,
O futuro que seremos, dois eternos,
Ah, felicidade!
Ah, repousar!

Crescerá a criança,
De todo amor será cheia, de Deus,
E lançada como a flecha voará,
Subirá como águia, além irá pela vida,
Até pousar.