Sobre miniaturas, altares e choros a 120 decibéis

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Tem um ser humano em miniatura vivendo entre nós. É fêmea, mede 52 centímetros e já há duas semanas dorme na nossa cama, no meio da gente.

Ela saiu da barriga da Manú no domingo retrasado. Eu estava lá e a vi chegando ao mundo. Aquela coisa que se movimentava ali dentro até então era mesmo alguém da nossa espécie. Uma menina. A chamamos de Cecília.

Ela é de verdade. Respira, emite sons, dorme algo como 20 horas por dia, chora a impressionantes 120 decibéis e se alimenta de leite que sai dos seios da minha esposa. Se a pegamos no colo quando chora, geralmente se acalma. Nessas horas, dar tapinhas leves na fralda e caminhar pela sala em passos ritmados também tem certo efeito terapêutico.

Aos poucos, ela vai formando as primeiras impressões sobre o que é o mundo e a vida. E nós, bem, nós também. Uma nova perspectiva. Vamos nos conhecendo mais, vamos percebendo um novo tipo de amor criar raízes e frutificar em nossos corações.

Cecília não anda, não fala, nem se comunica de qualquer outra forma que não seja o choro. Ela depende inteiramente de nós para sua sobrevivência. Além de alimentação, higiene e cuidados fisiológicos, no futuro breve também estarão sob nossa responsabilidade a formação intelectual e moral dessa pessoa (e, confesso, tenho sérias dúvidas quanto à minha capacidade de cumprir essa tarefa). Somos uma família de quatro integrantes agora. Ela vai crescer e viver sob nosso teto de hoje em diante, até o dia em que decidir nos deixar para construir seu próprio lar.

Todas as suas atitudes e movimentos agora, disse o médico, são involuntários. Em algumas semanas, no entanto, haverá uma evolução drástica de comportamento. O período de sono, dizem, tende a ficar mais espaçado. A verdade é que da minha parte já não me lembro com clareza o que é sono, mas acho que vai ser bom para todos aqui.

Ainda assim, com seus “movimentos involuntários”, vez ou outra, sua mãozinha de 3 ou 4 centímetros se enrosca na minha barba e eu sinto algo estranho. Certas vezes, enquanto escuta nossa voz, seu olhar nos sonda, olha nos olhos e de alguma forma parece nos reconhecer, parece até que se familiariza com os sons, como quem reconhece finalmente a imagem do rosto associado a uma voz que já conhecia. E nos encara de um jeito tão absurdamente mágico que não importa o que aconteça no mundo a nossa volta, que mesmo que caia por terra a grande Muralha da China ou que o Rogério Ceni faça o milésimo gol da sua carreira em cima do Corinthians numa final de Copa Libertadores, é impossível desviar a atenção daquele rostinho quando ela nos escrutina com seu olhar de quem enxerga o mundo pela primeira vez.

Ah, o mundo. Fico pensando o que ele fará para merecê-la. Não dá pra racionalizar, claro que não.

E aquele ser humano em miniatura se converte no nosso universo todo de repente, vira a razão de estarmos aqui, a chamamos de filha, completamos uma família como gostaríamos que fosse desde o começo e acreditamos que nisso aqui, sob esse teto, existe um núcleo tão sólido quanto uma rocha milenar.

É claro que a todo momento, enquanto olhamos para ela, lembramos da Nina nesses primeiros dias. Os traços são parecidos, os olhos redondos e espertos, a boca rosada, as bochechas… E aí dá mais saudades ainda da Nina e mais nostalgia por vê-la agora, já aos oito anos, tão grande, tão independente, sendo e agindo como uma menina de oito anos, o que às vezes me faz lamentar. E me faz também querer participar mais do que resta da sua infância e aproveitar cada dia dessa vida fugaz.

Por que há algo em sua dependência que me faz agir de forma totalmente desprovida de qualquer interesse puramente pessoal. Por elas, eu não sou o egoísta que costumo ser. Por um instante, paro que agir como se eu estivesse no centro de tudo.

A paternidade é esse amor de entrega simples, de doação, porque não há troca, não há nada que se possa exigir do outro. Somos nós ali, madrugada adentro, acordando a cada 25 minutos para servir leite, para arrumar a manta, para conferir se estão mesmo respirando, para buscar água, para embalar no colo enquanto resmungam por alguma coisa que nenhum de nós sabe o que é. E até viramos compositores de novas canções de ninar com rimas simples e trocadilhos infames, assistimos aos filmes do Corujão com a TV no volume 1, cochilamos sentados no sofá da sala até o dia clarear pela janela. Com olheiras fundas, dores nas costas e os cabelos despenteados, nos surpreendemos sorrindo sozinhos tantas vezes e nos sentimos gratos, porque pudemos notar uma expressão diferente, porque ela deu um sorriso, porque nos olhou um instante nos olhos e aquilo tudo parece como o testemunhar de um milagre.

Porque é assim, queremos que sejam amados e não há um canal de comunicação, não há expectativa, não há ruídos. Esquecemos de nós para realizar uma outra pessoa que não faz ideia que recebe esse esforço. E quando notamos, realizados estamos nós.

Parece o jeito como todas as coisas deveriam ser, no fundo.

E as coisas vão acontecendo assim, numa hora que você não coloca na agenda e nem pode prever. De repente, aquela criatura começa a chorar e resmungar por alguma coisa qualquer, aí você resolve deitar um pouco e a colocar sobre seu peito. Ela dá um último resmungo, ajeita a cabeça, silencia, acalma e dorme. Dorme leve por horas. Você nem se mexe. E nem quer. Porque aquilo parece a mágica da existência humana. E quem é que explica uma coisa dessas? Por que a vida é essa coisa assim tão… tão tanto, tão aos montes dessas pequenas coisas que nos transbordam?

Esses momentos, as experiências… você sabe, os fragmentos de existência que justificam tudo. E que se nos oferecessem por um preço no mercado, não compraríamos, mas quando as vivemos já não trocamos por nada – ninguém pagaria por cinco minutos de filho dormindo no seu colo. Quanto você gastaria por aquele fim de tarde na pracinha empurrando uma criança num balanço? São nossa história, os pequenos trechos da nossa história. E é o tipo de coisa que nos preenche no fim das contas.

Pode me chamar de inocente, se quiser, mas esse é o tipo de acontecimento na nossa história que me faz acreditar em Deus. Um Deus pessoal mesmo. Não essa coisa cósmica e distante, não esse Criador abstrato do universo. Eu não consigo não acreditar que ele é alguém que contempla essa situação toda, que se comove e tudo. Porque Deus é o nosso Pai e também é o Filho.

Chego a ter vontade de erguer algum tipo de altar em momentos assim, só para, lá na frente, lá naquelas horas de mente ocupada pelas questões menos importantes do cotidiano (amanhã, quem sabe), eu possa olhar para esse memorial, relembrar o momento e voltar à essência. Meu altar são essas palavras, acho.

E minhas meninas são as chamas acesas que incandescem.

Faço então uma oração de gratidão, peço que sua luz nunca se apague, contemplo em sua pureza a face divina em sua expressão mais clara e bela, enquanto são crianças, enquanto a inocência é um reino em suas mentes e o filtro de seu olhar. E meu desejo mais íntimo é que elas possam preservar sua pureza, que sejam reflexo desse amor por toda sua vida, pregando paz por onde quer que passem, acreditando que são princesas, que podem voar, alegrando o mundo com seu riso, chorando a 120 decibéis e enxergando a vida, todos os dias, como se ela lhes fosse apresentada pela primeira vez.

Eu só quero estar lá por um tempo, só espero poder testemunhar. Quero sentar no chão em manhãs ensolaradas de verão, quero dedicar tempo, dividir experiências, tomar um lanche e estar junto enquanto elas crescem. Não para ter nada em troca. Não. Porque esse é um amor sem expectativas, é só entrega, é quando deixamos de estar no centro de tudo. É quando Deus nos deixa entender um pouco como ele é.

No fundo, parece mesmo o jeito como todas as coisas deveriam ser.

É mais fácil culpar o mau tempo

É mais fácil culpar o mau tempo.
É mais fácil culpar os políticos.
É mais fácil lamentar a má sorte.
É mais fácil acreditar que não temos nada com isso.
É sempre mais fácil fazer de conta.

É mais fácil culpar o trânsito da Marginal.
É mais fácil culpar o chefe.
É mais fácil desviar do problema.
É mais fácil acreditar em teorias conspiratórias.
É sempre mais fácil fazer de conta.

É mais fácil demitir o técnico.
É mais fácil aumentar os muros.
É mais fácil pedir uma pizza.
É mais fácil virar e dormir.
É sempre mais fácil fazer de conta.

É mais fácil culpar o sistema.
É mais fácil dizer que leu no jornal.
É mais fácil achar um culpado.
É mais fácil esperar por milagres.
É sempre mais fácil dizer que isso não é da nossa conta.

A Páscoa para os não religiosos

Uma coisa que às vezes me ocorre quando penso na Páscoa e na história que relembramos nessa data é que, evidentemente, nem todo mundo se identifica com o significado que isso tem para os cristãos (não estou ignorando o fato de que judeus também celebram a data, só estou restringindo a perspectiva para a leitura do Novo Testamento e do feriado prolongado).

É claro que isso não é de hoje. Fico tentando imaginar o que passaria pela cabeça de um cidadão da Palestina do primeiro século que eventualmente viajava por Jerusalém na ocasião da crucificação de Jesus. Entenda, nem todo mundo que estava na cidade naqueles dias fazia ideia do que aquilo representava e nem da própria existência de Jesus. As festas da Páscoa judaica atraiam peregrinos de todo Oriente Médio e, sem os meios de comunicação de massa (que só vieram a ser inventados quinze séculos depois), uma informação poderia levar semanas ou meses até ser minimamente difundida.

A cena que me vem à mente é a de um desses peregrinos, chegando à cidade naquela sexta-feira, observando a movimentação em torno de mais um condenado à crucificação que, movido pela comoção de discípulos que o seguiam (que tipo de criminoso atrairia discípulos?), resolve acompanhar a multidão e se vê, horas depois, aos pés da cruz de Jesus Cristo tentando compreender a história a partir dali.

Ele vivencia a morte do Messias e os fatos que a cercam. Nota a dor de seus familiares e amigos ao redor, acompanha o desfecho de mais uma tarde cruel patrocinada pelas autoridades judaicas e romanas que se impunham no local. Mas, ainda curioso, ele permanece ali e segue o caminho dessa história. Dois dias depois, ainda na cidade, testemunha o pequeno alvoroço daqueles mesmos homens, celebrando discretamente um milagre: diziam que o homem que ele viu morrer na cruz era, de fato, o Messias. E ele havia ressuscitado.

Com base no que observou, ouviu e percebeu da coisa toda, o que o peregrino poderia entender?

Acho que é algo assim que me vem à mente quando penso nessas datas religiosas e imagino que, se faz muito sentido para mim e alguns amigos, há muita gente no mundo que só acompanha essas histórias a partir desses fragmentos e de documentários e filmes mal produzidos que passam na Discovery ou na Record. Os três dias da Páscoa, a noite de Natal, são eventos pontuais em uma história que não se limita a esses dois fatos. Ela tão pouco se limita aos Evangelhos.

O que quero dizer é que, para os cristãos é muito claro que a Páscoa é uma data definitiva, no sentido em que carrega consigo todo o significado e a razão da nossa fé. A Páscoa é desfecho e recomeço, é morte e ressurreição, é sacrifício e vida, é a conjuntura de fatos que consolidam a nossa crença e divide a história. É difícil não ter, na reflexão sobre esses três dias, ensinamentos que preencham e fundamentem nossa filosofia por uma vida toda. É evidente que esse desfecho não pode ser dissociado de toda a vida de Jesus e do curto ministério que ele exerceu. A Páscoa cristã é uma confirmação da história toda e nossa espiritualidade e esperança tem grande parte de suas bases nesses três decisivos dias e nos fatos que o emolduram.

No entanto, em um mundo como o de hoje, no contexto do nosso tempo, o que uma data como essa pode representar para as pessoas não adeptas do cristianismo como estilo de vida? E o viajante que até observa as cenas, até lembra do que sua avó dizia, até assiste a um documentário no Discovery (filmes da Record não dá, né?), mas não carrega consigo o peso daqueles gestos?

Que significado tem a Páscoa para quem não é cristão?

Passeando por Jerusalém naquele feriado, o peregrino só enxergaria um fragmento dessa história. Aos pés da cruz, à porta do túmulo vazio, sem o pano de fundo da religião de seus seguidores e encarando apenas os fatos soltos, ainda assim lhe ficariam à vista as evidências e fragmentos do porquê muitos acreditavam em Jesus como sendo o Cristo.

Ainda dá para vê-lo de braços abertos e isso quase basta. Ainda é possível entender que seu gesto extrapola os limites da religião, que sua vinda não é para aquele pequeno grupo de seguidores, mas para a humanidade toda. Ainda ecoa retumbante a sua mensagem que no coração de cada homem encontra abrigo.

Amor, perdão e esperança.

Ainda é simples o seu plano. Por que um mundo com mais Jesus é um mundo que todos nós desejamos. Eternamente.

Ainda vale celebrar a Páscoa. Vale viajar por três dias a Jerusalém e relembrar a história do Deus morto na cruz e da sepultura vazia. Porque aconteceu dois mil anos atrás, mas ainda precisamos seguir o caminho para entender.

Somos todos peregrinos.

“Eu estarei com vocês enquanto procederem assim, dia após dia após dia, até o fim dos tempos” (Jesus, em Mateus 28).

Uma foto para acrescentar alguém

Cecília chegou. E agora há um personagem novo para ilustrar e inspirar esse blog :)

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Cecília

(escrito em 31 de janeiro de 2015)

Sonhei com minha filha essa noite.

Já estávamos no começo de abril e ela nascia naquele instante. A Manú estava na maca do hospital, eu aos seus pés e uma enfermeira vinha trazendo o bebê limpo para eu conhecer. Eu vestia um pijama, com calça comprida e camiseta. Quando finalmente a tomei no colo, senti aquela pele fina e macia em contato com a minha e pude ver aqueles olhos – aqueles olhos! – olhando fundo nos meus pela primeira vez. Num instante, o quarto do hospital se converteu magicamente no quarto aqui de casa. A Manú deitada em nossa cama e eu com nossa pequena nos braços. Repeti as palavras que disse quando a Nina nasceu e sentindo-a tão perto, tão minha, ali, chorei uma oração de gratidão.

O tempo havia parado em todo o resto do mundo e naquele minuto o mundo todo era só nosso. Entrava um raio de sol pela janela que iluminava parcialmente o quarto e nos envolvia. Soprava um vento leve ao redor. Nós dois sorríamos a felicidade encarnada. Erámos pais novamente. E Deus estava ali.

O tempo. E a nossa percepção do tempo

Longe de casa outra vez. No último ano tem sido assim e, vez por outra, o trabalho exige que eu me ausente por uns dias. Esses mesmos quatro ou cinco dias que passam como vento durante uma semana qualquer, em momentos assim parecem se arrastar na proporção da distância que percorro.

O tempo e seu aspecto relativo. O tempo, de fato, a coisa métrica ali no relógio girando os ponteiros, e a nossa percepção do tempo, afetada pela carga das emoções. Da pressa para que passe logo, do desejo de que nunca acabe, do anseio de eternidade que carregamos no peito.

Só no que consigo pensar nessa horas é nas pessoas que amo e que não estão aqui agora. A Manú, nossas filhas, elas crescendo, nós dois envelhecendo. Vamos passando os dias, as horas, os anos, um a um, nessa peregrinação. Me pergunto se não estamos apenas atravessando a vida na maior parte das vezes, se não perdemos a rota e vamos navegando a existência num entrar e sair de ar, num pulsar de sangue nas veias. Queria ter certeza de que, de fato, estamos dirigindo os nossos passos nessa breve caminhada.

Porque se não somos donos de nossa existência (você não escolheu nascer), ao menos Deus nos fez senhores dos nosso tempo. E se temos escolha sobre como empenhar os poucos dias que temos sobre essa terra, porque ainda nos submetemos tanto a questões periféricas? Por que, afinal, o que nos dirige e determina nossas escolhas são os assuntos secundários e não as mais importantes e definitivas razões pelas quais existimos? Dedicamos mais e mais tempo ao trabalho, às reuniões sociais, a ganhar e gastar dinheiro, a discutir qualquer assunto vazio ao redor de uma mesa, reclamar e ser veementemente a favor ou enfaticamente contra o _______________ (preencha aqui o assunto mais importante de todos os tempos da última semana) no Facebook. Vivemos às custas de aparências e superficialidades. Nos sujeitamos, como escravos, reféns de salários, carreiras e cargos, num jugo imposto por nós mesmos, como se isso definisse o que somos de alguma forma. Tornamos a vida pequena. E acho que haverá muito do que se arrepender no futuro se as coisas continuarem no rumo em que estão.

Enquanto isso… bem, enquanto isso nossas famílias recebem tão pouco daquilo que mais esperam de nós. Erramos, provendo o que sentimos que desejam sem lhes dar o que precisam. Dedicamos tão pouco tempo aos nossos relacionamentos mais preciosos, sem nos dar conta, talvez, de que perdemos mais um pedaço da vida – da nossa e das deles – a cada nascer do sol sem que tenhamos sentido que expressamos nosso amor. Enquanto isso, há tanto o que se produzir lá fora, tanta gente para se estender a mão, coisas significativas a serem debatidas. Falta tanto tempo em nossas agendas para ajudar o próximo, para discutir questões relevantes, fazer uma prece, para varrer a calçada, para praticar política, religião e futebol – ao invés de só produzir espuma sobre isso com nossos cliques e comentários.

Hoje é domingo. Estou a quinze, vinte ou trinta mil pés de altitude (não faço ideia, realmente. Quando leio o número naquele painel, tudo o que penso é num amontoado de pés humanos empilhados, grudados uns nos outros e se estendendo infinitamente para o alto. Já pensou? Dez mil pés!). Observo pela janela do avião uma cidade lá embaixo. Apesar do sol de fim de tarde, as milhares de construções, casas, prédios estão cobertos pelo branco da neve. É uma cena bonita. Fico olhando para as minúsculas janelas, para os carros se movendo nas rodovias como pequenos insetos. A vida alheia acontecendo, o ser humano em sua jornada cotidiana. Gente por todo lado conduzindo suas vidas ou sendo conduzidos por elas.

Temos escolha?

Só um instante a menos e fios de cabelo branco aparecem nas têmporas, um ano se passa e a Nina sopra mais uma vela, duas semanas e a Cecília cresce outros tantos centímetros dentro da barriga da mãe, 34 anos e uma nova dor nas costas aparece, circunstâncias, o inesperado todos os dias, nossos pais se aposentando, pessoas próximas começam a morrer com mais frequência.

O tempo. E a nossa percepção do tempo.

Pela janela, a vida passa depressa. É fácil se deixar levar nesse voo, nessa coisa de existir sem fazer perguntas, de acordar e dormir, ir e vir, ganhar e perder, de morrer aos poucos. O esforço está em parar um pouco, em sentir o vento no rosto, apreciar a paisagem e desfrutar a jornada de mãos dadas com quem amamos.

O tempo. E o que fazemos com ele.

Eu não poderia desejar mais

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Trinta e quatro. É a minha idade e também o número que ela já calça. Olho assustado para as Havaianas largadas no meio da sala – não porque estejam largadas no meio da sala, porque até já me parece que ali é seu lugar natural – e me espanto, outra vez, por enxergar as sombras do que teimo negar: não temos mais um bebê em casa.

Ainda que o desenvolvimento do seu vocabulário seja uma das áreas em que pessoalmente me alegro de estar envolvido, me espanto quando ouço uma expressão nova saindo dos seus lábios. Mesmo consciente de que jamais tive bíceps como os do Popeye – nem 10% daquilo, é verdade – uma dose de tristeza me toma quando fico ofegante e desajeitado carregando no colo uma menina que já passou da metade da minha estatura e que um dia, eu juro, coube no meu antebraço.

Fico olhando as fotos, os trabalhinhos de escola, as velhas marcas de sua altura gravadas no batente da porta do quarto, as bonecas antigas, os DVD’s que ela já não assiste porque são, ora bolas, “coisa de criancinha”. Antes do que imaginava, deixei de ser o seu príncipe encantado para me tornar, nas palavras dela, o “papai encantado”.

É muito cedo para esse tipo de nostalgia, eu sei. Ela só tem sete anos, eu sei (mas emendaria: “sete anos e dez meses, cara”). Eu reclamo de não poder ter de volta o que passou mas vivo dizendo que as coisas só vão melhorando a cada ano, eu sei. Não importa o que ela diga, ela será pra sempre minha princesa, eu sei. Eu sei disso tudo, mas é que… você sabe.

Nessas horas, me pego num momento assim, me vejo surpreendido pela possibilidade de poder, quem sabe, viver mais um pouco disso outra vez.

Mais um filho para chegar na família. Falta muito pouco e a Cecília estará por aqui. Vivemos os preparativos e a expectativa de mais uma criança para embalar nos braços, para observar engatinhando pelo assoalho escuro, para instruir nos primeiros passos. O apartamento, como o coração, parece que se expande agora e nós dois vamos nos acostumando à ideia de amar e cuidar, outra vez, de um novo ser sob nossas asas.

Somos esse lar hoje, somos três e um cachorro. E muito em breve novos ruídos, novos perfumes, uma nova pessoa estará entre a gente (e essas madrugadas silenciosas voltarão a ser preenchidas de choros, bocejos, mamadeiras, bocejos, fraldas, mamadeiras, bocejos, bocejos e choros). Tudo é tão mágico. Vejo a Manú desconfortável com os quase oito meses de gestação limitando seus movimentos e lembro das mesmas cenas oito anos atrás, quando aguardávamos a chegada da Nina.

Eu diria que as coisas são diferentes agora. Mas não são. Muito mudou, mas nesses momentos tão particulares, tão nossos, nos olhamos nos olhos e… você sabe, ainda estamos aqui, ainda somos nós dois, tão pequenos, tão inseguros e despreparados, que quase me vejo dando flores a ela pela primeira vez novamente.

A vida, né?

O som do ventilador ligado interrompe o silêncio dessa noite de janeiro. É dia 25, o último dia das férias de todo mundo aqui em casa. Amanhã às 6:00 a rotina se restabelece, nosso ano começa e eu só não quero que o cotidiano engula essa sensação, esse tipo de epifania que só podemos experimentar quando estamos completamente tomados pelo ócio e sensíveis a novas perspectivas – é quando ouço a Deus, costumo acreditar.

Não consigo dormir, escravo de um pensamento que me ocorre desde cedo, enquanto fazia uma oração de gratidão pelo bom ano que tive, por tudo de tão bom que se apresenta por vir: “Não poderia estar melhor, Pai. Eu não poderia desejar mais”.

A alma mergulha numa aventura. Deus sempre diz que o melhor ainda está por vir. Eu acredito. Bebo um copo d’água, sinto a brisa fria passar pela pele, tropeço naqueles chinelos largados pela casa e tomo notas. Tenho minhas meninas aqui comigo agora e nossa casa estará mais cheia em breve. Hoje é um desses dias em que eu gostaria de erguer um altar.

Eu não poderia desejar mais.

A história que já foi contada

Pensei em escrever uma história. Desisti. Essa história já foi contada.

Era noite.
Havia uma estrela brilhando intensamente no céu.
Havia pastores trabalhando no campo.
Havia anjos cantando.
Havia um jovem casal viajando pela Judeia.
A moça dava à luz numa estrebaria.
E havia um bebê numa manjedoura.

O Deus menino. O Salvador. O Messias. O Redentor. O Cristo.

“Ele será chamado Jesus.”

* * *

Celebramos seu nascimento. Celebramos sua vida. Celebramos também sua mensagem.

Deus se fez menino para nos mostrar sua face. Se fez homem para nos revelar seu caráter. A imagem e semelhança que fomos criados para espelhar.

Veio ao mundo para corrigir o rumo de nossa história, converter o caminho da humanidade.

Você não precisa ser cristão para celebrar o Natal.

Vamos celebrar o amor.
Celebrar o perdão.
Vamos celebrar a compaixão.
Celebrar a vida em comunhão.
Vamos celebrar a paz.
Celebrar a justiça.

Celebrar o Natal, que é, sobretudo, uma nova vida – o espírito de uma criança – sendo gerado em cada um de nós.

“Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz. Ele estenderá o seu domínio, e haverá paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, estabelecido e mantido com justiça e retidão desde agora e para sempre.” (Isaías 9, versos 6 e 7)

Vinte centímetros e o tamanho do mundo todo

Quando a Manú engravidou da Nina, oito anos atrás, comprei um livro de presente para ela. Pode me chamar de insensível, mas quando estou inseguro sobre qualquer coisa vou a uma livraria dar uma volta e procuro um manual de instruções. E dei para ela um manual de instruções da gravidez.

Basicamente, cada capítulo tratava sobre um mês da gestação. Se alguém me contasse isso antes de ter filhos, deduziria que o livro deveria ser um panfleto com nove páginas. Mas surpreendentemente há espaço para se escrever sobre isso em quase 700. Especialistas falavam sobre como o bebê estava, seu tamanho, evolução, se já ouvia, já sentia e também sobre as mudanças que aconteciam no corpo e nas emoções da mulher ao longo daquelas 40 semanas (lição básica sobre gravidez, caso você não tenha filhos: não se calcula uma gestação em meses, conta-se as semanas. E não adianta tentar converter na proporção de 4 por 1 porque nunca dá certo).

Um dia, ela comentou sobre um assunto interessante do livro. No outro, leu um trecho muito esclarecedor. No terceiro, eu o carregava escondido para a sala depois que ela dormia. Descobri naquelas páginas os segredos do que se passava com minha esposa e, melhor, do que viria a acontecer dali para frente. Era um tipo de futurologia. Eu lia o mês seguinte antes e, quando sintomas chatos apareciam, eu tirava de letra. Quando incômodos aqui ou ali surgiam, eu podia ajudar. Quando as alterações de humor que… que… não, absolutamente, n-u-n-c-a aconteceram (amor, você está lendo?) foram relatadas naquelas páginas… bem, eu descobri que minha amada esposa é um ser superior iluminado alheio a essas previsões tolas (querida, um beijo).

Por um lado, saber de antemão o que viria pela frente e conhecer como nossa filha se desenvolvia e crescia, trazia certo conforto. Mas por outro, assustava ainda mais. A insegurança, as dúvidas, o medo de não ser capaz de trazer um ser humano para o mundo eram sombras que nos perseguiam a cada capítulo. Até que a Nina nasceu. E cada pingo de dúvida virou certeza.

Não estávamos prontos. Mas, ao nosso jeito, com manuais, tropeços, conselhos dos mais velhos, acertos involuntários, palpites alheios, documentários em DVD e observando ela crescer sob nosso teto, fomos nos descobrindo pais e aprendendo que, apesar da insegurança nunca passar, a Nina está aqui, perfeita, seguindo bem e começando a aprender com suas próprias escolhas. E a gente se realiza vendo o fruto disso na forma como ela enxerga e vivencia o mundo à sua volta e o quanto nos ensina com seu olhar.

Cinco meses atrás, quando a Manú descobriu que estava grávida novamente, começamos a imaginar se o sentimento seria igual. Parecia que a avalanche de incertezas e aquelas sensações todas nos invadiriam outra vez. Foi então que notamos que grande parte desses sentimentos nunca foram embora. Ter filhos envolve ter medos e dúvidas sobre tudo e perguntas que se renovam a cada festa de aniversário, mas também faz com que nos sintamos cercados de uma das poucas certezas que poderíamos ter na vida.

Dessa vez eu não comprei um livro, mas por precaução – vai saber quantas coisas não mudaram em termos de gravidez, bebês e esposas nesses oito anos? – baixei um aplicativo no meu celular chamado “Minha gravidez” ou coisa assim. Sim, no meu celular. Preenchi um breve cadastro considerando a data da última menstruação para eles calcularem a idade gestacional e depois passei a receber alertas e e-mails sobre o que está acontecendo, semana a semana, com minha filha e com minha esposa.

Dicas sobre alimentação e cremes para o corpo eu descartava. Tópicos relacionados a alteração de humor, evidentemente, também eram ignorados. Mas questões ligadas a hormônios, libido, saúde da mulher, bem-estar e o desenvolvimento da criança, eu lia assiduamente. Até que começaram a medir e divulgar o tamanho do bebê. Sempre gostei da ideia das medidas, achava legal saber que tinha cinco, dez, vinte centímetros… aquela belezinha crescendo ali.

Certo dia, no entanto, abri o aplicativo e a mensagem era a seguinte: “5 semanas: seu bebê tem o tamanho de uma semente de gergelim.”

Achei curioso. Até então, gergelim era, para mim, um elemento específico presente na fórmula do Big Mac, feito de um tipo de plástico comestível. Nunca tive ideia se aquilo era um alimento com origem, identidade própria e tão pouco que havia uma padrão de medida.

Na semana seguinte, abri o app na segunda-feira (dia de aniversário gestacional da minha filha) e: “6 semanas: seu bebê tem o tamanho de uma lentilha.”

Não faço ideia do tamanho de uma lentilha. Só vejo lentilhas servidas numa mesa uma vez por ano, se muito. Sua dimensão tem valor relativo pra mim, que pode se assemelhar a um feijão, milho ou… gergelim.

Mais sete dias e: “7 semanas: seu bebê tem o tamanho de um grão de bico.”

Ok. Idem a semana 6. Grão de bico é igual a feijão que é igual a lentilha que pode ser igual a gergelim. Assumo que minha filha cresceu bem pouco.

“8 semanas: seu bebê tem o tamanho de uma uva moscatel.”

Qual das uvas, entre as cinco opções que vendem na feira, ora raios, é a moscatel? Tive que esperar o sábado para saber e tentava, pela primeira vez na vida, ler as plaquinhas de papel penduradas em varais nas barracas de frutas para identificar a palavra “moscatel” escrita em alguma delas e fazer a bendita associação. Mas aí ela já tinham se passado cinco dias, ela deveria ter crescido ainda mais e estava bem perto da segunda-feira. E na segunda-feira é dia de abrir o aplicativo para checar as novidades e descobrir que:

“9 semanas: seu bebê tem o tamanho de um grão de feijão jalo.”

Jalo? Jalo!? Tá me zoando, né? Tem um jornalista escrevendo isso ou é o estagiário do Ministro da Agricultura? O que é um feijão jalo? Isso é a gestação de um bebê ou treinamento básico de agricultura doméstica para a distribuição de terras da reforma agrária? Tive que ir ao Google pesquisar sobre as diferenças entre os tipos de feijão no Brasil.

E assim, em caráter campestre, a coisa seguiu nas semanas que passaram. A cada vez, minha filha se assemelhava a um item de prateleira do hortifruti: azeitona verde, figo, limão, limão siciliano, pedaço de gengibre, coco seco, pepino, cenoura, manga, alho poró, cebolinha verde, repolho roxo, repolho, abóbora menina. Sim, menina, mas eu prefiro chamá-la de Amora do que de Abóbora. E, finalmente, abóbora – só abóbora – é o tamanho que ela terá lá na semana 40, ao final, quando nascerá.

Apaguei o aplicativo. Desisti de tentar imaginar minha filha, minha segunda princesinha, sendo comparada com uma leguminosa, fruta, tubérculo ou vegetal pelo ex-redator do Globo Rural que resolveu mudar de carreira. Eu lia sobre o tamanho dela e sentia vontade de dirigir até o CEASA para entender do que estavam falando. Pedaço de gengibre? Feijão jalo? Repolho roxo? É orgânico ou transgênico? De safra boa ou ruim? Plantado na terra ou hidropônico?

No fim, não faz falta. Tampouco faz o livro ou qualquer guia que nos instrua, essa é a verdade. Porque, no fundo, ter vivido isso uma vez com a Nina já nos faz encarar essa situação de um jeito diferente. Já sabemos, mais ou menos, como vai ser e como não vai ser. E não ter a incerteza e a tensão que vivemos durante a primeira gestação, de algum jeito, pode beneficia-la. Talvez, até com um peso menor sobre si, com pais menos instáveis, sufocantes e medrosos. Quem sabe até a Nina se sinta mais leve por finalmente não ser o centro de tudo por aqui.

É aquela sensação de que já passamos por essa rua antes, sabe? Parece que estamos viajando de novo para uma cidade que amamos visitar. E agora, ao invés de fixar os olhos no mapa para descobrir em que esquina devemos virar, queremos reparar na paisagem, desfrutar o caminho, prestar atenção aos detalhes.

Tem passado rápido, tem sido maravilhoso. Outro dia nos demos conta de que mais da metade já se foi. Ela começou a se mexer e chutar. E cada hora que faz isso, tem todo um evento aqui em casa e nós três nos mobilizamos e nos reunimos para ficar ali, com a mão posta sobre a barriga da mãe, desfrutando dessa pequena, essa singela, essa tão poderosa interação que podemos ter. Ela ali dentro, a gente aqui fora. Esperando. Mas a verdade é que para nós ela já chegou.

Daqui a pouco seremos quatro, eu penso todo dia. Como ela vai ser? Será que vai gostar da gente? Será que já percebe o quanto é amada? A Nina beija a barriga, pede que a mãe tome cuidado, que sente direito e não aperte a irmã, a chama da “mana”, a barriga cresce, a Manú grávida fica ainda mais linda, nós todos ainda mais animados. E vem toda aquela mágica, aquela ideia que amadurece dentro de nós, tão real, de repente tão grandiosa, como uma certeza de que nada, nunca, em momento algum a nossa história poderia ser tão perfeita. São assim, esses momentos. E aí que a gente transborda de gratidão e a vida, essa vida da qual eu resmungo diariamente, se enche de sentido.

Vamos aprender tudo outra vez, continuaremos seguindo pelo caminho. Porque esse é o lugar onde mais gostamos de estar. Com nosso jeito, com aqueles manuais, tropeços, conselhos, acertos involuntários, palpites de tanta gente e documentários em DVD notaremos que, apesar das nossas imperfeições, nossas meninas crescerão bem. Sob nosso teto, nossos olhares e a boa mão de Deus.

Queremos ver seu rostinho logo e beija-la. Queremos olhar em seus olhos, cheira-la no pescoço, nos apresentar para ela, apresentar o mundo todo e deixar ela acreditar que nasceu para reinar sobre ele sentada num trono cor-de-rosa com glitter ao lado da irmã mais velha. Queremos que ela venha, sim, mas sobretudo desejamos que ela venha na hora certa, no seu tempo e que, do mesmo jeito que Deus escolheu esse momento da história para ela surgir em nossas vidas, que ele também providencie que nasça em perfeita sincronia com seus planos. Do jeito que vier, do tamanho que tiver, a gente nunca mede o que sente. Com 38, 39 ou 40 semanas, não importa, é nossa menina. Não uma abóbora, uma menina.

Plantio

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Era tarde, a família dormia, o casebre já todo escuro e ele deitado na cama fazia sua leitura à luz do lampião antes do sono chegar. A janela do quarto aberta deixava entrar um fio de luz da lua, o chamado de um pássaro longe do ninho, o ronco de uma carreta rasgando a estrada distante.

De repente a cortina ergueu-se e chacoalhava pelo quarto todo. Ele se levantou. Um vento vindo do oeste invadia a casa, o cheiro da terra erguia-se. Enquanto fechava o trinco da janela de madeira para contar o vento, pensava “vai chover. Já já chove”. E como fazia falta aquela água! Ele sabia. A lavoura clamava de sede, o gado se arcava de sede. Sua alma. Fosse outro tempo, dava-se um jeito, mas agora já não tinha por onde escapar. Ele precisava plantar.

Aqueles pássaros

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aqueles pássaros todos
voando
com suas asas
sem limites
sem tempo

todos aqueles pássaros
apenas eles
com seus rumos
e uma jornada nessa estação
o tempo voa

aqueles sonhos todos
de uma vida toda
com liberdade e paz e felicidade
deslizando
como um sopro de Deus

apenas pássaros.

Cenas domésticas – A dura realidade

– Mas Nina, eu preciso ir tomar banho e lavar os cabelos.
– Não lave, Isa. Fique aqui, brincando comigo.
– Mas meu cabelo está oleoso, Nina.
– O da minha boneca também.
– Mas ela é de mentira.
– Assim você me magoa, Isa. Para mim, ela é de verdade.
– Mas é a realidade, Nina.
– Sua realidade não pode ser um pouco menos verdadeira?

Volto quando possível

Sei que tenho comparecido muito pouco a esse espaço ultimamente, mas o fato é que, de uns tempos pra cá, tenho sofrido com a falta de momentos para escrever. Não é ausência de tempo o problema. Esse sempre faltou. E mesmo escasso – como imagino que é para todo mundo – nunca me impediu de colocar algumas ideias no papel de vez em quando (menos do que eu gostaria, é verdade, mas muito mais do que a minha falta de talento deveria limitar).

Também não é a inspiração que sumiu. A Manú está grávida de mais uma menininha – e quem já frequentou essas páginas sabe o que isso significa para mim em termos de prolixitude -, viajamos recentemente para um lugar maravilhoso, a Nina cresce e nos surpreende diariamente. Várias são as fontes de novas ideias que não me deixam reclamar.

O ponto, no duro, é a falta daqueles momentos propícios, tão caros no dia, mas agora perdidos. Os momentos propícios eram aqueles intervalos de ócio rotineiro que se preenchiam de atividades tão repetitivas e vazias que abriam um vácuo oportuno para as ideias se afirmarem.

Para mim, sempre foram três esses períodos, mas as circunstâncias recentes os aniquilaram.

Meu favorito era o banho. Valiosos minutos de água morna correndo na cabeça, o corpo se livrando do peso de um dia inteiro de trabalho duro e a mente, de repente, despertava da inércia dos pensamentos automáticos com uma nova ideia, uma pequena frase, um título, algo para se escrever, uma história inteirinha às vezes. Sei que não estou sozinho entre os que se veem assaltados pela inspiração durante o banho e sei até que há uma explicação racional par ao fato de termos soluços criativos quando estamos no chuveiro. Cheguei a desenvolver toda uma técnica para não desperdiçar o que me vinha à mente nessas hora: sabonetes em barra funcionam como caneta no vidro do box e já povoei o blindex de casa com parágrafos inteiros de aloe e vera. Mas o problema é que agora só o que me vem à mente enquanto tomo meu banho é a face magra do Geraldo Alckimin me encarando e o último indicador do nível do segundo volume morto do Sistema Cantareira em contagem regressiva. A água cai, eu me enxáguo e penso “3,9… 3,8… 3,7% no nível da represa”, que vai escorrendo pelo meu ralo.

O trânsito era outro desses momentos. Não moro tão longe do escritório, mas em São Paulo distância nunca foi referência para tempo. Das 24 horas que o dia me dá, passo cerca de duas sentado no carro, entre a ida e a volta, tamborilando os dedos no volante, escutando o noticiário no rádio e atento, muito atento, às orientações do Waze, meu mais novo melhor amigo, que me ensina a cada dia uma nova rota e que me ajuda a economizar até, pasme você, 6 minutos no trajeto. E se antes o trânsito era feito de uma fila interminável, massante e extremamente fértil para as ideias (que eu anotava no verso de um recibo, na contra-capa do manual do proprietário ou no bloco de notas celular), agora meu aplicativo de rotas exige que eu fique atento – sim, muito atento – aos seus “vire à esquerda”, “vire à direita”, “na rotarória, pegue a terceira saída” e “cuidado com as obras (juro que ouço cobras) na via à frente”. Ganhei meus minutos na volta pra casa, mas deixei em alguma esquina o fértil celeiro de histórias que se elaboravam enquanto eu observava as pessoas caminhando nas ruas, sentadas no ônibus ou no carro ao lado. Chego ao meu destino exausto.

A atual conjuntura da cidade vem aniquilando os parcos momentos produtivos para algum texto, crônica ou desenho. Me restava ainda um desses espaços, mas há três semanas ele também se foi. Era o mais curto deles, meio reticente, que acontecia nos minutos entre o escovar dos dentes e o deitar no travesseiro. O mundo entrando em silêncio, a luz dando lugar à escuridão e a mente martelando em polvorosa. Nesses instantes, tantas vezes, me perdi. Abria o caderninho de anotações que deixo sobre o criado-mudo, sacava a caneta e deitava a tinta em algumas páginas. Em minha mente, o único ruído era das teclas da minha máquina de escrever imaginária que pareciam compor as histórias, frase a frase, um verbo após o outro, adjetivos após adjetivos (a serem devidamente cortados posteriormente) e disso, por tanto tempo, esse blog se alimentou. Mas foi um dia, no tilintar das teclas, que um ruído novo surgiu. Um zumbido agudo ao fundo. Depois, outro, vindo de longe e cada vez mais alto, ao pé do ouvido, chegando das profundezas, da escuridão do inferno. Pernilongos. Malditos insetos mutantes que resistem a venenos, repelentes e caçadas homem-a-inseto madrugada adentro. Já não reina a paz, não há silêncio. Me tiraram o sangue, o sono e as boas ideias.

E me pego, de repente, murmurando pelos cantos, irritadiço, inquieto, precisando despejar num pedaço de papel alguma coisa qualquer, só para me esvaziar de novo e renovar a mente. Ando querendo descobrir onde foram parar, nesses tempos, os momentos de quietude. Alguém deveria lançar a moda da solitude, do ócio e da contemplação para o homem pós-moderno aderir – mesmo sem se dar conta que o caipira, os monges, os espanhóis e os baianos já praticam isso há muito tempo – e chamar de inovação espartana frugal ou qualquer nome interessante e alternativo que mereça um ensaio, um documentário e um espaço dedicado na Vila Madalena.

Hoje, não fazer nada é o cúmulo da ostentação.

Sem meus momentos, confesso que ando meio perdido. E até que chova torrencialmente na cidade, eu ganhe um helicoptero de presente de Natal ou Deus reconheça que foi um equívoco a criação de certos insetos (e depois, salvá-los na arca!), meu principal hábito terapêutico está seriamente comprometido.

Volto quando possível.

A verdade de que precisamos

Quando falo de Deus, estou falando sobre a fonte de toda a verdade, seja qual for o rótulo que ela contenha, seja quem a pronuncie ou onde quer que ela seja encontrada – num laboratório ou numa catedral, no barzinho da esquina ou em Marte.

Isso é importante porque, para muitos, em algum ponto do caminho a realidade foi dividida entre o secular e o sagrado, o religioso e o banal, o santo e o comum – ficando subentendido que se pode falar de um ou de outro mas não de ambos ao mesmo tempo.

Esse entendimento des-integrado da realidade — aquele que coloca Deus de um lado e não do outro, aquele que divide o mundo em dois compartimentos — é letal, nos desliga das profundezas e nos separa da fonte.

Porque às vezes precisamos de um médico, às vezes precisamos de um poeta. Às vezes precisamos de um cientista, e outras vezes precisamos de uma canção.

(Rob Bell, no livro Do que nós estamos falando quando estamos falando sobre Deus)

Isso aqui vai acabar

Um dia isso vai acabar. Quando digo, não me refiro ao todo, ao conjunto da obra, falo disso aqui, agora, eu deitado na cama de barriga pra cima e minha esposa grávida ao meu lado, e a Nina, a Lucy, o apartamento, tudo. A vida vai seguindo.

Isso aqui. Um lampejo de consciência sobre a brevidade da vida e o ineditismo de cada minuto, a finitude escancarada do tempo. Precisamos aproveitar.

Não falo de curtir a vida de forma inconsequente como se tudo pudesse terminar hoje. Falo de curtir, falo da vida, da consciência de que o tempo esvai. Que amanhã vamos olhar para trás e ter desejado fazer diferente.

Outro dia, o Dr. Pedro disse numa consulta: “Tudo o que um velho mais quer, Luiz Henrique — ele é uma das três pessoas que me chamam pelo nome composto — é ter os pés bons para poder andar por aí”.

Dois pés, funcionando. Não é pedir muito. Falamos tanto da busca pelo significado da vida, mas às vezes é só uma questão de ter uma vida para preencher de significado.

Semana passada eu lia sobre longevidade e o aumento da idade média da população e fazia contas pensando que seria muito bacana se eu pudesse — se tivesse condições financeiras — de me aposentar aos 50 anos.

Aos 50, ainda teria tempo de viajar e conhecer o mundo, pensei. Daria ainda para ter os dias livres para ler tantos livros quanto anoto para ler depois, escrever histórias novas e, quem sabe, aprender a tocar um instrumento. Eu poderia ser um cinquentão saudável se malhasse. Passearia com a Manú em parques e museus num dia de semana à tarde. E teríamos tempo, aí sim, finalmente, para curtir os filhos, nossas crianças…

…Que estarão com 24 e 17 anos de idade, respectivamente (e passear com os pais pelas ruas de São Paulo certamente não constará em suas listas de programas favoritos).

E terei trabalhado mais 17 anos cega e arduamente e juntado recursos e capital suficientes para lhes dar tudo aquilo que eles jamais me pediram, que jamais precisaram que lhes deixássemos como legado. Porque o que eles precisavam – e nós também – nós deixamos para depois.

A Manú me mandou um email há algum tempo com uma carta de Charles Bukowski para John Martin, seu primeiro editor, que certo dia lhe ofereceu 100 dólares por mês até o fim de sua vida se ele abandonasse seu emprego numa agência dos correios para se dedicar à escrita. Já com mais de 60 anos, ele escreve num dos trechos:

“Você conhece meu ditado antigo, ‘A escravidão nunca foi abolida, ela apenas foi estendida para incluir todas as cores’” (…) “Eles nunca pagam os escravos o suficiente para serem livres, apenas o suficiente para ficarem vivos e voltarem para o trabalho.”

E em outra parte: “E, o que machuca é a consistente diminuição de humanidade daqueles que lutam para manter seus trabalhos que não querem mas tem medo que as alternativas sejam piores. As pessoas simplesmente se esvaziam.” (…) “Seus filhos vão fazer o mesmo que eles fizeram?”

A gente tem esses lapsos de vez em quando. Tropeços da consciência, acho. O coração que se abre reverente a Deus e sua criação tão delicadamente bela por um instante e queremos respirar isso, contemplar, construir um altar para não esquecer jamais. Mas passa logo. Passa, sim. É só distrair, só ligar a TV, abrir um e-mail do trabalho e checar a lista de tarefas do dia seguinte.

Mas até lá, encaro o teto iluminado por uma nesga de luz que invade a persiana entreaberta. Procuro dormir. Quero sonhar. Um dia isso aqui vai acabar.

Quando outros desenham o que gostaríamos de escrever

E quando “outros” quer dizer Bill Watterson, é bom admitir que nunca seríamos capazes de tal primor.

 

BillWatterson

A história sem fim – o capítulo final de um livro que não termina

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(1 de agosto de 2014)

Às vezes, tudo parece voltar ao começo. A sensação de que certas experiências se repetem, a história passa pelos olhos e concluímos que vivemos de começar e encerrar ciclos.

Agora é noite. Já fiz minha ronda pela casa. Fui até a cozinha, enchi os três copos de água que sempre deixo sobre os criados-mudos de todos. Fiz um cafuné na Lucy com o pé enquanto cruzava a sala. Entrei no quarto da Nina, a cobri melhor, ajeitei seu cabelo, beijei sua testa e fiz uma prece. Então vim para a minha cama escrever.

Lá fora está frio e alguns pássaros fazem festa nas árvores do campo ao lado de casa. O dia entra em repouso enquanto, ao meu lado, observo por um instante a mulher da minha vida. Ela dorme. A sutileza de seus gestos, a respiração leve, o rosto delicado, os cabelos soltos meio bagunçados sobre o travesseiro de fronha branca que ela faz questão de comprar pelo toque e não pelo preço. Temos sido felizes. Dividimos tanto que, ao longo dos anos, já nem sabemos o que é um e o que é o outro. Mas quando a vejo desse jeito, lembro que ela ainda é aquela menina, a minha menina de 15 anos atrás, para quem paguei um lanche e levei ao cinema no primeiro encontro, dei a mão para atravessar a rua na saída e nunca mais soltei.

Hoje ela me deu a notícia de que está gravida outra vez.

Seremos quatro.

E se havia um desfecho ideal para esse ciclo, ei-lo aqui. Não vou negar que não pensei nisso. Há alguns anos, quando esses relatos sobre paternidade começaram a se tornar uma seqüência e a Manú começou a me incentivar para que os compilasse — talvez, num livro — comecei a pensar que seria bom demais se pudesse, um dia, poder escrever um último capítulo narrando a sensação da paternidade outra vez e testificar que a história se repete, que as sensações de repetem, que a emoção toda vem à tona outra vez e o amor se multiplica em nova medida instantaneamente em nosso peito por um ser humano que já existe mas que ainda nem conhecemos.

Sim, acontece tudo isso.

Sim, o amor se multiplica. Seremos pais, tudo outra vez, a sensação toda outra vez. Dentro dela, um coração novo já bate, a vida pulsa, um ser humano virá ao mundo. Mais um pedaço de nós, mais uma criação de Deus, outra criança para nos realizar e fazer a felicidade, a tão desejada felicidade, ser essa coisa que a gente até alcança com as mãos, até ampara com as mãos, embala no colo até.

Porque já parecia impossível e tínhamos na conta a resignação de que nosso sonho de um par de filhos correndo em volta da mesa talvez fosse grande demais. Mas quem foi que disse que a capacidade de Deus se limita à nossa visão? O Pai ultrapassa barreiras pelos filhos. Seus braços sempre estendidos, o amor que rasga a eternidade para nos alcançar. Somos pequenos demais.

Gratidão. Não posso expressar outro sentimento agora. Impossível imaginar estado de espírito melhor. E sei que não será como da outra vez. A Nina mudou completamente quem somos. Somos pessoas melhores graças a experiência de ter uma filha como ela. Porque tem sido ela, do seu jeito, que nos transformou em pessoas mais preocupadas com outro ser humano além de nós mesmos. Ser pai é ser um pouco mais de si duas vezes, é ser você mesmo e também o outro, é continuidade e desapego. É o nosso amor que se concretiza plenamente em um coração fora de nós.

Porque pais doam, pais protegem, ensinam, enxugam lágrimas e contam histórias. Pais acham bonito até o que é de gosto duvidoso, rolam no chão, brincam de boneca, pegam no colo, constroem mundos imaginários numa barraca no meio da sala. Pais comem os restos, dividem, abrem mão só para ver aquele rosto feliz. Pais disciplinam, falam duro e depois choram escondido, pais atrasam o passo para o filho acompanhar. Pais arrancam dentes moles, pais fazem corpo mole no jogo para ver o pequeno vencer, deixam de lado o futebol na TV para ser derrotado numa batalha de cócegas. Pais curam com beijinhos, pedem beijinhos o tempo todo, têm essa carência eterna do toque de sua cria. Pais saem mais cedo de uma reunião importante no escritório só para ver o ensaio-da-cantata-para-a-festa-de-encerramento-do-primeiro-bimestre-do-pré-primário e depois ficam até mais tarde no trabalho para garantir o pão na mesa toda manhã. Pais sonham, tem esperança, enfrentam e vencem os monstros, reais e imaginários, para que seus filhos trilhem caminhos mais serenos. Pais observam enquanto eles dormem, escutam até o que eles não falam e atendem as necessidades que eles não pedem. Pais acham graça nas semelhanças que tem com os filhos e carregam a convicção de que o universo se tornou um lugar melhor depois que aquela criatura abriu os olhos pela primeira vez e deu o ar de sua graça.

Deus é pai.

Me pego chorando nos cantos da casa, rindo a toa enquanto espero o elevador. Apaixonado que estou de repente por mais essa criança que ainda nem vi o rosto, ainda nem cheirei o pescoço, sequer toquei e sussurrei em seu ouvido sobre meu amor, na esperança que grave em sua mente virgem a primeira mensagem de seu pai.

Talvez seja um prêmio, essa coisa toda. É possível que Deus nos recompense pelas fraudas trocadas, pelas noites em branco e os fios de cabelos brancos, nos pagando com essa moeda tão cara, o amor. Ele faz multiplicar em nós um sentimento que não podemos comprar. E brota na gente esse negócio, surge e fica ali pra sempre. E não há dinheiro que pague, não há preço pelo qual se venda, não há valor que se exija. Porque quem ama, ganha um presente que doa. E quanto mais amor se dá, mais dele se tem. Sim, o amor multiplica. E filhos são a materialização disso.

Eu diria que já quero mais filhos, quero três ou quatro agora. Mas a Manú me mataria se eu falasse esse tipo de coisa.

Queremos que eles cheguem longe, que enxerguem além do que vimos, que caminhem além das linhas que cruzamos, que evitem os erros que comentemos, que não sofram tanto com uma derrota da Seleção, que escutem a Deus, que sonhem um mundo melhor e o transformem no que não fomos capazes de fazer. Os queremos tão bem que queremos que o mundo seja digno de sua existência.

Porque no fundo é isso. Pais e filhos, imagem e semelhança, Deus e o homem.

É claro que essa história não acaba.

E agora, essa criança, esse outro nós dois que vem para nos transformar mais uma vez em pessoas novas. Porque certamente não é a mesma experiência que se repete — já mudamos tanto desde então. É uma nova etapa, a família crescendo, a partir de agora seremos “nós e as crianças”. A árvore e seus frutos, que dão frutos, que darão frutos, que serão árvores.

A Nina, desde o minuto em que soube da notícia, ficou inquieta. Anda agitada pela casa, manifesta sua alegria incontida com abraços e gritinhos (ah, mulheres…), começou a tomar nota de uma possível lista de nomes para a irmã — por razões compreensíveis ela não considera outra hipótese de sexo — e se preocupa excessivamente com o estado de saúde e a barriga da mãe. Ansiosa, tardou a deitar essa noite.

Agora elas dormem. E eu sonho.

Sonho que veremos outra vez um bebê engatinhando pelo chão da sala. Aqueles pezinhos descalços marcando o assoalho com os primeiros passos, os choros, as primeiras palavras, o cheiro de creme Johnson’s no ar, as noites em branco, as fraldas aos quilos, as canções de ninar, os contos de fadas, as histórias inventadas, as “primeiras vezes” em tudo. Sonho também poder ser um pai mais seguro dessa vez e cometer menos falhas nesses dias que são o começo das vidas das pessoas que mais amo nessa Terra. E sonho também que a Galinha Pintadinha já tenha saído definitivamente de moda nos próximos oito meses (quem merece aquela tortura!?).

Tal como no princípio, continuo sonhando com o tempo em que envelheceremos lado a lado, de mãos dadas. Os dois heróis da vida cotidiana sentados junto à mesa, à espera das crianças para um almoço no domingo. E esse será o verdadeiro prêmio da caminhada toda, eu acho. O quintal verde, um balanço perdurado na árvore, passarinhos, a bagunça dos netos espalhada, um cachorro correndo, os braços abertos para quem volta ao lar. Eu sei que vou me vestir com a melhor roupa para esses momentos e vou usar o perfume que algum deles me deu de presente. Estaremos lá. Sim, porque sempre estaremos à sua espera.

E o tempo dando uma trégua e parando naqueles instantes, aqueles pequenos instantes, que definem nossa eternidade.

A vida só começou.


(capítulo final da série Imagem e Semelhança)

Aquela hora do dia

“O homem feliz é que faz coisas inúteis; o homem doente não dispõe de força suficiente para ficar sem fazer nada.”
– G. K. Chesterton

Tem aquela hora do dia, aos finais de semana, de que gosto especialmente. Em geral, são as tardes de sábado ou manhãs de domingo, em que estico no sofá com um livro nas mãos e, ignorando compromissos e tarefas, descanso um pouco. Era assim que eu estava outro dia quando ela chegou lá de fora. Ela nunca pede licença, nem pra ocupar um lugar, nem para atravessar nossa zona de conforto. Empurrou o livro que eu lia e sentou sobre minha barriga (sim, certo, há maciez e espaço de sobra ali para uma garotinha de sete anos).

– Pai, vamos conversar.

– Vamos, né. Do que você quer falar?

– Pai, por que a maldade existe?

Sete anos. As perguntas não apenas não diminuíram como começaram a ficar complexas. Se em algum momento os “porquês” eram saias justas que me faziam exercitar a capacidade de inventar respostas aleatórias agora as coisas ganharam um caráter mais existencialista.

Na milionésima fração de segundo que eu tinha entre começar a balbuciar algo e continuar sendo um sábio ou ficar em silêncio e perder de forma precoce e definitiva a moral com minha filha, me ocorreu que eu jamais conseguiria responder essa questão para uma criança porque simplesmente sou incapaz de responde-la para qualquer pessoa.

Mas partindo do pressuposto de que o silêncio não era uma opção e ela me encarava com aqueles olhinhos da mãe dela, recorri a uma saída pela esquerda e inventei uma historinha, com uma longuíííssima e detalhada introdução, até que ela se desse por satisfeita, se desse por cansada, me desse uma folga ou que eu tivesse uma epifania e pudesse ilustrar algum conceito real a respeito.

Depois, anotei a questão no bloco de notas do meu telefone celular. Às vezes, abro o aplicativo para escrever algum lembrete de conta para pagar e a interrogação me salta à tela. Por quê?

Eu poderia – talvez devesse – dizer para a Nina que eu não sabia. Geralmente, não tenho problema em admitir que não tenho respostas para as perguntas que ela me faz e aí proponho que procuremos juntos por uma definição. Mas, essa… essa eu não queria não saber. Essa certamente era uma dúvida que fazia eco em meu peito e para a qual nunca me dei o trabalho de ir a fundo numa busca.

Esqueça os conceitos, esqueça o que diz o dicionário, esqueça a definição bíblica da queda, esqueça os usuários ociosos do Yahoo! Respostas, a dualidade do ser humano e o livre arbítrio. Sei que temos explicações psicológicas, sei que temos escolhas, acredito em Deus e na redenção da alma. “Ame seu Deus. Ame seu próximo. Ame a si mesmo”, entendo o que Jesus disse, tento viver de acordo com essa lei e não conheço alguém que, cristão ou não, discorde disso como princípio elementar. Mas de alguma forma, isso ainda parece soar mais uma resposta do tipo “como” do que uma do tipo “por quê”. Porque a Nina não me perguntou sobre as pessoas que fazem o mal, os criminosos que julgamos por seus atos. Sem saber, ela me confrontou de algum jeito, com a maldade que nós praticamos. Apesar dos princípios morais que guiam nossas intenções, por que ainda agimos como agimos?

Nas grandes e nas pequenas coisas, qual é o nosso limite? Queremos menos corrupção no país, mas pagamos pelo gato na TV a cabo. Exigimos mais qualidade no transporte, mas furamos a fila do trânsito andando pelo acostamento. Temos medo da violência, mas achamos bonito pagar na mesma moeda e dizer que bandido bom é bandido morto. Reclamamos da qualidade da educação, mas não lemos.

O que é o bem, afinal?

* * *

Não muito tempo depois, numa manhã de sábado, eu estava na cozinha terminando o café, enquanto ela e a mãe brincavam com a Lucy, nossa cadela, lá na varanda. Então ela entrou, passou por mim, foi até a sala e voltou. Ao invés de voltar para a brincadeira, puxou uma cadeira e sentou à minha frente.

– Pai.

– Diga, filha – eu mastigava um pedaço de pão com manteiga.

– O que é o amor?

E como eu sou um idiota, fiz tudo errado. Teorizei.

Recorri a uma leitura antiga de um livro do C. S. Lewis guardado lá na estante e num canto obscuro da memória para ilustrar os três ou quatro tipos de sentimentos que traduzimos como amor. Julguei – acredite, julguei – ter tido algum sucesso e senti – acredite, senti – uma ponta de orgulho enquanto ela olhava atenta enquanto eu explicava.

No final, sentada na cadeira, os pés balançando sem tocar o chão, as mãos cruzadas entre as pernas, o olhar vago mirando algo lá fora, ela perguntou:

– Pai, amor é quando a gente coloca as necessidades dos outros antes das nossas necessidades, não é?

Talvez eu devesse ter ficado quieto, talvez o C. S. Lewis não precisasse ter escrito aquele livro todo – um tuíte funcionaria bem -, talvez exista muito mais a se aprender com as crianças do que julgamos.

* * *

E aí, chega aquela outra hora do dia de que gosto especialmente. É quando já dei por feitas quase todas as atividades rotineiras e a curva do dia começa a descer para seu desfecho. Chego do trabalho, deixo a mochila sobre uma cadeira, beijo a bochecha da filha, beijo a boca da esposa, faço um cafuné atrás da orelha da Lucy. O dia se encerra com o jantar, um banho (há um mês eu diria “longo e relaxante”, mas com o Sistema Cantareira clamando por economia, já não posso) e o passeio com a Lucy, nossa cadela, no gramado lá embaixo. É só então, quando viro a chave na porta finalmente, que as luzes diminuem e, uma a uma, se apagam. Aqui dentro e lá fora. Coloco a Nina para dormir, coloco a mãe da Nina para dormir e mando a Lucy ficar quieta e ir fazer o mesmo na varanda – cinco vezes, até ela obedecer. O silêncio toma seu espaço pouco a pouco. Os sons diminuem, só o que escuto é o ruído da rua, a sirene na moto do guarda noturno, os quero-queros cantando no parque ao fundo e uma torneira pingando no banheiro e que me esqueci de arrumar (Cantareira…).

Essa é a hora. O momento em que o mundo é meu. Leio um pouco, tomo notas, faço nada, faço uma prece. Faço a ronda pelos cômodos, vigio as meninas dormindo e me encho de gratidão.

O amor que sentimos, a Nina já sabe, não vive em nós. E isso basta para que eu queira ser uma pessoa melhor.

Então me dou conta de que talvez eu jamais consiga compreender o que é o mal e porque ele existe, mas me deito com a certeza de que, sob esse teto, está o maior bem com o qual eu jamais poderia sonhar.

Páscoa – O mergulho nas profundezas

O homem observa o céu a procura de Deus. Mas não o encontra. Ele procura no extremo, sonda o sobrenatural, arrisca-se nas mais grandiosas e místicas experiências, mas nem ali está Deus.

O homem perde-se em seus caminhos. Preso em um buraco, chega a cavar para tentar sair. Ele vaga, tolo, sobrevive, está sujo e fraco. Tenta encontrar, mas já nem sabe o quê.

Deus é um menino pobre.

No resgate da humanidade, Deus se embrenhou na escuridão. Por amor ao mundo, deu. Fez-se homem, na condição do homem e, como homem, libertou o homem.

Ele mergulhou nas profundezas, desceu no vazio da alma, na consciência perdida, na vastidão sem sentido. E acendeu uma luz, tomou o homem pela mão, lavou sua sujeira, o guiou pelo caminho.

Jesus resgatou o homem. O Deus homem é o homem perfeito. Com sua vida, revelou salvação. Com sua mensagem revelou propósito, com seus gestos revelou caráter, com seu serviço revelou um exemplo, com sua cruz deu redenção e, ressuscitando, a vida toda sem fim. Jesus Cristo revela o amor do Pai.

O novo homem observa Jesus à procura de Deus. E lá está. O homem contempla o céu.

“Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito , para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele.” (João 3:16-17)

Entre quatro paredes

Gosto dos pequenos momentos, dos gestos tão repetidos que já são impensados. Gosto quando, por um instante, me sinto capaz e me torno sensível para contemplar a beleza intrínseca dos momentos do cotidiano, tão do cotidiano, que já quase se traduzem em espaço branco nas lembranças.

Mas são nesses que residem toda graça natural da vida, neles está o significado em grande parte. São dessas horas que se recheiam as memórias no futuro. E poder contempla-los, acho, é viver aquela saudade agora.

Escovar os dentes lado a lado na pia do banheiro, escutar um grilo cantando lá fora, escutar a nossa música tocando no rádio, escutar – e reclamar – do vizinho barulhento. Ver nascer o sol às seis, ver nascer um dente novo na Nina, ver que as legendas da TV estão ficando a cada dia mais embaçadas. Deixar um copo d’água para o outro sobre o criado-mudo, brincar com a filha no chão da sala, embalar a dança sincronizada na cozinha apertada durante as refeições – um pra lá, dois pra cá, entre o abre e fecha das portas de armários, gavetas, forno e geladeira para tirar e colocar tudo sobre a mesa. A troca de olhares, a troca dos lençóis, a troca de roupa, a troca de toques, de presentes, de recados, de afeto. A troca de qualquer coisa por essa vida juntos.

Entre quatro paredes o mundo todo se faz, a vida inteira acontece. Enquanto a Terra gira, a felicidade se revela, as pessoas constroem, Deus se materializa. O homem se encontra.

Resgate

Havia um tempo em que a fé era simples, em que a oração era simples, acreditar era simples.

Havia um tempo em que a comunhão era plena, em que cada suspiro era adoração, existir era contemplar.

Havia um tempo do primeiro amor, das primeiras experiências, em que tudo era novidade e encanto.

Havia um tempo em que as escrituras eram sagradas, em que a devoção era constante, Deus era tudo em todos.

Havia um tempo em que éramos reverentes, em que obedecíamos por amor, escravos da graça.

Havia tempo que esse sentimento não vinha à tona, que o peito já não rasgava em arrependimento, as lágrimas brotavam em gratidão e os lábios se abriam em louvor.

Há sempre tempo.

Sete anos e outra vez a eternidade como tema

Seguir a vida dos outros. Se tem uma coisa que o advento da internet trouxe para a vida urbana moderna e que era, até então, privilégio das pequenas cidades e de tempos muito anteriores à própria rede, foi a possibilidade de saber o que se passa na vida das pessoas com quem temos ou tivemos algum vínculo.

Sem julgamento de valor. Especialmente as redes sociais, como o Orkut (até ontem) e o Facebook (hoje e sabe-se lá até quando), que ajudam na busca por parentes distantes, colegas de colégio, amigos de infância e toda uma variedade de pessoas com quem possivelmente não trocaremos um aperto de mãos tão cedo, mas de quem gostamos de saber o que comeram no almoço, onde passaram as últimas férias, o que pensam do trânsito e por quem torcem no futebol, nas eleições, nas manifestações, nas enquetes de reality show e até nas competições de curling das Olimpíadas de Inverno.

Corro disso, confesso. Não é esse interesse pela rotina que me atrai. Não gosto de ficar na janela, olhando pra rua e tentando entender os fatos. Sou nostálgico demais pra isso. Em geral, me distraio, olho para o céu, vejo alguém passando pela timeline e me perco nas lembranças do passado. Admito que minha curiosidade digital é, em certa parte, alimentada pelo que não vejo. Me concentro pensando sobre o espaço de tempo entre a época em que, há 10 ou 20 anos, convivi com aquelas pessoas e sobre o agora, quando os revejo como adultos.

Quem eles se tornaram, essas pessoas? Era pra ser isso mesmo? O menino que empinava pipas, o menino que contava piadas, o que aprontava na escola, a menina que se vestia estranho, a menina mais inteligente da classe, o menino que tinha um videogame em casa – o herói da rua – e o menino que era dono da bola. Fico tentando imaginar se eles se tornaram o que gostariam de ser.

O fato é que, em algum momento da vida, os planos e projetos passam a ocupar espaço em nossas mentes. Talvez exista uma fase na infância em que tomamos consciência do futuro, de que há perspectiva e algo a se projetar. Talvez, quando adultos abordam crianças com a insistente pergunta: “O que você quer ser quando crescer?”.

Crianças não projetam futuro, não fazem planos. Crianças são o que são agora e afirmam querer ser para sempre aquilo que mais as anima nesse instante exato. E você sabe que não estou querendo fugir das minhas responsabilidades como pai e cidadão adulto, mas acredito que tem uma beleza nisso tudo, há graça nessa inocência. Elas não andam ansiosas.

Até que o negócio todo de “ser alguém na vida”, atender uma vocação e perseguir um certo padrão de sucesso comece a ser incutido. E aí, o menino que soltava pipas e queria ser bombeiro começa a ter que pensar no tipo de carreira pretende seguir.

E aí, crescemos. Já estamos mais velhos do que achávamos que seríamos quando achávamos que estaríamos velhos. Será que nos tornamos a resposta que dávamos?

É uma pergunta retórica.

Não que deveríamos. Acho meus sonhos de agora bem melhores do que ser o camisa 3 do São Paulo FC, o Rocky Balboa ou vocalista de uma banda.

Circunstâncias que nos afetam, fatos que nos afetam, a vida que segue o rumo sem que nos preocupemos em ser protagonistas e donos de nossas escolhas. Às vezes, somos vítimas, não temos opção. Mas outras tantas, simplesmente nos conformamos.

Tenho claras para mim e ainda frescas na memória as cenas e momentos da infância. E confesso que guardo em mim o sentimento do menino. Lembro dos medos, dos sonhos, da impressão que o mundo me causava. Lembro que as preocupações eram tão pequenas. Sei que sou continuação dessa existência, consequência das escolhas que fiz. Hoje, carrego uma tatuagem desbotada na perna, barba no rosto, 93 quilos (oscilando) e fios de cabelos brancos brotando em ritmo preocupante. Mas ainda alimento sonhos. Ainda tenho em mim aquele garoto de sete anos.

Daqui alguns dias a minha filha fará sete anos.

E, assustado com a impiedade do tempo, me pergunto como estaremos, a Manú e eu, quando a Nina tiver nossa idade?

Ela dorme abraçada com um coelho e uma tartaruga. Dois bichinhos de pelúcia, não dos mais bonitos, que compramos numa viagem recente de férias. E às vezes, como ainda há pouco, me pego pensando em como ela já está grande, nas coisas que já faz sozinha, nos argumentos e explicações que acredita serem plenamente factíveis para os pedidos mais absurdos, nas pequenas cartas e bilhetes que agora deixa sobre meu criado-mudo, na sua voz lá do quarto, lendo alto os primeiros livros de histórias que alimentam sua imaginação.

Então, só preciso observá-la dormindo por um instante, só ter que pegá-la no colo adormecida no sofá para levá-la para o quarto… e ver toda sua inocência, sua graça, a minha dependência, a nossa pequenez diante da grandeza da vida.

Não pode ser só para agora. Nessas nobres horas, tudo adquire uma dimensão maior. Não consigo acreditar na finitude do ser que somos se resumindo em matéria, num pacote de átomos que existe até que tudo acabe.

E sei que não entendo seus motivos na maior parte das vezes, mas agradeço a Deus. Eu me rendo, reconheço. Cresce em mim a reverência ao eterno que se fez finito, ao Deus que se fez homem, ao Criador que se diz pai. Que traçou a vida com essa riqueza de detalhes e a singeleza necessária para que pudéssemos compreender que está em nós e na intimidade dos nossos lares, a habitação do altíssimo. O universo inteiro numa canção de ninar, a glória divina numa brincadeira no chão da sala.

Aquieto-me quanto ao futuro. Já não importa o que serei ou como estarão meus amigos de infância daqui outros 30 anos. Há beleza ao redor, há grandeza em cada história. Seja a vida fugaz, o dia de hoje é pouco, sei que tudo vai tão rápido. De novo, aquieto, observo minha criança dormindo. A eternidade precisa ser contemplada.

Fé na estrada

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As mudanças quase sempre parecem sombras novas e desafiadoras no horizonte. Mas só até o instante em que, refletindo sobre o momento, nos deparamos com fragmentos do passado recente que nos lembram que já vivemos essa sensação, essa mesma situação, pouquíssimo tempo atrás. Ainda ontem, circunstancialmente, lembrei de algo que anotei há pouco mais de um ano:

Sentado no quarto escuro, olho para a porta entreaberta, sondo a luz que vem da sala pelo corredor e admito uma ponta de medo ao notar a sombra do futuro que se projeta adiante. Bendita incerteza, quando parece que as coisas vão se acomodar e tomar um rumo finalmente, percebo que preciso reaprender a ser pai, ser marido, profissional, a encarar desafios diferentes outra vez.

Mudanças. Às vezes, precisamos mesmo que elas aconteçam para que nos desapeguemos. Alguém deve tirar nosso apoio, de supetão, de repente, para que a gente possa acordar, para que um novo passo seja dado.

E aí, sem mais, vem tudo aí de novo.

A carta para Papai Noel

“Papai, eu sei que é você…”.

E neste Natal, o Papai Noel aqui aqui em casa foi desmascarado – bem na cartinha – antes do prazo combinado.

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Orações não respondidas

igreja

Era um dia desses de ficar à toa em casa e eu arrumava qualquer coisa num canto quando ouvi a Nina me chamar lá do quarto. Fui ver o que era e ela estava quieta na cama, meio amuada e reclamava de uma dor de cabeça. Dava pena. Queria fazer algo para ajudar mas não gostaria de, logo de pronto, dar algum remédio. Sugeri então que fizéssemos uma oração juntos e que ela esperasse um pouco ali deitada.

Minutos depois, ela saiu da cama e foi até onde eu estava dizendo que a dor havia passado. Animado com a oportunidade de ensinar para minha filha os sólidos fundamentos de fé que tantas vezes me são fracos, comecei o discurso:

– Está vendo, filha? Quando a gente ora, Deus nos responde.

– É, pai.

Três segundos de silêncio até ela disparar:

– Mas, pai, eu já pedi um montão de vezes para Deus me dar asas e ele nunca me respondeu.

– Asas?

– É, para eu poder voar. E pedi também pra eu poder mandar um dia mas ele não deixa.

– Mandar?

– É. Poder mandar em você e na mamãe, só um dia.

Orações não respondidas.

Certo domingo, um pastor muito querido da nossa comunidade nos visitou para ensinar e, dentre tantas coisas marcantes, disse algo que lembro com frequência de repetir para os outros: “Quando Deus nos diz não, ele não está nos privando, está nos protegendo”.

A Nina pede para comer mais um prato de sobremesa, ela pede para ficar acordada até mais tarde, ela quer ter amigas e amigas por perto todos os dias e noites, quer faltar na escola às vezes, ela quer ver TV além do tempo combinado, quer brincar, quer mais uma, só mais uma história antes de dormir. Ela quer providências inofensivas e também quer feitos inalcançáveis. Em geral, me pede coisas que posso dar. Mas em muitos casos eu preciso dizer não.

Às vezes, ela me faz perguntas que não tenho condições de responder, ela quer motivos quando eles não existem, quer respostas que não sou capaz de lhe dar ou que, como adulto, sei que ela ainda não está preparada para ouvir.

E não é que eu tenha qualquer satisfação em ver minha filha frustrada. Sou tentado, quase todas as vezes, a atendê-la só para ter de volta aquele sorriso, um abraço e o beijo de gratidão na bochecha. Entretanto, deixar de atender o seu pedido não significa uma privação, mas cuidado. Minha negativa para algo que lhe parece tão legítimo e saudável, é porque eu sei que o melhor para ela, certas horas, é apagar a luz e ir dormir, é não abusar do açúcar, é não receber uma satisfação.

Quase sempre adoro esse conceito. Quase sempre. Eu o detesto quando sinto seu efeito sobre mim. Não que Deus me negue coisas de forma taxativa, mas com frequência chego a pensar que ele não parece ter tanta certeza do que vai responder. A espera me parece insuportável, eu tento dizer: “Na dúvida, Deus, que tal fazer o que te pedi e depois a gente vê como é que fica?”. Mas minha sugestão nunca foi aceita.

Das coisas que peço, tão legítimas, não peço dinheiro, não desejo bens ou futilidades, nada que possa me favorecer ou prejudicar alguém. Em grande parte, em minhas orações mais repetidas e íntimas, só quero respostas que dizem respeito a mim e minha família. No fundo, eu gostaria é de entender. Gostaria de discernir os caminhos, de ter revelações grandiosas sobre os próximos passos que preciso dar na vida. Há tantas escolhas a serem feitas. Queria saber por que certas coisas aconteceram de um jeito e não de outro. Por quê pessoas fazem o que fazem? Por quê existe o mal? Por quê, como disse Paulo, o bem que eu desejo fazer eu não faço e o mal que não gostaria de fazer, acabo fazendo? Por quê uma doença, uma tragédia, tal fatalidade, justo com aquela pessoa? Por quê justo comigo?

De circunstâncias a questões existenciais, de um prato de comida pedido por um pai de família às asas desejadas pela Nina, existem orações que nos parecem sem respostas.

Não acho, porém, que Deus se cale, não acredito em seu consentimento com o sofrimento e a incerteza. Tenho para mim que o Deus Pai responde, fala, se relaciona conosco e expressa o tempo inteiro a sua opinião. E quando não posso ouvi-lo, é que surdo, tão surdo, tão insensível acabei me tornando que já não percebo. Dirijo minha busca na direção errada, me expresso sem permitir que ele fale, desabo tentando decifrar enigmas quando sua resposta, sua voz, está bem na minha frente, está na paisagem, em alguém, dentro de mim. Não existe oração sem resposta.

Porque ele fala aos ventos e através dos ventos se manifesta, escancara, faz o mundo gritar sua verdade, tanto e tão alto. Porque ele fala no íntimo e no coração se manifesta, revela, faz nossa consciência perceber sua vontade, tanto e tão perto.

Porque pais querem ensinar seus filhos a buscarem por resoluções e não que as tenham de mão beijada. A Nina quer voar, quer saber porque precisa ir dormir tão cedo, eu quero que ela aprenda a fazer perguntas, que aguce os sentidos e explore o redor. Ela quer um par de patins como presente de Natal, eu quero que ela esteja sensível para perceber e ouvir o sentido de sua existência, que compreenda o amor que a mãe e eu sentimos por ela e que descubra que existe um amor ainda maior em Deus que ela pode experimentar. Ela quer tomar dois sorvetes depois do almoço, quer poder mandar em nós por um dia, eu oro para que ela seja inquieta e determinada em sua busca mas, ao mesmo tempo, seja humilde para compreender que o “não” de um pai é cuidado e não castigo.

Outro dia, ela fazia uma oração antes de se deitar enquanto eu recostava na cabeceira da cama até que adormecesse. Meu pensamento ia longe, confesso, distante um pouco da oração usual que ela fazia. Até que ela concluiu a prece pedindo:

– E Deus, por favor, mude o coração dos vilões.

Crianças. É possível que ela não lembre do que pediu no futuro. É possível que ela não lembre do que pediu hoje. Pode ser que nunca ouça claramente uma resposta para sua oração, mas em sua fé infantil sei que ela acredita que acontecerá.

Não tenho respostas tampouco. Como pai ou como filho, também acredito. Ela quer um mundo sem maldade, ela pede que o bem triunfe sobre o mal e que os homens perdidos encontrem redenção em Deus.

Ela tem asas.

Eu oro. Recostado na cama, cerro os olhos, junto as palmas das mãos, baixo minha fronte e peço que um dia possa ver que ela será parte dessa resposta.

No trem

trem

No trem. Pessoas entram e saem. Pessoas conversam, pessoas lêem, pessoas observam, pessoas escutam música em seus fones de ouvido, escutam música sem fones de ouvido, pessoas cutucam e cutucam e cutucam e cutucam seus celulares, pessoas em pé, sentadas, apertadas, pessoas falam ao telefone, pessoas seguem em alguma direção, pessoas são levadas a qualquer direção, pessoas saem e pessoas entram, pessoas surfam no teto, pessoas vendem coisas a preços irrisórios, pessoas pagam, pessoas olham pela janela, se jogam pela janela, pessoas chegam de mãos dadas, pessoas se despedem, pessoas saem e pessoas entram, se aglomeram, pessoas dormem, pensam na vida, pessoas passam do ponto, pessoas jogam vídeo-game, pessoas comem um sanduíche, uma bala, uma maçã, pessoas de gravata, pessoas de chinelo, pessoas entram, pessoas chegam ao destino. Eu saio.

Estar em Deus

Não importa buscar um sentido, importa buscar a Deus.

Ele é o sentido. Tudo é Deus.

Corremos atrás de respostas, passamos a vida em busca de um sentido para nossa existência. Queremos a realização em pílulas, fragmentos de sensação existencial para caminhar um passo após o outro. Mas, precisa?

O que temos em Deus não são repostas, ele talvez não nos dê um propósito tão claro. Ele é a resposta e o sentido. Não são as respostas que buscamos que estão em Deus, nós mesmos é que deveríamos estar n’Ele.

Estar em Deus. O homem e Deus numa relação indistinguível. Porque é o seu Espirito vivendo em nós, misturado ao nosso, indissociável do que somos.

Simplifiquem

“(…) Vivemos mesquinhamente, como formigas, embora conte a fábula que fomos transformados em homens muito tempo atrás; como pigmeus lutamos com grous; é erro sobre erro, remendo sobre remendo; e nossa melhor virtude tem como causa uma miséria supérflua e desnecessária. Nossa vida se perde no detalhe. (…) Simplicidade, simplicidade, simplicidade! E digo: tenham dois ou três afazeres, e não cem ou mil; em vez de um milhão, contem meia dúzia, e tenham contas tão diminutas que possam ser registradas na ponta do polegar. Em meio ao oceano encapelado da vida civilizada, são tantas as nuvens, as tormentas, as areias movediças, os mil e um pontos a levar em consideração, que um homem, se não quiser naufragar e ir ao fundo sem jamais atingir seu porto, tem de navegar por cálculo e, para consegui-lo, precisa ser realmente bom de cálculo. Simplifiquem, simplifiquem.”

– Henry David Thoreau

A cena global

Crédito da foto: A. Strakey (Creative Commons)

Crédito da foto: A. Strakey (Creative Commons)

É um senhor, deve ter seus 70 anos. Usa um uniforme preto sobrando largo num corpo de 1,60 e passa todos os dias lá pelo andar recolhendo o lixo reciclável acumulado embaixo das mesas.

Ele gosta de discutir o noticiário internacional. Começou há coisa de três ou quatro semanas, quando chegou de manhã, eu já estava em minha mesa trabalhando e lançou a pauta:

– Os Estados Unidos sempre fizeram essas coisas, agora é que vão reclamar?

– Como? – às oito da manhã, tem pouca coisa que eu consigo absorver assim de cara. Naquele dia especialmente, confesso que não esperava a abordagem.

– Espionagem.

– Ahn. Verdade.

Nunca me chama, ele chega e aborda, surge detrás de uma baia com o assunto pronto. O boné baixo esconde os olhos que nunca encaram ninguém. Anda torto, mancando, arrastando o saco preto onde acumula os papeis.

A conversa foi ganhando ares mais complexos, ao ponto que passei a correr os olhos na editoria internacional do jornal pela manhã com mais atenção para poder discutir as questões à altura. Ele não quer falar das mazelas da cidade, não toca na agenda cultural, jamais fala de futebol, o negócio é a política externa.

E só puxa papo quando estou sozinho. Se tem mais alguém por perto, passa calado, nem responde ao “bom dia” de quem quer que o cumprimente, murmura alguma coisa e segue invisível, queixo colado no peito, peso apoiado nas costas.

Ontem, só tinha eu no andar. Estava respondendo e-mails triviais e ele me veio com a crise no Oriente Médio:

– E a Síria, hein? Vai virar a nova Coreia do Norte?

– Pois é, rapaz. Pena daquele povo. Imagina? Não dá pra deixar o Assad fazer o que está fazendo.

– Mas olha o coreano, falou um monte, ameaçou com bomba nuclear e agora ninguém toca mais no assunto. Vai ser assim na Síria também. Não pode, alguém tem que fazer alguma coisa lá.

Então eu fiz a lição de casa e devolvi:

– Mas isso é uma demagogia danada. A mídia só coloca isso na pauta mas a mesma coisa acontece em outros lugares também. Os EUA ficam levantando essa bola porque tem interesse na região. Mas e a África? Tem ditador lá dizimando a população lá há quanto tempo?

– Arre! Da África eu escuto desde criança. Já tem 30, 40 anos e ninguém faz nada, ninguém intervém!

Então vai embora, ele nunca para pra conversar. Começa a falar enquanto chega, passa recolhendo as sobras e tal como chegou, vai. Não sei seu nome, ele não sabe o meu. No peito, não leva um crachá, só o logotipo da empresa bordado em vermelho: Viking.

Suas preocupações passam ao largo da pequenez cotidiana, estão longe da crise do meu tricolor, bem distantes da cotação do dólar. Ele leva sobre os ombros um saco com pilhas de lixo de papel e os problemas complexos do mundo. Ele tem prioridades claras. Só está de olho no que precisa ser reciclado.

Tamanho família

Outro dia, era um domingo à noite, fomos ao shopping jantar. Eu confesso que acho as noites de domingo algo meio deprimentes, como também acho deprimentes shopping centers depois que as lojas estão fechadas e os corredores ficam meio escuros, com as vitrines a meia-luz. Mas foi que deu uma vontade em família de comer hambúrguer e fomos saciar o desejo em uma das lanchonetes aqui perto de casa.

Estava frio e o lugar vazio. Enquanto eu esperava na fila para fazer o pedido, a Manú e a Nina foram guardar uma mesa. Eu mal havia dado um passo e sacado o celular pra jogar uma coisa qualquer e já vi a minha filha passar correndo atrás de mim acompanhada de alguma nova amiga com quem brincava. Acho impressionante a capacidade das crianças de descobrirem afinidade com alguém só porque a pessoa tem basicamente a mesma faixa etária. Seria como se qualquer homem de 32 anos estivesse imediatamente apto para, sei lá, vir em casa assistir a um jogo do São Paulo na TV. Se perguntasse, talvez as duas nem soubessem o nome uma da outra, mas já tinham uma brincadeira preferida juntas e isso bastava.

Quando me sentei à mesa com as meninas para comer, a amiguinha nova da Nina ficou ali ao lado fazendo companhia. Ela já havia jantado e contou, quando lhe perguntamos o que fazia ali, que estava no seu dia de passeio com o pai. Esperei uns minutos e olhei ao redor para tentar adivinhar. Não foi difícil, a praça de alimentação estava quase vazia e poucas mesas atrás de nós um sujeito moreno, de meia-idade, jaqueta jeans, cabelo ralo e rugas nos olhos, estava sentando enquanto segurava uma pequena mochila cor-de-rosa entre os braços e fitava a menina com um sorriso. Acenei com a cabeça, ele retribuiu breve e voltou a observar as meninas que, naquela hora, já corriam pelo corredor outra vez. Ele tinha um olhar melancólico, tinha um cansaço de sei lá o quê, ele tinha um dia na semana para estar com a filha e um passeio num shopping de periferia aos domingos talvez fosse o melhor que ele tinha para oferecer a ela.

Talvez ela fosse o melhor fruto da vida que ele tentou construir um dia. Talvez seja a única lembrança concreta do que ele já teve de melhor. Não sei – não me cabem – as razões que separaram aquela família. Se o homem “pisou na bola”, se a mulher o deixou por outro, se descobriram diferenças irreconciliáveis e já não podiam ter uma vida em comum. Sei que me cortou o peito ver a forma como ele admirava a garota e, depois, o seu andar meio curvado, pendurando a mochila e umas sacolas num dos braços e segurando uma bola colorida no outro enquanto se esforçava para caminhar de mãos dadas com a menina.

Na volta pra casa aquela noite, além de um arrependimento brutal por ter ingerido um combo cheeseburger-batata-refrigerante-tamanho-super-família de forma absolutamente irresponsável, eu voltei no carro em silêncio pensando no homem. Nem troquei palavras com o sujeito, mas me passou pela cabeça naquele dia e às vezes me volta ao pensamento, a angústia de imaginar os dias todos, mesmo esses mais comuns, longe da minha família. Amo apaixonadamente a minha esposa, adoro minha filha e, a medida que o tempo passa, vamos construindo e acumulando tanta coisa juntos – viagens, refeições, experiências, livros, apartamentos, aprendizados, um cachorro – que já nem dá pra saber ao certo o que nessa história é a parte de cada um de nós. Se é que há mesmo uma parte, se é que tem algo que deva ser enxergado de forma isolada, se é que existe mais de uma história aí de fato. No fundo, eu acho que é isso. Somos só nós, andando de mãos dadas.

“Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol.” (Eclesiastes 9:9).