A estrada da vida

por Luiz Henrique Matos

Você já errou o caminho alguma vez? Eu já, várias. Contrariando a velha regra masculina, o meu senso de direção não se sente lá muito à vontade comigo. Quem me conhece sabe, se eu aponto para uma direção indicando algum lugar, ele provavelmente fica do lado oposto. Norte, sul, leste… tanto faz, tenho convicção de que tudo está sempre à minha frente.

Acontece principalmente quando viajo de carro. Demoro três ou quatro viagens até aprender ou decorar as saídas, quilômetros, estradas e direções. O problema é que raramente vou três ou quatro vezes para um mesmo lugar e quando percebo, já é tarde, estou perdido.

E então, nessas horas, só nessas horas, resolvo prestar atenção nas placas, lamento por não ter trazido um mapa, procuro alguém para perguntar a direção correta e tento conter o desespero. E vejo, ao meu lado, minha esposa com aquela expressão nada surpresa de quem já esperava isso acontecer e imagino em suas mãos aquela plaquinha que vemos nos estádios de futebol com a frase: “Eu já sabia!”.

Mas, antes fosse apenas nas estradas. O pior é que acontece também na vida. Quantas e tantas não foram as vezes que me perdi?

Na verdade, nascemos e “aprendemos” sozinhos essa direção oposta. E nisso somos bons. Nunca perguntamos antes aos que já conhecem o caminho, não somos muito adeptos à leitura de mapas, tampouco nos dedicamos a seguir as orientações preventivas das placas e quando nos damos conta, lá estamos: perdidos.

Mas, aprendemos também que nunca é tarde demais, há sempre um retorno, existe uma saída, uma orientação que nos dirige de volta à estrada que leva a um destino acolhedor.

Na verdade, para ambos os casos, só temos uma solução: a conversão.

Está perdido? Errou o caminho? Passou do ponto? Desviou-se do plano? Então pare, concentre-se e lembre onde foi que errou. E perceba que existe um Caminho que o conduzirá novamente ao seu destino de paz.

“Você não pode impedir que um pássaro voe sobre sua cabeça, mas pode impedi-lo de fazer um ninho em cima dela” (Martinho Lutero).

Ninguém gosta de estar perdido e tenho certeza de que da mesma forma, ninguém faz isso de propósito. Mas uma vez em tal situação, a única opção é voltar ao lugar onde nos desviamos e recomeçar a viagem.

O desvio acontece quando acreditamos que somos capazes de chegar em algum lugar sozinhos. E acontecerá sempre que formos acometidos por esse ímpeto de independência. Mas existem algumas escolhas que podemos fazer e que nos ajudam a seguir a direção certa. São justamente as mesmas que rejeitamos quando insistimos em “assumir o volante”.

Uma delas é andar com pessoas que conhecem essa estrada melhor do que nós, elas poderão nos orientar sobre o Caminho. A outra, é consultar o que está registrado à respeito do trajeto, como mapas e escrituras, que vão iluminar o chão e nos conduzir sobre a Verdade. E por fim, é sempre bom seguir as orientações que recebemos ao longo do percurso, o que só aprendemos com as experiências da Vida.

O Caminho, a Verdade e a Vida, nada se compara a praticar o exercício de conhece-lo em nos detalhes e ser conduzidos para o único destino que está reservado para nós desde o princípio: a eternidade.

Que saber em que direção Ele está? Norte, sul, leste… tanto faz, tenho sempre a convicção de que está acima de mim, nos altos céus. E sei também que é estreito, por vezes espinhento, outras escuro. Mas durante a claridade, nós podemos seguir suas pegadas sobre a Terra e na escuridão vemos a sua lâmpada nos orienta.

E no seu fim, bem, no seu fim não é preciso esforço para observar a Luz que brilha radiante e nos aguarda para o dia da glória, quando iremos ao seu encontro.

“Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais, como podemos conhecer o caminho? Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14:5-6).

Sobre paixões e ministérios

por Luiz Henrique Matos (reeditado e com novo final)

“Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e no teu livro foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram ordenados para mim, quando ainda não havia nem um deles” (Salmo 139:6).

Davi era bom guerreiro, músico e poeta. Já Daniel era um bom administrador e governante, assim como José. Paulo pregava como poucos e também costurava tendas de couro. Pedro, João e Tiago eram bons empresários, pescadores e pregadores também. Barnabé era bom de conversa. Salomão era bom com estudos e negociações diplomáticas. Moisés tornou-se um grande líder no deserto, enquanto Josué o fora já na terra prometida.

O que seria da história humana sem esses homens? Que recheio teriam as Escrituras sem seus relatos? Pensando de forma minimalista e secular, o que seria então de Pelé se não começasse a bater bola nas várzeas das ruas de Bauru? Que rumo levaria C. S. Lewis se renegasse sua habilidade com os textos? Bach, se não se aventurasse em acordes e arranjos ou Michelangelo se nunca usasse seus traços para desenhar? O que seria da ciência sem Einstein ou da poesia sem Fernando Pessoa?

Acredito em gênios e grandes descobertas, mas acredito muito mais em talentos sendo usados com seus devidos propósitos. E assim, acredito também que cada homem e mulher vêm a este mundo com uma habilidade específica, que o torna uma pessoa mais feliz e completa. Que, vai além de um DNA e o faz ser único e marcar sua geração.

Afinal, não fomos criados à toa, certo? Tampouco somos frutos do acaso. Sabemos que Deus nos fez à sua imagem e semelhança e a cada um formou com características diferentes em sua personalidade, talentos e habilidades. E se fomos criados à semelhança de Deus, não podemos ser pessoas “incompletas”, sem rumo, vivendo apenas pelo sustento do fôlego de oxigênio.

O fato é que temos uma vocação e precisamos exerce-la, como parte dos sonhos divinos para nós. E todos, sem exceção, somos bons em alguma área. Uns cantam, outros cozinham, falam em público, ajudam pessoas, desenham, tocam instrumentos musicais, cortam e penteiam cabelos, aconselham pessoas, vendem, dirigem, medicam, elaboram fórmulas, jogam futebol, fazem cálculos… são inúmeras as áreas existentes, parte delas tornam-se profissões, atividades pessoais e algumas tantas ainda hoje, são transmitidas através das gerações.

E qual é o seu talento?

Se você sabe em que é realmente bom e sente prazer nessa atividade, eis aí o seu “ministério”. Você é bom dirigindo automóveis? Então seja o melhor motorista, dedique-se como piloto, faça o melhor e seja reconhecido por isso. Mas lembre-se em todos os momentos de que, esse melhor você faz como gesto de dedicação e adoração a Deus. É muito gratificante para o Pai poder ver seu filho exercendo a “carreira” para a qual ele o preparou.

Mas caso você ainda não tenha descoberto sua vocação, sugiro que ore a respeito e peça a Deus que o oriente. E não fique parado, comece a praticar, siga seu coração. Existem ao menos uma dúzia de coisas que você gosta de fazer. Certamente você tem sonhos e eles são sinais de sua paixão. Verifique se isso está enquadrado com os princípios cristãos nas Escrituras e caminhe confiante. Tente ver onde isso pode ser usado no Reino e mais ainda, como esse dom pode ser usado para mostrar ao seu próximo a grande e real diferença que é ter Deus habitando em seu interior, capacitando e dirigindo sua vida.

Cumprir com excelência a vontade de Deus para nós também é adoração e louvor à ele. E praticar os nossos dons, gera mais impacto neste mundo do que carregar uma máscara de religiosidade. Máscaras são falsas e isso afasta as pessoas, mas quando os outros podem ver em nós algo realmente novo e bom, sabem que estamos fazendo mais do que o normalmente possível. E essa “novidade”, sabemos, é o reflexo do caráter de Deus em nossas vidas.

E são nessas horas que percebemos que finalmente estamos fazendo valer tudo aquilo que cantamos e oramos em nossas comunidades.

Um outro conselho, não meu, mas de Paulo, o apóstolo: “E tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor, e não aos homens, sabendo que do Senhor recebereis como recompensa a herança; servi a Cristo, o Senhor” (Colossenses 3:23-24).

Mas, você se sente velho demais? Abraão tinha 75 quando Deus lhe prometeu um filho e sua ascendência sobre todo o povo de Israel. João, o discípulo tinha cerca de 80 quando escreveu o livro de Apocalipse.

Ou, diria você que ainda é muito novo? Pois Mozart compôs seu primeiro minueto aos 6 anos de idade, quando já era considerado um prodígio pelas platéias europeias. E Jeremias, o profeta, sentia-se novo e despreparado para seu chamado, que viria a marcar todo a nação de Judá.

E foi justamente Jeremias que deixou registrado o que ouviu de Deus no momento em que duvidou de sua vocação. Permita-me compartilhar isto: “Antes que eu te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre te santifiquei; às nações te dei por profeta” (Jeremias 1:5). “Não digas: Eu sou um menino; porque a todos a quem eu te enviar, irás; e tudo quanto te mandar dirás. Não temas diante deles; pois eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor. Então estendeu o Senhor a mão, e tocou-me na boca; e disse-me o Senhor: Eis que ponho as minhas palavras na tua boca” (Jeremias 1:7-9).

“O que me preocupa não é o grito dos violentos. É o silêncio dos bons” (Martin Luther King).

Aos pés da cruz

por Luiz Henrique Matos

Aos pés de tua cruz eu me encontro. Vejo três delas e na do meio te observo, és Jesus Cristo, agonizando diante de meus olhos. Aí está teu corpo ferido e nu, a coroa de espinhos, a espera pré-morte e o peso de ver uma realidade que eu só ouvira em histórias.

Mal sinto a presença da multidão ao meu redor, homens e mulheres que há pouco bradavam por sua morte e agora silenciam. Centenas de olhos estáticos te contemplam, calados e temerosos pelo que há de vir. O que há de vir? Mais ao lado, tua mãe chora acompanhada de Maria Madalena e João, o discípulo que tanto amava.

Vejo tua face deformada, ouço seus murmúrios e suas preces derradeiras. Vejo o vinagre subir em uma esponja para matar tua sede. Na altura de minha vista estão os teus pés, sujos pela terra seca grudada no sangue que escorre de teu corpo. Penso por um instante que gostaria de poder lava-los.

O Senhor está cansado, as últimas horas foram difíceis.

Em teu tronco posso ver a marca dos chicotes que o açoitaram. Nos teus ombros vejo a carne viva e desgastada pela madeira da cruz que carregou. Quase vejo o dedo sarcástico de Satanás apontado em sua direção, rindo ao lado de sua corja de demônios. Mas confesso que não posso ver ou imaginar o peso maior desse sacrifício: ter em seu coração a culpa pelo meus pecados, os pecados de cada homem nessa multidão e também os de toda humanidade.

Como deve doer!

Mas eu não posso saber, eu não os senti. Nenhuma dor, nenhum castigo, nenhum peso pelo meu pecado, sequer uma pena de condenação. Jesus, só posso pensar, o quanto isso deve lhe consumir agora. Estão sobre ti os meus erros e isso já me parece imperdoável. Quanto mais não são todas, todas as culpas sobre si.

Como pode, o Senhor aí na cruz em meu lugar?

E além de tanto, além de tudo, por que ainda isso? Meu Mestre, incompreensível é olhar para ti e contemplar teus olhos entreabertos em minha direção. E te pergunto Jesus: por que me olha assim? Depois de tudo que fiz, por que me olha com amor!?

Eu jamais saberei, o quão pesada foi esta cruz que carregou. Minha cruz. E o que posso fazer agora?

Me resta, percebo, continuar olhando, gravando este momento para a eternidade e sim, eu sei que espera minha voz de arrependimento. Me deposito aos pés dessa cruz, me consagro e entrego a ti minha confissão: Jesus Cristo, eu te amo. Tu és meu Deus.

E morro contigo Jesus, para ao teu lado poder ressuscitar. E já não tenho vida Senhor, pois ela agora é tua. Aqui estou, toma-me para tua glória e faz-me um homem novo, à tua semelhança e essência.

As histórias de cada um

por Luiz Henrique Matos

Talvez, digo talvez, algum poeta diria que “o que vivemos revela o que somos”. E que por trás de cada rosto existe uma história, que cada olhar alheio revela uma alma encoberta pela máscara dessa vida, pois afinal, existe algo muito maior dentro do homem, maior até do que ele próprio, é a sua história, sua vida, sua marca.

E todos nós possuímos uma saga, partilhamos segredos, vivemos grandes emoções. Ou não. Talvez nossas aventuras rendessem um livro ou quem sabe um filme. Muitas dariam comédias, outras tantas dramas arrastados, algumas romances e raras delas seriam épicos marcantes.

Todos também temos cicatrizes, alguns no corpo, outros na alma. Algumas cobertas discretamente, outras expostas de forma horrenda. E todos igualmente amargamos grandes derrotas, mas pudemos outras vezes, erguer o rosto exibindo nossas conquistas. Somos apenas pó, uns e outros, uma pequena partícula entre seis bilhões de outras tantas no planeta. Mas cada um com um DNA diferente, com sua origem exclusiva e seus sonhos próprios.

Cada certidão esconde um passado e cada expressão revela um momento novo naquela vida. Todo mundo já se emocionou num filme, já torceu pela seleção, já tropeçou na rua diante de uma multidão. Todo mundo já brincou quando criança, já se decepcionou com os adultos, já quis voltar à infância. Todo mundo já amou, já sofreu, já sorriu e chorou. Não há um de nós que seja como o outro, mas também não somos exclusivos em nossas experiências. Por isso somos assim, “iguais mas diferentes”. E as emoções que vivemos são o sal que tempera essa rotina tão comum, são as aventuras que ocorrem durante esse processo repetitivo de “inspirar e expirar” que nos mantém vivos.

Não sei se você passa por esses momentos, mas às vezes, andando pela rua, vejo alguns rostos e naquele instante eu gostaria de saber o que se esconde por trás daquelas cortinas, como são os bastidores do espetáculo que os homens representam, quem são realmente esses personagens habitando o mundo. Sem preconceitos, desejo conhecer as aventuras daquela senhora imigrante de cabelo branco que vi no parque, os causos do caboclo na cidade grande que embarcou no trem, as pegadas de um mendigo errante que descansa sob um toldo. Queria ouvir em detalhes cada uma das epopéias, que acredito, todo homem carregue em sua idade. Todos possuem sua linhas escritas, por vezes tortas, rabiscadas, sujas, mas lá estão cada uma delas gravadas para a eternidade.

Mas gostaria de saber observar sem deixar que os meus filtros humanos me revelassem um hipócrita que cria estereótipos para cada “categoria” de gente. Queria usar os óculos divinos, que olham com amor incondicional, sem se importar com a forma, sem ser surpreendido pelos absurdos escandalosos, que sabe amar e compreender.

E quanto a eu e você? O que as pessoas pensam de nós? Será que nos acham engraçados? Soberbos? Bondosos? Chatos? Sinceramente, não gosto de saber que alguém tem uma impressão errada a meu respeito, diferente do que sou realmente. Talvez então eu deva considerar o mesmo antes de fazer um julgamento acerca de alguém…

Mas sei que apesar de minhas falhas, existe um momento em que, por milagre ou ocasião, nossas máscaras caem. E é aí que somos despidos de preconceitos e julgamentos, lavados e vestidos de “verdade”. Olhamos fundo nos olhos cansados de nosso próximo e vemos algo comum. Sondamos o interior, enxergamos a verdade e entendemos a sua história como se dentro de nós elas também fossem vividas.

E nessas horas, somente nessas horas, vemos que não estamos sós. Sentimos uma mão ser estendida, vimos que provamos o bom fruto do banquete e temos o ímpeto de dizer que entendemos, sim, nós entendemos o que se passa. Queremos ajudar, nos entregamos a uma bondade sincera, somos preenchidos de amor e só assim compreendemos que também amamos. E entendemos que esse sentimento pode estar gravado em nós, mas que amar também é uma opção.

E então, com o espirito aberto, ouvimos Deus nos sussurrar:

– Isso! Ame-os filho. Ame como a si mesmo.

Quadros tortos

por Luiz Henrique Matos

Tudo parecia perfeito. Dentro dos meus critérios foi também muito rápido, cerca de quarenta ou cinqüenta minutos. Eu havia medido cada centímetro até encontrar o centro. Então marquei com um lápis o ponto exato do local do furo, obedecendo altura e proporções adequadas. Me certifiquei de cada detalhe. Encaixei a broca na furadeira, posicionei a ferramenta na marca do lápis, cerrei os olhos e apertei o gatilho: vrrvrrrrrrrrrrmmmmm!!! O barulho era ensurdecedor, os farelos alaranjados de tijolo caíam no chão e o pouco de pó que não caía, vinha exatamente na direção de minhas narinas e eu espirrava sequencialmente.

E depois de mais dez ou quinze minutos medindo novamente a largura, acertando a profundidade, furando mais um pouco e espirrando outros tantos, consegui finalmente parafusar a base do porta-shampoos que eu queria instalar dentro do box. Agora era só encaixar o suporte de vidro, apertar a base, fazer os últimos ajustes, dar um passo vitorioso para trás e admirar minha obra: estava torto.

Torto! Depois de tanto tempo trabalhando com precisão nos furos e cálculo revisado inúmeras vezes, o porta-shampoos estava torto! Como pôde? Virado para baixo, qualquer coisa que fosse colocada sobre sua base escorregava e caia na direção do ralo. Porquê? Porquê essas coisas acontecem comigo?

E já não era a primeira, tampouco a segunda, nem mesmo a terceira vez. Quadros, torneiras, porta-chaves, tantas e tantas vezes. E com o fracasso, esvai-se a minha paciência e o um sentimento de impotência faz com que eu me sinta um sub-homem. Se não posso fazer algo tão simples, como então realizarei feitos maiores como… como… bem, a essa altura eu já nem queria mais realizar nada, queria apenas tomar meu banho e ter o shampoo bem acessível à minha frente.

Está certo, eu sei que cada pessoa foi criada com um dom e existem pontos fortes em todo mundo e coisa e tal, mas não fosse isso tão óbvio… o duro é que sempre preciso vivenciar essa realidade antes de ter plena certeza de quais são os meus possíveis dons e principalmente, quais certamente não são.

Vejo que isso é condicional, só sabemos qual é a nossa grande vocação quando passamos a exerce-la e então percebemos o quanto aquilo parece simples e prazeroso. Infelizmente, também só descobrimos quais são nossas “fraquezas” depois que somos humilhados e derrotados por elas.

Tantas coisas que me parecem tão fáceis. Vejo na televisão os vídeos de jogos de futebol e tenho a convicção de que sou capaz de acertar um passe preciso como o Ronaldinho Gaúcho, driblar como Robinho e fazer gols deslumbrantes como o Ronaldo Fenômeno. Então visto a minha camisa de futebol surrada e sigo confiante para o campo. Mas basta que alguém lance uma bola em minha direção e eu começo a suar frio, estendo a perna dura na direção da bola (crendo que aquilo pode vir a ser um chute), viro o rosto, fecho os olhos e a sinto bater no meu corpo e espirrar para um lado qualquer no gramado. Então olho para todos os lados até acha-la, corro na direção daquela coisinha redonda e forço um chute que, tenho certeza, irá direto para o gol, no ângulo, sem chances para o goleiro. Mas aí a bola faz uma curva estranha e sai pela lateral, atrás de mim!

Sou um esportista frustrado. E pensar que na infância sonhei ser um talentoso lateral direito de meu amado tricolor paulista. Só não posso dizer que também sou um pedreiro desapontado porque sinceramente nunca sonhei com essa profissão. Mas gostaria de saber cumprir com minhas “obrigações de homem” no lar. Bem, ao menos sei abrir vidros de azeitona!

Nós às vezes somos como o quadro torto na parede da sala, como o porta-shampoos mal colocado ou o prego, um simples prego, que para ser fixado demora cerca de duas horas e remove cinco centímetros de reboco à sua volta. Em certos momentos nos encontramos fora das expectativas de quem deseja e se esforça para nos colocar no lugar certo. Mas há uma diferença sutil nessa comparação: o erro está na peça (nós) e não no dedicado trabalhador por trás dela.

Deus nos faz com planos. Para cada um dos filhos que gerou ele tem grandes sonhos. Antes de nascermos nosso Pai planejou os nossos dias e vislumbrou um futuro grandioso, uma vida abundante, cheia de amor e verdade.

Não, não falo de predestinação. Falo de sonhos, sonhos de um Pai que quer ver o seu filho crescer e viver o melhor. Sonhos de um Pai que luta dia e noite para que sua criação não sofra.

E cada vez que nos desviamos desse plano com nossos pecados, rebeldias e negações, causamos no coração de Deus o suspiro triste de um lavrador que não pode saborear o fruto de seu penoso trabalho.

“Porque nisto consiste o amor a Deus: em obedecer aos seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados” (1 João 5:3).

Quem ama obedece, deseja agradar, busca os interesses da pessoa querida. E quando chegamos diante de nosso Pai com coração humilde, sem intenções egoístas e desejos estritamente pessoais, ele se alegra. E aí sim, estamos dentro de sua vontade: a de ter relacionamento e intimidade com seus filhos.

Ser trabalhado por Deus faz parte do plano de crescimento que ele tem para cada um de nós. Nisso se encaixam circunstâncias, vitórias, apertos e bênçãos. E durante esse crescimento, dentro de sua vontade, somos moldados pela sua mão precisa, para entrar em um espaço devidamente preparado, onde seremos expostos – sem perda de rebocos e medidas tortas – como obras-primas de sua criação.

Cá entre nós

por Luiz Henrique Matos

Ainda não se entende como ou porquê, só se sabe, aqui entre os que creram, que ele sabia. De um jeito muito simples, ele olhava e sabia. Hoje compreendemos, ele sabia porque amava. Mas, porquê amava, ninguém sabia.

De um modo direto e muito humano. Era como se aquele simples olhar consolasse toda dor, seu toque sutil tirasse todo peso, sua voz calma penetrasse os lugares mais escuros da alma. Ele sabia tudo o que pensavam e sentiam, mas isso não trazia medo a ninguém, ao contrário, era o grande consolo e a certeza de que sim, ele era o Messias.

E seu poder era transformador. Não era como o de um super-herói dos quadrinhos, que se concentra em uma pessoa e sonda o seu interior. Também não era como um robô da ficção científica que não vê carne ou sangue, somente imagens em dimensões digitais.

Sim, ele era Deus, totalmente Deus. Mas aqui, cá entre nós, ele era homem, completamente homem. Vivendo entre homens, comendo com homens, dormindo ao lado de homens. Apenas homens, bem distantes de qualquer semelhança divina.

E ele, justo ele. Que participou do nascimento do universo, céus, terra, mares e cada ser vivente de sua criação. O Deus vivo era agora um deles.

Junto ao Pai concordou quando disseram: “Façamos o homem”. E dos altos céus viu o primeiro ser criado. Mas viu também a queda desse Adão e sentiu a dor ao ver seu grande sonho ser adiado. Se dispôs então a viver entre esses homens, gerações mais tarde, na plenitude dos tempos, ao lado de toda a criação desviada de seu propósito santo.

E vivendo como eles, morreu sem pecados para poder livra-los da condenação fatal, dando aos que creram a herança da vida eterna e a graça de serem chamados filhos de Deus.

Depois de morrer, ressuscitou. Mas não para subir ao seu trono e descansar da penosa jornada, mas justamente para voltar a viver entre seu povo, não mais em carne perecível, mas em espírito, santo e divino.

E ainda hoje ele está aqui, em verdade, em espírito, em amor, em nós.

E ainda hoje, ele sabe… ah, como sabe! Ninguém entende como ou porquê, simplesmente sabe de sua presença consoladora e sente… ah, como sente! A certeza de seu toque, meu ser. A revelação de seu caráter, meu Deus.

Enquanto você dormia

por Luiz Henrique Matos

Quantas coisas não fiz enquanto você dormia? Durante seu sono profundo, o respirar tranqüilo, os sonhos vindouros que providenciei, o aconchego do descanso merecido e renovador.

Enquanto dormia me prontifiquei a trabalhar por você. Escalei querubins para lhe entreter com cânticos e música. E estive batalhando em seu favor.

Você já não precisa se preocupar, não, não é isso que quero de você. Tão pouco pretendo ver-te humilhado, sacrificando-se por coisas mínimas. Já te disse uma vez, outra repito: não fique ansioso quanto ao dia de amanhã ou o que haverá de comer ou vestir, empenhe-se em buscar o meu Reino, em primeiro lugar.

Antes de você deitar, entenda, eu ouvi cada palavra de nossa conversa, me curvei para escutar seu sussurro, sondei o mais íntimo de seu coração e olhando nos seus olhos, sei bem o que se passa nesse peito aflito. Querido, já tenho comigo todas as suas necessidades e anseios e creia, eu cuido de cada detalhe.

Filho, o que reservo para você é maior do que as coisas pequenas que você vê nessa terra. Meus sonhos, planos e intenções… nenhum olho jamais viu, nem ouvidos escutaram o que tenho preparado para você e seus irmãos. Sim, sou um Pai preocupado e esteja certo de que esse é o meu prazer.

Não sou essa figura tirana que os críticos pintam, nem me assento em um trono aguardando sacrifícios e muito menos me identifico com algo distante que você não compreenda ou sinta. Sou vivo, sou pai, sou amor, sou o que deu, em seu favor, a vida de meu filho primogênito para que então, pudesse me dirigir assim a você e você a mim, como sonhei desde o princípio.

Descanse criança, descanse. Ficarei de vigília. E quando você acordar, estarei pronto para vivermos os nossos melhores momentos. Afinal, te criei para isso: para passarmos juntos todos os dias da eternidade.

“Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem” (Salmos 127:2).

“Em paz me deito e logo adormeço, pois só tu, Senhor, me fazes viver em segurança” (Salmos 4:8).

Como uma onda

por Luiz Henrique Matos

“Tissú o quê!?” foi minha primeira reação. Então ouvi: “Tsunami, nome japonês para ondas gigantes”. E tão estranho quanto o substantivo, é a capacidade destruidora e imprevisível de sua ação. Até o momento em que escrevo essa mensagem, já são quase 150 mil mortos no sul da Ásia e doze países atingidos pelo maremoto que deixou mazelas que, segundo a ONU, demorarão de cinco a dez anos para serem restauradas. As vítimas, segundo o previsto, podem chegar a um milhão se forem considerados o número de desaparecidos e as doenças que surgem em função dos estragos.

Mas agora, a expressão japonesa não é só sinônimo de tragédia mas também de nova vida. No dia da catástrofe Namita Rai estava em sua casa na Ilha de Hut Bay. Quando perceberam o terremoto, ela e o marido Laxminarayan Rai fugiram em direção ao bosque. Namita estava grávida de oito meses. Na correria desesperada ela caiu no bosque e ali deitada, um mês antes do previsto, seu filho veio ao mundo. O pai registrou o menino três dias depois e chamaram-no de Tsunami.

É quase irônico. No dia 26 de dezembro de 2004 Tsunami nasceu no sul da Ásia.

Nada irônico, porém, são os comentários de alguns cristãos justificando a tragédia como sinal do “juízo divino” e com afirmações do tipo: “eles adoram não-sei-quantos-mil deuses, é normal que isso ocorra”. Fico me perguntando o que isso quer dizer. Será que estamos mesmo pensando que o pecado do homem despertou a ira de Deus? E falando em pecado, que diferença existe então entre a idolatria daqueles que – teoricamente – não conhecem a Jesus Cristo e a soberba dos que dizem adorar ao Senhor e agora se acham juizes dignos de condena-los?

De fato, esse não parece um gesto que Jesus teria. Talvez pensassem assim os fariseus judeus que Ele criticou por pensarem estar no centro do universo. Ou quem sabe, pensem assim os fundamentalistas cristãos que mesmo hoje, apoiam a cruzada ocidental contra países de predominância pagã. Ou até, os muçulmanos xiitas, que praticam seu conceito de “guerra santa”, que tantos de nós tememos e presenciamos.

“Misericórdia quero e não sacrifício” (Mateus 9:13).

Deus não quer nossa religiosidade, isso é discussão vã, o Pai só quer que vivamos como Jesus. E para isso, precisamos aprender que o seu Reino é baseado em amor e não em preconceito. Que está edificado sobre a Salvação e não em condenação. Em serviço e não mordomia.

Devemos ter gravado em nossos corações que a vida espiritual se faz em compaixão e não egoísmo. Em humildade e não soberba. Em generosidade e não avareza.

E por fim, compreender que o Reino do Pai está fundamentado na única razão de nossas vidas: em Cristo.

E em Cristo, sabemos que aquelas pessoas não precisam – tampouco merecem – da nossa condenação, juízo ou prepotência teológica. O povo vitimado na tragédia carece sim do nosso amor, tão forte e intenso capaz de formar outra grande e intensa onda, um Tsunami de misericórdia, justiça e paz.

É nossa missão levar o calor para quem sente o frio solitário da tragédia, o afago para a criança perdida, a providência para os que necessitam, o consolo para quem sofre a dor da perda.

Eles precisam do cristianismo que declaramos viver. Cristianismo em que fazemos votos de “amar uns aos outros como nos amamos”. E só o amor de Deus pode nos motivar a viver essa verdade.

Que nossos esforços estejam dedicados ao próximo, assim como Ele insiste. E amar é despender tempo, é partilhar o melhor, é viver em unidade. Como embaixadores do Reino, devemos usar nossas ferramentas para a honra de Deus. E “Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele” (1 João 4:16b). Nossa maior arma nessa guerra não está na acusação, mas na intercessão. Intercessão de quem ora, contribui, age…

Nesse momento, o importante é ouvir o pedido de socorro dos que clamam e lhes estender a mão. Antes que as vitimas se afoguem na água e na miséria e nós no nosso orgulho religioso e decadente.

Sites com notícias sobre a Tsunami no sul da Ásia: Folha de São Paulo (www.folha.com.br), BBC (www.bbcbrasil.com.br), Yahoo! (www.yahoo.com.br) e Google News (www.googlenews.com).

Simplesmente crer

por Luiz Henrique Matos

Meu Deus, dá-me um pequeno grão, para que eu o tenha na palma da mão e vendo, compreenda então, que é necessário tão pouco.

Estou tão próximo, mas também tão longe e assim aguardo Tua resposta para poder alcançar esse chamado, olhando para o pó de minha essência.

Mestre, realizarei Tuas obras, verei Teus milagres, conquistarei a vitória e serei novo homem, não mais escravo da dor, mas cheio do Teu amor e verdade.

Terei a certeza dos que nada sabem, verei mais longe do que meus olhos alcançam, caminharei confiante em meio à escuridão sombria.

Meu Pai, dá-me, eu Te peço, para que mesmo sem nada ter, ainda assim eu consiga crer, simplesmente crer.

E vencerei este mundo, derrotarei suas aflições e conhecerei Tua grandeza, quando enfim compreender a infinitude de Ti que há… neste pequeno grão de mostarda.

“Se vocês tivessem fé, mesmo que fosse do tamanho de uma semente de mostarda, poderiam dizer a este monte: ‘Saia daqui e vá para lá’, e ele iria. E vocês teriam poder para fazer qualquer coisa!” (Mateus 17:20 NTLH).

Temporal

por Luiz Henrique Matos

“A noite está quase acabando; o dia logo vem” (Romanos 13:12a).

Agora chove, tudo está escuro e trovejante, o temporal parece não ter fim. Mas, ouço no noticiário que a tempestade não acontece ao mesmo tempo em todos os lugares, tem seus focos e locais específicos. Também aprendi isso na infância. São como as chuvas de verão, vem e vão sem avisar.

Furacões, terremotos, ventanias, tribulações que parecem não ter razão, surgem de ímpeto e agonizam suas vítimas que clamam desesperadas. Mas tal como chegam, também partem. Elas passam, tudo passa.

Não pode ser dia ou noite em todos os lugares, não há simultaneamente claridade e escuridão. Não habitam juntas as trevas e a luz.

A noite se vai quando chega o dia e nasce o sol em nossas vidas. A cada manhã um dia se faz novo. “E aquele que está assentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21:5a).

E assim existe o consolo de saber que para a tempestade há calmaria, para a dor há consolo e no fim da chuva a promessa presente no arco-íris.

Mais tempestades virão, eu sei. Ficaremos assustados e temeremos, pensaremos que é o fim. Então, o peito aperta, os olhos se fecham, os joelhos se dobram, o coração clama: Ó Pai, meu Pai, meu Deus, meu pão, minha luz! Guia-me em meio às trevas e faz-me ver a luz, na verdade que só há em Ti.

“Entrando ele no barco, seus discípulos o seguiram. De repente, uma violenta tempestade abateu-se sobre o mar, de forma que as ondas inundavam o barco. Jesus, porém, dormia. Os discípulos foram acordá-lo, clamando: “Senhor, salva-nos! Estamos morrendo!” Ele perguntou: “Por que vocês estão com tanto medo, homens de pequena fé?” Então ele se levantou e repreendeu os ventos e o mar, e fez-se completa bonança” (Mateus 8:23-26).

A tempestade vem e a tempestade passa. E vem o conforto, até para os homens de pequena fé.

“A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram” (João 1:5). “Eu sou a luz do mundo” (João 8:12).

Por que morrem os homens?

por Luiz Henrique Matos

Pessoas morrem. Vemos idosos partirem porque seu tempo enfim chegou. Ouvimos sobre os doentes nos leitos de hospitais, os acidentes casuais e rotineiros, o câncer que consome a força humana.

Alguns, enganados pela mentira, buscam motivos para a própria morte. Assim são os suicidas que põe fim à vida por razões nulas, como os terroristas e homens-bomba que entregam-se a um “deus” a fim de gozarem a recompensa de uma eternidade premiada.

Outros tantos morrem assassinados, de forma que chocam e fazem brotar grandes interrogações em nossas mentes, como os judeus vitimados no holocausto nazista, o povo perseguido pelo comunismo soviético, crianças mortas pela violência urbana, as vítimas de chacinas e homicídios ao redor do mundo, os soldados que partem para a guerra sem saber o que lhes aguarda.

Pessoas nascem. Pessoas morrem. Todos os dias.

Morrem de fome, sede, em desastres, guerras, doenças e desgraças. Tiram a própria vida. Tiram a vida dos outros. Os que matam já não se incomodam, matam por prazer, por crueldade ou por ganância. Ignoram a dor da família deixada, da imagem gravada no coração que arde de saudade.

Felizmente o cristão tem em sua existência uma certeza: a de que, em Cristo, a vida é eterna e que nossa estada nesta terra é passageira. Jesus disse ao Pai enquanto intercedia por nós, antes de partir: “Eles não são do mundo, com eu também não sou” (João 17:16). A morte, em teoria, não nos preocupa. Mas a vida, ao contrário, deveria nos deixar alertas.

O que plantamos neste mundo reflete o fruto que colheremos na eternidade. Esse é o tempo de semear o que esperamos viver na glória. E o que temos feito a respeito da vida? Deus criou o homem para ser eterno, mas também o fez livre para escolher. E um único “câncer” foi responsável pela proliferação da doença em que o mundo se encontrava antes de Jesus: o pecado.

“Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram” (Romanos 5:12). No instante em que Adão tomou aquele fruto nas mãos e comeu, nosso ancestral abria uma porta em sua vida, que traria condenação a todos os homens. Assim é o pecado, tumor maligno que nos consome.

Deus o havia alertado dizendo que morreria se comesse daquele fruto. E assim foi, Adão desobedeceu, a desobediência o levou ao pecado e o pecado à morte. Mas não a morte que vemos hoje, da carne, da matéria natural que apodrece e se acaba. A morte para Adão foi a ausência de Deus, o distanciamento da essência da Vida, a pior morte, a morte espiritual. Estar morto espiritualmente é respirar sem ter o ar, é estar vivo mas sem fôlego. É estar longe de Deus. É doloroso.

E depois disso, o Criador observou Seu povo perecer, geração após geração, distantes e perdidos na escuridão. Então, cansado de ver a criação perdida, Deus se fez carne e morreu no lugar daqueles que tanto amou.

“Pois se muitos morreram por causa da transgressão de um só, muito mais a graça de Deus, isto é, a dádiva pela graça de um só homem, Jesus Cristo, transbordou para muitos!” (Romanos 5:15).

Mas Ele, que morreu por cada um de nós, também quer que morramos para Ele. Não a morte física, nada de sacrifícios, tampouco religiões. É de outra morte que Deus fala. Ele pede que morramos voluntariamente para aquilo que, segundo Seu propósito, já não existe mais para nos condenar. Jesus quer que deixemos o pecado, a desobediência e os sofrimentos.

E mesmo sabendo que não merecemos, Ele ainda nos permite ouvir Suas promessas, que declaram: Morra para si mesmo e eu te darei a vida eterna. Tenha-me como Pai e eu te chamarei de Filho. Olhe para mim como seu Deus e eu lhe darei um novo coração, cheio da minha presença. Traga seu sofrimento a mim e eu te darei alívio. Não te criei para morrer, mas para ter vida, e vida abundante.

Jesus morreu, como homem na cruz e como Deus sacrificado. Morreu de graça, pela graça. Vitorioso. E falamos tanto disso que nos esquecemos do fim da história: que a morte não pôde vencê-Lo. E Ele ressuscitou dentre os mortos. E Ele nos fez livres para a eternidade ao Seu lado. E tendo feito isso, Ele ainda nos deixou a escolha de estar ao Seu lado na eternidade ou continuar distantes, de caminhar para a morte ou ser erguidos para a vida, uma nova vida.

Porque a morte já não prevalece. Ele morreu pelos homens.

Cartas do Theo – Faça seu pedido

por Luiz Henrique Matos e Emmanuelle Burci

Oi vô, tudo bem aí?

A mãe mandou eu enviar esse e-mail para mostrar que eu já estou escrevendo direitinho. Não é muito verdade porque depois que eu termino ela vem e corrige tudo, mas aí ela falou que era bonitinho e você vai gostar. Eu falei que não sabia o que escrever e ela falou para pôr qualquer coisa aí porque você ia achar uma graça de qualquer jeito. Eu não consegui pensar em nada e comecei a chorar, daí ela falou que tudo bem e pediu para contar como foi a viagem no feriado com a tia e o tio.

O feriado foi muito legal, viajamos para a cidade da tia que é longe pra caramba e fez um sol de rachar. Lá é diferente aqui da nossa cidade, as pessoas andam mais devagar e não ficam correndo e coçando a cabeça de nervoso que nem o pai. Não tem muito prédio, nem muito ônibus e nem fumaça. Tudo é pertinho, dá para ir de carro sem dormir no caminho e a gente pode brincar na rua sem ter um monte de adultos por perto.

A gente saiu e brincou e jogou bola e foi no sítio e tomou sorvete e tomou sorvete e tomou sorvete (é vô, três vezes) e brincamos de escolinha, onde eu aprendi para o que servem as vírgulas. Eu até queria ir nadar no clube com os primos da tia mas não deu, a tia falou que eu não parava de espirrar por causa de tanto sorvete e que se nadasse na água gelada ia ficar espirrando mais ainda e a mãe ia dar bronca e eu não ia poder nadar por um tempão.

Mas em compensação a gente tinha que ir na igreja toda noite e ficava lá cantando. Depois um homem de gravata abria um livro bem grosso (que eu achei que ele ia ler inteiro e eu ia dormir) e contava uma história para todo mundo e eles choravam e depois se abraçavam e então a gente ia embora bem tarde para comer lanche e tomar refrigerante na praça.

Por falar em comer, um dia eu tava com muita fome e o tio também. Já era hora do almoço e ele ficava enchendo a paciência da tia falando: “Vaaaai nêga, eu tô com fome!”. Daí chamaram as tias da tia, os tios da tia, os primos da tia e mais um monte de gente e falaram que a gente ia em um restaurante bem legal.

Combinaram que a gente ia em uma cantina, mas não era igual a que tem na escola, porque lá não vende salgadinho e chiclete, só massa. Mas a massa também não é aquela de brincar de fazer bonecos, é uma diferente que é de comer com garfo e faca e tem um molho daqueles vermelhos que sujam toda a camiseta.

Olha vô, eu sei que o senhor não parece adulto porque brinca com a gente que nem criança, mas vou dizer que adulto é mesmo tudo estranho (a mãe vai ler isso e vai me dar uma bronca depois). Mas parece que quanto mais gente tem, mais demora para escolher o que fazer, o que comer, onde ir… e eu e o tio só ficando com mais fome. Se fosse lá na escola a gente via quem foi que falou primeiro e aí já tava decidido.

Então, aí a gente entrou na cantina e aí eu sentei naqueles bancos super legais que são bem altos e cabem no canto da mesa. Eu fiquei do lado do tio. Puxa, como ele reclamava! O tio é bem paciente e bonzinho, mas a tia fala que tem duas coisas que deixam ele chato pra caramba: uma é ficar com fome e a outra, bem, a outra eu conto outro dia vô.

– O que vocês vão querer para beber? – perguntou uma garçonete bem legal, que me deu um pirulito na saída e ficava apertando minha bochecha.

Nessa hora foi um fuzuê só, um queria suco, outro queria refrigerante, outro pediu água e até todo mundo decidir demorou mó tempão. Eu queria um refrigerante só pra mim mas o tio falou que não podia porque ia ficar sem gás e sem gelo no copo, então eu ia beber com ele.

Rapidinho a bebida chegou, cada um pegou o seu (alguém pediu mais gelo) e a moça fez uma pergunta que parecia mais difícil ainda:

– Já escolheram a comida?

Silêncio total. Mas não por muito tempo, só até todo mundo pegar os cardápios e começar a vasculhar e falar ao mesmo tempo. Aí a moça foi embora e todo mundo ficou escolhendo, menos eu que ia ter que comer junto com o tio porque eu não agüento um prato inteiro (é grande de verdade). Depois de um tempo eles decidiram e voltaram a conversar alto enquanto o tio falava que queria comer. Ele fica chato mesmo.

Passou um tempão, eu não sei quanto porque ainda não consigo ver no relógio, mas demorou muito e a comida não chegava nunca.

Aí chegou o irmão da tia com a namorada dele e tiveram que sentar em outra mesa, de tão cheia que tava a nossa. Escolheram a bebida e a comida que queriam e já pediram tudo para a moça (uma outra, mas que também gostava de apertar minha bochecha. Acho que faz parte do serviço deles).

Só que aí, a comida dos dois chegou bem rápido e a nossa ainda não tinha vindo. Aí o tio, que já estava chato, quer dizer, super chato mesmo, começou a fazer bico e queria reclamar com um tal de Responsável que não tinha aparecido ainda (mas se viesse eu acho que ia apertar minha bochecha também). A mesa toda ficou naquele fuzuê de novo e aí chegou a moça que atendeu a gente primeiro.

– Moça, nós já chegamos há mais de uma hora e nossa comida não chega. Eles dois chegaram depois e já receberam os pratos – foi o que disse uma tia da tia, super simpática, porque se o tio falasse ele seria mal educado (enquanto isso eu comia as batatinhas dos outros dois, porque também estava com muita fome, mas eu sou legal e não reclamo tanto né?)

– Me dá só um segundo que eu vou verificar.

– Talquêi! – falaram todos ao mesmo tempo, menos o tio que estava azedo e eu com a boca cheia.

Depois de uns segundos (não foi um só) voltou uma outra mulher, sem uniforme e com cara de chefe. Era a Responsável, mas nem veio apertar minha bochecha porque se apertasse eu ia derramar toda a batatinha. Aí ela disse uma coisa que deixou todo mundo assustado:

– Olha, eu verifiquei lá atrás e não foi registrado nenhum pedido.

– Como não? Escolhemos duas lasanhas grandes, uma média, três filés à parmeggiana, um nhoque e blá blá blá!

– Mas vocês pediram?

Fizeram o terceiro sururu daquela tarde (é o mesmo que fuzuê vô, mas eu quis falar diferente) e perceberam, sei lá como, que tinham demorado tanto para decidir os pratos que aí a moça foi embora e acabou que ninguém pediu nada. Ficaram só na vontade. Aí fizeram uma baita cara de sem graça, igual a minha quando a mãe me vê fazendo coisa errada, e junto com isso uma outra cara, de muita fome. E o tio tava quase desmaiando em cima de mim.

Que gente estranha né vô? Queriam comida, precisavam comer, mas ficavam reclamando e reclamando ao invés de pedir. Parecia uma história que o homem de gravata contou lá na igreja um dia. Ele falou que um amigo de Jesus deu uma bronca em uns outros amigos dele.

Eu soube que Jesus fazia um monte de coisas legais e boas (muito massa mesmo vô, vou falar dele lá na escola pro pessoal), só que esse amigo dele estava achando estranho porque todos de uma certa igreja lá, sabiam que Jesus podia ajudar em tudo o que eles precisassem, mas o povo só reclamava e contava pra todo mundo, mas para Jesus mesmo, que ia resolver, ninguém pedia nada e quando pedia, fazia tudo errado, pedindo coisa que não prestava.

O cara da gravata leu no livro bem grande uma carta (não vô, ainda não tinha e-mail) que o amigo de Jesus que chamava Tiago escreveu: “Vocês cobiçam e não alcançam; matam e invejam, mas não conseguem obter o que desejam. Vocês vivem a lutar e a fazer guerras. Não têm, porque não pedem. Quando pedem, não recebem, pois pedem por motivos errados, para gastar em seus prazeres”. Eu demorei para entender essas palavras de gente culta, mas também né, o cara era amigo de Deus!

O pastor (nome do cara da gravata… é, pastor, igual a raça do Micci, meu cachorro), falava de oração e disse que isso é a nossa conversa com Jesus, quando contamos tudo para nosso melhor amigo, mais amigo até do que o Fausto lá do 1º B. No fim da reunião na igreja, o pastor, que também apertou minha bochecha, me disse que Jesus até tinha uns amigos da minha idade (massa!).

Eu aprendi que eu tenho que pedir as coisas pra Ele (com êzão assim). Acho que vou pedir para que o tio não fique mais tão bicudo quando tem fome e quando passar por aquela outra coisa que deixa ele irritado, que é… é… xi, agora esqueci.

Vô, agora eu vou parar de escrever e mandar logo o e-mail porque a mãe tá falando que eu aprendi a digitar no teclado e fico enrolando e não paro mais de falar, ops, teclar e quase não durmo (dói menos a mão, acho que vou levar um desse aqui para a escola. Me dá um de aniversário?).

Fique com Jesus e um beijo na careca.

Do seu neto, Theo M.

PS. Ah, anotei uma coisa que o homem da gravata falou. Foi um outro amigo de Jesus que escreveu para os camaradas dele. Achei bem legal para usar quando for fazer oração ou quando for no restaurante de novo e tiver que pedir comida. Olha aí:

“Mas se esperamos o que ainda não vemos, aguardamo-lo pacientemente. Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos, de acordo com a vontade de Deus” (Romanos 8:25-27). He he he (isso é risada vô) esse Deus é legal!

(*Obrigado à Manú, minha esposa, que me lembrou desse “causo”)

Firme certeza – a fé que liberta

por Luiz Henrique Matos

Olhei para aquele guindaste montado na areia da praia. Sozinho, era noite, por volta das dez. Me dirigi ao balcão de informações e perguntei:

– Quanto é?

– Quinze real – informou o rapaz

Pensei por algum tempo, não muito, apenas os segundos suficientes para enfiar a mão no bolso da bermuda e pagar minha inscrição. Depois andei até o final da fila, que ficava toda sentada olhando para o alto, me ajeitei na cadeira, respirei fundo e pensei eufórico: Caramba, eu vou saltar de bungee jump!

Depois de uma hora e tantos, subíamos eu e minha coragem pela plataforma do guindaste. Momentos antes eu vira um bêbado saltar todo torto pendurado naquele elástico. Agora era minha vez. A medida que o elevador subia, na mesma proporção iam ao máximo a minha adrenalina e o frio na barriga. Já no alto, dois homens encaixam um equipamento na minha cintura, eu olho para o céu, amarram meus pés, eu vejo o balneário inteiro, me suspendem no ar, eu clamo a Deus, me soltam, eu berro:

– Jeroonimoooooo!

Caio em queda livre por alguns segundos e pipoco no elástico por outros tantos, tudo gira, o frio na barriga já congela o corpo inteiro e inacreditavelmente um sorriso me toma a face de orelha a orelha, sou um bobo. Mas eu consegui. Consegui e estava vivo. Abri os braços e me entreguei, sentindo o vento me tocar e alguma reação da física me balançar naquele pêndulo. Sozinho. Ninguém para me julgar, ninguém também para me elogiar. Nenhum amigo em volta para ver meu feito, ninguém para eu poder mostrar minha coragem, masculinidade viril, minha fé… Calcei meu chinelo e fui para casa dormir.

Nesse tempo eu pensava que “fé” era só uma expressão monossilábica. Tinha meus 16 anos e achava que Jesus era um cabeludo loiro que parecia bastante com aqueles surfistas que eu via nas revistas. E igreja era onde eu ia com meu pai quando pequeno só para poder passar na padaria após a missa e comprar doces.

Anos depois, precisamente hoje, eu gostaria de saber onde foi parar essa minha fé. Não a fé espiritual, da certeza no Deus vivo e da salvação em Cristo. Mas a “fé” crua e corajosa em agir sem pensar nas conseqüências do gesto, sabendo simplesmente que a vida estava do outro lado da corda, ou melhor, lá embaixo, no fim dela, que me sacudia na ponta do elástico. A certeza infantil em mergulhar na parte funda da piscina e confiar que meu pai estaria ali para me resgatar com seu braço forte. A adolescência inconseqüente ao descer sobre meu skate pela ladeira mais alta do bairro sem imaginar o que me aguardava lá no fim: um asfalto cortante como lixa que me consumia os cotovelos e o estoque de ataduras ou a glória da vitória sobre aquela tábua com quatro rodas.

Eu queria saber em que momento ela se foi. Não que eu a tenha apagado de minhas intenções, ainda faço planos – firmemente rejeitados pela minha esposa – de pular de pára-quedas, descer o rio sentando em um bote, mergulhar em águas cristalinas no Pantanal, velejar em alto mar e de estar pendurado em uma corda na boca da caverna.

Mas percebo triste que a fé que eu tinha nesse nada não se repete na minha certeza sobre as promessas de Deus. E me pergunto: Porquê? Porquê sou tão incrédulo? Porquê simplesmente não confio e me lanço na profundidade desse espaço, no porto seguro de meu Criador? Porquê, afinal de contas, teimo em achar que os meus braços são mais fortes que o de Deus e que Ele, soberano, pode não ser tão pontual quanto eu quero?

O profeta Jeremias falou: “Assim diz o Senhor: Maldito o varão que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!” (Jeremias 17:5). Quem sou eu para dizer o contrário? Quem sou eu para não fazer disso a minha oração?

Quero poder confiar, não nas alturas, nas grandezas ou na precisão de um elástico radical, mas voltar meus olhos para um pequeno ponto, um minúsculo grão, uma semente de mostarda (Mateus 17:20) e através dele depositar minha esperança em Jesus. A esperança das coisas que não se podem ver, mas através das quais todo o visível foi criado (Hebreus 11:1-3).

O pequeno grão que é plantado em meu coração e cresce, e cresce, e cresce, me levando a voar tão alto como águia. E a medida que essa certeza me eleva em fé, na mesma proporção vai ao máximo a minha alegria e o frio na barriga continua. Lá em cima, o Filho do homem me guarda em Suas mãos, eu olho para o céu, firma meus pés na Rocha, eu vejo meu futuro inteiro, me suspende no sopro da vida, eu louvo a Deus, me solta para a eternidade, eu confesso livre:

– Eu creio Senhor, eu creio! Glória a Deus nas alturas.

“Mas os que esperam no Senhor renovarão as suas forças; subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; andarão, e não se fatigarão” (Isaías 40:31).

Quantos pães?

por Luiz Henrique Matos

– Trinta moedas de prata!

– Trinta? É muito pouco, quero mais.

– Bah! Não me faça perder tempo, Iscariotes, são trinta moedas que te ofereço, nada mais! Não entendo essa sua incerteza, se o tal Jesus é mesmo o Cristo que você segue há tempos, capaz de “salvar o mundo e nos libertar do mal” – esnobou com ironia – porque afinal o receio em aceitar minha oferta? Só vai lucrar com isso.

– Bem, na verdade eu seguia um salvador que viria nos libertar dos romanos e fazer nosso povo livre, mas ele só fala em perdão, amor, salvação, tudo uma grande bobagem. Certos estão os rebeldes, precisamos lutar! Só que ao mesmo tempo, ele fez tantos milagres…

– Milagres! Milagres! Parece doença, esse povo só sabe falar disso agora. Quanta blasfêmia! Imagine, um carpinteiro galileu se dizer o Messias!

– Todo o povo crê. Os outros onze também. Eu só cuido das finanças…

– Não vou perder meu tempo com você, traidor imundo! Quer ou não a prata?

– Tudo bem, eu aceito – disse após olhar para baixo sondando os próprios pés, coçar a cabeça acima da nuca, pensar por alguns instantes e se entregar constrangido.

– Hahahahah – gargalhou sarcasticamente sacerdote – idiota, fez um bom negócio. Agora suma daqui. Logo meus homens o acompanharão para caçar o criminoso.

Trinta moedas de prata. Hoje isso equivaleria a três meses de salário de um trabalhador médio, algo na faixa dos dois mil reais. O que se compra, ou melhor, o que se vende por esse valor? Lembro-me de um conhecido, ex-padeiro, que costumava calcular o dinheiro que ganhava no trabalho baseando-se na quantidade de pãezinhos que era possível comprar ou vender com o tal valor. Tomando sua matemática como parâmetro, as trinta moedas de prata seriam suficientes para se vender oito mil pães.

– Ei! Sabe mesmo onde está nos levando? – perguntou intrigado o guarda ao discípulo que caminhava ofegante.

– Sim, eu sei. Estivemos juntos hoje. É por aqui, no alto daquele monte. Ele foi até lá para orar.

– A essa hora da noite… é bom ficarmos atentos. Esse traidor pode estar nos levando para uma emboscada.

– Já o vejo, ali está. Junto com mais três – disse ignorando a opinião do soldado.

– Vamos nos aproximar. Aponta-nos quem é o Jesus e nós o prenderemos.

Ele se aproximou. Ao que o Mestre observava, junto de Pedro, João e Tiago intrigados. Caminhou na direção de Cristo e beijou-lhe a face.

– Salve, Mestre!

– Judas, com um beijo você está traindo o Filho do homem? – Judas nada disse e afastou-se cabisbaixo.

– Prendam-no! – gritou o chefe dos guardas enquanto avançava como um cão na direção do Deus vivo.

Hoje, com as trinta moedas, meu amigo venderia milhares de pães em seu comércio. Judas, com a mesma quantia vendeu um só, o Pão da Vida. Mas no dia seguinte, ao contrário dos últimos três anos, não houve Pão na manhã do Iscariotes. Houve sim um vazio amargo, houve fome e ausência da única coisa que de alguma forma o alimentava. Houve remorso. Remorso que o fez notar a estupidez de seu gesto e correr, ainda ofegante, ao templo para falar com os líderes que o pagaram.

– O que quer? – perguntou o principal ao vê-lo se aproximando.

– Parem essa barbárie, estão o machucando.

– Do que está falando traidor?

– Pequei, pois traí sangue inocente.

Suas palavras, ditas àqueles homens determinados, soaram como ironia.

– Que nos importa? – disseram – a responsabilidade é sua.

– Mas não…

– Saia!

– Não podem mata-lo!

– Saia daqui, já lhe disse!

Então, Judas pegou o dinheiro que recebeu e lançou contra o templo e os que estavam ali. E fugiu. Serpenteou angustiado pelas vielas e ruas estreitas de Jerusalém, sentia-se preso aos sentimentos que, como fogo, ardiam em seu peito e atordoado pelas acusações que, como estaca, os demônios fincavam em sua mente. Em sua batalha pessoal podia ouvir a voz de seu Mestre ecoando nas pregações, ao longo daqueles três anos juntos.

– Arrependam-se, pois o reino dos céus está próximo – lembrava as palavras do profeta João Batista que pouco antes sinalizava a vinda do Messias.

– Arrependam-se, pois o reino dos céus está próximo – era então o próprio Messias iniciando Seu ministério.

– Segue-me – ouviu pessoalmente o seu chamado.

– Tenha bom ânimo, filho; os seus pecados estão perdoados – disse Cristo a um paralítico antes de cura-lo e a tantos outros quanto vinham a Ele.

– Eu não vim chamar justos, mas pecadores ao arrependimento.

– Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.

– Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.

– Nem eu tão pouco te condeno. Agora vá e abandone a sua vida de pecado.

E assim Judas conhecia cada mensagem, ouviu de perto, seguiu ao lado daquEle que traiu e que, de forma irônica, naquele instante era o único capaz de livra-lo do mal que o assolava. A lembrança recente vinha-lhe à memória.

– Digo-lhes que certamente um de vocês me trairá.

– Senhor, sou eu? – ele perguntou, já pensando em seu gesto.

– Tu o disses – e dessa hora em diante viu sua vida pacata transformando.

– Agora é tarde, ele já está sendo julgado – dizia Judas para si mesmo enquanto corria – porque não compreendi tudo isso antes? Me lembro dessas palavras, me lembro de sua mensagem. Eu sei, sabia desde a ceia, seria eu o traidor. Mas e agora, onde está a resposta que me foge diante desse tormento insuportável? Onde está minha luz?

Era tarde para corrigir seu gesto inconseqüente, mas não para obedecer ao mandamento. Viu Jesus proclamar arrependimento e conceder o perdão por tantas vezes ao tipo mais imundo de gente, que se entregavam a Ele todos os dias, mas esqueceu-se de que ele mesmo precisava se entregar. Então lembrou, sentia-se sujo. E degladiava com os demônios que, sedentos, lançavam-se contra sua vida.

Esfregava a face procurando enxergar o que deveria estar tão nítido. Estava cego, não viu a clareira que brilhou em sua escuridão. A vista lhe ficava turva, a Verdade cada vez mais distante. O medo tomou-lhe de ímpeto, a angústia, a dor, o frio. Seu mundo agora era de trevas, seu destino desviou-se do propósito, Judas tinha uma chance, mas só encontrou uma mentira. “E, saindo, foi e enforcou-se”.

* * *

Judas conheceu a pessoa de Jesus, mas não vislumbrou o Deus que havia n’Ele. Esteve com o Pão que vendeu, mas não provou de Seu sustento. Viu Jesus multiplicar os cinco pãezinhos do garoto em tantos quantos suas moedas de prata não poderiam comprar. Vendeu-se por tão pouco. Ainda na última noite, antes da traição, partilhou com Cristo e os outros onze um outro pão, na ceia, símbolo eterno de Seu corpo que seria dado em sacrifício dali a pouco.

Ele conhecia bem suas opções. As duas únicas dadas a todo homem que peca: a vida ou a morte. Podia arrepender-se, pedir perdão ao seu Senhor e viver a eternidade livre de seu erro. Mas também podia achar seu erro grande demais, pensar que para ele não haveria salvação, entregar-se à mentira diabólica e ser consumido pela morte.

Judas Iscariotes trilhou pelo segundo caminho. Escolheu a morte e não aprendeu que em Cristo o arrependimento por si só não é suficiente, é necessária a confissão.

E como foi dado a Judas em conseqüência do pecado, diante dos filhos de Deus também estão dois caminhos, apenas dois, que o Senhor de toda forma tentou ensinar-lhe antes que fosse tarde.

Para Judas foi tarde demais, mas para os outros, bem, aos outros resta a opção.

“Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram” (Marcos 7:13-14).

O hospital dos sãos

por Luiz Henrique Matos

“Somos pela religião contra as religiões” (Victor Hugo).

Conto-lhes, por uma vez essa história, que aconteceu em certo ano aqui na capital, onde fora fundado o Hospital dos Sãos. A monumental obra tivera seu início anunciado e em apenas seis meses erguera-se como a construção imponente, que deixava admirado todo o povo do local.

Para a cidade vieram, segundo fontes, os médicos mais bem estabelecidos da nação, diplomados com honras e proprietários de tamanha autoridade em suas teorias clínicas.

Foi então fundada a clinica, famosa por seu corpo médico excelente e deveras por seu propósito singular e inovador: o Hospital dos Sãos empenhava-se em atender apenas os cidadãos de saúde indiscutivelmente impecável.

Ali, eram atendidos aqueles que não careciam de tratamento e gozavam de saúde intacta. Nada de enfermos, coxos, deficientes ou indivíduos carentes, a clinica existia para hospedar os que não possuíam registros em outros estabelecimentos concorrentes e para louvar os Sãos.

Os médicos, igualmente perfeitos, foram treinados e capacitados a doutrinar seus clientes sob a penosa Lei, que condenaria os doentes desobedientes e engrandeceria de forma ímpar os saudáveis “eleitos”. Dizem até, pela surdina, alguns que lá estiveram, que os doutores recitavam a “glória” a seus pacientes em doses clinicas na medida de seu vigor.

Julgando-se a circunstância, um contumaz cumpridor de hábitos saudáveis, mediante a Lei, poderia chegar ao ponto de ser gratificado com um diagnóstico instantâneo e – segundo bula – com a posologia devida. A título de exemplo, seguem aqui algumas: cinco aplicações de Tapi-Nhas NasCostas a serem dadas em uma única vez, um frasco ao dia de Vai Dad, três cartelas de Alti-wez para os mais confiantes e um tubo de creme facial de nome Péh Roba, espalhado pelo rosto antes e após circunstâncias de pressão altíssima.

Os sãos eram celebrados, surgiam como bonecas plastificadas nas colunas sociais do jornal local, patrocinado pelo oculto e discreto proprietário do hospital, que na boca do povo era conhecido vulgar e popularmente pelo trocadilho de “o homem que compra a são-tidade”. Estavam, pois, brincando de deuses e celebrando a si próprios.

Aconteceu que naquela cidade, ainda pouco populosa apesar de tratar-se da capital, todos os cidadãos achavam-se sãos e imunes de toda e qualquer deficiência, logo, dignos do prontuário máximo do aclamado estabelecimento.

Ao que para surpresa de todos, dia a dia os médicos passaram a rejeitar pacientes sob o grave diagnóstico de que sofriam eles, vejam só, de doenças mortais!

E de fato, sabe-se hoje, sofriam. E sofriam delas também os próprios médicos que… bem, nisso falarei mais adiante.

O alvoroço foi tamanho por conta dos pareceres que os “sábios” doutores isolaram-se em suas Leis e consultórios e renegaram os cidadãos, condenando-os ao vazio fatal.

Não fosse isso, o pior. Ouriçado com a boa notícia da fundação do Hospital dos Sãos, meses antes o prefeito decretou que fossem fechadas todas as clinicas que atendiam e recebiam enfermos. Afinal, deveriam prevalecer na cidade apenas os eleitos, segundo sua ordem.

Mas todos estavam tomados pelo desespero e crentes de que, segundo a Lei, morreriam de fato.

E assim viveram muitas gerações. Tantos morreram crendo em seu penoso fim, enquanto outros tantos, descendentes dos médicos, possuíram ano após ano o Hospital e suas imediações, chegando a comercializar a “verdade” de sua Lei, deturpando a própria insanidade.

* * *

Apareceu então, certa feita, um forasteiro. Homem simples e humilde, cabelos longos e barba na face. Túnica impecável e sandálias. Rapaz moço, de fala mansa, sorriso largo e grande carisma. Vinha de uma província não muito distante e sabia-se pelos mensageiros, tinha como capacidade nova o conhecimento da Lei dos Sãos e a ensinava abertamente a todos.

Da Galiléia, d’onde vinha, sabia-se que era carpinteiro. Em seu discurso, palavras fáceis acerca daquilo que tanto sofriam os cidadãos e seus descendentes desde a fundação daquela doutrina, convenhamos, insana.

Não bastasse, sabia-se que o tal carpinteiro, acompanhado de doze amigos, vinha a realizar proezas e milagres pelas terras que seguia, inclusive, pasme, curando enfermos!

Souberam então os médicos da presença do vil invasor. Providenciaram que dentre os seus, alguns fossem observa-lo a fim de avaliar, compreender e disseminar qual afinal era sua enfermidade. Feito tal, pensavam, seria prático o plano de denunciar aos ventos a sua invalidez e condena-lo ao fim mortal, tão comum ao povo reles.

Porém, pobres, investigaram e não acharam nele mal algum. Não havia falha, tampouco doença ou descumprimento da Lei. Tão sábio, tão simples, tão perspicaz… tão perigoso!

Porque não estava então entre os doutores? É de se perguntar. Mas não, ele não poderia. Certamente não estava entre estes o seu convívio, nem para os quais viera de tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe. Ao contrário disso, caminhava ao lado dos doentes, das prostitutas e dos pobres. Como podia? Aos olhos de seus algozes, deveria ele estar contaminado pelo vírus daquele povo imundo.

Contam os livrinhos que a partir de um dia, passou a defrontar-se com os “doutores da Lei” e a eles expôs sua Verdade. Afinal, dizia, ele era o único caminho, era ele próprio a verdade e também a vida, por meio da qual viria a salvação daquele povo que por anos viveu sob condenação escrava. Na ocasião, imagine só, chamou aos doutores de hipócritas e os colocou na condição de doentes.

Entrou o forasteiro no Hospital dos Sãos e derrubou as mesas de comércio que tomavam aquele lugar. Expulsou dali os que desonraram a pura e real cura e declarou indignado a quem verdadeiramente pertencia aquele local, usado de forma horrível por tantos e tantos anos, um Pai Criador, chamado por ele mesmo dessa forma.

Mas o antigo, misterioso e nesse momento suposto proprietário da clínica continuara ali nos arredores, oprimindo e acusando o povo, colocando seu corpo de profissionais a trabalho da Lei humana e dirigidos em um propósito único e momentâneo: eliminar aquele forasteiro ameaçador.

E o galileu simpático afirmou a todos quantos desejassem ouvir, que seria ele o ponto final na condenação mortal de todos os homens. E revelou o fato de que os doutores, sim, sofriam eles do mesmo mal ao qual condenaram tantos à morte, sendo também portadores do vírus letal, chamado pelo nome verdadeiro: Pecado. E o pecado, impregnado em todo o povo, deveria ser removido.

Durante os três anos de suas idas e vindas pelas bandas da capital, armou-se entre os doutores a tocaia para sua prisão. Eles, como feras famintas e cegas, ansiavam pela morte daquele que julgavam ser blasfemo e enganador, sem saber explicar como lhe era possível tanto conhecimento e poder.

Ao mesmo tempo, crescia de forma incontrolável a sua fama e proporcionalmente a multidão que o seguia. Tantos cegos agora vendo, aleijados andando, surdos ouvindo, leprosos limpos, mortos ressurretos, endemoniados libertos, poder emanando de suas vestes e agindo por meio daquele homem, Filho do homem, são e santo, que amava e curava pecadores.

Já não havia condenação. Eram por meio dele de fato, como o próprio dizia, “feitas novas todas as coisas”.

E por hora, chegamos aqui ao ponto conclusivo dessa narrativa, quando ao fim dos dias, sabe-se que com 33 anos de idade o galileu chamado Jesus reuniu-se com seus discípulos pela vez derradeira e insistiu outro instante na estranha idéia de que morreria em breve. Fato este, sabe-se, incompreensível a qualquer um que o tinha como Messias.

E foi entregue nessa mesma noite, ali na capital, levado pelos braços pesados dos guardas, conduzido à presença dos doutores da Lei, que lambendo o veneno que lhes escorria pelos lábios, mentiram a respeito da vida santa de seu condenado, provando dessa forma, quem eram os pecadores afinal.

Sem doenças, sem pecado, sem máculas, assim estava diante de todos, doutores e povos reunidos, todos sabendo e vendo sua pureza, mas fizeram juntos o coro da falsidade doentia e pecaminosa bradando por sua morte: Crucifica-o!

Morreu na cruz o misericordioso galileu.

Três dias depois, ouviu-se outro alvoroço dentre o povo. Seus seguidores, aqueles doze, o viram novamente. Jesus havia ressuscitado e trazia consigo uma surpresa maravilhosa: com ele, na cruz, morreram todos os pecados e doenças da humanidade e na sua ressurreição, estabelecia-se a prova grandiosa de que era findo o período da morte e vivo, eternamente vivo, todo homem que cresse em seu propósito.

Ressurreição essa que salvou todos os homens, inclusive os médicos doentes que compreenderam seu erro e arrependeram-se. O Cristo, médico dos médicos, enquanto vivo fez perpetuar sua mensagem de cura para os enfermos, receitando dois remédios, de dose diária e perene aos que o reconhecem ainda hoje como seu Senhor redentor: arrependimento e santificação.

Disse um profeta a seu respeito, quatrocentos anos antes de seu nascimento: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças” (Isaías 53:4).

E de forma curiosa viu-se crescer depois disso o grande número de condenados que, crendo em suas palavras, viram-se curados de suas enfermidades. E de certo modo, os que se diziam sãos, foram encontrados perdidos e expostos com suas doenças. O misterioso dono do hospital, agora conhecido pelo seu verdadeiro nome – Satanás – foi revelado como o incompetente perseguidor do Cristo, ao ser derrotado por seu poder e santidade na morte da cruz e na boa nova da ressurreição de Jesus dentre os mortos.

Enfim, lembra-se hoje também, de outros escritos registrados nos livrinhos, que revelam algumas das palavras ditas pelos lábios do próprio Salvador e que nos provam – como se ainda fosse necessário – sua ação por entre aquele povo:

“Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores” (Marcos 2:17). “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mateus 11:26). “Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:45).

Um instante

por Luiz Henrique Matos

Ele abaixou a cabeça e retirou-se angustiado. Seus olhos marejaram, a garganta travou e seu peito doía incessantemente. Então se isolou, entregou-se e chorou. Percebeu o que havia feito, que grande bobagem! Como era possível?

Há poucas horas suas palavras eram outras, sua firmeza surpreendia, sua fé impressionava. Era uma rocha! Mas agora, era a escória dos homens, um pecador imundo, em nada o santo ou escolhido dentre tantos.

As lembranças dos últimos meses lhe vinham à memória. As grandes aventuras, as experiências de uma nova vida, pescador de homens.

Eram muito nítidos aqueles três anos. Surgira entre eles mais do que um relacionamento disciplinar de mestre para servo, tornaram-se amigos íntimos. Partilhou suas dificuldades, foi franco com suas dúvidas e sentimentos – por vezes até controversos. Foi fraco, foi homem, foi filho e foi irmão.

Viajaram juntos, percorreram toda a Galiléia e a Judéia. Dormiram no deserto, andaram milhas e milhas, comeram da mesma panela, partilharam o mesmo pão.

Em todos os momentos a fidelidade, o amor, o respeito, o serviço. A cada dia um aprendizado e uma experiência nova com o próprio Deus, em carne, osso e… barba.

Estava ali, ao seu lado, o Deus homem que se emociona, que chora, dá bronca, sorri e brinca. O Deus que perdoa satisfeito, cura enfermos, multiplica pães, fala às multidões e depois dorme exausto em seu barco sob a tempestade assustadora. Deus que nasceu menino, frágil e puro. E assim permaneceu.

Agora ele via o Deus vivo quase morto, sem carne, sem sangue e desfigurado. Cuspido, chutado e esmurrado, prestes a ser imolado como um Cordeiro, sem máculas, em seu lugar.

E todas as lembranças correm-lhe a mente num instante, como um filme, e acabam finalmente ali, ao vê-Lo acorrentado, sendo levado pelos guardas a pontapés e socos.

Segundos antes dessa lembrança, seus olhos haviam se cruzado pela última vez e tudo fez um sentido assustador. Ele sentiu-se consumido pelo amor de seu amigo fiel e seu ouvido abriu-se para ouvir um som distante ecoar pela madrugada: o galo cantou, pela terceira vez, ele cantou.

E então a “pedra” chorou e chorou. E clamou arrependida.

“Ainda que todos te abandonem, eu nunca te abandonarei” (Mateus 26:23). “Mas ele o negou diante de todos, dizendo: ‘Não sei do que você está falando’” (Mateus 26:70). “O galo cantou” (Mateus 26:74b). “E saindo dali, chorou amargamente” (Mateus 26:75b).

O silêncio

por Luiz Henrique Matos

O silêncio. Se tem algo na crucificação de Jesus que me espanta é o silêncio. É claro que dia após dia ainda me sinto comovido com todo o propósito de Seu sofrimento por nós e a salvação que há n’Ele. Mas esse fato (como Ele mesmo diria) já “está consumado” nos corações e na história. Mas o silêncio…

Porquê Ele não falou nada? Porquê sofreu quieto, sem reclamar ou se defender? Porquê não condenou aqueles pecadores que blasfemaram e não quiseram crer? E se ali, na cruz, Ele dissesse: “Estou aqui por causa de vocês, ingratos. Estou morrendo no seu lugar!” Isso mudaria alguma coisa? Ele deixaria de ser o Filho de Deus e Salvador da humanidade?

Mas preferiu sofrer quieto. Em Suas últimas horas neste mundo não pregou o arrependimento, nem falou de morte ou ressurreição, não realizou milagres e tampouco se defendeu. E tantos à sua volta o agrediam com palavras, socos, pontapés, chibatadas, pregos, cravos. Foi humilhado, não reagiu e todos que se diziam Seus amigos também não fizeram nada.

E nesse grupo, ainda hoje, estou eu. Estou entre os que Lhe prometeram fidelidade e fugiram ao menor sinal de perigo. Estou entre os que clamaram por sinais e milagres mas que no Sinédrio apontaram o dedo gritando: “Crucifica!”. Estou como o discípulo que afirmou que morreria em Seu lugar mas que em apenas uma noite foi capaz de negar Seu Mestre por três vezes e também estou como o outro discípulo que O entregou aos guardas, com um beijo na face, por algumas moedas prata. Estou entre os soldados que O torturaram, cuspiram e pregaram no madeiro. Estou entre os fariseus hipócritas.

Sim, sou um deles, cada um deles, com suas atitudes e razões, lutando contra os impulsos da minha carne e buscando acreditar na Verdade que agora se cala. O silêncio.

Ironicamente, o silêncio que disse tudo. O silêncio que expôs a dor, revelou o amor e ensinou Sua misericórdia. Silêncio rompido pela voz fraca e os lábios trêmulos que enfim disseram o que mais me dói o peito: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem”.

“Quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça. Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça; por suas feridas vocês foram curados” (1 Pedro 2:23-24).

Amigo de pecadores

por Luiz Henrique Matos

Ele ainda é amigo de pecadores. Ainda senta-se à mesa com os publicanos e circula por aí falando com mulheres samaritanas, prostitutas e adúlteras. Ele ainda chama revolucionários para serem discípulos e pescadores de peixes para fisgarem almas. Escolhe jumentos para o conduzirem em meio ao povo, ainda visita a casa daqueles que ninguém mais gosta e prefere a simplicidade à tradições vãs. Ele ainda cura, liberta e salva os homens que a sociedade coloca à margem de seu padrão.

Ele ainda conta histórias para entendermos as coisas grandes e sobrenaturais que enxerga com tanta clareza. Ainda nos alimenta com sua palavra renovadora e com pão e peixe multiplicados.

Ele ainda chora por seus amigos, ainda remove pedras, montanhas e até ressuscita mortos. Ele ainda tem esperança em sua criação rebelde.

Ele ainda sente o toque na orla de sua veste, sente o poder saindo de si e ainda se curva para os que o buscam com fé. Ele ainda faz barro para curar cegos, ainda seca árvores infrutíferas, ainda anda sobre as águas e acalma as tempestades que nos assustam.

E se tudo não tivesse acontecido, Ele ainda rasgaria os céus e romperia o tempo para se fazer carne entre nós. Ele ainda lavaria pés, partiria o pão e serviria o cálice. Ainda choraria sangue em sua oração derradeira, ainda apanharia, receberia os insultos. E ainda ficaria quieto. Ainda morreria a pior morte, morte de cruz, ainda viria ao mundo na plenitude dos tempos, nascido do ventre de uma graciosa virgem.

Ele ainda provaria a que veio, ainda diria a mesma mensagem, talvez por palavras diferentes, mas com a mesma intenção. Ele, sendo Deus, ainda viria, vivendo em homem, para mostrar a esse que é possível vencer, quando se está em Deus.

E ainda hoje Ele faz coisas loucas para confundir as sábias. Ainda anda ao lado do povo, serve os que não se prestam a tal. Ele ainda vem para os doentes, os pobres, os cansados. Ainda carrega fardos. Ele ainda entra nas portas abertas e convidativas.

Ele ainda dá seu reino às crianças e o nega aos maldosos. Mas ainda perdoa, perdoa incansavelmente até os que se cansam de tanto pecar.

Ele ainda é o Nazareno, é o carpinteiro, é o Verbo que se fez carne. Ele ainda é o Messias, é o Cordeiro Santo, é Deus conosco, Emanuel. É o Leão da tribo de Judá, é o grande Eu Sou, é Filho de Davi, Filho do Homem, é o ungido de Deus. Ele é Cristo, Jesus Cristo. Ele é o que morreu e ressuscitou, e para sempre reconhecido como Senhor e Salvador.

Ele é o mesmo, ontem, hoje e sempre. Ele não veio para os sãos, veio para os doentes. Ele não veio para santos, veio para pecadores. Ele não veio para dizer, mas deixou outros dizerem a que veio: veio porque “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16).

Ele veio para você.

Serviço de entrega

por Luiz Henrique Matos

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” (Fernando Pessoa).

Não costumo falar muito sobre evangelização. Para ser sincero, até sofro em saber que não sou muito eficiente na tentativa de levar Cristo às pessoas. Atrapalhado, começo tratando de princípios cristãos, passo por questões teológicas, divago a respeito da Criação e só então chego em pontos mais fáceis de se “digerir” como: salvação, perdão e (até que enfim) Jesus. Em geral, nesse momento, meu amigo já está a ponto de dormir. Sou um desastre, mas sinto-me confortado pelas Escrituras ao acreditar que estou “plantando a semente” e talvez encontre alguém por aí em que frutifique…

E sabendo de Seu favor gracioso, que filho não é inspirado pelo mandamento do “ide” que Ele deixou a todos? “Se Ele fez tudo isso pela humanidade, porque então nem todos sabem disso? Preciso fazer a minha parte!”. Esse é um pensamento correto e lógico, mas infelizmente não é tão comum.

Daí a estranheza de nosso gesto quando queremos ver alguém que amamos entregar seu coração a Cristo, ser salvo e ver a família crescer. Em geral, nossa principal atitude é convidar essa pessoa para ir à igreja, na esperança de que aquele ambiente com o qual estamos tão habituados seja instantaneamente um lugar familiar e agradável para ela. Como se cristianismo se passasse por osmose.

Na maioria dos casos, um indivíduo só aceita um convite para visitar uma igreja por insistência de algum conhecido crente (e por vezes, chato). E em maior parte, só procura uma igreja espontaneamente quando está na fossa. Como diz um amigo: “Acho que Deus mora no fundo de um poço. Porque todo mundo que vai para o fundo do poço, quando volta diz: ‘Encontrei Deus'”.

Mas assim como alguns procuram uma igreja nesses penosos momentos, outros milhares buscam preencher esse “vazio” com ídolos, misticismos, vícios e outras tantas “soluções” mundanas que são tão divulgadas hoje em dia. É até moderno ser místico, holístico ou crer em “algo diferente”. Agora, Jesus que é simples, prático e vivo, tornou-se “careta” para a nossa sociedade.

Atribui-se a Martinho Lutero a frase: “O homem nasce com um buraco no coração, que tem a medida exata de Deus”. Todos nascem com essa carência e muitos passam a vida procurando respostas, sem conseguir preencher esse espaço.

Pois Deus confiou aos Seus filhos a tarefa de transmitir Sua verdade e alcançar essas ovelhas perdidas. Ele não disse: “traga as pessoas para Jesus”, Ele ordenou: “Vá, pregue o Evangelho e faça discípulos. E os milagres que me viu realizar, também o acompanharão!” (Marcos 16, 15:18 – parafraseado). Nosso objetivo não deve ser o de conduzir pessoas a Jesus, mas justamente o contrário, precisamos levar Jesus às pessoas. E para “entregar” Jesus a alguém, precisamos primeiro nos entregar a Ele, diariamente, a cada instante.

“Pregue em todo o tempo, se necessário use palavras” (São Francisco de Assis).

Se o Senhor inspira o Seu coração em amor por alguém, mostre a essa pessoa o cristianismo. Mas não é o cristianismo dos livros, da teologia ou da igreja. Também não é o cristianismo do seu pastor, líder ou de um irmão experiente. Mostre a ela o verdadeiro motivo de você ser chamado “cristão”, deixe transbordar a presença de Deus que há em você.

Sendo tocada por esse amor de Cristo, ela vai querer conhecer qual é a fonte de onde nascem essas águas (vivas) da qual você bebe e vai sentir fome pelo alimento de bom cheiro que tem comido. E atraída por essa essência, poderá experimentar do amor incondicional de Deus sobre si.

Aí sim, você poderá ter o privilégio de abrir as grandes portas e chamar: “Venha meu irmão e seja bem vindo ao Reino eterno de nosso Pai”.

Sobre guerreiros e pigmeus

por Luiz Henrique Matos

(O texto abaixo tem como propósito ser uma analogia para a nossa postura dentro das comunidades e em nossa conduta cristã. Reconheço que pode soar um tanto preconceituoso quanto à questões físicas e étnicas de alguns povos, mas isso não condiz com a intenção real, que é sempre a de edificar a caminhada com Cristo – escrevo esse comentário depois do texto já divulgado em outros meios, obrigado ao Tonho pela observação).

* * *

Alguém disse certa vez, talvez um professor, que existe uma razão para alguns homens serem mais altos do que outros, a exemplo de algumas tribos africanas onde chegam a medir quase dois metros em contraste a certas comunidades de pigmeus, também africanos, que mal chegam a um metro e trinta.

Conta a história que no tempo em que nossos ancestrais começaram sua peregrinação pelo mundo, o macho tinha por função sair diariamente para a caça e trazer para casa o alimento que supriria a necessidade de sua família (eram tempos em que as geladeiras não existiam). Nessa jornada errante, algumas tribos foram viver em desertos e grandes planícies (no exemplo acima, é o caso dos africanos) e outras firmaram suas moradias nas florestas (os pigmeus).

Segundo a (provável) teoria do (também provável) professor, a caminhada por grandes campos e planícies criou em alguns homens a necessidade de ampliar o seu campo de visão diante de um horizonte tão longínquo. Essa necessidade, ao longo de anos e anos, gerou homens com biotipos mais altos e reconhecidos como grandes guerreiros e caçadores. E muito disso é por conta de sua excelente capacidade de visão e pela estatura.

Quanto aos pigmeus, cresceram em meio às florestas. Esse “habitat” sempre os impediu de ver mais do que alguns metros adiante e sua necessidade de visão limitava-se aos espaços e detalhes que os cercavam. Diante de tal cenário, seu corpo nunca foi dos mais avantajados. Enxergavam muito bem no estreito ambiente à sua volta mas eram facilmente atacados pelas feras quando expostos a um campo muito grande. A tática para não serem devorados era abaixar e se esconder, afim de passarem desapercebidos.

Hoje, as nossas igrejas estão cheias de “pigmeus”. Crescemos dentro de pequenos espaços e nos limitamos a olhar para os empecilhos que nos cercam, as lutas particulares, as dificuldades em nossas comunidades e nos esquecemos da “visão de Reino” que o Jesus nos deixou como tarefa. Precisamos passar mais tempo no deserto, encarar a planície e compreender que fomos criados para enxergar a partir de uma visão alta e global. Assim como Deus.

Quando deixarmos de olhar para os obstáculos de baixo para cima e os observarmos de cima para baixo, compreenderemos que os problemas não são afinal tão grandes. No momento em que lembrarmos que o mundo não é constituído apenas pela pequena floresta em que habitamos e suas dificuldades rotineiras, mas é na verdade uma enorme massa em movimento, saberemos então que essas tribulações são ínfimas diante do “todo”, que devemos ser guerreiros preparados para as batalhas e que afinal de contas, a Terra é redonda e quanto mais altos formos, mais longe enxergaremos.

Então veremos um mundo realmente grande. Veremos nossos irmãos sendo perseguidos de um lado, veremos a igreja carente de outro, os povos sofrendo por toda a parte, a sede de Cristo vindo daqueles que nem ao menos sabem que Ele veio. Entenderemos a necessidade e o valor de nossa intercessão, aprenderemos que a Terra não se resume ao nosso umbigo e enfim teremos implícitos em nossos corações o verdadeiro significado de expressões como: servir, amar ao próximo e crescer… crescer para ver longe.

“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque, assim como o céu é mais alto do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos” (Isaías 55:8-9).

Não fomos concebidos para viver perdidos em meio à floresta, sem visão, tropeçando em qualquer pedra que cruze o nosso caminho e nos escondendo das feras. Mas fomos feitos à semelhança de Deus para crescer e ter visão… visão do alto, visão ampla e plena, conscientes e batalhando pelas bênçãos e promessas que Deus sonhou para nós, todos nós.

Retratos e semelhanças

por Luiz Henrique Matos

“A glória de Deus é um ser humano em plenitude de vida” (Ireneu).

Fico a pensar por quais ruas ele andou, que caminhos trilhou, que vida levou desde aquele dia, sentado no banco da praça, com seus vinte e poucos anos, protegendo sob sua guarda a noiva que ostenta nos braços. Sei, tão pura e simplesmente, que hoje aquele jovem transformou-se em um pequeno senhor de poucos cabelos brancos que chamo por “meu vô” desde que me entendo por gente. Mas vê-lo no retrato com possivelmente a minha idade, abraçado à minha avó e juntos, sentados no banco da praça no interior, remete a imaginação a tempos em que eu não vivia, tempos sem os dezessete filhos que ele viria a ter.

Hoje, conheço e admiro – ainda que à distância fria e desgarrada de um neto adulto – sua bondade simples sem interesses ou jogos. Um homem que separa um tanto do alimento em seu prato para satisfazer a fome curiosa dos pássaros no quintal, que toca todo e qualquer inseto porta a fora a fim de poupa-los da morte iminente de um pisotear inimigo. Incapaz de maltratar, matar, enganar, seu único esforço é lutar contra a regra que o obriga a tomar pontualmente os remédios para o coração. Coração tão bom em espírito e essência, mas doente em seu aspecto físico e na aparência.

O homem muda na medida que os anos passam. Diz a piada que na velhice, voltamos a ser como quando bebês: carecas e banguelas. Mas assim como os anos transformam nossa aparência, também interferem em nossas emoções, pontos de vista e caráter. Mudamos não apenas fisicamente, mas também em nosso interior.

Vendo a foto do jovem na parede eu não diria que aquele é o vô e tampouco poderia concluir algo a respeito de sua personalidade. O retrato na parede mostra a imagem, o exterior, a aparência. Mas o convívio da vida revela o coração, o interior e a essência.

“Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gênesis 1:27).

Fomos planejados desde o princípio dos tempos pelo nosso Pai Criador. Antes de nascermos nesse mundo, fomos concebidos em Seu coração. Ali, Ele pensou em nossa aparência, nossa personalidade, nossos talentos, fez planos para nosso futuro e procurou neste planeta o casal com o código genético ideal para que pudéssemos existir.

Não tivemos escolha quanto isso, o maior e mais claro sinal de nossa insignificância global e dependência. Somos “apenas” Criação de Deus, formados para Sua glória e louvor. O nosso exterior Ele fez, entalhou como obra de arte, tomando como inspiração Sua própria imagem, fazendo de nós uma amostra refletida de Sua figura. E como estátua de barro esculpida e sem vida, soprou em nossas narinas o espírito e nos permitiu nascer, tal como quis, livres, inteligentes e… homens.

Concebidos à luz em alguma maternidade, viemos a este mundo. Ao longo dos anos aprendemos a falar, andar e pensar sozinhos, independentes de nossos pais e (infelizmente) independentes de nosso Pai.

Cada vez que caminhamos sem a orientação de Deus, seguimos justamente na direção contrária, estamos em pecado (“pecado” que originalmente no grego quer dizer “errar o alvo”) e longe de nosso verdadeiro abrigo que encontramos n’Ele.

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer?” (Jeremias 17:9).

Mas também disso Ele – onisciente – já sabia. E triste por nossa rebeldia, nos livrou dessa escravidão, lavando-nos novamente, dessa vez no doloroso derramar do precioso sangue de Seu Filho. E para que voltemos todos para casa, Ele pede: “nasça novamente” (João 3:3).

Nascemos uma primeira vez e à Sua imagem fomos criados, mas precisamos nascer novamente para à Sua semelhança ser moldados. Como o barro foi trabalhado e esculpido para chegar ao padrão de Sua arte prima como homem e receber o espírito da vida, Ele precisa entrar em nosso interior para, de dentro para fora, moldar o nosso coração em um modelo idêntico ao Seu. Temos a aparência de Deus e quando reconhecemos Seu sacrifício, começamos a ser transformados para ter também o Seu caráter, com o Espírito Santo habitando em nós.

Isso é conversão. Isso é uma nova vida em Cristo. Isso é ser… cristão.

Jesus diz: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo” (Apocalipse 3:20). Se você algum dia abriu essa porta, sabe o quão gratificante é ter Deus vivendo dentro de si, mas ao mesmo tempo e sabe também o quão doloroso é quando Seus instrumentos nos entalham por dentro, removendo o que é desnecessário, para que alcancemos a forma madura e perfeita que Ele um dia sonhou. Mas se você nunca permitiu uma fresta para aceitar esse convite, aconselho que faça-o agora e então você viverá dias de consolo, plenitude e sacrifícios, que o conduzirão ao crescimento pleno, à eternidade e ao colo de um Deus que você pode chamar de Papai. A todos nós, um banquete nos aguarda.

Renascidos em Cristo, somos o reflexo de Sua glória. Barros mudados à Sua semelhança e Filhos moldados à Sua essência. Antes criação, agora família.

E nascendo de novo, concebidos à luz da vida, seguiremos para além deste mundo. Ao longo dos anos aprenderemos a falar, andar e pensar em comunhão com Seu Espírito, independentes de nossos interesses e (felizmente) diariamente dependentes de nosso Pai, refletindo a Sua glória.

“E nós, todos os que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito” (2 Coríntios 3:18).

Aos olhos dos homens, dos anjos e do inferno, Seu Sebastião é aquele garoto da fotografia datada, conhecido pela aparência, trajes e traços. Uma imagem a ser julgada, ignorada e esquecida pois de fato, imagens não traduzem o coração. Aos olhos dos insetos e pássaros, é ele o bom velhinho que dá de comer, partilha o pão e protege dos perigosos predadores. O curioso é ver que pequenos seres irracionais o enxergam mais próximos do ponto de vista do Pai eterno do que os homens. Os insetos o vêem como é, pura e unicamente pelo transbordar de suas atitudes. Mas nós precisamos de um certificado eclesiástico, registrado em cartório e protocolado na igreja para só então concedermos o “valioso” título de: bondade.

Pecados? Certamente ele os tem, mas você e eu também temos e cabe ao Juiz eterno, somente a Ele, julgar o seu caminhar. A mim, cabe ama-lo, como neto e como próximo e olhar não para sua foto, mas para o seu coração e ver o exemplo antagônico do que eu sou: um coração regrado, com boa aparência e saudável em suas funções, mas doente em essência, precisando dos cuidados de meu Santo Criador, sentindo as dores de ser apertado, manuseado e refeito para que um dia eu possa ver os sonhos do Pai sendo realizados em mim.

O troco

por Luiz Henrique Matos e Emmanuelle Burci

“Não façais mal e o mal não existirá” (Leon Tolstói)

Assim como uma pequena chama na floresta pode se transformar em uma grande queimada, também um ressentimento guardado sem perdão pode, com o passar do tempo, tomar proporções gigantescas e destruir toda beleza naquela que antes era uma terra viva. O fogo mata o que antes era fértil, consumindo o verde reluzente e transformando-o em uma sequidão cinza. Para conter o fogo e impedir a destruição, é preciso esfriar a brasa e aprender a perdoar. Guardar ressentimentos só nos faz sofrer ver todo o resto de nossas emoções serem sugados.

Uma segunda opção lógica seria revidar o golpe e fazer justiça com as próprias mãos, mas nesse caso, como no exemplo acima, seria apagar o fogo com mais fogo, seria jogar lenha em uma fogueira. Quando se fazemos um contra-ataque deixamos a posição de vítima e nos igualamos ao agressor. A idéia racional que temos de justiça é dar ao “pecador” uma pena que lhe faça lembrar do sofrimento que causou, mas se fosse realmente esse um plano de Deus, estaríamos todos morrendo e pagando o preço de nossos pecados crucificados no Calvário.

Não precisamos morrer como Ele. De fato, isso aconteceu uma única vez, quando nosso Salvador o fez por todos nós. Mas devemos buscar viver como Ele, seguindo Seus passos e exemplo para vivermos em santidade.

Os primeiros seguidores de Cristo foram chamados pelo povo de ‘cristãos’ justamente porque se assemelhavam a Ele em sua postura e conduta (seria bom se em nossos dias, também fosse dessa forma). Agora, se Jesus não veio para condenar, mas para nos perdoar e libertar de nossos pecados, porque então nos damos o direito de julgar e condenar aqueles que nos magoam?

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra” (Mateus 5:38-39).

Você pode pensar: “Tudo isso parece muito fácil se fosse um simples tapa, mas e o gosto amargo de ser traído, violentado, perseguido e oprimido pela injustiça? Isso é doloroso!” Certamente, o peso cai sobre as costas e com esse fardo é difícil caminhar. Mas por todas as nossas dores Ele morreu e as Escrituras nos dizem que não há provação que Ele não tenha passado afim de nos capacitar a viver e passar por elas como Ele o fez.

E, além disso, Jesus diz que essa é uma condição do Pai para os Seus filhos e se você deseja ver os seus pecados perdoados então precisa perdoar os que pecaram contra você. Não lhe cabe decidir em que medida seu próximo merece ou não ser perdoado.

“Pois se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial também lhes perdoará. Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não lhes perdoará as ofensas” (Mateus 6:14-15 ênfase minha). “Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem também será usada para medir vocês” (Mateus 7:1-2).

Não se trata de diminuir o sofrimento que o abala, tampouco dizer que o que se passa em sua vida é fútil a ponto de ser esquecido em um sopro. Trata-se, porém de cristianismo e em nenhum momento Jesus falou que isso seria fácil. Como parte do esforço na jornada da fé, esse é mais um passo que precisa ser dado no estreito e penoso caminho. Mas lembre, ainda que não mereçamos, há uma recompensa viva e eterna brilhando como luz no fim deste túnel que conduz para o Pai.

“A lógica diz: ‘cerre os punhos’. Jesus diz: ‘Encha a bacia’. A lógica diz:’Esmurre o nariz dela’. Jesus diz: ‘lave-lhes os pés’. A lógica diz: ‘Ela não merece isso’. Jesus diz: ‘Isso mesmo, mas você também não’”. (Max Lucado no livro “Ouvindo Deus na Tormenta”, p. 58).

Coração novo

por Luiz Henrique Matos

Ah, seu eu não soubesse o que é amor e fosse ainda um ignorante, leigo a respeito da Palavra e livre para o pecado. Caminharia em minha inocência, errando, errante pelo mundo, seguiria escravo sem saber de quê, crente na falsa liberdade e abundante dos manjares da carne.

Ah, se Seu poder não me tivesse alcançado e meu coração cheio de sombras continuasse a não crer. Então eu não precisaria me arrepender, afinal nem saberia onde pequei, não deveria perdoar pois enfim me é prazeroso revidar o tapa que me ardeu a face e devolver com força a mentira, a traição e o ódio que preenche a alma.

Ah, se Ele não tivesse vindo, Sua história me passasse oculta e meu entendimento permanecesse alheio à Sua verdade. Eu seguiria em meu rumo cigano, amando a vaidade, louco e insano, cheio de estupor e maldades planejadas.

Ah, se esse mundo não fosse tão dividido e eu não precisasse tanto dessa porção, desse frasco, do carinho do Seu toque e o constrangimento de Teu amor. Poderia eu ficar sem pensar, dia e noite a cada instante, que daquele momento até então eu seria o mesmo, cego, perdido e sujo pecador.

Ah, Jesus, se não fosse o Teu sangue redentor. Minha vida continuaria tal, longe de esperanças, verdades e desse abraço, que me envolve, purifica e solta, para enfim conhecer a liberdade.

Ah, meu Deus obrigado, me livraste e lavaste do pecado, hoje sou limpo, novo homem em Ti nascido. Nenhum passo mais consigo dar na direção do que de Ti me afasta, pois na tábua de meu peito está gravada a verdade do Verbo Criador e arde forte a presença do Espírito, amado Consolador.

Pai, Hosana! Honra e glórias ao Senhor!

Vamos ao zoológico!

por Luiz Henrique Matos

“Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes” (1 Coríntios 1:27).

Nove feridos e seis mortos, esse é o saldo de mendigos agredidos em São Paulo, brutalmente atacados com pancadas na cabeça. Os atos aconteceram durante a madrugada e, segundo depoimentos de testemunhas, um indivíduo trajando roupas pretas fora o responsável pelos ataques a moradores de rua no centro da capital.

A polícia investiga, a população se indigna e os moradores de rua protestam. Já há anos eles protestam, mas nada se ouve, eles são mudos, nada se vê, eles são os seres invisíveis que “deletamos” em nossa rotina cotidiana da grande metrópole.

Agora sim, porque foram agredidos, as autoridades se interessam em abriga-los em albergues que sempre existiram, mas de portas fechadas aos “seres invisíveis”. Agora sim, a imprensa se comove em mostrar o rosto daqueles que por vergonha, medo e frio escondiam-se embaixo de papelões e jornais.

Acontece que tiramos a responsabilidade de nossas costas, com esse falso moralismo e encontramos um (possível) neonazista para incriminar. Ah sim, não somos todos nós os culpados, os corruptos e sonegadores, é ele, o skinhead maldito.

O curioso – e não menos trágico – dessa barbárie é que “morador de rua” na percepção da população e da imprensa, deixou de ser uma condição sub-humana de vida e passou a categoria social.

E nesses dias têm sido diferente, mendigos ganham quinze minutos de fama e são a nova atração de nosso zoológico de aberrações imundas e intocáveis. São os leprosos separados como resto, são a escória, a maldade inimiga que só ousamos enxergar através de um vidro: o que cobre nossos aparelhos televisores. Vidro que tal qual jornais e papelões, servem a nós como instrumento para encobrir a vergonha, o medo e o nojo em pensar que aquilo pode ser real. É real.

Mas agora… bem, agora eles são celebridades. Os “moradores de rua” se reúnem para fazer protesto, dão depoimentos na TV com direito a legenda informando: “Fulano de Tal, morador de rua”. Como se isso fosse uma preferência pessoal de habitat e não um sinal brutal de desigualdade.

Não impressionaria se em breve, miseráveis brasileiros que sobrevivem de forma precária em outras regiões de nosso país, abandonassem seus humildes barracos e passassem a migrar para São Paulo afim de tornarem-se “moradores de rua” na grande metrópole. Afinal, aqui sua voz ecoa com mais força, têm destaque nacional e a chance de aparecer na primeira página do jornal, página central de revista semanal e horário nobre da TV.

Será que realmente algo será feito? Certamente encontraremos um Zé Ninguém para culpar (nisso somos muito bons) mas, quando a onda passar, esses mendigos poderão um dia abandonar suas “casas” (sic!) e enfim fazerem parte de uma condição mais digna denominada apenas “moradores”?

“Estando Jesus em casa, foram comer com Jesus e seus discípulos muitos publicanos e pecadores. Vendo isto, os fariseus perguntaram aos discípulos dele: ‘Por que o mestre de vocês come com publicanos e pecadores?’ Ouvindo isso, Jesus disse: ‘Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Vão e aprendam o que significa isto: ‘Misericórdia quero, e não sacrifício’. Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores’”. (Mateus 9: 10-13).

“Eles também responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome ou com sede ou estrangeiro ou necessitado de roupas ou enfermo ou preso, e não te ajudamos?’ Ele responderá: ‘Digo-lhes a verdade: o que vocês deixaram de fazer a alguns destes mais pequeninos, também a mim deixaram de fazê-lo’. E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna” (Mateus 25:44-46).

Homens das cavernas

por Luiz Henrique Matos

“As cavernas não são o lugar oportuno para melhorar o estado de ânimo. Existe certa mesmice entre todas elas, não importa em quantas você tenha dormido. Escuras. Úmidas. Frias. Bolorentas. Uma caverna se torna pior ainda quando você é o seu único habitante…” (Gene Edwards no livro “Perfil de Três Reis”, p. 39).

Quem já esteve em uma caverna entende o que o autor quer dizer. Não há nada de aconchegante naquela rocha, são locais cheios de infiltrações, irregularidades, insetos em suas cavidades, um ambiente gélido e desconfortável. Algumas não têm mais do que poucos metros de profundidade, já outras são tão extensas que mal se pode chegar ao seu fim. Definitivamente, não são lugares onde um homem possa viver em paz. Exalam a solidão, exaltam os ruídos com ecos espantados rasgando o silêncio assustador e as frias trevas em seu interior não são estímulos para a paz de espírito.

Uma caverna não é um lugar para se estar sozinho.

Em uma rocha dessas, em Horebe, o profeta Elias descansou após caminhar, fugitivo, por quarenta dias e quarenta noites. Deprimido, sem esperanças e fora dos planos que Deus havia traçado para seu ministério, entrou naquele lugar, deitou e não queria se levantar (já tinha inclusive, pedido a Deus para que tirasse sua vida). Foi ali, deitado, que ouviu então o Senhor chama-lo e dizer: “Que fazes aqui Elias?” (1 Reis 19:9).

Uma caverna não é um bom lugar para se viver.

* * *

Mas existe um outro personagem, em uma outra história. É o causo do pequeno homem que foi ungido rei sobre Israel ainda jovem, mas durante quase 20 anos precisou fugir do rei vigente que tentava lhe tirar a vida. O jovem Davi então fugiu da lança de seu perseguidor e por anos buscou refúgio nas cavernas, várias delas, por todo o território de Israel e vizinhanças.

Havia porém um fato diferente naquela ocasião. As cavernas de Davi eram certamente as mesmas, tão frias e solitárias como a de Elias e qualquer outra que possamos visitar. Mas aquelas fendas pareciam feitas em uma rocha firme, aconchegante e abundante em paz. Não pelo seu estado físico, mas pelo poder renovador que a preenchia. Davi morava em cavernas comuns, mas abrigava-se na Rocha, que é o Senhor.

E foi Davi, habitando em cavernas, que escreveu os mais belos salmos que ainda hoje nos edificam e consolam quando nos sentimos tal qual Elias: “O Senhor é a minha rocha, a minha fortaleza e o meu libertador; o meu Deus, o meu rochedo, em quem me refúgio; o meu escudo, a força da minha salvação, e o meu alto refúgio” (Salmos 18:2).

Na Rocha Eterna nunca se está sozinho.

Eis uma boa nova: há um lugar seguro para nós. Quando nossos perseguidores parecem insaciáveis, quando nosso chão está prestes a ceder e o desespero sobe pelo nosso interior afligindo o coração que se aperta, há um lugar seguro: a Rocha na nossa Salvação. Ali, abrigados ao lado do Pai, sustentados por Sua mão poderosa, podemos encostar nossa cabeça e repousar nessa tranqüilidade inabalável.

“Confiai sempre no Senhor; porque o Senhor Deus é uma rocha eterna” (Isaías 26:4).

Abrigados na Rocha, esse é o melhor lugar para se viver. E a pedra angular – Jesus – nosso Salvador está a todo tempo com os braços abertos, prontos para nos acolher.

“Pois assim é dito na Escritura: ‘Eis que ponho em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa, e aquele que nela confia jamais será envergonhado’” (1 Pedro 2:6). “Este Jesus é á pedra que vocês, construtores, rejeitaram, e que se tornou a pedra angular” (Atos 4:11).

“Não vos assombreis, nem temais; porventura não vo-lo declarei há muito tempo, e não vo-lo anunciei? Vós sois as minhas testemunhas! Acaso há outro Deus além de mim? Não, não há Rocha; não conheço nenhuma” (Isaías 44:8).

Nome sujo

por Luiz Henrique Matos

Luiz Henrique de Oliveira Matos, é assim que fui batizado. Desde a gravidez de minha mãe, meus pais me tornaram conhecido aos parentes e amigos por este nome. Passados os anos, ainda não faço idéia da origem do título, me soa um tanto luso, pela semelhança e pelo parentesco, mas ora pois, não sei bem de onde vem.

Nesse aspecto, gosto de observar os hábitos dos antigos, que davam aos filhos nomes que de fato, tivessem algum significado. Assim faziam os índios, as tribos primatas e os hebreus. Consultando as Escrituras percebemos que cada nome tem o seu significado e esse tem ligação direta com a vida de seu dono.

A título de exemplo vemos que Abraão quer dizer ‘pai de muitos’, Assuero significa ‘homem poderoso’, Malaquias é ‘mensageiro do Senhor’, Jotão é ‘o Senhor é perfeito’ e Timóteo quer dizer ‘que honra a Deus’. São nomes muito bonitos, fortes e cheios de significados, mas que sinceramente, eu não daria a nenhum de meus filhos. Mas existem também os nomes cujos significados são tão pouco interessantes que nem precisariam ter um. Veja alguns exemplos e tente entender o que se passava na cabeça dos pais desses coitados: Esaú quer dizer ‘peludo’, Nabote é ‘frutas’, Finéas é ‘boca de serpente’ e Filipe se resume a ‘amante de cavalos’.

* * *

Hoje em dia, temos também a nossa preocupação com o nome. Não exatamente o significado, como faziam nossos antepassados, mas com o seu ‘valor’. Nosso nome é a propriedade que temos e pela qual zelamos. Um ‘nome sujo’ na praça pode significar o impedimento ao se abrir uma conta corrente, ao conseguir crédito para uma compra, a perda de propriedades e até a impossibilidade de se conseguir um emprego registrado.

O que caracteriza um nome sujo? Dividas.

Deixar de pagar um título e deixar voltar o cheque estão entre algumas das razões. Estar em dívida significa necessariamente estar em falta com alguém. E para ‘limpar o nome’ é preciso seguir alguns passos (muito mais complicados e lentos do que o que fizemos para suja-lo): Perceber que estamos errados e reparar o erro (pagar). Se não fizermos isso, nosso nome certamente constará no registro de inadimplentes e essa falta nos seguirá cada vez mais nos arquivos de órgãos financeiros privados e federais.

E uma dívida leva a outra. Para cobrir um rombo, faz-se outro na terra farta das financiadoras e então surgem sabe-se lá de onde, juros e mais juros a serem pagos e essa maldição perdura por tempos e tempos.

* * *

Há pouco mais de dois mil anos, toda a humanidade vivia em dívida. Um dia, lá no início, Adão estourou sua conta e pela primeira vez, desobedeceu a ‘regra’. E então, por séculos, toda a descendência do homem continuou a cometer infrações e prosseguir em errar, errar, errar e errar. Escravos de um devorador que nos mantinha presos às suas regras e estratégias destrutivas, afundamos no buraco negro sem qualquer chance de sair dali. Senão por um milagre!

Então, surpreendentemente, surgiu um homem, ou melhor, o Filho do Homem e pagou a nossa dívida – “Vocês foram comprados por alto preço” (1 Coríntios 6.20) – com seu sangue Ele nos livrou da escravidão da morte e nos libertou para a vida eterna. Ele limpou o nosso nome e de placa, o nosso coração.

E apesar do altíssimo preço pago Ele nada cobrou, mas ao contrário, o fez de graça. “E, se é pela graça, já não é mais pelas obras; se fosse, a graça já não seria graça” (Romanos 11.6). E graças a Deus, desde então é possível que nos cheguemos aos Seus pés e O adoremos por isso que fez.

Não quer dizer que somos filhos obedientes. Sem juízo, continuamos a errar e soltar aqui e ali os nossos ‘borrachudos’ e com isso, pecamos contra os mandamentos de Deus e formamos outras dívidas. Mas – oh glória! – Ele também pensou nisso e nos permite recobrar nosso crédito com um simples e único gesto: chegar a Ele e pedir perdão.

É com Ele, somente com Ele a nossa dívida. E o processo para ‘limpar o nosso nome’ não muda, devemos: reconhecer que erramos e deixar de pecar. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1.9).

Agora, uma pergunta: porquê é tão difícil reconhecer que erramos? A Bíblia descreve todos os erros e nos dá parâmetro para saber o que são pecados. Deus nos diz que seremos perdoados sempre que, de coração, nos arrependermos. E mais do que isso, diz também apagará esse pecado: “Sou eu, eu mesmo, aquele que apaga suas transgressões, por amor de mim, e que não se lembra mais de seus pecados” (Isaías 43.25).

As misericórdias do Senhor renovam-se a cada manhã, a cada nascer do dia, nasce também a graça, o poder e o amor eterno de Deus. Não precisamos fugir e desviar o olhar, mas prostrados, chegar diante dEle prontos para sermos apedrejados pela acusação maligna e ouvir Sua doce voz a dizer: “Nem eu também te condeno. Vai, e não peques mais” (João 8.11).

Tudo se cria

por Luiz Henrique Matos

(7º e último texto da série “Plantar e Colher – Princípios Bíblicos”)

O ser humano é um espécime engraçado. Somos os únicos dotados da capacidade de raciocinar, um privilégio dado por Deus, mas de certa forma – como tudo o que é de graça – desprezamos essa bênção com um escape um tanto esquisito. Alguns estudos revelam que o cérebro humano é capaz de adaptar-se facilmente a algo que chamamos de “rotina”. Ele é auto-suficiente para não nos fazer pensar muitas vezes na mesma coisa. Aquela sensação de que a cada ano os dias passam mais depressa ou a impressão estranha ao chegar em casa do trabalho e nem perceber o percurso que fizemos, trata-se de uma reação cerebral para não gastarmos novamente a mesma força, ou seja, se já fizemos algo outras tantas vezes, nosso cérebro otimiza suas funções e faz parecer que não as temos vivido.

Pois existe uma má notícia nisso: se cada vez mais os dias parecem “voar”, isso é sinal de que temos feito todos os dias a mesma coisa, sem repetição, sem novidades. Daí o fato de nossas férias parecerem ter dias mais longos do que o normal, nesse período temos experiências diferentes.

Em um artigo para o jornal O Estado de São Paulo, Airton Luiz Mendonça escreve sobre o assunto: “Não me entenda mal. A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos” … “Felizmente há um antídoto: Mude e Marque. Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos” … “Seja diferente”.

* * *

Infelizmente, isso não afeta somente nossa experiência individual. Nota-se também o mesmo “efeito” na vida a dois. Quando iniciamos um relacionamento afetivo, tudo parece novo, os filmes no cinema, os jantares, almoços, passeios, os primeiros gestos de carinho que um casal nunca esquece e se recorda eternamente, guardando cartas e recados amorosos. O momento em que se conhecem e interagem, a excitação do primeiro amor.

Mas temos em nós essa tendência e tal qual o cérebro, os relacionamentos começam a cair nessa “rotina” e o que no começo foram os momentos marcantes da vida a dois, agora tornam-se parte da mesmice diária, sem graça e cansativa. Por conta disso, muitos casais reclamam e discutem sem saber o que de fato mudou, ou melhor, não mudou. Por essa razão, as conversas cessam e os jantares cheios de descobertas e som de música clássica passam a ser silenciosos e acompanhados pela trilha sonora do telejornal. O aroma de perfume, o penteado impecável e a roupa nova dão lugar ao desodorante Avanço spray, barba mal feita e camiseta velha do time de futebol com autógrafo do ponta-esquerda.

* * *

Ainda falando em relacionamento. Você se lembra de sua última oração? Lembra-se das últimas palavras que trocou em sua conversa com Deus? Não se trata do “quando” mas “o quê” foi que você disse ao seu Pai.

No nosso relacionamento com Deus, passamos invariavelmente pelo impacto do “primeiro amor”, o arder da descoberta do Espírito Santo habitando em nós, o quebrantar pela Sua presença e pelo arrependimento, a emoção e ansiedade em conhecer mais de perto o nosso Jesus Salvador.

Mas o tempo passa e a rotina aparece. Acordar, orar, tomar café, trabalhar, comer, trabalhar, ver TV, orar e dormir. Dia após dia, domingo após domingo, transformamos esse relacionamento precioso em algo distante e frio. Armazenamos Deus em um pote fechado ao qual recorremos quando isso nos convém.

Um relacionamento entre duas pessoas que se amam. Não tenha dúvida de que assim como marido e esposa, pai e filho, irmão e irmão, o Pai e Seus filhos também compartilham esse sentimento, mas precisamos voltar ao primeiro amor. Ouvir a dura disciplina que nos alerta: “Contra você, porém, tenho isto: você abandonou o seu primeiro amor” (Apocalipse 2.4).

O Pai quer ouvir Seu filho chegar, deitar em Seu colo e ali abrir o coração sobre as coisas que lhe afligem, as que alegram, os pedidos de desculpa, os agradecimentos pelo presente da vida. Ele quer que ele reconheça Sua grandeza e poder, mas antes disso quer que eles O olhem e sintam o Seu carinho, Seu toque e o quanto Ele tem Se dedicado a mostrar o Seu amor. Ele quer nos ouvir falar, trabalhar em nossa causa e então responder: “Não tema, pois eu o resgatei; eu o chamei pelo nome; você é meu” (Isaías 43.1b).

A leitura das Escrituras unida a uma vida de oração e amor a Deus e ao próximo, nisso traduz-se a nossa essência. Não precisamos das regras, precisamos de amor, simples e verdadeiro amor. E a cada dia Ele se preocupa em nos mostrar esse amor, surpreendendo-nos com a providência do pão, com a misericórdia no perdão e a sustento de Sua proteção. Bênçãos, abundância e toque renovador, cada item da natureza terrena e celestial reflete a maravilhosa capacidade do Pai em criar e operar para o nosso bem.

Precisamos ser criativos e com dedicação e todo o coração, oferecer a Ele algo novo. Desejar verdadeiramente agrada-Lo, obedecendo aos Seus mandamentos e tendo compromisso com Sua palavra. Buscar a Deus pelo que Ele é e não pelo que faz. Seguir a afirmação de Lutero, que dizia: “Ser cristão para mim é olhar para Jesus Cristo e dizer: esse homem para mim é Deus”. Então começaremos a aprender o que de fato é adoração.

* Sementes para uma vida de criatividade em nosso relacionamento com o Pai – Suas orações têm sido fruto de momentos de intimidade com o Pai ou resumem-se a um gesto religioso? Inove em seu relacionamento com Ele, pense e dedique-se a fazer coisas novas para agrada-Lo. Ele certamente merece. Procure agradar a Deus com algo diferente, fugindo da rotina da religiosidade, dos dogmas, doutrinas e tradições que vivemos em nossas igrejas.

De propósito

por Luiz Henrique Matos

(6º texto da série “Plantar e Colher – Princípios Bíblicos”)

Noé tinha exatos seiscentos anos quando concluiu a construção da arca, cumpriu o seu propósito e viu cair a primeira gota de chuva sobre a Terra. Abraão tinha setenta e cinco anos quando Deus o mandou sair de sua casa e ir para um lugar distante, prometendo-lhe um filho com sua mulher estéril e a partir dele, uma descendência incontável como as estrelas do céu.

Davi foi ungido rei aos quinze anos de idade, mas teve que fugir e esconder-se por cerca de mais quinze até que fosse reconhecido e levado ao trono sobre Israel. Jesus nasceu entre os homens e aguardou por trinta anos até começar Seu ministério e então morrer na cruz para cumprir as 332 profecias ditas a seu respeito e salvar a humanidade. E Lázaro, bem, Lázaro esperou menos, foram “só” quatro dias, mas ele estava morto até que seu amigo Jesus chegasse e lhe desse a vida novamente.

Quanto tempo você tem esperado? Quanto tempo ainda vai esperar? Não é tarde, nunca é. Houve um rapaz, bandido, que no seu leito de morte, olhou para o lado e viu um barbudo que também morria. Olhando em seus olhos sentiu algo estranho, um arrepio talvez, e junto disso, um coração angustiado e arrependido. Então ele disse: “Jesus, lembra-te de mim quanto entrares no teu Reino” (Lucas 23, 42). E o barbudo que morria – Deus – o perdoou e salvou.

Davi escreveu certa vez: “Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção. Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir” (Salmo 139, 13-16).

E o mesmo Deus que criou o universo, a terra e tudo o que há aqui, criou também a mim e a você. E não criou à toa, aliás, Deus não faz nada à toa. Tudo tem o seu porquê, tudo tem o seu propósito.

Noé foi chamado louco e zombado por todos durante os cerca de noventa anos que passou construindo a arca, mas se não o tivesse feito, teria também sido consumido pelo dilúvio e toda a humanidade teria seu fim, inclusive seu descendente Abraão. E se Abraão não tivesse saído de sua casa e crido que Sara podia ficar grávida, não veria nascer o seu filho Isaque e séculos depois, desse mesmo fruto, o surgimento do povo judeu seria inviável e com isso tornaria-se impossível o nascimento de Davi.

E Davi… e se por um instante aquele adolescente franzino ignorasse as palavras de Deus e continuasse a passar a vida cuidando de suas ovelhas, teria certamente destruído todo o povo de Israel, impedindo o surgimento do reino. E se Davi não tivesse adulterado (quem imaginaria) com Bate-Seba, não nasceria o seu filho Salomão e dos descendentes dessa história, Jesus. E Jesus enfim, precisou morrer, para que você e eu, hoje, pudéssemos nos alegrar pela vida eterna que há nEle. Ah, e sem Jesus, é claro, o pobre Lázaro estaria naquela tumba para sempre.

Há um motivo nos acontecimentos, um encadeamento na história que só nos faz enxergar o resultado quando percorremos todo o trajeto. Mas existe, porém, algo comum nas vidas desses homens: Eles ouviram a voz de Deus. E mais do que ouvir, eles a obedeceram sabendo que havia para eles, um propósito.

* * *

E assim como tudo o que Deus faz, é também com um propósito que Ele te criou. Pense por um instante em Deus, todas as Suas ocupações, todas as orações que Lhe dirigem, as blasfêmias, as batalhas, a logística desse mundo. E ainda assim, Ele separou um tempo especial para parar, sonhar, sorrir e criar a sua vida. No coração do Pai, há um plano especial para o qual você foi moldado e que só você pode realizar. Ele sonhou com um objetivo para o mundo e nesse contexto Ele te inseriu.

E você também pode, desde já, passar a caminhar seguindo os sonhos de Deus e experimentando a abundância de vida que há nEle. Ou então, pode continuar nessa inércia e esperar o último respiro, em seu leito de morte, para reconhecer que deveria ter feito diferente e procurar o Salvador que lhe estenda a mão. Mas irmão, essa escolha Ele deixou em suas mãos.

Como na história de Noé, Abraão, Davi, Jesus e Lázaro, é visto que não há nada melhor do que ouvir a voz do Pai e saber a direção em que é preciso caminhar. E é isso que Ele quer que você faça. Ele quer lhe ouvir perguntando qual é a Sua vontade e espera feliz o momento certo de responder.

Deus te concebeu com um propósito de vida e hoje você tem uma escolha: pode se prostrar diante dEle e começar uma vida ativa de comunhão com o Pai, aprendendo dia após dia a ouvir e obedecer a Sua voz, sentir o toque do Seu poder, ver grandes planos se concretizarem e passar a viver os sonhos de Deus. Ou também pode escolher por esperar anos e anos por um chamado que parece nunca vir (mas como ouvir a voz de Deus se você não a conhece?), sentando em um banco de igreja e lendo esse texto em algum lugar.

O que lhe parece mais correto?

“Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Coríntios 2, 9).

Assim como Lázaro naquela tumba, você hoje pode estar morto no cumprir e realizar dos sonhos de Deus. Já há algum tempo que você morreu, até cheira mal pelos dias que se passaram e agora está em um buraco escuro tapado por uma grande pedra.

Mas enquanto você está preso, perdido em sua morte, Jesus chora do lado de fora, ordena que removam a pedra que o mantém preso e grita com poder e amor:

– Lázaro, venha para fora! (João 11, 43).

“Eis que estou a porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo” (Apocalipse 3, 20).

Sementes para um “propósito de vida” – Arrependa-se de uma vida acomodada, ore ao Senhor pedindo uma direção e diga a Ele, de coração, que quer viver os sonhos dEle para você. Experimente o melhor de Deus, tenha uma vida abundante e vitoriosa em Jesus Cristo.

Me dê motivos

por Luiz Henrique Matos

Afinal, porque Jesus nasceu? Pare um instante para pensar, qual o motivo de o Senhor ter nascido como homem e vivido 33 anos entre nós se, sendo Deus, poderia fazer uma breve “participação especial” na história da humanidade e resolver a questão da redenção de forma muito menos polêmica?

Qual a razão para Ele ter sido gerado em uma mulher, carregado por nove meses, nascido em um lugar sem condições apropriadas, fugir para o Egito, trabalhar como carpinteiro, esperar trinta anos para começar seu ministério, pregar por três anos apenas, ser perseguido e ainda sofrer tudo o que sofreu sem ter nenhum tipo de culpa, pecado ou necessidade?

Ele poderia, por exemplo, do alto de Sua glória, lá no céu, olhar para a humanidade, colocar Satanás em uma gaiola, furar a ponta do dedo com uma agulha e com aquela gota de sangue espremida, lavar todos os homens de seus pecados e nos dar a salvação. Nenhum trabalho, nenhum sofrimento, um preço razoável e tudo se resolveria.

Acho que é assim que eu agiria e acredito que alguns outros também (ou você colocaria seu filho para morrer na cruz no lugar de outra pessoa, que nem gosta de você?). Mas, Ele não. Ele é Deus, o Filho presente ao lado do Pai desde o princípio. Jesus participou da criação do universo e dos planos para conceber o homem à semelhança do Senhor. E sendo Ele a Palavra criadora, sabe exatamente como se comporta, como julga e como vive a Sua criação.

Deus sabia o que o homem esperava, Ele havia feito a promessa há tantos anos antes de vir. Homens de Deus profetizaram a vinda do Messias e os judeus esperavam (e alguns ainda esperam) o surgir do Cristo de forma sobrenatural, esplendorosa e prática, talvez como citei acima, mas com um cavalo branco, milhares de anjos voando e louvando e o som de um trovão em tons altíssimos.

Mas em Seu coração havia um propósito muito mais profundo. Como se diz na teologia, Jesus é 100% Deus e 100% homem. Para livrar o homem de todos os seus pecados e dores e tornar-se enfim o seu Salvador, Ele optou por viver como homem, ser tentado em TODOS as suas fraquezas e aflições e mostrar um exemplo vivo de como Ele espera que Seus filhos se comportem, de como Ele sonhou que ajam.

Nasceu como todos nós, viveu, trabalhou, pregou e morreu. Em tudo o que passou, Jesus sofreu mais do que qualquer um sofreria e venceu além do que pensávamos ser possível. Sendo Deus, não usou em momento algum de Sua deidade em benefício próprio.

“Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado” (Hebreus 4:15 ênfase minha). Você já foi tentado em tudo? Eu não.

Viveu e morreu como um de nós para que possamos compreender que se o Deus pôde ser homem e ainda assim vencer, então é possível que busquemos ser como Ele (veja bem, “ser como” Ele e não “ser” Ele). O escritor Max Lucado escreveu algo a respeito:

“Porquê? Por que Ele suportou todos estes sentimentos? Porque Ele sabia que você também os sentiria. Ele sabia que você sentiria cansaço, perturbação, sono, fome e raiva. Ele sabia que você sentiria dor. Se não dor corporal, a dor da alma… Dor muito aguda para qualquer droga. Ele sabia que você sentiria sede. Não só de água, mas sede da verdade, e a verdade que salta da imagem de um Cristo sedento é: Ele compreende” (no livro “Ele escolheu os cravos”, p. 89).

Saiba sempre de uma coisa: Deus te compreende. Quando tudo pesa e quando tudo é leve. Quando odeia e quando ama. Quando acerta e quando peca. Quando levanta e quando cai. Quando ri e quando chora. Em todo o tempo Ele entende e Ele ama. O amor de Deus não depende de nós, é incondicional. Não é uma troca, é graça. Nós só precisamos dizer: “Sim Jesus, eu creio”.

Foi por isso que Ele veio, para nos mostrar Seu sentimento, Sua misericórdia e fazer ecoar pela eternidade Seu brado, ainda que silencioso e refletido no gesto da crucificação enquanto exclama: “Eu te amo meu filho e fiz isso para tê-lo de volta em meus braços”.

Jumentologia

por Luiz Henrique Matos

(5º texto da série “Plantar e Colher – Princípios Bíblicos”)

Até agora estou desconcertado, meio eufórico, mas me conforto em saber que eu sou parte da promessa. Você pode ler na sua Bíblia, há claramente uma descrição a meu respeito em uma das profecias que fala do Cristo (Zacarias 9, 9). Mas para esclarecer os fatos, vou lhe contar um pouco de minha história…

Oxente! Eu estava lá, tocando minha vidinha em Betfagé, próximo a Jerusalém, sossegado, na minha. Sempre tranqüilo, ao lado de minha mãe naquela humilde cidade da Judéia. Mas aí um dia, as coisas mudaram para nós.

Chegaram dois homens e sem mais nem menos começaram a desamarrar mâínha e eu do poste onde estávamos presos. Já iam nos levando embora quando outros homens ali do vilarejo perguntaram onde iam aqueles cabras com dois jumentos que nem eram deles. Tiveram ali um dedo de prosa, chegaram em uma conclusão e finda a conversa continuaram levando a gente em direção à entrada da cidade.

“Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, ao Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: ‘Vão ao povoado que está adiante de vocês; logo encontrarão uma jumenta amarrada, com um jumentinho ao lado. Desamarrem-nos e tragam-nos para mim. Se alguém lhes perguntar algo, digam-lhe que o Senhor precisa deles e logo os enviará de volta'” (Mateus 21, 1-3).

Ali, na entradinha do vilarejo, estava aquele homem alto, forte e barbudo. Junto dele, mais doze cabras que o cercavam e serviam. Então pegaram a mãe e eu, jogaram umas mercadorias no lombo dela e o tal do Mestre (como eles chamavam o cabra forte e barbudo) subiu no meu lombo. Eu mal podia imaginar que enfim, o meu dia de fama estava começando.

“Os discípulos foram e fizeram como Jesus havia ordenado. Trouxeram a jumenta e o jumentinho, colocaram sobre eles os seus mantos, e sobre estes Jesus montou” (Mateus 21, 6-8).

Sendo sincero com você nessa minha autobiografia, sempre sonhei em ser um popstar sabe? Queria ficar famoso e brilhar no showbusiness aqui na minha terra, mas esse não era um lugar de grandes oportunidades para os jumentos. O povo nos recrimina, fala que não somos tão dignos, sei lá, acho tudo isso muito preconceituoso. Até usam nosso nome como artifício para denominar alguns humanos: “Seu jumento!” eu ouvia alguém gritar e logo pensava que era comigo, mas quando via, era alguém ganhando a glória pelos nossos feitos. Mas algum dia, ah algum dia, eu seria reconhecido e mudaria essa perspectiva!

Minha mãe contava a história de um ancestral nosso que era de uma linhagem nobre e até falou com os tais humanos. Êita! Veja só, disse para um cabra coisas que Deus precisava falar e o cabeça dura não ouvia. E olha que o hômi era profeta (mas pelo que ouvi, o tal do profeta Balaão era teimoso que nem um jumento!). Na Bíblia até tem um registro que fala disso (Números 22, 20-31).

Mas eu, Jujúmento de Israel, depois de tanto tempo no ostracismo, esquecido aqui nessa terra, já até achava que minha vida estava mesmo destinada a atividades operacionais e chatas e que de fato, eu nunca brilharia. Mas eis que aquele Mestre é usado para me dar essa glória. Naquele dia ele montou em mim e foi mostrando o caminho do estrelato enquanto dirigia para entrar na cidade.

Cheguei então à via principal daquele local. Via pessoas me cercando, abrindo caminho para eu passar e estendendo mantos e ramos de árvores para dar passagem ao Jujú aqui. Era tudo por minha causa, eu era a estrela brilhando naquele dia e o homem sentado nas minhas costas mostrava para toda aquela gente que um jumentinho pode enfim ser uma celebridade. Gritavam ali umas coisas estranhas: “Rosana! Rosana!” mas eu nem ligava muito (isso lá é nome de macho?) só desfilava com toda pompa e honra.

“Uma grande multidão estendeu seus mantos pelo caminho, outros cortavam ramos de árvores e os espalhavam pelo caminho. A multidão que ia adiante dele e os que o seguiam gritavam: ‘Hosana ao Filho de Davi! Bendito é aquele que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!'” (Mateus 21, 8-9).

E assim foi até chegarmos no centro da cidade. Aí o Mestre desceu do meu lombo, entrou no templo e fez um fuzuê lá dentro. Expulsou uns caras que vendiam coisas por ali, disse que aquela era a casa do Pai dele e que eles não deveriam fazer aquilo. Teve gente que gostou da atitude, mas um monte de cabra casca-grossa não achou nada bom e começou a perseguir o Mestre depois disso.

Eu só sei que tive meu momento de glória. Fui montado por um cabra muito do gente boa e tive meu nome escrito no livro mais publicado e vendido de toda a humanidade. Minha história está lá, para os meus descendentes lerem e lembrarem que jumento também tem seu valor e que eles também podem ser “instrumentos” nas mãos do Criador (sim, Ele também criou os jumentos ãra!).

“Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que vem a ti o teu rei; ele é justo e traz a salvação; ele é humilde e vem montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de jumenta” (Zacarias 9, 9).

* * *

Em suas atribuições sabemos que Deus é o único onipotente, onisciente e onipresente. Criou todas as coisas nessa terra, o tempo, as florestas, os homens e… os jumentos. Cada um de nós foi projetado por Deus para cumprir o Seu propósito e o que Deus sonhou para mim e para você são coisas exclusivas, que só nós poderemos fazer.

Mas há um inimigo muito audaz que pode impedir a concretização dos sonhos de Deus: a nossa carnalidade. Explícita na vaidade, na arrogância, na auto-suficiência, no rancor, na altivez e tantos outros frutos de nossa índole corrupta. O pecado é o que nos separa de Deus. Originalmente, em grego, “pecado” quer dizer “errar o alvo”, ou seja, errar o plano para o qual fomos criados.

Como o Jujúmento em seu texto, somos escolhidos e separados pelo Senhor como instrumentos para a Sua obra e temos todo o potencial e capacidade para cumprir esse chamado. Mas em nossa ignorância requeremos para nós mesmos uma glória que é dEle. Nos dispomos e nos alegramos em ser usados para levar Jesus ao encontro do povo, mas chegamos também a acreditar que o caminho aberto à frente e a celebração são de fato, para nós.

Precisamos aprender a ser mais jumentos e menos humanos em outro aspecto, o real: ter humildade para servir mais e brilhar menos. Carregar sobre nós Aquele que reina e deixar que com os nossos esforços diários e constantes Ele seja visto e adorado. A obra é dEle, nós somos dEle e tudo o que for feito por Ele através de nós, deve refletir a Sua santidade e honrar o Seu nome.

É necessário saber que Deus é Deus apesar de nós e Sua obra a de se cumprir. Precisamos deixar de ser teimosos tal qual jum… ops, Balaão e ser mais humildes como o ancestral de nosso amigo que falou com o profeta.

Sementes – Exerça sua humildade e coloque-se à disposição de Deus para servi-Lo independentemente de sua vontade. Ele quer subir em nossos lombos e ser visto pelos povos através de nossas vidas. Mas Deus não divide Sua glória com ninguém, por isso não queira brilhar ou ser aclamado pelo que faz. A honra é conseqüência de um trabalho feito com excelência, mas a glória e louvor devem ir para o nosso Deus, sempre.