A explosão da vida

por Henrique Matos

Vou ser pai. Minha esposa me fez ontem essa boa surpresa. Isso quer dizer que estamos afinal sendo presenteados com uma alegria que, admito, ainda não tem medida nesse meu coração mole.

É incrível pensar que dentro daquela barriga já existe uma pessoazinha, com menos de um centímetro, é verdade, mas com um coraçãozinho batendo. Existe uma vida ali e nada me faz duvidar de que essa explosão milagrosa não seja ação de um Deus perfeito e amoroso.

É igualmente maravilhoso – e até meio assustador – pensar que Deus confiará em nossas mãos a responsabilidade de criar um filho seu. Coisas assim que me fazem ter certeza de que a vida não é fruto do acaso, que cada ser humano é especialmente moldado em todas as suas características, que todos temos uma identidade única que nos diferencia e torna tão especiais.

Nesse instante existe um ser humano, ainda que uma coisinha sem forma, sendo moldado pelas mãos de Deus. E ele nascerá de minha esposa todo enrugado e mesmo assim vou acha-lo a coisa mais linda do mundo e já procurar algo em que tenha puxado o pai. E dormirá em um berço sob meu teto e me acordará de madrugada com um choro muito mais alto do que sua estatura mínima pode fazer acreditar. Quebrará boa parte dos cristais que preservamos por anos num móvel da sala e nos fará manter um estoque de copos de plástico mesmo para as refeições mais nobres. Me pedirá um vídeo-game de presente quando eu sonho em deixar uma coleção de livros. Me obrigará a trocar o canal da TV no meio de um decisivo jogo do tricolor para assistir algum desenho animado ultra-moderno que eu vou criticar e lamentar dizendo que na minha infância tudo era diferente. E ele consumirá mais fraldas do que jamais pensei existir numa prateleira de supermercado, terá mais brinquedos do que julgo necessário, perderá mais roupas do que o tempo que levam para gastar, trará uma bagunça desmedida para essa minha vida tão metódica… e, meu Deus, como estou grato por isso!

Bem, talvez essa seja mais uma experiência dessas que todos precisamos passar na vida. É possível – eu creio nisso de fato – que a paternidade seja a melhor das lições de Deus para que entendamos um pouco do sentimento que ele tem, como Pai, por seus filhos. Toda expectativa, os sonhos, a imaginação que voa longe tentando saber como e quem será esse indivíduo que é parte de nós. Gosto de imaginar – e acho que ele também – que essa nova vida terá seus próprios dons, personalidade, talentos, decisões e um propósito especial a cumprir.

Não, não acho que será fácil (e ninguém disse que seria), mas sei, de todo coração, que é o que mais desejamos nessa vida e que nossa esperança está nessa fé. E é nesse momento, tentando entender quais são as expectativas de Deus para essa criança, que voltamos a ser só um par de filhos necessitados, buscamos o colo do nosso Pai e pedimos um conselho diário para que nos ajude a ser o exemplo de caráter e vida que ele espera que sejamos.

Viver essa verdade com alegria, obedecer, ser e partilhar esse amor… com certeza, a única forma de podermos ensinar isso tudo da maneira certa.

“Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção. Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido com nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.” (Salmo 139: 13-16).

Cenas natalinas: O filho

por Luiz Henrique Matos

Olhando para aquele berço improvisado a mulher e seu marido observavam o fruto daqueles nove meses que se passaram. Deitada, ainda fraca e cansada pelo esforço do parto, a jovem tinha sono e tentava cobrir-se para proteger o corpo daquela madrugada fria. Tudo parecia um tanto confuso, mas agora ela era mãe e nada lhe parecia mais glorioso do que esse fato.

O homem trouxe-lhe a criança, um menino, que tomou sem jeito nos braços na tentativa de amamentar pela primeira vez. Um bebê tão frágil, os gestos curtos, o choro sufocado, os pequenos olhos que mal se abriam, tinha fome.

Ela olhava a criança de forma contemplativa. Sem desviar o olhar, sondou o marido que, de pé à frente, a observava cuidadoso. Seus olhares se cruzaram na cumplicidade do momento, em união por aquela nova vida. O que dizer? Era difícil acreditar, os dois sabiam. E foi sem querer que lhe escapou pelos lábios um pensamento. Num misto de dúvida e adoração a jovem Maria disse: “Esse é Deus…”.

A poucos quilômetros, não longe dali, em um campo de ovelhas próximo a Belém, os anjos se reuniam para cantar seu coro de louvor: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!”.

Para os pastores que ouviam a anunciação e a festa celestial, o Messias era nascido. Para aquele casal, milagrosamente seu filho viera ao mundo. Uma criança! “O que fazer?”, pensavam Maria e José. O que ensinaria uma camponesa pobre para o próprio Deus que saíra de seu ventre? Um menino…

“Maria, porém, guardava todas essas coisas e sobre elas refletia em seu coração” (Lucas 2:20).

* * *

E cresceu o nazareno nas terras da Galiléia, discreto, sem nada de especial em sua vida que merecesse algum relato. Ajudava o pai nos serviços da carpintaria. E por trinta anos foi assim. Tão homem, tão simples, pobre e até comum. Ele não era diferente dos outros jovens senão por sua bondade, simpatia e graça naturais. Tinha autoridade e era aplicado no estudo das Escrituras, gostava de todos, mas não havia nada do que um judeu esperaria do Messias naquele galileu.

Sim, é verdade, ele veio a operar milagres pouco tempo depois, curando enfermos, expulsando demônios, caminhando por sobre as águas e até multiplicando alimentos. Mas também ele mesmo disse que qualquer um daqueles que nele criam também seriam capazes de realiza-los.

Jesus, o Cristo. Sim, era totalmente Deus. Mas não viveu como tal. E era ele homem também, plenamente. E assim decidiu viver, pleno homem em seus sentimentos e dúvidas. Nas amizades, sentado à mesa, deitado em seu sono, prostrado em suas preces. Caminhava, trabalhava, vivia a vida como viveria qualquer outro judeu pobre daqueles dias. Anunciou seu propósito com a voz de sua própria garganta, tocou as pessoas com a palma das próprias mãos, sentiu o afago de seus amigos reclinado à mesa na noite da ceia.

E depois, no fim daquela jornada breve e marcante, na cruz, ele também foi homem. Sofreu mais do que poderíamos sofrer. Teve medo. Ali sentiu tudo quanto poderíamos passar. Teve sede. Teve forças para pedir ao fiel amigo que cuidasse de sua mãe, aquela que via seu filho padecer e talvez tenha se lembrado do pequeno bebê que concebera em Belém. Ele pagou um preço que jamais, jamais seremos capazes de honrar. Foi tentado, em tudo. Teve misericórdia de seus algozes. Foi condenado. Morreu Jesus, o homem e Deus, crucificado numa tarde de Páscoa em Jerusalém.

Mas venceu a morte, ressuscitou. Pagou nossa dívida, tomou-nos como propriedade sua e nos fez livres da vergonha, do erro, da dor. E agora livres, podemos servir, podemos adorar, amar e viver a vida plena, completa, eterna ao lado de nosso Deus, bom Pai, puro Mestre, Jesus.

Sobre isso, diria a verdade religiosa num cântico de nossos dias: “Morreu a nossa morte para vivermos a sua vida”. E disse também um grande homem de Deus de tempos mais antigos: “Ser cristão é olhar para Jesus e dizer: ‘Esse homem para mim é Deus!’”(Martinho Lutero).

“Porque Deus tanto amou o mundo que deu seu Filho Único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele.” (João 3:16-17).

A profecia de Dostoiévski

Ricardo Gondim escreve sobre o livro “Os irmãos Karamázov” de Fiodor Dostoiévski. É curioso notar como o escritor russo pôde escrever, em 1879, tão claramente sobre a realidade da igreja brasileira em nossos dias.

“O religioso ainda declara que Cristo cometera um monumental deslize ao recusar a oferta do Diabo de conquistar os reinos do mundo. Bastava que ele o adorasse por um instante e não haveria mais guerras, fomes ou injustiças no planeta. Os reinos pertenceriam a ele e a ordem estaria segura.

Ao ler Dostoiévski percebo tanto a universalidade como contemporaneidade de seu pensamento. A religião anda na contra-mão do ensino de Jesus quando promete um mundo sem percalços e sempre previsível. Quando “Os Irmãos Karamazov” foi escrito, essa teologia utilitária, que promete dourar a pílula da vida, ainda não se difundira tanto, mas foi amplamente denunciada. Jesus não quer ser amado pelo que dá, mas por quem ele é.”

 

Todo o texto no site do Ricardo Gondim.

Votar com fé eu vou

por Henrique Matos

A Copa do Mundo está tão em alta que ninguém lembra do que anda acontecendo cá por essas terras, mais especificamente em Brasília. No que cabe a esse “logradouro” virtual, os comentários sempre pairam – e “pairarão” – sobre a condição da igreja (e não do craque Ronaldo, como alguns gostariam).

É curioso e até assustador (mas nada surpreendente) que nesses dias de internet e massificação da mídia a pauta de nossas conversas esteja condicionada às manchetes de telejornais e websites. E como tal, já não falamos de política, de crimes, desastres da natureza ou qualquer outra coisa que não remeta ao “quarteto mágico”.

Pois bem, vou ser o chato da história então. Eis que, foi divulgado ontem o relatório final da CPI dos Bingos, que segundo a Folha de S. Paulo “investigou durante meses todo tipo de denúncia que surgiu contra o atual governo, como a suposta ligação entre o assassinato do prefeito Celso Daniel (PT) e o esquema de financiamento de campanhas; as possíveis irregularidades na Prefeitura de Ribeirão Preto durante a gestão de Antonio Palocci; a suposta doação de casas de bingo ou a remessa de dólares vindos de Cuba para a campanha de Lula, entre outros temas explosivos”.

E no que nos afeta, dentre os 79 nomes que deverão ser indiciados, pelo menos dois são de deputados que foram eleitos com seu primeiro-nome comum: Bispo. Entre os ditos está o tal Rodrigues (o bonitão aí da foto), que renunciou ao cargo depois de ser provada a sua participação no escândalo do Mensalão e agora também deve ser investigado em detalhes (esteve preso, inclusive) por sua marcante atuação no caso do superfaturamento de ambulâncias. Rodrigues e seus comparsas são membros da chamada “bancada dos evangélicos”.

Sim caros amigos, foram eleitos com o voto da gente simples, confiante de que os “hômi de Deus” os representariam com dignidade no Parlamento. Bem, visto está que não fazem seu trabalho. E ainda atrapalham, mancham a dignidade do povo, do país e da igreja.

Assim, acho que a denúncia tem valor para repensarmos neste ano eleitoral (sim, teremos eleições em 2006) se esses tantos que se dizem cristãos não estão apenas angariando votos entre um segmento de eleitores muito do inocente, esperançoso por ética e cheio de… boa fé.

P.S.: O relatório final da CPI dos Bingos, divulgado essa semana, está disponível no site do Senado: http://www.senado.gov.br/web/comissoes/ CPI/Bingos/RelFinalBingos.pdf. Antes que alguém se empolgue na leitura, lembro que o documento tem 1.430 páginas.

Pregadores da bola

por Henrique Matos

Foi essa a declaração do jogador Zé Roberto, meio-campo da nossa Seleção ao site GloboEsporte.com e à revista Veja na última semana: “É uma coisa em que penso, sim (virar pastor). Quem sabe depois do fim da carreira?”.

Com jeitão de rapper e aparência sisuda (mas de comportamento discreto), o desejo do rapaz tem seus méritos. Ele faz parte dos Atletas de Cristo, instituição bastante séria e respeitada. E a atitude dele parece muito sincera e apaixonada – e até mesmo coerente, pelo que segue na reportagem dizendo que a decisão não cabe apenas a ele.

Não tenho dúvidas de que serão muitas as portas abertas para um possível pregador com sua fama (e ainda muito mais se ganharmos o hexacampeonato), como também não tenho da quantidade de convites e explorações oportunistas de algumas comunidades sedentas pela audiência que um “convidado” como esse atrai para os cultos.

Mas a dúvida que me cerca é: teria ele talento e maturidade para ministrar e pastorear pessoas?

Essa é uma dificuldade na igreja brasileira (e não do jogador, coitado). Somos tão deslumbrados pela conversão de celebridades que qualquer uma delas que se apresente como cristã ganha logo um microfone e um título eclesiástico. Nada contra testemunhos, pelo contrário, são fonte de inspiração. Mas temo pela exposição exagerada sobre essas pessoas, que tal como qualquer outro “recém-nascido” no cristianismo, precisam de acompanhamento pastoral, estudo e discipulado.

Sobre ministérios e vocações, ainda acredito que podemos e devemos ser luz nesse mundo, usando como instrumentos os dons que nos foram confiados por Deus. Ah, seu eu jogasse bola como algum daqueles 23 convocados – o fato é que não jogo nem como o gândula – pregaria com os pés e não com essas mal-escritas frases.

E quanto ao Zé Roberto e seu desejo, espero sinceramente que esse irmão tenha com suas palavras o mesmo talento que tem com a bola.

Tempo de fazer amigos

Por Luiz Henrique Matos

Escrevo em meados de junho de 2006. Para os desavisados, estamos em ano e mês de Copa do Mundo, acontecendo agora na Alemanha. São trinta dias a cada quatro anos em que, confesso, a imensa maioria de meus interesses estão dirigidos ao futebol.

A Copa é a época em que exerço um certo domínio sobre o controle remoto da televisão de casa, o estoque de milhos para pipoca é renovado semanalmente e até as desacreditadas habilidades atléticas da Tunísia me soam encantadoras.

E nessa época, fãs de futebol tornam-se tanto ou mais religiosos do que os 99% de muçulmanos da Tunísia – povo que até onde me consta, não se preocupa tanto com sua seleção –, parando três vezes ao dia (horários dos jogos) e voltando-se para a Alemanha, a fim de reverenciar a bola, o gol, o futebol-arte e mesmo as bolhas nos pés do Ronaldinho.

E tanto tempo diante da televisão faz com que reparemos em peculiaridades que nada somam ao nosso acervo intelectual. Detalhes que vão desde os nomes dos patrocinadores nas placas à beira do campo até as letras e melodias dos hinos de cada um dos 32 países participantes. Dentre essas minúcias, uma me chamou atenção e até, vejam só, ajuda-me nessa mensagem. Li em todos os estádios, faixas com a expressão “Tempo de fazer amigos”, que vim a descobrir depois, foi a frase escolhida pelos organizadores para ser o tema do torneio.

Julguei interessante. E nos intervalos, sob influência nítida do clima futebolístico, pus-me a pensar que a dimensão dessa frase é maior do que pode parecer – bem como a filosofia do futebol e as analogias que lhe são possíveis. O fato que se defende é que apesar da competição, aquele é um ambiente para se “fazer amigos”. Mesmo com as diferenças raciais, culturais, lingüísticas ou geográficas, durante um mês aqueles atletas e torcedores esquecem o que os separa e concentram-se em um tema comum: a alegria do esporte.

E a realidade dessa ilustração acaba, de fato, acontecendo. Note a importância histórica de jogos como, por exemplo, Portugal x Angola, que até recentemente viviam na disputa de um regime de colonização, cuja liberdade custou-lhes violentas guerras e tempos de inimizade. Pois, vimos os jogos e a única disputa entre aqueles homens limitava-se às quatro linhas do campo, não de batalha mas de festa. O mesmo acontece em jogos/batalhas entre Alemanha x Polônia, França x Costa do Marfim e em um nível de maior tensão Croácia e Sérvia.

Um outro caso também por aí se conta, de que a delegação da Costa do Marfim, vivendo uma intensa guerra civil, conseguiu negociar um cessar fogo entre as partes, para que a celebração da classificação de sua seleção prosseguisse em paz. Sobre isso, veja abaixo o trecho de um artigo de Paul Laity, editor do London Review of Books para a revista National Geographic.

“Torcedores chegaram a dizer que só o futebol, não a política, poderia contribuir para o fim da guerra civil. Ao longo dos seis anos anteriores, os donos do poder na Costa do Marfim, originários do sul do país, haviam fomentado o ódio aos imigrantes e aos muçulmanos. No entanto, muitos dos melhores jogadores eram de famílias muçulmanas ou imigrantes e, com isso, a seleção de futebol virou um irresistível símbolo de união nacional. Após o desfile da vitória em Abidjan, o diretor da Federação de Futebol da Costa do Marfim lançou um apelo ao presidente Laurent Gbagbo: “Em nome dos jogadores, venho dizer ao senhor que o maior desejo deles é que nosso país acabe com suas divisões. Eles gostariam que essa vitória fosse um estímulo para a pacificação. Que este êxito sirva para nos unir de novo”. E os festejos nas ruas prosseguiram ainda por mais um dia.”

Por trinta dias, aquelas pessoas voltariam a falar a mesma língua, seriam a mesma raça, unida em sua torcida multicolorida nos estádios e nas ruas, na expectativa pura e simples de jogar.

“As diferenças que nos separam limitam-se a um ou dois pontos. Agora, se olharmos bem, nós concordamos em todos os outros aspectos. Então, se somos diferentes em tão pouco e iguais em tantas outras coisas, porque não deixamos de lado essas diferenças e não vivemos em comunhão?”.

Essa é uma frase que admiro e da qual sempre me lembro em certas ocasiões. E como são devidos os créditos, registro que foram ditas por Rui Luís Rodrigues. Rui é um especialista, mas não necessariamente da bola, e sim da Igreja, como pastor, pregador e estudioso.

E é sobre a igreja que essa frase nos fala. A igreja de Jesus Cristo com todas e muitas das suas diferenças, separações e denominações. A igreja que já não é uma rocha mas quase um plural de pedregulhos gastos, tantos são os estilos e características que teimam em defender e rotineiramente se multiplicar.

Costumo pensar: em troca de quê exatamente alimentamos essas rusgas? O que ganhamos com essas divergências tolas? Mas confesso que as questões apenas ecoam, não acham respostas. Acredito que se vivesse o sábio rei Salomão em nossos dias nós o veríamos exclamar seu jargão: “Ah, isso é vaidade! É correr atrás do vento”.

Penso também – e sou de pensar à toa – naquela oração de Jesus. Aquela, a única que ainda hoje não foi respondida e que me fazem desejar saber a razão: “A natureza divina que tu me deste eu reparti com eles a fim de que possam ser um, assim como tu e eu somos um. Eu estou unido com eles, e tu estás unido comigo, para que eles sejam completamente unidos, a fim de que o mundo saiba que me enviaste e que amas os meus seguidores como também me amas.” (João 17: 22-23 NTLH).

É evidente, portanto, que se como igreja desejamos levar o amor para esse mundo, precisamos ter uma única direção para levar as pessoas a Ele! Não, eu não falo de um só modelo ou estilo, nós precisamos respeitar as diferenças. Eu falo sim de uma única forma e visão, um reconhecimento de semelhança e proximidade familiar porque, afinal, nos dizemos todos discípulos de Jesus Cristo.

Se o futebol – como no caso da Costa do Marfim – tem o poder de amenizar guerras, porque não a igreja seria capaz de acabar com diferenças tão pequenas que a divide? Tudo não parece tão simples?

Mas eu reconheço, sou um sonhador… desses que acham possíveis coisas estranhas. E nesses “achismos”, já começo a me entusiasmar em pensar que estamos mesmo começando um novo tempo. Tempo de despertar para a realidade de que podemos ser amigos. Tempo em que poderemos ver a família de Cristo reunida numa mesa posta, sentada a partilhar do mesmo pão, ainda que seus costumes e hábitos sejam diferentes.

Sim, eu sinto e sonho com esses ares. Um novo tempo em que seremos amigos, ou melhor, viveremos essa verdade de que somos, de fato, todos irmãos. Olharemos para as diferenças que nos separam e veremos que elas são por demais pequenas, indignas dessa rivalidade que temos alimentado.

Mas mais do que boa vontade, para se fazer amigos é preciso compreensão. Para se viver como irmãos é condicional que todos entendam a mesma língua, ainda que não se fale nada, porque entre irmãos é assim, não é preciso falar muito, basta que se goste, respeite as opiniões e queira fazer bem ao outro. E preciso dizer: eu acredito nesse tempo, eu oro por ele com fé e esperança de vê-lo edificado.

E ainda que eu esteja errado e esse sonho não tenha começado a se construir, acabo achando que podemos ao menos concordar, aqui entre nós, você e eu, e fazer o esforço para que um novo tempo comece. Um tempo em que a Igreja poderá tirar os olhos de sua religiosidade e os dirija, em amor, para as pessoas. Um tempo de trazer novos irmãos e por que não, espelhados no tema esportivo, fazer bons amigos.

Antes que precisemos clamar ao futebol para salvar também a igreja.

“A religião que Deus nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e manter-se incontaminado pelo mundo.” (Tiago 1:27 NVI).

Coração peregrino

por Luiz Henrique Matos

Movido uma vez mais por suas emoções, o Coração saiu em busca dos Sentimentos que há muito lhe eram ausentes. Estava perdido e queria voltar para casa. Sentia falta das coisas que o faziam pleno, cheio de si, dono de tantas das decisões de seu dono. Fraco e sem rumo, o Coração partiu.

Longe de seu eixo, andou por muitas terras antes de se perder. Embrenhou-se pela Razão, enveredou em caminhos de Tristeza, Vazio, Sombras, Altivez e Sequidão. Sem sua força vital, tornou-se o Coração companheiro do Egoísta, da Solidão e aliou-se à Incredulidade. O Coração pródigo era seco sem os Sentimentos vitais.

Mas cansou-se da vida errante e naquele dia saiu em busca do que lhe preenchesse. Peregrino, resistente a sol e chuva, a alegria e dor, em vales e montes, em jornadas distantes. Alheio ao tempo circunstancial e às dificuldades, trilhou confiante seu destino, à procura do Norte, em busca do alvo que errara tantas vezes.

Andou pelo Vale da Dúvida, caminhou só durante as noites. Sentiu fome, sede, frio. Tropeçou em indecisões diante das estradas que se lhe exibiam, abriu trilha na mata já fechada de um caminho quase sem volta. Encarou de frente a morte durante a Escuridão, viu a luz que esforçava-se por raiar entre as nuvens e chegando afinal o sol, seguiu em confiantes passos.

E meses a seguir, venceu enfim o Coração. Chegou numa manhã de outono à sua morada, o Lar da Graça, encontrou o abrigo merecido dos que perseveram, colheu no quintal o bom fruto dos que se arrependeram e semearam justiça. Sorriu uma vez mais e para sempre. Encheu-se novamente dos Sentimentos que buscara, da Salvação que carecia e era agora pleno na presença de Honra, Respeito, Misericórdia, Fé, Bondade e tantos desses irmãos de quem há tanto tempo desgarrara.

Renovado, entrou finalmente o Coração em seus aposentos mais íntimos e encontrou à sua espera a Fidelidade, com quem desfrutou a vida e a quem prometeu e dedicou seu tesouro, o Amor. Estava novamente seguro o Coração, estava em Deus, de uma vez por todas abrigado nas Terras de Paz Eterna.

“Como são felizes os que habitam em tua casa; louvam-te sem cessar. Como são felizes os que em ti encontram a sua força, e os que são peregrinos de coração. Ao passarem pelo vale de lágrimas, fazem dele um lugar de fontes; as chuvas de outono também o enchem de bênçãos, prosseguem o caminho de força em força, até que cada um se apresente a Deus em Sião.” (Salmo 84:4-7).

À procura

por Luiz Henrique Matos

É meio de tarde, é verão, nesse instante estou sozinho em uma casa. Inquieto com tantas coisas, resolvi separar alguns minutos para refletir no silêncio, ouvir os detalhes, acalmar o espírito ultimamente tão agitado.

No primeiro instante ouvi o canto dos pássaros que brincavam no quintal, sorrateiros, voando baixo rente à grama, passaram como o vento e partiram lá para ao longe. E foi só, desde então reina o silêncio, o calor e minha inquietude teimosa. Rompida somente, tempos depois, pelo zumbido chatíssimo de uma mosca que se atreve a invadir a sala e, imitando os pássaros, voar baixo rente ao meu ouvido que se irrita e incomoda e coça e se enche. Vai e volta a mosca barulhenta e eu já não acho boa a idéia desse silêncio contemplativo…

Achei, no início desse fim de semana prolongado, que o simples fugir da cidade grande para o campo, me faria desligar das tantas coisas do dia a dia, do trabalho, da vida. Eu queria é me esvaziar um pouco de mim mesmo e viver um tiquinho vazio, renovado, ser abastecido de paz, de Deus.

Descobri, para minha frustração, que não são trezentos quilômetros interior adentro pelo Estado que me levarão ao sonhado objetivo. Descobri, sem querer que fosse assim, que me forçar a dez minutos de silêncio não fariam com que meu espírito fosse renovado. Não, a essência do que desejo não se compra por encomenda, não se vende em “fast-foods”.

Essa paz, longe do que desejei, está sim por perto, quase ao alcance das mãos, não fosse ela tão discreta e impossível de se apanhar. É ela, pois que nos apanha, faz surpresa, nos envolve, quando nos pega assim desprevenidos, despreocupados, entregues. Descobri aqui nessa sala, que ao contrário do que procurei a tantos quilômetros distante de casa, precisava (preciso) eu é de uma viagem curta, simples, sincera, para dentro de mim, eu.

Parei então de forçar o que não se toma pela brutalidade e resolvi sentar para ler um pouco, deixar o corpo ceder, a mente aquietar e o coração sem muros para se romper. Vim aqui para esse teclado digitar, contar do que me passa, me esvaziar.

E descobri aqui que de assalto fui num instante tomado, pela graça, pelo amor, pela verdade de algo muito simples: Deus está em toda parte. E, opa lá, se quero ter a Sua paz, preciso eu estar em Deus.

O que é “estar em Deus” senão viver consciente de tudo aquilo que Ele mesmo é. E Deus é amor, é justiça, é poder, é carinho, é misericórdia, é vida, é paz, é bom, é Pai, é sabedoria, é tanto e tão tudo que breves linhas não descrevem, palavras não resumem, corações não compreendem. Mas é Deus e feliz estou por saber que só n’Ele sou realmente o que sou.

Quisera eu ser sábio para nunca disso me esquecer – eu me conheço nos amanhãs. Quisera ter eu essa verdade impressa no coração para em todo o tempo em meu Deus estar, cheio, transbordante, vivendo às margens de Sua sombra.

Mas espere, eu li e leio aqui, noutro pequeno trecho, e vejo o que tanto quero e ouço a doce voz da Sabedoria divina, que nos chama:

“Amo os que me amam, e quem me procura me encontra. Comigo estão riquezas e honra, prosperidade e justiça duradouras. Meu fruto é melhor do que o ouro, do que o ouro puro; o que ofereço é superior à prata escolhida. Ando pelo caminho da retidão, pelas veredas da justiça, concedendo riqueza aos que me amam e enchendo os seus tesouros” (Provérbios 8:17-21).

Visões

por Henrique Matos

Vejo o mundo, os céus, os animais. Sinto o vento.
E quando penso em tua grandeza, eu me espanto,
Por saber que um Deus tão grande, pode ainda ser tão próximo.

Vejo o passado, olho para trás, meus erros, pecados. Minha libertação.
E quando penso em teu amor, eu me constranjo,
Por saber que apesar do que sou e faço, Pai, ainda sou abrigado em teus braços nas manhãs.

Vejo a cruz, olho tua grandeza, sinto teu amor. Te vejo sofrer.
E quando penso em tuas razões, eu me arrependo,
Por saber que um Deus tão homem, foi capaz de viver puro e sofrer a pena em meu lugar.

Tiro ao alvo

por Luiz Henrique Matos

Nunca fui bom com alvos. Não, eu não falo de minha mira, flechas ou pontaria – com isso eu também não sou lá um Robin Hood, mas o caso aqui é outro – sou ruim em estabelecer metas pessoais. No começo, achava que programar em janeiro todos os planos que cumpriria até dezembro seria mais outra maneira de incluir regras no meu já metódico – e involuntário – estilo de vida.

Vejo com admiração os amigos que hoje, fim do primeiro mês, já determinaram os tópicos pelos quais dedicarão tempo, empenho, dinheiro e, principalmente, orações ao longo do ano. Sim, cada alvo precisa ser algo “trabalhado”, corretamente pedido e entregue a Deus com perseverança e fé.

Neste ano eu desejo, sinceramente, fazer diferente. Pretendo repetir o que fiz uma vez há alguns anos e anotar em uma folha arrancada de caderno quais são os meus projetos pessoais, profissionais e espirituais para esses onze meses que ainda me restam.

Fica evidente, portanto, que meu primeiro e prioritário objetivo para o ano é: estabelecer alvos!

E já começo a sonhar. Penso nas orações que farei buscando uma vida maior de dedicação a Deus, com mais relacionamento e menos religiosidade. Desejo ser promovido no meu trabalho, ler mais livros, ler toda a Bíblia durante o ano. Quero realizar minha esposa e fazê-la tão feliz quanto possa sonhar. Quero ter um filho, um não, dois, um casal de gêmeos! Desejo escrever um livro infantil, quero também um dicionário, desses grandes, para encontrar sinônimos enquanto escrevo, quero ver meus amigos e familiares mais próximos de Deus. Preciso estar mais perto dos meus velhos amigos, contribuir com mais obras sociais, ter disciplina nesse meu ministério, melhorar minha postura. Este ano, deverei comer menos pizzas e mais verduras…

De fato, preciso é colocar ordem nisso tudo e estabelecer algumas prioridades. Preciso dividir quais são os alvos pelos quais devo orar, em quais me empenhar e os outros tantos que são pura falta de vergonha na cara.

Ah, eu quero aprender inglês! I’m sorry, quase me esqueci.

Agora, sendo alguém sem experiência nessa história toda de metas, alvos, planos ou seja qual for o nome que se dê para isso, não sei bem se é bom ou ruim, mas pessoalmente, vejo-me realizado em cada um desses pontos. De certa forma, sinto que vou consegui-los e não concebo a idéia de passar por esses dias sem fazer a colheita desses frutos. Foi Paul Yong Sho quem certa vez disse algo como: “Me diga o que você vê e eu te direi onde você irá chegar”. Pois então, estou errado?

Viajar mais! Tirar férias! Estão aí outros planos que esqueci de relacionar no devido parágrafo (talvez eu precise dedicar também um tempo para pedir por uma memória melhor…). Preciso pedir menos.

E por falar em pedir, isso me leva a dispersar noutro pensamento. A questão que debato, cá com meus botões (sempre eles) é: se estou pedindo é porque reconheço primeiramente que a realização ou não de tais planos não dependem somente de mim, mas antes, da providência do meu Deus, certo? Certo – os botões não respondem então eu mesmo concluo – Como então posso ter tanta certeza de que meus desejos são também os de Deus para mim?

E se Deus, estando lá em cima, como Deus deve estar, vendo meus tropeços e dúvidas, conhecendo-me melhor do que eu mesmo e tendo os sonhos de um pai para seu filho… e se Ele sabe que alguns desses pedidos não serão bons? Que o melhor para mim não está na realização desses planos e sim em algo que desconheço?

Estou pronto para ouvir um “não” como resposta? Não sei – respondo sem ao menos consultar os botões.

Acaso Deus, será “menos Deus” se não realizar as minhas vontades? É evidente que não, afinal, como um cristão, reconheço que não são os meus desejos que devo buscar, mas antes de tudo, procurar quais são os bons sonhos e planos que Ele tem. Mas, na prática, aceitarei isso com tanta racionalidade?

Meus botões se calam.

Então pergunto: e você?

Voltando um bocado nesse raciocínio, preciso dizer que ainda acho que os alvos são importantes, ótimos para direcionar, disciplinar e, no meu caso, ajudar a enxergar que muito do que tanto quero depende tão somente de um simples passo meu. Mas temo que essas metas, encaradas da maneira errada, nos afastem da submissão, da entrega e até mesmo da espontaneidade da vida, do acordar sem ter que se preocupar, do improviso de cada dia, da falta do que fazer nos dias de domingo.

Doutrinar nossas realizações pode nos deixar preocupados demais, nos levar a uma visão limitada a sentimentos egocêntricos. Pode nos impedir de seguir as palavras de Jesus e compreender que não devemos “andar ansiosos pela nossa vida, quanto ao que haveremos de comer ou beber” […] “pois é a vida mais do que alimento”. Precisamos, por algumas vezes, ser assim como as ervas são no campo e os pássaros a voar, despreocupados, despretensiosos e cheios de beleza e ação de Deus.

Em uma de suas cartas, Paulo relata o drama pessoal de conviver com o que chamou de “espinho na carne”. Uma enfermidade, uma dor, um mensageiro de Satanás como ele chegou a dizer. E conta ali que por três vezes orou a Deus para que o livrasse daquilo. E conta também o que ouviu do Pai como resposta:

“Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. E ali mesmo, linhas abaixo, o apóstolo conclui o seu raciocínio: “Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angustias. Pois, quando sou fraco é que sou forte”. E ele compreende então que mesmo as dores que sentia, eram provações que o fariam crescer e vir a ser o homem que tanto pedia para tornar-se.

Eu confesso, oro por bobagens. Veja você cada um dos alvos que consegui lembrar nesse momento para escrever aqui e notará – como eu mesmo só o fiz agora – que não tenho pedidos angustiados, necessidades, dores a serem curadas. É claro que tenho outros sonhos, tão pessoais e íntimos, entre o Pai e eu. São como tantos desses que você mesmo também deve ter. Vontades, planos, um chamado, as dúvidas, os anseios, vergonhas, os medos tão escondidos que às vezes até tem receio de coloca-los para fora. Não tenha.

Às vezes, pediremos e não seremos atendidos, faremos planos e terminaremos frustrados, nos sentiremos sozinhos durante a caminhada. Nessas horas talvez seja bom entender que na vulnerabilidade da dúvida, podemos provar nossa fé. Que no desapontamento de ver um sonho não realizado, conseguimos ser fiéis a Deus. E que apesar de tudo e de tantas coisas, Ele nunca muda, é o mesmo – cheio de amor, perdão, paz, justiça, verdade, carinho, sonhos, bondade… – ontem, hoje e sempre.

“Ao homem pertencem os planos do coração, mas do Senhor vem a resposta da língua. Todos os caminhos do homem lhe parecem puros, mas o Senhor avalia o espírito. Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem sucedidos.” (Provérbios 16:1-3).

Desaniversário

Por Henrique Matos

Imagine só você essa história, coisa dessas absurdas mesmo. Suponha, só por alguns parágrafos, que no fim de semana que chega seja o seu aniversário. Toda expectativa, os preparativos e desde há cerca de um mês, já comentam as pessoas sobre a data. Você afinal, é uma grande personalidade, respeitado por suas idéias e gestos tão nobres, e todos os seus amigos já sabem, só pelo clima, que o esperado dia se aproxima.

De repente assim, você se lembra do que lhe contam sobre o dia do seu nascimento, quando de longe, amigos da família trouxeram belos presentes em sua homenagem. Você está também empolgado com essa atmosfera festiva que o cerca e, pelo burburinho das cozinhas e salas de estar, parece que um grande evento se fará.

Seu aniversário é, afinal, a data escolhida por muitos dos que o conhecem para se confraternizar. É o dia, talvez o único, em que boa parte das famílias se reúnem, sentam à mesa e celebram. Elas brindam ao amor, à verdade, à paz, à justiça, o ano que passou. Brindam também o dia do seu nascimento.

Bem, guardando as devidas proporções, é um aniversário como qualquer outro que se faz por aí todos os dias, tantos dos anos.

Observando a movimentação, você se prepara para a festa, toma um banho longo, veste sua melhor roupa, quer receber e se alegrar com aqueles que o amam, quer ver os presentes que ganhou, quer viver um dia, só esse, sabendo das coisas boas que pensam a seu respeito.

Espere. Deixemos um instante de narrar (e imaginar) e observe a cena. Sim, abra a janela dessa sala, deixe a luz do dia entrar e veja: os convidados já estão vindo. Assim como veio tão rápido, e já chegou, o grande dia.

Veja as famílias, sim, elas estão juntas! Olhe ali os belos pratos, frutas da estação, sucos, vinho, bolos recheados com nozes e doce de leite, balas e confeitos especiais, um lombo bem assado… Cuidado, não deixe a fome dispersar a imagem. Veja também os presentes que trazem nas mãos, são tantos, em belos embrulhos. Haverá grande festa nesse seu dia.

Mas, a medida que se aproximam, pode-se notar que estão todos mudando de caminho. Ei, eles saíram da direção! Nada de tudo aquilo é para você de fato. E também não é para algum dos seus pequeninos amigos e familiares. É, pelo visto, para uso e lazer dos próprios convidados. Carregam para si os presentes.

Ora, que aniversário é esse – pensa você e, agora que vi, eu também – em que as pessoas festejam na ausência do aniversariante? Em que compram presentes para agradar a si próprias? Em que se celebra a data tão esperada, mas pouco se fala no festejado anfitrião?

Que Natal é esse, afinal, em que as famílias se reúnem para celebrar um nascimento, mas esquecem de convidar e homenagear ao Pai e seu tão amado Filho, justamente na data que marcamos como símbolo de sua vida entre nós?

“Eis que de súbito apareceu entre eles um anjo, e o campo ficou iluminado com a glória do Senhor. Sentiram muito medo, mas o anjo sossegou-os: Não tenham medo; trago-vos a notícia mais feliz e que se destina a toda a gente! Esta noite, em Belém, a cidade de Davi, nasceu o Salvador – sim, o Cristo, o Senhor.” (Lucas 2:9-11 – na versão “O Livro”).

Vestindo a camisa

Por Henrique Matos

Dia desses foi meu aniversário. Teve festa, família, bolo, amigos e tantas dessas coisas que só acontecem uma vez no ano e que, particularmente, aprecio muito. De minha esposa – a quem pedi que não me desse nada (ainda que sempre esperando receber algo) – ganhei um presentão que me alegrou demais: a camisa oficial do time para o qual eu torço.

Estávamos os dois na cozinha de casa quando tive a surpresa. “Uma prova do meu amor”, disse-me ela, que de fato, gosta tanto de futebol quanto eu gosto de brócolis (ou brócolos, como aprendi outro dia) e, sendo assim, posso imaginar o seu tormento, pobrezinha.

É certo que ela me imaginou um tanto mais magro quando fez a compra (talvez pelo antigo manequim da solteirice). Experimentei a camisa apertada e tive o desagrado de ver o seu tecido modelando minha circunférica silhueta. Mais triste então, foi notar no espelho o brasão do time ser distorcido pela minha barriga.

Mas sim, seu gesto prova uma boa dose de seu amor, capaz de superar essa minha tão típica, masculina e inexplicável mania. Pois é o futebol essa “caixinha de surpresas” (por favor entenda, eu precisava usar o jargão), até mesmo para um par de pernas quase nada habilidosas como as minhas (e o “quase” ainda é muito).

“Só não saia comigo vestindo ela, pode ser?”. Eu disse um “não” animado, eufórico com o presente novo, mas agora, passados alguns dias (e feita a devida troca por um modelo maior), percebo que seu pedido talvez não seja tão desafiador. Ao contrário, admito que tenho uma boa dose de vergonha em usar aquela camisa em público, achando que ostenta-la – além de um perigo iminente na violência da cidade grande – seria um gesto exposto por demais. Me olharão na rua com algum preconceito, deboche ou julgamento.

Mas, ora bolas, eu não posso ter vergonha daquilo em que acredito! Por que sou eu, mais um desses que só assume a escolha quando o time vence? Por que festejo apenas quando estou com outros torcedores como eu, nas horas em que eu canto hinos, dou brados, faço junto o corinho do “com mu-ito orguuulho, com mu-ito amooor”. Mas em público, bem, aí a minha história é outra, em meio às atenções é preciso ser discreto, passar incólume pelo olhar dos algozes.

Está certo, penso aqui, vencerei minha vergonha, tentarei criar coragem. Provarei que gosto mesmo desse símbolo a ponto de assumi-lo sem ter medo dos estranhos, da torcida alheia e do desdém dos “sem-clube” que julgam a nós, torcedores, como um bando de ignorantes manipulados.

E foi que, pensando nisso, lembrei de uma outra ocasião não relacionada com esses fatos, mas muito adequada à dita circunstância. Estando um dia os doze jogadores em um campo, disse a eles o capitão do time:

“Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderia dar em troca de sua alma? Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem se envergonhará dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos.” (Marcos 8: 36-38).

Esse “defensor” não teve vergonha de mim. Pelo contrário, passou ele mesmo a vergonha no meu lugar, sofreu a derrota, exposto à multidão, à torcida adversária que o condenou por erros que não eram seus. E fez isso por mim, triunfando vencedor, para que eu não precisasse, nunca mais, passar por tal julgamento.

Merece um hino, um brado, corinhos, fanatismo até. Merece que eu diga: em qualquer circunstância, sim, eu vestirei a camisa. Estampando em meu peito o orgulho e amor de ter um novo… coração.

Amigos de Judas

por Luiz Henrique Matos

Há muitos dias ele vinha sofrendo. Tudo já não era como antes e doía saber que muito do que lhe ocorria era conseqüência de decisões erradas e imaturas. Mas em meio à confusão já não conseguia encontrar o caminho de volta.

Fazia meses que não nos víamos, a última vez foi um “e aí, como vai?” superficial em um ponto público da cidade grande. Mas a conversa boa e devagar, a comunhão, já não aconteciam há tempos.

Na verdade nunca fomos muito próximos, nem realmente amigos eu diria. Mas sem entender o motivo – acho que são as coisas loucas dessa fé – estranhamente, nesse sentimento cúmplice, eu sempre sinto quando algo errado lhe acontece.

E não foi diferente neste então, quando nos vimos recentemente. Na igreja cheia, as famílias reunidas, os abraços gratuitos de cumprimento, as músicas de celebração, o senta e levanta dos bancos, a ministração pastoral, o momento de reflexão. E a todo momento, no banco atrás de mim eu percebia outra vez que embaixo da fachada sorridente estampada em seu rosto, ele procurava por uma resposta.

Mas ninguém parecia perceber. Há tanto tempo, tanta gente, ninguém notou. Tudo foi devagar demais para ser assim de repente como um susto. Foi a sombra que aos poucos trouxe nuvem, que uma hora se fez noite. E o dia não chegava.

Ora, eu pensei, ele precisa saber que não está sozinho, deveria descobrir que outros tantos também sentem-se perdidos, sujos, indignos. No meu cristianismo, acreditei que ele carecia da mensagem salvadora da cruz, juntar-se uma vez mais ao aprisco e retornar para casa como o filho pródigo regressa para os braços do pai.

Não sei se lhe disse tudo isso, mas lembro que algo eu falei. Ao menos ali, tentei acompanha-lo naquela caminhada escura. E fizemos uma oração juntos. Uma prece dessas redimidas, arrependidas, que vasculham as brechas das trevas até o raiar da luz. E ali, novamente tive a alegria de vê-lo retornar à fonte e abrigar-se conforto da paz.

Quem sabe, eu penso agora – ligando isso tudo a uma reflexão de outros dias –, se Judas, lá nos seus dias, também tivesse ao alcance um ombro… Talvez, se um dos onze que ali estavam percebesse sua angústia, creio que ele poderia ter vivido. Sim, eu sei, as Escrituras desde há muito profetizaram que o Cristo seria traído, mas onde está o trecho dizendo que o traidor deveria morrer? Acaso lemos nalgum dos textos que ele não poderia arrepender-se de seu gesto e confessar seu pecado? Não foi assim afinal com Pedro e todos os outros que fugiram na ocasião prisão de Jesus?

Mas Judas não teve um irmão. Dentre todos os que estiveram ao seu lado diariamente naqueles três anos, não houve um que percebeu sua dor e o chamou, caminhou ao seu lado e o conduziu novamente à verdade. Faltaram amigos para aquele filho pródigo que, talvez por isso, jamais retornou ao lar.

Amigos. Esses que olham nos olhos, enxergam além do superficial para ver em que momento da trilha o passo do outro se perdeu. Esses mesmos que compreendem a dúvida e entregam não uma resposta pronta, mas o mapa do caminho, o amor fraterno e a disposição em caminhar juntos.

Sabemos que são de amigos que carecemos em nossas tribulações. E por isso, podemos também olhar ao lado nesse instante e estender a mão para o pródigo que se distanciou e que desejamos ter de volta em casa, sentado à mesa, repartindo o pão e o vinho da comunhão.

“’Vamos fazer uma festa e comemorar. Pois este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado’. E começaram a festejar.” (Lucas 15: 23b e 24).

Ansiedades, probabilidades e estatísticas

por Luiz Henrique Matos

“Suponho que viver a vida a cada dia (…) é precisamente o que nós temos que aprender – mesmo quando o velho Adão em mim às vezes alega que, se Deus quisesse me fazer viver como os lírios do campo, por que não me deu a mesma dose de nervos e imaginação que ele! Ou será esse precisamente o ponto, o propósito exato deste paradoxo divino e audacioso chamado ser humano – fazer, dotado de razão, tudo aquilo que outros seres fazem sem ela?” (C. S. Lewis).

Às vezes gostaria de saber qual seria a probabilidade estatística – dessas de um número tanto para tantos milhões – de realmente acontecer o que se fez em certas ocasiões. Sei que o assunto não é novo, hoje em dia parece até que andam em evidência os filmes que mostram o passado de um Fulano e o quão diferente a vida dele seria se uma simples alteração, atitude ou gesto fossem mudados.

Se eu não tivesse – à revelia, diga-se aqui – sido transferido de departamento em meu primeiro emprego, jamais conheceria aquela linda, encantadora, amável, irresistível, perfeita, graciosa… garota que hoje é minha esposa. E foi através de uma amizade sua que consegui o emprego seguinte, que posteriormente me possibilitou o atual. Também em sua companhia, comecei a freqüentar igrejas e numa delas tornei-me cristão. O cristianismo, afinal, foi a válvula para que eu iniciasse um novo projeto com textos, que me fez então estabelecer esse contato com você. Ora, se não fosse então uma frustrante mudança em meu antigo trabalho, hoje provavelmente eu seria solteiro, com outra carreira, longe da igreja e sem a mensagem que você lê nesse exato instante (não que isso lhe represente muita coisa).

Acho que é por isso que não acredito em “acaso”. Falo sem qualquer reflexão filosófica sobre o tema, tão agradável para os pensadores mais engajados, mas apenas pura e pobremente como uma reflexão vã sobre o assunto, jogando conversa fora para tentar entender os caminhos, percalços e alegrias dessa vida.

E sei sim que é por isso, em quantia maior e mais convicta, que acredito na providência e soberania divinas. Não de forma simplista, como se fossemos todos marionetes nas mãos de um tirano manipulador, mas de forma estratégica, sonhada, com o bom Pai traçando caminhos para os filhos, desejando que sejamos suficientemente sábios e de alguma forma sensíveis para compreender os seus planos de amor.

Por isso também, em momentos de ócio imaginativo (como esse), procuro relembrar os fatos, dos mais sutis, que foram fundamentais na construção dos caminhos que trilhei. Olhando para trás e vendo o rastro das pegadas, posso perceber que muitas das lutas e tempestades que eu julgava quase mortais para meu espírito – e sobre as quais muitas vezes lancei condenações às minhas decisões – foram, na verdade, providenciais para meu crescimento e amadurecimento.

O caminho que você e eu podemos escolher é um só, dentre tantos que tentadoramente aparecem à frente. Mas a decisão é única e definitiva num certo momento: seguir a Jesus Cristo como nosso salvador, a Deus como Pai, é uma escolha por ele mesmo revelada “estreita” (Mateus 7:14), mas que conduz ao descanso da eternidade. E essa conversão de trajetórias, nada sutil, altera muita coisa daí por diante. Uma mudança, até mesmo os números frios das estatísticas podem provar.

Probabilidades? Bem, imagine então quais seriam as de que se cumprissem em um único homem, todas as 332 profecias ditas a respeito do Messias que os judeus esperavam. No que me lembro, era de uma chance em 8 seguido de oitenta zeros (não, não fiz a conta e também não sei pronunciar o tal número. Eu o li nalgum lugar que agora não encontro). Pois, desafiando a razão, todas elas foram consumadas na vida de Jesus Cristo.

Agora olho ansioso para o que sou, tentando avaliar esse presente em que vivo, minhas possibilidades de acerto e meus riscos de erro, sei que muitas de minhas dúvidas serão respondidas amanhã, quando então saberei seus propósitos. Mas, me pergunto outras horas: e as dúvidas sobre o depois? E o dia de amanhã como será, o que virá, o que se dirá? Olho então novamente para trás, um tanto só para aprender, e vejo nas páginas que li e nos passos que trilhei a verdade reluzente dos sábios (e eternos) conselhos de meu Pai…

“Dêem pois prioridade ao seu reino e à sua justiça e Deus cuidará do vosso futuro. Não se preocupem com o dia de amanhã. O dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta cada dia o seu mal.” (Mateus 6:33-34, na tradução “O Livro”).

Adeus às armas

por Luiz Henrique Matos

Nos próximos dias você e eu, cidadãos brasileiros, eleitores, seremos convocados a enfrentar uma grande fila em uma escola de nossa cidade para prestar o voto sobre a pergunta que os parlamentares decidiram julgar como responsabilidade nossa: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”.

Contrariando a vontade própria mas obedecendo ao impulso inevitável, senti-me no dever de expor o assunto sob uma ótica bíblica, visão essa que também busco, como resultado da frustrada tentativa de chegar em uma resposta sobre meu voto. Confesso que pensando de forma racional, me divido entre os argumentos das duas partes. Mas, ao menos agora, que fiquem os dados como base de ponderação e limitados aos comerciais televisivos recheados de celebridades. Não pretendo aqui citar as muitas estatísticas que tentam nos convencer, mas no que me cabe, gostaria de refletir sobre as Escrituras e o que nela se diz a respeito.

Um estudo breve é suficiente para saber que não há no Novo Testamento qualquer expressão ou citação que justifique o porte de armas ou uso de violência (seja como ataque ou defesa). Pelo contrário, aliás, muito pelo contrário, a exortação é outra. Apenas para citar alguns exemplos: João Batista, Estevão, Tiago, Paulo e, obviamente, Jesus, são alguns dos que se submeteram sem reagir às acusações e ataques injustos contra si, alguns deles pagando com a própria vida. Jesus dizia ainda que devemos perdoar e amar os nossos agressores.

Alguém pode dizer que isso refere-se a particularidades da vida religiosa e que de fato, não tem adequação com o que se discute hoje. Digo porém, que existe ainda um outro momento muito apropriado, que acontece na noite em que Jesus é preso. Ele orava no Monte das Oliveiras quando Judas chegou acompanhado do grupo armado que iria prendê-lo. Jesus não foi resistente e diante da investida opressora, entregou-se. Mas na hora, eis que Pedro (sempre ele) sacou uma espada e no ímpeto de defender seu Mestre decepou a orelha de Malco, um dos servos do sumo sacerdote que participava daquela investida judaica. Jesus repreendeu o gesto, ordenou a Pedro que guardasse a espada e curou a ferida do homem.

Pessoalmente, admito que o argumento de ter uma arma em casa como medida de “defesa”, me soa algo tão coerente quanto: “Olha, eu não bebo e não pretendo beber, mas deixo uma garrafa de uísque em casa para caso um dia eu precise”.

Espere aí, pensando bem, há sim uma outra passagem bíblica falando sobre armas. E é Paulo quem escreve aos efésios dizendo que sim, é necessário que tenhamos uma espada. Bem, ele fala em espada, mas sejamos mais modernos e vamos contextualizar o nome desse “instrumento” para… vejamos, uma metralhadora! Nesse aspecto e com a devida substituição, o versículo seria assim: “Usem o capacete da salvação e a metralhadora do Espírito, que é a palavra de Deus” (Efésios 6:17).

Para todos nós, é muito confortável cobrar esse cristianismo exemplar e santo de nossos irmãos e líderes, mas não podemos ignorar o fato de que é de nós mesmos que deveríamos exigir uma conduta o quanto mais próxima da que nosso Senhor viveria. E mais do que pregar, estudar ou concordar, sei que preciso eu mesmo viver a verdade sendo um espelho dessa fé, agindo como Jesus agiria.

“As armas com as quais lutamos não são humanas; ao contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas” (Paulo em 2 Coríntios 10:4).

Também é fácil (e muito justo) exigir que nossos governantes façam sua parte, inibindo a violência e sendo eficientes no combate ao crime. Mas também não somos nós, os cristãos, que dizemos ser herdeiros e parte de um Reino que prega a paz, o amor e a misericórdia como princípios incondicionais? Na vida prática, se quero ver luz, começo então acendendo a lâmpada. E assim igualmente creio que se desejo viver em uma sociedade de paz, preciso fazer a minha parte, declarando que prefiro os meus princípios de vida e de fé aos “remédios” sugeridos por uma indústria bélica.

Como disse, não se trata de razão, mas de fé. Não são os direitos que temos ou os que perderemos, mas uma postura coerente com o que acreditamos. Postura essa que, se me permite encerrar com a citação abaixo, foi pregada e vivida por um homem que nunca professou a Jesus Cristo como seu Deus, mas que buscou nele o exemplo para promover parte das maiores mudanças que a sociedade moderna experimentou. Por seu gesto e liderança, seu país, a Índia, tornou-se livre de uma nação opressora. E enquanto esteve vivo, combateu com medidas pacifistas e desarmadas a violência intolerante entre os povos, o racismo e a injustiça social. Esse homem morreu em 1948, assassinado com três tiros.

“Precisamos ser a mudança que queremos ver” (Mahatma Gandhi).

Sessão nostalgia

por Luiz Henrique Matos

Tarde chuvosa, tempo cinzento, dia sonolento… um momento ideal para relembrar os dias da infância distante, das horas de sessão da tarde deitado no sofá, da nostalgia latente de uma meninice que a vida adulta já encobriu. Ai que vontade! Um chá quente com biscoito água e sal em casa… Mas não posso, é dia de compromisso, hora da responsabilidade. E assim sendo, como é, aproveito a circunstância para ser só um tiquinho mais nostálgico, aqui nesse tempo, numa conversa de compadres sobre fatos distantes do noticiário que reluz em minha tela e borra os meus dedões.

E sobre o passado, nele mesmo é que estive pensando e queria saber se você, por acaso assim, se “alembra” de um desastre natural que aconteceu já há muito tempo. Acho que há tanto que nem sei se ainda tem espaço em nossas remotas lembranças. A mídia eu sei que já esqueceu, mas com um tanto de paciência, posso ao menos lembrar o nome… tsunami. É isso aí, uma onda gigante que assolou alguns países no sul da Ásia. Você lembra disso? Fatos do passado, coisa de longa data. Quem nessa loucura de vida ainda tem tempo para falar em fatos já resolvidos? Mas só por dizer, coisa boba, foram duzentos e cinqüenta mil pessoas mortas naquela tragédia.

Tem também uma outra, um tempão depois, mas que já quase se perdeu. Um dos tais furacões Katrina. No norte dos Estados Unidos ele inundou uma cidade inteira e o povo fugiu para outro estado que depois também quase foi inundado, uma insanidade. Bem, mas e desse, você tem alguma recordação? Soube pelas notícias da época que foram mais de dez mil pessoas que morreram nas tempestades.

E ali juntinho, na mesma semana do furacão, se a memória não me escapa (desculpe, coisas da idade), aconteceu também aquele desastre no Iraque. Não, não estou falando daquela guerra antiiiiga que os norte-americanos travaram contra o ditador, o dito cujo chamado Saddam Hussein. Falo aqui do incidente sobre uma ponte no Rio Tigre em que morreram mais de mil pessoas, pisoteadas, asfixiadas ou afogadas depois de uma suspeita, veja bem, só uma suspeita de ataque suicida.

Pois é. E sabe que agora já tem um outro sendo esquecido, no fim das suas contas, nem rende mais audiência para os telejornais. Foi esse um terremoto, de novo na Ásia. Você lembra? Não? É compreensível, também pudera, já se passou uma semana e isso é tempo por demais. Com certa dificuldade, achei uma matéria e li que até hoje não terminaram de contar as vítimas, mas que os governos do Paquistão, Índia e Afeganistão contabilizam mais de 39 mil mortos, entre corpos encontrados e outros ainda soterrados. E depois de tanto tempo, os jornais já não relatam mais o ocorrido em suas páginas.

É, o tempo passa rápido demais. Para mim, para você, o volume de informações na mídia é tamanho e vindo de tantos meios diferentes que nem percebemos que as elas chegam, ocupam o topo das manchetes e vão diminuindo de tamanho e importância até que alguns dias se passam e ninguém mais se recorda.

Agora, penso aqui outra vez junto com esses meus botões (sorte eu estar de camisa), não é porque os jornais deixam de noticiar que o fato se resolveu. A imprensa e o pensamento imediatistas da nossa cultura ocidental são tão frenéticos que não só nos esquecemos de fatos recentes com tamanha facilidade, como deixamos de nos comover com as situações que acontecem debaixo de nosso próprio nariz.

Ainda hoje, os governos sul-asiáticos trabalham para reerguer as cidades atingidas pelo tsunami e a estimativa inicial da ONU previa ao menos dez anos para a recuperar as áreas devastadas. O furacão Katrina ainda deve consumir cinco anos de investimentos e obras em Nova Orleans. O Iraque, bem o Iraque, não bastasse o desastre sobre a ponte, o povo daquele país ainda sofre com a opressão norte-americana presente em seu país e com os insurgentes rebeldes que explodem a tudo e a si próprios pelas ruas das cidades. E afinal, sobre o terremoto no Paquistão, procuro pelas notícias e pouco ainda se fala a respeito da situação no oriente.

Mas o triste saldo que fica nessa conta não é o das estatísticas sociais, são sim, de fato, as pessoas desabrigadas, as famílias separadas, os enfermos, as crianças sem remédio ou comida. E não é bem assim no plural e no termo coletivo. Está ali um bom punhado de gente, com sentimento, dor, vida, esperança… assim como eu, tal como você, passando por necessidades primárias e a mercê de nossa comoção e, quem sabe, uma caridade.

Em horas dessas, uma condição me incomoda o espírito e não consigo deixar de sentir um tanto de culpa pela minha negligência e mais um outro bocado de dúvidas, que se resumem em uma única que agora me faço: e eu, o que posso fazer?

Ser como Jesus? Amar ao próximo como amo a mim? Orar e interceder? Estender a mão e ajudar? Me conscientizar e prevenir os danos que causo à criação divina? Sim, tudo isso e tanto mais. Mas ainda busco a verdade por detrás dos conceitos e ministrações. Tento desbravar a vida, procurando o exemplo deixado pelo único que foi capaz de trilhar sozinho esse caminho e vencer, sem as muitas indagações de que me cobro.

Me questiono na condição de quem se declara cristão, renascido em Jesus Cristo, preenchido e marcado por sua verdade, amor e misericórdia e desejoso em espelhar o seu caráter. Procuro nas Escrituras a resposta e não preciso ir muito longe, várias me saltam aos olhos e à mente, mas uma delas, só uma breve e simples passagem, me faz parar e entender sobre o caminho, sobre a atitude, sobre a postura que preciso viver:

“Certa ocasião, um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou: ‘Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?’. ‘O que está escrito na Lei?’, respondeu Jesus. ‘Como você a lê?’. Ele respondeu: ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento’ e ‘Amarás a teu próximo como a ti mesmo’. Disse Jesus: ‘Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá’. Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: ‘E quem é o meu próximo?’. Em resposta, disse Jesus: ‘Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto. Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado. E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Então colocou o homem sobre seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e os deu ao hospedeiro. ‘Cuide dele, e, se alguma coisa gastares a mais, eu te indenizarei quando voltar’. Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?’” (Lucas 10:25-35).

João e o pé de…

por Luiz Henrique Matos

Ainda hoje eu me lembro daquelas experiências. Não era preciso prática e nem tão pouco habilidade para se ver algo surpreendente, como num milagre. Na verdade, bastava que se plantasse… e via-se rapidamente o resultado.

A receita, tão simples, envolvia muito pouco: um copo de plástico, um pedaço de algodão, alguns mililitros de água e dois pequenos feijões embalados no algodão. Esperava-se dois ou três dias e finalmente era possível ver aquele pequeno ramo verde, que na minha infância breve parecia crescido tal como uma (promissora) árvore.

E esperando, eu pensava, se passassem mais uma semana ou duas, o copo seria destruído pela grandeza daquele meu pé de feijão, capaz de romper algodões, terras e tal como na história, me levar aos céus. E aí, talvez por isso, minha mãe não me deixava prosseguir na experiência que transformaria o mundo (bem, espero que você seja capaz de considerar essa inventividade infantil).

Há pouco tempo – alguns minutos para ser exato – eu li a história de João, um rapaz que em sua adolescência viveu grandes aventuras. E numa delas, presenciou a melhor das histórias sentado diante daquilo que na tenra mocidade lhe parecia uma árvore, mas não passava, afinal, de um pé de… uva.

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim. Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim, vocês não podem fazer coisa alguma” (João 15:1, 4 e 5).

João era moço, novinho de tudo, talvez tivesse uma visão dividida do que se passava, não compreendendo a grandeza do que vivia, mas ao mesmo tempo, pela inocência, sendo ele mesmo o integrante mais envolvido naquele espetáculo sobrenatural.

Aqueles dias seriam os últimos em que ele poderia desfrutar a presença do filho de Deus nesta terra. Encantado com aquele Messias amoroso a quem ele mesmo pôde tocar, acompanhar, servir, amar e entregar-se cegamente às suas palavras. E momentos como esse, diante da videira, marcaram sua vida ao ponto de, anos depois, ser o único dentre os quatro autores dos evangelhos a narrar o acontecimento.

Naquele dia, João ouviu sobre o amor que marcou sua vida e pregação. Sentado num chão de terra, observando e crendo, ele viu o Deus vivo o chamar de amigo, ele ouviu seu Mestre lhe dizer que era preciso frutificar.

“Se vocês obedecerem aos meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como tenho obedecido aos mandamentos de meu Pai e em seu amor permaneço. O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros como eu os amei. Já não os chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu os tenho chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai, eu lhes tornei conhecido” (João 15:10, 12 e 15).

Aquele João da videira, era o garoto que vimos reclinado sobre o peito de Jesus na ceia, foi um dos três que faziam parte da intimidade do Mestre, foi o único discípulo a estar aos pés da cruz ouvindo de Cristo a ordem para cuidar daquela que fora sua mãe. O pequeno João do pé de uva, foi o apóstolo na igreja primitiva, foi missionário pela Ásia, foi preso e escravizado pela perseguição do império romano. Foi o que serviu aos seus irmãos, foi o que viveu até que Deus o recolhesse, foi o que contemplou e recebeu a revelação descrita em Apocalipse que ainda hoje nos consola.

João viu o Deus, ouviu o Verbo, seguiu o Caminho, conheceu a Verdade e optou pela Vida. Creu e dedicou-se à mensagem de viver em Cristo e frutificar ao mundo. João em sua inocência espontânea e juvenil, experimentou o melhor, dedicando sua adoração àquele que é digno de tal amor.

A videira. Uma pequena árvore, plantada ali num solo árido daquela Jerusalém antiga, mas que pela presença do Deus vivo à sua frente, ficou eternizada na parábola e levou o jovem João a lembrar e viver grandes experiências, nos mais altos céus.

Agora veja você, com seus olhos de fé. Imagine. Viva a experiência. Diante da videira, frente ao Deus de amor, ouvindo esse desafio…

E que frutos dará?

“Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça, a fim de que o Pai lhes conceda o que pedirem em meu nome. Este é o meu mandamento: amem-se uns aos outros” (João 15:16 e 17).

Daqueles dias

por Luiz Henrique Matos

Às vezes chego em casa cansado. Um dia duro de trabalho, trânsito na cidade, contas para pagar, preocupações que vêm à mente. E então, ao seu lado, não preciso dizer nada. Sei que ali eu descanso, esqueço e encontro a paz. Com você eu não preciso saber as respostas, não preciso ser herói, não preciso ser um adulto bem resolvido ou dessa gente que inventa qualquer assunto para o clima não ficar sem graça.

Lembro, em alguns desses momentos, de palavras que ouvi em outras horas: “Às vezes, entre dois amigos, o silêncio já diz muita coisa”. É verdade. Eu só preciso dizer que não suporto o silêncio sem a sua presença.

Tem momentos em que minha ansiedade me afoga, minha concentração passa longe e até parece que eu sou incapaz de terminar algo. A mente voa. Tenho dúvidas. Os sonhos ficam distorcidos, as certezas… bem, acho não tão certas assim. Cada passo em frente parece que pesa um pouco mais. E eu me encho das perguntas cujas respostas nunca soube. Mas, o que de mim você já não conhece?

Gosto das horas em que te digo: “Somos só nós dois”. Ali, restabeleço minha aliança de amor, honra e fidelidade. Sou leal a você (apesar de minhas inúmeras falhas). Nunca quis um relacionamento em que não pudéssemos ser totalmente francos um com o outro. E é muito bom ouvir suas verdades.

Sua presença me revela respostas. Seu toque, cura-me as dores e permite que eu deite em minha cama depois de um banho e minha oração, para repousar em tranqüilidade. Tenho sonhos. Tenho planos. Tenho muito a agradecer. E o que tenho, e o que sou, sei que brotaram antes como vontade de seu coração bom e fiel.

Esse amor tem me inspirado canções e poesias. Às vezes faz a mim, um homem grande, chorar como a criança amparada após o tombo. “Calma, foi só um susto” eu ouço o sussurro, abrigado na segurança de seus braços.

Algumas vezes, sozinho, eu me pergunto: por que? Um universo tão extenso, um mundo tão grande, uma criação tão bela e esplendorosa, os mares, as nações… por que isso tudo e tanto, para ser explorado, governado e devastado por corações ingratos? Como o meu.

Não temos segredos, não há mistérios. Existe sim essa sua sabedoria infinita que eu não compreendo, mas me acolhe. Assim, são inescrutáveis esses seus caminhos.

Alguns homens não acreditam nessa verdade. Outros crêem mas te vêem distante e avaliam a sua personalidade como temperamental e rígida, confundem justiça com frieza. Entenda, eu sinto se não me limito a tais leis e regras, mas confesso que gosto dessa intimidade (ainda que eu fuja tantas vezes) e prefiro conhece-lo pessoalmente. Afinal, não é você o próprio Deus? Não é o Senhor? Acaso não é o Rei, Eterno, Santo, digno de glória? Sim, é tudo isso e é único. Mas como tratá-lo com distância, enquanto dia-a-dia me ergue em seu colo como filho e me pede para chama-lo de Pai?

Meu Pai do céu. E quantas não foram as vezes em que eu quase me esqueci do seu amor? Tantas as horas em que me buscou pelas manhãs, perdido, dormindo ao relento, chafurdando na lama, embriagado da droga mundana. Você nunca desistiu de mim. E constrangido, abri meus olhos e os voltei em sua direção… E não vi sombras, e não vi mágoa. Eu vi sua mão estendida, seu sorriso terno, ouvi sua suave voz proclamando festa: “…este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado”.

Eu jamais poderia retribuir tanto amor.

E me fez muito mais, motivado por aquilo que é em essência: amor. Amor fiel, paciente, bondoso. Amor alegre. O amor eterno que esperou a hora, que tudo sofreu, tudo suportou. E resistiu. Se entregou. Perfurado, maltratado, cuspido, espancado. Os que o conduziram ao Reino lhe deram uma coroa, de espinhos. Vestiram uma capa, estando nu. Ergueram ao alto da montanha, crucificado.

E ali morreu no meu lugar. E adiante, depois, ressuscitou para o triunfo da eternidade.

Quando volto a olhar em sua direção, lembro-me daquele dia. O dia em que senti minhas culpas partirem e meu fardo ser removido. Dia em que meus pecados foram perdoados e cada uma de minhas feridas curadas. Dia em que minha mente repousa, minha fé se baseia e minha vida se entrega.

Apesar de mim, você é Deus. E é aquele o seu gesto que nos liga para sempre, na eternidade que viveremos juntos. Nessa cruz que observo, seu Filho morreu eu meu lugar, para que hoje eu pudesse chama-lo Pai, meu Pai.

Que eu nunca me esqueça.

Analogias não bastam

por Luiz Henrique Matos

“Alegrem-se na esperança, sejam pacientes na tribulação, perseverem na oração” (Romanos 12:12).

Existem situações em que as ilustrações não resolvem. E também tampouco ajudam. São momentos que exemplos e gracejos são incapazes de retratar. Luzes no fim de túneis, Davis vencendo Golias, vales escuros sendo cruzados por valentes guerreiros, faróis reluzentes nos portos frente a penumbra solitária da noite. Não, nessas horas as parábolas nada refletem. Os versículos ecoam e soam apenas como afirmações frágeis de homens que não viviam, ah não, eles não poderiam estar passando por isso!

Tampouco dizem algo qualquer uma das palavras escritas. As poesias e registros que florescem desses tais são tão somente exercícios e desabafos atrasados não ditos quando deviam. Momentos em que o mundo parece quieto e sentimos que mesmo os anjos apenas observam. Num suspiro, olhando à volta, notamos um tanto do gesto dos solidários que dedicam-se a consolar a dor, mas mesmo eles não podem entender, ninguém poderia.

E brotam as dúvidas, florescem os cravos, desatina a dor, gira confusão, sonhos, transes e um questionamento que perdura: por quê?

Por isso, me calo quanto aos modelos de uns ou outros e até aos meus próprios instintos e aqui procuro ater-me à franqueza dos atos e fatos.

Na busca da resposta, acreditamos e sabemos, assim por simples saber e crer, que tantas e outras vezes ela se esconde não em outro lugar, senão em nós, ali dentro, debaixo, atrás, num canto talvez que, retorcendo e sondando quem sabe? Não, nem mesmo nós podemos enxergar.

E quem pode?

Sim, você já sabe, aqui, isso tudo é cristão, busca sê-lo. E não falaria de outra senão da Verdade. E ao contrário da outra, falsa, a verdade não se envergonha, nunca se cala, nem cansa de se repetir. E a verdade de Deus, tal como o próprio, é eterna e inabalável.

A verdade que sim, ora pois, sim! Sabemos, mas carecemos de confiar. Principalmente nesses tempos em que as muitas dúvidas questionam até o verbo que é, ser.

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jesus).

É Ele, somente Ele, que nos ouve quando já não temos fôlego para chamar. Nos atende, quando na fraqueza somos dobrados ao chão. E no pó vemos a matéria do que fomos, somos e seremos. Mas ainda assim, poeira deste mundo, temos um Deus, tão grande mas tão próximo, tão Senhor e tão Pai, tão justo mas que assim, perfeito, nos ama sem condições. E Ele mesmo se entrega, por amor às criaturas que insiste em chamar de Filhos, perdoa e cura, restaura.

Pena, eu lamento, que talvez não compreendamos tal grandeza em meio à turbulência nesse instante avassalador. Mas não é a compreensão que se faz necessária, sim a fé. Ora, a certeza das coisas que não se podem ver…

“Pois nessa esperança fomos salvos. Mas, esperança que se vê não é esperança. Quem espera por aquilo que está vendo?” (Romanos 8:24).

Se ainda vai doer? Sim, certamente vai. Mas uma hora passa. Se acredito que minhas palavras curam? Honestamente, não. Creio e sei, que nosso Deus nos vê e conhece. E ele sabe, com seus caminhos e seus pensamentos tão mais altos do que os nossos, que ali adiante há algo melhor.

É bom dizer que, o que digo apenas me parece, assim por acreditar, não sei muito bem. Quanto a isso sou também mais um dos que ainda esperam. Me entrego, peço, agradeço e permaneço. Deixo a janela do quarto aberta, aguardando pelo momento em que o sufoco passe e a brisa… ah, a brisa há de soprar, há de tocar, ah ela virá!

Mas sigamos na fé, na oração e no esperar em Deus. Esperar de esperança. Esperar que passem as parábolas, que cessem as lágrimas e que fuja o desespero de tantos porquês. Aguardar pelo novo dia que chega daqui a pouco, onde palavras poderão contar o passado, o passado pretérito perfeito que já se foi e agora é só história, mas que ainda assim esperamos… esperamos que ajude alguém. É, esperança.

“Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim? Ponha a sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; ele é o meu Salvador e o meu Deus” (Salmo 42:11).

“Não só isso, mas também nos gloriamos nas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança. E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu” (Romanos 5:3-5).

No olho do furacão

por Luiz Henrique Matos

Furacão Katrina. Está em todos os jornais do planeta. Até o momento em que escrevo, foram contados ao menos 200 mortos, milhares de vítimas e prejuízos estimados entre 25 e 100 bilhões de dólares. Segundo fontes, 80% de Nova Orleans pode estar destruída depois de a cidade ter ficado submersa. A maior parte das áreas afetadas está sem acesso a energia elétrica, telefonia, alimentos e água potável. A população pede socorro. Balneários foram cobertos por ondas de até oito metros de altura e em alguns pontos alagados o nível da água chegou a seis metros de profundidade. Todos tentam se proteger da ameaça iminente ao entrar na rota de devastação provocada pelo furacão mais caro da história.

Furacões, por definição, são “tempestades ciclônicas com ventos muito fortes que se formam sobre os oceanos nas regiões tropicais” e podem ser classificados em graus de devastação que vão de 1 (para os mais brandos) a 5 (os mais cruéis e catastróficos). Eles são também nomeados, cada novo furacão recebe um nome que começa seqüencialmente com uma letra do alfabeto (Andrew, Bonnie, Camile, Danielle, Emily, etc.). O Katrina atingiu 5 pontos e segundo calculos, é 141º na ordem do alfabeto.

Análises meteorológicas podem prevê-los e transmitir alertas de precaução, mas não existem recursos que possam impedi-los de varrer o que estiver em seu caminho. Invariavelmente, a única solução é fugir.

Você já esteve na rota de um furacão?

É fato, não podemos negar que daqui, gozando a paz destas terras tropicais, aos vinte graus em pleno inverno, é muito provável que você e eu não tenhamos idéia do real impacto causado por uma destruição dessas. Não me refiro apenas ao prejuízo capital, causado pela perda de tantos bens, falo das necessidades humanas, das perdas pessoais, da gravidade emocional.

Afinal, sabemos, só quem está no centro de uma devastação como essa, sabe a dor e a aflição que se sente. Pelos noticiários, podemos avaliar, ponderar e nos comover com os números, índices, notícias e imagens reproduzidas pela mídia. Mas não estamos, de forma alguma, na pele daqueles que deixaram tudo o que tinham para preservar suas vidas.

Você já viu tudo o que construiu ser levado pela força de uma tempestade?

E quantos outros não foram e não são, os furacões e tempestades que assolam os homens e os povos ao longo de sua existência e caminhada? Alguns, tolos, tentam enfrenta-los, julgando-se capazes e fortes o suficiente para sair ilesos de uma força como essa.

Entenda, não importam os nomes, para cada circunstância e coração eles tem seus efeitos particulares. São os Andrew ou Avareza, Bornie ou Blasfêmia, Camile ou Ciúmes, Danielle ou Discórdia, Emily ou Egoísmo. Isso, além de todo um alfabeto de Tentações, Pecados, Opressões e Injustiças… tantos ventos fortes são capazes de nos consumir e derrubar. E não nos adianta, a qualquer um dizer que não puderam ser previstos, pois eles nascem dentro de nossos próprios instintos, como frutos de nossas decisões e atitudes (ou a falta delas). E também, aliás, não resolve pensar que entramos como presas desprevenidas em suas rotas.

“Seu trovão anuncia a tempestade que está a caminho; até o gado a pressente” (Jó 36:33).

Aconteceu, porém, afinal. E agora? Às vezes a vida entra em um desses ciclones, os sonhos pareceram frustrados, a esperança foi devastada e o coração amargo, vazio, deixado à margem da destruição. E o pior – ah como isso dói! – é saber que o primeiro sopro desse caos partiu de nossos pulmões.

Pecadores. Nessas horas, talvez só nelas, temos a oportunidade de reconstruir. Recebemos o poder de observar os vestígios desse pó e partir dele para recomeçar. Pecadores. Entendemos enfim o sentimento do arrependimento, nos quebrantamos e oramos ao único capaz de acalmar essa tempestade.

“Na sua aflição, clamaram ao Senhor, e ele os tirou da tribulação em que se encontravam. Reduziu a tempestade a uma brisa e serenou as ondas. As ondas sossegaram, eles se alegraram, e Deus os guiou ao porto almejado” (Salmo 107:28-30).

“Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!” (Mateus 13:9).

(Fontes: Folha de S. Paulo, Wikipedia.org, Associated Press, Bíblia NVI, Wahington Post, Yahoo! Brasil e Reuters).

PS.: É óbvio que, eu não poderia fazer tal analogia e descartar de forma indiferente a situação de necessidade e emergência daquelas pessoas nos Estados Unidos. São milhares de vítimas precisando de nossa ajuda e oração. E de coração, resolve muito.

Procurando a visão

por Luiz Henrique Matos

Eu revirava na cama e procurava no meu travesseiro o descanso para passar mais uma noite. Queria eu que fosse só mais uma, como outra qualquer. Mas não seria assim tão fácil, algo me incomodava profundamente e aquilo parecia estar plantado dentro de mim. E eu nem podia dizer que passaria a madrugada de olhos abertos porque era justamente um deles (peraí, qual mesmo?) que insistia em coçar, e coçar, e coçar desesperadamente.

Lavei, esfreguei, tentei enfiar o dedo indicador lá dentro para tirar o que quer que estivesse ali, fosse um cisco, fosse um tronco. Mas nada parecia resolver. Depois de um tempo insistindo em não levantar ou ceder àquele sagaz inimigo da paz humana, resolvi tentar o óbvio: fui – caolho – à caixinha de remédios, peguei o frasco de colírio e depois de molhar toda a testa e a bochecha, deixei que duas daquelas pequenas gotas inundassem aquele território.

Ah-ahh! Regozijo, paz, conforto, o alívio da pureza. Foram apenas dois breves minutos para que meu olho sentisse novamente o prazer do não sentir, se fechasse exausto (e inchado) e eu gozasse o repouso tranqüilo dum sono profundo.

Mas, ora bolas… por que razão eu não recorri ao colírio antes? Tão óbvio. Como se eu não soubesse o que estava escrito naquela bula. Logo eu, que leio até o verso da embalagem do creme de barbear (em português e español – coisas do Mercosul).

Aproveitando a circunstância, pensei depois, sobre o que falou Jesus, naquela história de apontar o cisco no olho do próximo sem reparar na trave que está no nosso (Mateus 7:3-4). E nessa hora, sinceramente, eu questiono: “Como alguém pode enxergar o cisco do outro com a vista coçando desse jeito?!”

* * *

E não é que ultimamente eu vinha reclamando muito de uma outra coceira, um cisco num olho que não é exatamente meu, mas que eu insistia em apontar e querer ver curado. Citava até, veja só, a receita de um bom remédio para aqueles que eu julgava estarem momentaneamente cegos.

Protestei, intercedi e me cerquei da certeza de que não estava sozinho nesse sentimento. São muitos os que ouvi partilharem a mesma visão de que precisamos de uma igreja mais simples, apaixonada, vivendo um relacionamento de amor verdadeiro entre irmãos e plena nos princípios do cristianismo. Uma igreja refletida em sua forma mais pura na igreja primitiva, liderada pelos primeiros discípulos de Jesus Cristo. E me achava cansado até de reclamar, saudoso de momentos outros, indignado com “aqueles” que andam a desonrar a obra do Pai.

Um sonho nobre, de fato.

Mas, foi assim, de então, senão de outro jeito do que pela própria Palavra, que aprendi a diferença e o grande buraco existente entre meu sonho e a realidade. E essa realidade não era a imagem por mim condenada, mas justamente aquela que eu mesmo julgava correta.

Clamava em favor da visão de outros quando foi, me percebi, cego. Um palmo sequer eu via e portanto, não notei também que a dita “mudança” deveria, em primeira instância, ocorrer num lugar mais íntimo: meu próprio coração.

E o tratamento necessário era simples, tão óbvio, eu não percebera: precisava de um pouco do colírio criado naquela lama cuspida em Betsaida, precisava olhar para dentro do que eu era, carecia do toque de Jesus sobre meus olhos (Marcos 8:25).

Voltei a enxergar. Percebi que o sonho era sim possível e próximo, mas ao contrário do que eu acreditava, era preciso muito menos do que uma revolução mundial. Percebi que o grande desafio a ser vencido está bem ali dentro, ficou por tempos guardado ao lado do pecado, escondido perto do já empoeirado perdão não liberado, arquivado com as memórias e fotografias amareladas daqueles primeiros dias de amor. O amor, primeiro amor, ele estava de volta!

Aí que, há poucos dias li também o texto de meu grande amigo, Sérgio Dantas, com um pensamento certeiro a respeito, dizendo: “A igreja da pós-modernidade busca encontrar-se. Ela há muito que busca uma identidade, um método de atuação, tentando copiar a cultura da igreja primitiva, esquecendo que é a essência que deve permanecer”. Na mosca.

E o que é a essência da igreja cristã senão – vai parecer óbvio de novo – o próprio Cristo? Não é também a igreja em si a morada de Deus? E não é Deus, afinal, quem habita nos homens que nele crêem? Logo, somos nós, homens, a própria igreja, habitação do Deus altíssimo.

Como posso então sonhar com uma igreja santa sem antes viver a santificação? Se quero um ambiente com irmãos como eram Pedro, Estevão, João, Paulo ou Filipe, devo antes ser eu mesmo, um conciliador, um encorajador, quem sabe um Barnabé?

Belíssimo (e oportuno) é também o testemunho de C. S. Lewis ao narrar um dos momentos de sua conversão: “Pela primeira vez examinei-me a mim mesmo com um propósito seriamente prático e ali, encontrei o que me assustou; um bestiário de luxúrias, um hospício de ameaças, um canteiro de medos, um harém de ódios mimados. Meu nome era legião” (no livro Surpreendido pela Alegria, página 230).

Se nosso compromisso com esse sonho for realmente sincero e não apenas um critica vã ou desculpa tola, saberemos que a grande obra começa e termina, exclusivamente, em nós. A grande revolução da igreja não trará divisões ou novas reformas, mas um arrependimento profundo, uma grande paixão pelas pessoas, compromisso com a Palavra de Deus e um coração quebrantado e cheio de amor pelo nosso Senhor.

Então a mudança virá e um a um, os tijolos da estrutura rígida serão removidos e não existirão barreiras na casa de Deus. O Corpo de Cristo viverá sem divisões, os homens partilharão o amor verdadeiro e serão chamados santos, porque aprenderam, afinal, que são eles mesmos a habitação do Santíssimo.

Alguém por aí tem um colírio?

Uma manhã em Londres – O amor nunca falha

por Luiz Henrique Matos

Londres, 7 de julho – O Big Ben marca 9h15 na capital britânica.

Nos primeiros números da Woburn Place, dois guarda-chuvas estavam abertos naquela calçada, aguardando pelo ônibus das 9h21. No primeiro deles, um garoto sonolento, com seus onze anos, pequeno e magro, levando nas costas uma mochila encardida e no braço um livro escolar. No outro, protegendo-se da garoa com um guarda-chuvas estranhamente florido, um homem moreno, bigode grosso e com seus trinta e tantos anos também esperava o transporte chegar.

No horário previsto surgiu então na esquina o veículo vermelho de dois andares e parando no ponto, recolheu os passageiros. Os assentos, praticamente ocupados, deixavam apenas dois lugares livres. O garoto se adiantou, ocupou o assento perto da janela e acenou para o homem:

– Sente-se aqui – ofereceu convidativo – guardei o lugar para o senhor.

O homem, com o rosto sério, aceitou o convite mas não disse nada. Ele parecia um bocado inquieto, vestia um casaco grosso apesar do verão e olhava a todo instante para o relógio em seu pulso, ajustado (sabe-se lá como) com os minutos exatos do Big Ben.

O menino o observou por alguns instantes e rompeu novamente o silêncio para ousar:

– Legal essa tatuagem, é um mapa?

– O quê?

– Sua tatuagem, aí no pescoço, é um mapa da onde?

– Não. É uma pinta.

– Uma pinta?! Mas por que alguém tatuaria uma pinta?

– Não tatuei, não é tatuagem, é uma pinta, marca de nascença – disse tentando encerrar a conversa.

– O senhor está cansado?

– Não.

– Hum… está com sono? Eu estou…

– Não, estou com pressa.

– Vai trabalhar?

Ele não respondeu.

– Esse guarda-chuva não é seu né? Florido assim…

– …

O silêncio todo naquela conversa muito sem graça (algo que ele não disse, mas pensou) fez o garoto parar com o dialogo. Ficou cabisbaixo e virou-se para a janela, observando o movimento na rua.

– É da minha mãe.

– O quê?

– O guarda-chuva. É da minha mãe. Perdi o meu e ela me emprestou o dela hoje cedo.

– Nessa idade, você ainda mora com a sua mãe?

– Sim, vivemos sós aqui na Inglaterra. Não tenho pai.

– Ahn, me desculpe… E de onde vocês vieram?

– Egito.

– Puxa, isso é longe. Sou da Inglaterra. Aqui de Londres, para ser mais preciso.

O garoto se distraiu um pouco mais com o movimento de corre-corre que se formava na rua. O homem parecia desconfortável com as perguntas, mas também intrigado com um menino ao seu lado, olhava para o relógio acompanhando os minutos que se passavam, como se realmente algo de imprevisto pudesse ocorrer na pontualidade britânica.

– Qual o seu nome? – o garoto voltou ao interrogatório.

Olhando para frente, na direção do motorista, como se tentasse enxergar algo adiante, o homem fingiu não ouvir a pergunta. E pretendia manter-se assim, não fosse o cutucão insistente daquele jovem.

– Senhor? Eu gostaria de saber seu nome.

– Para quê? Você nem me conhece garoto.

– Não é educado conversar com uma pessoa sem chama-la pelo nome.

– Pois bem – balbuciou – Ismael, meu nome é Ismael.

O garoto boquiaberto empolgou-se (para desespero do desconfortável, agora sabemos, Ismael).

– Não acredito, esse dia deve ser histórico! Esse também é meu nome, eu sou Ismael! E olhe, não achei que houvesse outro em todo o Reino Unido.

– Eu existo.

– Minha mãe… – o pequeno Ismael prosseguiu – minha mãe me deu esse nome quando ainda estava grávida. Eu tive um irmão mais velho que morreu e ele se chamava Isaque. Nossos nomes são uma homenagem a um personagem bíblico chamado Abraão, conhecido como o “pai da fé”. Você conhece?

– Sim, está no Corão.

Ainda entusiasmado, o garoto abriu sua bolsa e mexia lá dentro procurando algo. Pegou um embrulho de papel, que desenrolou com dificuldade e tirou um pão caseiro. Partiu seu lanche ao meio e estendeu o pedaço para seu vizinho de banco.

– Tome Ismael, coma.

– Eu não quero – disse impaciente, agora não tanto com o garoto, mas com o tempo e a localidade do ônibus em que viajava – por que estamos demorando tanto?

– Ah, deixe disso! – o menino já não parecia preocupado com o itinerário do ônibus e tão pouco com a atitude de seu colega – acho que somos as duas únicas pessoas no Reino Unido com esse nome, esse é um momento de celebração.

“Eu não diria isso”, pensou o homem. Mas ele aceitou o pão, partiu, agradeceu e comia seu pedaço quando o garoto, ainda mastigando, mexia na novamente na bolsa e falava sem parar:

– Tenho algo aqui, quero lhe mostrar – e remexia – aqui está. Sabe, certa vez minha mãe escreveu esse caderno para mim e eu o carrego comigo. Aqui ela anotou o significado de meu nome, ops! nosso nome, com a passagem da Bíblia de onde ela o escolheu e me disse que essa era a promessa que Deus tinha para Ismael e que eu deveria crer nisso para mim também.

– Escute, eu não posso… – ele tentava falar e mal percebia algumas migalhas do pão que ficaram presas em seu bigode. Colocou a mão por dentro do casaco e observava a rua, esperando chegar em algum lugar específico.

– Aqui está, toda a história, mas vou selecionar apenas o que Deus diz enquanto sua mãe, Hagar, ainda estava grávida: “Você está grávida e terá um filho, e lhe dará o nome de Ismael, porque o Senhor a ouviu em seu sofrimento”. Depois – ele continuou – já com treze anos de idade, Ismael e a mãe são expulsos da terra onde vivem com Abraão, a pedido de sua esposa Sara. Aí eles andam pelo deserto sem destino e a mãe chega ao ponto de abandonar seu filho por não suportar a possibilidade de vê-lo morrer de sede e fome. Aí então, as Escrituras dizem que Deus ouviu choro do garoto e através de Seu anjo Ele chama Hagar e diz: “O que a aflige, Hagar? Não tenha medo; Deus ouviu o menino chorar, lá onde você o deixou. Levante o menino e tome-o pela mão, porque dele farei um grande povo. Então Deus lhe abriu os olhos, e ela viu uma fonte. Foi até lá, encheu de água a vasilha e deu de beber ao menino”.

Ismael, o homem, ficou quieto novamente. Mas dessa vez, pareceu por um momento esquecer seu atraso e com o olhar fixo no encosto da frente, refletia nas palavras que acabara de ouvir. Mais uma vez, Ismael, o menino, rompe o silêncio, agora falando sozinho, em sua convicção:

– Meu Deus, como gosto disso! “Tome-o pela mão, dele farei um grande povo”…

– Ele viu a mulher, Ele saciou o que tinha sede… ouviu seu choro no deserto… – completou o homem.

O garoto olhou para seu companheiro e desafiou:

– Você tem idéia do que é isso Ismael? – continuou visivelmente deslumbrado (e tanto mais ingênuo) – seremos os primeiros de muitos! Deus falou que Ismael é a origem de um grande e abençoado povo. Quero viver muito, muitos anos, para ver a grandeza de minha própria descendência! E sei que farei minha mãe orgulhosa.

– Sinto muito, eu gostaria de…

– Ismael, veja essas palavras, acho que só você pode entendê-las como eu. Para cada homem existe uma grande promessa de Deus, essa pode ser a nossa. Mas, como vamos descobri-la se não vivermos a realização desse sonho? Precisamos viver, “sonhar e viver”… é o que diz meu pai.

Como quem esperava uma vida inteira para falar tudo isso, os olhos daquele miúdo garoto brilhavam esfuziantes. Os do homem pareciam confusos. Mas, por um instante cruzaram-se em uma cumplicidade incomum, de sonhos que se emaranhavam e intenções controversas, ligadas naquela fagulha de tempo por um simples nome (ou, como deduzia a ingenuidade da meninice, muito mais do que isso, talvez estivessem ali Ismael e Ismael, os dois únicos em todo o Reino Unido).

Ora, mas essa fugaz e pequena brasa foi subitamente apagada pela freada brusca do veículo. Lá fora, perceberam juntos, havia um inesperado engarrafamento. O congestionamento impedia o avanço dos carros e pouco se sabia sobre o motivo do trânsito.

* * *

Eram 9h57 e o ônibus deveria dobrar a esquina seguinte, na Tavistock Square. Havia um movimento estranho na rua, pessoas correndo, sirenes ensurdecedoras, a polícia controlando o tráfego. Definitivamente fora do previsto, haveria atraso em Londres naquela manhã. O motorista e os demais passageiros desceram para ver o que estava acontecendo e souberam em algum comentário que um ônibus explodira há exatos dez minutos, vitima de uma seqüência de atentados, provavelmente terroristas, que também atingiu pouco antes outras três linhas de trem.

No alvoroço, o garoto parecia não perceber a medida daquela barbárie e entretia-se em algum ambiente mais tranqüilo (ou menos confuso) enquanto procurava a companhia de seu novo amigo. Mas, em meio à multidão, já não via sinais de Ismael.

Alguns metros distante dali, no contra-fluxo de todo movimento, quem via do alto podia notar um estranho guarda-chuva florido seguindo intranqüilo pelas ruas cinzentas. Embaixo dele, caminhava ofegante aquele homem, seu bigode e o relógio pontualmente ajustado, dobrando as vielas e olhando a todo momento para os lados. Como quem desejava esconder-se, seguia rapidamente rumo a algum ponto afastado.

Depois de alguns minutos ele avistou a primeira margem do Tamisa. Sozinho à beira do rio ele parou, tirou seu casaco, levantou o suéter que vestia e com certa dificuldade soltou a corrente de dinamites que carregava presa à barriga. Desfez o artefato, garantindo que não apresentasse riscos e o arremessou no rio, abandonando em águas profundas uma bomba, seu ideal de falsidade, a obstinação da guerra e o ódio cego que cobrira todo seu afeto até aquela manhã.

* * *

Ele sentou-se à beira do rio, observava o movimento suave das águas e o mover vagaroso do tempo como se fosse aquele um momento que ele já não veria. E se tivesse feito o que planejara? Aqueles minutos que vivia furtavam a morte para a qual se preparou e esperou. “Que mundo é esse? Mais uma esquina, mais um ponto e eu não o conheceria”. O menino Ismael frustrou os planos do homem com sua atitude, seu pão e seu Deus. “Que deus é esse?”.

Ele levantou sem bater a poeira da roupa, largou sobre o banco o casaco grosso e carregava na mão esquerda apenas o guarda-chuva com seu nylon colorido. Caminhou por mais três quadras, devagar, meio cambaleante e sentindo-se num certo transe.

Dobrou a esquina e viu diante de si, imponente, um dos templos daquele inimigo ocidental que ainda há pouco atacaria.

A BBC informara, as igrejas cristãs abriram as portas para a oração dos crentes e auxílio à população.

“A igreja de Ismael” ele pensou. Entrou, sentou-se em um dos últimos bancos e observou por uns momentos. Depois tomou coragem, ajoelhou-se, ainda reticente, prostrou-se e da única forma que aprendeu até aquele dia, clamou na língua de seu povo e dirigiu sua oração ao Deus desconhecido. Como um garoto faminto, Ismael chorou e chorou, até que abrigou-se finalmente nos braços do Pai que nunca conhecera.

* * *

Soube-se depois pela TV, rádios e internet que houve ao todo quatro explosões em Londres, que deixaram algumas dezenas de mortes e centenas de feridos. O mundo comovia-se em solidariedade.

Mas, talvez nenhuma pessoa, jornal ou noticiário saibam que naqueles minutos devastadores, numa guerra legitimamente “santa” o Amor venceu uma das batalhas porque se fez presente da forma mais singela. E que naquela manhã, ao menos uma bomba não explodiu na capital da Inglaterra. Bombas, planos e ideais podem falhar, o amor não.

Pensando dessa forma, de fato, podemos lamentar e sim, chorar com aqueles que ainda choram. Mas é preciso também continuar cumprindo o papel, sendo e vivendo o mandamento do amor incondicional de Cristo e… enquanto assim acreditarmos, haverão esperanças e seremos sempre um grande povo.

Ah, claro, já me ia esquecendo: “Deus estava com o menino. Ele cresceu, viveu no deserto e tornou-se flecheiro. Viva no deserto de Parã, e sua mãe conseguiu-lhe uma mulher da terra do Egito” (Gênesis 21:20-21).

* * *

E mesmo nós, até cansamos de ler, que na Bíblia de Ismael, o menino, outros tantos relatos se fazem registrados, dentre os quais, alguns conservados para momentos assim como esse.

“Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele” (Marcos 10:14-15).

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa vocês receberão? Até os publicanos fazem isso! E se saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês” (por Jesus, no evangelho de Mateus

O Evangelho do Desencapetamento e uma dúvida cruel

por Luiz Henrique Matos

Uma dúvida me tomou nas últimas semanas e sem ter com quem partilhar – além dos já cansados ouvidos de minha amada e paciente esposa – “arresolvi” trazê-los para esse espaço.

Pois é que, diante dos atentados que aterrorizam o mundo nos últimos anos, leio que alguns estudiosos alertam para o perigo do preconceito por parte do ocidente contra as comunidades árabes ao redor do planeta e principalmente, uma generalização de sentimentos discriminatórios para com os muçulmanos.

Sabe-se que os aderentes dessas seitas e grupos terroristas são uma parte menor no total de 1,5 bilhões de muçulmanos no mundo todo, mas que de toda forma, essa reação global defensiva atinge e dificulta a vida de outros milhares de inocentes que acabam por carregar a culpa sobre as atrocidades de outros. E nesse cenário, o que se recomenda aos líderes religiosos é que se defendam, expondo seu sentimento de repúdio aos ataques, mobilizando suas comunidades e combatendo a pregação criminosa da “jihad” (guerra santa) que motiva os atentados e tornando claro que esses criminosos não representam o verdadeiro sentimento islâmico.

Só a título de curiosidade (e ironia), Alá, a referência dos muçulmanos para Deus (inclusive os terroristas), é traduzida como “O Misericordioso”.

Outro ponto, aqui mais próximo de nosso nariz: na última semana, vivi uma alegria infantil ao ver meu time ser campeão (pela terceira vez, é importante dizer) do principal campeonato de futebol do nosso continente. Mas também tive o desgosto de saber que alguns torcedores, uns poucos diante dos milhares que vestem a camisa tricolor paulistana, agiram como vândalos e destruíram parte do patrimônio público e privado na capital paulista, saqueando lojas e entrando em confronto com a polícia. Mas, como dizer que aqueles irresponsáveis, não representam a totalidade dos entusiasmados torcedores do São Paulo Futebol Clube que sequer pensariam em “comemorar” um título com tal atitude?

Igualmente, no raciocínio (?) de que muçulmanos são terroristas e de que são-paulinos são vândalos, notamos que essa repetitiva veiculação de fatos na mídia, nos leva a outras tantas conclusões generalistas e preconceituosas, como acreditar que políticos são todos corruptos ou que moradores de favela são criminosos. Na mesma visão comum, achamos que os judeus são avarentos, negros são pobres, policiais são excessivamente violentos e os padres estão entre homossexuais e pedófilos.

Há também, já não ia me esquecendo, um sentimento comum e cada dia mais intenso, de que pastores são corruptos, manipuladores e que os cristãos são desonestos, falsários e coniventes com esse “escândalo” que se tornou a igreja protestante no Brasil.

E justamente no cenário que cabe à minha dúvida e a reflexão de meus botões, me assola e incomoda a questão de como são vistos hoje os cristãos em nosso país. Perguntando a uma meia dúzia de colegas, todos estão de acordo senão com todos, ao menos com um dos adjetivos que descrevi no parágrafo acima.

Não sem certa razão, admito, pois assisti há poucos dias um bispo-deputado declarar (com um sorriso nos lábios, também é importante dizer): “Não, a igreja não gosta de doar nada viu. A igreja gosta mais é de receber (o dinheiro)”.

E outra cena ridícula, me permita, foi a faixa pendurada diante de uma igreja em algum lugar desse país, com as seguintes e exatas palavras: “DESENCAPETAMENTO TOTAL. Se você é vítima de: olho gordo, inveja, doenças incuráveis, vícios, dívidas, miséria, solidão, é infeliz no amor, cisma que foi vítima de trabalhos feito na macumba, bruxaria, feitiçaria e nada dá certo. VENHA RECEBER A PRECE VIOLENTA e seja liberto de toda opressão”.

Me escandalizo ao pensar que toda a transformação de vida pela qual passei desde que Cristo faz parte de mim, todo aprendizado deixando por Jesus aos homens, toda construção e fundamento de nossos irmãos na Igreja Primitiva, toda santidade de caráter pregada e desejada na essência do cristianismo, ou seja, tudo o que realmente traduz a nossa fé, está escondido sob uma casca de imoralidade e perversão, que impede as pessoas de verem o verdadeiro plano de Deus por trás do título “Igreja”, que Ele mesmo chamou por “corpo de Cristo”.

Me entristeço ainda mais, por saber que essa “casca” não foi construída por outros, senão por parte da própria instituição que se denomina “Igreja de Cristo” nesses nossos dias. E atrás da instituição estão homens, como eu e você, mascarados, engravatados e devidamente intitulados “crentes”.

Me decepciono ao descobrir que há tempos minha inocência foi perdida. Lembro dos meus primeiros tempos de conversão, quando cheguei a acreditar que todo o que se dizia “cristão” partilhava e vivia as maravilhas que me surpreenderam nas Escrituras. E pensar que estranhei a expressão “primeiro amor” porque julgava que aquele sentimento aquecedor de êxtase não poderia esfriar jamais.

E volto afinal à pergunta que motivou esse pensamento: devemos nos calar? Ficaremos parados ao ver a fé pura e imaculada de Jesus Cristo sendo transvertida em sujo interesse pecaminoso?

Ouvimos muitos desses homens justificar seus atos, martelando versículos e expressões como “submissão à autoridade” e “obediência à liderança”, usando isso como forma de calar seus fiéis-financiadores (ou seriam clientes?).

Mas eles estão errados! Eles não estão pregando o evangelho de Jesus Cristo! Não estão vivendo o mandamento do amor.

Sei e confesso que o que me permeiam são dúvidas, mas sinto-me impelido a pensar que não podemos permitir que criminosos carreguem uma bandeira cristã e com isso, manchem a imagem inocente de milhares e verdadeiros fiéis.

Chego até a alimentar a dúvida de que, veja só, alguns de nós se calam diante da expansão dessas empresas pela satisfação incoerente de “ver o reino crescer” ou pelo orgulho estúpido de sonhar com “uma nação evangélica”. E pergunto ainda: Que reino? Que evangelho? O que de fato cresce nessa ocasião além do saldo bancário desses bandidos? Eles vestem a máscara do cristianismo para justificar seus atos e consequentemente, uma nação de desinformados, manipulados pelo seu discurso de “prosperidade”. Como li há alguns dias em uma charge: “Templo é dinheiro”.

Volto à minha questão: temos que denunciar ou devemos que nos calar e esperar uma “justiça cair do céu”? Vamos virar a banca dos que comercializam ofertas no templo sagrado do nosso Pai? Vamos ser sal e luz nesta terra? Vamos reclamar, como Paulo, contra os que tentam subverter a verdade cristã do amor e da graça? Ou, vamos deixar que a igreja mais uma vez seja esfriada pela mentira, pelas indulgências, pelo interesse vaidoso do homem, pela opressão diabólica?

Pessoalmente, sei que é utopia, ainda prefiro sonhar com o reino do amor e Evangelho que o Senhor Jesus pregou há dois mil anos. Esse sim, arrebanhava multidões, curava os doentes, crescia em paz e preenchia os corações dos homens com aquilo que mais lhe carecem: Deus.

O que acho – mas perdoe-me, posso estar equivocado e sendo levado pelo impulso passional de um filho comovido – é que se continuarmos nesse silêncio, anularemos o futuro do cristianismo e não só perderemos a verdadeira dignidade da Igreja, como também vestiremos a máscara e nos tornaremos coniventes com o… Evangelho do Desencapetamento e sua “prece violenta”.

Em tempo, ainda hoje, dia 18 de julho de 2005, na Inglaterra, 500 líderes religiosos muçulmanos reuniram-se para redigir um “fatwa” (ditame religioso sobre um assunto específico) condenando o suicídio, além de todo ato de violência e terrorismo. Ao que parece, mesmo eles estão mais avançados do que nós.

Ensaio sobre intercessão

por Luiz Henrique Matos

– Nunca pensei em criar minha filha assim, mas se Deus quiser, eu vou vencer.

Depois de alguns minutos, foi essa a frase que me derreteu por dentro e fez com que eu perdesse a concentração na leitura e prestasse atenção àquelas palavras tímidas e rápidas do desconhecido sentado à minha frente. Seu olhar parecia perdido em todo o movimento das pessoas e no pequeno espaço do vagão de trem, mas parecia encontrar um refúgio quando olhava para a menina de 7 ou 8 anos brincando do seu lado, alheia a tudo o que lhe acontecia e à sua preocupação desabafada. E era nessas horas que ele soltava sem querer um sorriso feliz, que parecia meio engasgado no meio de tanta preocupação.

Dos poucos e confusos instantes em que estive com Evaldo (seu nome foi a última coisa que descobri), saí pensando na lição de vida que tinha acabado de receber e no que eu poderia escrever sobre sua história. Mas aí percebi que não valia a pena lição ou texto algum, eu precisava mesmo era cumprir a promessa envergonhada que fiz àquele homem assim que ouvi as palavras que você leu no travessão do primeiro parágrafo:

– Vou orar por vocês – entenda, é uma tremenda ousadia falar um negócio desses para um estranho.

“Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos, de acordo com a vontade de Deus” (Romanos 8:26-27).

Mas existe algo um pouco inquietante nesse compromisso: será que isso realmente poderá mudar alguma coisa? O fato de eu pedir algo à Deus em favor daquele homem e sua filha poderá mudar sua preocupação e fazer com que consiga educa-la da forma “vitoriosa” como sonha? Que valor afinal pode ter a dedicação, por alguns minutos, da minha intercessão?

Honestamente, eu não sei. E imagino que ninguém realmente compreenda o quanto isso representa na esfera espiritual em seus efeitos. Mas, podemos ver os bons frutos colhidos quando oramos por um propósito, conseguimos experimentar o melhor da vida através de uma prática regular de oração. E muito, acredito, porque vemos o próprio Deus agindo dessa forma, preocupando-se com as pessoas e agindo em favor delas muito mais do que com sua satisfação pessoal.

Além disso, há um outro fato. Quando intercedemos nos tornamos também um pouco mais parecidos com o Senhor, refletindo uma porção daquilo que Ele fez por nós na cruz, no pedido pela vinda do Espírito Santo e pelo que ainda faz na eternidade quando sabemos que: “Foi Cristo Jesus que morreu; e mais, que ressuscitou e está à direita de Deus, e também intercede por nós” (Romanos 8:34).

E o que é afinal o cristianismo senão o amor, sincero e simples, dedicado a Deus e ao próximo?

Me pergunto então como vou resistir à necessidade de um irmão, privilegiando meu egoísmo, quando depois da minha afirmação envergonhada, vejo Evaldo com seu sorriso preso, o carinho pela filha, seus olhos em minha direção e ouço sua resposta, ainda tímida e rápida:

– Amém… por favor, ore por nós sim.

O eterno e o passageiro

por Luiz Henrique Matos

Vi agora há pouco um senhor, daqueles bem senhorezinhos mesmo. Já idoso, andava com certa dificuldade, meio curvado, mancando, ajudado por uma bengala em uma das mãos e o casaco grosso de lã apoiado sobre o outro braço dobrado. Embaixo da boina, seu rosto tinha a pele um tanto manchada pelos anos e tanto mais enrugada pelos efeitos da gravidade. Seguíamos nós dois, na plataforma de uma estação de trem, rumo a um ponto comum: a escada de seus trinta e poucos degraus que nos levaria à rua.

Sinto uma compaixão irresistível e desconfortável por idosos que me faz ser gentil de uma forma que normalmente não o sou. Acelerei o passo, cheguei mais perto e ofereci ajuda em sua aventura: “O senhor quer ajuda?”, perguntei. Mas ele não ouviu e ficou me encarando com olhar sério, esperando que eu dissesse algo. Repeti, agora em tom mais alto: “O senhor quer ajuda? Para subir…”, disse apontando para a escada. Então ele ouviu e para minha surpresa respondeu: “Não, pode subir. Eu vou aqui, devagar”.

Subi sozinho, me sentindo apenas metade-escoteiro, vendo frustrada a minha tentativa de boa ação. Mal deu tempo de me concentrar em outra coisa e um pensamento me tomou de assalto: “Um dia eu vou ficar assim”. E aquilo me incomodou.

Incomodou-me não o desgaste natural do tempo sobre o corpo, saber que ao passar dos anos minhas orelhas ficarão mais longas, o nariz mais pontudo e as bochechas caidonas (pelo menos em mim, penso que vai ser assim). Acho até que a idade traz consigo a experiência de uma longa vida e no meu caso, trarão também as aventuras que sei que vou viver, como viajar ao redor do mundo de balão e navio, enfrentar uma viagem ao espaço com escala em algum planeta bacana da via-láctea, ou simplesmente ler histórias infantis para os meus netos sentado na varanda de um sítio.

Fiquei intrigado sim, mas foi com a certeza de que vi naquele homem a lucidez de uma vida plena, que apesar de sua mente ainda ser a mesma de outrora, seu velho corpo já não corresponde ao ritmo com que decidiu viver. Uma mente madura em um corpo passado. A briga de uma lado da vida que cresce até onde ela própria dura, contra outro que se deteriora ao longo dos anos.

E aquele mesmo assalto de raciocínio, leva também à pergunta: “O que vale mais, o passageiro ou o eterno?”.

Assim também, abruptamente, o pensamento cai noutra questão, que não mais sobre a vida terrena, mas agora sobre a eterna: “O que é importante afinal, a Corpo ou o Espírito?”.

E daí afinal, ao fato que nos confronta: todo pecado sobre o qual somos tentados, todo prazer estritamente carnal, alimenta um desejo passageiro e limitado. O corpo, com todos os seus luxos, esvai pelo ralo com o tempo e um dia voltará ao que fora antes: pó. E isso, é tempo que não volta mais, é – como diria Salomão – vaidade, é correr atrás do vento.

Mas, quanto ao espírito, alimentá-lo produz um fruto sempre maduro e saboroso. Ao dedicarmos tempo ao amadurecimento espiritual, plantamos para uma longa e duradoura ceara. Quando investimos na eternidade, colhemos a sabedoria de Deus.

Nessa batalha entre espírito e carne, de certo – como aprendi com um pastor – será mais forte o que estiver mais alimentado.

Sim, também é fato, o corpo vai ficando cansado, as costas começam a curvar, o casaco grosso com a boina já serão parte do nosso cenário e as escadas parecerão cada vez mais íngremes e desafiadoras. Mas, enquanto houver forças, enquanto o espírito for vigoroso e puder ser amadurecido, poderemos responder com serenidade aos convites fugazes que a vida nos faz: “Pode ir. Eu vou aqui, devagar”. E assim nós chegamos lá, não mais voltando ao pó, mas na glória eterna, como realmente importa.

Perucas imperiais

por Luiz Henrique Matos

“A religião está no coração, não nos joelhos” (Jerold Douglas William).

Há poucos dias li uma notícia que me deixou intrigado. Na verdade, eu já era intrigado pelo tema da história em si e as lembranças que me traziam. E por mais bizarro que pareça, acho que merece ser mencionado. Eu não sabia e talvez você também não, mas descobri a origem daquelas perucas brancas e compridas que os nobres usaram por tanto tempo no passado.

Ei-la: Aconteceu que o Rei Luís alguma-coisa-em-números-romanos (desculpe, não lembro qual foi), muito vaidoso, notou que estava ficando calvo. Ordenou então a alguns de seus súditos que lhe providenciassem uma peruca para cobrir a falha e, feito isso, passou a usa-la. Sua corte, notando a diferença e sendo então muito bajuladora, viu no visual do rei uma forma de agrada-lo e gradativamente adotou também as perucas. Com tal gesto, em pouco tempo, o ornamento era utilizado em toda a França.

Mas não bastasse, eis que passado algum tempo, uma comitiva inglesa visitou o reino francês e vendo ali que o uso da tal peruca era bastante difundido entre os nobres, importou o costume para os bretões que também o adotaram na Inglaterra.

Estupidez pura, você há de concordar. E parando muito pouco para pensar, não parece tão diferente do que acontece ainda hoje, temporada após temporada, nos desfiles das novas coleções e vitrines badaladas da moda.

Honestamente, não gasto muito do meu tempo pensando a respeito, prefiro acreditar que essa questão faz parte de nós, homens e nossas esquisitices. Também não me preocupo com os modismos de hoje ou outrora, mas preciso dizer porém, que quando esses gestos vagos e temporais transformam-se em costumes, ficamos a um pequeno passo de uma grave conseqüência na história humana: as tradições. Ou pior, as tradições sem fundamento.

A igreja é muito boa nessa (penosa) arte e ostenta ainda hoje suas “perucas francesas”. Foram costumes de determinada época ou cultura que, incorporados na doutrina de um ou outro grupo, transformaram-se em tradições religiosas que acabaram por caracterizar ainda hoje certas comunidades.

Mas o pior realmente aconteceu quando deixaram de ser apenas algumas sutis características e tornaram-se um fator crucial de exclusão no meio desses grupos.

O curioso – e triste – é que repetimos um erro que já vimos exaustivamente antes, refletido nos judeus retratados nos Evangelhos. Na ocasião, os fariseus por exemplo, acreditavam na lei transmitida oralmente, geração após geração, tanto quanto acreditavam na lei mosaica deixada nos rolos. Presos às próprias tradições, não puderam notar a transformação do mundo com a vinda do Messias que tanto esperavam (e ainda hoje esperam).

As denominações cristãs estão cheias, todas elas, de tradições e hábitos que tornam o homem cada vez mais preso às próprias leis e da mesma forma, mais distante da verdade única na plenitude de Deus.

Não cabe aqui (e nem a mim) uma exposição detalhada do que vem ou não a ser esses hábitos, quem os pratica ou como o fazem. O objetivo é, juntos, refletirmos sobre as Escrituras, o contexto dos livros, a base histórica e a realidade por trás de cada texto. E a partir disso, viver a verdade na essência do que ela representa.

Jesus veio ao mundo e durante seu ministério contextualizou sua pregação de acordo com as necessidades do povo naquela época. Os mesmos rolos que os judeus liam e veneravam ao “pé da letra”, foram interpretados por Jesus de forma que todos compreendiam – e diziam ainda que Ele falava “com autoridade”.

Outro bom exemplo são as parábolas que Ele contava. Através delas, Jesus explicava o Reino de Deus ao povo em uma linguagem simples e por meio de situações muito práticas.

Acredito que podemos (e devemos, de fato) fazer o mesmo. Ler a Bíblia para compreende-la em sua essência e significado, viver a vida que Deus pede que tenhamos, praticar o amor verdadeiro. E não nos perder em costumes e interpretações vãs ou interesseiras.

Vivemos complicações demais, o Evangelho é simples.

Existem diversos textos na Bíblia onde lemos exemplos de tradições e costumes humanos que foram quebrados por Davi, Jesus ou Paulo e poderíamos ler alguns deles aqui. Mas isso, imagino, cabe melhor na reflexão particular de cada um, tendo o coração como habitação do Espírito Santo e obtendo Sua doce revelação.

E por falar em coração, é sobre ele mesmo que poderíamos sim tratar e concluir com o princípio do que devemos dedicar tempo e manter como “santa tradição” através das gerações.

Essa tradição que afinal, poderia ser vivida e perpetuada para que um dia todos a pratiquem como algo presente em sua conduta e que, de tão comum, seja uma bela “peruca” ornamentando nosso caráter:

“Ame a Deus acima de todas as coisas e ao seu próximo como a si mesmo” (Jesus Cristo).

Um novo reino

por Luiz Henrique Matos

Relatos desse mesmo dia, em algum lugar de uma época…

Essa noite trovoou lá fora, ouvi os estrondos e as águas correntes da chuva despencando do céu. Escutei os brados da guarda marchando pelas ruas, ouvi as velhas ameaças do mal em seus movimentos, as injúrias opressoras contra um inimigo silencioso que não se podia distinguir pelo som e que chegava inesperadamente tomando as ruas com sua presença pacífica.

E dizem os poucos que viram que o que era a ordem vigente, passou de repente a mudar seu posto. As armas foram todas ao chão, os soldados mudaram de lado. E o que era escuro foi então clareando. Onde estavam as sombras houve a luz. E com o cair da noite, fez-se o dia reluzente.

Ao cantar do galo, todos se levantaram, as ruas foram cheias do perfume do café com pão fresco que saía das casas, as gotas de orvalho eram vistas sobre as plantas, o cheiro da chuva que caiu na terra ainda impregnava o ar e aos poucos os primeiros trabalhadores saíam para o trabalho.

Mas apesar da rotina aparentemente inalterada, todos sabiam da mudança. Sim, havia a certeza de que algo estava diferente. E no íntimo, sem qualquer anúncio público, souberam da presença de um novo rei que tomara o poder naquelas horas de trovões.

E foi assim, silencioso e de assalto, que nasceu o dia da grande conquista, este foi o dia em que o AMOR assentou-se em seu trono sobre a terra.

* * *

Mas ainda que incólume sobre a vida de seu povo, nas entranhas e estruturas da sociedade, grandes reformas foram implementadas. Em instantes, viu-se como nunca em toda a história, a transformação do mundo.

E esse é o dia em que a arrogância declina à humildade e toda guerra nos continentes finda em plena paz. As tempestades foram acalmadas, o frio amenizado e os que eram pobres naquelas ruas já sentem-se supridos pelo calor e sustento de seu novo rei.

Do seu trono, o amor não observa alheio, ele desce para estar entre o povo. Sua glória, afinal, é percebida e todos são tocados pela sua presença.

“Quão nobre e bom é o nosso rei!” – diz o povo em cada esquina.

O povo está alegre e há festa, com música e dança na corte. Os servos celebram não mais pela opressão de um tirano, mas agora pela liberdade extraordinária e também a certeza do que não se vê, mas sabe-se, ah como sabe-se, que está entre eles.

“Que reine eternamente o amor!” – proclamam pelas praças e em suas casas.

Nessas praças, a corrupção se exauriu e cresce a honra. O roubo desapareceu e se faz vistosa a honestidade, a miséria enfraqueceu e farta está tornando-se a prosperidade, que agora é de todos e não de apenas uns.

Nas casas, pais, mães e filhos crescem na unidade, verdade e na partilha. Prosperam como o mundo todo agora o faz. Em sua mesa há paz, em seus leitos carinho. A família é uma só. E o amor está entre eles.

Eu, de minha pequenez, junto-me a todos e me dobro diante do amor. Sinto todo o meu vazio ser preenchido e minha vida é renovada nessa fonte.

“Que rei é esse?” – perguntam-se todos – “Anda entre nós, nos traz para perto de si” – certamente em nada se parece com os que o precederam no governo.

Um rei sem erros, mágoas ou ciúmes. Um rei bondoso, puro, paciente e eterno. E que somente por si e seu povo, tudo suportou, tudo sofreu, tudo esperou para que chegasse este dia, em que os vê face a face.

E por cada alameda ou fresta deste mundo novo, o amor fez-se governante, não mais com guerras, batalhas, políticas ou negociatas obscuras. O amor não arromba, não mata, não toma. Ele conquista.

Tão próximo de cada um de nós, o vemos refletido uns nos outros, na face da alegria, da esperança, da misericórdia e na verdade.

Os jornais anunciam que foram abertas as cadeias, porque já não existem mais ladrões. Aos ventos ouve-se o novo anúncio: “Acabou a religião!”.

Foi destituída a igreja dos homens, porque agora já não há doutrina, tão pouco normas, divisões, diferenças ou denominações. As instituições deixam de existir, todos os povos vivem em comunhão e nós, homens, nos sentimos parte de uma mesma família.

Hoje todos conhecem e vivem a verdade única, afirmação de posse do novo rei, conduta de vida nesta terra que se renova e gravada para a eternidade: “O reino do amor é construído no coração do homem. E ali o nosso senhor edifica sua morada”.

E ao fundo, ouve-se a voz de um de seus filhos, o profeta. Sua declaração encontra descanso na alma de todo o povo e testifica para a eternidade:

“Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 João 4:8).

* * *

“As doze portas eram doze pérolas, cada porta feita de uma única pérola. A rua principal da cidade era de ouro puro, como vidro transparente. Não vi templo algum na cidade, pois o Senhor Deus Todo-poderoso e o Cordeiro são o seu templo. A cidade não precisa de sol nem de lua para brilharem sobre ela, pois a glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é a sua candeia. As nações andarão em sua luz, e os reis da terra lhe trarão a sua glória. Suas portas jamais se fecharão de dia, pois ali não haverá noite. A glória e a honra das nações lhe serão trazidas” (Apocalipse 21:26).

Teologia Rocky Balboa

por Luiz Henrique Matos

As histórias, todas as cinco de toda a série, são mais ou menos assim:

Rocky Balboa, o grande campeão de boxe, está tranqüilo em sua casa, ao lado da família, quando vê sua posição de melhor lutador do mundo questionada por algum atleta proeminente e arrogante. Rocky titubeia, entra em conflito com os próprios princípios e com a esposa, mas ele sabe, precisa aceitar o desafio, é sua honra (e sempre uma causa maior) sendo posta em prova. Então se prepara, treina, treina muito, levanta carroças, percorre a cidade, sobe uma escadaria, passa noites em claro, espreme uma bolinha de borracha e tem o apoio de sua sempre fiel equipe.

Passam-se os dias e lá pelo meio do filme, chega o momento da grande luta. As duas potências no ringue, Rocky sempre simpático, ao contrario de seu adversário hostil, ambos com aqueles roupões coloridos. O início da luta é equilibrado, mas ao longo do primeiro round nosso herói começa a apanhar. E assim seguem sucessivamente os rounds, com Rocky apanhando um gongo após o outro. Sua esposa, na primeira fila está desesperada, a torcida temerosa, a equipe permanece confiante, mas também preocupada. Rocky já não golpeia com a mesma agilidade, ele apanha muito enquanto seu inimigo parece uma muralha intransponível.

O rosto dele está deformado, aquele protetor de boca já não sustenta mais nada, o telespectador atrás da televisão aguarda ansioso por uma reviravolta. E então, perto do décimo assalto, Rocky quase cego vê uma saída. E ele se levanta para sua glória. Em poucos segundos reverte o resultado que já perdura horas. Rocky começa a reagir, acerta seus diretos, “jabs”, cruzados e incrivelmente o adversário cambaleia. E assim, em instantes mágicos, ele golpeia e derruba a muralha, que no chão ouve o juiz contar os dez segundos derradeiros até a declaração consumadora: “E o vencedor é… Roooockyyy Balbooooaaa!”

E no meio do ringue, cambaleando, cego, deformado e muito suado, Rocky é cercado pela multidão que invade o lugar, enquanto isso, cresce o som da trilha musical e ele grita o nome da esposa aos quatro cantos, até que ela chega, eles se abraçam e tudo se faz perfeito. Depois de sofrer um bocado, ele tem sua realização, mantém seu titulo, vive a sua glória. E do lado de cá da TV, um garoto admirado sonha em ser boxeador.

E melhor do que assistir ao desempenho histórico do lutador, era poder incorporar e viver o personagem. Com alguns amigos, eu via o filme, vestia alguma roupa esportiva e seguia então pela rua a correr, dar soquinhos no ar e acreditar que apesar de gordinho, eu era o próprio Garanhão Italiano ilustrado naquela tela.

Mas excluindo dessa história a minha aspiração esportiva – que definitivamente não vem ao caso – gostaria de esclarecer os sábios ensinamentos teológicos deixados por essa história nada clássica.

Dentro e fora das telas, podemos acompanhar os milhares de lutadores em nossos dias. Alguns arriscam-se nos ringues esportivos, tentando a carreira e o sucesso pela força bruta. Mas não é desses que vamos tratar. O exemplo que cabe nesse pequeno enredo diz respeito a outros tantos lutadores que estão por essa vida, dando seus socos, tomando alguns, cambaleando e sofrendo…

É a teologia da luta, cujo soar do gongo, admito, me cansa ouvir ser entoado. É a pressão de alguns sobre o povo entoando o sinal da batalha, dizendo que é necessário, passar pelo sofrimento para se obter a vitória. É a exigência de que se carregue um fardo pesado sobre as costas para no fim, só no fim, poder sentir o alivio de que essa vida valeu a pena.

A penitência, o castigo, a disciplina. Só acreditamos que o alvo de nossa busca realmente tem valor, quando para chegar a ele passamos pela tormenta da provação. E então, aí sim, somos merecedores dessa conquista. Afinal – é o que se diz –, para tudo existe um preço, não é mesmo?

Mas, permita-me a pergunta, por quê?

Pois sim, existe um preço, existe também um sacrifício e sofrimento muito altos. Mas sobre essa quantia não nos fora dada a medida. Não tivemos acesso ao valor, apenas soubemos que ele existiu. E o que muitos de nós já ouviu e talvez ainda não compreenda é que o valor já foi pago.

Há dois mil e tantos anos, esticado em uma cruz, Deus negociou a vida de seu Filho para que você e eu já não tivéssemos que pagar essa dívida.

Com sua morte e ressurreição, Jesus venceu o inimigo e nos presenteou com o cinturão da verdade única e suficiente: em Cristo fomos salvos. E a partir desse fato, sabemos que temos nele, o suprimento e vida necessários, para toda a eternidade.

Não, eu não estou ignorando as circunstâncias e dificuldades que enfrentamos ao longo de nossa jornada. Também não estou a fazer descaso das tribulações pelas quais passamos. Elas são duras, realmente. E quanto a isso fomos avisados de que passaríamos. Do que trato aqui – e disso não tenho como me ausentar – envolve algo maior: a vida inteira de cada um de nós e o destino eterno que recebemos pela graça.

Do que você precisa? Seja o que for, está em Jesus Cristo. E é nele que devemos buscar. Já não são necessárias lutas, desafios e tão pouco precisamos apanhar por dez ou onze rounds até a reviravolta de nossa conquista. Na verdade, quanto a isso, já nem precisamos lutar.

O grande desafio contra o qual lutamos está em nós mesmos e esse sim merece nosso esforço. Lutamos contra o pecado e lutamos para crer. Mas isso é pano para outra manga e não cabe nessas linhas.

Mas se é em batalhas e assaltos que você tem vivido, acreditando que tem de pagar hoje para gozar a paz vindoura, tenho então algo a lhe dizer, antes que ouça outro soar do gongo. Algo que pela força da ficção, os gritos da multidão e os apelos de Hollywood, Rocky Balboa não pôde ouvir.

Eis a boa nova: Jesus já sofreu e, na cruz, venceu a grande batalha. Você é livre. E este é um fato, basta que aceite.

Pequenos grandes heróis

por Luiz Henrique Matos

Você já reparou na imagem ou figura de um grupo de soldados? Aqueles homens armados e equipados parecem autoridades capazes para qualquer batalha. Tente lembrar também das cenas dos filmes de guerra, com batalhões marchando em direção aos campos, uma fila linear com milhares desses heróis seguindo em um bloco de poder, representando alguma nação ou um ideal – que não são necessariamente os seus.

Hoje mesmo, agora há pouco, eu vi um soldado. E apesar de estar em uma estação de trem e não no Iraque, à distância notei as mesmas características da brava autoridade heróica, do guerreiro imponente. Mas a medida que nos aproximávamos, eu podia ver seu rosto e, meu Deus, era só um garoto! Tinha seus 18 anos e a feição de 15. Dentro daquela armadura verde estava um menino. Na cabeça coberta pela boina, habitam sonhos juvenis, preocupações simplistas, o placar do jogo de ontem, a tarefa da aula de amanhã.

E pensando em garotos, eu me lembrei então de Davi. Ele próprio ainda um menino nas primeiras vezes em que aparece citado nas Escrituras. O futuro rei de Israel era franzino e simples, vivia a pastorear ovelhas e tocar sua música, em nada parecia um guerreiro. E quando então é desafiado para seu primeiro combate, é tão magro e pequeno que a armadura oferecida pelo rei é pesada demais e o impede de andar. Ele livrou-se então do peso, empunhou seu alforje e acertou uma, leia bem, apenas uma pedrada certeira na testa do gigante Golias. Assim derrubou seu oponente, e a partir daí começa a narrativa sobre como então tornou-se um guerreiro, assumiu um trono e formou um grande reino. Mas continuou poeta, homem e amigo de Deus.

Pensando também sobre amigos de Deus, lembrei-me daqueles que estiveram pessoalmente com o próprio: seus discípulos. Eles viveram e caminharam ao lado de Jesus durante o tempo em que viveu nesta terra e receberam dele a incumbência de estabelecer e difundir o Reino dos Céus. Experimentaram provações, realizaram milagres, batalharam pela fé e morreram como mártires por amor a Cristo. A iniciativa e a pregação desses heróis permanecem vivas até hoje. Mas também esses, eram pessoas comuns, com suas dúvidas transparentes, um coração dividido e famílias para sustentar. Tinham fome, medo, dores e fraquezas. Em outros tempos, anos mais tarde, a igreja romana os declarou “santos”, mas isso não mudou sua essência: em vida, foram todos homens.

Os títulos que receberam, colocaram esses homens em pedestais de honra, que os afastam da nossa realidade humana. Assim, passam a ser ícones e não mais exemplos. E talvez tenhamos nos esquecido de que livros como Reis, os Evangelhos e Atos dos Apóstolos não são ficção, mas relatos históricos reais de fatos que ocorreram há alguns séculos.

Precisamos enxergar além das máscaras para contemplar essa verdade. E a verdade é que, despidos de armaduras e mantos reais, somos todos iguais, reis e plebeus.

Lembre-se que alguém como você foi escolhido o governante de Israel. Um homem com suas mesmas dificuldades e defeitos, foi escolhido para ajudar a implantar a Igreja de Cristo neste mundo. O soldado imponente marchando para a batalha, é um garoto com as mesmas dúvidas e sonhos que lhe sondam. Você se sente capaz? Pois nenhum deles se sentia.

Nada ou ninguém é pequeno demais para ser subestimado ou tão grande que não possa ser vencido. Isso vale para coisas e para homens.

Por isso, sim, podemos vencer. Não por mérito ou capacidade, mas por um outro feito, ainda maior, heróico e esse sim, infalível… E bem, chego finalmente ao sentido fundamental e conclusivo dessa mensagem. Mas, por outra vez, gostaria de convida-lo a observar um homem. Não qualquer homem, mas o Jesus homem, o Deus menino que se perdeu da família, o Messias que pediu um pouco d’água para matar a sede, o Mestre que cochilou no barco porque teve sono, o Filho de Deus que sentou-se à mesa para comer com os amigos e o Cristo que abaixou-se para rabiscar na areia e se concentrar.

Veja que muitos dos gestos sobrenaturais de Jesus eram precedidos por atitudes comuns, banais até. E observar sua humanidade nos ajuda e enxergar o modelo de homem que devemos e podemos ser. Ele sofreu e venceu, em cada situação, para nos mostrar que sim, podemos levantar a cabeça e ver a luz no fim da escuridão. Jesus é nosso padrão de comportamento. Ele fez tudo isso para soubéssemos que é possível. Você já viu um Deus assim?

“Portanto, visto que temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda firmeza à fé que professamos, pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim sendo, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade” (Hebreus 4:14-16).

Se, como nós, Ele veio e passou por dores e dificuldades. Assim também, como Ele, nós podemos ser vitoriosos em cada uma delas.

E meu amigo, se chegamos até aqui é porque você tem me permitido escrever-lhe. E nesse ponto, gostaria de convida-lo para uma nova leitura dos Evangelhos, permitindo que as palavras de Jesus Cristo cheguem ao seu coração como a de um homem, que deixou sua posição de Deus para ser como você, sentir como você, sofrer como você e afinal te mostrar que fez tudo isso justamente por você.

Saudades de quando…

por Luiz Henrique Matos

Estou com saudades de um tempo que talvez eu nem tenha vivido. Um tempo menos complexo, mais devagar. Um tempo onde o amor bastava. O puro e simples amor.

Eram dias em que Jesus estava entre nós. Mas não, eu não falo do primeiro século, falo de duas décadas atrás, talvez dois meses ou duas semanas até. Tenho saudades de pequenos instantes onde olhamos uns nos olhos dos outros e vemos a figura expressa do Senhor em nosso meio.

Estou sentindo falta desse amor. O amor dos dias em que somos inocentes, quando não há competições, tecnologias ou avanços. Quando a economia é indiferente, a política inexistente e a justiça desnecessária. São aqueles momentos simples, em profundo silêncio mas cheios de significado, que produzem por si só uma marca em nossa própria história, porque sentimos Deus gravando-os em nosso coração.

Existe em mim um vazio a ser ocupado por algo que não está nos significados, livros ou dicionários. Um espaço que precisa ser preenchido pela presença da essência, da amizade pura, do riso espontâneo, da lágrima compreensiva.

Tenho saudades dos irmãos que não conheço. Nem mesmo sei onde vivem, mas sei que em algum lugar desta terra, membros de minha família, filhos do meu Pai, oram por seus povos, passam por necessidade, comemoram grandes vitórias. Gostaria que eles sentissem meu abraço.

Sinto falta de orar sem pedir nada. Desejo mais a presença vibrante de pessoas apaixonadas por Jesus, não pelo que Ele pode proporcionar, pela sensação milagrosa ou “extravagante” de sua presença, mas pelo puro e simples prazer de partilhar esse milagre vivo dentro de si e declara-lo Deus.

Gostaria de viver novamente os tempos em que éramos simplesmente um Corpo, movido pela complexidade do milagre divino, mas existindo apenas pelo leve sopro do Espírito. Sem mãos tradicionais, lábios pentecostais ou pernas romanas. Éramos apenas cristãos.

Tenho saudades de Antioquia. E mais uma vez, não falo de tempo ou época, mas do sentimento que motivou aqueles homens estranhos a olharem para os discípulos de Cristo e os apelidarem “cristãos”.

Quero ter essa semelhança. Mas não sozinho. Quero ser “cristão” com o próprio Jesus, com você, com todos os que se dizem povo do bom Deus e também com os que não se dizem. Pois sinto falta de ama-los também.

E antes que me perguntem eu digo: não, não estou sendo bucólico, utópico ou sonhador. Pensando bem, sonhador sim. Estou sonhando com uma verdade que, ultimamente, mais ouço do que vejo, que mais leio do que pratico. A verdade de Jesus Cristo com sua simplicidade, paz, sua luz: o amor.

E também sinto falta desses sonhos e eu sei que não são só meus. São, em princípio, sonhos de meu Pai (e como é bom poder chama-lo assim). E o que é o homem senão um sonho realizado à semelhança do sonhador? E o que é Deus senão o próprio amor? Criação e Criador, filho e Pai, amigos.

Tenho saudades de ser amigo de Deus. Caminhar ao seu lado no entardecer, cantar com Ele as boas músicas, ouvir sua voz e seus planos, mesmo sem compreende-los e ver a transparência de um relacionamento puro. Tenho saudade profunda e um desejo ardente de viver mais e mais a presença de nosso Deus em todos nós, seu Espírito sendo semeado e seus frutos sendo colhidos, somente para sua honra.

Deus: amor simples e eterno.

Sim, eu sei e confesso, certamente estou sonhando. Mas sonho porque já vi e, em Cristo, só em Cristo, sei que isso é possível.

Amém.